sexta-feira, 31 de julho de 2015

Furna do Estrago

A presença de primitivos habitantes na região do Agreste Central de Pernambuco, de modo particular no município do Brejo da Madre de Deus, é coisa que ouço falar em família desde que eu ainda vivia minha primeira infância. Em Fazenda Nova, onde moravam meus ancestrais maternos e era meu destino favorito nas férias escolares, este assunto era frequente. A história relatada pelos antigos moradores e caçadores da região dava conta de que havia existido tribos indígenas habitando a região do Brejo. 
Naquela época não me passava pela cabeça a ideia de ir aos mencionados locais – eu pelava de medo – e nem imaginava que se tratava de coisas pré-históricas. Mas, o tempo passou, a idade da razão fez-me entender melhor os fatos e, agora, que atingi uma curva fechada do meu tempo de validade, agucei a curiosidade indo sem medo, conhecer a famosa área da qual fugi “como o diabo foge da cruz” nos ontem da vida.
No passado fim de semana, tive a chance de conhecer o Sítio Arqueológico da Furna do Estrago, nos arredores da cidade do Brejo da Madre de Deus (PE), onde existem preciosos registros da passagem dessa gente primitiva. Fiquei surpreso ao saber que Arqueólogos, Pesquisadores e Historiadores, que estudam a área, estimam que os primeiros indivíduos estiveram por ali há 11.000 anos! 11.000, gente! Cá pra nós, é um bocado de tempo! Uma segunda leva passou por lá há, aproximadamente, 8.000 anos e, por fim, um terceiro grupo há 2.000 anos.
O local que fomos conhecer serviu, há milênios, de abrigo temporário para essas tribos, durante a Era Glacial, quando a Terra estava coberta de gelo. Somente o terceiro contingente de aborígenes teve condições de migrar para as regiões ribeirinhas locais que se formaram, após o fim da glaciação. Foram estes, justamente, que deixaram os mais concretos vestígios das suas formas de vida, hoje preservados graças a uma iniciativa de um grupo de estudiosos cientistas e alunos da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP, onde, aliás, é mantido um museu com preciosas relíquias.
Confesso a emoção que senti ao lembrar-me da época de infância quando tremia de medo daquelas histórias. As viagens frequentes entre Fazenda Nova e Brejo da Madre de Deus eram para mim, em certo trecho, um suplicio devido ao temor que alimentava de sermos surpreendidos por uma emboscada indígena.
Hoje, com visão efetiva do que de fato aconteceu por ali milênios passados, a situação é  permeada de fascínio e muita curiosidade. O acesso ao local é relativamente fácil. A partir dos arredores da cidade do Brejo da Madre de Deus, o visitante empreende uma subida íngreme nas encostas da serra da Boa Vista, também conhecida como Serra do Estrago, até atingir a Furna do Estrago onde os arqueólogos descobriram um cemitério indígena. Para os que desejem visitar o local, aconselha-se a ajuda do guia local, o Senhor Tadeu Tavares de Souza, (Vide foto a seguir), que conhece cada
palmo de terra do local e é proprietário de um sítio, que serve de porta de entrada para o Parque. No inicio da trilha é possível admirar um roçado verdejante, onde Tadeu mantém sua cultura de subsistência (milho, feijão, jerimum, mandioca etc.) e dez cabeças de bovinos, numa demonstração de vida atual e dinâmica. Com poucos metros de distancia tudo passa a ser História. A vegetação da Caatinga  passa a dominar, o solo arenoso e pedregoso acidentado exige maior atenção e um crescente plano inclinado denuncia que estamos subindo a Serra. Respiramos fundo, seguramos melhor as pisadas e, aos poucos, alcançamos uma espécie de pátio amplo, debaixo de um arvoredo frondoso (uma árvore fincada nas rochas chama atenção – vide foto) onde os indígenas mantinham uma espécie de praça, com toscos bancos de granito, onde supostamente se reunião para trabalho e lazer. Vide foto a seguir. O ambiente arejado ali alcançado, sugere uma breve parada para refrescar, embora que ainda não seja o ponto final.

Um pouco mais de subida e eis que se chega ao ponto objetivo da trilha: a Furna que serviu de abrigo durante a Era Glacial e há 2.000 anos serviu de cemitério daquela gente primitiva. Escavando o local nossos arqueólogos encontraram esqueletos de adultos e crianças (sessenta ao todo) em bom estado de conservação e, junto a esses, peças de adornos pessoais dos mortos e instrumentos de defesa, como tacapes.
O ponto alto da visita, que encanta o visitante, fica por conta de uma série de pinturas rupestres, que testemunham de modo vibrante traços da cultura dessa gente que nos antecedeu. Admirável a forma como estão preservadas. Eles utilizavam material de origem vegetal e mineral. De coloração ocre, devido a origem do material utilizado (minério de ferro), as figuras contrastam com o cinza-grafite do granito que serviu de tela. As imagens são de figuras humanas, de animais ou simplesmente geométricas. Ver aquilo mexe com o sentimento humano do visitante e induz a um relacionamento concreto com o passado.
É sempre bom fazer uma trilha nessas plagas brejenses. É um Pernambuco pouco conhecido e carente de divulgação. 
Nessas horas, sinto orgulho de ser pernambucano. Orgulho dos meus antecedentes. E aí, não dá para alimentar dúvidas... Tenho sangue indígena nas minhas veias. Que maravilha. 
A seguir, fotos do nosso grupo na descida da serra.  


NOTA: Fotos das autorias do Blogueiro e de Lúcia Santos, integrante do grupo de visitantes.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sempre nova Fazenda Nova

É bem comum que admiremos mais os lugares distantes e esqueçamos o belo que temos por perto. Parece que o simples fato de saber que determinada atração turística se encontra à mão, termina sendo sempre deixada para depois. Cariocas que nunca subiram ao Corcovado e pernambucanos que nunca assistiram à encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém é fato bem mais comum do que se imagina.
Estes últimos dias, andei pensando sobre essa coisa, ao visitar por duas vezes um mundo que, embora fazendo parte da minha história de vida, vem sempre me surpreendendo e se renovando com sua paisagem peculiar de Agreste Semiárido. Refiro-me às plagas pernambucanas de Fazenda Nova – terra dos meus ancestrais – e Brejo da Madre de Deus, localidades situadas na Região do Agreste Central  de Pernambuco.   
Muitos são os pernambucanos que não têm ideia da riqueza natural daquele mundo mesclado de aridez e brejo, de serras e vales formando um ecossistema que pode deslumbrar um visitante.
Em Fazenda Nova, além da Nova Jerusalém, o visitante não pode deixar de visitar um museu a céu aberto, o Parque das Esculturas Nilo Coelho, para admirar as obras de arte esculpidas e cinzeladas no granito bruto da região, por artistas da terra, formados pelos admiráveis mentores, Diva e Plínio Pacheco, durante a construção da cidade teatro. Foi muito suor e sangue nas veias para extrair a pedra, tratá-la e transformá-la numa permanente exposição de figuras populares do povo nordestino. Vide fotos a seguir.
Num ambiente onde arte cênica abunda, a Mãe Natureza parece aderir ao movimento e se engalana para deslumbrar o visitante. Não é à toa que muitas companhias e produtores de cinema escolhem a região para locação das suas produções.
Outra característica local é a afabilidade da gente local. Antenados e atualizados, no tempo e no espaço, o homem brejense de Fazenda Nova ou da sede do município mantém sinergias diferenciadas capazes de nivelá-los aos hábitos e costumes dos grandes centros. Aliás, percebo que já não existe mais o antigo caipira, nosso tradicional matuto. A programação de TV chega aos mais escondidos grotões dos nossos interiores. Nas brenhas do Brejo da Madre de Deus (PE) é bem comum avistar uma tremenda antena parabólica sobre uma tênue casinha que inacreditavelmente consegue sustentar aquele moderno estrupício. 
Estimulado pela turma jovem (filho e sobrinhos) fiz, semana passada, um programa que nunca me atrevi, quando jovem, ao enveredar pela mata agreste recheada de cactos dos mais diversos, facheiro, coroas de frade e mandacaru, agaves, muitas cercas de avelós (Euphorbia tirucalli) e frondosos  juazeiros (Zizyphus joazeiro), entre outras espécies, para alcançar o alto de uma serra, denominada de Caiana. Trata-se de um lugar remoto, inacessível no passado e somente agora com uma trilha aberta. Nos meus tempos de menino devia ser um lugar para os caçadores mais atrevidos da região. Rara beleza é a forma que encontro para descrever. Quase tudo preservado. O homem poucas vezes andou por lá. A vegetação é de beleza indescritível e totalmente silvestre. Belo programa. (Vide Fotos a seguir) 
 O cume da Serra é uma belíssima formação rochosa, com coloração ferrugem, denunciando, quem sabe, a presença de elementos ferrosos na sua constituição. No alto daquela montanha, admirando meio mundo do meu universo e respirando puro ar da natureza, impossível não pensar: Deus existe!
Pois é. Vendo tudo aquilo me ocorre a ideia de como seria bom um maior aproveitamento turístico de áreas como a que acabo de descrever. Um teleférico ligando Fazenda Nova ao alto da Caiana, por exemplo. Faltam empreendedores, falta poupança, falta um inventário acurado das atrações turísticas no estado. Faltam... muitas coisas. Mas, a velha Fazenda Nova se revela sempre nova. 

NOTA: Fotos do Blogueiro 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Nem todo mal traz um bem

Tenho ouvido com frequência que a Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014,  foi inspirada na famosa Operação Mãos Limpas (Mani Pulite) da Itália, nos idos dos anos ’90 e destinada a apurar um grande esquema de corrupção – semelhante ao constatado no Brasil de hoje – na sequencia de outros escândalos envolvendo o Banco Ambrosiano, este misturado com a Mafia, o Banco do Vaticano e a uma Loja Maçônica, conhecida por P2. Aquilo lá foi um rolo compressor que terminou esmagando a chamada Primeira República Italiana.
Para que se faça ideia melhor, foram 2.993 mandados de prisão, 6.059 pessoas investigadas, inclusive 872 empresários, 1.978 administradores de governos locais e 438 parlamentares, entre os quais quatro ex-primeiros-ministros. Como aqui, a Itália estava metida num propinoduto sem limites, envolvendo negociações de todo e qualquer tipo de contratos do Governo. Detalhe: o início da coisa foi dado a partir de denúncias de um dissidente do Partido Comunista Italiano – PCI que abriu do verbo e revelou que a KGB havia financiado o tal PCI, com pelo menos US$ 4,0 milhões, para sustentá-lo no poder. O Partido Comunista italiano era respeitadíssimo no mundo comunista da época pela sua atuação e liderança. Também pudera, com um caixa altíssimo sustentado por Moscou. Essa denúncia foi inicialmente deixada de lado, para tranquilidade da maioria dos políticos e empresários que se locupletavam do espúrio sistema. Mas foi o próprio Partido Comunista que resolveu reagir, inclusive com respaldo da opinião pública revoltada, passando a cascavilhar o que havia sido empurrado à penumbra.
Faltaram celas nas cadeias italianas para industriais, políticos, advogados e magistrados. Uma dúzia deles cometeu o suicídio. O suicídio mais ruidoso foi o de certo multimilionário, Raul Gardini, (foto a seguir com manchete de jornal da época) empresário “bem sucedido” e muito admirado pelos italianos. Fugas cinematográficas foram registradas. Os empresários pagavam propinas polpudas aos políticos para vencer licitações de construções de ferrovias, autoestradas, edifícios públicos, estádios e na construção civil. Qualquer semelhança (com o Brasil) é pura realidade. Institutos de pesquisas italianos  garantem que o valor médio das obras públicas caiu de modo expressivo, o que seria indício da queda no superfaturamento que se praticava, antes.
Como se pode constatar, o modelo de governar italiano serviu de exemplo para a turma de ladrões brasileiros. Esse juiz Sérgio Moro deve ser um profundo conhecedor do caso italiano e por isso o refere com alguma frequência em seus escritos e declarações. Veja foto a seguir, capa de trabalho publicado em 2004.
Foi Ludwig Von Beethoven que disse uma vez: “tenho paciência e penso: todo mal traz consigo um bem”. Tomo emprestadas as palavras do virtuoso acreditando que o Brasil pode estar sendo passado a limpo com essa devassa que se faz no mundo político-empresarial do país. Estamos atolados numa crise sem precedentes. Porém, alimentemos a esperança de que dias melhores virão, embora nem tudo esteja garantido.
Segundo um amigo italiano, a Mãos Limpas fez um tremendo esforço de limpeza moral na Itália sem, contudo, resolver o problema pela base. O vírus continua bem vivo. A corrupção ainda rola solta na Republica Itálica. Nem a onda severa do Euro deu jeito. O caso mais gritante, no passado recente, tem como personagem central o ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, implicado na Operação e que astutamente se conservou, por longos anos, no Poder. “Pintou e bordou” nos vários poderes do país, sempre em beneficio próprio e engordando sua conta bancária. Um cínico.
O italiano, de modo geral, conclui hoje que a justiça do país não funciona e que a corrupção é um dos principais obstáculos para o desenvolvimento sonhado pelos italianos.
No final da Operação Mãos Limpas, os tradicionais partidos políticos sumiram, a classe empresarial sucumbiu, o setor público segue desacreditado e nunca mais o país gozou do prestigio de dantes. Prestigio calcado num lamaçal de fazer vergonha à sua História esplendorosa.
Fico então, com este exemplo, preocupado com o que virá pela frente aqui em Pindorama. Os políticos e seus partidos estão desmoralizados e as megaempresas envolvidas estão com seus lideres na cadeia. Muitas em franco declínio. Alguns em recuperação judicial. Pelo caminhar do Processo as grandes empreiteiras não terão – pelo menos por longo período – oportunidades de participar de concorrências públicas que é, digamos, o filé dos seus negócios.  Temo que novos aventureiros, inclusive estrangeiros, tomem conta da fatia. O Governo tem incontáveis projetos e obras paralisadas.  Já se fala em chineses sobrevoando o Brasil à cata de obras. Que perigo...
A maioria dos partidos políticos, principalmente o PT, o PMDB e o PSDB estão numa berlinda sem fim. E neste caso temo, também, que nos apareça um “Berlusconi” caboclo qualquer. O Brasil merece coisa melhor.  Aí, minha gente, sou forçado a considerar que nem todo mal traz um bem. Vamos torcer pelo melhor.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.


sábado, 11 de julho de 2015

O que está ruim pode piorar

Quem sabe, dentro de alguns dias, D. Dilma venham a ter razão ao afirmar que a crise internacional seja a responsável pelas sérias dificuldades pelas quais passa, atualmente, a economia brasileira. Sim, porque até agora não passa de uma “desculpa de amarelo”. Tem sido apenas uma tentativa de enganar a comunidade internacional. A crise de hoje foi toda forjada aqui dentro no governo dela mesma. E as perspectivas não são nada boas...
Vejamos, então, as razões das perspectivas piores: primeiro, a crise que reina na Europa, com a Grécia em clima de falência não pode ser nada bom para meio mundo, incluindo o Brasil. Tudo vai depender das negociações que rolam, neste fim de semana, entre a República Helênica e as autoridades da União Europeia, em Bruxelas. As responsabilidades que os gregos assumirem e as possibilidades de executá-las, definirão o quadro a seguir. A dívida, que é impagável, com o acréscimo que agora pleiteiam do Banco Central Europeu (Vide foto a seguir), de Euros 53,4 Bilhões, se tornará do tipo que vai levar para as calendas gregas (*). Se já era difícil antes, acredito que pior será daqui prá frente.

O segundo motivo, no qual D. Dilma pode se pendurar, é o que se desenha prasbandas da China. A coisa começa a se complicar por lá, também. E esta pode ser uma razão muito mais forte do que a primeira. Nossa dependência é bem maior neste caso. Tudo indica que “estourou uma bolha” que os filhos de Mao inflaram nos últimos anos. O dragão se agitou e anda querendo pegar a turma que esbanjava. A Bolsa de Xangai deu um chabú, em três semanas registraram-se perdas de US$ 3,2 Trilhões (na China os números são sempre fora do normal!), o Banco Central Chinês socorreu com uma injeção de US$ 81,0 Bilhões para os grandes bancos do país, mas, a coisa não garantiu a recuperação. Os chineses estão com as mãos na cabeça.  (Fotos a seguir)

  
Ao mesmo tempo, o FMI reviu seus estudos e já antecipou, esta semana, que a economia brasileira, ao invés de recuar 1%, como anunciado antes, vai decrescer 1,5%, este ano. Olha aí, pessoal, o resultado disto é que o que estava ruim pode ficar pior.
Diante de tantas incertezas, tive a curiosidade de pesquisar dados das relações comerciais entre o Brasil e as duas economias em crise. Consultei as estatísticas do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e descobri coisas bem concretas e que podem revelar os riscos que corremos. Vejamos a seguir.
Com a Grécia – ela em separado – nossas relações comerciais são irrisórias, não causam nenhum temor, nossas exportações, para aquele destino, não passam de US$ 0,1 Bilhão. O país, além de ser um minúsculo mercado (11 milhões de habitantes) foi em 2013 nosso 82º parceiro comercial. Representa 0,1% do comercio exterior do Brasil. Isto, então, não é nada. Os produtos principais das nossas vendas são: café (40% das exportações), açúcar, calçados, fumo, minério de ferro e automóveis. Tudo em quantidades insignificantes em se falando de comércio internacional. O saldo da balança comercial é sempre favorável ao Brasil. US$ 36,0 milhões em 2013.
Já no caso da China a conversa é outra. Mercado fantástico de 1,3 Bilhão de Habitantes e PIB de US$ 10,36 Trilhões. Pense no que seja abastecer esse mundão! Somente em 2014 o Brasil mandou, para consumo dos chineses, toneladas de mercadorias, de diferentes naturezas, que resultou num valor total de US$ 46,0 Bilhões. O Brasil é o 7º maior vendedor para o mercado chinês. Observem que isto representa muita coisa. Ao mesmo tempo, é verdade, compramos deles toneladas de produtos, sobretudo manufaturados (98% das compras), mas, o saldo da balança comercial tem sido sempre favorável ao lado brasileiro. Em 2014 foi de US$ 3,28 Bilhões. É bom, ? Se os chineses entrarem em recessão as exportações brasileiras poderão sofrer tremendo baque. E aí, vem a pergunta mais adequada: para onde venderemos as “montanhas” de soja, minério de ferro, petróleo bruto, açúcar e fumo que habitualmente são produzidas justamente para atender as demandas daquele destino?
Desse modo, minha gente, preparemo-nos para escutar discursos atualizados da nossa “presidenta”. Certamente, mais clamorosos. O bicho pode (vai) pegar.

 (*)Calendas (daí o termo calendário) era o primeiro dia de cada mês no calendário romano. Não havia o termo calendas no calendário grego. Quando os romanos ironicamente falavam das “calendas gregas”, queriam referir-se a uma data que não existia.


NOTA: Dados estatísticos obtidos em www.brasilglobalnet.gov.br e fotos no Google Imagens.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Tragedia Grega

Cansei de falar e, sobretudo, criticar a situação político-econômica brasileira. Isto aqui está, a cada dia, mais conturbado. Tem “pedaladas” por todo lado e o brasileiro testemunhando os mais diversos dos descalabros políticos-institucionais, nunca antes visto na história deste país. Deixei de lado as futricas domésticas e voltei-me para o cenário internacional, onde a Grécia está ocupando o topo das pautas de trabalho. E não falo à toa, porque afinal esta confusão grega pode atravessar o Atlântico... e a turma de Brasília não sabe falar grego. Só falam, no máximo, castelhano.
Neste foco de hoje, recordo então meus tempos de Coordenador de Cooperação Internacional da Sudene e minhas participações em fóruns, realizados em alguns lugares no exterior, inclusive na Europa, quando se preparando para ingressar na Era do Euro. Havia muito entusiasmo, mas, certa inquietação também entre as economias do Bloco quanto ao futuro que se desenhava. Em países menores – socioeconomicamente falando – entre os quais Portugal, Espanha e Grécia, as interrogações eram muitas porque precisavam desenvolver tremendos esforços para se nivelar às grandes potencias da Região, particularmente a Alemanha e a França. Somente assim poderiam integrar a chamada Zona do Euro. O debate político foi intenso naquela época e muitas manifestações públicas rolaram de país a país. Lembro que na ultranacionalista França a briga foi grande. A Inglaterra consultou seu povo e disse NÃO ao Euro. Outros fizeram o mesmo. Hoje há países que fazem parte da União, mas não ao Euro.    
 A Grécia, bem como Portugal e Espanha, fizeram o possível e até o impossível para não ficarem de fora. Os estímulos das autoridades monetárias da União Europeia eram sedutores, os incentivos pró-adesão nem se fala. E, além disso, as referencias políticas que norteiam a reunião desses países, nascidas com o Tratado de Roma (25.7.1957) tendo como referencia maior a paz e união entre as nações do Velho Continente, todas cansadas de guerras. De Roma saiu a chamada Comunidade Econômica Europeia (CEE), depois secundado pelo Tratado de Maastricht (07.02.1992) que sacramentou a União Europeia e criou a moeda comum, o Euro, introduzida no mercado a partir de 1º de janeiro de 1999.
Só que, a adoção de uma unidade monetária única num universo tão dispare, como o europeu, nunca foi vista como sendo coisa simples. Longe disso. Na prática foi e vem sendo ainda uma das mais complexas experiências político-econômica que se tem noticia. O nivelamento monetário dos países da chamada Zona do Euro se transformou num pesadelo para os países menores.
A Grécia, como já mencionei, foi um daqueles que se revelavam pouco habilitados a aguentar o tranco imposto pelo Banco Central Europeu e a União Europeia. Junto com ela, lembro também, que estavam listados Portugal e Espanha e, de algum modo, a Itália. Outros apareceram depois, mas estes eram os casos mais prováveis.
O tempo passou e o esquema começou a apresentar falhas, ali e acolá, dando dor de cabeça às autoridades do Bloco. Portugal, Espanha, Irlanda e Chipre enfrentaram problemas e sofreram intervenções. E, a partir de 2010, a Grécia entrou no carrossel, quando flagrada, pelo Banco Central Europeu - BCE, maquiando (deram “pedaladas” por lá, também!) os números da sua economia.
Nesses casos o país “desobediente” torna-se refém das “mãos de ferro” de uma junta formada por três autoridades: BCE, FMI e UE. Esta junta é popularmente conhecida, no mundo europeu, por Troika (*).  A missão da Troika é justamente resgatar a economia do país em dificuldades. Uma junta desse tipo foi acionada para a Grécia, entre 2009-10. Um rigoroso plano de resgate econômico do país foi celebrado entre as partes interessadas, abrindo com isto as possibilidades de manutenção dos gregos, tanto na UE, quanto na Eurozone.  Não celebrar esse acordo evidenciaria um indicativo de fracasso da União e, sobretudo, da moeda única. No bojo do acordo celebrado, um bilionário empréstimo, em Euros (€ 240,0 Bilhões) foi concedido à Grécia, pelo FMI e BCE, com prazos de liquidação bem definidos e destinado a recuperar a economia e equilibrar as contas nacionais, nos padrões exigidos pela União. Reestruturação do Estado, contas nacionais equilibradas, redução de salários, controles de preços, revisão da política de aposentadorias, entre outras medidas, tiveram que ser adotadas de forma rigorosa e altamente monitorada.
O “remédio” ministrado, contudo, não deu certo e não viabilizou a recuperação da economia grega, que terminou entrando em colapso nestes primeiros meses de 2015. Os pagamentos das dividas se tornaram impossíveis e o país deu o calote. Foi o primeiro país desenvolvido a dar um calote no Sistema Financeiro Internacional.  
Também pudera! O país tem ¼ da sua população economicamente ativa desempregada, PIB em declínio e desespero geral. Tudo por lá está em franco declínio e se desvalorizando a toda hora. Bancos fechados, povo sem dinheiro, negócios sendo encerrados e daí prá pior. As dívidas internacionais, se pagas em dia, se arrastarão até 2054.
Num plebiscito convocado pelo atual Governo, realizado domingo passado, o povo (61%) disse OXI (NÃO em grego) ao aperto imposto pela Troika. Criou-se um brutal impasse.
De todo modo, o país continua querendo negociar e a Troika está dura na queda. A Premier alemã, Angela Merkel, está furiosa, querendo punir a Grécia, mas, de olho na manutenção da União. Os gregos pouco se incomodam. Sair da União, esquecer o Euro e voltar à antiga moeda é uma alternativa toda hora lembrada. E, vou dizer, se isto ocorrer, o risco de contaminar outros países é bem grande. Fiquem de olho, porque a toda hora temos novidades.

(*) Troika é uma palavra de origem russa que designa um comitê de três membros. A origem do termo vem da denominação dada a um veiculo puxado por três cavalos, postos lado a lado. Muitas vezes um trenó, puxado pelo trio de cavalos.

Nota: Fotos obtidas no Google Imagens