segunda-feira, 24 de setembro de 2012

NOVOS TEMPOS


O IBGE divulgou esta semana os resultados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicilio – PNAD, ano 2011, que é um dos mais importantes trabalhos da agencia oficial de estatísticas do país. É um estudo minucioso e sempre muito importante, enquanto suporte básico para todas as decisões que são tomadas por governos nos mais distintos níveis, sobretudo no campo das políticas sociais. Fico sempre muito atento quando dessas publicações, quem sabe por um pouco de saudosismo do meu antigo ofício, em tempos de SUDENE, quando coordenava um trabalho de Indicadores Sócio-Econômico Regionais do Nordeste. Já faz algum tempo... De lá para cá, o Instituto melhorou bastante a metodologia de pesquisas, de maneira que esses dados publicados atualmente refletem bem melhor a realidade da vida brasileira.   
O primeiro número a registrar, deste ano, é o da população total que já chega aos 195,2 Milhões de pessoas. As mulheres em maior número, com 51,5% desse total. Faz tempo que é assim. Interessante descobrir que nascem mais meninos, mas quando se observa a faixa dos 30 anos, as mulheres são maioria. Os motivos podem ser vários e vão desde a mortalidade infantil até outras causas no decorrer do crescimento e juventude. Sinal de que os indivíduos do sexo masculino são mais vulneráveis na travessia da vida.
Não vou repassar todas as informações divulgadas. Mas, algumas valem à pena destacar. Por exemplo: a Taxa de Fecundidade, que é aquela que indica o número médio de filhos, por mulher em idade de reprodução. Em 2011 a taxa era de 1,95. Esteve bem próxima da de 2009, que foi de 1,94. Mas, o que chama a atenção é o fato de que em 2004, esta mesma taxa foi de 2,13. Ou seja, as brasileiras estão tendo menos filhos nesses últimos anos. É bom lembrar que essa situação remete a algumas reflexões: se, por um lado, revela uma redução na velocidade de crescimento da população, o que pode ser bem vindo, por outro aponta para um quadro futuro, no qual poderemos ter dificuldades na reposição da força de trabalho, importante fator de produção. Isto já foi visto na Europa e se constata em países como o Canadá que vem promovendo a incorporação de muitos estrangeiros na sua força de produção. 
Outro dado interessante é o que dá conta do percentual de brasileiros, com 15 anos ou mais, que vivem em união conjugal: 57,1%. Ao contrário desses, 22% nunca vivenciaram uma união e permanecem solteiros. O restante, de 21% são aqueles que já estiverem casados ou juntados e na ocasião da pesquisa estavam solitários. Ah! 34,8% dos que tinham companheiro ou companheira viviam em união consensual, isto é, a popular situação de amigado ou amasiado. Está no Norte o maior numero de pessoas nesta situação, 51%, e o Nordeste vem em segundo lugar com 40,8%. Engraçado é que, para minha surpresa, é no Sudeste, região das grandes metrópoles e de uma gente mais liberal, que se encontra o menor número dos casados na forma de união consensual, somente 28,6%. A PNAD ainda não pesquisa o número de uniões homoafetivas. Mas, acredito que isto é por enquanto.
Um dos dados que mais me alegra é o da taxa de analfabetismo que vem caindo rapidamente. O Brasil enfim caminha para se tornar um país de cidadãos letrados e senhores de vida digna e com liberdade. 8,6% dos brasileiros vivem na condição de analfabeto, isto é, 12,9 milhões de pessoas. É muito, ainda. Contudo se pensarmos no passado não muito remoto... São indivíduos, na grande maioria com idade acima de 30 anos e o maior contingente continua sendo no Nordeste. Nas faixas etárias menores a quantidade de analfabetos é irrisória. Ainda bem. Acontece que os jovens de hoje não querem nem pensar em ser analfabeto.
A Pesquisa mostra muitas outras informações do brasileiro e seu dia-a-dia, incluindo situação de trabalho, emprego formal, trabalho infantil, rendimentos e taxa de desemprego que, aliás, caiu em todas as regiões, entre 2009 e 2011. No país, como um todo, a taxa caiu de 8,2 para 6,7%.
Agora, tem uma informação que causa bela surpresa: 89,9% dos domicílios brasileiros dispunham de telefones – fixo ou celular – o que significa um avanço extraordinário se recuarmos aos idos dos anos 80 e 90. Naturalmente que foi a telefonia móvel que estabeleceu este novo padrão de comunicações. Informes recentes dão conta que já existem, praticamente, um telefone celular para cada brasileiro. Se o quantitativo de telefone chama a atenção, o que dizer do fato de que 42,9% dos lares brasileiros já dispõem de um microcomputador, em 2011? Detalhe: 36,5% deles, na hora da pesquisa, estavam interligados a Internet. São novos tempos com o progresso tecnológico chegando a passos largos para alçar o Brasil a um patamar de nação grande.  
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens 

sábado, 15 de setembro de 2012

O Brasil do Presente

Sou dos tempos em que as correntes migratórias internas eram intensas e motivo de muitas preocupações para governantes locais. São famosas as histórias de retirantes da seca nordestina. Músicas, filmes, encenações teatrais, pinturas, como a Portinari, a seguir, promessas políticas e tudo quanto se possa imaginar tinham nessas migrações excelente fonte de inspiração.
Eu era um pirralha e me apavorava quando meus avós, tios e tias comentava sobre a invasão de retirantes a centros urbanos interioranos, saqueando em feiras populares e casas comerciais, à cata de comida para sobreviver. Eu só imaginava que um enxame de retirantes poderia, de repente, invadir as casas comerciais e residenciais do meu avô, em Fazenda Nova, para saciar a fome. Em 1877 – peraí, eu não sou desse tempo! – a situação foi das mais cruéis e dizimou cidades e vilas nordestinas. O Ceará perdeu metade da sua população. A fome foi geral. Até hoje, quando um sujeito esfomeado avança num prato de comida se diz que está com a fome do 77. Aquele episódio ficou gravado na memória do povo da região como a mais desastrosa. Foi nessa ocasião que D. Pedro II resolveu vir pessoalmente inspecionar a situação. Dizem que ele, penalizado, derramou copiosas lágrimas reais, prometeu vender as jóias da Coroa e atribui-se a Sua Majestade o inicio da chamada, hoje, de política da Solução Hidráulica.  A primeira obra foi o Açude do Cedro, no Ceará. (Foto a seguir). O açude está lá e as jóias no Museu de Petrópolis. Esta história fez parte do meu dia-a-dia, enquanto técnico da SUDENE, durante muito tempo.
Mas, historia à parte, o que se sabe é que levas e levas de nordestinos tomaram o rumo do Sul, à busca de uma solução de sobrevivência. São Paulo foi o destino preferido e durante muito tempo foi considerada a “maior cidade nordestina do país” em face da enorme população de oriundos dos estados do Nordeste. Um dos mais proeminentes representantes dessa corrente migratória é o ex-Presidente Lula. Saiu das brenhas com terra esturricada, prá lá de Garanhuns (PE) e foi bater na periferia paulistana. Fora ele, sabe-se que existem muitos outros bem sucedidos, que se misturaram com outros imigrantes, entre os quais, os italianos, poloneses, alemãs, japoneses, chineses e coreanos que formam a Babel paulistana. Mais recentemente, com o atual sucesso econômico brasileiro, vieram também bolivianos, paraguaios, peruanos, uruguaios e argentinos. São Paulo é uma cidade cosmopolita, vibrante e desenvolvida por conta dessa mistura racial e natural diversidade cultural.
Ocorre, porém, que as coisas tendem a mudar de figura. O desenvolvimento econômico, que me referi acima vem revelando novos pólos de desenvolvimento e melhores condições de vida em muitos outros pontos do país. O Nordeste, por exemplo, é a “bola da vez”, o que já era tempo... O Censo de 2010, cujos resultados foram divulgados, pelo IBGE, recentemente, aponta para situações, de certo modo, inesperadas. Uma das mais interessantes constatações: a movimentação dos brasileiros entre estados constatou que os nordestinos estão voltando aos seus estados de origem, onde identificam oportunidades de viver dignamente e mais resistente aos riscos do passado. A seca já é mais bem administrada, embora continue sendo uma realidade. Os cearenses foram os que mais regressaram. 46,6% dos chegaram para se fixar naquele estado eram de imigrantes retornados. Considerando o Nordeste, como um todo, o Censo detectou que 40% dos que chegaram à região eram de retornados.
Se, por um lado, os nordestinos estão voltando às origens, muitos são os estrangeiros que baixam no Brasil, principalmente em São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Segundo o IBGE, em 2000, os imigrantes estrangeiros eram, aproximadamente, 150,0 mil. Já em 2010, isto é, uma década depois, o número subiu para quase 270,0 mil. Para um país que tenta controlar a entrada de mão-de-obra estrangeira, é muita coisa. Afinal, são postos que poderiam ser ocupados por brasileiros. Boa parte desses imigrantes são “retirantes”, também, das misérias e pobrezas que viviam nos seus países de origem. São Paulo está cheia de bolivianos e paraguaios, por exemplo, trabalhando, até mesmo, em regime de semi-escravidão, situação denunciada com freqüência pela TV brasileira. Chegam ao Brasil famintos e certos que aportaram no El Dourado dos seus sonhos. (Foto abaixo).

Por fim, descobri outro dado interessantíssimo: 174,5 mil brasileiros que, em 2005, moravam no exterior resolveram voltar a viver no Brasil. O IBGE chama essa turma de imigrante internacional de retorno. É um Brasil Novo, bombando e revertendo a corrente de brazucas que, há bem pouco tempo, só pensava em deixar o Brasil e conquistar uma vida boa no estrangeiro. Essa gente volta de países como os Estados Unidos, Japão, Portugal, Espanha, Paraguai e Bolívia. É um sinal concreto de que a crise, lá fora, é sem precedentes. E que o Brasil está mesmo bombando! Será que estou otimista demais? É Brasil do presente.
Fonte dos Dados: IBGE
Nota: Fotos do Google Imagens

domingo, 9 de setembro de 2012

Ainda resta Esperança

Eu cresci e me formei ouvindo dos mais velhos que todo governo era formado de ladrões e corruptos. Meu pai, principalmente, vivia esbravejando e reclamando da bandalheira que imperava nas esferas governamentais, de todos os níveis. Aquilo era para mim uma cantilena. Assisti inúmeras crises políticas e econômicas neste país e a cantiga era a mesma: é tudo “farinha do mesmo saco” e da mesma qualidade, isto é, ruim. Saia governo, entrava outro e a esperança de lisura e honestidade parecia ser sempre a coisa mais remota para todos, no meu circulo familiar. Aos poucos fui entendendo e absorvendo a idéia. Meu velho se encantou pelo passe mágico da morte, no primeiro dia do Plano Cruzado de Sarney, em 1986. Lembro que o primeiro cheque que emiti, na nova moeda foi, justamente, para pagar o féretro dele. Pai morto e enterrado, permaneceu na minha mente a imagem e lembrança de um homem que não se cansava de criticar os governos e as roubalheiras republicanas. Houve época que aquilo me irritava muito e eu atribuía aquela manifestação, à enfermidade e arteriosclerose do velho. “Não tem um que preste. É tudo ladrão. Tenho pena de vocês que vão comandar a nação do futuro. Do jeito que a coisa vai não sobrará nada... Também, num país que não tem justiça para colocar todos eles na cadeia, só pode dar nisso.” Eram palavras repetidas por ele, pronunciadas com certa gagueira, muito comum quando ficava estressado. Vendo as ocorrências após sua morte, terminei por admitir, talvez tardiamente, e achar que o velho tinha toda razão. Lembro que ele não alcançou o caso Fernando Collor, com PC Farias e, mais recentemente, das roubalheiras do Governo Lula e seus mensaleiros, entre outros tão sérios quanto.
Tenho prá mim que ele teria vibrado com o despejo que foi dado a Collor, taxado de ladrão. Igualmente, entraria em êxtase com o atual julgamento e devidas condenações no Supremo Tribunal de Justiça da cambada de ladrões dos cofres públicos, sob a égide de Lula-laaaaaaaá.
Na verdade, não sei se por ele ou por mim mesmo, chego às raias da emoção vendo o desenrolar desse processo. É, de fato, algo sem precedentes no Brasil e quiçá na America Latina, região onde muito desses processos devem ser levados a efeito. Do México à Terra do Fogo, o que mais rola é corrupção. Pobre America Latina.
Pegar a revista Veja, da semana passada, e ver a sugestiva capa com duas mãos segurando uma grade de penitenciária, na posição de "por trás", e a legenda de “Até que Enfim” me sugere um momento histórico nesta nação. Sinto firmeza e a certeza de que o Supremo Tribunal Federal vai mandar, para as jaulas de criminosos, uma penca de ladrões engravatados, numa ação inédita na Terra Brasilis. Acompanhar, pela TV, o julgamento dessa tropa é algo semelhante a um bom filme de Hollywood. Daqueles de julgamentos nas courthouses americanas, tudo com muita pompa e circunstâncias. Gosto que me enrosco das escaramuças travadas entre alguns Ministros, porque dão um toque especial de suspense e leva o espectador ao auge do interesse e emoção. Dá prazer assistir as tiradas inteligentes do Ministro Joaquim Barbosa, (Foto a seguir) corajoso relator do processo. Aliás, é bom de registrar que ali está um digno preto que enche de orgulho a raça negra desta Nação. É um nome que, certamente, a história vai guardar. Ele vem condenando os corruptos sem pena e sem dó. Sujeito corajoso e que rompe com vontade e fervor a cultura maligna dos assaltos ao erário publico. Taí, daria um grande Presidente da República. Lancei a candidatura. Pronto!
O mesmo não pode ser dito dos Ministros Lewandowski ou Toffoli, que – foi, não foi – tentam colocar “panos mornos” para livrar as caras de alguns dos acusados, o que termina por manchar seus próprios nomes. Em tempos de comunicação instantânea, chega a ser desconcertante e lamentável ver as comparações que são feitas entre estes e o brilhante Joaquim Barbosa. Para mim, eles estão sendo alvo de verdadeiras condenações publicas, pela exposição negativa, sobretudo o jovem Dias Toffoli, refém do esquema lulopetista. Pensando bem e rigorosamente, é coisa que mancha, também, o próprio Supremo Tribunal, preocupado, acredito, em capitalizar a oportunidade de ouro que está tendo para impor respeito e se consolidar como sendo a mais suprema e confiável instituição nacional. Até porque, dúvidas não faltaram de Norte a Sul e de Leste a Oeste, no período pré-julgamento. Por tudo isto, paira no ar uma fresca sensação de que ainda resta uma esperança para que o Brasil se revele como sendo um país sério e democraticamente justo. O STJ está passando a limpo o “gigante pela própria natureza e impávido colosso”.
Tomara que esta onda saneadora pegue e garanta um futuro seguro às novas gerações brasileiras e que meu velho descanse em paz, vendo, de onde estiver na eternidade, raiar um tempo de retidão e ordem, para que haja progresso.
NOTA: Foto obtida no Google Imagens

domingo, 2 de setembro de 2012

Dores da Colômbia

A Colômbia é um país muito especial. Já estive por lá três vezes. Aconselho conhecê-lo, sem se deixar influenciar pela propaganda negativa que se faz, devido à insegurança, ao narcotráfico e às barbaridades das FARC – Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia. Minha ultima visita foi em 2010, quando confesso encontrei um país mais tranqüilo, relativamente pacificado, embora saibamos que essa é uma questão ainda por exigir definitiva solução. Esta semana fiquei contente ao ouvir o noticiário de que o Presidente Juan Manoel Santos está negociando, mais uma vez, a paz com os militantes da guerrilha, que atualmente já se revela mais fraca e reduzida, após baixas de seus mais importantes chefes, em combates sangrentos, nos últimos anos.
Bogotá, a capital do país, é uma cidade surpreendente e muito agradável. Moderna, movimentada e repleta de atrativos turísticos, com um centro histórico notável, onde se encontram duas jóias preciosas da América Pré-Colombina e do período sob domínio espanhol: o Museu do Ouro e o Nacional da Colômbia. Além da capital, três outras cidades se destacam: Medellín, Barranquilla e Cartagena de las Índias que, igualmente, surpreendem o visitante. Sobretudo esta última, pela beleza colonial recheada de muita história.
Mas não é sobre isto que, especificamente, pretendo falar hoje, porque meu tema esta semana é sobre Botero e sua exposição Dores da Colômbia, atualmente em temporada no Brasil, com uma parada no Instituto Ricardo Brennand, até o próximo dia 9 de setembro, aqui no Recife.
Fernando Botero, magnífico pintor e escultor colombiano – seguramente a maior expressão do gênero, daquele país andino – é um artista contemporâneo, vive na Europa a mais de quarenta anos, onde estudou e desenvolveu sua arte. Completou 80 anos de idade, em 19 de abril passado.
A exemplo da Goya e Picasso, Botero teve a idéia de retratar na sua arte os horrores da guerra civil do seu país, com seu estilo bem peculiar que são as imagens rotundas, hoje, consagradas no mundo inteiro. Na serie Dores da Colômbia, o pintor revela seu repúdio ao estado beligerante que vive seu país, diferente da sua habitual trajetória de levar às telas e formas esculturais, imagens alegres e folclóricas da sua terra natal. Visitar o Museu Botero, anexo ao Museu Nacional, em Bogotá, é uma festa para os olhos de quem admira a arte da pintura e escultura. Clique em http://gbrazileiro.blogspot.com.br/2010/03/imagens-colombianas-ainda.html  e veja minhas impressões quando da minha visita em março de 2010.

A mostra é impactante, sobretudo pela rudeza das imagens, suas cores e traços. Para um observador desavisado pode ser chocante. Contudo, é de se admirar o engajamento do pintor na causa de combate à 
violência e a estratégia de desumanidade das tais forças guerrilheiras que, sob um manto de libertadoras, vem impondo ao país uma página sombria e sangrenta. O povo colombiano não merece viver esta situação, que perdura por aproximadamente 40 anos, prejudicando seu desenvolvimento econômico, social e político.
Durante esse tempo já visitei o pais por três vezes, como já falei, e recordo que em 1972, na minha viagem ao país, quando além de Bogotá, percorri outras regiões, numa verdadeira aventura, incluindo uma no meio da selva para visitar a Reserva Histórica de San Agustín, ruínas de cidade dos primitivos habitantes, os Muiscas, da nação dos Chibchas, nos altos dos Andes, e pré-Amazônia colombiana. Em meio da trajetória fomos parados por grupos armados – não sabíamos sequer se força armada do governo constituído ou da guerrilha em franca organização – que nos revistaram e investigaram nossas intenções. Como estrangeiro fui bem tratado, apesar de me apalparem da cabeça aos pés, em busca de alguma arma. Livrar-nos deles foi um alivio, ao mesmo tempo em que restava uma interrogação pelo que podia acontecer mais adiante. Com coragem de jovem destemido, à época, seguimos adiante e alcançamos nosso destino. Eu estava acompanhado por amigos colombianos. Hoje, eu não teria aquela bravura. Mas os quadros de Botero, no Instituto Ricardo Brennand, me relembraram aquela aventura. Cheguei aos arrepios, pensando no insucesso que poderia ter ocorrido nessa viagem, no já distante 1972.
Botero fez questão de afirmar que não quis ganhar dinheiro com a coleção das Dores. Ao contrário, quis deixar registrado, na sua forma de se expressar, sua revolta e repúdio ao sofrimento da sua nação. A obra foi doada, por completo, ao Museu Nacional da Colômbia, que em boa hora permite mostras no Brasil e outros países. Vale à pena conferir.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.
SERVIÇO: A mostra Dores da Colômbia fica em cartaz no Instituto Ricardo Brennand até 9 de setembro. Não perca. Já passou por Porto Alegre, São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Salvador.