sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

RIO DE JANEIRO 2008 – PRIMEIRO TEMPO

Nos três primeiros dias desta última semana de fevereiro, estive no Rio de Janeiro, numa missão de trabalho. O Rio é sempre uma cidade interessante, mesmo para quem vai com os propósitos de trabalhar, como foi meu caso. Naturalmente que a propalada violência urbana preocupa, mas, essa coisa, entrego a Deus. Em três artigos – que farei em três tempos – comentarei o que fiz e que aconteceu por lá.
Andei coordenando, enquanto secretário executivo do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Pernambuco – SIMMEPE, uma missão empresarial do setor, cujos representantes estavam interessados em conhecer o estado atual da indústria naval brasileira, cujo pólo se encontra, historicamente, naquele estado fluminense. Niterói pode se considerar a capital da indústria naval do país.
O Brasil já foi, nas décadas de 60, 70 e 80 um dos maiores na construção naval do mundo. O país chegou a ser, em dados momentos, o segundo no rank mundial.
Mas, as coisas mudaram de rumo, as dificuldades no ambiente político-econômico brasileiro se exacerbaram e a indústria brasileira de navios entrou em crise, terminando por “naufragar”, em meados dos anos 90. Foram anos de muitas incertezas, caracterizados pela retração dos investimentos produtivos, sobretudo, os do Governo.
No outro lado do mundo e nessa mesma época, países emergentes economicamente, mais conhecidos, àquela época, por Tigres Asiáticos, entre os quais a Coréia e depois a China, começaram a produzir navios com tecnologia mais moderna e custos infinitamente mais baixos, complicando ainda mais os estaleiros brasileiros, assim como os tradicionais construtores europeus.
A produção brasileira foi extremamente reduzida, restando alguns poucos dedicados basicamente ao reparo de velhas embarcações, nacionais ou estrangeiras, enguiçadas em mares brasileiros.
Mas, “como maré me leva e maré me traz”, eis que uma nova onda de crescimento econômico varre a economia mundial, agora bem globalizada, nesses primeiros anos do século 21, provocando uma fantástica busca de novas embarcações, dentro dos modernos e ágeis padrões de logística. Já ouvi falar numa demanda reprimida de 2.000 navios, para diferentes propósitos, no mundo inteiro. Ouvi dizer, também, que os estaleiros coreanos estão, neste momento, enjeitando encomendas. Eles são o Nº. 1 no rank mundial.
O Brasil, que vem experimentando um momento econômico privilegiado – já comentei no artigo passado, sobre a Divida Externa – terminou pegando a onda e vê renascer sua indústria naval, para atender as demandas desse importante modal. E o Governo deu uma importante contribuição, ao estabelecer um marco regulatório, bem a propósito, que exige 65% de nacionalização na composição de cada embarcação aqui construída e ser o primeiro a comprar novas embarcações, renovando a frota da Transpetro, braço logístico da Petrobrás e de novas plataformas de exploração de petróleo.
Assim, a ordem, nos antigos estaleiros, é correr atrás do prejuízo imposto pela fatídica quebra dos anos 90, reabrindo suas produções, ao mesmo tempo em que outros novos se instalam neste boom da produção naval.
Pernambuco, para satisfação da sua gente, vai abrigar um grandioso empreendimento destinado à construção naval – o Estaleiro Atlântico Sul - EAS – que já começa a tomar forma no Complexo Industrial Portuário de Suape e já tem garantida, através de contrato com a Transpetro, uma encomenda para construir 10 navios do tipo Suezmax, num custo total de US$ 1,2 Bilhão, e os módulos de uma plataforma de petróleo para a Petrobrás, a P-55. Para 2010, o EAS programa lançar ao mar seu primeiro navio. As primeiras chapas de aço começam ser cortadas em julho vindouro.
Este mega-investimento, ao mesmo tempo em que produz uma imensa euforia no ambiente econômico local, produz uma tremenda expectativa – e alguma incerteza – entre os empresários setoriais nativos, que pretendem e acreditam poderem se tornar fornecedores do Atlântico Sul.
Esta pretensão, contudo, esbarra no desafio de saber o que produzir e ser competitivo nessa produção, conforme a demanda.
Pernambuco nunca produziu componentes para indústria naval. O que se produz na metal-mecânica do estado sempre foi, historicamente, voltado para a indústria sucro-químico-alcooleira.
Diversificar essa produção, chegar a um novo mix de produtos que atenda esse novo tipo de cliente passou a ser a ordem do dia e a “dor de cabeça” dos empresários metalúrgicos locais.
Com esta ida ao Rio de Janeiro, o SIMMEPE teve como propósito, digamos, capacitar, “abrir os olhos” da turma, no sentido de identificar, dentro dos diversos parques de produção naval visitados, as chances de diversificação das suas produções. E, lá na frente, a montagem de um Pólo de Indústria Naval.
No roteiro das visitas estiveram os estaleiros Sermetal, hoje dedicado, quase que exclusivamente, ao reparo de embarcações e proprietário do maior dique seco da América do Sul; o Estaleiro da Ilha S.A. EISA, num extremo da Ilha do Governador, agora já com grandes encomendas, inclusive uma meia dúzia de navios para a PDVSA (Venezuela); o Aker-Promar, de um grupo internacional forte, na Ilha da Conceição, em Niterói, (que detém 10% do Atlântico Sul), produzindo embarcações mais sofisticadas, destinadas ao apoio offshore às unidades perfuração, sondagem e produção, da Petrobrás e, finalmente, o Estaleiro Mauá, encarregado da construção de imensas plataformas de petróleo para a Petrobrás.
Foram visitas proveitosas para um grupo que volta ao Recife tendo uma idéia melhor do que se demanda num estaleiro e como tentar se tornar parte dessa cadeia produtiva.
No próximo artigo Rio de Janeiro 2008 – Segundo Tempo, vou comentar as dúvidas e novos desafios que brotaram durante as visitas.
Nota: Grupo de empresários pernambucanos, na Missão do Simmepe, na visita ao Estaleiro EISA. Foto do próprio Blog do GB

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Sobre a Dívida Externa

A imprensa nacional de hoje (22.02.08) não mediu palavras quando anunciou o “Fim da Divida Externa” brasileira.
Conversando com alguns amigos, durante o almoço, fui indagado como isto podia acontecer de uma hora para outra. Alguém me perguntou: “quer dizer que o Brasil liquidou a divida externa que tinha? Aquela que assustava todo mundo?”
Ora, este assunto tinha mesmo que gerar muita conversa. Afinal, foi um tema que se constituiu, no passado recente, motivo de dor de cabeça para todo brasileiro (pelo menos os instruídos) e uma das maiores bandeiras políticas das oposições. Foi, não foi, o mote da divida externa era lembrado, dava samba, comícios e passeatas, deixando a sociedade em polvorosa. Não posso esquecer de que houve época em que se fazia conta de quanto o brasileiro já devia ao nascer; propunha-se plebiscito nacional para decidir por uma moratória; governo declarava moratória internacional e por aí ia. Um verdadeiro inferno econômico, com desastrosas repercussões sociais.
Qualquer brasileiro de 20 anos, ou pouco mais, sabe dessa historia muito bem. Planos econômicos, mudanças de moedas, confiscos de contas bancárias, inflação galopante, juros escorchantes (palavrinha estranha, até hoje), congelamentos de preços, o “diabo a quatro”, tudo por conta da divida externa. O que restava – e até o que não restava – de saldo, na conta do Governo, era consumido pelo pagamento dos juros da dívida externa. Somente juros, porque o principal só Deus sabia a quantas ia. Negociavam-se as dividas, “empurrando com a barriga”, mas, era um problema sem fim! Aliás, era muito comum se dizer que tinhamos uma dívida eterna. Vejam só...
Lembro, também, dos boatos alarmantes de que a dívida seria cobrada, de qualquer jeito, pelos credores internacionais, e que seria paga com territórios da Amazônia. Que loucura.
Mas, hoje, de repente, não mais que de repente, como num passe de mágica, eclode a noticia do fim da dívida! Alvíssaras! O que sempre foi motivo de preocupação é agora desmistificado e saudado, como não poderia deixar de ser, com um foguetório do Governo.
Imagino que, esta noite, tem uma infinidade de brasileiros que vai dormir feliz da vida. Sim, porque havia, também, o boato de que a dívida iria chegar a um ponto tal que todo trabalhador brasileiro teria que contribuir compulsoriamente para uma “vaquinha” com a qual o Governo iria saldar a danada da divida.
Desconfio que meu amigo que perguntou se a divida havia sido liquidada, ficou meio decepcionado quando lhe expliquei que a coisa não é bem assim.
Acontece que houve uma interpretação errada e generalizada quanto a noticia veiculada. Na prática, o Brasil não liquidou – de repente – a sua divida externa. O que de fato aconteceu é que, segundo o Banco Central, janeiro fechou com reservas monetárias suficientes para pagar a atual divida externa, no montante de US$ 197,7 Bilhões, e ainda ficar com uma laminha de US$ 4 Bilhões guardados no Tesouro Nacional. Nunca antes, neste país, (ui! não sei de onde tirei esta expressão) isto havia ocorrido. Trata-se de um fato histórico-econômico dos mais auspiciosos. É para ser festejado, de verdade.
Acontece que, mesmo com dinheiro em caixa, seria bobagem pagar a divida de uma vez. Temos prazos infinitamente elásticos para isto, o que é bom para a economia do país. Ao menos avisado, fica difícil entender bem o mecanismo que rege essas operações.
O meu amigo pôs a mão na cabeça e, não teve dúvidas em esbravejar: “agora deu! Num instante vão achar no que torrar essa grana arretada e, com pouco mais, vamos estar outra vez preocupados com esta infeliz dessa divida externa”. Imagino que, se ele assistiu ao noticiário da TV, à noite, deve ter ficado mais decepcionado ainda ao ouvir o Presidente Lula afirmar, em Buenos Aires, que precisamos é nos endividar mais, buscando dinheiro no exterior para investimentos na modernização das infra-estruturas econômica e social do país.
O presidente não está errado. O Governo agora tem cacife e moral para ir à cata de empréstimos e financiamentos no exterior, porque o país tem como pagar. Respaldado pelas boas perspectivas de ampliação desse cacife.
É simples entender tudo isto: este quadro otimista é sustentado pela estabilidade econômica que reina no país, a inserção do país no cenário economico internacional, pelo crescimento da produção nos três setores econômicos, o constante aumento das exportações, a inacreditável valorização do Real, a grande entrada de dólares com a chegada dos investidores estrangeiros que, além de encontrar refúgio seguro para suas aplicações, estão apostando, ou melhor, acreditando no Brasil, visto que o mercado brasileiro experimenta uma excelente tendência de crescimento e o país se revela como um lugar seguro para instalar plataformas de produção e sediar hubs estratégicos de comércio globalizado.
Foi isto que rendeu as divisas que hoje se acumulam no Banco Central e é isto que vai, como disse, hoje, Luciano Coutinho, presidente do BNDES, “blindar o Brasil” diante da crise internacional que avança, a passos largos, com seu epicentro nos Estados Unidos. Comemoremos, porque temos motivos para isto.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O COMANDANTE SE RETIRA E NASCE O MITO.

Os jornais de hoje, no mundo inteiro, não falam de outra coisa, a não ser: “Fidel Castro renuncia e se recolhe”.
Os spots se apagaram, o pano caiu e o astro se retirou, virando uma página, cheia de controvérsias, da recente História das Américas. Chegou ao fim uma Era, neste lado do mundo. Por mais que queiramos criticar, o Comandante Fidel gravou seu nome na História. Virou um mito (é o que dizem) e o mundo não vai esquecê-lo. Fez escola, colheu flores, por um lado, e espinhos, por outro, ao longo da sua trajetória governando – com mão de ferro – a aprazível ilha caribenha.
Foram quase 50 anos de resistência e persistência. Neste 19 de fevereiro de 2008, diante de um mundo surpreso, o povo cubano se acha dividido e postado, digamos, numa encruzilhada do destino. A nova geração cubana, que ainda não sabe o que é democracia, deve estar perplexa e cheia de interrogações. O que vai acontecer agora?
Acompanhei, desde garotão, as façanhas e peripécias de Fidel e, também, do seu camarada Che Guevara.
Por voltas dos 20 anos de idade, e entendendo melhor a história, fiz parte de uma mocidade que admirava e se encantava com esses dois personagens. Coincidentemente, fui mandado pela SUDENE (onde eu já dava meus primeiros passos profissionais) para um treinamento na Escola Interamericana da Zona do Canal do Panamá, um enclave norte-americano no istmo centro-americano, com o objetivo de administrar o canal inter-oceânico e manter uma base militar estrategicamente situada. Fui fazer um curso de cartografia, inútil para meu futuro como economista, mas, válido como experiência de vida.
Foi ali, distante do Brasil, que descobri o tamanho da coisa que envolvia o nome e a figura de Fidel. Numa zona dominada pelos americanos, percebi melhor as reações contra estes e a admiração pelo Comandante em Chefe de Cuba. Nas rodas de bate-papos, nas conversas de bares, clubes noturnos, parques e sala de aulas, na Zona do Canal ou na Cidade do Panamá, o homem era venerado e incensado como um verdadeiro Salvador do Universo. Venezuelanos, colombianos, nicaragüenses, costa-riquenses, guatemaltecos, entre outros, não perdiam oportunidades de enaltecer as qualidades daquele homem, cheio de carisma e capaz de manter um grupo de latinos ao redor de um receptor de rádio, escutando os intermináveis discursos por ele proferidos, desde Havana. Fidel mantinha, acho que até hoje, uma emissora potentíssima para alcançar meio mundo. A turma se reunia nas salas de jogos do alojamento da Escola, sistematicamente, para este fim. Escutavam atentamente e, por muitas vezes, bradavam uníssonos, como torcidas em campo de futebol, gritos de guerra. “Viva Fidel”, “Cuba Libre” e “Abajo Tio Sam” eram os mais comuns. Ficavam horas a fio, escutando um discurso repetitivo e maçante. Eu dizia que aquilo era bem ao estilo cubano, tipo “O direito de nascer”. Ou seja , uma novela sem fim. Aquilo tudo me impressionava demais.
Sabedor das restrições que o governo militar brasileiro, da época, fazia ao Homem Fidel e sendo portador de um Passaporte (que conservo até hoje) com um ostensivo carimbo declarando “Não é válido para Cuba”, a única opção que me restava era tomar cuidado. Mesmo porque entre os colegas, treinandos brasileiros, havia oficiais do exército. Gente fina, mas, sem dúvidas de olhos e ouvidos bem abertos. Quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Tempinho difícil para um jovem, sem ganas políticas, sedento de explorar o mundo. O que haveria de tão errado naquela Ilha? Por que tanto temor a este líder das novas gerações latino-americanos? Voltei ao Brasil sem respostas convincentes. Mesmo porque, naqueles tempos, esse tipo de resposta nunca era dado.
Mais tarde, cursando meu pós-grado na Universidade de São Paulo, deu para perceber a admiração da estudantada paulista, daquela época, pelas figuras de Fidel e do Che Guevara. Eram tempos mais difíceis ainda. Plena vigência do AI-5 e uma repressão assustadora. Mas, a turma não perdia a vibração e a vontade de resistir. Frequentemente, o DOI-CODE baixava. Naquele cenário lembro de duas figurinhas bem conhecidas, tempos depois: Zélia Cardoso de Melo, horrenda, com uma axilose desmedida, vestida de hippie e aluna da graduação, panfletando no saguão da Faculdade de Economia, e Aluisio Mercadante, treinando para a vida parlamentar de Brasília, presidindo o diretório acadêmico.
O tempo passou e, bem mais maduro, já no final da década de 80, em plena democratização do país, a mesma SUDENE me escala para prestar uma cooperação técnica internacional, junto a uma entidade governamental de fomento regional, na Venezuela, desenhada aos moldes da nossa agencia de desenvolvimento.
Parti para a Venezuela, cheio de orgulho e vaidade profissional, me fixando na cidade de Barquisimeto, capital do estado Lara. Nunca me passou pela cabeça, que nesse local fosse ouvir tanta exaltação a Fidel. Aquilo me deixou, outra vez, impressionado. Esse homem é, mesmo, um gigante. O tempo passa e ele se mantém cada vez mais firme e forte, pensei muitas vezes. Descobri que levas de técnicos venezuelanos estavam indo ou haviam regressado de Cuba, onde passavam por longos treinamentos, ministrados por especialistas russos e, mais, em idioma russo. Impressionante. Estudar russo era comum naquela comunidade cientifica. Fidel era um verdadeiro deus para aquela gente. Um ídolo.
Graças a essa experiência venezuelana, entendo, com facilidade, a atual relação Venezuela-Cuba ou Chávez-Fidel, que dá no mesmo. Naturalmente que o fim da União Soviética mudou muito esse quadro. Mas, o resultado está aí.
Quando vejo o que acontece atualmente em alguns países latino-americanos – Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua – vejo que o Velho Comandante fez escola. Uma escola fora de época e sem qualquer futuro, posto que segue um modelo testado e desaprovado. Uma quimera, portanto.
Ele, Fidel, possivelmente não terá tempo para se convencer do fracasso do seu modelo, o fim da sua escola e, quem sabe, se retira da cena para não ser testemunha ocular do ocaso da sua própria empreitada. Os exemplos da União Soviética ou da China não foram suficientes para convencê-lo.
O Homem sai de cena e o Mito ganha espaço. É assim que estão dizendo, mundo afora.
Para me assegurar melhor, consultei o dicionário Michaelis e vi que MITO quer dizer: “coisa inacreditável, enigma, utopia, pessoa ou coisa incompreensível”. Já pensou?


NOTA: Foto de Fidel, obtida no Google Imagens e foto do caribão "Não é válido para Cuba" do meu velho passaporte, que é, aliás, uma relíquia, testemunho de uma época.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

EDUCAÇÃO DE BASE: PROBLEMA NACIONAL

Muito frequentemente, estamos às voltas discutindo os principais fatores que inibem o desenvolvimento sócio-econômico brasileiro e, quase sempre, o fator educação e qualificação profissional dos recursos humanos é lembrado como um dos mais problemáticos.
No Fantástico, da TV Globo, de ontem (17.02.08), uma reportagem especial expôs, mais uma vez, as dificuldades pelas quais passam milhões de crianças – de Norte a Sul, de Leste a Oeste – para ter acesso à educação de base, que é por onde começa a preparação do capital humano de um país.
É impressionante e lamentável como aqueles brasileirinhos, mostrados na reportagem, sofrem e se desgastam para chegar a uma escola pública, a maioria desaparelhada, precária nas suas instalações e contando com professores mal qualificados e com desestimulante remuneração. Há escolas que funcionam, no dizer de alguns nativos, “debaixo de um pé de pau”, com professoras leigas e voluntárias, “inocentes de pai e mãe...”
Alguns se deslocam caminhando quilômetros até chegar a uma estrada vicinal, onde esperam um ônibus velho, carcomido e inseguro, que os leva à escola na vila ou cidade, como a mostrada na reportagem, no estado de Minas Gerais. Outros, no interior do Nordeste, valem-se de caminhões que circulam superlotados, tal qual um pau-de-arara. Em Maceió, outro exemplo, usam uma canoa furada – a reportagem mostrou um garoto esgotando a água que fazia na canoa, com uma caneca de flandre – totalmente insegura, na qual navegam meia hora numa lagoa até alcançar uma ilhota onde está a escola. Outros mais, são expostos a travessias e margens de rodovias de alto movimento, como a Anhangüera, em São Paulo, percorrendo a pé, o trajeto quase sem fim, que os leva a escola. São crianças entre 6 a 12 anos de idade! Os mais velhos tomando conta dos mais novos, protagonistas de um modelo cruel, que se repete de modo corriqueiro e, pior, como um traço cultural, em todos os quadrantes do País. Doloroso.
Faltam escolas, faltam professores, falta responsabilidade social dos gestores e do povo que não sabe (ou não tem como) exigir o que de direito, num regime que se diz democrático. Pensando bem, não têm esclarecimento, porque não têm instrução, porque não têm educação, enfim, porque não têm nada.
Cristóvão Buarque – o maior defensor da educação no Brasil de hoje - num dos seus muitos artigos em defesa da educação de base, como fator principal para o desenvolvimento, com o sugestivo titulo de “O Capital Esquecido” afirmou: “Nosso governo, mesmo quando olha o Brasil pelo lado do povo, e não mais da elite, continua vendo educação como um serviço obrigatório, ou mesmo uma assistência, sem atribuir a ela o devido valor de vetor da evolução do País. A educação ainda não é vista como o maior capital que um país pode ter: seu povo educado. Este é o maior de nossos desafios, daqueles que se preocupam com educação: convencer o governo Lula de que educação é capital. Se não fizermos isso, nosso governo vai continuar falando mais em economia, em tarifas comerciais, em contêineres, estradas e hidrelétricas, do que em professor, escola e criança.”

Todo mundo sabe, muito bem, como Buarque, Ministro da Educação, foi afastado do Governo Lula. Pelo telefone. Injunções políticas e espúrias. O que foi uma lástima.

Resultado é que temos um país de baixíssima classificação nos ranks mundiais que medem níveis educacionais. Em Pernambuco, por exemplo, jovens ora sendo engajados em novos projetos que se instalam no estado, com uma suposta formação de base, precisam ser requalificados, para atender as exigências do empregador. A esmagadora maioria não sabe interpretar um simples texto ou realizar uma elementar operação aritmética. Se são desse nível, como seguir uma instrução de trabalho?

Quando, os brasileiros do futuro vão ter uma escola digna e formadora de uma sociedade justa e uma economia desenvolvida, quando?

Só Deus poderá responder, porque nós, pobres mortais do Brasil destes tempos, temos pouco a dizer e muito a lamentar.

Nota: Fotos obtidas no Google Imagens. Em cima crianças da zona rural, a caminho da escola, em Goiás. Na foto seguinte, crianças a espera da professora que não vem, em Alagoas.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

QUE SUDENE É ESSA AÍ?

Ontem, por várias ocasiões, tentei fazer alguns comentários a respeito da solenidade de posse do Superintendente da “nova” SUDENE, o baiano Paulo Sérgio de Noronha Fontana. E tenho comigo inúmeras razões para fazer isto.
Foi um exercicio dificil e, de fato, tive imensa dificuldade. Fazer críticas negativas – só era o que me ocorria – a um projeto pelo qual torci cinco anos! Li os jornais do dia e vi que a imprensa aberta se encarregou de dar o tom critico, ao comentar o evento. De modo correto, ninguém pode negar. O colunista econômico do Jornal do Comércio, Fernando Castilho, foi preciso nas suas observações.
Que situação difícil para quem nasceu e se criou profissionalmente sob a sombra da velha SUDENE. Empaquei por duas ou três vezes. Travei o meu pensar. Reagi. Como posso entender tudo aquilo? Restou-me, então, ceder.
Começo pelo local. Horrível ter que me espremer no foyer do Centro de Convenções da Universidade Federal de Pernambuco, um espaço que não comportava mais do que 100 pessoas, ali, bem pertinho do amplo edifício sede da SUDENE, que teve seus dias de glória, nas décadas de 70, 80 e 90. Acho que subestimaram a assistência. Estima-se que havia 300 pessoas. Acho que esqueceram se tratar de um fato há muito esperado e, por isso mesmo, despertando a atenção de meio mundo. Somente os ansiosos funcionários – ativos e aposentados – poderiam encher aquele pequeno espaço, porque afinal, repito, era apenas o foyer. E foyer é uma palavra trazido do francês e que significa sala de espera, de recepção ou local de passagem para um outro espaço mais importante, onde ocorre algum evento. Constrangedor... Quem te viu e quem te vê!
Mas, esquecendo foyer, assistência, dias de glória e outros aspectos, o que mais preocupa é o que está por vir.
O que poderá ser feito numa Autarquia Federal que não tem, sequer, uma rubrica própria no Orçamento Geral da União – OGU?
Pior do que isto é saber que no projeto de recriação da SUDENE estava previsto a gestão e execução de programas, com 56% dos recursos financeiros do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional – FNDR, formado por 2% do IPI e do IR arrecadados, sem dúvida o melhor instrumento da nova política de desenvolvimento regional e que, ironicamente, terminou sendo vetado pelo Presidente da Republica, por recomendação do Ministério da Fazenda. Acontece que, com isto, “cortaram na carne”, porque tirou também a verba de custeio da Autarquia. E agora José? Aliás, e agora Paulo Fontana?
Lembro-me que, no passado, quando os recursos destinados à SUDENE (falo de um passado glorioso) eram reduzidos, cortados, contingenciados, ou coisa parecida, os técnicos idealistas, que “tocavam o barco”, não tinha dúvida de usar o que se chamava de criatividade. Parcerias com uma ou outra entidade, nacional ou estrangeira, e dava-se conta do recado. Muita coisa foi viabilizada, desse modo. Havia, contudo, verba de custeio. Mas, sem isto... Sei não.
Até que eu saiba, à nova SUDENE restou, apenas, a atribuição de analisar os projetos do tal FNDR. É muito pouco, pouquíssimo para quem já fez muito mais do que analisar projetos. Bom não esquecer e todo mundo sabe que, quem libera a verba é quem tem mais poder. Se assim continuar, cabe indagar: será que essa analise vai ser independente das injunções políticas?
E, de resto, o que se viu naquele foyerzinho (nunca mais vou esquecer!) foi um festival de declarações políticas, com altos e baixos, que, na prática, deverão surtir pouco efeito. Gozado que, alguns recorreram às sagradas escrituras, transformando a cerimônia num verdadeiro culto ecumênico, como disse Castilho no JC de ontem, já que havia na mesa principal, católicos, protestante e judeu que não deixaram o verbo “ressuscitar” passar em branco. Vi a hora de se travar uma quente discussão religiosa. Honestamente, foi meio patético. Ah! Sempre em tom de palanque eleitoral. Já pensou? Gostei de pouquíssimas coisas ali ditas. Lembro que o Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, foi feliz ao lembrar a inteligência de pessoas, como Tânia Bacelar, que inscreveram seus nomes na defesa do soerguimento da Instituição e, surpreendendo a muitos, garantiu que vai contribuir com uma visão regional, afirmando que o que for bom para a Bahia ou o Ceará, por exemplo, terá o aval de Pernambuco. Vamos ver!
Indiscutivelmente o foro político, que a SUDENE sempre propicia, foi aproveitado. Contudo, poderia ter sido de melhor qualidade.
Com boa dose de ceticismo, que SUDENE é essa aí?

NOTA: Foto do Edifício Sede da Sudene, no Recife, obtida no Google Imagens

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O SUCESSO DO PORTO DE PECÉM

Faz algum tempo que acompanho as discussões em torno das exportações de frutas produzidas no Vale do São Francisco, graças ao avanço e exito da produção, na área polarizada pelas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).
Nesse contexto, ouço falar, entre outras coisas, das dificuldades logísticas que os produtores daquela região enfrentam para colocar o produto no mercado internacional, dadas as distancias que separam a área de produção dos mercados consumidores e, particularmente, dos portos de expedição. E, nesta hora, como pernambucano indago sobre as possibilidades oferecidas pelo Porto de Suape.
Pois bem, para minha surpresa, circulou hoje (11.02.08) na Internet (Diário do Nordeste e Revista Conexão Marítima) a notícia de que Pecém, no Ceará, exporta maiores volumes de frutas frescas do que o Porto de Santos, em São Paulo. E isto, naturalmente, é motivo de festejos no Ceará. Não sei bem qual a vocação de Santos, para este tipo de exportação. Porém, que chama atenção, não há dúvidas.
Encontrei números divulgados pelo Instituto Frutal, do Ceará, dando contas de que por lá, em 2007, foram exportadas 163 mil toneladas de frutas frescas, 26% a mais do que em 2006. Contando, porém, veja bem, com produções de outros estados da região, inclusive Pernambuco. Melão, abacaxi e melancia foram os principais produtos do Ceará. Outros itens, como uva de mesa e manga produzidas no pólo de Petrolina-Juazeiro vazam, por ali, para os mercados da Europa, Estados Unidos e Japão.
Movido pela curiosidade, fui atrás de informações mais precisas e, principalmente, as relativas ao estado de Pernambuco, lembrando, por exemplo, que as mangas exportadas pelo Brasil, saem quase que totalmente de Pernambuco. Beira os 100%. Mas, afinal por onde saem essas mangas? E as uvas de mesa?
Conversei rapidamente com José Gualberto de Almeida, presidente da Valexport, homem que sabe das coisas que acontecem no Vale do São Francisco, e tomei conhecimento de que apenas 15% das nossas frutas saem por Suape. O restante está saindo por Pecém ou Salvador. Sendo que, pelo porto cearense a coisa é da ordem dos 50%. Pelo menos foi assim em 2006 e não deve ter mudado em 2007. Fica explicado, portanto, o sucesso, alarde e festejo dos cearenses.
Não tenho nada contra Pecém. Que fique bem claro. Afinal tudo é Brasil e, além do mais, é Nordeste. O importante mesmo é que exportemos. Mas, o que chama mais a atenção é saber que embora todos os esforços, até agora envidados, as freqüências marítimas em Suape, para este caso, pelo menos, ainda são poucas. Quando se trata de navios providos de câmaras frigoríficas, especiais para transporte de frutas frescas, que são altamente perecíveis, a coisa se torna mais complicada. Segundo José Gualberto, a freqüência de navios, para Europa e Estados Unidos, são maiores em Pecém. E priu... Nada mais do que isto. Está nisso o diferencial. Mesmo porque, no item custos portuários a situação, segundo ele, é uma coisa equilibrada.
Para os que venham argumentar que esta não é a vocação de Suape, a pergunta pode ser: justifica?
Outra questão que Gualberto não lembrou, mas eu sei, é que com relação às distancias entre Petrolina e Recife, Fortaleza ou Salvador, Recife perde de cara. Fica a quase 800 km. de distancia, enquanto as outras duas estão bem mais próximas, reduzindo o desgaste da fruta transportada. O resultado, já viu.
Desse modo, a esperança que resta é que Suape conquiste mais freqüências, adequadas ao transporte das frutas frescas, é claro, e que, um dia, a Ferrovia Transnordestina saia do papel, principalmente o ramal que leve a Suape. Até lá, os cearenses continuarão fazendo a festa e os baianos vão tirando uma casquinha.
Ah! Antes de encerrar estes comentários, uma última observação: nas estatísticas de exportações, nem preciso dizer quem leva a vantagem.

Nota: Fotos obtidas no Google Imagens. Em cima, o Porto de Pecém e, abaixo, um sucesso de Petrolina (PE), as uvas sem sementes, de alto valor comercial no mercado externo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

QUARTA-FEIRA, DE CINZAS?

Passada a decepção com o desfile da Mangueira, assunto da última matéria, fui surpreendido com um convite da empresária Ana Góis para participar do Blocalhau, um bloco carnavalesco, por ela promovido, desde 2003, na tarde da 4ª. Feira de cinzas, no seu salão-buffet do Recife Antigo. Sempre reagi a essas esticadas do tríduo momesco. Mas, não custaria nada ir conferir.

O convite só se tornou irrecusável, quando ela me garantiu que lá haveria um encontro dos blocos líricos do Recife, inclusive o Bloco das Flores, considerado uma coisa do passado, no desastroso desfile da Mangueira.

Logo este ano, quando reservei o carnaval para um programa leve, descançar em casa e colocar em dia algumas leituras e trabalhos, fui, numa 4ª. Feira de cinzas, meter-me numa folia mais parecida com um primeiro dia de carnaval. Fiquei surpreso com a energia e alegria dos presentes, que pareciam fazer questão de ignorar que o carnaval havia terminado na noite anterior. Coisa de carnavalesco pernambucano dos nossos tempos.

Mas, como o meu maior interesse era admirar os blocos líricos, fiquei, horas a fio, deslumbrado com a performance de cada grupo. Mais do que isto, lavando a alma. Quanta beleza e poesia. Que belas canções, acompanhadas por excelentes bandas de pau e corda. Fantasias caprichadas e gente bonita. Daria tudo para ver o carnavalesco da Mangueira, ali por perto, diante do flabelo (será que ele sabe o que é isto?) do Bloco das Flores, imaginando estar em pleno 1920! E eu, junto dele, para alertá-lo que o bloco nunca deixou de existir e que estamos em 2008.

Foi uma tarde de muita alegria, entremeada, é claro, por delicioso bacalhau, terminando num arrastão de frevo pelas ruas do bairro do Recife Antigo e no palco do Marco Zero, quando os foliões capitularam e, por fim, entenderam que o fim era inevitável.

Ana Góis está de parabéns. Já encomendei minha camisa para o próximo ano.


Nota: Fotos dos mais destacados flabelos (Blocos das Flores e da Saudade), sacadas durante o Blocalhau 2008.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

RECIFE MANDOU ME CHAMAR...

Quase nunca assisto aos desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro, pela TV. Acho que são sempre repetitivas. Plumas, paetês, mulheres (bonitas, claro!) sob os holofotes e depois virando celebridades nacionais. Coisa pré-fabricada. Uma coisa batida e chata, no final de contas.

Este ano, porém, movido pela propaganda do desfile da Estação Primeira de Mangueira, trazendo como tema uma homenagem ao centenário do frevo e ao Recife, resolvi segurar o sono e fiquei até as 3 horas da manhã ligado na TV, para conferir. Tive que aturar outras quatro escolas, incluindo Salgueiro e Portela, esta última excelente.

Arrependido, não fiquei. Mas, decepcionado sim. Não entendo de desfiles de escolas de samba. Não sei criticar baterias, evolução e alegorias. Esta não é minha praia. Mas, como leigo e conhecedor das coisas da minha terra, tenho minha opinião. Vamos lá.

A impressão inicial foi de ver 4.000 pessoas, quase aos empurrões, tentando cadenciar um samba, com gritos de frevo, em alguns momentos. Tudo bem, a letra do samba enredo levava a isto. Era boa e chegou a levantar a arquibancada. Ainda que sob chuva forte.

Mas, o que mais me impressionou, razão da decepção, foram as explicações dadas para as alegorias, feitas pelos repórteres da emissora de TV, baseadas, com toda certeza, em releases fornecidos pelos que fazem a Escola. Fizeram uma salada danada das coisas recifenses. Licença poética? Talvez. Mas, podia ter sido um pouco mais fiel à realidade. Acho que faltou assessoria ou o carnavalesco é mesmo voluntarioso.

O Zé Pereira apareceu de frente, causando imensa surpresa aos críticos cariocas convidados a dar pitacos, durante a reportagem. “Não entendo como o Zé Pereira, que é uma característica do carnaval carioca, foi bater lá em cima, no Recife”, disse um deles. Pobre coitado, precisa saber que essa figura é tradição do carnaval brasileiro, como um todo, e Recife é no Brasil!

Logo a seguir, num dos carros alegóricos resolveram, para minha surpresa, reproduzir um famoso bloco recifense, denominando de Dragões do Carnaval que, segundo eles, sai todo ano anunciando a folia. Era uma alegoria de efeito, mas pura invenção do carnavalesco da Mangueira. Andei perguntando, hoje, a um e a outro, de onde esse bloco sai. Ninguém soube me dizer. Taí uma nova idéia para o próximo carnaval.

O Teatro de Santa Isabel foi mostrado de uma forma que não lembrava nossa tradicional sala de espetáculo. Tudo bem. Era, apenas, uma alegoria. Pior foi ser apresentado como palco do famoso baile do Bal Masqué, o mais antigo de carnaval do Brasil, que, na verdade, é promovido pelo Clube Internacional do Recife.

Os bonecos gigantes de Olinda, que poderiam ter sido mais bem explorados, apareceram en passant, atrás do carro do Zé Pereira e no fim do desfile, com figuras mal feitas, nada comparável com que se encontra no carnaval de Olinda. Eram poucos e traziam figuras desconhecidas. Apenas o Homem da Meia Noite e talvez Capiba.

Mais adiante, cometeram um falha imperdoável, ao negar a existência dos blocos líricos, incluindo numa ala figuras fantasiadas, portando guirlandas de flores, para lembrar o Bloco das Flores, como sendo um tipo de bloco que não existe mais, afirmando inclusive que era uma coisa dos anos 20, do século passado. Francamente. O que dirão os componentes de blocos como o Bloco de Saudade, Um Bloco em Poesia, o próprio Bloco das Flores, Bloco das Ilusões, Pierrôs de São José, Cordas e Retalhos, entre outros.

O carro que pretendeu mostrar o maracatu foi muito fraco. Não convenceu. E os caboclos de lança, do maracatu rural, foram postos timidamente. Quase não apareceram. São coisas interessantes e fáceis de serem exibidas e que, terminaram à margem do desfile. Uma ala de muitos caboclos de lança, com seu colorido e chocalhos teria sido de uma plasticidade inesquecível.

Por fim, o ícone do moderno carnaval do Recife, que é o Galo da Madrugada, por pouco ficou fora do desfile. Apareceu, digamos numa menção pouco honrosa, no final de tudo, depois do último carro, em homenagem a Cartola (que faria 100 anos, se vivo fosse). A idéia foi a de encenar uma visita do carnaval recifense ao Morro da Mangueira. Era um galo mixuruca e sem graça alguma. O carnavalesco perdeu a chance de colocar na avenida um gigantesco galo - a exemplo do que se coloca todo ano na ponte Duarte Coelho - e uma ala com componentes fantasiados de galo. Acredito que teria sido sensacional. Que falta de imaginação! Que falta de assessoramento, repito.

Mas, como toda regra tem sua exceção e para salvar a pátria, um elogio seja feito à chamada comissão de frente, formada por crianças da periferia do Recife, da Escola de Frevo Fernando Borges, que preparada pelo coreógrafo Carlinhos de Jesus, fizeram bonito na Sapucaí. Trata-se de um feito, porque não é fácil dirigir jovens, crianças até, que certamente nunca haviam saído do Recife, jogá-los diante de uma monumental platéia, para fazer o que fizeram.

E pensar que, para tudo isto, saiu dos cofres da Prefeitura do Recife a bagatela de R$ 3 Milhões. Francamente. Por 80 minutos na mídia, alta madrugada. Sei não. Queria saber qual foi o índice de audiência registrado, naquela hora.

Para encerrar, devo frisar que fiquei mais tranqüilo com minha avaliação, após a divulgação da pesquisa interativa com o telespectador feita pela emissora de TV. A nota não foi nada agradável. A Mangueira ficou entre as duas de mais baixas medias na noite. Vamos ver que o acontece na quarta-feira de cinzas, afinal tem gosto para tudo.

Mangueira mandou chamar o Recife. Muita gente foi, sambou, tomou um banho de chuva e não deve ter percebido essas falhas. Ainda bem que eu não fui.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

TRANSPORTE FERROVIÁRIO PARA O BRASIL MODERNO

A Newsletter da Revista Conexão Marítima, deste 1º. de fevereiro, trás uma manchete interessante: “Brasil passa a ser pólo mundial de fabricação de locomotivas GE”. Ora, vivas! É mais um motivo para pular no carnaval que começa hoje.

A gigantesca General Eletric passará a produzir locomotivas de grande porte no Brasil, para vendas nos mercados interno e da América Latina. A produção será na fábrica já existente no município de Contagem (MG), que está sendo modernizada, treinando a mão de obra especializada e implantando um Centro de Excelência de Engenharia, para dar suporte à nova produção.

Segundo a News, essa unidade de Contagem já produziu, em 2007, 30 locomotivas, parte delas exportadas para África do Sul, Colômbia e Jordânia.

Vi na mesma matéria que o Presidente da Empresa, para a América Latina, Marcelo Mosci, afirma que, “A grande vocação do País na área de infra-estrutura traz vantagens sólidas e sustentáveis de competitividade neste setor. Além disso, a abundância de recursos de engenharia de boa qualidade e a escala do volume de trabalho justificam a ampliação da produção no Brasil”. Já foram investidos US$ 100,0 milhões. A GE tem duas outras plantas no Brasil, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. Tem 7 mil empregados no país.

Que a GE oferte as locomotivas, porque os vagões são produzidos em larga escala, no Brasil por Iochpe-Maxion, Randon, Usiminas Mecânica, entre outras.

A leitura que faço, da declaração de Mosci, é que pode estar se abrindo espaço para uma solução moderna de transporte de mercadorias e de pessoas neste país, com o modal ferroviário. Tomara que eu esteja certo.

Nunca entendi como um país de dimensões continentais, como é o Brasil, abdicou do modal ferroviário de forma tão radical. Muito mais econômico e de manutenção mais barata, a ferrovia perdeu espaço, a partir do momento em que, no Governo JK, foi priorizado o transporte rodoviário, no intuito de desenvolver a indústria automotiva nacional, conforme o Plano de Metas de Juscelino. Fez sentido. Mas, fez sentido há quase 50 anos. Agora, a coisa pode ser outra.

Este é um país onde o transporte ferroviário cai como uma luva. Não se admite que, em matéria de deslocamento de pessoas, já não se tenha um trem digno e moderno para ligar as maiores cidades brasileiras, como acontece em muitos países desenvolvidos ou não. Vez por outra se fala num para o eixo Rio-S. Paulo. Papo furado.

Fico imaginando como seria interessante se tivéssemos um trem tipo o bala japonês, ou similar aos que correm nos trilhos da Europa. Recife – Salvador, por exemplo, em 4 horas. E com mais 5 ou 6 horas poderíamos alcançar o Rio de Janeiro. Para as capitais mais próximas seria um salto. Tudo aliado ao conforto peculiar desses trens, que se assemelham aos modernos aviões, com a vantagem, porém, de levar 10 vezes mais o número de passageiros de um avião padrão, permanecer no solo, ter poltronas amplas e confortáveis, permitir ao usuário repousar, dormir, fazer boas refeições, trabalhar, falar ao celular sem restrições, entre outras.

Mas, deixando de lado a questão do transporte de passageiros, que não passa, ainda, de um sonho, o que se pode destacar é que a grande vantagem estará no transporte de mercadorias. E para isto nem precisa de trem bala. Um trem convencional, mais atualizado, já seria bastante. E, agora, já penso na Transnordestina.

Oxalá que meus netos gozem dessas vantagens primeiro-mundista para as quais as autoridades brasileiras, até agora, só têm sabido dar as costas.
Nota: Fotos de um trem de alta velocidade (trem bala) externa e internamente obtidas no Google Imagens.