sábado, 28 de setembro de 2013

Missão Abortada

Era 14 de Novembro de 2009 quando, cheio de entusiasmo, escrevi um post para este mesmo Blog referindo-me à reportagem semanal da respeitada revista britânica The Economist falando sobre a grande fase de expansão da economia brasileira. Na capa uma fotomontagem que correu o mundo mostrava o Cristo Redentor decolando como um foguete, simbolizando a ascensão estratosférica que a nossa economia projetava naquele momento. Aquilo teve uma repercussão fantástica nos meios econômicos do mundo inteiro. (leia a referida postagem clicando em http://gbrazileiro.blogspot.com/2009/11/brasil-potencia-economica.html ). Recordo que, logo em seguida, estive em viagem de negócios por alguns países da Europa e os comentários a respeito do ambiente econômico brasileiro era lembrado e enaltecido, com especial entusiasmo, por nossos interlocutores. Foi um tempo de muita euforia e grandes oportunidades de negócios desenhadas, num Continente onde crise, indústrias paradas, desemprego e incapacidade de investir faziam parte da ordem do dia em qualquer rodada de negócios. Foi um tal de querer vir para o Brasil, como nunca antes. Aqui estava a “salvação da lavoura”, era a voz geral. Alguns até que conseguiram.
O tempo passou e, infelizmente, as coisas não se revelaram tão satisfatórias quanto se imaginava e a mesma revista britânica, que não relaxou no monitoramento da economia brasileira, começou a perceber o desandar das coisas. Chegou até a aconselhar D. Dilma a demitir o Ministro Guido Mantega, antes que ele entornasse o caldo que restava. A Presidente revoltou-se com a “intromissão” e disse: “Fica Guido, porque aqui quem manda sou eu!” Recentemente a revista insistiu e classificou de medíocre o desempenho do país desde 2011. Claro! De quebra, em tom de ironia aconselhou a permanência do Ministro Guido no cargo.
Hoje a The Economist publica outra grande matéria de capa deletando a aura auspiciosa que criou em 2009 sobre o Brasil, mostrando as falhas e desmando do atual Governo. Também, pudera porque não faltam razões. Basta que nos lembremos dos caminhos tortuosos que um investidor enfrenta para empreender no país, a burocracia emperrada e a carga tributária descomunal, o quadro de corrupção renitente, as falhas da política econômica, a incompetência e inchaço do setor público, os riscos políticos, a volta da inflação, o assustador processo de desindustrialização, o protecionismo no setor de petróleo e gás, a falta de infraestrutura adequada e seu baixo coeficiente de investimento para que dê suporte às atividades econômicas, entre muitos outros pontos fracos e ameaçadores, que, tudo junto, pode bem ser traduzido pelo PIBinho  que vem sendo  registrado nos anos recentes.
Ironicamente a ideia da capa da revista em 2009 com o Cristo decolando volta com outra fotomontagem, dessa vez, porém, no sentido contrário: a suposta nave espacial que decolava, retorna ao ponto de origem num zig-zag desgovernado. Tal qual o Brasil, aliás... Vide a reprodução das capas, a seguir.
A imagem vem acompanhada da chamada: “O Brasil estragou tudo?” tradução livre de Has Brazil blown it?
Pois é, o que mais dói é perceber que corre-se o risco de descambar ladeira abaixo perdendo o controle, depois de tantos anos de sacrifícios. Mais do que nunca sentir-se-á falta das tão propaladas reformas: fiscal, previdenciária, política etc.
O que mais se pode lastimar é que o ambiente foi preparado para isso, mas, os que estão no poder e vêm se locupletando das regalias oportunistas e mamando nas “têtas da viúva”, não têm competência, visão de estado e nem conseguem enxergar essas carências. Só mudando para ver se dá certo. A Missão da nossa nave redentora foi abortada.

NOTA: A Foto é uma reprodução da capa da própria revista The Economist 

domingo, 22 de setembro de 2013

Justiça Injusta

Com imenso pesar começo o bate-papo de hoje, tamanha minha revolta com essa justiça do Brasil. Os brasileiros – falo dos mortais, como sou eu – esperaram com muita expectativa o desfecho da votação sobre os famigerados Embargos Infringentes, na sessão de quarta feira passada no Supremo Tribunal Federal - STF. O desejo da Nação era claro: cadeia imediata e sem apelações para os doze condenados. Claro, que uma quadrilha que se apodera de R$ 173,0 Milhões dos cofres públicos não pode ter outro destino. Mas, ao contrário do que se esperava, o Ministro Celso de Mello – investido do papel de Decano da Corte e com direito a dar o voto de Minerva – consciente de que estava contra a opinião pública, “cheio de dedos” e muito discurso técnico “livrou a cara” do bando. Doloroso. Por mais que tenha sido uma decisão técnica e que, no retorno de julgamentos, os réus ainda corram o risco das confirmações das sentenças, coisa, como é amplamente sabido, difícil de acontecer, paira a  desesperança e frustração na alma do brasileiro. No de são juízo, vale ressaltar. Que tipo de (in)justiça é essa, meu Deus? Como metade do pleno daquela Corte Superior julgou o pleito como improcedente é porque havia condições de mandar essa caterva PTralia para trás das grades, na mesma hora. Pior do que isso, agora, é lembrar que sabendo da lentidão de julgamentos dos processos judiciais nesta eterna Pindorama, corre-se o risco de que esses crimes sejam prescritos, dada a eternidade, segundo o Ministro Joaquim Barbosa, que certamente serão tratados. Prevalece, assim, a ideia popular de que Justiça que tarda é a Justiça que falha. E certamente vai falhar, para gáudio dessa corja de ladrões que domina o Brasil há doze anos.
Francamente, mais do que nunca fica claro que cadeia no Brasil foi coisa feita para pobres, “pés-rapados” e “bundas-sujas”. Foi negro, então, perca as esperanças. Mas sendo rico, teve algum poder, viveu à sombra do poder e pode pagar a peso de ouro uma boa banca de advogados, sustentada por competentes advogados, que saibam interpretar as entrelinhas e as diagonais da legislação vigente, tenha boa verve, se vista bem, use bom perfume e chegue num carrão aos tribunais é absolvição de cara. Que tristeza. Certa feita, ouvi de uma conhecida que fazia parte do corpo de jurados no Tribunal de Justiça de Pernambuco um depoimento que passava por essa imagem que relatei acima. Certo é quando se diz que nunca se deve confiar na cabeça de juiz ou nas de um corpo de jurados. Surpresas são coisas bem comuns.
A respeito ainda do Julgamento de quarta-feira passada, li em algum lugar a opinião do ex-Ministro Saulo Ramos e agora vejo que ele tinha razão. Segundo Ramos: “Decano se comporta como estudante de Direito eminentemente técnico, servindo aos interessas dos Mensaleiros, subjugando o Povo Brasileiro”. Lembrando-me dele tento entender o que tenho ouvido e lido de professores e advogados de renome a respeito do voto de Celso de Mello. Acham –  unanimemente – que ele deu uma brilhante aula de Direito.  Vá entender esse Direito e essa Corte. Haja estômago... Deus me livre! E pobre como sou, mais do nunca, vou querer andar sempre na linha.

No final das contas, como não há outra corte superior a essa que tratamos, vamos ter que engolir esses tais embargos infringentes de goela abaixo, até porque temos que respeitar a decisão para preservar esse poder que precisa ser protegido. Afinal é o Supremo! E supremo é supremo. Guardo a esperança de que um dia ele seja composto de membros independentes dos demais poderes principalmente aquela instalado defronte, lá no Palácio do Planalto. Que venham novos joaquins barbosas para salvar essa Pátria tão espoliada e tão eivada de justiças injustas. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Vontade de Voltar

Outro compromisso social tirou-me do Recife, no fim de semana passado. Dessa vez, para um pouco mais distante. Estive novamente na Argentina. O destino, porém, não foi Buenos Aires e sim a aprazível cidade de Rosário, que provocou uma bela surpresa. Às margens do rio Paraná, que nasce no Brasil, entre os estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, dá nome a um estado brasileiro, demarca a fronteira do Brasil como o Paraguai, entra pela Argentina e vai desaguar no rio da Prata. Caudaloso e largo à altura das Províncias de Santa Fé, onde se encontra Rosário, e Entre Rios, esse rio, além de transformar as cidades ribeirinhas em localidades com especiais atrativos, serve de importante via navegável (para grandes navios) da Argentina por onde escoa muitas das suas riquezas agrícolas. Vide mapa, a seguir.
Mas, não é sobre o rio Paraná que quero focar este papo semanal e sim na cidade onde estive, com minha família, durante três dias. Confesso que foi uma surpresa. Ocorre que nós brasileiros geralmente enxergamos, somente, duas cidades dos “hermanos” – Buenos Aires e Bariloche – o que pode ser um equivoco. Muitas outras cidades argentinas merecem ser vistas e Rosário de Santa Fé é uma dessas.
A chegada, por via aérea, não é das mais animadoras. O aeroporto não causa uma boa impressão. Meio acanhado e pouco acolhedor. O acesso à cidade tampouco anima muito, até que se alcança a zona urbana mais central. Ali, o perfil arquitetônico surpreende e faz lembrar em tudo a metrópole bonaerense. Sim, Rosário se parece muito com Buenos Aires, no traçado urbano, nas construções senhoriais, no bom estilo neoclássico, nas ruas de pedestres, nos cafés em vias públicas (vide foto a seguir) e casas comerciais, parques e avenidas. Muitos museus temáticos. Restaurantes magníficos e casas noturnas sofisticadas. Com a vantagem de não ter o clima trepidante como na Capital Federal e não estar sujeita à insegurança. 
A cidade conta com 1,5 milhão de habitantes. Não vi engarrafamentos, barulho de buzinas ou pedintes como em Buenos Aires. A qualidade de vida é visivelmente boa. E, mais do que isso, observei que lá as pessoas circulam livremente e a pé, altas horas, sem medo de assaltos ou qualquer tipo de insegurança. Assim, pelo menos, me pareceu.   
Depois de curtir uma sexta-feira inteira caminhando pelas peatonales (calçadões de pedestres) Córdoba e San Martin, parando diante das vitrines, sentando num café, entrando numa livraria  e observando o povo passar, partimos para visitar os pontos referenciais de turismo: o primeiro foi o Monumento à bandeira Nacional, imponente torre disposta numa praça cuidadosamente arquitetado e situada num parque a beira do rio. Além da torre, há no mesmo sitio outra construção com uma pira ardente, dia e noite, em homenagem aos heróis desconhecidos, com bela escadaria que leva a um grande espelho d´água, do qual belas esculturas  emergem com ares triunfantes. Sem dúvida, trata-se de um parque monumental. A cédula de 10 Pesos Argentinos traz imagem desse parque. À noite a visão é reluzente graças à uma moderna iluminação com as cores branco e celeste, lembrando a bandeira do país.
Outro orgulho da cidade de Rosário é o fato de ser cidade natal do guerrilheiro/revolucionário Che Guevara.  Dizem que a mãe do Che, grávida de nove meses, passava por Rosário quando entrou em trabalho de parto e deu á luz ao garoto Ernesto. O pai, um diplomata de carreira, instalou a família num apartamento do edifício 480, da Rua Entre Rios e ali ficaram até que o Che completasse quatro anos, quando se mudaram para a Província de Córdoba. Cresceu ali e de lá partiu para cumprir sua saga. O resto da história o mundo conhece bem e hoje, ele é lembrado em praças e monumentos do lugar onde veio ao mundo. Um herói nacional. Vimos o prédio e fomos ao parque (meio distante e semi abandonado) onde uma estátua de bronze pontifica. Interessante que o bronze foi fundido com doações de peças sucateadas dos rosarinos, principalmente chaves inúteis que viviam guardadas. É grandiosa e pesa centos toneladas. (Vide fotos da imagem e um detalhe revelando parte das chaves usadas) .


Outra coisa que chama a atenção, nessa cidade, são os belíssimos parques. Uma riqueza natural. Os Parques de España e Independência são os destaques. Dedicamos nosso domingo a percorrê-los. No Parque de España uma festa de ciclistas, pic-nics, feira de artesanatos, artistas e um povo alegre gozando do ar puro da natureza. Fiquei com uma inveja...
Nunca vi tantos bares e restaurantes à beira-rio! Provocaria inveja à muitas cidades do mundo que têm rios e não aproveitam suas orlas. Recife é uma dessas.
No mais, um especial registro para os restaurantes magníficos que a cidade tem. Carnes supremas e vinhos generosos. Taí um lugar que dá vontade de voltar.

NOTA: Excetuando o mapa, retirado do Wikipedia, as demais fotos são da autoria do Blogueiro

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Alma Brasileira

Por conta de um compromisso social voltei ao Rio de Janeiro no fim de semana passado. Diferentemente da semana anterior, desta vez tive chance de curtir como turista a cidade maravilhosa, o que é sempre muito bom. Além do que, fui acompanhado da Patroa que torna a viagem mais divertida. Fora o casamento que tivemos de assistir “batemos” o Rio no que de bom a cidade oferece e focando na Zona Sul.
Muitos são os que dizem ser Brasília a síntese do Brasil, porque lá circulam cidadãos de todos os recantos do país. Nos corredores do Congresso Nacional isso fica bem evidente. Todo mundo, porém, ligado ao vetor político. Contudo, pensando bem, é no Rio de Janeiro que a alma brasileira é mais bem traduzida. Ali, sim, gente de todos os recantos e todas as tribos da Nação interage de modo mais fácil e parece haver espaço para todos. Os preconceitos contra os nordestinos são mais diluídos, se comparados com os que os paulistas alimentam de forma quase que visceral. Escritores, atores, acadêmicos, políticos, artistas plásticos, entre outros, do país inteiro, parecem encontrar na dita Cidade Maravilhosa mais ambiente e chances de sucesso. Sem dúvidas que, em se tratando de ambiente físico, o forasteiro encontra no Rio melhores condições de sobreviver. Não é selva de pedra, não faz o frio da Pauliceia, é mais verde e, por fim, tem o mar que areja a cidade, para quem precisa respirar profundamente e com pureza, seja de alegria, alivio, sensação de liberdade ou para desafogar a alma, se oprimida. Finalmente, chegar ao Rio é sempre bem agradável. Ressalvo, no entanto, que gosto muito de São Paulo, mas, reconheço que o mix de lá é diferente. Fácil se percebe que aquele Brasil dali é, certamente, menos brasileiro do que o do Rio.
Conheço pessoas que se esquivam de ir ao Rio devido à insegurança nas ruas. Minha esposa, embora carioca de nascimento, é uma dessas pessoas. No entanto, observo que a insegurança carioca é mais concentrada nas regiões de morros e favelas, quando dominadas pelos imperadores do tráfico, algumas das quais hoje pacificadas pelas chamadas UPP. Já no Recife a coisa, lamentavelmente, é espalhada pela cidade toda. Esses dias, andamos tranquilos – tomando os cuidados que se toma em qualquer outra cidade do mundo – por regiões movimentadas e cheias de turista. Vimos, inclusive, grupos de visitantes estrangeiros montados em jipes, estilo safári, prontos para fazer um Favela’s tour (vide foto) que é programa
imperdível para quem vem de fora. Para muitos, vir ao Rio e não entrar numa favela é o mesmo que ir a Roma e não ver Francisco. Engraçado que, vendo aquilo, me arrependo, até hoje, de não haver ido a Soweto, quando estive em Johanesburgo (África do Sul), por conta do temor da minha mulher. Que besteira. Outro must do turismo no Rio de agora, é visitar o Complexo de favelas do Morro do Alemão, subindo no teleférico que foi ali implantado. Dizem que o panorama que se avista é deslumbrante. Botequins e bares da área estão preparados de portas abertas para os visitantes locais e de fora. A propósito disso, está na hora do Recife tirar vantagem da presença de tubarões nas suas praias. Na Austrália, por exemplo, existem programas especiais de turismo, aproveitando a “fartura” dos tubarões nos mares do país. Turista adora esses exotismos.
E falando de botequim, uma dica: paramos no Garota da Urca para tomar um chope e terminamos comendo o melhor contrafilé grelhado que se pode desejar. Além do que curtirmos o espírito carioca no melhor da sua essência e a belíssima vista da enseada de Botafogo (foto lá em cima), com o Cristo Redentor, no Corcovado, de braços abertos chamando para um abraço.
Mas, não sendo míope, vejo que nem tudo são flores. Há também aqueles que não têm a sorte de encontrar o sucesso e “sobram na curva”. Foi o caso do baiano Alcino (nome fictício) que foi à Copacabana para ver o Papa e, até agora, vive perambulando nas ruas do bairro. Vide a Foto e atente para o detalhe da valise do cara, que diz “I Love Rio”. Não é incrível? Ele parece viver de esmolas, numa cidade que lhe é hostil, mas sem perceber faz a propaganda da mesma. Só mesmo no Brasil acontece uma coisa assim.

NOTA: As fotos são da autoria do Blogueiro