Malgrado o estrago da pandemia mundo afora, esta semana que termina pode ser por
várias razões considerada como uma semana negra. Nas ultimas vinte quatro horas (hoje
é 05/06/2020) morreram pouco mais de mil pessoas, somente, no Brasil. Com este número calamitoso lá se foram mais de 35,0 mil vidas ceifadas entre os 646,0 mil casos diagnosticados, no país. São números alarmantes e que apontam para um panorama
deveras distante do estado desejado. De todo modo, embora não seja ainda um dado confortável, 289,6 mil pessoas já se recuperaram. Para tornar ainda mais negro o quadro nacional, manifestantes promoveram, no domingo, um enfrentamento de caráter politico nas avenidas de São Paulo provocando consternação nacional dada a desobediência à ordem de distanciamento social com vistas à prevenção da Covid19.
Mas, na
verdade, o que me levou a definir o tema desta postagem foram dois episódios sociais marcantes. O primeiro foram os movimentos
registrados, a partir dos Estados Unidos, com o recrudescimento das manifestações
antirracistas motivadas pelo assassinato de um negro, George Floyd, na cidade
de Minneapolis (Minnesota) pelo policial branco Derek Chauvin. A cidade de
Minneapolis é considerada como sendo uma das cidades mais hostis à população de
raça negra daquele país. Somente o fato de estar situada ao ianque norte do país
não precisa dizer mais nada. Os brancos nortenhos nunca aderiram de verdade à
igualdade racial inaugurada na década de 60 e Floyd não foi o único a ser morto,
traiçoeiramente, na semana passada. Foi apenas o ultimo. Jamar Clark (2015) e
Thruman Blevis (2018) são outros nomes listados entre os trucidados pelos
policiais brancos de Minnesota. Comenta-se que a história do preconceito racial naquele estado
norte-americano – não muito diferente da maioria dos demais – é entremeada
de episódios sempre hediondos. Imagine que, até bem poucos anos, adotava-se rotineiramente uma cláusula nos contratos de compra e venda de imóveis proibindo fechamento
de negócios com negros em determinadas áreas da cidade. Na prática, esta população vivia confinada em bairros exclusivos para os coloreds.
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| Manifestação em memória de Floyd e antirracista. |
O cruel assassinato, por asfixia, de Floyd, parece ter
sido a “gota d´água” que faltava para precipitar essa avalanche de movimentos
antirracistas que se espalharam pelas grandes cidades da Terra do Tio Sam,
muitos dos quais de características mais eloquentes, chamando atenção da sociedade
internacional e pondo em risco a segurança pública do país. Não foi à toa que o
Presidente Trump ameaçou entrar com a Força Federal Militar para conter as
manifestações de protestos. Bom, a coisa ficou mais calamitosa quando grupos de delinquentes
infiltraram-se nas passeatas pacificas e se aproveitaram para atacar e
saquear as propriedades privadas. Centros comerciais e muitos pequenos negócios
foram atingidos e um pânico geral se instalou, agravando a situação já
periclitante devido à crise sanitária imposta pela Covid 19. Note-se que os
Estados Unidos vêm sofrendo situação consideravelmente grave nesse quadro. Por lá
já foram registrados 1,85 Milhão de casos e 107,0 mil mortos (dados da Universidade
Johns Hopkins, em 04/06/20). Finalmente, numa flagrante prova de reprovação à situação
norte-americana, o povo foi às ruas para protestar em vários países e grandes
capitais do planeta lançando luzes sobre o problema endêmico do racismo
internacional e fazendo referencia icônica ao Floyd.
O segundo episódio abalou o Brasil e particularmente Pernambuco pelas mesmas características racistas: a morte do pequeno Miguel
(Miguel Otávio Santana da Silva), 5 anos, filho de uma negra, Mirtes Renata de
Souza, empregada doméstica num condomínio de luxo, frente ao mar do Recife.
Miguel acompanhava a mãe, devido ao fechamento da sua creche, nos afazeres
do dia-a-dia na casa de um político, prefeito de uma cidade do interior
pernambucano. Delegada pela patroa, com o raro nome de Sarí Côrte Real - uma “dandoca enjoada” - Mirtes teve que descer com a
cadela de estimação da família para uma voltinha nos arredores do condomínio, confiando
o pequeno Miguel aos cuidados da patroa. Esta, contudo, concentrada nos cuidados que
estava recebendo de uma manicure, perde a paciência e despacha o garoto num elevador do prédio para que fosse ao
encontro da mãe no térreo. Ocorre que o inocente Miguel foi parar no 9º. Andar da
Torre e, desorientado na busca da mãe, se atirou para a fatal queda. A patroa (ir)responsável foi
autuada por assassinato doloso, mas, se encontra em liberdade mediante uma multa de R$ 20,0 mil. Que mundo
é este, meu Deus? Pobre Miguel. Infeliz Mirtes!
O caso virou
manchetes de jornais locais e de outras localidades, classificado com um
perfeito caso de desprezo ao ser humano, quando negro. Mirtes Renata é negra,
empregada doméstica, com um filho menor e sem condições estruturais para viver
com dignidade. A patroa branca deve ser dessas que confere maior importância ao pet
do que ao caviloso filho de uma negra serviçal. Jamais imaginaria o tamanho do crime que cometeu e a dor social que provocou ao mundo
em que a rodeia. Uma pergunta não cala: onde residem a solidariedade e o trato humano de uma sociedade
que tem um elemento maligno como essa patroa desalmada?
Triste
semana negra, em meio aos protestos internacionais de Vidas Negras Importam.
NOTAS: Fotos obtidas no Google Imagens e reprodução do Diário de Pernambuco.

