sábado, 27 de dezembro de 2008

Um ano de Blog e Feliz 2009

Neste domingo (28) o Blog do GB completa um ano de existência. O que prometia ser puro passatempo, se transformou num compromisso pessoal para um imenso grupo de amigos ou amigos de amigos que se tornaram ilustres e pacientes leitores dos meus artigos e crônicas semanais.
À medida que se ampliava o número de visitantes e surgiam os comentários na página do Blog, aumentava também meu entusiasmo pelo projeto, a ponto de se tornar uma rotina na minha atribulada vida profissional e social.
Descobri que quando aparecia um tema interessante e um tempinho sobrando, pude desenvolver facilmente um script para transformar numa postagem e distribuir entre os amigos. Foi uma deliciosa descoberta.
Com este post, somo 74 temas desenvolvidos e, desde março – quando instalei o contador de visitas –, já vejo registrada a marca próxima aos 18.000 acessos. Para um Blog que pretende ser quase intimista, isto é, restrito a um pequeno grupo de amigos e conhecidos é uma marca e tanto.
Entrei 2008 lembrando a possibilidade de dificuldades na economia com o tema “Feliz (cuidado com) 2008”, imaginado que alguma dificuldade ocorreria no meio do caminho e o resultado todos nós estamos vendo.
Ainda no inicio do ano, registrei impressionado o descuido da Prefeitura do Recife, no tocante a decoração das ruas e avenidas da cidade para os festejos natalinos. Coisa que, aliás, se repetiu neste final de 2008, em maior dimensão. Com a mesma Prefeitura fiquei revoltado por “jogar fora” R$ 3,0 milhões num desfile fajuto da Escola Samba Mangueira – atolada num escândalo de lavagem de dinheiro – no carnaval do Rio de Janeiro, que, ao invés de contribuir, só fez denegrir a imagem cultural do Recife, com alegorias truncadas e que não refletiam a realidade da cidade Maurícia.
Várias vezes comentei sobre problemas do dia-a-dia nacional, entre os quais o renitente problema da Educação e o da Segurança.
Como viajei bastante durante o ano – a negócios ou turismo – tive o prazer de descrever passagens e cenários interessantes do Brasil, entre os quais os da metrópole São Paulo, a beleza de Belém, portal da Amazônia; Brasília e sua efervescência política e o Rio de Janeiro, sempre bonito. Revisitei a Europa e em várias postagens falei sobre a bela e eterna Itália, nas passagens por Roma, Bolonha, Verona e, de quebra, a bela Republica de San Marino. Baixei em Portugal e comentei sobre as belezas lusas e o delicioso bacalhau que degustei.
Noutras ocasiões ri muito, e provoquei o riso de muitos, ao descrever causos do meu dia-a-dia. Quem leu as crônicas sobre os nomes impróprios, sobre os fabricantes de pânicos, sobre o lobisomem, a incrível história do mendigo inadimplente e sobre o assalto do meu genro australiano, se divertiu muito e até hoje comenta, ao me encontrar pela vida afora. Outra que fez imenso sucesso foi a que intitulei de “Eles não foram eleitos”. Esta foi ótima. Depois que terminei a postagem, li e reli, e, sozinho, ri pra valer.
Acompanhei o estouro da crise econômica, nos Estados Unidos, e sofro com o desenrolar. Foi impossível não comentar. E por falar nos Estados Unidos, vibrei com a vitória de Obama e me impressionei com a história da vida deste novo presidente americano.
O post que provocou o maior número de acessos (mais de 250, num único dia), um imenso sucesso, versou sobre a descoberta de petróleo na camada do pré-sal. Provocado por amigos, pesquisei sobre a matéria e inseri um gráfico bem didático que, para minha surpresa, somente depois, a mesma imagem veio a ser publicada na revista Veja. Fiquei muito feliz nessa ocasião.
Outro assunto que me pegou, por duas tacadas, foram as Olimpíadas da China. Nessa ocasião, fiquei admirado com a choradeira dos brasileiros e promovi uma pesquisa sobre o choro masculino, em público. 75%, dos que responderam a enquête, garantiu que chora em publico, sem dificuldades. Ora vivas, os machões brasileiros se modificam.
Em novembro comentei sobre duas divas da música internacional. A primeira foi a sul-africana Miriam Makeba, a Mama África, que morria na Itália em pleno palco e após um belo recital e, a segunda, em pleno vigor da voz, a argentina Mercedes Sosa, La Negra, que se apresentou e encantou os recifenses, na inesquecível noite de 26 de novembro, para uma casa cheia, no Teatro Guararapes, do Recife.
Foram muitos outros temas que abordei e que já começam a se perder na memória.
Mas, o mais importante de tudo isto e, que por justiça, tenho que registrar foi o estímulo que recebi, a cada postagem, dos amigos que se deram ao trabalho de visitar o Blog, a cada ocasião que recebiam o aviso de uma nova no Blog. Muitos comentaram diretamente na página, outros em mensagem para meu email e muitos manifestaram interesse e admiração em encontros pessoais. Isto foi, certamente, o maior estimulo para que o Blog tivesse a vida e a dinâmica que adquiriu. A todos meus especiais agradecimentos e a promessa de manter este canal de comunicação vivo e aberto, pelo tempo que Deus me permitir.
Finalizando, desejo aos amigos leitores um Feliz 2009.
Nota: Imagem do Google Imagens

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

FELIZ NATAL

O Anjo Gabriel trouxe a boa nova e Maria aceitou cheia de graça. Com o sim da Virgem, Deus veio habitar entre nós na pessoa de Jesus. Desde então o mundo se transformou. Estejamos sempre disponíveis à ação do Espírito Santo de Deus para abrir nossos corações e entendermos o mistério da sua encarnação e a sua mensagem.
Assim, estaremos propensos a viver em paz com o próximo, a ajudar os fracos e oprimidos a construir um mundo mais digno.

Para todos os leitores e leitoras do BLOG DO GB

FELIZ NATAL 2008

Girley Brazileiro
e família


Sugestão: Antes da sua Ceia Natalina presenteie um menino pobre com um brinquedo. Seu gesto pode mudar o rumo dessa criança. E, se possível, dê uma cesta básica para uma família pobre, para que eles não tenham fome na noite do Natal.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

PRECISAMOS FESTEJAR

Esta coisa de alimentar um Blog, com algum tempo, vira uma compulsão. Naturalmente que as reações dos leitores servem de estímulo e incentivo para que a produção aumente, a cada dia. Fico sensibilizado diante dessas interações amigas.
Tudo que vejo me dá vontade de comentar. Há momentos, como nesta semana, que fico sem saber que tema explorar, diante de tantas provocações. Fiquei impressionado com o caso do garoto de 12 anos que matou, a tiros, um amiguinho, de 10, e enterrou no quintal de casa; de uma garota de 12 anos grávida de gêmeos e, outra, de 20 anos, viciada em drogas e mãe de seis filhos; do brutal acidente em Boa Viagem, provocado por um jovem alcoolizado, matando uma mãe de família, grávida, e deixando em estado grave marido e filhinha. Vibrei com a sapatada que Bush levou, na visita ao Iraque. Decepcionei-me com a descoberta e golpe – seguido de desmoronamento – da pirâmide financeira, do ex-presidente do Nasdaq, fragilizando ainda mais a economia norte-americana e, consequentemente, o mundo financeiro no resto do planeta. Cada um desses casos daria inúmeros posts no Blog.
Perplexo, com tantos desatinos, resolvi dar uma pausa para pensar. Aonde vamos parar? O que podemos fazer? Onde estão os governos? E as ONGs da vida? Os clubes de Serviços? Como educar este mundo?
Não, não quero desanimar. Preciso ter fé e esperança. Afinal, estamos em tempo de Natal. Deixemos renascer as esperanças de um mundo em paz e mais justo.
É nesta época, que a cidade se veste de luzes e cores. Ainda que mascarando a miséria e insegurança reinantes nos arredores, o Recife – assim como, as grandes cidades brasileiras – não deixa de festejar. Afinal, o brasileiro é sempre um povo alegre e gentil.
Para complementar, circulando na espinha dorsal da cidade – a Avenida Agamenon Magalhães – deparo-me com um cenário de Primavera. Nada mais oportuno para animar meu espírito inquieto.
É interessante como, nesta época do ano, quando se vive a estação das flores, no Hemisfério Sul, elas não deixam de se mostrar com força e beleza, mesmo num Recife ensolarado e tropical, insistindo dizer que já é Verão. No mesmo Recife inseguro e assustador para muitos. As flores brotam em amarelo e lilás, dos ipês frondosos, avisando que a vida é bela e renasce a cada amanhecer, sugerindo esperança aos mais apreensivos, como tem sido o meu caso.
É isto aí, tem Primavera no Recife. Corra e vá ver a avenida florida, enquanto o Verão não chega. Parei e fotografei. Especialmente para mostrar ao visitante do Blog.
Foram os ipês floridos que me fizeram esquecer, por bons momentos, as apreensões descritas lá em cima. É Natal e é Primavera. Precisamos festejar. Faz bem à alma.
NOTA: Foto do Blogueiro.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

É TEMPO DE VIRTUOSI

Quando vai se aproximando o fim do ano, logo me lembro que é tempo de Virtuosi. Há mais de dez anos o recifense é brindado com esse que se tornou o mais importante Festival de Música Erudita, que tenho conhecimento, neste Vale do Capibaribe. Um autêntico presente de Natal, para a alma nordestina carente de movimentos desta ordem.
Tudo nasceu do idealismo do fantástico casal formado pela pianista pernambucana Ana Lucia Altino Garcia e seu marido, o Maestro Rafael Garcia, chileno de nascimento e pernambucano de direito e coração, ambos amantes e mestres da boa música erudita.
Há dez anos, cientes da carência, por este gênero musical, reinante entre os pernambucanos, este casal de mestres decidiu transformar o Recife num ponto de encontro anual de uma plêiade de grandes astros da música clássica mundial, para uma jornada de apresentações e concertos, revolucionando o meio cultural da província.

A partir de então, toda vez que se fala em música erudita e concertos sinfônicos, no Recife, a primeira coisa que vem à mente é o Festival Virtuosi. Pensando bem, a história desse gênero musical, na capital pernambucana, pode ser descrito em duas fases: antes e depois do Virtuosi.
Acompanhar este Festival é experimentar de uma pura imersão no que há de mais seleto e autêntico no mundo da musica clássica.
Uma das coisas mais interessantes é que a cada ano os promotores fazem uma homenagem justa aos valores da terrinha. Assim, já foram homenageados: Marlos Nobre, o exímio pianista pernambucano; Antonio Menezes, violoncelista fantástico, que depois de imenso sucesso no exterior, tornou-se conhecido entre nós, graças ao Virtuosi; Maestros Clóvis Pereira e Duda, que, para surpresa do grande público, foram mostrados como compositores eruditos, diferente das famas de carnavalescos e, por fim, o percursionista Naná Vasconcelos, homenageado de 2008, que terá a oportunidade, imagino, de se apresentar em grande estilo, com a Grande Sinfônica Virtuosi. Espero ansioso por essa noite.
Não vejo a hora, também, de assistir as performances de nomes internacionais como: Bjarne Hanse, espala da Sinfônica Odense; o “monstro” no contrabaixo, Catalin Rotaru, Docente da Universidade do Arizona, com lugar cativo no Virtuosi; o “louco” do trombone, que é Christian Lindeberg, o mais famoso do mundo, na atualidade, de volta ao Recife; Ilya Gringolts, prêmio Paganini de 1998, com seu violino; os filhos do casal Garcia, Rafael (Viola) e Leonardo (Violoncelo) Altino, que não negam a máxima popular de que “filho de peixe, peixinho é”; a doutora em Violino Soh-Hyun Park, coreana, professora e chefe do Departamento de Cordas, da escola de Musica da Universidade de Memphis e, outra vez, o exuberante e virtuoso pianista filipino Victor Asunción, que tantos aplausos colheu na temporada de 2007. Tem, ainda, Antonio Meneses (Violoncelo), Marlos Nobre (Piano) e Clóvis Pereira Filho (Violino), gente da terra, que faz sucesso lá fora. Há outros nomes, tão importantes quanto os já citados, mas meu espaço não caberia comentar sobre todos eles. Fico devendo. E os leitores vão ter oportunidade de conferir.
Por fim, naturalmente que vou querer aplaudir muito, e de pé, a dupla dinâmica, Rafael Garcia e Ana Lúcia Altino. O que seria de nós, pernambucanos, se não fosse a garra e a coragem destes dois loucos maravilhosos, que vivem da música e para a música e, todo dezembro, transformam o Recife na capital brasileira da música erudita. Obrigado aos dois! E, atenção, porque é para agendar: Festival Virtuosi de 2008, Teatro de Santa Izabel, a sala de visitas do Recife, de 17 a 21 de Dezembro.
Notas: Sugiro clicar no banner ao lado e conhecer a programação completa do Virtuosi 2008.
Foto: Virtuosi.com.br

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

FESTA NO MORRO

Dia 8 de dezembro é feriado municipal no Recife. A cidade volta suas atenções para o Morro da Conceição, no bairro de Casa Amarela, onde se festeja e se rende homenagens a uma das padroeiras da cidade, Nossa Senhora da Conceição. Trata-se de uma manifestação religiosa secular, cujo epicentro é a imagem gigante da Virgem da Conceição, trazida da França, no ano de 1904. Mede 5,5 metros de altura e pesa 1.806 kg. Foi ali colocada, pela então Diocese do Recife, em comemoração ao cinqüentenário do dogma da Imaculada Conceição. Na mesma ocasião foi também construida uma capela em estilo gótico e aberta uma estrada para acesso ao local. Devida a sua posição alta e privilegiada, a imagem da Virgem é vista de vários pontos da cidade.Não tardou muito e a localidade se tornou um bairro populoso e ponto de romarias, não apenas para os católicos recifenses, mas também para inúmeros de outros pontos do país.
Também não tardou muito para se formar um pólo de festejos profanos, que rola durante uma semana que antecede o oito de dezembro de cada ano, quando ocorre o ponto culminante e encerramento da festa.
Desde de muito jovem tenho o hábito de subir o Morro da Conceição, cada oito de dezembro. Misto de religiosidade e curiosidade. Sempre fui muito chegado a observar as manifestações culturais, daqui e de alhures. Quem me levou a cultivar este hábito foi um compadre, já falecido, que morava na subida do Morro e, invariavelmente, transformava o dia de N. S. da Conceição num grande momento de confraternização. A casa dele virava um ponto de encontro de amigos, amigos dos amigos, politicos e artistas, de onde partiam para empreender a subida ao Morro. Na volta, ele oferecia uma farta mesa com toda sorte de substanciosas iguarias populares, como sarapatel, buchada, dobradinha, tripa assada, mão-de-vaca, arrumadinhos, entre outros, regadas por um boa pinga ou uma cerveja geladinha, providencial para baixar o calor reinante no início de cada verão recifense.
Mantendo a tradição, subi o Morro hoje de manhã. Fui beijar a pedra.
Percebo que a cada ano aumenta o número de romeiros. Vi pessoas de todas as camadas sociais. Ricos e pobres. Políticos e empresários. Pequisadores. Muita gente. Muitas trajando uma mortália azul (cor do manto da Virgem), outras que subiam ajoelhadas, algumas sobem ou descem de costas. Crianças novinhas são levadas aos pés da Santa, para agradecer a vida. Soube que um cidadão subiu, ainda na madrugada, “nadando” para agradecer o milagre de haver sido salvo de um naufrágio.
Nos pés da Santa, no alto do Morro, em locais especiais, os romeiros acendem velas. São milhões de velas. O calor se torna insuportável e o corpo de bombeiros mantem-se sempre presente para apagar as frequentes labaredas mais altas.
Durante a subida é impossivel não notar a presença de comerciantes informais vendendo artesanatos, imagens, velas, comidinhas, água e picolé e dos pedintes que se postam, ao longo do percurso. Velhos deficientes, moços desempregados, mulheres jovens arrodeadas de inúmeros filhos que chegam a passar a noite inteira num dos pontos da ladeira, esperando a passagem dos peregrinos. Ali, na maior promiscuidade, dormem amontoados, em colchões estendidos na calçada, comem, bebem e fazem suas necessidades fisiólogicas, insençando o ambiente de forte odor de urina. A Prefeitura tenta controlar a presença, sobretudo dessas levas de crianças, mas é sempre burlada.
Como tudo na vida, há sempre um lado cômico a ser registrado e, neste caso, fica por conta dos nomes pitorescos, das crianças que se espalham e são chamadas pelas mães aflitas. Nomes quase sempre inspirados nos astros do cinema ou da TV. Parei para ouvir gritos por Jacqueline, Joelma, Michael Jackson, Morgana, Madona, Sabrina, entre outros. É engraçado, todo mundo querendo ser importante.
Salve a Virgem da Conceição e sua Festa popular.

Nota: Fiz esta crônica lembrando do meu Compadre Sebastião Alves, agora, certamente, vivendo no Reino do Céu. Ao descer do Morro visitei a viúva, Carminha, sempre bondosa e gentil e lembrando, aos choromingos, o finado Bastião.
Fotos do Blogueiro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

ACREDITE SE QUISER.

Quando, há quinze dias, eu falei que estava ficando difícil e que havia perdido as esperanças, diante da onda de assaltos e arrastão na porta de casa, muita gente reagiu e me aconselhou não perder as esperanças. Porque perder as esperanças é o mesmo que perder a fé. Pensei muito sobre isto. Meditei e busquei respostas para minhas perplexidades.
Os dias foram passando e já me recuperava do susto, quando ouço falar de um outro “arrastão” no maior shopping center da cidade. Povo correndo em desatino, lojas fechando as portas e pânico geral. Achei que foi uma coisa audaciosa, dei graças a Deus não ter sido vitima dessa emboscada e voltei à estaca zero nas minhas reflexões a respeito da insegurança reinante na minha cidade.
Não temos em quem confiar! Esta é a realidade dolorosa.
Mas, para minha surpresa, ainda maior, eis que os bandidos atacaram, outra vez, na minha região e numa rua paralela à minha. Nas barbas da policia de plantão na esquina da Telles Junior, após o arrastão de quinze dias atrás. Desta vez, eles fizeram uma investida na rua paralela, a Carneiro Vilela, distante, apenas, cem metros da guarnição policial de plantão. Parece mentira! Inacreditável. Fica difícil morar nesse miolo do, antes aprazível e tranqüilo, bairro dos Aflitos, por trás dos clubes Náutico e British Country Club. É uma ironia. Agora sim, podemos dizer que estamos, literalmente, aflitos. Tem sido, minha gente, uma guerra não declarada.
Nestas duas ruas, ultimamente, ninguém pode ver um carro parado no trânsito. Pensa logo que vai sair, lá de dentro, uma quadrilha de bandidos armados.
Eles estão desafiando a policia. Parece que brincando de “gato atrás do rato”.
Está claro que não temos mais a quem apelar. A polícia de plantão na rua é “cega e surda”. A Delegacia do Distrito faz, aparentemente, um “faz de contas”. Governo do Estado? Coitado. Só pensa na campanha eleitoral de 2010. Lula também. Este, aliás, não faz nada pela segurança pública do País. Não dizem nada para ele. Não sabe de nada. Com razão, aliás, porque anda tranqüilo, cercado de seguranças e, pensando bem, é capaz de pensar que esses assaltantes são pobres coitados, injustiçados pelo cruel sistema social brasileiro. É danado não ter a quem apelar. Estamos ao Deus dará. Só resta, quem sabe, pedir socorro ao Conselho de Segurança Nacional ou o da ONU! Ou a Bento XVI! Entreguei-me, com minha família, a Deus. Perdi as esperanças, é claro. Não posso dizer outra coisa.
Acredite se quiser. Mas, uma coisa eu garanto: tudo isto é verdade.
Nota: Foto do blogueiro da manchete do Jornal do Commercio, do Recife, dia seguinte ao segundo arrastão.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O JAPÃO NO RECIFE

Mais uma vez, neste último domingo de novembro, o bairro do Recife Antigo, se transformou num ambiente nipônico, com a já tradicional Feira Japonesa do Recife.
Pelo décimo segundo ano consecutivo os integrantes e simpatizantes locais da cultura do País do Sol Nascente, reunidos em várias associações recifenses, deram-se os braços e promoveram o que vem sendo considerada uma das mais belas festas populares do calendário turístico da cidade do Recife.
A Rua do Bom Jesus foi transformada numa autêntica rua japonesa. Logo na entrada um imenso Tori (portal estilo japonês) denunciava a transformação do local. Depois disso, eram muitos bambus, carpas decorativas e lanternas, entre outros adereços, dando um especial colorido ao ambiente e atraindo um público calculado em, aproximadamente, 40 mil pessoas circulando durante o domingo inteiro.
Barracas foram montadas para a comercialização de produtos artesanais, alimentos e bebidas, arranjos florais japonesas (ikebana), bonsais e vestuários típicos completaram a festa e deram alegria aos consumidores e comerciantes.
No final da Rua, na Praça do Arsenal de Marinha, foi montado um grande palco, onde desfilaram inúmeras atrações, locais e de fora. O ponto alto dessas apresentações foi o Grupo Ryukyu Koku Matsuri Daiko, de São Paulo, que deu uma exímia exibição de percussão com taikôs (tambores). Houve ainda as apresentações de Taikôs de Recife e da Paraíba e de uma cantora japonesa, Mio Matsuda, que arrancaram demorados aplausos do imenso publico que prestigiou o Festival.
Um espetáculo à parte ficou por conta da turma do Anime-Mangá-Tokusatsu. Essa turminha virou atração especial, ao fechar uma das ruas do pedaço e, com suas indumentárias tiradas dos filmes de desenho animado e gibis japoneses, surpreenderam os menos avisados e encantou a turma jovem.
A Feira deste ano serviu de fecho das comemorações do Ano do Centenário da Imigração Japonesa no Estado, sobre o qual já falei, outro dia. Foi, na verdade, um encerramento com “chave de ouro”, devido ao sucesso do que se viu ontem no bairro do Recife Antigo.
Por fim, registro uma especial atração da Feira deste ano que foi a Gincana Cultural do Centenário, na qual 32 alunos de oito escolas públicas, do Município e Estado, enfrentaram uma maratona de estudos, pesquisas e práticas dos costumes, artesanato, história, gastronomia, esportes, religião e outros aspectos do quotidiano japonês, num verdadeiro mergulho naquela cultura oriental. Coordenei esta gincana e vibrei, junto com a moçada (de 15 a 17 anos), mostrando as habilidades no uso do hashi (pauzinhos japonesas), confeccionando origamis, vestuário e conhecimentos gerais. Tenho a certeza de que, hoje, esses adolescentes pernambucanos sabem de tudo sobre a cultura japonesa. Como em qualquer outra gincana, foram proclamados vencedores da disputa e distribuídos prêmios valiosos. Porém, o mais importante, ao meu modo de ver, foi que esses jovens – todos de famílias de origem humilde – lucraram culturalmente e jamais esquecerão a experiência que tiveram.
Tudo isto não seria possível se não fosse o empenho do Consulado Geral do Japão no Recife, da Prefeitura da Cidade, das associações culturais japonesas e da Associação Nordestina de Ex-Bolsistas no Japão, que deram de tudo para o sucesso do evento.
Deu um trabalho imenso. Mas, valeu à pena.

Dedico esta crônica a minha amiga e colaboradora, Zélia Faria, diretora cultural da Anbej, que trabalhou feito uma louca, para coordenar a execução da 12a. Feira Japonesa do Recife. Valeu Zélia!
Nota: As fotos são do Blogueiro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

VIVA LA NEGRA

Ainda vivíamos a década de 70, quando uma amiga – Leony Muniz – “apresentou-me” Mercedes Sosa, La Negra. Apaixonei-me, de cara, pela voz e pela história dessa argentina fantástica. Sai comprando todos os discos – long play, na época – lançados na praça.
As estações de rádio do Brasil davam espaço e cantores famosos, como Caetano Veloso e Milton Nascimento, abriam fatias generosas dos seus shows para que La Negra se apresentasse ao publico brasileiro. A cada apresentação crescia sua legião de fans.
Perseguida pelos ditadores argentinos ela foi proibida, a partir de 1976, de cantar na sua própria terra e, com isto, preferiu se refugiar na Europa – Espanha e França principalmente – onde fez um sucesso ainda maior e sua fama correu o mundo.
Com a democratização da América Latina e, sobretudo, na Argentina, Mercedes Sosa retornou a sua terra natal e continuou sua trajetória artística.
Hoje, 25 de novembro de 2008, assisti a um grandioso show dessa Diva da música popular latino-americana, no Teatro Guararapes, do Recife. Estou em estado de graça.
Em cima dos seus 72 anos, a mulher soltou a voz, tão firme quanto há 35 anos, encantando uma platéia comovida pelas músicas e poemas por ela interpretados.
Numa entrada triunfal, foi recebida de pé e aplaudida por longos minutos.
Daí em diante, foi quase duas horas de um repertório que mesclou antigos e novos sucessos. Ao interpretar Gracias a La Vida e Volver a los 17, dois dos seus grandes sucessos dos anos 70, a mulher galvanizou o publico. Vi gente enxugando as lágrimas.
Com razão. São musicas que remetem a um tempo político difícil, no qual somente as composições musicais de artistas de vanguarda e engajados nos movimentos pró-democracia encantavam a juventude da época, que são os maduros de hoje e que compunham a platéia desta noite. Foram sambas (a la argentina), chacareiras e outros gêneros musicais da nação irmã, num desfilar de interminável sucesso.
Mas, não foram apenas as musicas argentinas que arrancaram os aplausos no Guararapes. Composições musicais brasileiras, entre as quais Coração Vagabundo, Insensatez e Coração de Estudante, além de emocionar os tupiniquins presentes, revelou uma argentina amante da Terra Brasilis. E ela, sem se fazer de rogada, respondeu com um sonoro “Muito Obrigado”. Nem preciso dizer qual foi o clima que se instalou.
La Negra está pesando além do normal. Imagino que, cento e bote força. Anda com dificuldades. Sempre ajudada. Já não faz as evoluções coreográficas do passado. Não dança, por exemplo, uma Chacareira. Apenas mexe, graciosamente, com os braços. Canta sentada e, como sempre, envolta em muitos panos. Na verdade um imenso poncho. Uma iluminação especial e em permanente movimento, substitui a coreografia da artista do passado.
Ainda assim e, não obstante, a relativa paralisia, Mercedes Sosa resolveu pedir ajuda, pôs-se de pé e ensaiou algumas evoluções, cantando “Maria! Maria!”, composição de Milton Nascimento, para encerrar o show desta noite. Foi o ápice dessa apresentação inesquecível. Ninguém conseguiu ficar sentado. Algo em torno de mil pessoas, de pé, cantou junto com ela. Foi, eu diria, apoteótico. E, sinceramente, com forte tom de despedida.
Viva La Negra! Como Mama África – sobre a qual falei recentemente – uma Voz da Liberdade, neste caso, da América Latina.
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

PERDI AS ESPERANÇAS

Está ficando muito difícil. As autoridades perderam o controle da situação da segurança na cidade do Recife. À medida que o tempo vai passando, dá para perceber que os assaltos, roubos, furtos e assassinatos tornaram-se corriqueiros e verdadeiras banalidades do dia-a-dia recifense. As pessoas já ouvem falar dessas barbaridades, como sendo coisas de rotina. Recebem a informação de forma indiferente. Coisa comum e sem surpresa. Às vezes a noticia passa desapercebida.
Hoje em dia, a gente já sai de casa com o espírito preparado para um eventual episódio, tamanha é a freqüência da coisa. Cuidado aqui ou ali, cortando sinal vermelho, escolhendo por onde circular, vivendo um autentico suplício. Haja estresse.
Interessante é que os mais otimistas tendem sempre a pensar que a coisa só acontece com os outros e a certa distancia, o que é um ledo engano, devido a constância.
Esta semana fui surpreendido, na frente do prédio onde moro, no Rosarinho, com um audacioso assalto a oito veículos encurralados pelos bandidos, entre duas transversais, usando dois automóveis atravessados na via pública. A Rua Teles Junior é estreita, com muitos prédios, muitos habitantes, sempre cheia de veículos estacionados dos dois lados e com estreita pista de passagem para um intenso tráfego. Foi uma “barbada” para os assaltantes. Após obstruírem a rua, em dois pontos estratégicos, “fizeram a feira” em poucos instantes e partiram em disparada, levando as chaves de todos os veículos represados. Era um bando de mais de dez. Restaram oito motoristas e seus acompanhantes em estado de desespero, sem lenço, sem documentos, sem dinheiro e, com certeza, sem esperanças de paz.
Na manhã seguinte os jornais traziam o retrato da calamidade com a clamorosa manchete: Arrastão e Terror em Rua do Rosarinho. A minha rua! Foi a violência batendo a minha porta.
É isto aí, meus amigos. Sinto que estamos perdendo as esperanças de ir e vir tranquilamente. De viver, mesmo dentro de casa, sem temor. Perdendo as esperanças de viver numa cidade segura.
As autoridades vivem de promessas e sem apresentar resultados tangíveis. Os marginais já devem rir à toa, com tanto sucesso que alcançam nas suas ações devastadoras. E pela facilidade que encontram, as organizações criminosas se multiplicam diante da impotência do Estado. Há uma verdadeira máquina de criminalidade.
É verdade que é um problema nacional. Mas, no Recife as coisas estão sem limites. A cidade está inviável. Acredito que esta geração não terá chances de viver num ambiente de paz. Serão necessários muitos anos para que uma estratégia política de ordem e segurança vingue por estas bandas. Vai ser preciso um trabalho de base que salve da marginalidade as próximas gerações , a base de educação, saúde, moradia e emprego necessários a esta população que vive nas periferias das nossas grandes cidades, incluindo o Recife.
Estou certo de que não será uma coisa para o meu tempo. Tomara que seja para meus netos. Sofro por conta da minha falta de esperança, mesmo que ela seja a última a morrer, conforme a sabedoria popular.
Nota: Foto obtida no Google Imagens .

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Cuidado! Tem Lobisomem na Praça

Eu faço questão de ter um café-da-manhã tranqüilo. Com suco, frutas variadas, café preto ou com leite e torradas com geléia e queijo branco. Enquanto isto, ouço – diariamente – a Ave-Maria de Gounoud, em tom bem baixinho. O CD nem sai do meu 3 em 1. Nunca. Ah! Leio os jornais do dia, também. É uma hora de tranqüilidade e preparação para o dia que começa, quase sempre, muito movimentado.
Minha tranqüilidade só é quebrada pela minha Secretária Doméstica, D. Iracema, que, freqüentemente, trás noticias de um mundo, digamos, quase cão, onde ele habita.
Outro dia, não posso esquecer jamais, chegou me dizendo que por lá (região pobre Recife, por trás dos bairros do Arruda e Água Fria) tem gente que quando morre, o corpo é jogado no canal por falta de dinheiro para um sepultamento, por mais simples que seja. Telefonam para a Polícia, que chega a seguida, levanta o corpo e enterram como indigente. Pense na minha cara. Fiquei abismado com essa realidade chocante. Francamente, não é um mundo cão? Fora disso, assassinato, prisão de maconheiro e assaltante, extermínio e estupro é rotina naquelas bandas.
Esta semana Iracema está em verdadeira polvorosa. Vive alarmada com uma novidade que se espalhou pela região, de que um lobisomem anda solto pela área, pintando miséria. Ataca a partir da meia-noite “Inté o raiá do dia!!!!” no linguajar dela. “E esta semana que tem noite de lua-cheia, o bicho vai pegar!” O curioso é que Iracema, coitada, tem uma prótese ocular no olho esquerdo – que, aliás, ela diz ser uma próstata (!) ocular – e, quando fala, arregala um olho só. É uma cena... “Tô cum medo de sair de noite e de vortá prá casa!”. Aconselhei-a que ficasse por aqui, para não cair nas garras do monstro. “ De jeito nenhum! Tenho que vortá pá tomá conta das minhas fias e netas. Esse danado de lobisomem tem sede de minina fema e mulé donzela!”
Confesso que fiquei dando corda no papo e conferir até que ponto chegava. Uma vontade danada de rir. Como é que pode? Em pleno século 21!
Segundo Iracema, os lobisomens são filhos amaldiçoados pelas mães. “Praga de mãe, pega que nem gripe, Dotô Giley.” E acrescentou: “Ou então, é no que dá dessas mulé severgonha que transam com cachorro e fica grávida de lobisomem”. Disse, com uma boca miúda, baixinho e cheia de pudor. Dei um pulo da mesa e me sai com algo, mais ou menos, assim: “Ah não! A Senhora, agora, foi longe demais! Que coisa mais feia! Eu não acredito numa sujeira dessas. Isso é outra invenção sua!”. “ Ôxi!, qué bem mi dizer que num sabe! É o que mais tem por aí. Inclusive essas mulé da alta, que o Sinhô conhece, que é rica e pode ter o homem que quiser, mas prefere um cachorro! E, quando o minino lobisomem naice, ela manda jogá na mata, porque ninguém vai querer um lobisomem sorto dento de casa. Tá pensando o que? O que mais tem no mundo, é mulé severgonha.” Aí, não tive jeito de segurar. Ri, como diz Geraldo Pereira, “à bandeiras despregadas”.
O imaginário popular é uma coisa fantástica. Em qualquer lugar do mundo se manifesta e cria essas figuras folclóricas.
Indiscutivelmente, estou falando de um traço cultural que, ao mesmo tempo, mobiliza as pequenas comunidades, em verdadeiras festas macabras, inclusive, ocasionando o surgimento de aproveitadores da inocência coletiva. Isso dá um trabalho daqueles à Policia.
São essas histórias populares do dia-a-dia, que entram pela porta da minha área de serviço e me surpreende na mesa do desjejum.
Na noite desta sexta-feira, com lua cheia, a Comunidade de Chão de Estrelas, onde vive Iracema e sua prole, vai se mobilizar para pegar o danado do lobisomem que anda solto por lá. Tem homem armado, de pau e pedra, por todos os lados. “ Tenho fé em Deus que vão pindurar o danido morto, num poste da praça!” Disse Iracema, cheia de esperança e confiança.
Até que ocorra essa emocionante captura, ela vai se apressar por encerrar o expediente dela, aqui em casa, correr assustada e se trancafiar num quarto, com as filhas e netas que, segundo ela, estão dormindo juntas e amuquecadas numa mesma cama. Mortas de medo! Aliás, ela garante que nem consegue dormir, porque fica “atucaiando a porta”.
Pensando bem, tenho que ser grato a essa figura do dia-a-dia da minha casa, porque ela é meu link com a realidade social do povão. É ela que me arrasta do alto da pirâmide social que vivo e me mostra – sem pena e cruelmente – a maneira de viver da gente humilde e desassistida.
Mas, por via das dúvidas, cuidado! O lobisomem está por aí... Não duvide! Que ele pegue e estraçalhe quem discordar disso.
Aliás, sabe de uma coisa? Para me precaver, vou recomendar a Sonia, minha mulher, que volte cedo do trabalho, de preferência com a luz do dia. Seguro morreu de velho!
Nota: Imagem colhida no Google Imagens

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Adeus, Mama África

Quando o DJ atacava de Pata-Pata, nas discotecas da minha juventude, a moçada ia à loucura. A pista de danças ficava pequena e o “rala-rala” dos corpos em evolução dava o tom da alegria da noitada. Tratava-se de uma música que explodia nas paradas de sucesso do mundo inteiro.
Tempos depois, quando já nem me lembrava, fui ouvi-la na distante África do Sul, nos idos de 1996, quando andei por lá, numa Missão de negócios. Estranhando o sucesso tardio, comentei a um nativo de que a época dessa música, no Brasil, havia ocorrido muitos anos antes. Para minha surpresa, meu interlocutor explicou que Pata-Pata será, para os sul-africanos, um eterno sucesso, por ser da autoria da mais famosa cantora do país, Miriam Makeba, mais conhecida como Mama África, pela sua internacional militância em favor da independência das nações africanas, na segunda metade do século 20.
Intrigado com aquela novidade, fui atrás de discos, digo CDs, da cantora famosa do país que eu visitava pela primeira vez. Mais do que isso quis saber a respeito da vida dela, já que se tratava de uma personalidade política de um povo que experimentava a liberdade, depois da sombria Era do Apartheid. Mandela estava em liberdade e governando a Nação que ajudou a construir. Era uma história que andava me fascinando e me levando a explorar tudo quando estava ao meu alcance, ou seja, lances históricos, personagens e futuro. Foi quando soube que ela, Miriam Mabeka, depois de longos anos no exílio, por insistência de Nelson Mandela havia retornado a África do Sul, sua terra natal, em 1992 e de lá continuava fazendo sucesso no mundo inteiro, enquanto desenvolvia um trabalho social de apoio a adolescentes em situação de risco, nos subúrbios de Johannesburgo.
Não tive o prazer de conhecê-la ou de assistir alguma das suas apresentações.
Hoje (11.11.08), amanheci o dia lendo, nos jornais do Recife, a noticia da sua morte repentina, ontem, na Itália, aos 76 anos de idade. Lamentável. Depois de um show, em favor do escritor Roberto Saviano, ameaçado de morte pela máfia italiana. Morreu quase que cantando, desmaiou, ainda no palco, quando se preparava para um bis, ao som de aplausos dos fans. Talvez, como um dia desejou. Seguramente feliz. Morreu em plena militância política em favor dos oprimidos. Morreu sendo a voz da África. Cantando a verdade, como sempre dizia. “Eu não canto nunca para a política, mas sim para a verdade” esta foi sua declaração mais famosa.
Calou-se, assim, uma voz lendária do Continente Africano, pouco conhecida ou divulgada no Brasil. Não tenho noticias de apresentações por nossas bandas.
Mama África, uma zulu de alma, ficou mais de 30 anos no exílio. Foi como pagou pelo intenso combate que exerceu contra a degradação do seu povo, sob o jugo dos chamados nacionalistas africaners, de origens holandesa e britânica. Correu meio mundo na sua vida de exilada. Inglaterra, Estados Unidos, onde experimentou do maior sucesso e chegou a cantar na Casa Branca, na época de John Kennedy e, por fim, na Guiné. Suas musicas que misturavam ritmos tradicionais africanos com blues, jazz e gospel foram proibidas no seu país natal, devido às denuncias contra o regime racista sul-africano, na ONU, no remoto 1963, quando ela contava com apenas 31 anos de idade.
Pata-Pata, embora sendo de 1956, estourou nas paradas de sucesso do Brasil, se não me falha a memória, nos anos 70. Só pode ser ouvida pelos sul-africanos com o fim do Apartheid.

Nota: As fotos forma colhidas no Google Imagens

domingo, 9 de novembro de 2008

Vitória da Raça

Sem dúvidas o maior acontecimento da semana foi a vitória de Barack Hussein Obama na eleição de Presidente da República, nos Estados Unidos.
Muito se espera do novo presidente norte-americano. Acho que qualquer que fosse o vitorioso seria assim. O nefasto governo de Bush fez com que o mundo inteiro torcesse por uma mudança e colocasse todas as fichas nesse jogo. Aliás, pensando bem, foi Bush o maior cabo eleitoral de Obama.
Há muitas décadas os norte-americanos não se mobilizavam, para uma eleição, como ocorreu na semana que passou. Dessa vez o eleitor não ficou apático. Foi às ruas, fez campanha, gritou, votou – houve uma afluência nunca vista às sessões eleitorais – e comemorou a vitória, dando testemunho de que lá se pratica a maior democracia do planeta.
Os Estados Unidos, mergulhado na maior crise econômica de todos os tempos e as portas de uma longa recessão, esperam dessa sua nova liderança algo como passes de mágica para tirar o país do buraco que Bush colocou. A expectativa é tamanha que assusta os mais avisados e conscientes do desafio. Não vai ser uma coisa fácil. E é aí onde reside a preocupação da equipe de governo já se formando. O primeiro discurso, não o da festa da vitória, numa grande Praça em Chicago, que foi carregado de emoção, mas o da primeira coletiva à imprensa mundial foi claro ao avisar das dificuldades e pedir calma.
Mas, não é desses aspectos político-econômicos que quero falar. Ao invés disso, tenho me detido mais em observar a alegria do povo negro norte-americano. Esta sim foi uma vitória retumbante. Conheço os Estados Unidos de Norte a Sul e Leste a Oeste. A primeira vez que estive por lá foi no longínquo 1967. Muito jovem, tive a oportunidade e a curiosidade de observar as relações entre brancos e negros e senti, claramente, a diferença que se impunha entre os cidadãos das duas raças.
Vivi os tempos de campanha de Martin Luther King e acompanhei o episódio do seu assassinato em 1968. Em 1972, de volta aos Estados Unidos e, mais precisamente, a cidade de Atlanta (Geórgia), no Sul do País, onde a questão racial sempre foi mais acirrada, fiz questão de visitar o túmulo desse mártir pela luta contra o racismo na Terra de Tio San. Lá mesmo, na capital da Geórgia, como sinal da separação racial, fui recomendado atentamente, pelos meus anfitriões e por um primo que fazia intercambio, de não entrar, por descuido, no bairro comercial dos negros. Isto numa época em que a coisa já era, oficialmente, inaceitável. Temia-se que eu fosse abordado de modo adverso pelos negros, ainda vivendo em guetos.
Noutras ocasiões, e, até recentemente, sempre que volto aos Estados Unidos, visitando lugares diferentes – grandes centros e pequenas cidades – não percebi progressos muito claros nesse relacionamento. Naturalmente, que vi negros e brancos, circulando juntos, em todas as partes. Mas vi, também, que a coisa nunca deixou de ter o ranço do preconceito histórico.
A vitória de Obama pode marcar o ponto final dessa diferença e o exemplo vai levar o resto do mundo, de uma vez por todas, alijar o racismo, onde quer que ele ainda exista. Os democratas com mais facilidade do que os republicanos, mas provavelmente todos juntos, em honor ao President of The United States of América e a tradição democrática do país vão perceber que não cabe mais alimentar o ranço. Acho que a Nação vai se unir em torno desse homem que vem com a aura de Salvador da Pátria.
É minha gente... A História muda. Nasce uma nova América. Para gáudio do Planeta! É a vitória da raça, 40 anos depois da morte de Luther King, que é considerado o fundador da moderna democracia norte-americana.
Nota: As fotos de Obama e Luther King foram colhidas no Google Imagens

domingo, 2 de novembro de 2008

O Mendigo Inadimplente

Bastião (nome fictício) é deficiente físico – anda com ajuda de muletas rudimentares – e fez da “profissão” de pedinte seu ganha-pão. Seu “estabelecimento comercial” é num movimentado cruzamento, no bairro dos Aflitos, Recife. Todo santo dia o sujeito está por lá pedindo um trocado aos que param em atenção ao semáforo e, dessa forma, ganha a vida e sustenta uma família de vários rebentos. Só vendo como o pobre “trabalha”. Acho que tem o sovaco mais sofrido da cidade.
Penalizado com o infeliz ofereci, certo dia, uma oportunidade de emprego na fabrica de vassouras de um amigo. Salário mínimo, carteira assinada, INSS, FGTS, vales transporte e refeição, cesta básica, salário família e tudo mais que um trabalhador formal recebe. Para minha surpresa recebi um tremendo NÃO. “Tá brincando dotô... saláro mínimo? Tô fora! Dá não... aqui eu tiro muito mais...” O sinal abriu, passei uma primeira e segui minha trajetória, abestalhado com o que ouvi e disposto a nunca mais, digamos, colaborar.
Passado algum tempo, na época em que mudaram o transito na área e o fluxo de veículos diminuiu, parei meu carro atendendo ao sinal amarelo de atenção e lá me vem Bastião com uma insólita conversa. A coisa foi mais ou menos assim: “Dotô, tudo bem? Colabore aí, hoje. Tô meio atrapaiado. A loja mandou me dizer que tô inadiprente... Acontece que o movimento por aqui diminuiu muito, só passa carro prum lado e o movimento tá ruim demais. Deixei de pagar três prestação da televisão e da geladeira... parece que vão lá em casa tumar tudo de vorta.”
Nem preciso comentar o tamanho do meu espanto. O cara estava me explicando o motivo da sua inadimplência na praça! Um simples esmoleiro! Quase não acreditei no que ouvi. Ainda de olhos, certamente, bem arregalados escutei a melhor parte: “Dotô, eu sei que o Sinhô é devogado, por favor me ajude...” Respondi, apressado, que não era Advogado, que era Economista, passando uma primeira e partindo. Ainda deu tempo de vê-lo com olhos arregalados, bem espantado, e exclamando: “Vixe Dotô! O Sinhô é comunista! Nunca pensei!” Dali prá frente ele não quis mais negócio comigo. Quando eu passo por lá, ele olha desconfiado... deve dizer, lá vai aquele comunista. E, continua por lá. Há, pelo menos, 30 anos. Isto é um exemplar retrato do Brasil!
Nota: Imagens colhidas no Google Imagens

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

CÁLCULO ERRADO

Nas minhas idas e vindas Brasil afora, quase sempre em missão de trabalho, algumas coisas chamam-me à atenção. Coisas que muitas vezes comento aqui neste espaço e coisas que se acumulam na memória e, de repente, afloram de e maneira clara e pedindo reflexão ou comentário.
Ontem à noite, por exemplo, voltando de mais uma ida a Brasília, observei que naquela cidade há também um tremendo problema de trânsito.
Fiquei impressionado, a caminho do aeroporto, com o pesado fluxo de automóveis que saia, por volta das 19h, do chamado Plano Piloto – a área central da Capital Federal – para as cidades satélites. Isto, porque a opção do trajeto foi a via que margeia o Lago Sul, considerada melhorzinha. Momentos houve, de paralisia geral do transito, que senti a sensação de que perderia o vôo. Conduzido por um amigo, fui informado de que isso é rotina.
Vejam só! O brasiliense, para cumprir suas agendas, já começa a se programar considerando o tempo que vai perder no deslocamento. Quem diria? Uma cidade projetada para ter um trânsito fluído, sem cruzamentos e sem semáforos, transformada num inferno recheado de automóveis.
Acho que os projetistas da Capital, na primeira metade do século passado, subestimaram duas coisas: o poder de atração que a nova capital exerceria sobre boa parcela da população que terminaram por elegê-la como domicilio e, depois, a popularização do automóvel neste país de Cabral. Indiscutivelmente, foi um cálculo equivocado.
É isto mesmo. Brasília está inchada. São inúmeras as cidades satélites e os núcleos residenciais no entorno do Plano Piloto que funcionam como dormitórios, despejando, diariamente, levas e mais levas de trabalhadores comuns, vendedores ambulantes, funcionários públicos, comerciários, bancários, funcionários de embaixadas e organismos internacionais, entre outras categorias, na região central resultando num movimento populacional que já ultrapassa a casa dos 2 Milhões. Ora, Brasília foi projetada para abrigar, quando muito, apenas 650 Mil habitantes. Resultado é que a cidade ficou pequena para abrigar tanta gente. Depois do sufoco no transito, encontrei o Aeroporto JK apinhado de gente. É o terceiro aeroporto mais movimentado do País. Ali ocorre, a cada dia, uma prova concreta de que viajar de avião virou uma coisa corriqueira neste país. É impressionante o movimento de passageiros naquele terminal do Planalto Central. E aí, outra constatação: o aeroporto de Brasília é outra coisa que, também, ficou pequena para o imenso número de vôos que chegam e partem dali. As salas de embarque são confinamentos acachapantes e parecem ser sempre desorganizados. No meu caso, ontem à noite, antes do embarque apontavam um determinado portão, lá dentro o portão era outro. Um estrangeiro, coitado, ficaria perdido e desorientado.
Dado o embarque, vi-me numa aeronave literalmente lotada. Tem sido sempre assim. Há muito tempo só viajo em aviões lotados.
Enfim, considerando o calor de 37º C reinante nos últimos dias na Capital Federal, um outro “calor” emitido pelo debate da Crise Internacional, a baixa umidade relativa do ar, os engarrafamentos no transito, a poluição seca e sufocante de poeira e queimadas, o avião lotado e apertado, a gravata, o paletó, uma maleta de rodinhas e um notebook pesado a tiracolo... estou cansado até agora, depois de passadas 24 horas. É duro agüentar essa Brasília do século 21, sendo exigida a mais do que o que calculado.
Nota: Imagens obtidas no Google Imagens. Panorama de Brasilia e engarrafamento em Brasilia

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Nas mãos da China

Hoje fiz diferente. Sem outro assunto para uma postagem, salvo os que se referem à Crise Economica, preferi postar um artigo que li ontem no Diário de Pernambuco, da autoria de Paulo Paiva, do Jornal O Estado de Minas. Ele foi muito feliz na sua analise jornalistica, com a qual concordo plenamenta. Esta é, aliás, a preocupação dos cidadãos norte-americanos, segundo meu irmão Gustavo Brasileiro, economista, radicado nos Estados Unidos, com o qual conversei longamente neste sábado passado. Tem muito a ver com minha postagem anterior.
Veja a seguir o artigo:
"O mundo está nas mãos da China. Está ali, entre os chineses, o novo poder econômico mundial. E há pelo menos dois bons motivos para isto. O primeiro são as reservas internacionais da China, estimadas hoje em US$ 1,9 trilhão, ou quase 10 vezes maiores que as brasileiras, ou apenas US$ 1 trilhão a menos do que EUA e Europa estão gastando, juntos, para salvar seu sistema financeiro, ou ainda bem maiores que Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, estimado em US$ 1,3 trilhão. Em resumo: hoje, o dinheiro está na China.Estima-se que pelo menos um terço desse montante esteja aplicado em títulos do Tesouro americano - o que faz da China, na prática, o verdadeiro banco central americano, já que cabe a ela financiar os gigantescos déficits fiscal e comercial da América. Em grande parte, será também o dinheiro chinês, convertido em títulos dos EUA, que financiará o pacote de US$ 700 bilhões anunciados pelo presidente George W. Bush para salvar os bancos americanos. Outra parte das reservas chinesas estão aplicadas em ações e empresas americanas, como o Banco Morgan Stanley. Mais: em dificuldades econômicas, Angola e Paquistão foram pedir empréstimos a Pequim, e não a Washington, como antigamente.O segundo motivo também é robusto: o Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu 9,9% de janeiro a setembro, e 9% no terceiro trimestre. É verdade que o percentual anualizado representa uma queda em relação aos 12% do ano ano passado, e aos 10,5% do segundo trimestre, mas ainda é um colosso comparado ao crescimento praticamente nulo dos EUA e Europa este ano, e mesmo em relação ao Brasil, cujo PIB, se tudo der certo, deve avançar 5%. Os bancos chineses, já estatizados, não enfrentam a turbulência que assola as instituições financeiras ocidentais. Por isso, não seria exagero dizer que, neste momento, graças às suas reservas e ao seu crescimento, a China é a dona do mundo. Isso não quer dizer que a crise financeira mundial não chegou à China. Chegou. Na semana passada, duas fábricas de brinquedo fecharam as portas, demitindo quase 7 mil pessoas. Mas o governo chinês está reagindo. E tem bala na agulha para isso."Com reservas de US$ 1,8 trilhão, a China pode usar ferramentas como incentivos fiscais e isenção de impostos para empresas. As reservas chinesas funcionam como um instrumento para ceder crédito. E agora, com a crise nos EUA, pode ser a grande oportunidade para a China comprar ativos americanos por preço barato. A China, de forma seletiva, pode ir às compras", diz Luiz Iani, sócio da DLM Invista. Iani também concorda que a China vai ditar o crescimento do mundo nos próximos anos."

sábado, 18 de outubro de 2008

Outro Império que cai.

Faça o que eu digo e não o que eu faço. Esta parece ter sido a referencia econômica dos Estados Unidos, durante todo esse tempo em que liderou a economia do planeta. Digo liderou, porque, a meu ver, isto é coisa do passado. O império norte-americano acaba de ruir. Durante décadas os yankees deram as cartas, apregoaram e impuseram limitações aos paises periféricos, para, em troca, ter suporte para a sua política de liderança planetária, acumulando, hoje, uma divida colossal por assumir um sistema financeiro erodido, financiar cortes fiscais internos e patrocinar aventuras militares ilimitadas.
O maior mandamento da política econômica norte-americano, a do livre mercado, se auto-destruiu na medida em que parte importante do seu sistema financeiro foi ao fundo do poço e teve que ser socorrido pelo Governo. Ou seja, foi estatizado. Vejam só! Eles agora andam na contra-mão! Resultado: caos instalado, mundo em convulsão econômica, desconfiança geral, perdas incalculáveis. O fim do mundo...
Acredito que estamos diante de uma mudança geopolítica histórica, no qual o equilíbrio do poder no mundo se altera de uma forma irreversível. Não se trata apenas de uma crise financeira. Há também uma profunda crise política. Falta uma liderança de pulso na condução dos negócios globalizados. Bush pôs uma pesada pá de terra no império do Norte. A era de liderança estadunidense, que vem desde o final da Segunda Grande Guerra, ao que parece, chegou ao fim. Tenho pena é do futuro inquilino da Casa Branca, até porque não vejo perfil de estadista em nenhum dos dois postulantes.
Muito bem. Como as coisas não podem ficar, por muito tempo, à deriva, os lideres da União Européia se mobilizaram e começam a estabelecer estratégias de longo alcance para dar fim a desordem instalada. Reprovando energicamente o despautério bancário norte-americano, estão dispostos a estabelecer regras claras e rigorosas para uma nova ordem econômica internacional. Fica claro, portanto, que aos europeus passará o papel de dar as cartas. É a minha opinião.
O interessante disso tudo é que a História nos mostra que a derrocada de um império se caracteriza pela interação do binômio: guerra e dívida. Assim foi com o Império Britânico que se enfraqueceu e se esvaiu na Primeira Grande Guerra, com o Nazismo de Hitler, como foi com a União Soviética e como ocorreu com outros mais remotos, entre os quais o Império Romano e o de Napoleão Bonaparte. A Guerra do Iraque e a balbúrdia creditícia debilitaram fatalmente a liderança econômica dos Estados Unidos. Eles continuarão sendo uma das maiores economias do mundo, mas, indiscutivelmente, com grandes limitações e sem o brilho do passado. A farra acabou! Novas potências econômicas ascendentes tomarão seu lugar e, inclusive, quem sabe, se encarregarão, uma vez superada a crise, de comprar o que restou intacto do sistema econômico-financeiro norte-americano, inclusive para tirá-lo da recessão que vai reinar nos próximos anos.
É isto aí: de repente está surgindo um novo mundo, no qual a liderança dos Estados Unidos será coisa do passado. É outro Império que cai, para registro da História.
Nota: A ilustração foi colhida no Google Imagens.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Marola ou maremoto?

Como qualquer cidadão brasileiro e de sã consciência, estou ligado no debate da crise econômica mundial que se alastra nos quatro cantos do planeta. Não pretendo fazer nenhum comentário especial – por incompetência ou pelas complexas características do caso – mas, vou fazer algumas considerações, baseado em comentários na mídia, conversa com empresas e pessoas amigas aqui no Brasil e fora do país.
A primeira coisa que me ocorre comentar é a opinião do Governo Brasileiro e, particularmente, do nosso Presidente Lula. Desde o inicio do problema fiquei muito impressionado com os pronunciamentos do nosso mandatário, por serem excessivamente otimista, ignorando o fato concreto de que o Brasil é player do jogo da economia globalizada e capitalista. Pensando bem, no mundo de hoje, é inteiramente impossível, a qualquer país, ficar imune a este debaque econômico nas proporções do atual. Isto parece claro e cada vez mais certo, mesmo no “reino encantado de Lula”.
Fala-se muito do sistema bancário brasileiro, que é bem estruturado e se encontra numa fase segura. É verdade. Mas, este mesmo sistema bancário não vive autarquicamente, digo, independente de relações internacionais, porque boa parte faz parte de conglomerados internacionais e, por isso, vai ter lá seus percalços. Prova disso é que o Banco Central e o Governo maneiraram na questão do depósito compulsório, liberando bom percentual para manter irrigado o sistema financeiro nacional.
Depois disso, lembro que as grandes empresas brasileiras, internacionalizadas, com ações na bolsa de Wall Street, obviamente vão sofrer efeitos da crise, e as que, por razões diversas, dependem de transações no mercado externo – seja comprando matérias-primas ou vendendo seus produtos – vão certamente sofrer sérios efeitos do problema.
Ao mesmo tempo, considerando o que está ocorrendo com os preços das commodities – em baixas acentuadas – a situação começa a ser mais preocupante ainda. O petróleo, por exemplo, cujo preço do barril vem caindo todo dia, sem perspectivas de recuperação em curto prazo, remete a que os cálculos da receita projetada com o óleo brasileiro, da camada de pré-sal, devem ser refeitos e o resultado vai ser uma inesperada surpresa. Depois disso, tem o minério de ferro, a soja, o açúcar, o suco da laranja, fortes itens da nossa pauta exportações e por aí vai.
Ah! Mas o Dólar americano, na esteira da crise, se valorizou frente ao Real e isto vai representar uma recuperação das nossas exportadoras. É possível... mas, é bom lembrar que o mercado consumidor pode se retrair e isto pode gerar uma queda nas vendas ao exterior.
Estive conversando com uma pessoa da família, que vive nos Estados Unidos, e fiquei sabendo das mudanças nos hábitos do consumidor americano. Há muita preocupação e cautela dos que estão com o poder de consumo equilibrado, assim como há os incapacitados de consumir por estarem quebrados, depois de cair nas ciladas do crédito fácil. O clima, por lá, é de muita incerteza e de alguma revolta. Ora, se está sendo difícil na terra de Tio Sam, será difícil, também, para muita gente ao redor do mundo e o brasileiro não é melhor do que os outros. Imagino que, por estas horas, os chineses devem estar calculando as perdas devido à retração do consumo dos norte-americanos, que são os maiores compradores das bugigangas chinesas.
Conversei também com representantes de algumas empresas locais e cheguei à conclusão de que paira sobre elas “nuvens pesadas” sinalizando uma tempestade a qualquer momento. Um deles me disse que, por sorte, está com o almoxarifado abarrotado de componentes importados e, por enquanto, o Dólar alto não afetará seus negócios. “Daqui a três meses, espero que o Real se valorize, outra vez, e minhas compras de componentes sejam viáveis. Caso contrário vai ser difícil segurar...”, explicou meu interlocutor. Outra, estava preocupada com o preço do componente principal e mais valioso do equipamento que produz, porque é de origem norte-americana e, portanto, vai depender de um Dólar mais caro. Está com medo de perder a competitividade de mercado. Noutra empresa, que além de comprar componentes no exterior, vende muito no mercado externo, considera que a alta da moeda americana vai ser mais conveniente ao seu negócio. Isto, se não houver retração no consumo. Falei ainda com outra, multinacional, com sede na Europa e unidade no Recife e ouvi uma explicação interessante: apostou (não sei como) numa valorização do Euro e, com isto, orçou a produção e a comercialização anual com uma taxa de cambio valorizado. Acertaram na mosca. Estão tranqüilos, mesmo que temporariamente.
É isso aí. Esta coisa, de uma forma ou de outra, vai nos afetar. O pãozinho de cada dia vai subir, a ceia do Natal vai ficar mais cara e quem planejou viajar para o exterior (como é o meu caso) vai ter que esperar o furacão passar, juntar os pedaços e rever seus projetos.
É prudente, então, que não acreditemos na idéia de marola de Lula, porque nem ele mesmo acredita mais. Notaram? Resta saber se é marola ou maremoto?
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

ELES NÃO FORAM ELEITOS

Confesso que fiquei aliviado, quando conferi os nomes dos vereadores eleitos para a Câmara Municipal do Recife. Além de encontrar nomes de conhecidos e amigos, vi que não aparecia nenhum dos folclóricos nomes de candidatos que encontrei listado no Diário de Pernambuco, do dia 20 de julho passado.
Durante toda a campanha, fiquei numa inquietação desmedida. Eleição sempre traz muitas surpresas. A gente só sabe o resultado quando as urnas são apuradas. Caso alguns desses candidatos saíssem vitoriosos, eu veria muitas dificuldades para a sociedade absorver seus nomes raros, quase alcunhas, nada recomendáveis para a composição da Casa de José Mariano.
Imaginem vocês o que faria, se eleito, o Vereador Faca Cega (PTN), como legislador municipal e em favor da cidade. Mais do que isso, imaginem, ele se candidatando à Presidência da Casa. No mínimo ele iria compor, a mesa diretora, com Largura (PV), para ampliar a mesa, Gordo da Salada (PTC), que refrescaria o plenário com sua salada de frutas, Pombo Branco (PPS), para estabelecer a paz nas horas de tumulto, Radio Olinda, o Popular (PSL), irradiando todos os acontecimentos, e Tieta do Agreste (PTN), que se desmancharia em carinhos e sensualidade, para aprovação de alguns projetos. Na Secretaria da Casa, a melhor pedida, para ele, seria Tati Pink (DEM), que, aliás, olhe lá, teve uma votação excelente e ficou com uma suplência.
Para a articulação política da Câmara, atuando no “meio de campo”, Faca Cega teria como boa pedida o nome do vereador Mauro Shampoo, cabeleireiro e jogador do Íbis, que, com toda certeza, seria desafiado pelo vereador Pelé (PTdoB), sob a alegação de que seu nome é uma grife mundial. E, aqui prá nós, seria justíssimo!
Pensem ainda nos esforços que Paulo Rodela (PSDC), Gorda (PRP), Dalva Maga (PSDC) e Cenoura (PTN) fariam para derrotar essa chapa de Faca Cega, que, aliás, nessa hora, já teria o apoio de Liberato Costa Junior, que, depois do enézimo mandato, saiu derrotado nas urnas e, sem outro remédio, apostava todas as cartas no seu ex-militante. Isso mesmo, eu soube que Faca Cega era o mais importante cabo eleitoral de Liberato. Cá pra nós, a meu ver, um verdadeiro Calabar! Como é que pode? Liba não merecia!
Eu só sei que a briga deveria ser grande, até porque eles iriam argumentar que representavam uma renovação, sangue novo e novo tempo na Câmara Municipal. Os poucos veteranos, restantes, estariam neutralizados e sem ação, diante de tantas novas energias. Além destes, ainda concorreram: Mimi, Bibiu, Zé Ninguém (que poderia mudar de nome para Zé Gente), Neno Burracheiro, Jorge da Pressa, Lourdes do Posto e Fátima da Lojinha (coitadinhas), Louro José, imagine só, Adilson Bolinho e Cuscuz.
Ah! Fiquei pasmo, também, com alguns candidatos do interior e ainda não tive tempo de examinar quem foi eleito em algumas cidades. Fico preocupado se entre os vitoriosos se encontram Peitinho (PRB), Potência (PV) e Dedé da Simpatia (PSDB), em Petrolina, que, aliás, tiveram a subida honra de disputar vagas com Alexandre Barak Obama (PSDB). Aí sim, só era o que faltava, Barak Obama ser eleito para a Câmara Municipal de Petrolina... e perder nos States. Estaria feita a maior confusão internacional...
Pois é, eu acho que esses senhores e senhoras, sem a menor chance de fazer uma campanha adequada e ganhar a eleição, apelam para a gaiatice desmedida e tentam, com isto, desmoralizar um processo que requer respeito e maturidade. O Brasil merece coisa melhor!
A idéia que passam é que jogam um jogo do vale tudo. Deve ser isto mesmo. Foi assim que Reginaldo Rossi e a empresária de garotas de programa, Odete, encararam as urnas, em Jaboatão dos Guararapes e a rebolativa Gretchen, em Itamaracá.
Meus amigos, foram muitos outros nomes folclóricos que se apresentaram como candidatos, no Pernambuco afora, entre os quais: Durão (PSL), Galega (DEM), esta, segundo o jornal, é uma legitima afro descendente, Xupeta (PDT), Fossa (PTdoB) Véi de Gaia (vôte!) (PDT), Buda (PMDB), João da Ema (PPS), Sapo de Tomate (PTB) Isac do Xuxu (PSDC), Pudim (PDT), Zé Pezão (PSC) e Paulo Doido (PDT).
Para terminar, eu soube de um que se chamava Nem, cuja propaganda era simples e indolor: Nem Fez, Nem Faz, Nem Fará. Pode uma coisa dessa?
Chora Brasiiiiiiiil!
Ufa! Ainda bem que eles não foram eleitos!

Nota: As ilustrações foram colhidas no Google Imagens.

sábado, 4 de outubro de 2008

Recife vai parar

Sabe, minha gente, a situação do transito no Recife está chegando ao limite. Já não há mais hora boa para circular. Agora, é engarrafamento o dia todo. Acho que, dentro de dois ou três anos, ninguém conseguirá sair de casa com seu próprio veículo.
A estrutura da cidade já não suporta tantos veículos em circulação. Segundo o Detran estadual, a Região Metropolitana do Recife tinha registrado, em agosto passado, um total de 763.595 veículos, incluindo automóveis, ônibus, veículos de carga e motos. Este número corresponde, aproximadamente, à metade da frota que circula no estado inteiro.
Ultimamente, há meses em que o Detran emplaca mais de 5 mil novos veículos. A tendência tem sido de crescimento, inclusive pelas facilidades de crédito para compra de automóveis. Há financiamentos em até 60 meses.
Pensando bem, os números apontados são de considerável magnitude para uma cidade de estrutura urbana antiga, com um traçado desordenado, em face da construção histórica e modo espontânea, carente de vias de circulação modernas e sem condições de expansão. Imagine, ainda, que, por razões das mais diversas, este número de veículos em circulação na cidade é sempre acrescido por veículos oriundos de vários pontos do próprio estado e dos vizinhos, seja de passagem ou permanência mais longa, atraídos pelo pólo sócio-econômico. Não tem jeito, a cidade vira uma balbúrdia, com um ambiente cujas características principais são engarrafamentos, motoristas estressados, buzinação, acidentes etc.
Para completar, temos um povo pouco educado ao volante, que transformam o transito da cidade numa grande aventura. O cidadão mais cuidadoso e educado sai sempre de casa sem ter a certeza de voltar incólume.
Quando vejo os atuais candidatos a prefeito do Recife, fico me perguntando se incluíram, nos seus planos de governo, uma ação voltada à administração desse caos. Ouço falar numa tal de via Mangue, há um bom tempo, e nada mais. Como se a citada via – prometida tantas vezes, sem sair do papel – fosse solucionar o problema da cidade como um todo. Acredito, que venha ser muito útil à zona Sul da cidade. Mas, é na zona Norte onde a coisa vem se agudizando. Nesta área houve uma intensa expansão imobiliária nos últimos dez anos, concentrado um alto contingente populacional.
Moro numa rua pequena (aproximadamente 300m) e estreita, nos Aflitos, na qual, em quatro anos, surgiu uma meia dúzia de novos edifícios com, em média, 20 andares. Imagine que sendo construções de dois apartamentos por andar, resulta, por baixo, em 240 moradias. Todas com, pelo menos, um automóvel. Minha rua hoje tem um movimento atípico. Muitos veículos, num permanente entra e sai, estacionamento nos dois lados e a circulação (mão única) sempre muito tortuosa. Isto se repete em inúmeros pontos da região e da cidade no seu todo, deixando a população atônita e preocupada com o futuro.
Sabe de uma coisa? A esta altura dos acontecimentos, uma das soluções, mais adequada e emergencial, seria adotar o esquema do rodízio de placas, como o vigente, há um bom tempo, na cidade de São Paulo. Lá o problema ainda não foi solucionado, mas ajudou.
Aqui o sistema seria odiado por muitos, sobretudo por conta da péssima rede de transporte coletivo e do comodismo das classes alta e média. Mas, não vejo outra solução, até que os governantes de plantão descubram outras. Como está, não pode ficar.
O Recife vai parar, porque tem muitos carros e poucas ruas.

Notas: Escrevo este artigo lembrando meu Companheiro rotariano Ubiracy Silva, que vem manifestando preocupação com o transito do Recife.


A foto é do transito do Recife, obtido no Google Imagens


terça-feira, 30 de setembro de 2008

CINEMA (AINDA) É A MELHOR DIVERSÃO

Outra coisa que observei, nessa minha última ida ao Rio de Janeiro, foi que os cinemas, lá também, foram banidos das praças, ruas e avenidas e estão socados, aos conglomerados, nos Shoppings Centers da vida.
Foi passando na emblemática Cinelândia, que me dei conta dessa moderna estratégia de mercado. Deve ter sentido na cabeça dos especialistas em marketing.
Pois é, já não existe mais os majestosos cinemas cariocas. A Cinelândia já pode até mudar de nome porque lá não tem um cinema sequer! Circulando pela cidade, andei catando os cinemas que freqüentei na minha juventude. Cadê o cinema Metro de Copacabana? E o fantástico Odeon, na Cinelândia? Segundo um motorista de táxi, não sobrou nada. “Na Praça Sanz Peña, na Tijuca, quando eu era rapazola, havia mais de quinze, não resta nada, Doutor” disse o taxista. O imenso Roxy, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ainda está por lá porque, para sobreviver, desmontou sua imensa tela de cinerama e se desdobrou em três, ao estilo dos modernos cinemas.
Era muito bom ir a cinema no Rio de Janeiro da década de 60. Engraçado era que o cidadão assistia aos lançamentos cinematográficos, que só vinham a ser exibidos, no Recife, dois ou três anos depois e, quando isso acontecia, o tal cidadão enchia a boca e dizia que já havia assistido a tal película há muuuiiiito tempo, numa das idas ao Sul. Pense na boçalidade. E tinha gente que “morriiiia” de inveja. O cara, para se mostrar ainda mais, contava para “atentas platéias” detalhes do “velho” lançamento.
Foi-se o tempo em que ir ao cinema era motivo de frisson. Era razão para colocar roupa especial. As salas de exibição de hoje são muito diferentes das dos anos 60,70 e 80. É impressionante como, aqui no Recife, desapareceram nossos cinemas, depois da estratégia dos conglomerados dos Shoppings Centers. O Recife perdeu todas suas salas de cinema comuns nas principais praças e vias da cidade
Sou dos tempos em que assistir a um filme exigia-se estar enfatiotado, metido num terno e “enforcado” por uma gravata. Para entrar nos antigos cinemas do centro da cidade – São Luis, Moderno, Art-Palácio e Trianon – o neguinho tinha que estar elegante. As moças usavam roupas toaletes e não dispensavam um par de luvas. Pensem numa gente alinhada... Nos trinques!
Indumentárias à parte, é de se considerar que sem a forte concorrência da moderna TV por assinatura, dos vídeo-tapes, DVDs e locadores de filmes da vida moderna a coisa se revestia do maior clima. Pré-estréias de gala, sessão da meia-noite e matinais infantis. As matinês eram sensacionais. Acho que a turma de hoje nem sabe o que significam os termos matinal, matinée e soirée, tirados do francês para encantar a sociedade tupiniquim.
Quem vem da juventude dourada dos anos 60, jamais esquecerá as manhãs de sábados com o cinema de arte do São Luis. Era um dos programas mais tchan (ainda se usa esse termo?) da época. Antes da sessão rolava a maior paquera e o filme, propriamente dito, muitas vezes, perdia o encanto diante das emoções que rolavam na platéia.
Hoje a coisa é diferente. O espectador corre num shopping, sofre para estacionar seu veículo, normalmente atravessa longos corredores apinhados de gente, tem dificuldades de escolher o filme que deseja dada a oferta elástica de títulos e gêneros, elege um, compra um quilo de pipocas e um litro de refrigerante, entra, se espalha numa poltrona espaçosa e embarca no mundo da fantasia, enquanto vai sujando o salão. Ao final de cada sessão a turma da limpeza sofre...
Não que isto seja ruim... Nada disso! Até porque as modernas tecnologias – de som e imagem digital, efeitos especiais etc. – transformam a arte cinematográfica em espetáculo de primeira grandeza. Mas, que dá saudade do passado, isso dá.
Mesmo transformado e sofrendo fortes concorrências, cinema é a melhor diversão. Êita, que frase original!

Nota: Foto da belissima sala de exibição cinema São Luiz, no Recife, hoje fechado e entregue às baratas. Obtida no Google Imagens

terça-feira, 23 de setembro de 2008

VENDE-SE UMA LAJE

A luta por um espaço onde viver parece ser um exercício sem fim para muitos brasileiros. Nas grandes metrópoles, a conquista pelo lugar onde construir uma moradia é uma verdadeira contenda. O cidadão de baixa renda cata, dia e noite, espaço nas periferias, burlando as autoridades e fiscalizações severas.
Fiquei impressionado como essa coisa é intensa na periferia da cidade do Rio de Janeiro, fora dos cartões postais e longe do Centro limpo e organizado que descrevi na postagem anterior.
Querendo viver perto do emprego ou da zona central da cidade o carioca (ou migrante) mora perigosamente “pendurado” nas favelas dos morros e pedras que circundam a cidade, criando uma zona residencial marginal, muitas das quais com regras próprias de convivência, quase sempre nocivas à comunidade ou à cidade, no seu todo.
São estratégias “imobiliárias” mirabolantes e arriscadas. No meio dessas, a que mais me impressionou foi a da especulação imobiliária da laje. Nas periferias do Rio de Janeiro, o sujeito, depois de muitas buscas, encontra um chão (alguns perigosamente situados), ocupa e constrói a moradia coberta por uma laje de cimento. Só Deus sabe como ele pode chegar até ali, como pode levar o material da construção e como obteve água e luz. Haja “logística”.
Obra concluída e ocupada, o cara põe uma placa de “vende-se a laje”. Sim, aquela que cobre a casa que ele construiu que, por sua vez, pode servir de piso para uma nova moradia. O primeiro tem, desse modo, o retorno do investimento que fez. Dependendo do seu talento como vendedor, esse retorno vem com bom lucro. O segundo adquirente do espaço, digo, da laje, procede do mesmo modo, isto é, constrói, se estabelece e vende – junto com o primeiro! – a segunda laje e assim por diante, várias vezes. Existe construções nas encostas de morros e pedras cariocas com seis pisos ou mais. É incrível. São verdadeiros edifícios erguidos, sem projeto ou cálculos seguros, pondo em risco um grande contingente populacional. Vez por outra, em tempos de chuva pesada, uma erosão inesperada leva morro abaixo construções desse tipo, vitimando muita gente, fazendo a festa da mídia, tirando o sono dos governantes e sensibilizando Deus e o mundo. A maioria tem, como bônus, o esplendoroso cenário do mar atlântico ou da baia da Guanabara, melhor do que qualquer penthouse de Ipanema ou da Barra da Tijuca.
Eis aí mais um jeitinho brasileiro. Digamos que um brazilian way of life.
Ah! antes que eu termine, lembro que, como bons brasileiros, esse habitante pendurado no morro não perde tempo e, enquanto não vende a laje, promove, nos fins-de-semana, um churrasquinho, regado a uma cervejinha gelada e ao som de um pagode, extraído de um “maneiro” três em um, comprado em trinta e seis prestações.
E você, quer comprar uma laje, voltada para o mar de Copacabana, Ipanema ou São Conrado?
Vá lá... deve haver alguma dando sopa... Vidigal e Roçinha são duas boas sugestões.


Nota: Fotos do blogueiro

sábado, 20 de setembro de 2008

O Centro do Rio de Janeiro

Estou, outra vez, no Rio de Janeiro. Mesmo numa missão de trabalho, impossível não admirar as belezas desta cidade, que continua linda.
Sabe de uma coisa, comparando com outras áreas centrais de diversas metrópoles brasileiras, o Centro do Rio está muito bem cuidado e é prazeroso de ser visitado. Bem diferente dos centros deteriorados de São Paulo ou Recife. Aqui foram conservadas e são preservadas cuidadosamente as marcas da história e o cidadão transita tranqüilo. Dá gosto de ver as inúmeras ruas antigas, entre as quais as da Quitanda, do Carmo, Assembléia e Ouvidor, limpas, com prédios de mais de duzentos anos, todos bem conservados e aproveitados.
Aliás, na minha opinião, é bem mais interessante caminhar pelo Centro carioca, do que, por exemplo, pelo bairro de Copacabana, que viveu nos anos 50, 60 e 70 sua fase áurea. Por ali, a impressão que se tem é que o tempo parou. As lojas não se renovaram. As vitrines, antes atrativas e charmosas, parecem sombrias e negligenciadas. Tudo muito parecido com o que havia há quarenta anos. Além disto, as avenidas e ruas transversais são sujas, mal tratadas e repletas de ambulantes. Já no Centro, que parece ter sofrido uma boa intervenção, vi lojas modernas coloridas e atraentes. Mais do que isto, vi, no horário do almoço, um carioca mais bem trajado (muitos executivos) disputando mesas nos inúmeros restaurantes de boa categoria, espalhados pela área.
Neste mesmo centro, para minha surpresa, notei a existência de vários quiosques para a venda de flores, dando mais graça à região. Vi, também, a exemplo de Paris ou Nova York, artistas populares vendendo, de modo sutil, sua arte. Destaco o maravilhoso saxofonista, na entrada da estação de Metrô da Carioca, tocando composições de Vinicius, conferindo mais beleza ao meio (vide foto ao lado). Cheguei a parar, por um momento, para observar e escutar o som emitido pelo anônimo artista.
Outra coisa, no Centro do Rio não se vê a fiação da rede elétrica ou de telefonia. É tudo subterrânea, que é uma coisa pouco valorizada noutras cidades brasileiras. Isto faz a maior diferença no ambiente urbano. O Recife, por exemplo, é um péssimo exemplo. Tem fios, de toda espécie, pendurados nos postes e alguns são tão baixos, que assustam o pedestre. Aliás, nem é bom falar sobre as barbaridades cometidas no centro do Recife. Quando penso que houve um Prefeito que abriu a Avenida Dantas Barreto, arrasando a melhor parte do sitio histórico do bairro de São José, incluindo templo secular e casario colonial, fico lamentando a ignorância e a brutalidade exercitada. Sobre a decadência do Bairro do Recife Antigo, decorrente de uma exacerbada miopia política, nem é bom falar. Fica para outro dia.
Pois é, não obstante as constantes notícias alarmantes da TV, sobre a “guerra” que se trava todo dia nas favelas da periferia carioca, o Centro carioca é muito agradável de ser visto. Recomendo.

Nota: As fotos são do Blogueiro

sábado, 13 de setembro de 2008

Saudades (do Recife) da aurora da minha vida

Depois que eu completei 17 ou 18 anos, ganhei total alforria dos meus pais para freqüentar os embalos da época, na maioria das vezes nos clubes sociais da cidade e nos assustados, nas casa de amigos. Era um tempo sem a violência dos dias de hoje e uma juventude mais comedida, longe da liberdade que a turma de hoje experimenta.
Digo isto, porque tenho um filho jovem, baladeiro ao extremo, que todo fim de semana, e muitas vezes durante a semana, entra de cabeça nos bares e boates da cidade. Motorizado, entra sai de casa, num abrir e fechar de olhos. “Os tempos são outros pai”, vive me avisando e eu resistindo por entender esses novos e assustadores tempos.
Para nós, os pais, que hoje ficamos em casa, muitas dessas noites se transformam num suplicio. Será que ele vai beber, beber até cair? Será que não vai ser assaltado? Vai dirigir embriagado? Com quem está saindo? Com quem está ficando? É um estresse danado. Claro, que confiamos na educação que demos, mas, muitas vezes, as companhias e a ocasião levam o cidadão aos extremos. Graças a Deus as coisas estiveram sempre sob controle. Na minha casa...
Lembro com pesar, que tenho amigos (eu disse no plural) que, não tendo a mesma sorte, já perderam filhos em assaltos e por conta do binômio bebida e direção. Vendo esses casos, faço sermões e advertências a toda hora, dentro de casa. Estou um pouco mais tranqüilo com a atual Lei Seca. Mas, essa tranqüilidade deixa, ainda, a desejar.
Conversando com companheiros de farras na juventude, recordamos a inocência daqueles tempos que não voltam mais. Não havia exageros na bebida, a moda era Cuba Libre (Rum com Coca-Cola) e bastava uma dose por noitada. Namorávamos sem ultrapassar os limites. Essa história moderninha de ficar era inimaginável. Ao contrário de hoje, que o namoro começa com um beijo tipo “desentupidor de pia”, beijar, naquela época, só depois de muito tempo. Bote tempo nisso. Algumas garotas tinham nojo e muitas pensavam que beijando perdiam a virgindade. Cama, nem pensar! Nem cama, nem outro móvel qualquer. Ir morar na casa da namorada ou do namorado, impossível. As moças, numa maioria esmagadora, casavam virgens, cheias de orgulho e confiança. Ou seja, namorar era um ato inocente, de conversas bestas e poucos amassos. E, quando a gente, o varão, não agüentava mais, ia tirar o sufoco hormonal na zona do Recife Antigo! Ou com a colaboração das empregadas domésticas, mais conhecidas por peniqueiras, soltas nas noites suburbanas da cidade. Essa coisa horripilante que é a Aids, não era nem sonhada. O pavor das doenças sexualmente transmissíveis ficava por conta da blenorragia e do cancro. Tudo perfeitamente curável e jamais mortal. Camisinha? Para que? Troço mais insólito... E, tem mais, raro! Hoje, tem até no supermercado. Eu, mesmo, só vi a primeira depois de bem madurinho. Achei engraçado e comprei só para exercitar o uso numa hora H oportuna.
Naqueles tempos da maravilhosa Bossa-Nova, como poucos rapazes tinham automóvel, o percurso de casa ao local do embalo era feito de ônibus ou mesmo a pé. Eu, por exemplo, morava no Rosarinho e ia para as festinhas, do Circulo Militar, em Ponte d’Uchoa, caminhando. Eu e os colegas de colégio, entre os quais lembro de Joe Gonçalves, Fred Moreira, Carlos Nobre, Marcos Cesário de Mello e Jorge “El Congo”. Era incrível a tranqüilidade que se vivia. Na volta para casa, de madrugada, ou dia já claro, a única coisa que nos amedrontava eram os cachorros de guarda soltos nos jardins das casas. Ah! Só havia casas. Essa coisa de condomínios de apartamentos só veio depois de algum tempo. Os bairros do Espinheiro, Aflitos e Rosarinho eram verdadeiras belezas. Pacatos, aprazíveis, menos quentes do que hoje, pouco trânsito, casas magníficas, jardins bem cuidados, ruas iluminadas, limpas e bem cuidadas. A cidade pulsava nessas bandas da zona Norte. Boa Viagem e Piedade ainda estavam começando a ser construídos. Eram lugares distantes, onde, praticamente, só íamos para veranear ou então para ir a “Putizzaria” Boate Samburá, quando aparecia uma carona, era muito longe, de um colega rico motorizado. Virgilio se chamava um desses. Ou então, mostrar aos visitantes forasteiros, a praia e uma casa em forma de navio (Foto ao lado), na beira mar, em Boa Viagem.
O Recife cresceu, virou metrópole, e com o crescimento – que é bom, não vou negar – vieram as dificuldades, a insegurança e a insustentabilidade. Nossa sociedade e governantes precisam reagir. Não dá mais para viver numa urbe que marca presença no topo do topo do ranking da insegurança nacional. Tenho saudades (do Recife) da aurora da minha vida.

Nota: Esta cronica é dedicada aos meus colegas Joe Gonçalves, Fred Moreira, Marcos Cesário de Mello, Carlos Nobre, Jorge El Congo, marcos Rufino Ferreira, Paulo Sergio Petis Fernandes e Virgílio (já falecido), meus companheiros de Colegio Marista e de farras inocentes nos anos 60.
Foto obtida no Google Imagens