quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Planeta China

Há dias nos quais tenho alguma dificuldade para encontrar um assunto para o bate-papo semanal neste espaço do Blog do GB. Esta semana, porém, tenho uma lista interminável de temas para trabalhar. Tenho assuntos para hoje e para as próximas postagens. Difícil mesmo é saber por onde começar. A razão é simples: estive visitando a China, por dez dias, tendo regressado no domingo passado.
Além de não saber exatamente por onde começar, falta-me um adjetivo adequado e capaz de expressar meu encanto e minha surpresa por esse país oriental. Fantástico poderia ser um deles. Mas, ainda acho pouco. Retumbante, é forte mas, talvez se ajuste. Voltei fissurado. Aquilo lá é tão pouco comum que um caboco nordestino, como eu, se abestalha e não sabe para que lado olhar. É monumental, pronto!
Tudo isto, quando eu menos esperava e achava que já conhecia tudo de mais belo que havia sobre a face da terra. Qual nada! A sensação foi de que fui parar num “planeta” diferente: pujante, esplendoroso, tradicional e, ao mesmo tempo, moderníssimo. A China me arrebatou
Mais incrível, ainda, é lembrar que se trata de um país de regime comunista e poder central forte e atuando. Não dá pra entender como conseguem administrar aquela coisa. A ficha ainda não caiu. Sinto-me meio zonzo, até agora, pelo excesso de novas e surpreendentes informações que acumulei. Bom, na verdade estou falando de uma das mais antigas civilizações com existência continua. Na Wikipédia descobri que “o ano 221 AC é referido como sendo o momento em que a China foi unificada na forma de um grande reino ou império”, graças às imposições da Dinastia Qin, com uma escrita comum e uma filosofia baseada no confucionismo.
Ao longo da sua formação, contudo, o país passou pelas mãos de mais de dez dinastias, entre as quais a Zhou, a Tang e Yuan. É uma história de mais de dez séculos. Observem que na China foram inventados o papel, a imprensa, a pólvora, que são coisinhas corriqueiras nos nossos dias, mas que, à época, revolucionaram o mundo. Além disso, os chineses são, há séculos, seculorum, exímios artistas na música, pintura, teatro e cerâmica. O que vi recentemente, in loco, são provas concretas desses talentos. Chega a ser emocionante se postar diante de tanta beleza.
Essa história e civilização, contudo, registra muitos pontos negativos: a maioria da nação vivia oprimida e muitas vezes escravizada. Muita fome e miséria. O regime imperial tratava o povo com mão de ferro, privilegiando alguns muito poucos com o conforto de viver como vassalos, em torno do Imperador, na Cidade Proibida, assim denominada por ser vedada à entrada do homem comum.
A situação se tornou insustentável e em 1911 ocorreu a queda do Império, sendo proclamada a República da China, sob a liderança de um certo Sun-Yatsen, nos seus primeiros anos. As disputas políticas da época levaram os chineses a uma sangrenta guerra civil entre os anos de 1945 e 1949, resultando na vitória do Partido Comunista Chinês que passou a governar sob a regência de Mao Tse-Tung, substituído, após a morte, em 1976, por Deng Xiaoping. Mao planejou a economia do país, redimiu o povão da situação opressiva e se transformou num ídolo nacional. Até hoje seu mausoléu com o corpo embalsamado é a maior atração para os chineses que visitam a Praça da Paz Celestial, em Pequim. Pude ver, semana passada, uma fila quilométrica de pessoas querendo ver de perto o "deus" Mao embalsamado numa redoma de vidro. Contaram-me que alguns ficam até oito horas nessa fila. Na ocasião que estive na Praça a temperatura girava em torno dos 3ºC. (Vide foto acima). É impressionante a idolatria dessa gente. Já Xiaoping foi o grande responsável pela abertura econômica do país, sem abandonar a rigidez política. Há, ainda, muitas restrições. O povo não goza da liberdade de expressão e a imprensa é controlada. Twitter, Google e Facebook, nem pensar. Este Blog, por exemplo, não pode ser aberto, por lá. Depois da abertura econômica a partir da década de 80, empresas estrangeiras puderam se instalar e o que mais vemos são as grifes mundiais dominando o mercado local.
O país é certamente o maior mercado mundial. Pense no que sejam 1,4 bilhão de pessoas para alimentar, vestir, educar, divertir, transportar e etc. A economia cresce em ritmo galopante, a uma media anual de quase 10%. O Produto Interno Bruto (PIB) atingiu em 2009 a espetacular marca dos 4,91 trilhões de dólares americanos. Eu disse trilhões! Recentemente a China ultrapassou a economia japonesa e é agora a segunda maior do mundo, ultrapassada apenas, e por enquanto, creio eu, pelos Estados Unidos.
Fora isto, a China de hoje é monumental em tudo que se possa imaginar. É onde existe o maior número de gruas em ação. É onde mais se constroem rodovias, pontes, viadutos e túneis, altíssimos edifícios, aeroportos – cada um mais belo do que o outro – e vai ter logo em breve a maior usina hidroelétrica do mundo com capacidade de quase quatro itaipus.
Eu visitei um “planeta” diferente, chamado China.
NOTA: As fotos são da autoria do Blogueiro

sábado, 9 de outubro de 2010

Tiririca da Vida

Antigamente era bem comum se dizer que um sujeito colérico, raivoso ou revoltado estava tiririca. Confira num dicionário. A partir de domingo passado, porém, as coisas mudaram e tiririca passou a ser sinônimo de Deputado. Não é engraçado? Acho que, de agora em diante, uma pessoa não fica mais “tiririca da vida” e sim “deputado da vida”, acompanhando a modernidade do Brasil. Pensando bem, e desse modo, por exemplo, quando há dois meses eu fui covardemente assaltado a mão aramada, levaram-me a carteira com documentos, cartões de crédito e dinheiro, além do meu celular, eu fiquei d-e-p-u-t-a-d-o da vida. É uma senhora mudança de forma. Imagine que tem muito mais charme dizer “minha mulher está deputada comigo porque não lhe dei um vestido novo”. Não é mesmo?
Mas, meus amigos, quem anda tiririca, de domingo para cá, sou eu, com essa desmoralização da democracia brasileira, já tão carente de consolidação..
É simplesmente revoltante ver um cidadão, no nível do palhaço Tiririca arrebatar 1,3 milhão de votos de eleitores, certamente, alienados ou ingênuos. Coisa de paulista ignorante mesmo, que não tem noção adequada do que seja eleger um bom representante para o Congresso Nacional. Aliás, isto é fato recorrente em São Paulo. Foi assim que, no passado, votaram no rinoceronte

Cacareco, nos Malufs e Clodovis da vida. Ou seja, votar num Tiririca, sob alegação de estar dando um voto de protesto, é a coisa mais simples para eles. Quanta ingenuidade... Ah! O pior é que tem gente que garante o voto quando ele se apresentar como candidato a Presidente da República. Valha-nos Deus! Tem até fotos alusivas a essa barbaridade. Aí, sim, chegaríamos ao caos caótico. Acho que nosso povo está cansado das promessas mirabolantes e enganosas, sendo levados a zombar da seriedade.

Alienados, ingênuos, ignorantes ou coisa parecida, porque não tiveram o cuidado de analisar o que vem por trás dessa manobra espúria. Uma autêntica malandragem. Não sabem eles que ao elegerem um ignorante, talvez analfabeto, como é o caso de Tiririca, estão contribuindo para o sucesso de uma estratégia política estúpida - falha de um sistema eivado de equívocos - de arrastar, via coeficiente eleitoral de um partido nanico, elementos nocivos à sociedade que representa e à Nação, para atuarem na Câmara Federal. O partido do deputado eleito, Tiririca, e seus coligados estão deitando e rolando na montanha de votos que o palhaço recebeu nas urnas. Junto com ele serão empossados mais dois ou três parasitas, autores da mutreta e com tremendas FICHAS SUJAS. A revista Veja dissecou a coisa, de forma bem didática. Formarão um novo bloco parlamentar em Brasília, que poderia se chamar de Os Titiricas e, com certeza, integrando o chamado Baixo Clero, isto é, grupo de deputados sem grandes prestígios e pouco atuantes, entre outras cositas más.
Agora, me diga mesmo, é ou não é necessária uma reforma política urgente neste país. De Gaulle, lá por cima, onde atualmente circula, deve ter dado boas gargalhadas e ratificado sua máxima de que “o Brasil não é um país serio”, ao ver o povão paulista tiriricando. Não é revoltante? Eu pelo menos não tolero mais tanta bandalheira. Aliás, ando tiririca da vida, com essa situação. Mas, atenção, na acepção antiga.

NOTA 1: Foto colhida no Google Imagens

NOTA 2: O Blogueiro fará uma pausa nas próximas duas semanas, em virtude de uma viagem a China. No retorno trará noticias e impressões do que verá no Oriente.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Retrato Velho

Eu cresci, posso dizer, no meio da politica. Neto de um chefe politico de interior, coronel velho e "manda-chuva" do lugar, me empolgava com a permanente movimentação, que se tornava mais dinâmica nos dias de eleições, como os de hoje. Foi, não foi, lá se dava um comício. Seu Epaminondas Mendonça – era este o nome do meu avô – se empolgava e saindo de trás do balcão do seu estabelecimento comercial, trepava num tamborete, garrava do microfone (que estava sempre a postos) e largava seu discurso inflamado para a matutada de Fazenda Nova (180km. distante do Recife). Era uma cena bem comum, principalmente, nas sextas-feiras, dia da feira do lugarejo. A matutada se apinhava diante daquele líder-matuto se empolgando e pedindo a chapa do candidato defendido, para depositar na urna eleitoral. Não perdia uma eleição e sempre fazia seus vereadores e prefeito, além de empurrar deputados e governador. Ele próprio era, muitas vezes, o candidato. Sistema arcaico e cheio de vícios, é verdade. Mas sem as patifarias de hoje. Só se às escondidas. Não sei o que diria – aquele homem que foi prefeito e vereador nos interiores de Pernambuco, tirando do próprio bolso o sustento das campanhas que fazia, prejudicando muitas vezes a própria família – diante dessas bandalheiras, deslealdades, roubos e assaltos aos cofres da Nação, do hoje. Morreu sem deixar fortunas, salvo uma dúzia de casas, poucos hectares de terra e a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Morreu sem laivos e sem quem dissesse um “tantinho assim” de desonestidade dele.
Nos dias de eleição, quando eu estava em Fazenda Nova, minha excitação era tamanha que sequer conseguia dormir direito, dado o rebuliço na casa. A mulherada varava a noite preparando a comida do eleitorado, no dia seguinte. Quando o dia amanhecia já era um corre-corre, um falatório danado, um entra e sai desmedido de eleitores, dentro de um clima de comes e bebes sem fim. Matavam-se boi, carneiros e bodes e o galinheiro ficava vazio. À la cabidela, assada ou guisada, não sobrava uma penosa sequer. A matutada chegava amontoada nos caminhões escalados para transportá-la desde as brenhas onde vivia até a vila e se esbaldava tirando a barriga da miséria. Todo mundo nos trinques, ou seja, bem vestido, em roupa de gala, brilhantina colgate ou glostora na cabeleira ou chapéu de massa, perfumados e cheios de pose. Era uma festa. As mulheres, affe Maria, caprichavam e, sobretudo, carregavam no batom e no pó de arroz e rouges da marca Royal Briar. Aquilo era o máximo e elas se achavam... Ah! A grande maioria fazia questão de sorrir um sorriso brilhante, por trazer um monte de dentes de ouro na boca. Isto existia antigamente e o matuto que tinha um dinheirinho qualquer investia imediatamente numa dentadura de 18 Kilates. Minha mãe dizia, logo, “lá vem um boca rica”. Imagino o que diria a turma jovem, de hoje. Daria boas gaitadas. E eu, ia lá voltava cá, garrava duma garrafa de Crush e enchia a cara... Também. Em dia de eleições eu era fi-de-deus e podia beber mais.
Encerrada a votação esperava-se, no maior frisson, a apuração dos votos que só acontecia muitos dias depois. Resultado publicado, a festa rolava mais grossa ainda, porque era sempre vitória. Uma graça. A tímida oposição do lugar trancava-se em casa e se mal-dizia da situação. Dos partidos da época minha lembrança só passa por duas siglas a do PSD (Partido Social Democrático) e da UDN (União Democrática Nacional). Havia outras, mas, somente essas duas me marcaram, porque a guerra entre elas era de feder a sangue. Meu avô era do PSD e quem fosse da UDN eu nem devia cumprimentar. Fuxico de interior era de lascar. Aliás, ainda é, visse...
E, por falar em chapas contadas, lembro demais da quantidade de papelotes impressos com nomes de candidatos e cargos postulados. Era com um desses papeizinhos que o eleitor votava. Muito artesanal demais, se comparado com o sistema eletrônico atual, além de inseguro, pois favorecia a fraude. Que certamente havia! Lógico! No meu pensar infantil, torcia para que sobrassem muitas chapinhas com as quais inventaria vários tipos de diversão – barquinho, aviãozinho, sabe lá o que mais – na ressaca da eleição. Com os tempos vieram a cédula única e, hoje, a urna eletrônica que, indiscutivelmente, é um fantástico avanço no processo eleitoral brasileiro, motivo de orgulho da inteligência tupiniquim e que está sendo adotada em muitos países.
Progresso por um lado e obstáculos por outro, porque muita gente – os de baixa instrução, particularmente – se ressente com um sistema que exige um esforço maior da mente e produz impasses para aqueles que têm aversão à máquina. É complicado para os menos letrados e resulta em muitos votos nulos.
O tempo passou e isto eu não discuto, porque o espelho me lembra a cada dia. Mas, sempre tem festa no interior, no dia de eleições. Domingo que vem é dia de eleições. E é dia de festa. Festa da democracia. A farra é tamanha que instituíram a chamada Lei Seca. Desmoralizada, meu Deus... Vou guardar este meu velho retrato do passado, com carinho e saudade.
NOTA: Fotos/reclames obtidos no Google Imagens.