domingo, 28 de outubro de 2012

APAGÃO


...e quando a noite chegava meu avô mandava um encarregado ligar o motor gerador de energia e as luzes brilhavam dentro de casa. O ploc-ploc do motor, no fundo da propriedade, dava um “fundo sonoro” rotineiro que somente silenciava às dez da noite, quando, segundo os costumes locais, era hora de dormir. Era uma rotina de vida bem comum da minha infância (ôxente, neste caso, faz muito tempo não!), em Fazenda Nova (180km. distante do Recife), e que, de modo geral, se repetia nas comunidades interioranas do Nordeste. Aliás, do Brasil. À medida que nos afastávamos do Recife a energia elétrica ia rareando e entravamos nas brenhas, onde gozei férias deliciosas. Mesmo assim, sem energia elétrica contínua, vivia-se feliz e tranquilamente  Lembro a graça que era ouvir rádio ligado a uma bateria de automóvel e a geladeira 
alimentada por querosene. Prá que mais? Quando o motor era desligado e o breu se instalava, acendíamos candeeiros ou velas e corríamos para cama. Felizes, que só!
A chegada da energia gerada pela Hidroelétrica de Paulo Afonso, para acender e mover o Nordeste se constituiu no maior acontecimento da segunda metade do século passado. O mundo se transformou e ninguém pode mais dispensar a eletricidade.
Na quinta feira passada, quando um apagão afetou metade do Brasil, incluindo o Nordeste, (vide mapa lá em baixo) relembrei com um quê de saudade, aqueles dias da infância, misturado a um estado de perplexidade. Como não tenho candeeiros nem esses modernos focos de luz à bateria, recorri a uma vela tirada de uma decoração da casa.Quando a energia caiu, pouco antes da meia-noite, eu estava a caminho do aeroporto para levar meus filhos para um embarque. No meio da escuridão vi-me ameaçado pela insegurança que reina no Recife. É nessas horas que os malandros caem em campo. A sorte foi que os semáforos funcionaram muito bem alimentados por baterias duráveis. O aeroporto se constituiu numa ilha iluminada graças a um gerador próprio. Ainda bem,  porque as aeronaves que se dirigiam ao Recife tinham como aterrissar. Na estação de passageiros, porém, o clima era de desordem. Uma fila descomunal de pessoas que aguardavam a volta da energia para pagar o estacionamento ensaiava um tumulto e dava o tom do desmantelo. Diante do tumulto a saída foi liberada e naquela noite – enquanto durou o apagão – ninguém pagou estacionamento. A empresa tomou prejuízo enorme. Veja, a seguir, o panorama do Recife na noite fatídica. Ainda bem que era noite de lua.
O exemplo do estacionamento do aeroporto é insignificante se comparado a outros serviços prejudicados e espalhados pela Região. Quantos bares e restaurantes fecharam antes da hora e tomaram prejuízo? Quantas cirurgias, inclusive as de emergência, deixaram de ser feitas. Mortes podem ocorrer numa hora dessas. Quantas indústrias pararam suas produções e foram obrigadas a rodar jornadas extras. Quanto isto e quanto aquilo? Veja o mapa da escuridão, a seguir.

Num mundo movido pela força elétrica, o Brasil parece não ter ciência dessa referência e terminou relegando a segundo plano o trato adequado ao seu sistema de geração de energia. Faltou planejamento, faltam investimentos, falta manutenção das redes e do sistema nacional de interligação. É o que se comenta. Hoje, até mesmo o Governo espera placidamente que ocorra um apagão a qualquer momento e qualquer lugar do país. Haja irresponsabilidade... Semana passada, por exemplo, fiquei pasmo ao ouvir falar de que o final da novela da TV (Avenida Brasil) poderia provocar um apagão dada a demanda de energia que provocaria. Achei aquilo incrível. Montou-se uma prontidão e o problema não ocorreu.
No caso do apagão de 5ª. Feira, “foi uma coisa improvável” afirmou o Ministro das Minas e Energia. Como improvável? Que tropeço desse cidadão! Depois, constatou-se que foi um curto circuito num ramal entre o Maranhão e Tocantins. Um curto por falta, seguramente, de manutenção! Mas, já falaram em boicote armado pela oposição. Vejam só, já querem politizar o problema. D. Dilma foi Ministra da pasta e deve estar “comendo um galo” porque não foi previdente. Te vira presidenta! Dê duro nessa frente.
Agora, que dá medo disso ocorrer em tempo de Copa do Mundo ou Olimpíada, isso dá... As cassandras, aliás, estão soltas torcendo por isso! Deus nos livre dessa vergonha.  
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

 

domingo, 21 de outubro de 2012

Avenida Brasil

Impossível não comentar o recente fenômeno da teledramaturgia brasileira, Avenida Brasil, novela levada ao ar pela Rede Globo de televisão, durante mais de meio ano.
Pelo visto, algo de novo ocorreu com este folhetim global. Vi que a trama apresentada pelo jovem autor, João Emanuel Carneiro, trouxe novidades para o telespectador brasileiro. Como novidade, neste caso, é coisa sempre bem vinda, o sucesso foi gerado. Naturalmente que me refiro à novidade com qualidade.
Acho que o telespectador brasileiro já andava cansado das tramas com argumentos batidos e repetidos clichês e com contextos sociais que eram focados, quase sempre voltados à vida glamorosa da Classe A, nas grandes metrópoles nacionais. Quando não isto, eram os hábitos e costumes regionais, principalmente os nordestinos. Dessa vez o foco principal mudou para a classe suburbana e, neste caso, o da periferia carioca que, sempre retrata uma síntese da sociedade suburbana do país como um todo. De cenários em grandes salões e requintadas moradias, apareceu o de um lixão, chocando no primeiro momento. Fora isto, teve futebol e jogadores, cachaça, mesa de bilhar, pagode, retirante nordestina bem sucedida, alpinistas sociais, “marias chuteiras”, “periguetes”, finalmente, um mix de personagens bem comuns na vida de periferia e no meio do povão brasileiro que é, aliás, o grande público para os folhetins televisivos.
Além dessa novidade, o talento do autor levou a que, ao fechar a maioria dos episódios, houvesse sempre um estimulo ou suspense para que o espectador voltasse à frente da TV na noite seguinte. Foi bastante inteligente. Admirável como o cara soube criar situações inesperadas envolvendo alguns personagens, com mudanças bruscas de atitudes e comportamentos, tanto na trama central, quanto nas secundárias, capazes de surpreender o publico. Mais ainda: quando todo mundo achava que não havia mais nada a ser descoberto o noveleiro criava situações que prolongavam a história. Houve um momento que parecia não ter fim. Estratégia nova.
Perversidade e humanismo se misturaram de modo incrivelmente inédito, nesta novela. A personagem Carminha (Adriana Esteves) tanto representava uma megera, quanto repentinamente aparecia de mãe, esposa e dona de casa exemplar e, muitas vezes, foi vista pelo telespectador como vítima. E terminou assim! A Nina (Débora Falabela) foi outro personagem que confundiu o publico, oscilando, em vários momentos, entre mocinha vingativa, pela qual todos torciam, e vilã. O que dizer da Lucinda (Vera Holtz), acolhendo garotos abandonados no lixão? O Tufão (Murilo Benicio), coitado, um corno/pateta adorável e, ao mesmo tempo, irritante. O que dizer do excelente ator que é Marcos Caruso, no papel de Leleco? Incrível como um paulistano nascido no elegante Itaim Bibi, pode se transformar num autêntico suburbano carioca. E tantos outros. Belo elenco
E no apagar das luzes, quem diria que as maiores rivais – Carminha e Nina – terminariam selando a paz? Acho que, tramando essas situações, digamos que bem humanas, o autor cravou o sucesso que sustentou até o último instante.
O fato é que a novela terminou sendo um fenômeno de audiência. O último capítulo levado neste fim de semana (19-20/10/12) virou noticia no mundo inteiro. Uma coisa inacreditável. Não pude entender direito. Os grandes jornais do mundo inteiro terminaram por fazer referência a este fenômeno da televisão brasileira, tendo em vista a mobilização nacional para não perder a exibição do último capítulo. Foi tão mobilizador, quanto qualquer jogo do Brasil em Copa do Mundo. Estouro de audiência. Estou falando de veículos tipo Financial Times, Washington Post, Revista Forbes, The Guardian (este destacando, inclusive, que a presidente da Republica cancelou viagens e ajustou sua agenda para não perder esse capitulo final). Vide foto a seguir. Além
destes, uma infinidade de outros jornais na América Latina, Europa e até na remota Austrália noticiaram o fenômeno televisivo tupiniquim. Confesso que fico intrigado com esse flash da vida brasileira. Sim, porque isto não passa de um flash! Espocou e fim. Logo, logo o público já se envolve com outro folhetim, seja qual for a trama e o cenário e Avenida Brasil será somente uma grande artéria urbana do Rio de Janeiro.
Interessante que, mesmo muito antes desse final badalado, algumas coisas foram observadas no dia-a-dia dos brasileiros. Por exemplo, o figurino da personagem de Carminha ganhou o mundo e promoveu, por exemplo, uma super venda de uma bolsa de uma determinada grife (Michael Kors) nas lojas do ramo no Brasil e em outras praças do estrangeiro. Toda “dondoca” ou “patricinha” transformou em sonho de consumo possuir uma dessas bolsas. Em Nova York, o gerente da loja da grife preparou vendedoras para atender as brasileiras e, muito curioso, perguntou a uma repórter de TV “Who is Carminha?”. Este é o chamado poder da mídia. Mas, não foi somente a bolsa, o automóvel da marca contratada para o merchandising também virou moda nas endinheiradas. De Buenos Aires, um jovem teve a curiosidade de perguntar: “O que é Carminha?”. Uma graça.
Enquanto isso, fico aqui alimentando a esperança de que o Brasil se destaque mais noutras dimensões do cenário internacional. Não temos, por exemplo, um Prêmio Nobel! Onde estão nossos autores escritores ou cientistas?
NOTA: Foto obtida no Google Imagens.




domingo, 14 de outubro de 2012

Votar ou Não Votar, eis a questão

Lembro da festa que se fazia nos dias de eleições em tempos da redemocratização do Brasil. O povo ia às ruas empunhando bandeiras, cartazes e festejando seus candidatos de forma declarada e em alto e bom tom. De fato, havia motivos para comemorações porque todos curtiam o prazer de exercer o direito de votar e escolher seus governantes. O tempo passou e, com ele, parece haver se esvaído aquele entusiasmo de outrora. Nas eleições da semana passada, para citar o exemplo mais recente, parei para observar o movimento e terminei constatando um povo aparentemente apático, a caminho das sessões eleitorais, muitos deles cabisbaixos e apressados. Era um desfile quase que silencioso. Isto em locais onde ocorriam, normalmente, grandes concentrações de militantes aguerridos que se punham, estrategicamente, a incentivar o eleitor, sobretudo aqueles indecisos. Entendo que a proibição da chamada “boca de urna” tenha inibido muita gente, porém, o movimento do trânsito, bandeirolas e bandeiradas praticamente foram deixados para trás. Era uma grande festa, já não é mais. Pelo menos nas grandes cidades.
No balanço do pleito da semana passada, para renovação das câmaras municipais e prefeitos, dados divulgados pelos tribunais eleitorais dão conta de números surpreendentes no que tange à soma dos votos em branco, nulos e de abstenções. Foram muitos os brasileiros que resolveram não comparecer às sessões eleitorais: 16,41% deles não se abalaram por cumprir com o dever cívico. Isto significa 22,7 milhões de pessoas. É muita gente. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral nas eleições de 2008, esse percentual foi de 14,5%.
Em Pernambuco, na semana passada, o percentual foi ligeiramente menor, 16,28% e significou 1,06 milhões de eleitores. Também é muita coisa.
Mas, o que mais chamou a atenção em Pernambuco foram alguns resultados na Capital e em Olinda. Imagine que no Recife o número dos votos nulos, em branco e de abstenções, 283.279, superou o de votos válidos atribuídos ao segundo colocado para o cargo de Prefeito do Recife, Daniel Coelho, que só obteve  
245.120 votos. Na vizinha Olinda, a coisa ainda se mostrou pior porque os brancos, nulos e abstenções somaram 105.056 e foi mais do que o número de votos dados ao Prefeito vencedor, Renildo Calheiros, que se elegeu com 102.295 votos. Indiscutivelmente, tem algo a ser analisado, principalmente lembrando que, no Brasil, votar é obrigatório para todo cidadão e cidadã com idade entre 18 e 70 anos.
Vários motivos podem ser considerados para este resultado. O primeiro que ocorre analisar é a questão do voto obrigatório. As novas gerações são arredias a tudo quanto venha com o rótulo de obrigatório. Muitos são os movimentos que pregam a queda dessa obrigatoriedade. “No Brasil não cola mais essa manobra eleitoral. É coisa do passado, quando o país vivia buscando o rumo à uma democracia plena. Obrigar é um esquema antidemocrático”. Foi o que ouvi de um jovem. Argumentou que ao cidadão deve ser reservado o direito de escolher ou não. Ele me garantiu que tirou o titulo de eleitor por necessidade burocrática, mas que só votou uma vez. Normalmente justifica o voto por onde aproveita o dia para o lazer ou já pagou a multa por não votar. Ainda fez gozação com o valor cobrado, que julgou irrisório. Atualmente é de apenas R$ 3,50. Equivale a uma passagem de ônibus urbano. Pensando bem, é um estimulo para quem quer protestar, quem não quer enfrentar fila, chuva ou sol quente. Além de ser cômodo para quem aproveita o dia e se manda para um ponto distante da sua sessão eleitoral para curtir um dolce far niente.
Outro motivo, este mais forte, é o descrédito da classe política e sua interminável lista de corruptos cadastrados. O atual julgamento do Processo Mensalão tem exposto, de modo escancarado, a qualidade de políticos brasileiros que enganaram o povo, a Nação e o Mundo. Isto, francamente, é um desencanto para quem almeja um país sério e politicamente desenvolvido. A turma jovem de hoje arrasa na critica e na contestação.
Além do que, se analisarmos os pífios progressos sociais (Educação, Saúde, Segurança, etc.) decorrentes das ações desses mandatários recentes, pouca coisa provocará entusiasmo no eleitorado. Ao invés disso, gera revolta. O resultado é voto em branco, nulo ou, simplesmente, a abstenção.
Esses dias vi dois grafites, em velhos prédios do Recife Antigo, que retratam bem essa situação. Fotografei especialmente para ilustrar esta postagem do Blog. Confira você mesmo. Votar ou não votar, eis a questão do futuro.
NOTA: Fotos da autoria do próprio Blogueiro 

sábado, 6 de outubro de 2012

Ciclistas e Ciclovias

Às vésperas das eleições municipais deste ano, o que mais se vê no Recife são promessas de candidatos a Prefeito e Vereador, incluindo a de dotar o Recife de quilômetros e mais quilômetros de ciclovias, estimulando o uso da bicicleta como um meio de transporte popular e massivo.
O Prefeito que se despede, que teve uma administração altamente criticada, inclusive pelos  seus correligionários, resolveu no “apagar das luzes” abrir algumas ciclovias na cidade, entre as quais as que se desenharam nas Estrada do Arraial e do Encanamento, zona Norte da cidade. Há certa euforia na população, sobretudo a de baixa renda, que vem correndo para comprar sua bike e sair por aí. As casas comerciais especializadas estão de olho no novo filão. E uma fábrica montadora que existe no estado (Zummi Ind. E Com. Ltda) já se prepara para abastecer o novo mercado. Se a moda pegar mesmo, preparemo-nos porque Recife vai virar uma Pequim ou Xangai do passado. Pode até surgir alguns empreendedores que se habilitem a oferecer riquexás, uma espécie de bicicleta-táxi.
Por que não? Já experimentei essa alternativa em Pequim (foto a seguir) e, até, em Nova York. Divertidíssimo circular na 
5a.Ave. e Park Avenue da Metrópole norte-americana numa dessas jeringonças. Muitas outras cidades do mundo adotam esse sistema para atender, particularmente, aos turistas. É um barato.... Londres e Amsterdã, por exemplo, têm lá seus requixás. (foto em Londres, aí embaixo). Penso que seria legal no Recife Antigo. Garanto que haveria mercado. Vou esperar...
O uso da bicicleta é uma ideia que ocorre ou já ocorreu, muitas vezes, com pessoas que visitam cidades no exterior e voltam impressionados com a popularidade delas como meio de locomoção. Lembro que elogiei, em março passado, o uso massivo da bicicleta na cidade de Ravena (Itália), por onde passei no inicio do ano.
Na Holanda, o uso das duas rodas goza de imensa popularidade.  Lá, existem centenas de estacionamentos que comportam milhares de bicicletas. Chega a ser impressionante. Sem dúvida é um alivio para o transito das cidades.
A proposta pode ser muito interessante para o Recife. Louvo a atitude de se promover esse uso e de se prover a cidade de ciclovias. Contuuuudo, muitas outras coisas devem ser pensadas para que esse projeto se torne realidade sem que tenhamos, mais adiante, de conviver com as manchetes de jornais que vimos esta semana: duas jovens vidas foram ceifadas em trágicos acidentes de bicicletas, atropeladas por veículos de porte maior. Lembremos que não se pode, de hora para outra, mudar os hábitos e costumes no trânsito de uma comunidade. Sobretudo numa cidade/metrópole como é o Recife, com um povo tão indisciplinado e mal educado.
O Prefeito que for eleito deve estar atento para esses aspectos subjacentes que envolvem o Projeto de "Bicicletar" o Recife. Que não promova o uso simplesmente, mas encete uma grande campanha educacional, para sensibilizar tanto os motoristas, quanto os ciclistas. Afinal, não se pode sair por aí, sem compromisso e por qualquer motivo, montado numa bicicleta e enfrentar as cargas pesadas dos ônibus, caminhões, automóveis e as detestáveis “primas” motocicletas, que andam desembestadas cometendo todo tipo de asneiras por ruas e avenidas. Aliás, eis aí, outra vez, a questão da Educação. Coisa que falta no brasileiro, em geral. 
NOTA: Fotos do Google Imagens ou acervo do Blogueiro. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Insanidade Cultural

Tenho notado que uma das minhas postagens, intitulada de Apagando a História, publicada em 24/09/2009, tem sido acessada com grande  freqüência. O tema, de fato, é interessante e nele faço dura critica à Caixa Econômica por não haver adotado providências  para instalar seu Centro Cultural, no Marco Zero do Recife, onde funcionava a Bolsa de Valores de Pernambuco e Paraíba. Ao invés disso, abandonou ao bel prazer dos vândalos e drogados. Isso foi em 2009. Veja mais clicando no link: http://gbrazileiro.blogspot.com/2009/06/apagando-historia.html.
Agora, contudo, três anos depois, tive a satisfação de, num desses últimos domingos, num passeio pelo Recife Antigo, encontrar o referido Centro, recém-aberto ao público e oferecendo uma exposição inaugural que teve tudo a ver com o meu Apagando a História. Sob o titulo de 1908 – Um Brasil em Exposição, com a assinatura de Margarida da Silva Pereira, como curadora, tive a oportunidade de ver de forma organizada e didática o que foi a Exposição Nacional do Rio de Janeiro de 1908, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas.
Essa exposição foi montada na Praia Vermelha, no bairro da Urca e durou quatro meses. A mostra se constituiu numa vitrine do Rio de Janeiro da Belle Époque. Capital da Republica, a cidade era tida como “a sala de visitas” do país. Embora fosse uma exposição nacional, havia alguns pavilhões de outros países, entre os quais Portugal e Egito. Foi uma coisa monumental. Palácios magníficos foram construídos que, durante o certame, serviram de locais para eventos dos mais variados, principalmente comerciais, culturais e sociais. Vide fotos, a seguir.

O mais surpreendente, porém, é perceber que tudo aquilo desapareceu por completo. Conhecendo o Rio de Janeiro como conheço e, em particular, a região onde ocorreu o evento, fico impressionado como nada restou. Talvez, alguma pouca coisa tenha sido aproveitada pela antiga Universidade do Brasil, hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Se houvesse rigor na preservação do patrimônio histórico deste país, aquilo lá estaria de pé e, certamente, seria uma grande atração turístico-cultural do Rio e do Brasil. É assim que ocorreria em qualquer lugar civilizado do mundo. Veja os exemplos da Torre Eiffel, do Grand Palais e do Petit Palais, em Paris, que são patrimônios preservados da grande Exposição Universal de 1889. Até hoje estão lá e são importantes pontos de atração turística mundial. Todo mundo quer conhecer Paris e, em estando lá, correm para subir ao alto da famosa torre. Pois bem, percorrendo, naquela tarde de setembro passado, a exposição no Centro Cultural da Caixa fui quase tomado de revolta, por perceber que nada daquilo resta no Rio de Janeiro.
Infelizmente o Brasil sofre dessa insanidade. Lembro de casos que ficaram na história de algumas cidades. A abertura da Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, foi um crime! Em dois tempos destruíram o miolo da antiga cidade, apagando páginas preciosas da história social do Brasil Colonial. Outro caso clamoroso ocorreu no Recife, quando o Prefeito da cidade, lá pelos anos 70, resolveu prolongar a larga Avenida Dantas Barreto, aliás, de pouca serventia até hoje, derrubando quarteirões de ruas históricas, casarios coloniais e igrejas seculares. Apagaram mais da metade da história do bairro de São José. Nessa fúria, desapareceu a tradicional Rua Augusta e a Igreja dos Martírios, motivo de tristeza para muitos. Uma lástima...  Outra coisa, que me ocorre lembrar, no Rio de Janeiro, é a concepção arquitetônica daquela atual Catedral da cidade. Na minha opinião, um monstrengo. Um formato de oca indígena. Certamente, teve a influência do modernismo de Brasília. Mas, sinceramente, nada a ver com o Rio. A antiga catedral tem outra beleza e diz mais da história da cidade. Vide foto, a seguir. 
Até em Caruaru, a simpática cidade do Agreste pernambucano, sob influencia de Brasília, também, fizeram o mesmo. Destruíram a antiga Igreja Matriz e construíram uma horrenda oca indígena ou piramide oitavada, para substituí-la. Francamente... Foto a seguir.
Saindo do Centro Cultural da Caixa, circulei pelas ruas e avenidas do Velho Recife e observei que entre os poucos prédios restaurados existem outros que são verdadeiras ruínas. Em alguns até já brotam pequenas florestas. Veja foto abaixo, que fiz na ocasião. É incrível. Está lá, pode conferir, na Avenida Rio Branco.
Desse jeito, vão mesmo continuar permitindo que a História seja apagada. É isto que chamo de insanidade cultural. Onde anda o IPHAN?

NOTA: Fotos obtidas no Google e da autoria do Blogueiro