sábado, 23 de fevereiro de 2013

Império do Consumo


Fugi do carnaval do Recife, outra vez. Quando amanheceu o sábado e o Galo da Madrugada botoupracantar nas ruas da cidade, eu voava para bem distante. Dessa vez fui bater em Nova York. Troquei o calor sufocante dos trópicos pelo frio e a neve do inverno no Hemisfério Norte.
Encontrei Nova York vestida de branco, tal qual uma noiva, depois de uma nevasca, um dia antes. Temi, inclusive, com uma frustração de vôo, que felizmente não ocorreu e, aliás, não seria a primeira vez. Vide as fotos a seguir com uma penitente sofrendo com a baixa temperatura, na primeira. Detalhe: quando a neve derrete fica  a maior sujeira. Trabalho dobrado para a Prefeitura.

A primeira grande impressão é conferir o imenso poder de atração que aquela cidade exerce sobre o imaginário dos turistas do mundo inteiro. Desembarcar no aeroporto JFK é cair num formigueiro humano. Aviões e mais aviões aterrissam, a cada minuto, despejando gente de todas as partes do mundo. Árabes, africanos, orientais, indianos, hispânicos, ocidentais comuns – todos a caráter – se misturam num mosaico de raças e nacionalidades, com o mesmo objetivo de adentrar nos domínios de Tio Sam e curtir as atrações que a chamada Terra da Liberdade oferece. Somente na fila da imigração fiquei, dessa vez, por duas horas e dez minutos. Cá prá nós, depois de dez horas de vôo, desde São Paulo é um verdadeiro exercício de paciência. Mas, não é só em N. York. Observei que ocorre em qualquer aeroporto de entrada dos Estados Unidos. Recordo que, nesses últimos 90 dias, desembarquei três vezes nos States, em três diferentes aeroportos (Miami, Los Angeles e Nova York) e em todos sofri a maçada da burocracia. Sempre acho que são poucos os guichês com agentes de fronteiras.
A cidade de Nova York não chega a ser uma bela cidade. Opinião pessoal. Gosto sim de chegar lá. Mas, aquele amontoado de edifícios não se constitui em nenhum conjunto de especial beleza. Até porque os que ostentam beleza arquitetônica não são relativamente muitos. As ruas não são arborizadas e não fosse o Central Park a cidade se resumiria a uma selva de pedras com raras manchas de beleza por conta das poucas praças ou pequenos parques. É diferente de se chegar a Paris ou no Rio de Janeiro. O que mais atrai na chamada Big Apple é, sem dúvida, a dinâmica do seu intenso comércio – as vitrines das grandes lojas enchem a vista do visitante – a imensa gama de opções da gastronomia cosmopolita, os museus e o showbiz da Broadway e arredores. Não tem quem resista a esses atributos. 
Caminhar na 5ª. Avenida, por exemplo, é prazeroso e faz bem à cútis e à alma, segundo amiga minha. Parar numa vitrine, entrar numa loja de departamentos, admirar o lay-out, o colorido, subir e descer as escadas rolantes... nem precisa comprar. Basta observar a gente que circula e a beleza dos produtos expostos. É um tipo de lazer. Depois disso, entrar num dos inúmeros cafés, pedir um – em geral ruim – sentar, pagar para isto e continuar observando a fauna circulante. Mulheres lindas, sobretudo embaladas para enfrentar o frio. Cavalheiros elegantíssimos. WiFi? Em todo lugar e de graça! Aí, é só pegar o Iphone ou  Ipad e se comunicar com o mundo e com a gente de casa. Oi! Tudo bem? Tás aonde? Em Olinda? O carnaval aí tá bom? Eu? Tô em Nova York, tomano um cafezinho... ruim, visse... Mas, é na 5ª. Avenida, né?. Que nada. Ôxente, tô falano por skype e a Internet aqui é de graça em todo lugar. Né bom?Xau, visse. Te amo!  Disponibilzar o Wifi faz parte da estrategia de atrair o cliente. Nisso, o café já esfriou, o tempo passou e ninguém manda você se levantar. Lugar quentinho e o frio torando lá fora... (Foto a seguir)
Nessa temporada, vi brasileiros por todo lado em Nova York. Os tupiniquins estão fazendo a festa dos americanos. Quando se entra num hotel, restaurante ou numa loja, os balconistas logo reconhecem e vão soltando: Brasileiro! Obrigado, de nada! É uma graça. O negócio é agradar a quem pode comprar e os brasileiros estão “queimando dólares”. Não compram de uma peça. Perguntam o preço e pedem logo duas. Os aviões de volta vêm pesados de tantas malas. Na verdade Nova York está preparada para receber não somente os consumidores brasileiros, mas do mundo inteiro. A dinâmica é extraordinária, a concorrência é galopante a tal ponto de derrubar os preços de forma inacreditável. Nesta estação de inverno liquidam o que sobrou do verão e outono passados. É exatamente o que brasileiros e a grande maioria busca. Os preços chegam a ter 70% de desconto. No caso dos brazucas é “mãonaroda” porque os produtos de grife, importados de lá, chegam cá pela hora da morte. Haja consumo. Diante desse cenário fico crente de que os Estados Unidos da América são, na prática, o Império do Consumo.

NOTA: Fotos da autoria do Blogueiro

      



       

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Orgulho de ser Pernambucano

O carnaval está aí, novamente. E o Brasil continua sendo o império da folia. Neste país, comumente se diz que o ano só começa depois do carnaval. Tem gente que leva isso a sério e faz o maior “corpo mole” até passar o tríduo momesco, que, por sinal, já deixou de ser tríduo para virar bimestre. Janeiro e Fevereiro são meses quase que perdidos. Pode ser bom para quem faz a vida com a folia. Mas que o país perde alguma coisa com isto, me parece claro.
De fato, carnaval é bom demais para quem tem resistência e vontade para deixar rolar. Já fiz muito disso. Mas, eram outros tempos. Hoje a coisa é mais gigantesca, violenta em certas horas, virou um grande negócio comercial e uma forma bem elástica para quem governa meter a mão na chave do cofre e tirar uma casquinha. Às vezes um cascão...
O carnaval do passado – há 30 ou 40 anos – era mais autêntico e, principalmente, correto com as tradições locais. Os festejos de Pernambuco sempre foram tidos como sendo os melhores e maiores do Brasil. Bairrismo, é claro. Coisa de pernambucano. Contudo, é de se considerar que havia alguma razão, dadas a animação reinante e o cuidado com os valores da terra. Claro que entendo que sempre se pode melhorar e inovar em tudo por tudo. Mas, fazer vista grossa ao abandono das tradições, não se admite. É o que observo nos anos recentes. Andam importando musicas e ritmos alienígenas e marginalizando os valores locais, com a mais completa tranquilidade. O famigerado Recifolia – extinto, graças a Deus – formou uma geração ligada num tal de Axémusic, que pode ser bom na Bahia, mas frustrou a divulgação da musica pernambucana. Tenha dó...
Pernambuco é de uma riqueza monumental, em termos de ritmos. Segundo estudiosos do assunto, existem aproximadamente 40 diferentes, contando com as variações de batuques, maracatus e frevos. O estado tem sido laboratório de muitos pesquisadores, sociólogos e antropólogos estrangeiros que aportaram nos nossos costados, ávidos por ver de perto e estudar o som e o passo rasgado do frevo, o batuque do maracatu, a dança ritmada dos cabocolinhos, o rufar dos tambores, entre outras manifestações típicas de Pernambuco. Lembro-me da norte-americana Katarina Real (1927-2006), que de tão fascinada por tudo, montou no Recife, entre os anos 60 e 70, sua segunda moradia. Divulgou o nosso carnaval e, particularmente, o maracatu nos quatro cantos do mundo.
O que se vê hoje é um escracho geral e a sabotagem das nossas tradições. Tem coisa mais idiota do que trazer artistas do sudeste e do exterior para animar um carnaval que, na sua essência, é a própria animação? Só mesmo sendo coisa da PTrália que deu as ordens durante doze anos. Falta total de conhecimento da cultura local. Também pudera... não podia ser de outra forma. A ignorância é chave da decadência cultural. Recuso-me a vivenciar uma farsa dessa magnitude. Nos últimos tempos, a cada carnaval me mando para bem distante. Não faço falta alguma, sei muito bem. Mas me preservo de testemunhar este blefe cultural.
Poré,m, como as coisas mudam e há sempre um fila andando, espero agora algo corretivo dessa nova administração municipal. Tenho prá mim que a equipe tem consciência da insensatez. Neste carnaval dizem que ainda não foi possível mudar a estratégia. Vou aguardar o próximo ano. Espero que não convidem Preta Gil, que, segundo li na imprensa, fez um show horrendo e pornográfico, no Bal Masquê (pobre Bal Masquê, quem te viu e quem te vê), nem Jorge Ben Jó que morgou a festa do Baile Municipal, deste ano, e tomou uma vaia. Claro! Esses artistas podem ser bons noutros contextos. Respeito todos eles. Mas, para animar o carnaval do Recife? Isto é o que chamo de piada de mau-gosto. Burrice explicita. Quem tem ideia desse tipo, devia ser convidado a um curso intensivo de sociologia, antropologia e ler sobre cultura pernambucana.
Saudosismo? Que nada! Fidelidade às tradições locais. É assim que se faz em qualquer sociedade civilizada. Trazer valores de fora é ser colonizado. Claudias e Ivetes? Outra hora, o ano inteiro se presta para elas. Tudo isso, sem falar nos cachês superfaturados. Mas, isso é assunto para o Tribunal de Contas do Estado. Tenho orgulho de ser pernambucano.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Domingo sombrio. Semana triste

O Brasil continua chocado com esse triste episódio, da semana passada, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Impossível calar diante de um quadro tão trágico. Quantas carreiras profissionais de sucesso e sonhos dourados foram frustradas, num abrir e piscar de olhos deslumbrados com a beleza de uma bengala flamejante de um sinalizador. Que asneira, meu Deus! Que bengala inoportuna... Eles eram tão jovens, tão alegres e cheios de esperanças. Que dor...
Como pai atento a tudo que diz respeito a um filho ou filha, fico estarrecido somente em pensar no sofrimento e desolação dos pais e mães de família que perderam seus filhos vitimados naquela fatídica noite, dentro daquele alçapão denominado de Kiss (beijo em inglês). Que ironia. Que beijo cruel.
Houve momentos que, mesmo a distancia, fui tomado de emoção e tremi, no conforto da minha poltrona e diante da TV, que, mesmo precisando informar, terminou por pegar de surpresa o mais frio dos telespectadores. Foi um domingo sombrio, num verão de sol brilhante e causticante, seguido de uma semana de tristeza e muito pesar. Um Brasil de luto às vésperas da sua festa maior, que é o carnaval.
No passar das horas, cheguei à conclusão que isso poderia acontecer em muitos outros lugares deste Brasil afora, inclusive aqui no Recife. Essas casas noturnas, em geral, são arranjos de espaços mal planejados e abertos a qualquer preço para atrair a juventude ávida por diversão noturna. Mesmo as classificadas como de primeira linha não fogem ao modelo mal engendrado e, conforme relato de um antigo promotor desse tipo de diversão, não pode ser totalmente segura porque o material utilizado na montagem, nas instalações elétricas, mobiliário e a parafernália dos equipamentos de som e luz levam quase toda grana do investimento inicial e, quando chega a vez do item segurança, a coisa é tratada de forma marginal e a toque de caixa. Por isso que dá no que deu em Santa Maria. Para completar, as autoridades responsáveis pela vistoria e emissão do alvará de funcionamento exercem seus papéis de formas relapsa e irresponsável, muitos são os que recebem “tocos” e fazem vista grossa para as irregularidades. A Kiss, por exemplo, estava com alvará vencido desde o ano passado. Pior, teve, anteriormente, um alvará fajuto já que, conforme se constatou depois da tragédia, a casa tinha um lay-out totalmente inadequado e, sobretudo, inseguro: uma única e estreita porta, servindo para entrada ou saída e inviável para vazão de mais de 1.000 pessoas, numa situação de emergência. Um crime! Estou atento para ver o resultado das investigações e saber quem vai ser punido. Não pode ficar por isso mesmo.
Resumo da ópera: este aí, minha gente, é o retrato vivo da estúpida cultura brasileira do jeitinho e que induz a não se dar a devida importância aos princípios de responsabilidade civil e governamental, urbanidade, convivência social, respeito ao próximo, profissionalismo, ética, educação enfim, entre outros itens, todos úteis a um ambiente social sadio e uma sociedade civilizada.
Durante a semana, pela imprensa local, soube da descoberta de inúmeras irregularidades em casas noturnas do Recife. Alguns locais já foram sumariamente interditados. Repete-se a velha história de que “no Brasil só fecha a porta depois de roubado”. Até quando, no nosso mundinho, ficaremos sempre a espera de uma tragédia para que sejam adotadas medidas de segurança que, aliás, já são formalmente determinadas por lei e ordens?
Que Deus nos livre de dramas dessa ordem, daqui para frente, e que proteja essas famílias dilaceradas pelas irreparáveis perdas que sofreram.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens.