quarta-feira, 26 de novembro de 2008

VIVA LA NEGRA

Ainda vivíamos a década de 70, quando uma amiga – Leony Muniz – “apresentou-me” Mercedes Sosa, La Negra. Apaixonei-me, de cara, pela voz e pela história dessa argentina fantástica. Sai comprando todos os discos – long play, na época – lançados na praça.
As estações de rádio do Brasil davam espaço e cantores famosos, como Caetano Veloso e Milton Nascimento, abriam fatias generosas dos seus shows para que La Negra se apresentasse ao publico brasileiro. A cada apresentação crescia sua legião de fans.
Perseguida pelos ditadores argentinos ela foi proibida, a partir de 1976, de cantar na sua própria terra e, com isto, preferiu se refugiar na Europa – Espanha e França principalmente – onde fez um sucesso ainda maior e sua fama correu o mundo.
Com a democratização da América Latina e, sobretudo, na Argentina, Mercedes Sosa retornou a sua terra natal e continuou sua trajetória artística.
Hoje, 25 de novembro de 2008, assisti a um grandioso show dessa Diva da música popular latino-americana, no Teatro Guararapes, do Recife. Estou em estado de graça.
Em cima dos seus 72 anos, a mulher soltou a voz, tão firme quanto há 35 anos, encantando uma platéia comovida pelas músicas e poemas por ela interpretados.
Numa entrada triunfal, foi recebida de pé e aplaudida por longos minutos.
Daí em diante, foi quase duas horas de um repertório que mesclou antigos e novos sucessos. Ao interpretar Gracias a La Vida e Volver a los 17, dois dos seus grandes sucessos dos anos 70, a mulher galvanizou o publico. Vi gente enxugando as lágrimas.
Com razão. São musicas que remetem a um tempo político difícil, no qual somente as composições musicais de artistas de vanguarda e engajados nos movimentos pró-democracia encantavam a juventude da época, que são os maduros de hoje e que compunham a platéia desta noite. Foram sambas (a la argentina), chacareiras e outros gêneros musicais da nação irmã, num desfilar de interminável sucesso.
Mas, não foram apenas as musicas argentinas que arrancaram os aplausos no Guararapes. Composições musicais brasileiras, entre as quais Coração Vagabundo, Insensatez e Coração de Estudante, além de emocionar os tupiniquins presentes, revelou uma argentina amante da Terra Brasilis. E ela, sem se fazer de rogada, respondeu com um sonoro “Muito Obrigado”. Nem preciso dizer qual foi o clima que se instalou.
La Negra está pesando além do normal. Imagino que, cento e bote força. Anda com dificuldades. Sempre ajudada. Já não faz as evoluções coreográficas do passado. Não dança, por exemplo, uma Chacareira. Apenas mexe, graciosamente, com os braços. Canta sentada e, como sempre, envolta em muitos panos. Na verdade um imenso poncho. Uma iluminação especial e em permanente movimento, substitui a coreografia da artista do passado.
Ainda assim e, não obstante, a relativa paralisia, Mercedes Sosa resolveu pedir ajuda, pôs-se de pé e ensaiou algumas evoluções, cantando “Maria! Maria!”, composição de Milton Nascimento, para encerrar o show desta noite. Foi o ápice dessa apresentação inesquecível. Ninguém conseguiu ficar sentado. Algo em torno de mil pessoas, de pé, cantou junto com ela. Foi, eu diria, apoteótico. E, sinceramente, com forte tom de despedida.
Viva La Negra! Como Mama África – sobre a qual falei recentemente – uma Voz da Liberdade, neste caso, da América Latina.
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

PERDI AS ESPERANÇAS

Está ficando muito difícil. As autoridades perderam o controle da situação da segurança na cidade do Recife. À medida que o tempo vai passando, dá para perceber que os assaltos, roubos, furtos e assassinatos tornaram-se corriqueiros e verdadeiras banalidades do dia-a-dia recifense. As pessoas já ouvem falar dessas barbaridades, como sendo coisas de rotina. Recebem a informação de forma indiferente. Coisa comum e sem surpresa. Às vezes a noticia passa desapercebida.
Hoje em dia, a gente já sai de casa com o espírito preparado para um eventual episódio, tamanha é a freqüência da coisa. Cuidado aqui ou ali, cortando sinal vermelho, escolhendo por onde circular, vivendo um autentico suplício. Haja estresse.
Interessante é que os mais otimistas tendem sempre a pensar que a coisa só acontece com os outros e a certa distancia, o que é um ledo engano, devido a constância.
Esta semana fui surpreendido, na frente do prédio onde moro, no Rosarinho, com um audacioso assalto a oito veículos encurralados pelos bandidos, entre duas transversais, usando dois automóveis atravessados na via pública. A Rua Teles Junior é estreita, com muitos prédios, muitos habitantes, sempre cheia de veículos estacionados dos dois lados e com estreita pista de passagem para um intenso tráfego. Foi uma “barbada” para os assaltantes. Após obstruírem a rua, em dois pontos estratégicos, “fizeram a feira” em poucos instantes e partiram em disparada, levando as chaves de todos os veículos represados. Era um bando de mais de dez. Restaram oito motoristas e seus acompanhantes em estado de desespero, sem lenço, sem documentos, sem dinheiro e, com certeza, sem esperanças de paz.
Na manhã seguinte os jornais traziam o retrato da calamidade com a clamorosa manchete: Arrastão e Terror em Rua do Rosarinho. A minha rua! Foi a violência batendo a minha porta.
É isto aí, meus amigos. Sinto que estamos perdendo as esperanças de ir e vir tranquilamente. De viver, mesmo dentro de casa, sem temor. Perdendo as esperanças de viver numa cidade segura.
As autoridades vivem de promessas e sem apresentar resultados tangíveis. Os marginais já devem rir à toa, com tanto sucesso que alcançam nas suas ações devastadoras. E pela facilidade que encontram, as organizações criminosas se multiplicam diante da impotência do Estado. Há uma verdadeira máquina de criminalidade.
É verdade que é um problema nacional. Mas, no Recife as coisas estão sem limites. A cidade está inviável. Acredito que esta geração não terá chances de viver num ambiente de paz. Serão necessários muitos anos para que uma estratégia política de ordem e segurança vingue por estas bandas. Vai ser preciso um trabalho de base que salve da marginalidade as próximas gerações , a base de educação, saúde, moradia e emprego necessários a esta população que vive nas periferias das nossas grandes cidades, incluindo o Recife.
Estou certo de que não será uma coisa para o meu tempo. Tomara que seja para meus netos. Sofro por conta da minha falta de esperança, mesmo que ela seja a última a morrer, conforme a sabedoria popular.
Nota: Foto obtida no Google Imagens .

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Cuidado! Tem Lobisomem na Praça

Eu faço questão de ter um café-da-manhã tranqüilo. Com suco, frutas variadas, café preto ou com leite e torradas com geléia e queijo branco. Enquanto isto, ouço – diariamente – a Ave-Maria de Gounoud, em tom bem baixinho. O CD nem sai do meu 3 em 1. Nunca. Ah! Leio os jornais do dia, também. É uma hora de tranqüilidade e preparação para o dia que começa, quase sempre, muito movimentado.
Minha tranqüilidade só é quebrada pela minha Secretária Doméstica, D. Iracema, que, freqüentemente, trás noticias de um mundo, digamos, quase cão, onde ele habita.
Outro dia, não posso esquecer jamais, chegou me dizendo que por lá (região pobre Recife, por trás dos bairros do Arruda e Água Fria) tem gente que quando morre, o corpo é jogado no canal por falta de dinheiro para um sepultamento, por mais simples que seja. Telefonam para a Polícia, que chega a seguida, levanta o corpo e enterram como indigente. Pense na minha cara. Fiquei abismado com essa realidade chocante. Francamente, não é um mundo cão? Fora disso, assassinato, prisão de maconheiro e assaltante, extermínio e estupro é rotina naquelas bandas.
Esta semana Iracema está em verdadeira polvorosa. Vive alarmada com uma novidade que se espalhou pela região, de que um lobisomem anda solto pela área, pintando miséria. Ataca a partir da meia-noite “Inté o raiá do dia!!!!” no linguajar dela. “E esta semana que tem noite de lua-cheia, o bicho vai pegar!” O curioso é que Iracema, coitada, tem uma prótese ocular no olho esquerdo – que, aliás, ela diz ser uma próstata (!) ocular – e, quando fala, arregala um olho só. É uma cena... “Tô cum medo de sair de noite e de vortá prá casa!”. Aconselhei-a que ficasse por aqui, para não cair nas garras do monstro. “ De jeito nenhum! Tenho que vortá pá tomá conta das minhas fias e netas. Esse danado de lobisomem tem sede de minina fema e mulé donzela!”
Confesso que fiquei dando corda no papo e conferir até que ponto chegava. Uma vontade danada de rir. Como é que pode? Em pleno século 21!
Segundo Iracema, os lobisomens são filhos amaldiçoados pelas mães. “Praga de mãe, pega que nem gripe, Dotô Giley.” E acrescentou: “Ou então, é no que dá dessas mulé severgonha que transam com cachorro e fica grávida de lobisomem”. Disse, com uma boca miúda, baixinho e cheia de pudor. Dei um pulo da mesa e me sai com algo, mais ou menos, assim: “Ah não! A Senhora, agora, foi longe demais! Que coisa mais feia! Eu não acredito numa sujeira dessas. Isso é outra invenção sua!”. “ Ôxi!, qué bem mi dizer que num sabe! É o que mais tem por aí. Inclusive essas mulé da alta, que o Sinhô conhece, que é rica e pode ter o homem que quiser, mas prefere um cachorro! E, quando o minino lobisomem naice, ela manda jogá na mata, porque ninguém vai querer um lobisomem sorto dento de casa. Tá pensando o que? O que mais tem no mundo, é mulé severgonha.” Aí, não tive jeito de segurar. Ri, como diz Geraldo Pereira, “à bandeiras despregadas”.
O imaginário popular é uma coisa fantástica. Em qualquer lugar do mundo se manifesta e cria essas figuras folclóricas.
Indiscutivelmente, estou falando de um traço cultural que, ao mesmo tempo, mobiliza as pequenas comunidades, em verdadeiras festas macabras, inclusive, ocasionando o surgimento de aproveitadores da inocência coletiva. Isso dá um trabalho daqueles à Policia.
São essas histórias populares do dia-a-dia, que entram pela porta da minha área de serviço e me surpreende na mesa do desjejum.
Na noite desta sexta-feira, com lua cheia, a Comunidade de Chão de Estrelas, onde vive Iracema e sua prole, vai se mobilizar para pegar o danado do lobisomem que anda solto por lá. Tem homem armado, de pau e pedra, por todos os lados. “ Tenho fé em Deus que vão pindurar o danido morto, num poste da praça!” Disse Iracema, cheia de esperança e confiança.
Até que ocorra essa emocionante captura, ela vai se apressar por encerrar o expediente dela, aqui em casa, correr assustada e se trancafiar num quarto, com as filhas e netas que, segundo ela, estão dormindo juntas e amuquecadas numa mesma cama. Mortas de medo! Aliás, ela garante que nem consegue dormir, porque fica “atucaiando a porta”.
Pensando bem, tenho que ser grato a essa figura do dia-a-dia da minha casa, porque ela é meu link com a realidade social do povão. É ela que me arrasta do alto da pirâmide social que vivo e me mostra – sem pena e cruelmente – a maneira de viver da gente humilde e desassistida.
Mas, por via das dúvidas, cuidado! O lobisomem está por aí... Não duvide! Que ele pegue e estraçalhe quem discordar disso.
Aliás, sabe de uma coisa? Para me precaver, vou recomendar a Sonia, minha mulher, que volte cedo do trabalho, de preferência com a luz do dia. Seguro morreu de velho!
Nota: Imagem colhida no Google Imagens

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Adeus, Mama África

Quando o DJ atacava de Pata-Pata, nas discotecas da minha juventude, a moçada ia à loucura. A pista de danças ficava pequena e o “rala-rala” dos corpos em evolução dava o tom da alegria da noitada. Tratava-se de uma música que explodia nas paradas de sucesso do mundo inteiro.
Tempos depois, quando já nem me lembrava, fui ouvi-la na distante África do Sul, nos idos de 1996, quando andei por lá, numa Missão de negócios. Estranhando o sucesso tardio, comentei a um nativo de que a época dessa música, no Brasil, havia ocorrido muitos anos antes. Para minha surpresa, meu interlocutor explicou que Pata-Pata será, para os sul-africanos, um eterno sucesso, por ser da autoria da mais famosa cantora do país, Miriam Makeba, mais conhecida como Mama África, pela sua internacional militância em favor da independência das nações africanas, na segunda metade do século 20.
Intrigado com aquela novidade, fui atrás de discos, digo CDs, da cantora famosa do país que eu visitava pela primeira vez. Mais do que isso quis saber a respeito da vida dela, já que se tratava de uma personalidade política de um povo que experimentava a liberdade, depois da sombria Era do Apartheid. Mandela estava em liberdade e governando a Nação que ajudou a construir. Era uma história que andava me fascinando e me levando a explorar tudo quando estava ao meu alcance, ou seja, lances históricos, personagens e futuro. Foi quando soube que ela, Miriam Mabeka, depois de longos anos no exílio, por insistência de Nelson Mandela havia retornado a África do Sul, sua terra natal, em 1992 e de lá continuava fazendo sucesso no mundo inteiro, enquanto desenvolvia um trabalho social de apoio a adolescentes em situação de risco, nos subúrbios de Johannesburgo.
Não tive o prazer de conhecê-la ou de assistir alguma das suas apresentações.
Hoje (11.11.08), amanheci o dia lendo, nos jornais do Recife, a noticia da sua morte repentina, ontem, na Itália, aos 76 anos de idade. Lamentável. Depois de um show, em favor do escritor Roberto Saviano, ameaçado de morte pela máfia italiana. Morreu quase que cantando, desmaiou, ainda no palco, quando se preparava para um bis, ao som de aplausos dos fans. Talvez, como um dia desejou. Seguramente feliz. Morreu em plena militância política em favor dos oprimidos. Morreu sendo a voz da África. Cantando a verdade, como sempre dizia. “Eu não canto nunca para a política, mas sim para a verdade” esta foi sua declaração mais famosa.
Calou-se, assim, uma voz lendária do Continente Africano, pouco conhecida ou divulgada no Brasil. Não tenho noticias de apresentações por nossas bandas.
Mama África, uma zulu de alma, ficou mais de 30 anos no exílio. Foi como pagou pelo intenso combate que exerceu contra a degradação do seu povo, sob o jugo dos chamados nacionalistas africaners, de origens holandesa e britânica. Correu meio mundo na sua vida de exilada. Inglaterra, Estados Unidos, onde experimentou do maior sucesso e chegou a cantar na Casa Branca, na época de John Kennedy e, por fim, na Guiné. Suas musicas que misturavam ritmos tradicionais africanos com blues, jazz e gospel foram proibidas no seu país natal, devido às denuncias contra o regime racista sul-africano, na ONU, no remoto 1963, quando ela contava com apenas 31 anos de idade.
Pata-Pata, embora sendo de 1956, estourou nas paradas de sucesso do Brasil, se não me falha a memória, nos anos 70. Só pode ser ouvida pelos sul-africanos com o fim do Apartheid.

Nota: As fotos forma colhidas no Google Imagens

domingo, 9 de novembro de 2008

Vitória da Raça

Sem dúvidas o maior acontecimento da semana foi a vitória de Barack Hussein Obama na eleição de Presidente da República, nos Estados Unidos.
Muito se espera do novo presidente norte-americano. Acho que qualquer que fosse o vitorioso seria assim. O nefasto governo de Bush fez com que o mundo inteiro torcesse por uma mudança e colocasse todas as fichas nesse jogo. Aliás, pensando bem, foi Bush o maior cabo eleitoral de Obama.
Há muitas décadas os norte-americanos não se mobilizavam, para uma eleição, como ocorreu na semana que passou. Dessa vez o eleitor não ficou apático. Foi às ruas, fez campanha, gritou, votou – houve uma afluência nunca vista às sessões eleitorais – e comemorou a vitória, dando testemunho de que lá se pratica a maior democracia do planeta.
Os Estados Unidos, mergulhado na maior crise econômica de todos os tempos e as portas de uma longa recessão, esperam dessa sua nova liderança algo como passes de mágica para tirar o país do buraco que Bush colocou. A expectativa é tamanha que assusta os mais avisados e conscientes do desafio. Não vai ser uma coisa fácil. E é aí onde reside a preocupação da equipe de governo já se formando. O primeiro discurso, não o da festa da vitória, numa grande Praça em Chicago, que foi carregado de emoção, mas o da primeira coletiva à imprensa mundial foi claro ao avisar das dificuldades e pedir calma.
Mas, não é desses aspectos político-econômicos que quero falar. Ao invés disso, tenho me detido mais em observar a alegria do povo negro norte-americano. Esta sim foi uma vitória retumbante. Conheço os Estados Unidos de Norte a Sul e Leste a Oeste. A primeira vez que estive por lá foi no longínquo 1967. Muito jovem, tive a oportunidade e a curiosidade de observar as relações entre brancos e negros e senti, claramente, a diferença que se impunha entre os cidadãos das duas raças.
Vivi os tempos de campanha de Martin Luther King e acompanhei o episódio do seu assassinato em 1968. Em 1972, de volta aos Estados Unidos e, mais precisamente, a cidade de Atlanta (Geórgia), no Sul do País, onde a questão racial sempre foi mais acirrada, fiz questão de visitar o túmulo desse mártir pela luta contra o racismo na Terra de Tio San. Lá mesmo, na capital da Geórgia, como sinal da separação racial, fui recomendado atentamente, pelos meus anfitriões e por um primo que fazia intercambio, de não entrar, por descuido, no bairro comercial dos negros. Isto numa época em que a coisa já era, oficialmente, inaceitável. Temia-se que eu fosse abordado de modo adverso pelos negros, ainda vivendo em guetos.
Noutras ocasiões, e, até recentemente, sempre que volto aos Estados Unidos, visitando lugares diferentes – grandes centros e pequenas cidades – não percebi progressos muito claros nesse relacionamento. Naturalmente, que vi negros e brancos, circulando juntos, em todas as partes. Mas vi, também, que a coisa nunca deixou de ter o ranço do preconceito histórico.
A vitória de Obama pode marcar o ponto final dessa diferença e o exemplo vai levar o resto do mundo, de uma vez por todas, alijar o racismo, onde quer que ele ainda exista. Os democratas com mais facilidade do que os republicanos, mas provavelmente todos juntos, em honor ao President of The United States of América e a tradição democrática do país vão perceber que não cabe mais alimentar o ranço. Acho que a Nação vai se unir em torno desse homem que vem com a aura de Salvador da Pátria.
É minha gente... A História muda. Nasce uma nova América. Para gáudio do Planeta! É a vitória da raça, 40 anos depois da morte de Luther King, que é considerado o fundador da moderna democracia norte-americana.
Nota: As fotos de Obama e Luther King foram colhidas no Google Imagens

domingo, 2 de novembro de 2008

O Mendigo Inadimplente

Bastião (nome fictício) é deficiente físico – anda com ajuda de muletas rudimentares – e fez da “profissão” de pedinte seu ganha-pão. Seu “estabelecimento comercial” é num movimentado cruzamento, no bairro dos Aflitos, Recife. Todo santo dia o sujeito está por lá pedindo um trocado aos que param em atenção ao semáforo e, dessa forma, ganha a vida e sustenta uma família de vários rebentos. Só vendo como o pobre “trabalha”. Acho que tem o sovaco mais sofrido da cidade.
Penalizado com o infeliz ofereci, certo dia, uma oportunidade de emprego na fabrica de vassouras de um amigo. Salário mínimo, carteira assinada, INSS, FGTS, vales transporte e refeição, cesta básica, salário família e tudo mais que um trabalhador formal recebe. Para minha surpresa recebi um tremendo NÃO. “Tá brincando dotô... saláro mínimo? Tô fora! Dá não... aqui eu tiro muito mais...” O sinal abriu, passei uma primeira e segui minha trajetória, abestalhado com o que ouvi e disposto a nunca mais, digamos, colaborar.
Passado algum tempo, na época em que mudaram o transito na área e o fluxo de veículos diminuiu, parei meu carro atendendo ao sinal amarelo de atenção e lá me vem Bastião com uma insólita conversa. A coisa foi mais ou menos assim: “Dotô, tudo bem? Colabore aí, hoje. Tô meio atrapaiado. A loja mandou me dizer que tô inadiprente... Acontece que o movimento por aqui diminuiu muito, só passa carro prum lado e o movimento tá ruim demais. Deixei de pagar três prestação da televisão e da geladeira... parece que vão lá em casa tumar tudo de vorta.”
Nem preciso comentar o tamanho do meu espanto. O cara estava me explicando o motivo da sua inadimplência na praça! Um simples esmoleiro! Quase não acreditei no que ouvi. Ainda de olhos, certamente, bem arregalados escutei a melhor parte: “Dotô, eu sei que o Sinhô é devogado, por favor me ajude...” Respondi, apressado, que não era Advogado, que era Economista, passando uma primeira e partindo. Ainda deu tempo de vê-lo com olhos arregalados, bem espantado, e exclamando: “Vixe Dotô! O Sinhô é comunista! Nunca pensei!” Dali prá frente ele não quis mais negócio comigo. Quando eu passo por lá, ele olha desconfiado... deve dizer, lá vai aquele comunista. E, continua por lá. Há, pelo menos, 30 anos. Isto é um exemplar retrato do Brasil!
Nota: Imagens colhidas no Google Imagens