segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Fim de Ano

Lá se foi 2019. A rigor não foi um ano fácil de ser vivido coletivamente. Saímos de 2018 trilhando um percurso de incertezas, na dimensão nacional, devido aos abalos que sofremos no nosso "trem fantasma" da politica. Uma crise sem fim tirou nosso sono a cada noite. Muitos tombaram no meio do caminho. Foi muita dureza. Tomamos muitos sustos e mergulhamos em clima de muitas interrogações, após aquela eleição tumultuada, resultando numa nação dividida. Infelizmente, no decorrer do ano a sensação foi de que os palanques eleitorais não foram desmontados. Até quando? 
Se por aqui o clima não foi de paz e amor desejado, no plano internacional nos assustamos com grandes e negativos movimentos prejudiciais aos seus locos e, como não poderia deixar de ser, respingando em nós brasileiros. Algumas regiões pegaram fogo literalmente: a Austrália ainda arde, a Amazônia ardeu no seu período de seca e Santiago do Chile foi incendiada, por pura maldade humana de infelizes descontentes. Até a  a velha e querida Paris viu arder em chamas sua icônica Catedral de Notre Dame. De chorar... Não foi fácil. Foi fogo!
Contudo, neste momento em que, numa espécie de verdadeiro passe de mágica, baixa o espirito de cessar fogo, renovam-se os sentimentos humanos de fraternidade e uma aparente brisa de paz parece varrer nosso mundo cristão. Bom será que esta brisa se torne perene e que, aqui no Brasil, nos revele um novo tempo com a tomada do rumo de crescimento e nos leve ao sonhado desenvolvimento, provando que o nosso país é forte e resiste aos vendilhões oportunistas que tentaram tirá-lo dos eixos.  Que 2020 venha repleto de muita paz, tranquilidade e desenvolvimento socioeconômico para as famílias de Pindorama.


O Blog do GB, como ocorre a cada janeiro, entra em recesso prometendo estar de olho em tudo que ocorre ao redor e, se oportuno, interromper a pausa de rotina. 

Antes porém - por fim e não menos importante - cumpre lembrar que este  Blogueiro fica imensamente grato a todos que o acompanharam, através deste espaço, durante o ano que termina, quando o blog completa exatos 12 Anos. Grato, particularmente, pelas interações nacionais e internacionais, assim como pelos constantes incentivos que alimentaram o desejo de cumprir a agenda semanal, buscando temas e colhendo imagens  para tornar este espaço atrativo e vivo.

FELIZ 2020!

NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Sempre Perdendo Posição

O fim do ano se aproxima, as confraternizações de amigos e grupos rolam a toda hora e o Blogueiro, aqui, se esforça, debalde, para falar de coisas boas, animadoras e, sobretudo, inspiradoras para ingressar em 2020. É hora de dar balanços, jogar luzes no que houve de bom e com a os propósitos de vida. Contudo, não há como deixar passar fatos que são registrados emitindo sinais amarelos de atenção. Então, vejamos: logo no inicio da semana passada foram publicados os resultados do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano atualizado, ano base de 2018. Quem, como eu, ainda estava ressabiado com a pisa que levamos no Teste do PISA, assunto da semana anterior, logo antevia que coisa boa não viria e algo negativo apontaria para um dado a desejar para o Brasil. Acertei, claro! Segundo os dados publicados, agora, o Brasil teve uma ligeira melhora do índice que em 2017 era de 0,759 e na avaliação recente passou para 0,771. Pouco adiantou porque no ranking mundial, que envolve 189 países, saímos da 78º. para a 79º. posição. Ou seja, subimos apenas um misero degrau. Estamos atrás da Republica Dominicana (0,798), postada em  71º. lugar e do Cazaquistão (0,794), em 73º. lugar. Que jeito. O Índice em tela varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo de 1, melhor a situação do país estudado. Educação, esperança de vida ao nascer e renda per capita, são os indicadores utilizados pelo estudo. Dá para perceber o que explica a situação de Pindorama? Na cabeça do ranking estão: Irlanda (0,968), Noruega (0,968) e Austrália (0,962). 180 países são estudados.

Retrato da Pobreza brasileira
Como fim de ano é "fogo", a coisa não parou por aí. O nosso IBGE, também, divulgou os resultados da sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua (PNAD) e jogou na cara dos brasileiros a estarrecedora (seria mesmo?!) informação dando conta de que a concentração de renda no país bateu recorde em 2018. Ué! Em pleno governo que se gabava de haver acabando com a pobreza do país. Pouca vergonha! Decepcionado, sem querer me aprofundar nos números publicados, cito apenas duas incômodas noticias: i) a maior fatia da renda gerada no Brasil ficou "apenasmente" nas mãos de 1% da população e ii) no ano base da pesquisa (2018) 50% da população tinha renda de R$ 820,00, valor abaixo do salário mínimo vigente àquela época. E chega de dados assustadores. Para encerrar a conversa de hoje, vale à pena registar que, alheios a esta situação de pobreza "severina" dos seus compatriotas, Ministros da Controladoria Geral da União (CGU) estão, agora, participando em Abu Dhabi de uma Conferencia da ONU para discutir o Combate à Corrupção no Mundo (16 a 20/12/19). Detalhe sórdido que se comenta é que o critério de escolha dos dois representantes brasileiros foi o de ser torcedor do Flamengo (Rio de Janeiro), com direito a assistir a final do Mundial de Clubes que acontecerá em Doha, no Qatar. Quer dizer, pertinho de onde ocorre a grande decisão futebolística. Mas, que felicidade! Os Ministros foram autorizados pelo Governo a ampliar a permanência nas arábias e poder assistir a sensacional partida final! Com dinheiro gerados pelos pobrezinhos dos brasileiros. Meu Deus! desse jeito vamos continuar perdendo posição. Antes, porém, viva o Flamengo!
Vai ver, os ministros estão escondidos debaixo da bandeira!
       NOTA: Estas fotos ilustrativas foram obtidas no Google Imagens.
      

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Levamos nova pisa



Um dos assuntos mais comentados estes últimos dias foi o resultado dos brasileiros no exame do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA (na sigla em inglês), promovido periodicamente pela Organização para o Desenvolvimento Econômico - OCDE.  E, levamos uma nova pisa!
O Brasil, segunda a última divulgação de resultados (ano de 2018), figura entre os 20 piores no rank dos países participantes do exame. Uma vergonha. Os chineses estão no topo da lista, muito embora que o exame só haja sido aplicado em locais mais desenvolvidos como Pequim, Xangai, Jiangsu e Guangdong. Cá pra nós, tenho pra mim que se aplicado no restante do país esse resultado seria bem diferente. Desafio para a OCDE.
Curioso é que nossos analistas tupiniquins destacam cheios de orgulho que estamos bem melhor situados do que a Argentina, o Peru e o Panamá, entre os latino-americanos, como se isto fosse justificável. Consolo mais besta. Desculpa de amarelo. Se a intenção é comparar com os países da região, vamos destacar que  México, Costa Rica, Uruguai e Chile estão bem melhor avaliados. Isto, sim, é procurar se nivelar por cima. Ou então, melhor pensando, vamos olhar os exemplos da China e de Cingapura, que lideram o rank.
O teste do PISA é aplicado em jovens de 15 anos, em mais de setenta países. E, no teste de 2018, foram testados os níveis de conhecimentos em três disciplinas: Matemática, Ciências e Leitura. 
Diante do pífio resultado brasileiro, classificado entre os vinte piores do mundo, lembro que, por inúmeras vezes, enfatizei a falta de importância (investimentos) dada ao setor da Educação. O resultado é que o Brasil toma essas continuadas  pisas testemunhando a miopia governamental para com essa sua básica missão. 
Tem autoridade/especialista, em Brasília, que tenta justificar a decepção, afirmando que nossos estudantes não atribuem a devida importância ao exame e muitos deles abandonam o teste pela metade sem se preocupar com as consequências negativas ou sem ter noção da responsabilidade que lhe foi confiada. Ou seja, falta de sensibilidade e preparação para ser testado. É outra falha estrutural do sistema brasileiro! E aí, uma pergunta que não cala: falha do aluno ou dos professores/orientadores? Ou falta de Governo?

Na China, país que atingiu a liderança do rank, as providencias foram bem desenhadas e são tratadas num rigoroso programa estruturador de política social do governo. Simples dado o regime centralizado de governo. Pode ser dito por alguns. Mas, não interessa porque a verdade é que o Estado Chinês decidiu investir maciçamente para qualificar uma força de trabalho competitiva e capaz de colocar o país na vanguarda da capacitação de recursos humanos. Professores foram valorizados com formação rigorosa e salários diferenciados. São profissionais respeitados e destacados na pirâmide social. Vide quadro ao lado.
O mesmo se diga de Cingapura, que ocupa a segunda posição no rank.
Quanto ao Brasil, nem é bom comentar, embora que nunca será  demais sublinhar a falta de uma política governamental responsável, grades curriculares são desvirtuadas com frequência - sexualidade e militância política pontificaram durante os recentes governos petistas - a evasão escolar é expressiva, faltam escolas e professores, quando os tem são incompetentes, a formação deles é gradativamente relaxada e o resultado não pode ser outro. Tome pisa!  
Pra completar, destaco com  revolta o fato de saber que o Congresso  vai aprovar no orçamento da União do próximo exercício, a exorbitante rubrica de R$ 3,8 Bilhões destinados ao fundo eleitoral de 2020. Detalhe: os recursos serão tirados dos setores da Educação, Saúde e Infraestrutura. Absurdo! O país está fadado a continuar sendo surrado pelo PISA! Não tem país que vá pra frente desse modo.                  

NOTA: Ilustrações obtidas no Google Imagens.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Queremos Paz

Os palanques do último pleito eleitoral praticamente não foram desmontados, haja vistas aos movimentos anacrônicos observados. Pior é que já se fala a toda hora em novas eleições. Chega a ser sufocante para o eleitor mais esclarecido. Tem gente articulando, inclusive, um pleito programada para o ainda distante 2022. Esquecem, muitas vezes, que, neste meio tempo, virão eleições municipais, tão importantes quanto essa mais pra frente e capaz de emitir fortes sinais para o futuro. 
Infelizmente a briga pelo poder é ferrenha e não falta quem coma e durma nesse clima de peleja. E o Brasil que se disputa parece ser um objeto à margem desses interesses.
Neste ambiente de perplexidade, minha preocupação gira em torno de uma coisa – pouco observada nos meios partidários – que é a pacificação da Nação. Enquanto percebo hoje uma polarização política nociva ao país, não vislumbro a imagem de um pacificador, um líder de fato, capaz de reunir elementos convincentes e sensibilizadores que reflitam as reais demandas da sociedade exausta de esperar por bom tempo. Paz com um projeto a favor do progresso e da união da nação. Ao invés disso, vejo de um lado aqueles que não se conformam com a perda do poder e incitando a desordem pública e, de outro, o que tenta se manter a bordo de novas estratégias que levem a novos tempos. 
É, indiscutivelmente, uma nação dividida em duas bandas que tocam em ritmos desentoados, exacerbados e velhos conhecidos, alheios aos anseios da coletividade. 
Fica difícil viver neste clima de incerteza. Uma trégua seria muito bem-vinda! Queremos paz!

NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens. Autoria expressa na charge. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Chaga Social

Na semana que findou permeada, como sempre, de altos e baixos políticos, um assunto abriu espaço  e ocupou as diversas mídias celebrando o que denominam de Dia Consciência Negra e jogando luzes num assunto mal resolvido neste país: o preconceito racial. Na verdade, uma verdadeira chaga social que se arrasta por séculos. O Brasil foi o último lugar nas Américas a abolir o sistema de escravatura, em 1888. 
Nesses 130 anos de abolição, a escravidão ainda rege muitas relações sociais, particularmente, nos grotões afastados do vasto território nacional. Alimentado pela tradicional sociedade hipócrita, bem como por razões comportamentais dos próprios indivíduos de raça negra. Um exemplo que não sai da minha lembrança foi o caso da babá de um dos meus filhos, negra retinta de traços angolanos, que foi ao Bloco do Galo da Madrugada e voltou se maldizendo porque o único paquera que se meteu "arrastando asas" pra ela era um negão beiçudo. "Gosto lá de nego", disse cheia de nojo, quando voltou da folia. Foi o bastante para confirmar minha ideia de que os próprios negros magoam a chaga que os condenam. Aliás, todo viu que Michael Jackson nasceu negro e morreu branco...   
Outra lembrança viva que tenho foi que, na minha infância, tive uma professora negra, Dona D´Lourdes, que soube ter dignidade, autoridade e competência para transmitir conhecimentos básicos de matérias elementares, além de respeito ao próximo, civismo e muita educação social. Foi uma pessoa marcante na minha vida, sobretudo porque me fez entender, na tenra idade, que negro é gente igual a qualquer outro ser humano, independente de cor da pele. Diante desses episódios que vivi, sou daqueles que discordam da denominação que se deu no Brasil de Dia da Consciência Negra (Lei 12519 de 10/11/2011). Melhor seria Dia da Consciência Humana. Questão de marketing.
Políticas governamentais especificas, campanhas educacionais, condenações diretas, entre outras medidas, não têm sido suficientes para liquidar este estigma tão arraigado no ambiente popular da nossa gente.
Por coincidência e bom para que minhas reflexões sejam mais bem aprofundadas, estou acabando de ler a obra recém-publicada, Escravidão, Vol I, de Laurentino Gomes – que muito recomendo – onde encontrei minuciosos relatos sobre o tema, frutos de pesquisas do próprio autor e de estudiosos antigos e contemporâneos. São relatos muitas vezes aterradores e indignos. Atitudes que terminaram forjando essa aberração social, sobretudo nas Américas. O caso norte-americano é bem conhecido e se tornou emblemático. E no Brasil, muito embora se use cinicamente uma máscara de convivência pacifica e sem preconceitos, o negro é sempre tratado como gente de segunda classe. Em tudo e por tudo. Raríssimos se salvam do estigma. 
Segundo Laurentino Gomes, nossos ancestrais, afinal todo brasileiro tem um pé na senzala, eram apanhados como gado nos confins africanos, sendo apartados da sua gente, familiares e cultura. Obrigados a longas caminhadas, acorrentados pelo pescoço, em duplas e sob sol causticante, até o litoral do continente, onde armazenados e fortemente vigiados aguardavam serem embarcados nos muitos navios negreiros com destino aos portos das Américas e Caribe. Muitos morriam nas longas caminhadas ou nos trajetos marítimos. Conta-se que tubarões já acompanhavam as embarcações a espera voraz dos frequentes arremessos de cadáveres ao mar. Antes da partida eram batizados, mudavam de nome e marcados com ferro em brasa, no peito direito, tal como se marca um animal hoje em dia. Pior, com as vênia e bênção da Santa Igreja Católica que, em nome de Deus,  juravam estar salvando as almas perdidas dos negros. Em terra eram leiloados como bem de capital da época, tanto quanto é hoje um trator, um arado, uma colheitadeira ou outro instrumento agrário qualquer. Era, portanto um ativo descartável, logo que perdesse sua capacidade de produção. Quanto mais jovem e bem entroncado, mais valor. As mulheres eram exploradas sexualmente pelos comandantes, imediatos e marujos das naus negreiras durante o percurso e quando leiloadas, em terra, se tornavam usadas como objeto sexual e empregadas em diversos afazeres leves ou pesados. Muitas serviam como domésticas (mucamas) nas casas dos seus proprietários. 
Portugueses e brasileiros foram os mais ferozes e cruéis traficantes de escravos tirados sobretudo da atual Angola e da Guiné para as terras do novo mundo. Seguramente que, sem a força de trabalho escrava, as culturas de açúcar, algodão e outros cultivos menores do Nordeste, centrados em Pernambuco, não teriam alcançado progresso que alcançaram, a ponto de sustentarem a Coroa portuguesa por séculos. Se os produtos acima citados fizeram a propulsão do comercio entre a Colônia do Brasil e a Europa, muito também tem do que se registrar sobre o comercio de escravos realizado por ingleses e holandeses. Eric Williams (in Escravidão I, de GOMES, L.), professor da Universidade de Oxford, falecido em 1981, garantia que o comércio de escravos no Caribe teria sido suficiente para financiar a Revolução Industrial inglesa no final do século XVIII. Pode ter sido um exagero, mas, pode dar uma ideia do fabuloso negócio que se fazia naqueles tempos.
Um registro curioso é que, apesar das tentativas de impor ordens e dura legislação ao tráfico, somadas à alta carga tributária que a Coroa Portuguesa determinava aos que realizavam o comércio de  escravos, já ocorria imensa corrupção no meio desses negócios. Senhores de engenhos de açúcar, por exemplo, encomendavam bons escravos e improvisavam portos clandestinos para recebê-los livres de impostos. Contrabando. Mangaratiba, no Estado do Rio, e Porto de Galinhas, em Pernambuco, são lembrados como pontos desses desembarques clandestinos. Ou seja, nossos corruptos de hoje trazem, certamente, do berço esses "edificantes hábitos".
Falta muito e muitas gerações para que essa chaga social se dissipe e tenhamos uma sociedade mais humana e mais digna. O Brasil ainda deve muito a esses bravos irmãos afro-descendentes. Dívida difícil de ser paga.     

NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Inocência Brejeira

Nada como ter uma chance de viver momentos de paz e distante das mixórdias políticas do dia-a-dia deste Brasil de hoje. E, mesmo sem sair dele (do Brasil), aproveitei o feriadão de quinze de novembro para me desligar, relaxar em família e travar uma prosa com a gente simples do nosso interior.
Dia de feira nas nossas cidades interioranas é dia de festa. O matuto se prepara para o grande acontecimento da semana. As produções da roça são levadas ao pátio do mercado, onde se instala o pululante clima de comercializar toda sorte de produtos da própria lavra. Colorido, barulhento e calorento, o pátio da feira livre de Gravatá(PE) é o retrato vivo de uma vida simples e muito viva alimentada pela alma interiorana caracterizada pela inocência brejeira. 
Bom dia Seu Toinho, antes de me vender me diga o que o Senhor está achando do atual governo?” perguntei ao vendedor de coco (ralado na hora) e massa de mandioca. “Eu votei nele, mas, estou triste porque todo mundo diz ele rouba muito”. Quem, Bolsonaro? “Não! Lula”. Mas Lula não é presidente! “Oxe! E Vosmicê num tá sabeno que ele foi solto e voltou na semana passada? Ah! Meu sinhô, este Pernambuco num tem jeito marnão...” É neste tom que a coisa se desenrola. Não sei se é para rir ou chorar. Com meus botões discuto sobre o grau de instrução da nossa gente comum. Muitos não sabem ler. Analfabetos funcionais. Alguns sabem desenhar seus nomes. Quando não, vai no dedão. Mas, contam dinheiro, bem direitinho.
Uma coisa curiosa, porém, se nota com precisão nesse cenário: o exercício prático do princípio básico da economia que é a elementar lei da oferta e procura. Eles, os feirantes, nem imaginam o que explica a teoria. Mas, dão lição nessa hora. Quando a safra do feijão ou do milho é fraca e a escassez do produto é real, o preço sobe, o consumidor reclama e não tem pra onde correr. Pague caro se quiser comer. Tudo assim, numa boa e assimilada tranquilamente pelo demandante. Provoquei um vendedor e ouvi: É verdade, patrão! E o sujeito não precisa ter leitura”, foi o que disse Seu Tião, na sua banca de hortaliças. Lá ele vende cuentro e não coentro. “Olhe Doutor, hoje tem tanto cuento que dá pra vender um mói desse (mostra uma maçaroca do cheiro verde) por um real. Cumpouco, no fim da feira, eu termino dando o que sobra...” 
É tudo muito fresquinho e colorido. Colhido ao raiar do dia, no roçado atrás de casa. Nos brejos da redondeza. A maioria orgânica. Estrume da vaca criada no terreiro, aduba a produção.
É uma vidinha simplória e feliz. Não estão nem aí com o quer dizer imposto de renda, lavajato, congresso, executivo, legislativo, judiciário e outros "bichos brabos" soltos por aí. E tem mais, nem sabe em quem votou.
Vez por outra aparecem os “vivaldinos” que atravessam em diagonal o mercado e tentam subverter a ordem natural das coisas. Contudo, tanto o comerciante quanto o consumidor convivem, historicamente, com estes e adotam estratégias próprias que neutralizam as investidas inescrupulosas. Ora, para o feirante interiorano o que importa é o mercado da hora e não o que posterga o efeito financeiro embalados em promessas mirabolantes. Papo de cooperativa, nem pensar. Raros são os que escutam a conversa. Na verdade, faltam cooperativas sérias e bem estruturadas como ocorrem em economias mais avançadas. Falta confiança jurídica e falta, sobretudo, educação. Enquanto houver analfabetos, a coisa não muda.  

NOTAS: Fotos de JPAllain. Os nomes são fictícios e as imagens foram permitidas
           

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Supremas decisões equivocadas

“Com leis ruins e juízes bons ainda é possível governar. Mas, com juízes ruins as melhores leis não servem pra nada”. Foi dessa emblemática fala de Otto von Bismark (1825-1898) que me lembrei após a decisão do nosso Supremo Tribunal Federal, na última quinta-feira (07.11.19). É numa dessas horas – hoje tão comuns no Brasil – que se joga luzes na tão propalada insegurança jurídica do Brasil. Realmente, fica muito difícil administrar uma nação continental como a nossa, onde as espasmódicas opiniões dos guardiões da Constituição estão sempre tendentes aos interesses conjunturais dos seus padrinhos ou afilhados políticos. Como confiar num Ministro do Supremo que muda de ideia, em pequeno lapso de tempo, justificando sua oscilação como nova forma de interpretar a Constituição e demonstrando tranquilamente em atender interesses de um individuo ou grupo desses e não da coletividade nacional? É dureza viver numa insegurança desta ordem.
Plenário do Supremo Tribunal Federal do Brasil
Bom, viver de interpretações de seres humanos já é, por princípio natural, um desafio. E quando esses humanos são integrantes de uma cultura susceptível de injunções sociopolíticas pouco ortodoxas, nem se fala. Pior ainda se se trata de alguém com poder supremo.
Não precisa ser jurista ou advogado – como no meu caso – para concluir que, infelizmente, vivemos um mundinho sujeito a essas decisões equivocadas, que não refletem a vontade do povo e fragilizam a ordem jurídica discutida, rediscutida e instaurada. Além de desejada por todos.         
Na pratica é sabido que os regimes jurídicos variam de país a país. É verdade e sabemos que as culturas locais ditam os padrões  a serem respeitados. Contudo, na maioria dos casos, são consolidados e imunes de mudanças de regras no meio tempo. Além de desgastante põe em risco a credibilidade do poder judiciário. E é isto que vem ocorrendo no Brasil. Nosso Supremo Tribunal tem oscilado com muita frequência pregando sustos à sociedade e expondo o país às criticas negativas no cenário internacional.
Parece ironia que num “piscar de olhos”, uma suprema decisão, a meu ver equivocada, ponha em risco uma operação legal e criteriosa como vem sendo a Lavajato.  Cumprindo todos os trâmites legais vigentes o País conseguiu, no passado recente, dar uma lição ao mundo de como se desbarata a endêmica corrupção reinante, numa grande operação aplaudida pela Nação e pelo mundo. É desanimador. Urge uma ação legislativa que corrija e torne a nossa Carta Constitucional mais clara e livre de interpretações duvidosas em detrimento às já consagradas.
É de se imaginar, após a última quinta-feira, que nossos supremos magistrados sentem-se também incomodados com o saneamento ministrado pela Operação Lavajato. Não pensaram somente num único réu – como muitos pensam – mas sim num grupo de “colarinhos brancos”, agentes diretos da corrupção ilimitada e que até agora mofavam atrás das grades. Todos julgados em 2ª. Instância. De uma hora pra outra, abrem-se as portas dos presídios e a sociedade entra em polvorosa com tantos criminosos, traficantes, bandidos corruptores e corruptos à solta, oferecendo insegurança às famílias de bem. Como acreditar de que se trata de um grupo de inocentes? Inocente sou eu ... eu que vou me recolher em casa, numa prisão voluntária, livrando-me dos males, amém.
Num país civilizado um réu julgado numa segunda instância está automaticamente sujeito ao cumprimento da sentença. Entende-se que não restam dúvidas para os juízes e desembargadores que se debruçaram sobre o processo e prolataram sentenças a um determinado sujeito.  Há países em que julgados em primeira instância saem direto pra o xadrez. A situação no Brasil é mole e, sobretudo, confortável. Privilegia a impunidade! Responder em liberdade por um crime efetivamente cometido não devia ter perdão. Numa sociedade séria, o simples indiciamento já aponta o caminho da pena a ser cumprida.
Resultado dessa impensada decisão é que agora, por aqui, a ideia de que o crime compensa ronda a cabeça de muitos "inocentes", ganha força e cria uma espúria cultura, numa sociedade carente de progresso e dignidade.
Está escrito e na prática, o sujeito que tiver boa grana e puder sustentar um bom advogado sentir-se-á induzido a praticar suas falcatruas e crimes, abertamente e seguro, sabendo que dispõe de quatro instâncias às quais  pode recorrer e no tempo que desejar. Em resumo, um bandido qualquer pode morrer sem cumprir a pena que lhe seja imposta em juízo.
Pobre Brasil. Tristes brasileiros.

NOTA: Foto colhida no Google Imagens 

Fim de Ano

Lá se foi 2019. A rigor não foi um ano fácil de ser vivido coletivamente. Saímos de 2018 trilhando um percurso de incertezas, na dimensão n...