domingo, 28 de junho de 2020

Junho Nostálgico

O tempo vai correndo e mais uma semana termina sem que a pandemia dê a trégua que todos desejam. Esta que hoje termina deixa, certamente, sabor diferente das antecedentes pelo clima nostálgico que imprimiu, aqui nas bandas do nordeste. Junho vai acabando e levando, sem festejos, um tempo irrecuperável dos tradicionais folguedos em homenagens aos santos Antônio, João e Pedro. A crise sanitária impediu que acendêssemos nossas fogueiras, espocássemos nossos fogos e soltássemos nossos balões como dantes sempre fizemos.
Viva São João - Nordeste 
Se não festejamos devido ao cansativo e necessário afastamento social imposto pela Covid-19, restaram-nos as lembranças dos tempos passados e, nessas circunstancias, a oportunidade de avaliarmos e melhor valorizarmos algo cultural que imaginávamos nunca cessar. Coisas da vida e da história que segue.   
Sempre fui muito ligado às tradições culturais e fiz questão de comemorar ao tempo e a cada hora. Carnaval, páscoa, natal e os festejos juninos. Estes com direito às manifestações tradicionais trazidas pelos portugueses e adaptadas aos trópicos com fogueiras, danças da quadrilha e comidas da época. Acrescidas com o passar dos tempos de xaxados, baião e forrós. Coisa que trago da infância e do seio familiar. Lembro que a cozinha da minha casa, na véspera do dia de São João, era invadida pela cor e o aroma das  reluzentes espigas de milho tiradas das palhas e transformadas em cangicas (curau da região sudeste), pamonhas, cozidos simplesmente e do inesquecível bolo de milho verde, receita de família, que compunham a mesa das noites de folguedos. Ainda sou capaz de sentir a sensação e os aromas desses sabores produzidos sob a batuta da minha mãe. Outra coisa inesquecível era a antecipada compra de fogos, providenciada pelo meu pai e mantido, num grande pacote, por dias, sobre o guarda-roupa no quarto dele e da minha mãe. Era um clima de verdadeiro frisson para mim e meus irmãos que admirávamos curiosos aquele volume de onde sairiam luzes e “explosões” na grande noite. Naturalmente que uma fogueira, precisamente diante da porta de entrada da casa, era acessa às 6 da noite para dar sorte e animar a todos. Belas noites juninas que foram se perdendo, como fumaças das lenhas queimadas, com a transformação do Recife na Metrópole de hoje.
Com o avanço do progresso, na cidade grande, fomos tangidos para o interior e é por lá que tentamos repetir as noites do passado. Mas, nem isto neste ano de pandemia. O mundo parou e se fez silêncio nas noites de junho deste ano. O Nordeste mergulhou num retiro inesperado e sem precedentes. Não houve fogueiras nem fogos. Ninguém dançou a tradicional quadrilha. Tempo estranho. 
Tomando uma taça de vinho, esses dias, pus-me a lembrar de que, no passado, fui um exímio mestre de quadrilhas. Gritei (era assim que se denominava o comando da dança) muitas dessas. Houve um ano em que fui mobilizado para gritar seis quadrilhas, entre os dias 13 (Santo Antônio) e 28 (São Pedro). Terminei sem voz por dias porque a coisa era na base do grito, mesmo. Não havia as facilidades de equipamentos de som como nos dias de hoje. Éramos felizes e nunca imaginamos viver um tempo de pandemia, sem fogueira e sem balões. Sem chuveiro de prata, sem “peidos-de-veia” e “bichas-de-rodeio”.  Sem estrelinhas. E sem busca-pé! Lembrei ainda que, anos recentes, comemorei os períodos juninos nos nossos interiores: com a família em Fazenda Nova, Bonito e no meu tranquilo refúgio de Gravatá. 
Entre os Bonecos Gigantes de Braga (Portugal)
 
A exceção foi, há dois anos, que tive a curiosidade de conhecer de perto as famosas festas de São João no norte de Portugal. Fui com minha família. Por incrível que pareça, ao contrário do Brasil, os festejos portugueses é quase um carnaval. Escolhemos a cidade de Braga que se enfeita de modo feérico num verdadeiro festival de luzes e cores. Bandas de rock se espalham pela cidade num festival de músicas internacionais, inclusive muitos sucessos brasileiros. Desfiles de grupos, inclusive um de bonecos gigantes! Lembrei-me de Olinda! As pessoas se entregam a noitadas de vinhos, sardinhas na brasa e goles de licor de ginja. A ginja é uma frutinha típica similar a uma cereja. Muito popular em Portugal. E tem bacalhau, claro. Tem também uma grande queima de fogos, a meia-noite, que se assemelha a uma noite de réveillon. Sinceramente, sai surpreso.  Não diria haver sido uma experiência boa. Mas, valeu já que sou da opinião de que na vida há de se conferir de tudo e aproveitar.
Fazendo uma comparação, ainda prefiro nosso estilo. 
Na verdade, apesar das inovações que se observam nas danças modernas de quadrilha, com uniformizadas fantasias, mantivemos boa parte da tradicional cultura. E Viva São João. Ainda que num ambiente nostálgico.
      
NOTA: Foto colhida no Google Imagens e do Arquivo pessoal. 
       

domingo, 21 de junho de 2020

Dores da Democracia?

O Coronavírus não deixa o país em paz e a politicagem corre em paralelo para perturbar a vida da Nação que, sem um rumo desejado, se desdobra em administrar os perrengues que se multiplicam a cada dia. Para os analistas políticos (que não é o meu caso) não existe tédio porque a máquina de moer episódios inusitados não para. Já aos que perdem entes queridos resta a revolta e para os que se resguardam o crescente medo de ser contaminado. Triste quadro.
Lembro da época, não muito distante, na qual comparei o quadro político nacional com um Trem Fantasma, com um susto a cada curva fechada. Conversando, dias recentes, com um ilustre e politizado amigo paulista, ouvi-o defender a tese de que o caminho para uma Democracia estável leva, normalmente, uma nação a percorrer vias de curvas fechadas, aclives e declives abruptos. A História nos mostra bem. Para ele, minha ideia de trem fantasma deveria ser trocada pela de Montanha Russa. Concordei, tanto para variar quanto achar que é assim mesmo. Encerramos nossa conversa com um questionamento: seria esse atual processo político nacional, com sustos e sopapos diários, comparáveis a um parto para o nascimento de uma real Democracia? Sem uma resposta imediata, resta-nos esperar.  
A História política brasileira vem, ao longo dos tempos, se arrastando de modo capenga tentando chegar a um ponto de equilíbrio. Ora para direita, alternando para esquerda, buscando o centro e assim vai levando. Foram ditaduras cruéis, democracias disfarçadas e outras formas mal definidas. Tudo bem, que a alternância do poder é salutar, mas carece de um embasamento emanado do povo que nem sempre ocorre. Atrelado ao jogo político internacional, fatores exógenos exerceram influencias das mais diversas. 
Olhando por um retrovisor enxergo que desde a esquisita proclamação da Republica até o presente, muitas curvas fechadas, subidas e descidas bruscas foram registradas.
Sem explorar muito as imagens que refletem lembro que desde o Estado Novo de Vargas (1937-1945) até hoje muitas foram as emoções vividas pela República verde e amarela. Nossa montanha russa já deu muitos sustos e a nação anda saturada de idas (para não dizer avanços) e retrocessos frustrantes. Governos perdulários, corrupção cínica, desprezo e desrespeito ao povo, soluções impopulares, confiscos inexplicáveis, golpes a regimes vigentes, impedimentos de governantes, pobreza endêmica, desequilíbrios regionais de renda, pobreza infraestrutural, entre outras inúmeras características, formataram a História de uma nação que ironicamente é rica pela própria natureza e oferece potenciais elásticos como candidata a lugares de destaque na sociedade planetária.O país do futuro. Futuro que nunca chega!
Pois bem, acredito que assim como as criaturas (humanas ou não) trazem para sua vida em curso o traço indelével da história desenhada pelos seus antecedentes, as nações carregam um DNA que determina sua trajetória. O Brasil que estamos vivendo é, sem duvidas, fruto de uma construção tumultuada pela qual passamos. Naturalmente que muitos "construtores" prometeram ou tiveram boas intenções, mas nem todos seguiram as regras de ética e civilidade. Questão de traço cultural e dificuldade de administrar um país continental. Contudo, por que tantas dores para fazer esse parto da Democracia?
Estariam os brasileiros mais dispostos a viver num regime centralizado ao invés de uma democracia? Os recentes clamores de um novo AI-5 revelam essa distorção. Saberiam de fato o significado dessa demanda? Saberiam entender o que seja democracia? O que falta nessa base social? Herança maldita de um passado inglório? Falha da educação e ausência de ética e civismo coletivo? Falta de um líder de fato? 
Sendo verdade o sentido figurado do meu amigo paulista, espero que nossa tão desejada Democracia venha, enfim, num parto natural e sem dores.  

NOTA: A ilustração foi colhida no Google Imagens 

terça-feira, 16 de junho de 2020

Bem-Vindo ao Século 21


Após tantos meses de distanciamento social devido à crise sanitária, imposta pela Covid 19, boas lições foram acumuladas pelos humanos do século 21. Cada vez mais fica confirmado o velho adágio tantas vezes lembrado pelos mais antigos de que “todo mal traz um bem”. As coisas já estão visíveis e chegando pra ficar.
Possivelmente e guardando as proporções de tamanho, infraestrutura socioeconômica e hábitos culturais das diferentes sociedades poderemos, com muita esperança, viver num mundo novo e mais magnânimo em vários sentidos. A crise que hoje vivenciamos veio estabelecer novas e oportunas regras de convivência até por uma questão de sobrevivência. O progresso tecnológico desenfreado repercutindo de forma muitas vezes maligna aos viventes, independente das naturezas racional ou irracional, levou a que guerras, ganâncias econômicas e politicas, epidemias e degradação ambiental fossem registradas na recente trajetória da Humanidade. Historiadores, sociólogos, geógrafos, ecologistas, entre outros profissionais, já previam o que agora estamos atônitos testemunhando. Curioso e estarrecedor é que, ao contrário das dantescas e históricas guerras travadas no século passado, o Coronavírus (ou Covid 19) pode matar muito mais seres humanos do que se imagina ou preveem. Diante dessa cruel realidade, o historiador e cientista, israelense, Yuval Noah Harari (jovem nascido em 1976) foi taxativo ao afirmar num dos seus recentes ensaios que “a batalha decisiva (contra a Covid19) trava-se dentro da própria humanidade”.
Lendo, recentemente, a famosa obra de Harari, intitulada de 21 Lições para o Século 21 (publicada no Brasil pela Companhia das Letras) tomei uma grande lição ao concluir que a chave do sucesso da humanidade sobre o Coronavírus será perseguir a difícil união entre os povos com vistas às tangíveis solidariedade e confiança. Quando qualifico de “difícil união” refiro-me, obviamente, às imensas diferenças politicas, econômicas e religiosas que vigoram neste mundo em que vivemos. Foi baseado nestas três dimensões de organizações sociais que desenhamos o modus-vivendi que construímos ao longo da História. Muitas idas e vindas, muitos altos e baixos, vitórias e desgraças, sucessos e insucessos nos trouxeram a esta Babel do século 21. Harari, noutra obra magistral da sua autoria, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade destrincha essa trajetória desde a remota era do Pithercanthropus Erectus. Vale à pena conferir. Ele é instigante e revolucionário nos seus pensamentos. 
O Novo Normal, pós-Pandemia, que tanto se fala e está por vir, vai exigir muita solidariedade e confiança entre as nações, os governantes, lideres internacionais, assim como entre os homens e mulheres comuns. Segundo Harari, “hoje, a humanidade enfrenta uma crise aguda não apenas por causa do Coronavírus, mas também pela falta de confiança entre os seres humanos”. Ora, é isto que estamos testemunhando a toda hora. Um bom exemplo conjuntural vem da total desconfiança que produzem os informes e boletins oficiais da Organização Mundial da Saúde – OMS. Como confiar numa entidade que se diz Senhora Guardiã da Saúde planetária e confessa tantos equívocos cometidos, resultando por confundir multidões ao redor do globo? Por mais desconhecido que seja o maligno vírus, a OMS devia sempre se precaver ao manifestar resultados dos seus estudos e pesquisas. Diante de quadro tão frouxo e incerto é de esperar que o humano do século 21 esbarre num dos mais fantásticos desafios sem que precise usar de uma arma ou disparar uma bomba arrasadora. A guerra que venha a ser travada neste século virá à base do conhecimento (Tecnologia da Informação - TI e Inteligência Artificial - IA) e do fundamental desenvolvimento biotecnológico. Naturalmente que uma pergunta não cala: é grande o risco que se corre? Com certeza. Daí a exigência da confiança e solidariedade entre os povos.
Num cenário de dimensão tão grande e diante de tantas hipóteses revolucionárias não é demais se dizer que o século 21 está começando agora. Bem-Vindos e Bem-Vindas!

Nota: Ilustração obtida no Google Imagens.


PS.: Com este post homenageio o Amigo Geógrafo e Professor (UFPE), Jorge Fernando de Santana, que me instigou à leitura da obra de Yuval Harari.  

sábado, 6 de junho de 2020

Uma Semana Negra

Malgrado o estrago da pandemia mundo afora, esta semana que termina pode ser por várias razões considerada como uma semana negra. Nas ultimas vinte quatro horas (hoje é 05/06/2020) morreram pouco mais de mil pessoas, somente, no Brasil. Com este número calamitoso lá se foram mais de 35,0 mil vidas ceifadas entre os 646,0 mil casos diagnosticados, no país. São números alarmantes e que apontam para um panorama deveras distante do estado desejado. De todo modo, embora não seja ainda um dado confortável, 289,6 mil pessoas já se recuperaram. Para tornar ainda mais negro o quadro nacional, manifestantes promoveram, no domingo, um enfrentamento de caráter politico nas avenidas de São Paulo provocando consternação nacional dada a desobediência à ordem de distanciamento social com vistas à prevenção da Covid19. 
Mas, na verdade, o que me levou a definir o tema desta postagem foram dois episódios sociais marcantes. O primeiro foram  os movimentos registrados, a partir dos Estados Unidos, com o recrudescimento das manifestações antirracistas  motivadas pelo assassinato de um negro, George Floyd, na cidade de Minneapolis (Minnesota) pelo policial branco Derek Chauvin. A cidade de Minneapolis é considerada como sendo uma das cidades mais hostis à população de raça negra daquele país. Somente o fato de estar situada ao ianque norte do país não precisa dizer mais nada. Os brancos nortenhos nunca aderiram de verdade à igualdade racial inaugurada na década de 60 e Floyd não foi o único a ser morto, traiçoeiramente, na semana passada. Foi apenas o ultimo. Jamar Clark (2015) e Thruman Blevis (2018) são outros nomes listados entre os trucidados pelos policiais brancos de Minnesota. Comenta-se que a história do preconceito racial naquele estado norte-americano – não muito diferente da maioria dos demais – é entremeada de episódios sempre hediondos.  Imagine que, até bem poucos anos, adotava-se rotineiramente uma cláusula nos contratos de compra e venda de imóveis proibindo fechamento de negócios com negros em determinadas áreas da cidade. Na prática, esta população vivia confinada em bairros exclusivos para os coloreds. 
Manifestação em memória de Floyd e antirracista.
O cruel assassinato, por asfixia, de Floyd, parece ter sido a “gota d´água” que faltava para precipitar essa avalanche de movimentos antirracistas que se espalharam pelas grandes cidades da Terra do Tio Sam, muitos dos quais de características mais eloquentes, chamando atenção da sociedade internacional e pondo em risco a segurança pública do país. Não foi à toa que o Presidente Trump ameaçou entrar com a Força Federal Militar para conter as manifestações de protestos. Bom, a coisa ficou mais calamitosa quando grupos de delinquentes infiltraram-se nas passeatas pacificas e se aproveitaram para atacar e saquear as propriedades privadas. Centros comerciais e muitos pequenos negócios foram atingidos e um pânico geral se instalou, agravando a situação já periclitante devido à crise sanitária imposta pela Covid 19. Note-se que os Estados Unidos vêm sofrendo situação consideravelmente grave nesse quadro. Por lá já foram registrados 1,85 Milhão de casos e 107,0 mil mortos (dados da Universidade Johns Hopkins, em 04/06/20). Finalmente, numa flagrante prova de reprovação à situação norte-americana, o povo foi às ruas para protestar em vários países e grandes capitais do planeta lançando luzes sobre o problema endêmico do racismo internacional e fazendo referencia icônica ao Floyd.

O segundo episódio abalou o Brasil e particularmente Pernambuco pelas mesmas características racistas: a morte do pequeno Miguel (Miguel Otávio Santana da Silva), 5 anos, filho de uma negra, Mirtes Renata de Souza, empregada doméstica num condomínio de luxo, frente ao mar do Recife. Miguel acompanhava a mãe, devido ao fechamento da sua creche, nos afazeres do dia-a-dia na casa de um político, prefeito de uma cidade do interior pernambucano. Delegada pela patroa, com o raro nome de Sarí Côrte Real - uma “dandoca enjoada” - Mirtes teve que descer com a cadela de estimação da família para uma voltinha nos arredores do condomínio, confiando o pequeno Miguel aos cuidados da patroa. Esta, contudo, concentrada nos cuidados que estava recebendo de uma manicure, perde a paciência e despacha o garoto num elevador do prédio para que fosse ao encontro da mãe no térreo. Ocorre que o inocente Miguel foi parar no 9º. Andar da Torre e, desorientado na busca da mãe, se atirou para a fatal queda. A patroa (ir)responsável foi autuada por assassinato doloso, mas, se encontra em liberdade mediante uma multa de R$ 20,0 mil. Que mundo é este, meu Deus? Pobre Miguel. Infeliz Mirtes!  
O caso virou manchetes de jornais locais e de outras localidades, classificado com um perfeito caso de desprezo ao ser humano, quando negro. Mirtes Renata é negra, empregada doméstica, com um filho menor e sem condições estruturais para viver com dignidade. A patroa branca deve ser dessas que confere maior importância ao pet do que ao caviloso filho de uma negra serviçal. Jamais imaginaria o tamanho do crime que cometeu e a dor social que provocou ao mundo em que a rodeia. Uma pergunta não cala: onde residem a solidariedade e o trato humano de uma sociedade que tem um elemento maligno como essa patroa desalmada?
Triste semana negra, em meio aos protestos internacionais de Vidas Negras Importam.


NOTAS: Fotos obtidas no Google Imagens e reprodução do Diário de Pernambuco.

domingo, 31 de maio de 2020

Difícil Recomeço

Após tanto tempo em quarentena há um claro desejo de retorno ao normal. Aliás, ao novo normal, como muitos estão denominando o tempo que vem adiante. Já estamos quase na metade do ano – amanhã já é junho – quando completaremos noventa dias de recomendada reclusão, na luta de livrar-nos da surpreendente peste do Coronavírus que abala a humanidade neste inicio de década. Muitos já partiram e famílias choram suas perdas.
Com imensa surpresa o mundo chora o flagelo provocado, ao mesmo tempo em que, intrigado se prepara para um difícil recomeço. Este tem sido o desafio pelo qual sociedades atravessam  tal como enfrentando um terreno estranho ou um verdadeiro deserto de areias fofas e dunas intransponíveis. 

O eixo dos atuais debates gira em torno da retomada da vida com saúde e economicamente viável. Países que, segundo estudos científicos, já superam o auge da crise – com achatamento da propalada curva estatística  – tentam o recomeço enfrentando agudo ceticismo social que, naturalmente, tomou conta das respectivas sociedades. Tem sido na verdade um comportamento ambivalente: usufruir do que tanto vinha desejando e, ao mesmo tempo, retrair-se por segurança sanitária sabendo que o veneno ainda circula abertamente. Ainda que municiados de equipamentos de proteção individual mais comuns (máscara e luvas) o desânimo tem sido expressivo. Como consequência, os efeitos socioeconômicos se revelam como desastrosos. Países como Inglaterra, Itália, Espanha e Portugal que já experimentam uma distensão dos rigorosos regimes de quarentena acumulam altas taxas de quebra e fechamento de negócios por falta da clientela. 
Pouco movimento no Comércio de Lisboa
Agora, embora com direito a circular as pessoas se privam de frequentar ambientes por duplo temor: o risco de contaminação que ainda persiste ou a ter que se submeter às exigências do novo normal, isto é, uso de máscaras, luvas, assepsia contínua e distanciamento de convivas. É difícil, sim. Na prática foi-se o tempo em que o congraçamento social, o ver gente, o curtir um ambiente escolhido e encontros de negócios ou de um casal apaixonado eram práticas valorizadas e aguardadas com ansiedade. Um mundo meio triste, sem dúvidas. 

Diante desse quadro volto-me ao mundo próximo, em meu redor. Estamos saindo de uma quarentena mais rigorosa (um lockdown meia-boca) imposto, em nome da segurança sanitária, pelos governos locais, na Região Metropolitana do Recife. Acompanhei com viva atenção as noticias sobre a operação. Vi falar de coisas inadmissíveis contra cidadãos corretos e longe de provocar perigos à saúde coletiva. Mas, vi noticias de total desrespeito ao que determinava as autoridades nas regiões suburbanas – que chamo de franjas da metrópole – onde as comunidades não têm noção exata do perigo que corre e, inclusive, consideram a C19 como sendo uma doença dos ricos. Acredito, até, que os integrantes das forças policiais destacadas para o policiamento das regiões pensam do mesmo modo e fazem vistas grossas ao que observam: negócios abertos e comercializando tranquilamente, povo nas ruas e sem uso de máscara ou qualquer outra proteção. Terá surtido o efeito desejado pelas autoridades? Duvido.
Abordo esta passagem para lembrar que, inúmeras vezes, aqui no Blog, mencionei a baixa qualidade ou ausência de ações governamentais no domínio da Educação. A realidade dura é que nossa gente suburbana vive ao “deus-dará” e sem princípios educacionais devidos e terminam por compor um estrato social sem as devidas instruções básicas de comportamento social somente possível à base de uma enérgica e competente política de educação em massa. Numa discussão entre amigos, um deles acredita que isso só será possível com uma coletiva operação intravenosa de educação e civilidade. É uma coisa surreal, sim, mas, seria uma solução formidável. 
Esperemos, pois, com cautela este novo normal. Estou sedento por sair e ver o mundo. Mas, confesso meu temor. Estará tudo como dantes? Meu bar predileto sobrevive? E meu restaurante favorito? Por mais otimista que me sinta, prevejo um difícil recomeço.  

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

segunda-feira, 25 de maio de 2020

E como será amanhã?

O X da questão agora é projetar o que vem depois. Como será o amanhã? Que o mundo será outro todos nós sabemos. A reviravolta que a pandemia causou na humanidade é coisa sem precedentes. Não foi a peste negra (1346-1353), nem a gripe espanhola (1918-20) que abalaram no bastante as estruturas da sociedade da época. Esta de agora, sim. Pudera, o mundo é outro completamente diferente de um século atrás. Ou vários séculos atrás. Hoje é tudo muito diferente, graças aos avanços tecnológicos e a dinâmica de relações internacionais que se instalaram ao longo dos últimos cem anos. As especulações, além de muitas, são todas muito discutíveis. E somente a experiência é que vai nos permitir conferir.
Fala-se muito e é verdade que o mundo vai girar, com mais intensidade, em torno das atividades virtuais. As pessoas estão em proporções significativas aderindo às ações via internet e a pandemia, com as quarentenas impostas, serviu de um grande exercício em massa. Não que seja uma novidade, mas, antes disso, era algo parcial. Nem todo mundo estava disposto a adotar.
Ocorre que conviver com esse mundo virtual é preciso habilidade, confiança e, sobretudo condições econômicas diferenciadas. Além de instrução educacional básica. Nem todo mundo dispõe de um equipamento que o coloque na vanguarda dessa modernidade. Estima-se que somente um quarto dos brasileiros dispõe de um aparato de comunicação pela internet. Assim sendo, portanto, essa coisa exigirá de muitas medidas politico-institucionais, embora seja uma condição difícil e incapaz de atingir de pronto a parcela mais pobre da sociedade. Nesse contexto se destacam duas vertentes bem evidentes: O Ensino a Distância - EAD e o HomeOffice.  
O EAD é sem dúvidas uma das estratégias mais inteligentes para a formação profissional. Discute-se, contudo, qual o alvo a ser atingido por esse formato de ensino. Há categorias de profissão em que o ensino presencial é fundamental. Ninguém se forma, por exemplo,em Medicina num curso de EAD. Salvo quando numa especialização, mas, para formação básica? Duvido. O mesmo se aplica ao Odontólogo, e assim por diante. Muitas são outras profissões que podemos incluir neste contexto. Vamos torcer que a sistemática se desenvolva em categorias de profissão, como as da área de humanas. 
Ouço falar de casos em que, durante a atual quarentena, jovens e até crianças de escola primária estão recebendo lições, orientações e tarefas, pela Internet, com ajuda de um tablet ou smartcelulares. Não duvido. Mas, além de entender se tratar de uma emergência extrema, duas preocupações brotam à minha mente: a primeira é que essa alternativa seja coisa passageira, entendendo que a escola presencial sempre exerceu e exercerá um fundamental papel de formação social dos jovens e crianças, dados os intercâmbios com seus companheiros em sala de aula e no ambiente escolar como um todo. Sem esquecer, ainda, que o(a) Professor(a) foi  capacitado para atentamente reagir às emoções e atenções do alunado. O mestre escola é o agente estimulador e avaliador do progresso de cada indivíduo. A segunda preocupação é que os jovens e crianças incluídos nas classes D, E, F e outras que existam, essas que vivem nas favelas, beiras dos canais e alagados das metrópoles brasileiras – sombrios intestinos urbanos – não terão essa alternativa e ficarão, inexoravelmente, condenados a compor os futuros contingente de desqualificados profissionalmente a perambular nos semáforos das ruas e avenidas a mendigar o pão de cada dia. É assustador... Eis aí um formidável desafio, no pós-pandemia, para nossos governantes geralmente desarticulados e despreparados para exercer o papel que lhes foi conferido.

Home Office, uma tendência cada vez mais usada.

Já o homeoffice é outra coisa que se ouve muito nesses dias de quarentena. Ouve-se dizer que algumas companhias vão adotar praticamente tudo que seja possível a ser exercido à distância. Acredito que em muitos países isto será viável e, pensando bem, já é praticado com concreta normalidade. Aliás, as grandes corporações, mundo afora, fazem uso da chamada Intranet o que amplia consideravelmente a produtividade, que é coisa sempre perseguida. Pequenas empresas já descobriram as vantagens disso. Contudo, em se tratando de trabalho em casa é impossível não discutir essa estratégia em sendo aplicada no Brasil. Tenho dúvidas a respeito do comprometimento pessoal de cada indivíduo em face da cultura brazuca. Infelizmente. Creio que será preciso um longo aprendizado para cumprir horários, formatar um completo ambiente de trabalho doméstico, saber distinguir as obrigações profissionais das particulares, administrar com inteligência os efeitos das eventuais e naturais instabilidades emocionais e, enfim, comprovar a dedicação e competência para encarar o homeoffice. Rigorosos sistemas de avaliação terão que ser adotados. Destaco, entretanto, que nada é impossível. Até porque existe brasileiros sérios. Tomara que tenhamos sucesso.
Enfim, são muitos os novos jeitos de viver que se desenham. Acredito que os costumes amáveis de cumprimentos sociais, por exemplo, vão ter que mudar. Beijinhos e abraços emotivos serão revistos. Costumes de assepsias e limpeza urbana, idem. Frequentar ambientes de alta concorrência e alta-rotatividade de público, como os centros de compras, estádios de futebol, universidades, entre muitos outros, terão que ser revistos. Impossível explorar esse terreno num exíguo espaço de um post. Fica aí minha provocação. O amanhã que nos espera é que é o X da questão. Quem viver, verá.      

A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...