domingo, 31 de maio de 2009

Onde se vive bem?

A última postagem que fiz, falando de São Paulo, suas mazelas e virtudes, rendeu-me uma serie de comentários, no próprio Blog ou em encontros pessoais. Muitos não entendem como posso gostar de uma cidade tão poluído, tão cara e tão insegura.
Minhas explicações foram, de algum modo, rechaçadas veementemente. “Prefiro Recife, cidade pequena, porém decente...” alguém comentou.
No tocante à insegurança, afirmei sentir mais tranquilidade circulando em São Paulo e no Rio, porque este problema nessas duas cidades tem endereços certos (de modo geral nas periferias e favelas dominadas pelo tráfico de drogas), enquanto que no Recife parece ser em qualquer lugar. Digamos que sei por onde andar nessas duas cidades em questão. Já no Recife, infelizmente, ando, por todo lado, sobressaltado. Quem acompanha este Blog, deve lembrar os relatos que fiz, entre outros, sobre os ousados assaltos na porta do meu prédio, em pleno bairro dos Aflitos. Atualmente, a vizinhança anda literalmente aflita e entrando apressada nas garagens, antes que apareça um assaltante. Resultado: somos integrantes de uma comunidade de aflitos, quem sabe para fazer jus ao nome do bairro. A policia faz rondas e plantões na região, mas, tolo é quem confia...
Tenho amigos que optaram viver no bairro de Aldeia, Camarajibe, região metropolitana do Recife, mas que já relatam casos de assaltos. Estamos sem opção.
Mas, afinal, onde se vive bem? O mundo está muito difícil. Eu disse o mundo, não foi o Brasil. O processo de urbanização, a vontade de viver com as vantagens do progresso, muito mais fáceis nas grandes cidades, as dificuldades de abrigar os imensos contingentes populacionais que migram do campo para as urbi, de países pobres para ricos, transformam o planeta num caldeirão de infinitos conflitos sociais e guerras. Tanto faz aqui, como ali ou acolá. Poucas são as ilhas de tranqüilidade.
As reações dos leitores e amigos, junto com novas reflexões, induziram-me perambular pela internet na busca de informações para compor esta postagem. No InterJornal, da PRNewswire (http://www.interjornal.com.br/) encontrei uma matéria interessantíssima: um estudo do Instituto Legatum (http://www.li.com/) publicado em Nova York, em novembro passado, dá conta dos resultados de uma pesquisa, envolvendo 104 países, classificando-os com base num certo IPG - Índice de Prosperidade Global 2008, calculando segundo o modo que esses países fomentam o crescimento econômico e o bem estar das pessoas. Brasil e México saíram empatados na 43ª. Posição, abaixo do Chile, que veio em 27º. lugar – o melhor classificado entre os latino-americanos –, da Argentina, em 31º., Uruguai no 36º. e Costa Rica classificada na 38ª. posição. Ainda no âmbito da América Latina, tive a curiosidade de conferir a situação da Venezuela que, apesar de Hugo Chaves, veio no 58º. lugar e a Colômbia que saiu no 61º posto. Outros países da América Latina como Nicarágua, Equador e Bolívia, só fui encontrar entre os piores classificados (quartil inferior) devido aos seus governos ineficientes, baixos níveis de educação, altamente dependentes de ajuda externa, desemprego crônico e baixas expectativas de vida.
Uma coisa admirável desse IPG é que considera, além do sucesso econômico, outros aspectos interessantes como fortes laços familiares e comunitários, liberdade política e religiosa, educação e oportunidade e, por fim, ambiente saudável. Numa referência maior o Índice “constata que as pessoas e os governos têm um papel na promoção da prosperidade nacional”. Alan McCormick, diretor do Legatum observou que “o índice revela que os governos sozinhos não podem determinar a prosperidade, mas podem fomentar um ambiente que encoraje a prosperidade através da redução da dependência de ajudas e na implementação de políticas inteligentes que permitam aos cidadãos viver de maneira produtiva. Os cidadãos são responsáveis por aproveitar as oportunidades que acompanham o aumento da liberdade e privilégios”.
Naturalmente que conferi, também, o ranking na sua parte superior. A Austrália é a ilha da prosperidade e da tranqüilidade que qualquer um deseja. É o país campeão dessa corrida. Lá existe progresso, liberdade e bem-estar social. Depois dela vêm Áustria e Finlândia. O Japão, país que tenho especial admiração e conheço bem, vem, para minha surpresa, somente em 13º. lugar, seguido pela França, Canadá, Noruega, Reino Unido e Bélgica, empatados no 14º. Os Estados Unidos ficou classificado na 4ª. posição. Os piores situados foram Zâmbia, Mali e Iêmen, este o último colocado. Ah! A serena e sempre neutra Suíça é a 7ª. Interessante é que minha filha mora em Sydney (vide foto acima), na Austrália, é casada com um australiano, e me conta maravilhas de viver por lá. Vive dando graças a Deus pelo clima de segurança, progresso e oportunidades para todos. Saiu daqui e, em menos de um mês, conseguiu um bom emprego. O marido dela passou um ano e meio entre nós, não conseguiu espaço no mercado de trabalho, por ser estrangeiro, foi assaltado em frente de casa, arrumou as malas, pegou a esposa pelo braço e “picou a mula”. Vivo tranqüilo com a felicidade deles. E, agora, não vejo a hora de levantar vôo para ir conferir esse paraíso. Danado é que, já antevejo a vontade que vou ter de ficar por lá... Quem não quer viver num lugar seguro? Mas, eu volto! Sou brasileiro, até no nome, e aqui é meu lugar.
NOTA: Foto obtido no Google Imagens

domingo, 24 de maio de 2009

São Paulo: um Exercício de Paciência

Viver numa megalópole é um desafio... muitas vezes prazerosos e, por vezes, desgastantes. Digo sempre que sou um urbanóide confesso. Gosto das grandes cidades. Talvez, porque acho bom circular como uma figura comum e não ser reconhecido. Faço, com prazer, longas caminhadas e procuro sempre observar o comportamento da gente, do transito e da cultura em geral.
Talvez por isso, ao contrário de muita gente, eu gosto muito de ir a São Paulo, a maior metrópole brasileira. Acabo de regressar de mais uma dessas visitas, que me tomou cinco dias dessa semana que termina.
Comecei falando de desafio, prazer e desgastes. É isso mesmo. Viver São Paulo é um pouco de cada uma dessas coisas. É preciso saber viver cada situação. É o tipo de cidade que você gosta ou desgosta. Não cabe um meio termo. Eu, simplesmente, gosto.
Cada vez parece ser uma vez diferente. A cidade instiga o visitante para que olhe sempre por um novo prisma, um novo ângulo, uma nova imagem, que, aliás, sempre aparece. Nesses cinco dias observei coisas bem comuns na vida do paulistano, senão vejamos.A primeira coisa que me ocorre comentar é o desafio do trânsito. Perde-se muito tempo nos deslocamentos urbanos. Esses dias, acho que na sexta-feira, sintonizei uma estação de radio que transmite um tal de radar do transito, para conferir a situação e saber dos pontos críticos e dos engarrafamentos da hora, que chegavam a marca dos 160 km., por todos os lados da capital. Bendito radar, porque orientado por ele, fugi de alguns trechos críticos e consegui chegar a tempo num compromisso.
Vencido o desafio do transito, outra cena interessante testemunhei num estabelecimento industrial que visitei, nos arredores da cidade, à margem de uma rodovia importante. A visita havia sido agendada previamente por um amigo, que acompanhei – cliente da empresa – com o diretor principal da fábrica. Fomos muito bem recebidos, com direito a brinde de luxo na saída, mas, uma coisa deixou-me surpreso: durante 40 minutos conversamos, sem que ele fizesse a gentileza de convidar para uma mesa. De pé, na entrada do seu gabinete, numa boa. Desenvolveram-se inúmeros temas, inclusive de negócios. Ambas as partes mostravam-se interessadas em cada ponto discutido e o clima era de perfeito entrosamento. Lá pelas tantas, quando algumas coisas pareciam estar acertadas, o dito diretor convidou-nos para um café. De pé, claro! Depois do cafezinho esperto, fomos convidados a fazer um tour pelo chão da fábrica. E, aí então é que não tínhamos, mesmo, de nos sentar. O estabelecimento é novíssimo. Uma beleza de instalações. Deu gosto de ver. Lindíssimo. No final de visita, guiada por um outro diretor, passamos por uma ala com oito salas de reunião! Moderníssimas, equipadíssimas e confortaveíssimas! Quase não acreditei que havia salas de reunião por ali. Moral do episódio: paulista não perde tempo com reuniões cheias de trololós infindáveis. Conversa comprida, nunca. Com ele é pei-pei ou buft-buft. Por isso, se diz que São Paulo anda correndo e nunca pára! Quando voltei para o carro, achei ótimo sentar... um alivio.
O dia de trabalho termina e, outra vez, o transito vira um caos. Não fosse o radar da estação de rádio, outra vez também, e não sabíamos a razão de tantos engarrafamentos. Ao volante do meu veiculo locado, espero, espero, espero... o transito fluir. Meu amigo no assento ao lado, cansa, dorme, ronca e acorda assustado com o próprio ronco. Meio dormido, meio que acordado, pergunta: “onde estamos? que foi que aconteceu? o que é isto?” Minha resposta: “É São Paulo, meu caro! Durma”. É preciso paciência. Se estiver de carona, sente sono, mesmo. Como há sempre uma novidade pela frente, eis que surge um vendedor, em meio a muitos outros, oferecendo pipocas, vestindo uma camisa do Sport Club do Recife. Abro a janela, olho bem nele, ele corre e vai me dizendo que está fresquinha e crocante, “somente R$ 1,00, Doutor”. Minha resposta é com o grito de guerra do casá, casá, a turma é mesmo boa... Ele logo entendeu que estava diante de um pernambucano. Vibrante me disse que era rubro-negro até a alma, recifense, fugido da Favela do Rato, tentando vencer no frio da São Paulo e escapando da policia que, a toda hora, dá carreiras nos ambulantes da Avenida Tiradentes. Vida de imigrante nordestino... São muitos por lá.
A noite cai, o clima fica bem agradável, na casa dos 17ºC, e chega a hora de procurar uma restaurante para jantar. É o que não falta e só dá dos bons. Como o restaurante escolhido está em São Paulo, tem fila de espera. Outro exercício de paciência. “Os senhores vão esperar pelo menos meia hora. Aguardem ali, no bar. Aproveitem tomem um aperitivo” disse a recepcionista, com maior tranquilidade. Meia hora, não é nada.
A gente espera... a gente observa... a gente degusta um bom prato e a gente faz negócios. Ah! a gente, também, compra, a preços bons, de um tudo que deseja consumir. São Paulo é o paraíso das compras. Adoro São Paulo.
Visite São Paulo. Mas, vá com boa vontade e paciência. Faça este exercício. E, cá pra nós, leve dinheiro, viu!
Nota: Foto obtida no Google Imagens

sábado, 16 de maio de 2009

COMEMORANDO O INCABÍVEL

Eu já havia iniciado um comentário critico sobre a situação da violência urbana no Recife, quando notei que, na mesma ocasião, festejavam os dois anos do programa Pacto pela Vida, do Governo estadual. Isto foi no inicio desta semana. Propaganda em jornais, sessão especial na Assembléia Legislativa do estado e outras comemorações mais.
Surpreso com um “foguetório” incabível, fui buscar explicações nas matérias e estatísticas publicadas.
Lembrando que Recife já foi “eleita”, poucos anos atrás, a cidade mais violenta do Brasil, a primeira coisa que me ocorreu foi passar pela Rua Joaquim Nabuco, bairro das Graças, no Recife, e conferir o contador de homicídios – imenso painel luminoso que informa, sem pena e de forma constrangedora, o número de assassinatos cometidos no estado de Pernambuco, no ano, mês, semana e dia – maneira estranha, fria e chocante de chamar a atenção publica para um dos mais aberrantes problemas sociais do Recife, Pernambuco e do Brasil. Aquela contagem lá, não pára de crescer. Observo-o sempre de modo incrédulo.

Por outro lado, descobri um dado estarrecedor: no primeiro trimestre deste ano foram cometidos 1.238 assassinatos, em Pernambuco. E, veja bem, são dados da Secretaria de Defesa Social do Estado. Isto representa quase 5% a mais do que o mesmo período, no ano de 2006. O mesmo informe dá conta que o mês passado foi o mais violento do ano com 473 execuções. E o Governo que aí está garante que a coisa está melhorando e que a situação é bem melhor do que a do governo passado. Futricas políticas. Sei não... Deus que me livre, e a minha família, de uma dessas tragédias.
Fruto de uma impunidade desmedida, os assassinatos são cometidos a toda hora, em todos os espaços e sem ter nem para quê. Dolorosa situação para uma sociedade que, cada vez mais, prefere viver “aprisionada” em casa, temendo sair com qualquer que seja o propósito, temendo não retornar. Hoje em dia, sair à noite é, para mim, um dos maiores sacrifício. Tenho medo, sim.
Na prática nossa policia tem se revelado incapaz, insuficiente e, particularmente, incompetente. Os investimentos, que dizem são feitos, parecem ser sempre insuficientes e não conseguem mudar a situação. É uma calamidade. Assaltos são cometidos a toda hora, muitos são latrocínios, assassinatos nos âmbitos domésticos e sem motivos concretos, estupros seguidos de assassinatos, infanticídios bárbaros, enfim uma violência desmedida e crescente. É verdade que se trata de um problema nacional, mas no Recife o problema aparenta ser insolúvel. É demais.
Por tudo isso, acho um desplante desse Governo promover uma comemoração dos dois anos de sucesso do citado programa. Melhor seria calar. Para que comemorar em Palácio, se na praça a violência impera?
Minhas criticas poderiam ter ficado por aqui. Mas, acontece que duas coisas me surpreenderam e abalaram no decorrer da semana. Merecem ser registradas, para ilustrar minha revolta. A primeira, aconteceu no auge das comemorações do Pacto, foi o bárbaro assassinato do jovem Igor Siqueira Duque, em pleno meio dia, numa das avenidas mais movimentada da cidade. Jovem de 28 anos, cheio de vida e projetos, ex-colega do meu filho, na escola secundária. Igor voltava do trabalho para casa e, a menos de 500 metros do seu destino, teve a vida roubada com uma bala mortífera no pescoço. Os assassinos fugiram e só Deus sabe o paradeiro. Dizem que a policia anda no encalço dos dois. Como o rapaz era filho de uma juíza de Direito, pode ser que a coisa tenha resultado. Foi uma coisa muito triste e muito próxima de nós. Para mim, que tenho um filho na faixa etário de Igor, é um verdadeiro sufoco ver meu filho sair de casa para trabalhar, se divertir ou qualquer outra coisa. Peço a Deus que o proteja e louvo-O quando o vejo de volta.
A outra coisa que me deixou revoltado, desanimado e profundamente decepcionado foi a matéria de ontem do jornal britânico The Independent, denunciando a matança de seres humanos no Recife. Isto é péssimo! Para mim que tenho orgulho de falar sobre as belezas e atrativos turísticos do meu estado e da minha cidade, nas minhas andanças mundo afora, foi como uma ducha bem gelada. Estremeci e enchi-me de tristeza. O jornalista Evan Williams chamou o Recife de “capital brasileira dos assassinatos”. O repórter passou pelo Recife, impressionou-se com a situação local e destacou no jornal londrino o número absurdo de assassinatos, o perfil das vitimas e, o pior, a participação de frios policiais em grupos de extermínios. É de lascar... Ah! Fez, também, um registro para o estranho painel, no meio da cidade, que indica o número de assassinatos, por freqüências.
Meus amigos, sinceramente, é certo comemorar esse tal de Pacto pela Vida, no meio de tantas barbaridades? Melhor seria trabalhar em silencio e não gastar dinheiro publico com propaganda enganosa, incluindo participação de ator global. Pobre Recife...
Nota: Foto obtida no Google Imagens

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Attenzione, i brasiliani sono prossimi!

Com pouco mais de vinte anos de idade fui, pela primeira vez, à Europa. Em Florença, na Itália, assisti a uma cena inesquecível: integrante de um grupo grande de brasileiros, em excursão pelo Velho Mundo, ao entrarmos no famoso Mercado da Palha, local de grande atração turística, houve como um corre-corre dos comerciantes. Ouvi claramente de uma velhota: Attenzione, i brasiliani sono prossimi! Traduzindo: Atenção, os brasileiros estão chegando! Surpreso com aquele vexame, perguntei ao Senhor Barros, nosso guia português, a razão daquela coisa. A resposta: “Muitos brasileiros que visitam este mercado roubam mercadorias dos comerciantes”. Aquilo foi como um soco na boca do meu estômago. Todas as vezes que voltei por lá, lembro desse episódio. Digamos que, virou trauma.
Esta é uma das coisas que jamais compreenderei. Fico muito incomodado com essa fama de ladrão do brasileiro. É impressionante. Que DNA mais desgraçado!
O tempo passou e, de fato, as coisas, a meu ver, não mudam. Em pleno século 21, o Brasil assiste, diariamente, ao vivo e a cores da TV, o progresso da gatunagem. E parece que agora está como nunca. Ou mais divulgado, talvez. A toda hora, aparecem ladrões vindos de todas as classes sociais. Com gravatas, sem gravatas, sem camisa ou vestido, homem, mulher, crianças, cínicos, disfarçados, tranqüilos e serenos, como se nada houvessem feito.
Pior é que o modelo maior está lá em cima. Misturado com os três poderes! Haja vista para episódios como mensalão, sangue-suga, farra de passagens aéreas, operações satiagraha e castelo de areia, dólares na cueca, depósitos nos paraísos fiscais, caixa 2, superfaturamento de obras, propinas, tocos, saldo de campanha, além dos “fichinhas” que são os assaltos a bancos e ao cidadão indefeso, roubos pela internet, seqüestros, batedor de carteira e muitas outras modalidades. Todo dia aparece uma nova. A zorra é tão grande que já tem ladrão roubando ladrão, que corre na Policia para registrar um BO e é “convidado a ser hóspede” lá mesmo, atrás das grades.

Francamente, é uma lástima viver num ambiente desse. A coisa parece que está, mesmo, no sangue. Facilitou, o sujeito é roubado. A coisa já, digamos, ficou banal!
Outro dia, minha empregada, há dez anos, toda confiante enquanto servindo meu café da manhã, teve a petulância de declarar que “acha bonito o pobre roubar do mais rico”. Dei um pulo na cadeira, passei-lhe um especial e ameacei demiti-la. Ela ficou sem jeito, gaguejou, pulou de um lado pra outro e tentou se “explicar melhor”. Não adiantou, a besteira havia sido cometida. Não demiti, mas ando com a “pulga atrás da orelha!” Coçaaaaando...
Mesmo saturado, habituado e cansado de acompanhar a bandalheira do patropi, fiquei pasmo com o noticiário de ontem, sobre as fraudes no Bolsa-Família. Foi demais... Imagine que, como se não bastasse o fato de que o Governo venha consolidando uma sociedade paternalista, quando “dá o peixe, ao invés de ensinar a pescar”, o Programa de Combate à Pobreza anda alimentando – como pobres necessitados – um bando de ladrões, nos quatro cantos do país. Ficou provado em auditoria. Uma vergooooonha.
O Tribunal de Contas da União publicou, ontem, um relatório que traça o perfil da indecência do brasileiro comum. Uma verdadeira praga! Os benefícios do Bolsa-Familia foram pagos a 577 políticos eleitos nas eleições de 2004 e 2006, fora mais 39.937 suplentes; 3.791 mortos; 106.329 proprietários de automóveis, caminhões, tratores ou motos e mais de 1 Milhão de famílias com renda acima do permitido. Resultado é que 312.021 famílias estão recebendo ilegalmente recursos do Programa, dando um prejuízo mensal, aos cofres da União, no montante de 26,5 Milhões de Reais. Não é um abuso? Abuso não, é uma tragédia. E pensar que somos nós, os contribuintes idiotas, que pagamos essa pouca vergonha, é de matar do coração.
Tem jeito não. Eu cresci vendo meu pai reclamar da ladroeira que assolava o país. Ele me dizia que não alcançaria o país de vergonha que sonhava. Ficava para a minha geração... Coitado, que ilusão! Eu não tenho esperança nem para os tempos dos meus netos. Do jeito que a coisa vai, a farra vai, ainda, muito longe.
Nossa fama, no Mercado da Palha de Florença, dificilmente vai se apagar. Passará de geração à geração de comerciantes. Curioso foi que, em 2005, visitando o mesmo Mercado, junto com minha esposa, tomamos conhecimento, por um comerciante ítalo-brasileiro local, do episódio do ladrão político preso no aeroporto de São Paulo, com os dólares na cueca. Aquilo foi demais, para mim. Diga mesmo, não foi uma ironia?
NOTA: Charge obtida no Google Imagens

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Quem vê cara, não vê coração. Nem voz...

Ela entrou no palco toda desengonçada. Pelo andar parecia que usava um par de sapatos apertados, cabelo desgrenhado, vestido démodé e, para completar, bem feiosa, se comparada aos padrões de beleza vigentes.
Na entrevista de praxe, foi descontraída com os jurados e, em poucos instantes, mostrou-se, praticamente, como sendo uma figura meio alienada. Teve a tranqüilidade de confessar a idade de 47 anos e, incrível e sem necessidade, declarou que nunca havia sido beijada. Uma graça.
O público não lhe dava crédito e levava a coisa em meio a uma pândega. O júri, este, cumprindo seu papel, parecia que fazia uma caridade.
Diante de uma platéia imensa e certa de que seria apenas mais uma calouro inexpressiva, a britânica Susan Boyle teve sua chance de dizer porque encarou aquele desafio, de um dos mais importantes, quiçá o mais importante, programas de calouros do mundo.
Autorizada a cantar, a mulher feia e sem charme, abalou! Aos primeiros instantes de interpretação a platéia parou, o júri caiu na real e uma belíssima voz se revelava ao mundo da música. O auditório “desabou” em aplausos e o júri ficou atônito.
Susan é escocesa e se tornou uma celebridade mundial em 11 de abril passado no reality show Britain’s Got Talent, cantando “I Dreamed a Dream”, sucesso do musical “Os Miseráveis”.
O choque que ela provocou, com um contraste gritante entre a primeira impressão e a voz que soltou foi, certamente, o maior acontecimento artístico do mundo, em abril de 2009. Inesquecível. A imagem desajeitada, com uma voz sublime correu o mundo em menos de 24 horas. Simon Cowell, um chato de galochas, pernóstico, tipo sabetudo e famoso por seus julgamentos implacáveis, tanto na Inglaterra, quanto nos Estados Unidos, mostrou-se profundamente surpreso com o que via, a ponto de propor rapidinho (ele é uma águia) um contrato de exclusividade com a figura. No projeto de Cowell constam gravações de CDs e filmes. Um filme contando a vida de Susan. Comenta-se que Demi Morre vai viver Susan na tela.
Descobri no Google (ele sabe de tudo!) que ela é a caçula de uma família de dez filhos, que teve dificuldades ao nascer, inclusive falta de oxigênio que casou danos cerebrais, durante o parto. Tida como uma pessoa com dificuldades de aprendizagem, abandou os estudos e foi trabalhar na cozinha de um colégio. Encasquetou a idéia de ser cantora depois de ir aos teatros assistir cantores profissionais. Teve lições de canto com um tal de Fred O’Neil.
Quando o pai de Susan morreu, os irmãos abandonaram a casa, deixando a limitada irmã caçula cuidando da mãe doente, que veio a falecer em 2007. Sozinha, ela vive até hoje na casinha da família, de quatro cômodos. Ela e um gatinho de estimação. No leito de morte, a mãe foi sua maior incentivadora para assumir a carreira de cantora e foi o que influenciou sua inscrição no Britain’s Got Talent.
Susan é uma desempregada e, por isto, não param de surgir oportunidades de ganhar muito dinheiro. Um gaiato, produtor de filmes pornôs, se apressou em oferecer a oportunidade de Susan “unir o útil ao agradável”: participar de um dos seus filmes, no qual seria beijada muitas vezes e, inclusive, perderia a virgindade. Cachê de quase R$ 4 Milhões. Haja dinheiro! Mas, ela não aceitou. Já pensou, perder uma grana preta dessas?
Interessante mesmo foi que, depois de vitoriosa, Susan explodiu com uma declaração curta e correta: “Eu sabia o que eles estavam pensando, mas por que isto me preocuparia se eu sei cantar? Não é um concurso de beleza”.
Quando Susan terminou de cantar, uma jurada do programa, Amanda Holden, foi taxatixa: “Eu estou tão chocada porque todos estavam contra você. Eu vejo que nós fomos arrogantes, e você nos deu a maior lição que precisávamos. Só gostaria de dizer que foi um privilégio escutar você aqui”.
Pois é. O que mais me chama a atenção nisso tudo é o fato de que o mundo não valoriza a beleza interna das pessoas. Só olha para sua aparência externa. Desengonçada e feia, uma pessoa nem sempre tem uma chance. Susan foi uma exceção.
Conheço muitas pessoas, principalmente mulheres, feias e sem charme, que merecem meu respeito e minha amizade porque é nelas onde mais encontro essências e substancias preciosas. Valorizo a “embalagem”, é claro, mas dou muito mais valor no que essas pessoas sacam de dentro dos seus Eus e me oferecem, sem cobranças, por amizade pura, coisa rara neste mundo de concorrências desonestas e selvagens.
Moral da história: “Quem vê cara, não vê coração”. Nem voz!

NOTA: Foto obtido no Google Imagens e não deixe de ver um dos filminho inseridos no Blog. Veja em cima, a direita.