domingo, 21 de fevereiro de 2016

Que carnaval é este?

Por sete anos estive fora do carnaval no Recife. Este ano, por recomendação médica, permaneci por aqui. Não sai de casa, mas, fiquei de olho na TV assistindo de “camarote” o que se desenrolava na cidade, em Olinda e no resto do Brasil. Raros foram os momentos que me tocaram. Pode ser coisa da idade ou decepção com o que restou da nossa folia já que o carnaval do Recife foi desvirtuado, virou um grande negócio, sobretudo para os chamados “atravessadores” que atuam indiscriminadamente e sem ética junto às autoridades de plantão, que igualmente são parte interessada em altas negociatas.
O bom carnaval de rua que prosperou nos anos 90 foi explorado de forma adversa e o que era bom se transformou numa avalanche de insegurança. Os que se arriscam no ímpeto da folia estão sujeitos a sofrer violências das mais diversas. A camarotização é o melhor testemunho desse processo. Ora, o gostoso é  cair na folia, sem medo de ser feliz, brincar os quatro dias e lamentar a chegada da quarta feira de cinzas. Agora, meter-se num camarote (já passei por isto) disputar espaço pra ver “a banda passar” é desvirtuar a folia gostosa e relaxada. Há blocos que não se arriscam a entrar no miolo da atual festa. Isto é lamentável.
Se isto ocorre no Recife, lá em Olinda a coisa ficou mais difícil. Não ouvi falar, nas reportagens que assisti, sobre os desfiles de Pitombeiras e Elefante, dois blocos de alegoria tradicionais. Lembro que num passado não muito distante isto era a maior atração da velha Marim dos Caetés. Desfilavam tranquilos e a repercussão era garantida. Hoje, não. A cidade foi invadida por foliões escrachados cujo objetivo é beber, beber até cair e “brincar” agredindo os foliões autênticos com gestos e atitudes obcenas. Este ano, uma turista italiana fotografa, desejando documentar a folia, arriscou ir a Olinda no sábado à tarde – recomendei essa hora por ser supostamente mais tranquilo depois do arrastão da manhã no Galo do Recife – e não passou mais de meia hora. Mal entrou na cidade, ficou abismada com o comportamento de alguns ao assistir surpresa uma agressão a uma jovem que reagiu a abordagem de um folião afoito. Não acreditou, também, ao ver os muros da História pernambucana servindo se urinóis. Apressada, pediu ajuda a um policial que a acompanhou até onde conseguir um taxi. Coitada, imaginou coisa parecida com o carnaval em Veneza.
Entre as poucas coisas que me tocaram, lembro-me da saída do calunga “O Homem da Meia Noite” em Olinda. Naquilo vi a tenacidade de um grupo de olindenses que se orgulha de preservar uma tradição e realizar um autentico carnaval pernambucano. Infelizmente não sai mais acompanhado de carros alegóricos por conta da massa humana que se espreme no bairro de Guadalupe a espera da saída, a meia-noite do sábado. É impressionante aquela multidão. É preciso ser corajoso, ter resistência e muita vontade para entrar naquela onda.
Uma coisa ficou clara para mim, nas minhas apreciações: o carnaval do Recife virou uma sucessão de shows de bandas e artistas de fora. A multidão não faz outra coisa senão postar-se de pé, diante de um palco de colorido atrativo e assistir o desfilar de cantores contratados a “peso de ouro”. E neste item é exatamente que reside minha critica maior. Há alguns anos me surpreendo com essas contratações absurdas, em detrimento aos valores locais. Se perguntarmos a alguém, no meio da multidão no Marco Zero do Recife, vamos descobrir que o interesse maior é assistir a apresentação de algum artista de fora. Aqui pra nós, é uma lástima esta nova cultura local. Vai para o carnaval do Recife para ver J. Quest, Rappa e um tal de Johnny Hooker, que não sei de onde saiu. Aliás, soube que este último é recifense e já coleciona alguns prêmios de interpretação e composição. O nome é ridículo, o gênero musical não tem nada a ver com nosso carnaval e, para completar, apresenta indumentárias pra lá de duvidosas, mesmo sendo carnaval.
Quer ver outra coisa? Conversei com uma conhecida que foi ao Bal Masquê do clube Internacional só para ver Ivete Sangalo e Claudia Leite juntas. Ou seja, o tradicional baile recifense, o mais antigo do Brasil, virou um show de cantoras baianas. Veja se na Bahia chamam cantores pernambucanos para animar a folia. De jeito nenhum!
Minha última observação: percebi que o carnaval de rua no Rio e em São Paulo pegou de vez. Amigos paulistas foram explícitos em me dizer que já não precisam vir ao Recife e Olinda para curtir um bom carnaval de rua. Pura verdade!  
Cada vez mais estou decepcionado com essa nova cultura local. Que carnaval é este?    

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.

 

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Recife, quem te viu e quem te vê

Há quase sete anos fiz uma postagem, com grande repercussão entre os leitores, criticando o estado de abandono da cidade do Recife, descrevendo a situação desesperadora, sobretudo da região central, mergulhada na sujeira e total degradação.  Era na gestão PTista.
(vide:http://gbrazileiro.blogspot.com.br/2009/recife-uma-cidade-abandonada.html) Na ocasião relatei a vergonha que passei ao ciceronear um amigo paulista em visita à cidade e interessado em conhecer a área central e, sobretudo, os canais da “famosa” Veneza Brasileira.
Na recente semana pré-carnavalesca precisei ir a uma agencia bancária no bairro do Recife Antigo e, dadas as dificuldades de estacionamento, resolvi usar um serviço de taxi. Saindo do bairro do Derby, o motorista rumou ao destino pela Avenida Conde da Boa Vista, artéria central da cidade, e pela qual raramente transito. O que vi, fez-me rememorar o “desastrado passeio” que fiz com meu amigo paulista em 2009. Na condição de passageiro tive a chance de observar o estado geral da avenida – que, em minha opinião, devia se constituir num cartão postal da cidade – e rápido conclui que se trata de um espaço urbano degradado e, na verdade, abandonado pelas autoridades municipais. A avenida está completamente despreparada para receber os muitos turistas que baixam na cidade, nesta época de carnaval. Reconheci que o processo (nacional) de urbanização acelerada produziu uma tremenda deterioração da dita Veneza Brasileira. A visão geral é desoladora. Lixo por todos os lados, ambulantes invadindo as calçadas, disputando espaço entre eles e com a massa de transeuntes, copos descartáveis e latas usadas de cerveja e refrigerante espalhadas pelo meio-fio e, para completar, um transito desorganizado que assusta qualquer cidadão de são juízo. Aliás, será difícil para qualquer engenheiro de trânsito estabelecer uma ordem civilizada por ali, com aquele sistema estapafúrdio criado pela Prefeitura Petrália. Colocaram linhas preferenciais para ônibus – nos dois sentidos – na espinha dorsal da avenida, entremeada de várias estações mal construídas, hoje em estado desprezíveis. Em cima disso, a atual prefeitura, ao implantar o sistema BRT, começou a construir outro tipo de estação, melhor estruturada, que, por falta de grana, foram abandonadas pela metade deixando um rastro de desleixo e má impressão para um eventual visitante e para os nativos, é claro. Fico desesperado com coisas dessa natureza.
Lembro que estudei no antigo Colégio Marista (hoje com as atividades encerradas), nos tempos de adolescência e juventude, situado num dos primeiros trechos da Conde da Boa Vista. Conheci aquilo lá numa época áurea. Avenida limpa, bem frequentada, iluminação atualizada e comércio elegante. Tudo bem, que a cidade cresceu! Ninguém pode esquecer. Mas, será que essa expansão tinha que passar por esse processo de degradação urbana? Faltou responsabilidade dos administradores municipais. Bem como falta educação para nossa gente. É inadmissível que, nos tempos atuais, o cidadão ignore a existência dos coletores de lixo postos à disposição. Parece incrível, mas é justamente ao redor desses coletores que se acumulam mais detritos. Tenho a impressão que o sujeito tenta “acertar uma cesta”, erra e fica por isso mesmo. Isto, sem falar na coleta que é falha também. E a sujeira cresce a cada hora. Não tem limpeza urbana que dê jeito.
É verdade, também, que a maioria das cidades brasileiras têm, hoje, suas áreas centrais com problemas cruciais escancarados. A população urbana cresceu aceleradamente nos últimos trinta anos e o Recife não estaria imune a esse processo. Mas, infelizmente, constato que a situação por aqui é bem mais grave do que outras capitais, na própria região. Se a população metropolitana cresceu desordenadamente, que as cidades tratem com prioridade esta situação, até mesmo por uma questão de saúde publica. Pensando bem, não é à toa que o estado lidera as estatísticas de casos de microcefalia na atual crise da saúde. A sujeira impera, a população está habituada a essa sujeira e pouco se liga nas consequências.
Conversando com algumas pessoas a respeito desta situação ouvi relatos assustadores sobre a periferia da capital. Nos altos, córregos e canais do Recife a gente vive num completo abandono. Falta educação pra essas comunidades se ajustarem ao mundo civilizado. Minha secretária doméstica contou-me que o sujeito morre, o corpo é jogado no canal, a família e os amigos ligam para a Prefeitura ou policia que levanta o corpo e providencia o sepultamento. Incrédulo, perguntei a razão dessa coisa dolorosa. Recebi a explicação de que a família não podendo arcar com os custos de um enterro, usa dessa infame estratégia.  
Chega, por hoje, não preciso dizer mais nada. Tenho muita saudade do Recife da minha juventude.

NOTA: Sem fotos ilustrativas para não assustar os potenciais visitantes e os leitores de fora.