Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

TRÊS EM UM

Quando a gente assume assinar um Blog semanal, como é o meu caso, fica permanentemente antenado, com tudo que vê e vive, para comentar. Ao mesmo tempo, como reações muito positivas, aparecem gentis leitores sugerindo temas que é deveras gratificante. Fico muito sensibilizado com essas interatividades.
Esta semana, por exemplo, recebi várias provocações: uma leitora do México me pediu um comentário sobre a vitória do Brasil na Copa das Confederações. Ela confessou ter acompanhado o jogo, realizado na África do Sul, e vibrado com a garra brasileira contra os gringos. Outro, do Chile, quase me exigiu um manifesto contra o golpe de estado em Honduras. No mesmo dia, alguém me pediu um comentário sobre a morte de Michael Jackson e, por fim, um pedido de apoio do Blog a um projeto de combate à exploração sexual de mulheres, adolescentes e crianças do sexo feminino, em apoio a um grande projeto nacional. Este último tema vai ser meu assunto para uma postagem à parte. Hoje, vou atender, numa postagem do tipo 3 em 1, meus outros amigos. Antecipando, asseguro que farei de forma simples e objetiva, com os humildes comentários a seguir:
Provocação Nº.1 – A vitória do Brasil, de virada, contra a seleção dos Estados Unidos, sagrando-se campeão da competição disputada na África do Sul foi, sem dúvida, muito boa, sobretudo pela virada do segundo tempo de jogo, provocando muita emoção nos brasileiros que já davam como perdidos e pelo simbolismo que sugere. Mais uma vez o futebol brasileiro mostrou sua tenacidade futebolística e, desta vez, contra um adversário sem tradição na modalidade. Pessoalmente, acho que esta seleção de Dunga não é das melhores. Ainda não tem a formação desejada para convencer. Acho que para o Mundial de 2010 vai ter que ser bastante burilada e reforçada. Alguns jogadores incensados mundo afora, Robinho por exemplo, ainda não deram o que se deseja ou que faça jus à fama e grana preta que põe no bolso a cada mês. Não posso me estender muito por falta de competência no assunto e de espaço, mas, devo dizer que fiquei de peito lavado ao ver os netinhos de Tio Sam de “rabinho entre as pernas” e cabisbaixos, coisa que eles odeiam e não sabem administrar, recebendo as medalhas de vice-campeões. Foi um castigo porque já queriam dar sinais de nova liderança nos campos do soccer. Não foi desta vez. Acho, até, que um dia eles irão chegar lá. Mas irão é futuro e a Deus pertence.
Provocação N°.2 – Meu amigo Julio Silva Torres, chileno da melhor cepa, passou uma semana revoltado com o golpe de estado em Honduras. Com razão, manifestou de todo modo que pode sua revolta e pediu-me colaboração no Blog. Bronca pequena para quem tem noção de perigo. O que aconteceu em Tegucigalpa é uma tremenda abertura de precedente para uma America Latina cheia de candidatos a ditador. Alguns já o são mascaradamente e, embora se manifestem publicamente contrários ao golpe hondurenho, acho que estão intimamente torcendo para que as coisas se consolidem. O mundo está dando um recado de maturidade política ao se posicionar contrário a qualquer tipo de ataque à democracia, como este de Honduras. Até os Estados Unidos, que no passado reconheciam e davam suporte aos golpistas oportunistas, já cravaram sua condenação, a meu ver, de peso. ONU, OEA e o resto do mundo estão de mãos dadas nesse repúdio e determinando o restabelecimento da ordem. Vejo Honduras – pobre e subdesenvolvida – num beco sem saída. Acho que os desdobramentos podem ser de grande monta, em prejuízo da paz nas Américas. Um perigo! Afinal, tem coisa mais absurda do que trair um regime democrático? Se no passado isto era repudiado e foi banido em meio mundo, em pleno século 21, é abominável. Aliás, não existe adjetivo adequado. Viva Manoel Zelaya! Que volte ao poder. Não importa, por enquanto, seus projetos políticos, que podem até ser espúrios, mas o fato é que o derrubaram com um golpe contra a democracia. E isto é inaceitável.
Provocação Nº.3 – A morte de Michael Jackson. Não sei por onde começar, diante dessa insólita “comoção” mundial. Sinceramente fico pasmo com tudo que venho assistindo. Para ser franco, nunca fui ligado ao sucesso desse cantor. Talvez por não ser fã da chamada onda pop ou por não fazer parte daquela geração. Nem sei direito o que vem a ser pop. Muito menos entender porque significou a mixagem da musica dos negros com a dos brancos. Talvez falta de interesse, mesmo. Ademais, nunca admirei as mungangas que ele fazia. Pode até ter algum valor coreográfico. Como não sou bailarino, não posso opinar. Vi alguém na televisão comparando-o com Fred Astaire e tentei corrigir os conceitos que fazia sobre o rapaz. Foi difícil. Fred Astaire? Jackson? com aquela máscara branquela? Sei não! Certamente que ele foi um sucesso para as gerações dos anos 70 e 80. Até em casa vi meus meninos imitando os remelexos dele. Mas... cá prá nós... nunca vi, antes, tanto desajuste e irresponsabilidade, quantos atribuídos a esse astro da parada de sucesso da billboard. Acho, aliás, que ele foi um péssimo exemplo para sua geração, além de ser – que é muito sério – um retrato fiel do preconceito racial nos Estados Unidos. Agora, depois dessa morte cheia de mistérios – bem ao seu estranho estilo – não aceito essa overdose midiática que cobre o caso. Nosso mundo está mesmo carente de verdadeiros líderes, haja vista que o que se vê pela TV rivaliza com a cobertura de exéquias de um Papa. Ele não passava de um cantor bailarino... mais bailairino, aliás. Ah! Tenha dó.
Tenho dito, por hoje. Bom fim de semana!
NOTA: Fostos colhidas no Google Imagens.

Sábado, 27 de Junho de 2009

Recife: Uma cidade abandonada

A prefeitura do Recife anda mesmo “pisando na bola” ao não saber administrar a questão da coleta do lixo. Nosso prefeito, até agora, só tem dado sinais de incompetência na gestão que assumiu em janeiro passado. Hoje (26.06) li num dos jornais da cidade que havia sido rompido o contrato com a empresa encarregada, há anos, pela coleta do lixo da cidade. Fiquei – como morador e contribuinte – preocupado com o que poderá ocorrer depois disso. Sem poder fazer qualquer coisa, resta-me apenas protestar e desejar uma substituição rápida – pouco provável, dados os lentos tramites burocráticos – ou ver acontecer uma operação emergencial para deixar a cidade em condições habitáveis e visitável.
O Recife vem, nesses últimos meses, entregue à sujeira e maus tratos, sem precedentes. Não precisa ir muito longe. O centro da cidade, bem como artérias em bairros importantes, se encontra em estado de verdadeira calamidade. Não dá para mostrar a cidade a um visitante sem passar por dificuldades e vergonha. Isto aconteceu comigo. Acompanhei um cidadão, misto de empresário e turista, pelas imediações da Praça Joaquim Nabuco, Rua da Concórdia e região da Casa da Cultura e amarguei uma vergonha sem tamanho. As galerias pluviais entupidas, as calçadas tomadas pelas águas, o lixo acumulado pelos cantos, a fedentina de urina e fezes incensando. Um verdadeiro caos. Inventei desculpas de toda ordem. Para completar, “mariposas” prostitutas horrendas vendendo seus serviços sexuais em plena luz do dia, numa manhã se sábado. Saímos escapando de um lado para outro temendo algum prejuízo, isto é, sujos de lamas ou águas fétidas ou, quem sabe, escorregar numa sujeira qualquer.
Dado infeliz momento, meu ciceroneado manifestou interesse de se aproximar da murada do rio Capibaribe para ver de perto o manguezal, exuberante a distancia. Um choque! A vergonha foi bem maior. O que vi lá é algo como a antevisão do caminho que, segundo pintam, leva ao inferno. Quanta sujeira! Cá pra nós, de um primitivismo atroz (Foto a seguir). Dizem que as margens do Tamisa, na Londres dos séculos 17 ou 18, eram tão sujas e fétidas que provocava mortes na população, pela falta de higiene pública. Foi do que lembrei e cheguei a comentar com meu amigo visitante.

A partir dali resolvi não inventar mais nenhuma desculpa. Diante daqueles fatos concretos, não havia mais o que fazer ou dizer. A coisa além de feia era a pura realidade. Foi então que resolvi fotografar tudo que me apareceu pela frente e protestar neste espaço, apesar de pouco lido e humilde.
Numa atitude de gentileza, meu amigo, percebendo a minha perplexidade, se apressou em me acalmar com comentários elogiosos ao prédio da Casa da Cultura, ao mérito de transformar uma velha prisão num espaço cultural, o casario da Rua da Aurora, a ponte da Boa Vista, as igrejas seculares, o artesanato que comprou e, por fim, reforçando seu gesto, lembrou que o brasileiro ainda não aprendeu a preservar suas cidades ou cultivar hábitos de higiene coletiva. Isto ocorre, argumentou, no país inteiro, aqui ou na próspera cidade onde vive, no interior de São Paulo. Fiquei agradecido, mas, entalado, sem ter o que dizer, com o abandono da minha cidade. Uma coisa meu amigo tinha razão quando disse que o povão pouco se incomoda em depositar seus descartáveis nas lixeiras apropriadas. A prova estava ali diante dos nossos olhos: cascas de frutas, copos plásticos usados, latas de refrigerantes, pontas de cigarro, sacos plásticos vazios, garrafas, roupas velhas, caixas de papelão, vasos sanitários quebrados, moveis imprestáveis, tudo enfim, é abandonado na via pública a espera da coleta que, infelizmente, não vem.
Ao fim da manhã, peguei meu amigo pelo braço, meti-o dentro do carro, e procurei um local mais digno do visitante. Escolhi a varanda do Country Club, que por sorte sou sócio, onde pude amenizar a péssima imagem que ele guardou dos canais e margens da Veneza Brasileira.
Socorro, Prefeito! Cuide da nossa cidade! Além de ser sua missão, lembro que julho é mês de férias e a cidade precisa estar apta para receber os turistas!


NOTAS: 1) As fotos são do Blogueiro, em momento de desespero.
2) O Blogueiro vai tomar providências para que esta postagem na seja enviada aos leitores de fora, principalmente estrangeiros.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

UM SÃO JOÃO BONITO

Os festejos juninos são sempre muito bons. Principalmente quando vividos no interior do Nordeste brasileiro. A noite de São João é uma das mais importantes manifestações culturais da região. Rivaliza com o carnaval, com a vantagem de ser mais comedida e muito cheia de simbolismo religioso. É uma festa rural, na sua essência e, por isso, melhor festejada nas localidades interioranas.
Na maioria das vezes, passo a noite de São João numa cidade do interior. Este ano, por exemplo, passei na cidade de Bonito, situada na mata sul do estado de Pernambuco. Por lá, as comemorações ainda são bem próximas ao estilo tradicional por não haverem aderido às monumentais produções, com mega-shows e multidões – parecidos com o carnaval – que caracterizam os festejos de cidades como Caruaru em Pernambuco e Campina Grande, na Paraíba.
Em Bonito a coisa ainda lembra meus tempos de criança. Muita cangica, milho cozido, pamonha, pé de moleque e vinho. Queimam-se muitos fogos e a gente local faz questão de se vestir com trajes caipiras, como manda o figurino. Diferente do que vi no Brejo da Madre de Deus e Fazenda Nova no ano passado. Um espetáculo à parte são as fogueiras. A tradição da queima de lenhas, na porta de casa, é uma coisa sagrada, para os bonitenses. O cidadão que não fizer isto terá pela frente um ano de infelicidades. Queimar uma fogueira é uma herança da colonização portuguesa e a maneira pela qual o cristão lembra o gesto de Santa Izabel, que queimou uma grande fogueira, no alto do monte onde vivia com seu marido Joaquim, para avisar o nascimento do seu filho, João, à sua prima, a Virgem Maria, em Nazareth.
Em Bonito, Plínio Farias, meu anfitrião, fez questão de acender a dele, com lenha fácil de ser consumida pelo fogo, ateado às 6 horas da noite, em ponto, do dia 23, véspera do dia de São João. Na hora precisa lá veio Farias com uma sacola de molambos e uma garrafa de álcool. Para minha surpresa os ditos molambos eram cuecas e calcinhas usadas. “Ôxente Plínio, espera um pouco... Tu vais queimar tuas cuecas e calcinhas da tua mulher?”. Perguntei apressado. “Ôxente, homem de Deus, e num tais vendo que é tudo coisa velha. Hoje é noite de queimá-las”. Respondeu-me prontamente. Fiquei curioso com aquilo, até que ele me explicou que, toda noite de São João, é bom queimar as roupas de baixo, já imprestáveis, pra viver até a próxima noite de São João. Taí, aprendi mais uma das chamadas “simpatias juninas” e quase fui tirar a minha cueca para queimar naquela fogueira. Só não fiz porque a que eu usava na hora era quase nova e não havia mais tempo, porque o fogaréu já estava alto. Mas, de agora em diante, nunca mais vou deixar de queimar cueca velha na fogueira de São João. Faço qualquer negócio para viver muito tempo. Dá um trabalho danado, mas, que é bom é...
Depois que as fogueiras começam a queimar, o forró rola solto pelos quatro cantos da cidade. Tem quadrilhas desfilando pelas ruas, sanfoneiros acompanhados de zabumbeiros e trianguleiros (inventei esta palavra agorinha) e o povão dançando sem parar, até o sol raiar, como aconteceu na casa de um político amigo, genro de Plinio, que patrocinou uma festança de empenar. Apareceu, até, um pelotão de bacamarteiros que deram um montão de tiros de festim, saudando os donos da casa, as autoridades presentes – tinha um magote – os convidados e São João, é claro. Fiquei com meus zovidos zunindo inté de manhã. O sanfoneiro era dos bons. O vinho era de qualidade, a comida nem se fala e o clima ajudava. A cidade tem alguma altitude, fica metida numa mata úmida e a temperatura se torna convidativa para usar um abrigo, tirado do baú.
Sem dúvidas, um São João bonito, em Bonito.


NOTA: Fotos do Blogueiro: As caipiras de Bonito, Plinio queimando a fogueira e o camandante bacamarteiro.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

APAGANDO A HISTÓRIA

A gente anda pelo mundo afora e o que pode observar, em muitos países, é o cuidado que se tem e a seriedade para com o patrimônio histórico. Dá gosto de ver monumentos de centenas e centenas de anos. Objetos pré-históricos, monumentos arquitetônicos deslumbrantes, tudo cuidadosamente preservado e testemunhando a história das civilizações. Sinto imenso prazer em circular pelas seculares ruas, praças e igrejas de Roma, pelas ruínas do Fórum Romano, do velho Coliseu e outras arenas (ver imagem a seguir) que os romanos construíram Europa adentro. Encantei-me com os monumentos milenares que visitei no Japão ou as obras de arte pré-colombianas de alguns países latino-americanos, como Machu-Pichu, no Peru. Enfim, há uma infinidade de patrimônios da humanidade que são preservados e cuidados como jóias, que são.
Falo disto, para manifestar minha tristeza ao ouvir falar no desabamento, em fevereiro passado, de uma igreja secular de Olinda, a de São João Batista dos Militares (ver foto), por falta de cuidados dos responsáveis e do desleixo do Patrimônio Histórico do Estado, que, mesmo avisado da possibilidade do desastre, não adotou providencias cabíveis. Falta de dinheiro, talvez. A razão não se sabe bem qual foi. Só sei que o patrimônio foi deteriorado... será que pode ser restaurado à altura da sua importância e valor histórico? Isto é o que ninguém pode garantir. Segundo li num jornal do Recife, desta semana, o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, de Pernambuco, vai fazer um escoramento, acredito que seja um remendo, para que a coisa não se acabe de vez.
Para quem sabe dar importância a cada monumento, é de fazer chorar o que se assiste neste país. Para isto, não existe orçamento. E os tubarões de Brasília se refastelando. Revoltante. E os patrocínios das empresas privadas? E os governos locais, por onde passam? Ah! Faltam sensibilidade e interesse pela história nacional.
Ideal seria que houvesse um programa de manutenção das obras de arte, no país inteiro, numa ação preventiva e não corretiva esperando uma deterioração ou desabamento para que se faça uma recuperação, muitas vezes agredindo o patrimônio e nunca chegando ao que se tinha originalmente.
Assim como a igreja de São João Batista dos Militares, outras igrejas de Olinda clamam por manutenção ou restauração, sem que seus clamores sejam ouvidos. Segundo um artesão de Olinda, várias dessas igrejas estão sendo devoradas por cupins. Não é uma lástima? Alguns olindenses dizem que, por lá, será preciso uma descupinização geral da Colina Histórica e seus arredores. É uma praga que põe em risco a história de Pernambuco, sem que as autoridades competentes enxerguem.
Tem mais: essa coisa não é diferente no Recife. Circulando pela cidade, principalmente pelos bairros mais tradicionais, entre os quais o Recife Antigo, Santo Antonio, São José e da Boa Vista, o que mais se vê são os prédios e casarões seculares abandonados, em ruínas, ou então remodelados com traços modernosos de assustar qualquer observador mais cuidadoso. Forma equivocada que, para muitos, parece ser correta de manter a história.
Do jeito que a coisa vai, lamentavelmente, estão destruindo um patrimônio histórico da humanidade e do Brasil. Apagando a nossa história. Salvemos Olinda e Recife! Denuncie as agressões.
Este artigo já estava concluído quando tomei conhecimento pelo Jornal do Commércio, do Recife, de hoje (17.06), da depredação que vândalos drogados estão fazendo no histórico prédio onde, até bem pouco, funcionava a Bolsa de Valores de Pernambuco e Paraíba, na Praça do Marco Zero (Ver foto acima). A Caixa Econômica adquiriu o imóvel para instalar um Centro Cultural. Ótimo, mas, não teve o cuidado de contratar uma vigilância até que as obras comecem, só Deus sabe quando. Resultado é que populares arrancam peças de metal e componentes da construção, vendem aos sucateiros e, com o apurado, “investem” em drogas. Por isso, concluo, outra vez: estão apagando nossa historia.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Chutes Milionários

O jogador Kaká (Foto ao lado) da seleção brasileira foi vendido esta semana, pelo Milan ao Real Madrid, pela astronômica soma de, aproximadamente, R$ 180,0 Milhões. Logo em seguida, dois dias depois, o português Cristiano Ronaldo – atual melhor do mundo – foi comprado do Manchester United, pelo mesmo clube espanhol por uma soma maior ainda, de R$ 256,0 milhões. O português, segundo noticia a imprensa, comemorou tomando R$ 39,0 Mil de Champagne! Não é incrível? Como pode um mundo em crise econômica e um país, no caso a Espanha, um dos mais afetadas pela debaque financeira na Europa, assistir um negócio desses. O futebol é, definitivamente, um dos maiores negócios do mundo.
Fico impressionado com as fabulosas somas que envolvem essas transações, os salários milionários que são pagos – Ronaldo ganha R$ 1,13 Milhão, por mês, no Corinthias – além de tudo quanto gira em torno dos campeonatos locais, internacionais e mundial. São patrocínios estratosféricos, preços dos ingressos e renda dos mesmos, publicidade, transmissões de radio e TV em tempo real, logísticas diversas, vestuário esportivo com grifes milionárias e outras miudezas, nem sempre miúdas! Um negócio multifário e de proporções ilimitadas.
Esta semana, aqui em Pernambuco, o movimento futebolístico foi de puro frisson, em face dos preparativos e movimentos que antecederam a partida entre Brasil e Paraguai, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, que resultou na vitória brasileira e, antes um pouco, a escolha de Pernambuco como uma das sedes para o mundial de 2014. Rolou muita grana. Os informais se lavaram. Os formais nem se fala... Muitos negócios foram feitos e outros muitos ficaram garantidos.
Venho mais atento a tudo isto, desde o momento em que comecei a acompanhar a recente participação do Sport Clube do Recife, na Copa Libertadores da América. Como comentei noutra ocasião, influenciado pelo meu filho mais novo – ligado no futebol e no Sport Recife – fui longe para assistir uma das partidas, em Santiago do Chile, contra o time chileno do Colo-Colo. Para minha imensa surpresa, não estávamos sozinhos. Eram muitos os pernambucanos, próximo a dois mil, que se deslocaram até a capital chilena com o mesmo objetivo.
Ora, gente, isto não se faz de qualquer forma. Tiro por mim... Pelo contrário, envolve investimento num imenso esquema de logística que resulta numa significativa soma de dinheiro circulando, para a alegria das companhias aéreas, hotéis, restaurantes, transportes locais, ingressos para o jogo, operadores de turismo, e, finalmente, um interminável número de agentes das mais diversas competências. Os chilenos, neste caso, exultavam com a chegada ou passagem dos torcedores rubro-negros do Recife. “Foi um movimento inesperado!”, afirmou um dono de restaurante, no Mercado Central de Santiago. E isto, fruto, apenas, de uma única partida de futebol.
Imagino o que poderá ocorrer, no Brasil, durante a realização da Copa do Mundo de 2014. O país vai receber, certamente, uma enorme massa de torcedores, das mais variadas bandeiras e vai cair de cheio nas pautas dos principais meios de comunicação do mundo. Isto é muito bom, é claro. Divulga o país. Fomenta o turismo.
Aqui, aliás, o governo estadual anda dizendo que a Copa já começou com o referido jogo contra a seleção paraguaia e a definição de Pernambuco como uma das sedes do campeonato de 2014. O dinheiro que promete aplicar é de montante expressivo, pois estão programados milhões a serem aplicados na construção da cidade da Copa, no município de São Lourenço da Mata, próximo a capital pernambucana. Trata-se, a meu ver, de uma iniciativa audaciosa, embora que vá gerar muitos empregos, desde já, até a realização do certame. Tomara que as coisas aconteçam como planejadas e que traga bons resultados. Tomara, também, que venham seleções de países ricos para dividir seus Euros e Dólares conosco. Afinal, negócio é negócio! E, em se tratando de futebol, temos mais é que aplaudir os chutes milionários. Que jeito? Que venham as estrelas dos gramados.
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

A Roda Viva da Vida

Esta semana começou com a triste notícia do desaparecimento na costa brasileira de um avião da Air France, na rota Rio de Janeiro-Paris, levando 228 passageiros. Uma segunda feira negra para a aviação civil. Um choque para o mundo inteiro. Principalmente para quem, como eu, viaja com certa freqüência, várias vezes nessa rota. Já se vão cinco dias e poucas são as conclusões a respeito das causas do infausto acidente. Pessoas envolvidas no caso e nas discussões, no Brasil, França e outros pontos, levantam as mais diferentes hipóteses, sem que se chegue a uma explicação plausível. Piloto, fabricantes da aeronave e empresa aérea, ficam sob suspeitas, além da hipótese de um atentado. A caixa preta, testemunha tecnológica importante do acidente, dificilmente será pescada das profundezas atlânticas, segundo opinam os especialistas e autoridades. Pura perplexidade.
No final das contas, e o que é mais lamentável, é que vidas foram interrompidas quando, certamente, alimentavam projetos e esperanças de viver por muito tempo. Cientistas, artistas, comerciantes, profissionais graduados de diversas áreas, crianças, casais em inicio de vida conjugal, casais maduros em viagem de comemorações, enfim, uma aeronave recheada de vida. Muitas vidas, liquidadas em poucos minutos.
Numa hora dessas, fico intrigado com essa coisa chamada destino, que eu acredito. O que me reserva o futuro? Como será o meu amanhã? É a primeira coisa que me ocorre pensar. E, quase sempre, chego à conclusão de que viver é, na prática, uma aventura de alto risco. Indiscutivelmente, uma deliciosa aventura. Mas, de alto risco. Certas horas, se o sujeito se acabrunhar e pensar demais, corre o risco de não viver, o que é um desperdício, vamos e venhamos.
Pensando direitinho, este mundo é muito surpreendente e, de certo modo, cheio de artimanhas.
Há quase um ano, estávamos às voltas por enfrentar as agruras de uma crise econômico-financeira de proporções inimagináveis e que ameaçava arrasar, em pouco tempo, os mercados e empobrecer as sociedades, sem qualquer distinção. Houve pânico, desemprego, quebradeira, fome, o diabo a quatro. Autoridades dos quatro cantos do planeta, “engolindo sapos e lagartos”, se virando de qualquer jeito, promoveram ajustes daqui e d´acolá, diante de muito choro e ranger de dentes, para que as coisas tomassem novos rumos de equilíbrio e que, parece, começa acontecer neste final de semestre. A economia começa a dar sinais de reação. Tenho ouvido, com muita freqüência, de sabichões comentaristas econômicos, que a crise acabou. Tomara. Aqui no Brasil, pelo menos, percebo que as coisas começam a sinalizar com mais fôlego. Espero não estar enganado. Tomara, também, que o mesmo venha acontecer pelas bandas do Hemisfério Norte.
Agora, tem uma coisa: analisando bem, essa crise que, durante bom tempo, foi assunto constante nas manchetes e matéria dos jornais do mundo inteiro só saiu do topo das pautas para dar lugar a outro assunto também palpitante, que foi o surgimento da gripe suína. Foi ou não foi? Foi um Deus nos acuda. Estimaram que uma em cada três pessoas do mundo seria atacada pelo vírus. Anunciaram, sem a menor cerimônia, uma pandemia, um verdadeiro caos. Compararam-na com a devastadora gripe espanhola, do inicio do século passado. O México, onde a moléstia eclodiu ficou na berlinda. Durante alguns dias, era o último e pior lugar do Universo. Por lá o mundo parou. Fechou-se o tempo. Nem escola, nem comércio, cerimônias religiosas ou divertimentos. Funcionavam, somente, os hospitais, o que era logicamente compreensível. Parou tudo, mesmo. Acompanhei a coisa, por intermédio de amigos que tenho por lá. Na semana passada, tive a curiosidade de investigar o que de fato restou daquela situação inicial de pânico. “no es tan peligrosa como primero se dijo. La situación está totalmente controlada, gracias a las medidas que se tomaron, aunque a la gente no le gustó, pero fué admirablemente disciplinada la ciudad de México. Hablamos de más de 25 millones de personas. Ya se levantó totalmente la contingência”, explicou minha amiga Susana González, moradora da Cidade do México. No Brasil os casos de pessoas afetadas são em números mínimos, diante da população do país, e tudo está sob controle. Fala-se muito pouco sobre o assunto. Do jeito que vai, acredito, logo estará esquecida. Aliás, esta gripe suína, me faz lembrar uma outra – a aviária – que, lá pelos idos de 2005-06, ameaçava dizimar meio mundo. Eu não conheço ninguém que tenha contraído este vírus da aviária.
Muito bem. E amanhã? Ah! Amanhã o assunto será outro completamente diferente... Até porque, a mídia, que presta um serviço importante, está de olho em tudo, embora, quase sempre, carregue nas tintas. Cá prá nós, deita e rola.
Enquanto isto, uma pergunta que não cala: e o meu destino? E o seu? Você acredita? Por mim, fica por conta da roda do tempo. O Senhor Tempo, que regula nossas vidas. Como diz Chico Buarque, isto tudo é mesmo uma Roda Viva.
Boa sorte, caro leitor ou leitora!

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

Domingo, 31 de Maio de 2009

Onde se vive bem?

A última postagem que fiz, falando de São Paulo, suas mazelas e virtudes, rendeu-me uma serie de comentários, no próprio Blog ou em encontros pessoais. Muitos não entendem como posso gostar de uma cidade tão poluído, tão cara e tão insegura.
Minhas explicações foram, de algum modo, rechaçadas veementemente. “Prefiro Recife, cidade pequena, porém decente...” alguém comentou.
No tocante à insegurança, afirmei sentir mais tranquilidade circulando em São Paulo e no Rio, porque este problema nessas duas cidades tem endereços certos (de modo geral nas periferias e favelas dominadas pelo tráfico de drogas), enquanto que no Recife parece ser em qualquer lugar. Digamos que sei por onde andar nessas duas cidades em questão. Já no Recife, infelizmente, ando, por todo lado, sobressaltado. Quem acompanha este Blog, deve lembrar os relatos que fiz, entre outros, sobre os ousados assaltos na porta do meu prédio, em pleno bairro dos Aflitos. Atualmente, a vizinhança anda literalmente aflita e entrando apressada nas garagens, antes que apareça um assaltante. Resultado: somos integrantes de uma comunidade de aflitos, quem sabe para fazer jus ao nome do bairro. A policia faz rondas e plantões na região, mas, tolo é quem confia...
Tenho amigos que optaram viver no bairro de Aldeia, Camarajibe, região metropolitana do Recife, mas que já relatam casos de assaltos. Estamos sem opção.
Mas, afinal, onde se vive bem? O mundo está muito difícil. Eu disse o mundo, não foi o Brasil. O processo de urbanização, a vontade de viver com as vantagens do progresso, muito mais fáceis nas grandes cidades, as dificuldades de abrigar os imensos contingentes populacionais que migram do campo para as urbi, de países pobres para ricos, transformam o planeta num caldeirão de infinitos conflitos sociais e guerras. Tanto faz aqui, como ali ou acolá. Poucas são as ilhas de tranqüilidade.
As reações dos leitores e amigos, junto com novas reflexões, induziram-me perambular pela internet na busca de informações para compor esta postagem. No InterJornal, da PRNewswire (http://www.interjornal.com.br/) encontrei uma matéria interessantíssima: um estudo do Instituto Legatum (http://www.li.com/) publicado em Nova York, em novembro passado, dá conta dos resultados de uma pesquisa, envolvendo 104 países, classificando-os com base num certo IPG - Índice de Prosperidade Global 2008, calculando segundo o modo que esses países fomentam o crescimento econômico e o bem estar das pessoas. Brasil e México saíram empatados na 43ª. Posição, abaixo do Chile, que veio em 27º. lugar – o melhor classificado entre os latino-americanos –, da Argentina, em 31º., Uruguai no 36º. e Costa Rica classificada na 38ª. posição. Ainda no âmbito da América Latina, tive a curiosidade de conferir a situação da Venezuela que, apesar de Hugo Chaves, veio no 58º. lugar e a Colômbia que saiu no 61º posto. Outros países da América Latina como Nicarágua, Equador e Bolívia, só fui encontrar entre os piores classificados (quartil inferior) devido aos seus governos ineficientes, baixos níveis de educação, altamente dependentes de ajuda externa, desemprego crônico e baixas expectativas de vida.
Uma coisa admirável desse IPG é que considera, além do sucesso econômico, outros aspectos interessantes como fortes laços familiares e comunitários, liberdade política e religiosa, educação e oportunidade e, por fim, ambiente saudável. Numa referência maior o Índice “constata que as pessoas e os governos têm um papel na promoção da prosperidade nacional”. Alan McCormick, diretor do Legatum observou que “o índice revela que os governos sozinhos não podem determinar a prosperidade, mas podem fomentar um ambiente que encoraje a prosperidade através da redução da dependência de ajudas e na implementação de políticas inteligentes que permitam aos cidadãos viver de maneira produtiva. Os cidadãos são responsáveis por aproveitar as oportunidades que acompanham o aumento da liberdade e privilégios”.
Naturalmente que conferi, também, o ranking na sua parte superior. A Austrália é a ilha da prosperidade e da tranqüilidade que qualquer um deseja. É o país campeão dessa corrida. Lá existe progresso, liberdade e bem-estar social. Depois dela vêm Áustria e Finlândia. O Japão, país que tenho especial admiração e conheço bem, vem, para minha surpresa, somente em 13º. lugar, seguido pela França, Canadá, Noruega, Reino Unido e Bélgica, empatados no 14º. Os Estados Unidos ficou classificado na 4ª. posição. Os piores situados foram Zâmbia, Mali e Iêmen, este o último colocado. Ah! A serena e sempre neutra Suíça é a 7ª. Interessante é que minha filha mora em Sydney (vide foto acima), na Austrália, é casada com um australiano, e me conta maravilhas de viver por lá. Vive dando graças a Deus pelo clima de segurança, progresso e oportunidades para todos. Saiu daqui e, em menos de um mês, conseguiu um bom emprego. O marido dela passou um ano e meio entre nós, não conseguiu espaço no mercado de trabalho, por ser estrangeiro, foi assaltado em frente de casa, arrumou as malas, pegou a esposa pelo braço e “picou a mula”. Vivo tranqüilo com a felicidade deles. E, agora, não vejo a hora de levantar vôo para ir conferir esse paraíso. Danado é que, já antevejo a vontade que vou ter de ficar por lá... Quem não quer viver num lugar seguro? Mas, eu volto! Sou brasileiro, até no nome, e aqui é meu lugar.
NOTA: Foto obtido no Google Imagens

Domingo, 24 de Maio de 2009

São Paulo: um Exercício de Paciência

Viver numa megalópole é um desafio... muitas vezes prazerosos e, por vezes, desgastantes. Digo sempre que sou um urbanóide confesso. Gosto das grandes cidades. Talvez, porque acho bom circular como uma figura comum e não ser reconhecido. Faço, com prazer, longas caminhadas e procuro sempre observar o comportamento da gente, do transito e da cultura em geral.
Talvez por isso, ao contrário de muita gente, eu gosto muito de ir a São Paulo, a maior metrópole brasileira. Acabo de regressar de mais uma dessas visitas, que me tomou cinco dias dessa semana que termina.
Comecei falando de desafio, prazer e desgastes. É isso mesmo. Viver São Paulo é um pouco de cada uma dessas coisas. É preciso saber viver cada situação. É o tipo de cidade que você gosta ou desgosta. Não cabe um meio termo. Eu, simplesmente, gosto.
Cada vez parece ser uma vez diferente. A cidade instiga o visitante para que olhe sempre por um novo prisma, um novo ângulo, uma nova imagem, que, aliás, sempre aparece. Nesses cinco dias observei coisas bem comuns na vida do paulistano, senão vejamos.A primeira coisa que me ocorre comentar é o desafio do trânsito. Perde-se muito tempo nos deslocamentos urbanos. Esses dias, acho que na sexta-feira, sintonizei uma estação de radio que transmite um tal de radar do transito, para conferir a situação e saber dos pontos críticos e dos engarrafamentos da hora, que chegavam a marca dos 160 km., por todos os lados da capital. Bendito radar, porque orientado por ele, fugi de alguns trechos críticos e consegui chegar a tempo num compromisso.
Vencido o desafio do transito, outra cena interessante testemunhei num estabelecimento industrial que visitei, nos arredores da cidade, à margem de uma rodovia importante. A visita havia sido agendada previamente por um amigo, que acompanhei – cliente da empresa – com o diretor principal da fábrica. Fomos muito bem recebidos, com direito a brinde de luxo na saída, mas, uma coisa deixou-me surpreso: durante 40 minutos conversamos, sem que ele fizesse a gentileza de convidar para uma mesa. De pé, na entrada do seu gabinete, numa boa. Desenvolveram-se inúmeros temas, inclusive de negócios. Ambas as partes mostravam-se interessadas em cada ponto discutido e o clima era de perfeito entrosamento. Lá pelas tantas, quando algumas coisas pareciam estar acertadas, o dito diretor convidou-nos para um café. De pé, claro! Depois do cafezinho esperto, fomos convidados a fazer um tour pelo chão da fábrica. E, aí então é que não tínhamos, mesmo, de nos sentar. O estabelecimento é novíssimo. Uma beleza de instalações. Deu gosto de ver. Lindíssimo. No final de visita, guiada por um outro diretor, passamos por uma ala com oito salas de reunião! Moderníssimas, equipadíssimas e confortaveíssimas! Quase não acreditei que havia salas de reunião por ali. Moral do episódio: paulista não perde tempo com reuniões cheias de trololós infindáveis. Conversa comprida, nunca. Com ele é pei-pei ou buft-buft. Por isso, se diz que São Paulo anda correndo e nunca pára! Quando voltei para o carro, achei ótimo sentar... um alivio.
O dia de trabalho termina e, outra vez, o transito vira um caos. Não fosse o radar da estação de rádio, outra vez também, e não sabíamos a razão de tantos engarrafamentos. Ao volante do meu veiculo locado, espero, espero, espero... o transito fluir. Meu amigo no assento ao lado, cansa, dorme, ronca e acorda assustado com o próprio ronco. Meio dormido, meio que acordado, pergunta: “onde estamos? que foi que aconteceu? o que é isto?” Minha resposta: “É São Paulo, meu caro! Durma”. É preciso paciência. Se estiver de carona, sente sono, mesmo. Como há sempre uma novidade pela frente, eis que surge um vendedor, em meio a muitos outros, oferecendo pipocas, vestindo uma camisa do Sport Club do Recife. Abro a janela, olho bem nele, ele corre e vai me dizendo que está fresquinha e crocante, “somente R$ 1,00, Doutor”. Minha resposta é com o grito de guerra do casá, casá, a turma é mesmo boa... Ele logo entendeu que estava diante de um pernambucano. Vibrante me disse que era rubro-negro até a alma, recifense, fugido da Favela do Rato, tentando vencer no frio da São Paulo e escapando da policia que, a toda hora, dá carreiras nos ambulantes da Avenida Tiradentes. Vida de imigrante nordestino... São muitos por lá.
A noite cai, o clima fica bem agradável, na casa dos 17ºC, e chega a hora de procurar uma restaurante para jantar. É o que não falta e só dá dos bons. Como o restaurante escolhido está em São Paulo, tem fila de espera. Outro exercício de paciência. “Os senhores vão esperar pelo menos meia hora. Aguardem ali, no bar. Aproveitem tomem um aperitivo” disse a recepcionista, com maior tranquilidade. Meia hora, não é nada.
A gente espera... a gente observa... a gente degusta um bom prato e a gente faz negócios. Ah! a gente, também, compra, a preços bons, de um tudo que deseja consumir. São Paulo é o paraíso das compras. Adoro São Paulo.
Visite São Paulo. Mas, vá com boa vontade e paciência. Faça este exercício. E, cá pra nós, leve dinheiro, viu!
Nota: Foto obtida no Google Imagens

Sábado, 16 de Maio de 2009

COMEMORANDO O INCABÍVEL

Eu já havia iniciado um comentário critico sobre a situação da violência urbana no Recife, quando notei que, na mesma ocasião, festejavam os dois anos do programa Pacto pela Vida, do Governo estadual. Isto foi no inicio desta semana. Propaganda em jornais, sessão especial na Assembléia Legislativa do estado e outras comemorações mais.
Surpreso com um “foguetório” incabível, fui buscar explicações nas matérias e estatísticas publicadas.
Lembrando que Recife já foi “eleita”, poucos anos atrás, a cidade mais violenta do Brasil, a primeira coisa que me ocorreu foi passar pela Rua Joaquim Nabuco, bairro das Graças, no Recife, e conferir o contador de homicídios – imenso painel luminoso que informa, sem pena e de forma constrangedora, o número de assassinatos cometidos no estado de Pernambuco, no ano, mês, semana e dia – maneira estranha, fria e chocante de chamar a atenção publica para um dos mais aberrantes problemas sociais do Recife, Pernambuco e do Brasil. Aquela contagem lá, não pára de crescer. Observo-o sempre de modo incrédulo.

Por outro lado, descobri um dado estarrecedor: no primeiro trimestre deste ano foram cometidos 1.238 assassinatos, em Pernambuco. E, veja bem, são dados da Secretaria de Defesa Social do Estado. Isto representa quase 5% a mais do que o mesmo período, no ano de 2006. O mesmo informe dá conta que o mês passado foi o mais violento do ano com 473 execuções. E o Governo que aí está garante que a coisa está melhorando e que a situação é bem melhor do que a do governo passado. Futricas políticas. Sei não... Deus que me livre, e a minha família, de uma dessas tragédias.
Fruto de uma impunidade desmedida, os assassinatos são cometidos a toda hora, em todos os espaços e sem ter nem para quê. Dolorosa situação para uma sociedade que, cada vez mais, prefere viver “aprisionada” em casa, temendo sair com qualquer que seja o propósito, temendo não retornar. Hoje em dia, sair à noite é, para mim, um dos maiores sacrifício. Tenho medo, sim.
Na prática nossa policia tem se revelado incapaz, insuficiente e, particularmente, incompetente. Os investimentos, que dizem são feitos, parecem ser sempre insuficientes e não conseguem mudar a situação. É uma calamidade. Assaltos são cometidos a toda hora, muitos são latrocínios, assassinatos nos âmbitos domésticos e sem motivos concretos, estupros seguidos de assassinatos, infanticídios bárbaros, enfim uma violência desmedida e crescente. É verdade que se trata de um problema nacional, mas no Recife o problema aparenta ser insolúvel. É demais.
Por tudo isso, acho um desplante desse Governo promover uma comemoração dos dois anos de sucesso do citado programa. Melhor seria calar. Para que comemorar em Palácio, se na praça a violência impera?
Minhas criticas poderiam ter ficado por aqui. Mas, acontece que duas coisas me surpreenderam e abalaram no decorrer da semana. Merecem ser registradas, para ilustrar minha revolta. A primeira, aconteceu no auge das comemorações do Pacto, foi o bárbaro assassinato do jovem Igor Siqueira Duque, em pleno meio dia, numa das avenidas mais movimentada da cidade. Jovem de 28 anos, cheio de vida e projetos, ex-colega do meu filho, na escola secundária. Igor voltava do trabalho para casa e, a menos de 500 metros do seu destino, teve a vida roubada com uma bala mortífera no pescoço. Os assassinos fugiram e só Deus sabe o paradeiro. Dizem que a policia anda no encalço dos dois. Como o rapaz era filho de uma juíza de Direito, pode ser que a coisa tenha resultado. Foi uma coisa muito triste e muito próxima de nós. Para mim, que tenho um filho na faixa etário de Igor, é um verdadeiro sufoco ver meu filho sair de casa para trabalhar, se divertir ou qualquer outra coisa. Peço a Deus que o proteja e louvo-O quando o vejo de volta.
A outra coisa que me deixou revoltado, desanimado e profundamente decepcionado foi a matéria de ontem do jornal britânico The Independent, denunciando a matança de seres humanos no Recife. Isto é péssimo! Para mim que tenho orgulho de falar sobre as belezas e atrativos turísticos do meu estado e da minha cidade, nas minhas andanças mundo afora, foi como uma ducha bem gelada. Estremeci e enchi-me de tristeza. O jornalista Evan Williams chamou o Recife de “capital brasileira dos assassinatos”. O repórter passou pelo Recife, impressionou-se com a situação local e destacou no jornal londrino o número absurdo de assassinatos, o perfil das vitimas e, o pior, a participação de frios policiais em grupos de extermínios. É de lascar... Ah! Fez, também, um registro para o estranho painel, no meio da cidade, que indica o número de assassinatos, por freqüências.
Meus amigos, sinceramente, é certo comemorar esse tal de Pacto pela Vida, no meio de tantas barbaridades? Melhor seria trabalhar em silencio e não gastar dinheiro publico com propaganda enganosa, incluindo participação de ator global. Pobre Recife...
Nota: Foto obtida no Google Imagens

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Attenzione, i brasiliani sono prossimi!

Com pouco mais de vinte anos de idade fui, pela primeira vez, à Europa. Em Florença, na Itália, assisti a uma cena inesquecível: integrante de um grupo grande de brasileiros, em excursão pelo Velho Mundo, ao entrarmos no famoso Mercado da Palha, local de grande atração turística, houve como um corre-corre dos comerciantes. Ouvi claramente de uma velhota: Attenzione, i brasiliani sono prossimi! Traduzindo: Atenção, os brasileiros estão chegando! Surpreso com aquele vexame, perguntei ao Senhor Barros, nosso guia português, a razão daquela coisa. A resposta: “Muitos brasileiros que visitam este mercado roubam mercadorias dos comerciantes”. Aquilo foi como um soco na boca do meu estômago. Todas as vezes que voltei por lá, lembro desse episódio. Digamos que, virou trauma.
Esta é uma das coisas que jamais compreenderei. Fico muito incomodado com essa fama de ladrão do brasileiro. É impressionante. Que DNA mais desgraçado!
O tempo passou e, de fato, as coisas, a meu ver, não mudam. Em pleno século 21, o Brasil assiste, diariamente, ao vivo e a cores da TV, o progresso da gatunagem. E parece que agora está como nunca. Ou mais divulgado, talvez. A toda hora, aparecem ladrões vindos de todas as classes sociais. Com gravatas, sem gravatas, sem camisa ou vestido, homem, mulher, crianças, cínicos, disfarçados, tranqüilos e serenos, como se nada houvessem feito.
Pior é que o modelo maior está lá em cima. Misturado com os três poderes! Haja vista para episódios como mensalão, sangue-suga, farra de passagens aéreas, operações satiagraha e castelo de areia, dólares na cueca, depósitos nos paraísos fiscais, caixa 2, superfaturamento de obras, propinas, tocos, saldo de campanha, além dos “fichinhas” que são os assaltos a bancos e ao cidadão indefeso, roubos pela internet, seqüestros, batedor de carteira e muitas outras modalidades. Todo dia aparece uma nova. A zorra é tão grande que já tem ladrão roubando ladrão, que corre na Policia para registrar um BO e é “convidado a ser hóspede” lá mesmo, atrás das grades.

Francamente, é uma lástima viver num ambiente desse. A coisa parece que está, mesmo, no sangue. Facilitou, o sujeito é roubado. A coisa já, digamos, ficou banal!
Outro dia, minha empregada, há dez anos, toda confiante enquanto servindo meu café da manhã, teve a petulância de declarar que “acha bonito o pobre roubar do mais rico”. Dei um pulo na cadeira, passei-lhe um especial e ameacei demiti-la. Ela ficou sem jeito, gaguejou, pulou de um lado pra outro e tentou se “explicar melhor”. Não adiantou, a besteira havia sido cometida. Não demiti, mas ando com a “pulga atrás da orelha!” Coçaaaaando...
Mesmo saturado, habituado e cansado de acompanhar a bandalheira do patropi, fiquei pasmo com o noticiário de ontem, sobre as fraudes no Bolsa-Família. Foi demais... Imagine que, como se não bastasse o fato de que o Governo venha consolidando uma sociedade paternalista, quando “dá o peixe, ao invés de ensinar a pescar”, o Programa de Combate à Pobreza anda alimentando – como pobres necessitados – um bando de ladrões, nos quatro cantos do país. Ficou provado em auditoria. Uma vergooooonha.
O Tribunal de Contas da União publicou, ontem, um relatório que traça o perfil da indecência do brasileiro comum. Uma verdadeira praga! Os benefícios do Bolsa-Familia foram pagos a 577 políticos eleitos nas eleições de 2004 e 2006, fora mais 39.937 suplentes; 3.791 mortos; 106.329 proprietários de automóveis, caminhões, tratores ou motos e mais de 1 Milhão de famílias com renda acima do permitido. Resultado é que 312.021 famílias estão recebendo ilegalmente recursos do Programa, dando um prejuízo mensal, aos cofres da União, no montante de 26,5 Milhões de Reais. Não é um abuso? Abuso não, é uma tragédia. E pensar que somos nós, os contribuintes idiotas, que pagamos essa pouca vergonha, é de matar do coração.
Tem jeito não. Eu cresci vendo meu pai reclamar da ladroeira que assolava o país. Ele me dizia que não alcançaria o país de vergonha que sonhava. Ficava para a minha geração... Coitado, que ilusão! Eu não tenho esperança nem para os tempos dos meus netos. Do jeito que a coisa vai, a farra vai, ainda, muito longe.
Nossa fama, no Mercado da Palha de Florença, dificilmente vai se apagar. Passará de geração à geração de comerciantes. Curioso foi que, em 2005, visitando o mesmo Mercado, junto com minha esposa, tomamos conhecimento, por um comerciante ítalo-brasileiro local, do episódio do ladrão político preso no aeroporto de São Paulo, com os dólares na cueca. Aquilo foi demais, para mim. Diga mesmo, não foi uma ironia?
NOTA: Charge obtida no Google Imagens

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Quem vê cara, não vê coração. Nem voz...

Ela entrou no palco toda desengonçada. Pelo andar parecia que usava um par de sapatos apertados, cabelo desgrenhado, vestido démodé e, para completar, bem feiosa, se comparada aos padrões de beleza vigentes.
Na entrevista de praxe, foi descontraída com os jurados e, em poucos instantes, mostrou-se, praticamente, como sendo uma figura meio alienada. Teve a tranqüilidade de confessar a idade de 47 anos e, incrível e sem necessidade, declarou que nunca havia sido beijada. Uma graça.
O público não lhe dava crédito e levava a coisa em meio a uma pândega. O júri, este, cumprindo seu papel, parecia que fazia uma caridade.
Diante de uma platéia imensa e certa de que seria apenas mais uma calouro inexpressiva, a britânica Susan Boyle teve sua chance de dizer porque encarou aquele desafio, de um dos mais importantes, quiçá o mais importante, programas de calouros do mundo.
Autorizada a cantar, a mulher feia e sem charme, abalou! Aos primeiros instantes de interpretação a platéia parou, o júri caiu na real e uma belíssima voz se revelava ao mundo da música. O auditório “desabou” em aplausos e o júri ficou atônito.
Susan é escocesa e se tornou uma celebridade mundial em 11 de abril passado no reality show Britain’s Got Talent, cantando “I Dreamed a Dream”, sucesso do musical “Os Miseráveis”.
O choque que ela provocou, com um contraste gritante entre a primeira impressão e a voz que soltou foi, certamente, o maior acontecimento artístico do mundo, em abril de 2009. Inesquecível. A imagem desajeitada, com uma voz sublime correu o mundo em menos de 24 horas. Simon Cowell, um chato de galochas, pernóstico, tipo sabetudo e famoso por seus julgamentos implacáveis, tanto na Inglaterra, quanto nos Estados Unidos, mostrou-se profundamente surpreso com o que via, a ponto de propor rapidinho (ele é uma águia) um contrato de exclusividade com a figura. No projeto de Cowell constam gravações de CDs e filmes. Um filme contando a vida de Susan. Comenta-se que Demi Morre vai viver Susan na tela.
Descobri no Google (ele sabe de tudo!) que ela é a caçula de uma família de dez filhos, que teve dificuldades ao nascer, inclusive falta de oxigênio que casou danos cerebrais, durante o parto. Tida como uma pessoa com dificuldades de aprendizagem, abandou os estudos e foi trabalhar na cozinha de um colégio. Encasquetou a idéia de ser cantora depois de ir aos teatros assistir cantores profissionais. Teve lições de canto com um tal de Fred O’Neil.
Quando o pai de Susan morreu, os irmãos abandonaram a casa, deixando a limitada irmã caçula cuidando da mãe doente, que veio a falecer em 2007. Sozinha, ela vive até hoje na casinha da família, de quatro cômodos. Ela e um gatinho de estimação. No leito de morte, a mãe foi sua maior incentivadora para assumir a carreira de cantora e foi o que influenciou sua inscrição no Britain’s Got Talent.
Susan é uma desempregada e, por isto, não param de surgir oportunidades de ganhar muito dinheiro. Um gaiato, produtor de filmes pornôs, se apressou em oferecer a oportunidade de Susan “unir o útil ao agradável”: participar de um dos seus filmes, no qual seria beijada muitas vezes e, inclusive, perderia a virgindade. Cachê de quase R$ 4 Milhões. Haja dinheiro! Mas, ela não aceitou. Já pensou, perder uma grana preta dessas?
Interessante mesmo foi que, depois de vitoriosa, Susan explodiu com uma declaração curta e correta: “Eu sabia o que eles estavam pensando, mas por que isto me preocuparia se eu sei cantar? Não é um concurso de beleza”.
Quando Susan terminou de cantar, uma jurada do programa, Amanda Holden, foi taxatixa: “Eu estou tão chocada porque todos estavam contra você. Eu vejo que nós fomos arrogantes, e você nos deu a maior lição que precisávamos. Só gostaria de dizer que foi um privilégio escutar você aqui”.
Pois é. O que mais me chama a atenção nisso tudo é o fato de que o mundo não valoriza a beleza interna das pessoas. Só olha para sua aparência externa. Desengonçada e feia, uma pessoa nem sempre tem uma chance. Susan foi uma exceção.
Conheço muitas pessoas, principalmente mulheres, feias e sem charme, que merecem meu respeito e minha amizade porque é nelas onde mais encontro essências e substancias preciosas. Valorizo a “embalagem”, é claro, mas dou muito mais valor no que essas pessoas sacam de dentro dos seus Eus e me oferecem, sem cobranças, por amizade pura, coisa rara neste mundo de concorrências desonestas e selvagens.
Moral da história: “Quem vê cara, não vê coração”. Nem voz!

NOTA: Foto obtido no Google Imagens e não deixe de ver um dos filminho inseridos no Blog. Veja em cima, a direita.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Se correr o bicho pega, se ficar o bispo come!

Tenho acompanhado essa história do bispo/presidente do Paraguai, Fernando Lugo, que teve de assumir publicamente, semana passada, a paternidade de uma criança de dois anos de idade, fruto de uma aventura amorosa com uma jovem correligionária e, logo a seguir, na última segunda feira, enfrentar a aparição de mais um filhinho, que vivia encoberto e já com seis aninhos. Êita bicho bom de cantada... Acho que na volta dele é: “se correr o bicho pega, se ficar o bispo come”. Bom de papo, bom de cama e de comícios. Derrubou uma oligarquia de 36 anos. É mole...
A situação do Papá Lugo não teria nenhuma repercussão se o cara não fosse um sacerdote, bispo licenciado da Igreja Católica paraguaia e, por cima, o Presidente da República. Nessas circunstancias a coisa é grave e, como não poderia deixar de ser, o bicho pegou o bispo.
Vejam que situação vexatória: o homem é bispo (da Província de San Pedro) e passa ferro na fiel que foi pedir ajuda para solucionar um problema que tinha com o ex-companheiro, do qual havia engravidado e dado à luz a uma menina. Foi em busca de solução e arranjou mais encrenca. O resultado da “conversa” e do “conselho” do pastor foi outro bucho, que desembuchado recebeu o bíblico nome de Lucas. O garoto recebeu assistência financeira de Papá Lugo até que completou os dois anos de idade, quando caiu no esquecimento de papito que, agora, nem atende ao telefone da mãe do garoto e, por conta disso, e vingança pesada da mulher seduzida, se vê em palpos de aranha para explicar ao mundo essa outra travessura de alcova. Ela vive na pobreza, vende detergente caseiro nas portas da periferia de Cuidad del Este, fronteira com Foz do Iguaçu, no Brasil.
É isto aí gente. Estamos diante de mais um, entre os milhares, dos casos de sacerdotes católicos que não conseguem respeitar as regras rígidas do celibato.
Esta história vem de longe. Desde o Século V que a coisa rola, sem que, contudo, tenha sido seguida de maneira rígida. Muitíssimo depois, somente no Século XVI, que no Concílio de Trento (1545-1563) estabeleceu-se definitivamente o celibato sacerdotal obrigatório. Na ocasião a Igreja de Roma teve que tomar atitudes severas para acabar com a gandaia que reinava entre os seus sacerdotes. Descobri nas minhas pesquisas que, antes disso, durante certo Concilio em Costanza(não encontrei a data), na Alemanha, 700 prostitutas foram convocadas para atender sexualmente aos bispos ali reunidos. Assim... naturalmente, sem que houvesse qualquer tipo de restrição ou condenação. Numa nice... Outra coisa que estimulou a decisão de Trento foi a clara intenção de dar uma resposta à recente Reforma Protestante que permitia, e, inclusive, promovia os casamentos dos seus sacerdotes. Quer saber mais? Clique, por exemplo, em: http://forum.cifraclub.terra.com.br/forum/11/120170/ . Vale à pena uma espiada.
O celibato é uma grande hipocrisia e tem sido constantemente combatido e discutido nos concílios ou encontros similares da Igreja Católica, sem que haja algum progresso, não obstante os inúmeros movimentos católicos de renovação em defesa da sua abolição. Bento XVI, o atual papa, já deu seu veredicto sobre o assunto: o celibato é necessário. Que jeito...
O resultado dessa posição radical e retrógrada está explodindo, a cada dia e nos quatro cantos do mundo, através dos Lugos irresponsáveis, por pervertidos sexuais que molestam menores, ou ainda nos escândalos homossexuais intra-muros dos mosteiros e conventos católicos. Incluindo as freirinhas. É. Elas são bem danadinhas, também.
Estudei em colégios dirigidos por padres e irmãos católicos e lembro das figuras que, visivelmente, negavam ao mandamento do celibato. Muitos tiveram a coragem de largar as batinas, casar e constituir famílias. Outros continuavam na “clandestinidade” e outros mais eram homossexuais, cujas peripécias eram comentadas “a boca miúda” pela estudantada fofoqueira e reprimida da época. Pense na fuxicada dos corredores.
Na verdade, deve ser muito difícil para o sacerdote ou uma freira – um ser comum, de carne, osso e sistema nervoso – viver podado dos fortes instintos sexuais. É o tipo da coisa incontrolável. Imagine o seminarista, jovem e indefeso, no explodir dos hormônios da juventude, ver-se obrigado a “segurar a barra”. Coitado... Não tem saída. E o pior: na dúvida e na hora do “pega pra capar” ou dá ou desce. Imagino que deve imperar a lei do mais forte, num tipo de “guerra é guerra...” Uma lástima. Haja hipocrisia.
A meu ver, isso devia ser visto de modo mais atual. A Igreja Católica ganharia muitíssimo com uma mudança dessa regra obsoleta. O mundo mudou e a Igreja congelou!
Seria tão mais fácil flexibilizar aos poucos, restringindo o celibato aos voluntários e, quem sabe, aos aspirantes a cargos mais graduados (cônegos, bispos, arcebispos, cardeais, papa). Quem não tivesse essas aspirações poderia fazer sua vidinha particular, constituir suas famílias e verem-se livres das manobras escusas de alcovas, das condenações e ser um bom sacerdote. Isto reduziria muitíssimo os escândalos de seduções "donjuanescas", pedofilia, homossexualismo, orgias monásticas e qualquer tipo de peripécias sexuais. Como conseqüência positiva, aumentaria as vocações sacerdotais e faria nascer uma Igreja mais humana. E, por esse caminho, Lugo não estaria nessas dificuldades, que já põem em risco sua trajetória política de imenso significado histórico para o Paraguai. Não condeno o bispo. Ele pode ser, até, um mau caráter! Mas foi humano.
Notas: 1. Eu sou católico! 2. A charge foi colhida no Google Imagens

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Uma Questão de Ótica

Estou no meio de uma semana com uma agenda pesada. Quase sem tempo para o Blog, embora que assuntos não faltem. De todo modo, ocorre-me, hoje, comentar uma coisa que acho interessante: o choque de enfoques entre O Caminho das Índias x Quem quer ser milionário?
Algumas ocasiões, quando chego a tempo em casa, acompanhando minha esposa, me posto diante da televisão e assisto ao folhetim das oito, da TV Globo. Fico admirado com a exuberância e qualidade da produção, além de fazer idéia do investimento pesado da emissora, que se revela competente, entre outras coisas, na riqueza do cenário, guarda-roupa e locações deslumbrantes. Os atores são excelentes, embora que sem caras de indianos, salvo a protagonista, que tem biótipo próprio para o caso. Mas, minha bronca maior é que, no final das contas, mostra uma Índia, a meu ver, muito artificial. Quase irreal. A exuberância dos ambientes mostrados e os costumes retratados na novela, segundo alguns críticos, inclusive indianos radicados no Brasil, transmitem imagens de um passado remoto indiano. Parece que a coisa já é bem diferente.
A divisão social em castas, ainda pode existir, principalmente no interior, mas, nas grandes cidades, a sociedade mudou bastante, devido ao desenvolvimento econômico, a integração do país ao mundo globalizado, que, aliás, o coloca entre aqueles que estão prestes a fazer parte do clube das potências econômicas modernas, junto com China, Rússia e Brasil. Os quatro, juntos, formam o denominado bloco econômico do BRIC, uma referencia às iniciais dos nomes destes quatro países.
Por sorte, e para que tenhamos a chance de saber melhor sobre a realidade indiana, chegou às telas dos cinemas brasileiros o filme Quem quer ser milionário?, o qual tive o maior interesse de assistir, recentemente. Premiada com o Oscar de melhor filme, a produção de Bollywood (a Hollywood indiana, situada em Bombay, atual Mumbai) retrata, de modo mais realista, uma Índia atualizada e mais verdadeira.
A Índia é um país rico em tradições, história e cultura milenar e, certamente, o lugar do planeta onde o misticismo é mais intenso. Destino de meio mundo que deseja se purificar e repensar a vida nos inúmeros ashrans (centros de meditação e recolhimento liderado por um guru) (vide foto ao lado)espalhados pelo seu território, sempre rodeados de uma pobreza sem fim e difícil de ser exterminada.
O filme em questão revela uma nação divida e pontilhado de miséria cruel, como cruelmente foi mostrada a pobreza degradante e real existente no Brasil, em filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite e Carandiru.
Faça o caminho das Índias, com Juliana Paes, se encante com a superprodução global, mas não deixe de assistir a luta pela sobrevivência dos personagens Jamal e Latika, no filme indiano, premiado com oito estatuetas do Oscar.
Nota: Fotos do Google Imagens

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Antigamente, era muito diferente...

Antigamente, era muito diferente... a gente já deixava de ir a escola na 4ª. Feira, ninguém trabalhava, o comércio fechava, porque a partir do meio dia, já começava o retiro espiritual da semana santa. Dali em diante até a sexta feira, outro sinal muito efetivo vinha pelas ondas dos rádios – então muito prestigiados – que só colocavam no ar músicas clássicas e que todo mundo chamava de música fúnebre. Fazia-se um silencio no meio do mundo, que chamava a atenção de nós, meninos irrequietos, loucos que passasse aquela época tão monótona. Claro! Não se podia cantar, gritar ou fazer algazarras. Arengar com um irmão, seria um pecado mortal.
Paralelamente, a minha casa era invadida pelo cheiro do pescado e do bacalhau que era consumido durante três dias. Para acompanhar havia o feijão e o arroz de coco, verdadeiras delícias, completados pelo o bredo, ao molho de coco, também. Naquela época eu não era muito fã de peixe. Achava insuportável ter que fazer a abstinência de carnes vermelhas por três dias seguidos. Era um sacrifício.
Certas horas, havia o capitulo de ir à Igreja. Lembro da cerimônia do lava-pés, da celebração relembrando a instituição da eucaristia e da procissão do Senhor morto. Beatas choravam, com o terço na mão e beijavam o Cristo na cruz. Era um clima de puro féretro.

Apesar da austeridade exigida, havia duas coisas bem profanas e divertidas, que terminavam quebrando o clima pesado do retiro: a noite do serra-velho, acho que na 4ª. Feira e a da malhação do Judas, na 6ª. Feira. Não estou muito seguro desses dias. A primeira até hoje não entendi. Escolhiam um cidadão ou uma cidadã de muita idade e, de modo geral, antipatizado pela comunidade e simulavam sua morte. Munidos de um serrote, roçando numa lata velha, produzindo um barulho desagradável, alta madrugada e, na porta da vitima, tratavam de fazer um inventário e “distribuição” dos bens do “morto” entre os promotores da provocação. Tinha nego que ficava tiririca e reagia, muitas vezes, a fogo. Quando a arma cuspia balas, os “herdeiros” corriam com os pés nas costas. Quanto a história do Judas, lembro que escolhiam um cidadão, malquisto pela comunidade, para ser “julgado”, em praça publica, através da figura de um boneco em tamanho natural. Era a maior desfeita. Os promotores da malhação, muitas vezes, conseguiam, nunca se sabe como, algumas peças de roupas do cara, produziam um boneco recheado de trapos e folhas de bananeira (eu ajudei a fazer um) e penduravam num poste, bem debaixo da luz pública. O sujeito quando via aquele boneco com suas próprias roupas, era capaz de se suicidar. No fim da noite o boneco, digo o Judas, era derrubado e surrado aos gritos da cambada. Neste caso, estava claro, que se fazia uma relação com a figura do Judas, o traidor de Cristo.
Quando, finalmente, chegava o sábado havia uma explosão de alegria. As rádios, em vez de musica fúnebre, atacavam de frevos e marchinhas de sucesso do último carnaval. Os clubes sociais promoviam os chamados bailes de aleluia. Era o maior carnaval do mundo, numa única noite. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou!
Hoje é tudo muito diferente. Católico de nascença, fico meio desconcertado, quando vejo a programação dos dias da semana santa dos meus filhos, dos filhos dos meus amigos e dos próprios amigos. Definitivamente, acabaram com o clima de retiro e respeito à Paixão de Cristo.
No lugar das chamadas músicas fúnebres, a programação das rádios não muda em nada e se ouvem as costumeiras batidas do rock, os pagodes e sambas, ou coisas parecidas. Nas estâncias de férias, promovem-se monumentais festivais de músicas, nos quais a moçada se esbalda e extravasa seus instintos mais obscenos. Pra começar, as bandas, vejam só, levam nomes muito esquisitos, tais como Biquíni Cavadão, Garota Safada e Calcinha Preta, entre outros. Isto não casa com nada de bom senso, principalmente o religioso. Pense pular ao som da banda de Ivete Sangalo, em plena noite da 6ª. Feira Santa. E comer churrasco de picanha no meio da festa! Acontece, sim. Não é um horror? Se minhas avós, por um milagre que fosse, voltassem ao mundo dos vivos, davam uma marcha à ré e, fazendo o sinal da cruz, deitavam e morriam, outra vez. Eu nem choraria. Conformado, entendia que não lhes restava outra coisa.
Não! Não é saudosismo, nem beatice, nem falso moralismo. É desconforto espiritual. Acho que um retirozinho, uma pausa para meditar, pode fazer muito bem a essa juventude inquieta de hoje.

Nota: Fotos do Google Imagens

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Vamos limpar Boa Viagem

Uma coisa que nunca me convenceu foi o veto à instalação de bares e restaurantes na orla de Boa Viagem – um cartão postal do Recife – que termina sendo uma grande surpresa para o visitante de primeira viagem. Todo mundo que vem ao Recife logo percebe que falta aquilo que, na maioria dos balneários turísticos do Brasil e do mundo, fazem a festa noturna do lugar. Quem não gosta de tomar um chopinho a beira mar de Copacabana? E de Maceió, Fortaleza, João Pessoa ou Aracaju? De Florianópolis e de tantas outras cidades brasileiras? Isto, sem falar nos grandes balneários do exterior, que não são poucos.
Boa Viagem é uma coisa sem graça, à noite. Turista que põe o pé na calçada do Hotel, onde hospedado, olha à direita ou à esquerda e não enxerga nada de atrativo. Contudo, se olhar para frente, pode dar de cara com um bando de farofeiros vendendo espetinho na brasa, regado a cervejas, numa improvisação de bares desordenados, em kombis ou mala de carros, sem a devida assepsia e o pior, tirando o brilho da beleza local.
Tenho acompanhado atentamente a luta que o atual Prefeito da cidade vem travando com esses ambulantes, responsáveis por esse mercado alternativo e, sobretudo, irregular.
Muito bem Senhor Prefeito. Isto não pode mesmo continuar. E tem mais: se não for tomada uma providencia agora e a coisa for deixada de lado, ninguém vai segurar as pontas, no futuro próximo. Principalmente, com essa atual onda de desemprego gerado pela crise econômica.
Eu sei, naturalmente, que se trata de um delicado problema social. Concordo. Mas, é também um problema urbanístico, turístico e de saúde publica. Uma cidade como Recife não pode se dar ao desplante de permitir a popularização exacerbada do comércio ambulante de bebidas e tira-gostos, pondo em risco um projeto maior de desenvolvimento turístico, que pode gerar empregos, inclusive para estes ambulantes de hoje. Particularmente em Boa Viagem, que é, possivelmente, a mais importante Zona de Interesse Turístico da cidade.
Eu acredito que se houvesse, na orla de Boa Viagem alguns pólos de diversão e atrativos turísticos, com bares, restaurantes e cafés, ali na beira mar, digo, na areia da praia, nada disso estaria ocorrendo. E, aliás, há espaço para isto. O que existe está distante desta proposta. Resultado: prolifera um comércio de baixíssimo nível, emporcalhando a avenida, poluindo com pesada nuvem de fumaça gordurosa o ambiente da mais bela e iluminada praia do Nordeste. Francamente, uma decepção para quem visita a cidade e espera algo de melhor nível, à beira mar.
Embora não tenha votado nesse Prefeito que aí está, estou dando o maior ponto para ele nesse “guerrinha” que visa à limpeza do nosso cartão postal.
Vai ser uma dura luta, mas tem que ser enfrentada de frente. Acredito que todos os moradores da avenida estão pensando com eu, embora que não sendo um morador de Boa Viagem.
E você, caro leitor recifense, o que acha disso tudo. Dê o seu voto na enquete acima e ao lado.

Nota: Foto do Google Imagens

Sábado, 21 de Março de 2009

Abaixo a Poluição Visual

Imagine você andar pela cidade do Recife, ou numa das grandes metrópoles brasileiras, e não dar de cara com os imensos letreiros de publicidade, painéis em fachadas de prédios, out-doors espalhafatosos, alguns até obscenos, backligths, frontlights, arremedos gráficos de propagandas comerciais, faixas promovendo produtos ou eventos dos mais diversos, enfim, toda sorte de porcarias que enfeiam qualquer lugar deste mundo. Impossível? Que nada. Este lugar limpo existe e está no Brasil. É a cidade de São Paulo.
Pois é, a capital paulista, a maior cidade da América do Sul e, hoje, considerada como sendo a primeira macrometrópole do Hemisfério Sul, pode se considerar uma cidade limpa, por estar livre dessas tranqueiras que tanto enfeiam qualquer lugar.
Bastou que as autoridades municipais atinassem para o tamanho da sujeira e do prejuízo por ela causado, para que fosse instituída a Lei da Cidade Limpa, regulamentada por um Decreto Municipal, de dezembro de 2006, dando fim à terrível poluição visual que emporcalhavam a urbe paulistana, uma coisa sem limites, aquela altura dos acontecimentos.
A Operação Cidade Limpa, de São Paulo, foi um dos maiores avanços do gênero, já vistos no mundo. Não é fácil vencer uma guerrinha dessa. Muitos interesses foram contrariados. A indústria da propaganda deve ter ido à loucura e até hoje chora e esperneia contra a medida.
Faça idéia do que deve ter sido a operação arranca tudo quanto é de out-doors, faixas, luminosos, cartazes dos mais diferentes materiais, finalmente, etc. numa cidade do tamanho de São Paulo.
Estou em São Paulo, há dois dias, e por onde circulo sinto falta, ou melhor, sinto um alivio e certo repouso para meus olhos e mente, diante da ausência desses corriqueiros veículos de publicidade. Num primeiro momento pode parecer estranho, para quem chega. Dá uma sensação, talvez, de entrar numa casa sem quadros na parede. Mas, pensando melhor, é confortável não se sentir impelido a ler toda e qualquer mensagem que apareça numa curva da rua ou avenida, ou outro qualquer ponto estratégico do caminho. Era uma tormenta circular nas grandes avenidas paulistas.
Lembro que era preciso muita atenção ao volante para não me distrair com a agressiva e, certamente, muito atraente peça de publicidade que se apresentava. Era impossível, por exemplo, resistir a uma bela imagem de mulher fazendo propaganda de um lingerie ousado, assim como imagino que, para os olhos femininos, era complicado ver um homem ameaçando se desvencilhar da única peça de vestuário que lhe restava que, no caso, era uma cueca. As propagandas dos motéis eram verdadeiras apelações. E as de alimentos? Os sorvetes, picolés e bombons. As bebidas e cigarros. Uma loucura sem limites, que faziam parte do quotidiano, sem que ninguém reclamasse. Para alguns, causava admiração e elogios. E, de fato, muitos eram verdadeiras obras de arte, justiça se faça.
Hoje em dia, após a retirada das propagandas e sujeiras diversas, São Paulo é uma cidade diferente. Prédios históricos ou modernos ganharam maior realce e as árvores estão mais bonitas. Os parques e jardins têm mais vida com seus coloridos próprios, sem os "tapumes" em forma de out-doors que lhes roubem a cena. É um mundo novo, cheio de estética e sobriedade.
Depois de ver São Paulo, resta a esperança de que outras cidades sigam o exemplo – particularmente o meu Recife – e limpe o país como um todo.
Abaixo a poluição visual. Multa pesada para quem desobedecer.
Antes de encerrar, porém, uma sugestão: saia por aí, na sua cidade, e diante de um outdoor qualquer, avalie o bom que seria se ele não existisse. E aquela faixa ridícula e mal produzida? E a placa de fachada da Padaria ou do Bar da esquina?

NOTAS: Este post foi redigido em São Paulo, no dia 18 de março de 2009
AS fotos são do Google Imagens

Na Coluna a direita, você pode acessar e assistir a um filminho do YouTube, sobre São Paulo Cidade Limpa.

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

Eita mundinho cão!

Todo mundo acompanhou com pesar, nesses últimos dias, uma serie de barbáries cometidas contra crianças inocentes, neste mundo de meu Deus. Algumas das quais muito perto de nós.
Quem não se sensibilizou com o caso da garotinha, de nove anos, abusada sexualmente, estuprada e engravidada de gêmeos, pelo padrasto, no interior de Pernambuco e, depois, submetida à violência de um aborto provocado? Quem não se chocou com o caso do louco que seqüestrou a filhinha de tenra idade, roubou um avião e fez um vôo para morte, precipitando-se sobre um estacionamento de Shopping Center, em Goiás? E o caso do tresloucado alemão que saiu atirando e matando jovens garotas dentro de uma escola? E o outro nos Estados Unidos? E outro não sei onde? Mais outro e mais outros.
Segurei o que pude para não comentar essas barbaridades. Falei de amenidades, de viagens, de lugares bonitos. Fiz vista grossa para com essas barbaridades, até quanto pude.
Mas, chega uma hora na qual a pessoa não se contém. É tudo muito forte demais. Não me julgo o formador de opinião, mas, dou minha contribuição ao debate, sempre que posso.
Fico pensando e colocando-me no lugar dos familiares dessas pessoas que sofrem, devido à sanha de irresponsáveis. Nessas horas, temo pelo futuro. Pelos meus netos, que ainda não tenho, mas, que deverão vir. Pela humanidade. Pior, sinto a paz fugindo, cada vez mais, dos nossos dias.
Como se tudo fosse muito pouco, ainda se instala na sociedade uma polemica discussão sobre a ética, cruzada com os dogmas religiosos. Tenha paciência...
Como pode se condenar um aborto necessário e legal, para o bem e salvação da vida da vitima! E, o pior, em nome de Deus? Será que Ele quer mesmo que um inocente pague um preço tão alto, com a própria vida, por conta de um ato abominável de um maníaco sexual?
Foi, na minha opinião, lamentável a atitude do arcebispo de Olinda e Recife, que terminou causando um imenso prejuízo para a Igreja de Roma, já tão desgastada, face aos inúmeros escândalos de pedofilia e vetos aos progressos do mundo moderno, voltados para o bem estar dos seus fiéis.
Tem uma coisa: sou católico e, embora não me considere um praticante dos mais efetivos, sustento a minha fé, vou a Igreja, assisto missas aos domingos e sigo todos os preceitos que me são possíveis e, sobretudo, que me deixem com a consciência tranqüila. Aliás, acho que religião tem tudo a ver com consciência.
Neste ambiente conturbado, o tema parece não ter fim... O mundo inteiro resolveu discutir os prós e contras do aborto provocado na menina. O prelado sustentou sua posição radical e expôs a Igreja, de modo lamentável, jogando-a na boca e nas rodas de conversa e assembléias dos seguidores das igrejas alternativas, tudo sem pena e sem dó.
A coisa, segundo ouvi comentar, foi tão devastadora que, para surpresa de meio mundo e, diria que, alivio desse mesmo meio mundo, a CNBB colocou “panos mornos” para amenizar a crise e, por fim,o Vaticano, através de uma das suas autoridades eclesiásticas contrapôs-se à excomunhão proferida pelo arcebispo de Olinda e Recife, neste fim de semana passado. Considero que foi uma atitude saudável para livrar a Igreja Católica de uma onda de rejeição crescente.
Outra coisa absurda foi destacada na mídia internacional, durante o dia de hoje: o monstro de Viena, que aprisionou a própria filha num subterrâneo da própria casa, durante mais de duas décadas, escondendo-a do mundo, usando-a e abusando-a sexualmente, gerando com ela vários filhos/netos, um dos quais morto e incinerado no cativeiro, dois “abandonados” à porta de casa e uma outra com dezenove anos sem nunca ter visto a luz do dia e outras atrocidades mais, está sendo julgado por tribunal de justiça austríaco e, pasme, pode sofrer uma condenação de apenas seis anos e meio de prisão, quando o justo seria a prisão perpétua. Que justiça é esta, meu Deus?
Sabe de uma coisa, vou parar por aqui. Tenho o estômago revirando. Vou tentar dormir em paz. Êita mundinho cão!...

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Uma Varanda no Pacifico

Estando em Santiago e dispondo de tempo, não há porque não dar um pulinho no que eu chamo de “a varanda do Chile sobre o Pacifico”: Valparaiso e Viña del Mar. Cidades gêmeas, cada vez mais ligadas pelo processo de urbanização intenso.
Uma auto-estrada liga a capital chilena a essa aprazível região e, com uma hora e meia, o visitante está diante das águas azuis do Pacífico. Gaivotas e pelicanos, com jeito de dar boas vindas, vêm ao encontro de quem chega, executando vôos rasantes, antes mesmo que o chegado alcance a posição de “a ver o mar”. Tive a impressão de avistar Fernão Capelo nos recebendo.
Valparaiso, também conhecida como la Perla del Pacifico, é antiga. É de 1536. Seu fundador foi Juan de Saavedra, que a mando de Diego de Almagro, o descobridor do Chile, foi até a costa aguardar a esquadra espanhola que vinha por mar encontrá-lo na aventura de conquista das novas terras. Em 1544, o local se transformou no primeiro porto do Chile, determinado por Pedro de Valdívia o fundador de Santiago e governador do Chile espanhol daquela época. Ao longo dos séculos este porto foi se consolidando e hoje é um ponto importante na logística sul-americana, da Bacia do Pacifico, e por onde escoam riquezas não apenas chilenas, mas, também, de outros países do Continente, principalmente se o destino for a Ásia.
Patrimônio Cultural da Humanidade, Valparaiso se constitui numa grata surpresa para o visitante, devido ao casario colorido esparramado por vários morros e acessados, de preferência, por elevadores em plano inclinado. Do alto dos “cerros” um panorama sempre vislumbrado em meio aos muitos ohs! dos turistas que, ato continuo, mergulham em meio a muitos artesãos em ação, ateliers de pintores, restaurantes, bares entre outras atrações. No Cerro Concepción onde estive, com meus familiares, no domingo de carnaval, não havia folia, mas havia muita informação cultural. Exploramos, ao máximo, aquela bela área.
Completando nossa visita a Valparaiso almoçamos, num belíssimo restaurante, lá mesmo no Concepción, cujas linhas arquitetônicas são, de fato, uma varanda sobre o Pacifico. Resultado: uma deslumbrante paisagem. No prato não podia cair outra coisa a não ser fruto do mar.
Um novo e moderno metrô liga Valparaiso à formosa Viña del Mar. Através dele desembarcamos num cenário de autêntica riviera francesa, em plena América do Sul.
Um passeio de carruagem, de módico preço, dá em pouco tempo uma visão completa do lugar. Muito charme nas alamedas e jardins. Palacetes senhoriais, prédios bem projetados, hotéis de luxo, cassino, centro comercial dinâmico completam o ambiente mais sofisticado do litoral chileno. Em adição – na ocasião que por lá passamos – o burburinho do Festival Internacional da Canção, que todo ano, nesta época, transforma Viña na capital mundial da canção popular.
Pois é, o Chile, como já falei, é de uma diversidade fantástica de paisagens. Comentei sobre várias coisas e estou por encerrar estas postagens sobre as andanças por lá. Antes, porém, um registro para uma parte importante e rara que é a Ilha de Páscoa, pertencente ao Chile e situada na Polinésia. Aquela dos misteriosos moais, esculturas imensas de pedras, que não se sabe de onde vieram e como foram ali colocadas. Nunca estive por lá. Mas, pretendo ir, um dia. Enquanto isto não acontece, tratei de sentir um pouco do clima daquele Paraíso, indo, com minha família, a um restaurante/show, em Santiago, onde o clima é de pura Polinésia, tanto pelo cardápio, quanto pelo show com danças típicas. O cliente é recebido com um colar de flores, por recepcionistas trajando roupas floridas e multicoloridas. E, uma vez lá dentro, é pura curtição.

Nota: Fotos do Blogueiro. Em cima uma vista de Viña, com Valparaiso ao fundo. Em baixo meu filho em clima de Polinésia.

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

O Vinho Chileno

Ir ao Chile e não visitar uma vinícola é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. O vinho chileno, produzido desde o século 16 pelos colonizadores espanhóis, é classificado como um dos melhores do mundo. Com condições climáticas e solos propícios o país vem aprimorando, ao longo desses séculos, sua produção e colocando-a nas adegas mais exigentes do planeta.
Sem dispor de muito tempo e tendo que cumprir uma programação intensa em Santiago, coube-me revisitar, e guiar meus familiares, uma das mais famosas produtoras de vinho, a Concha e Toro, situada nas proximidades da capital chilena.
O local está bem preparado para receber o turista e diariamente promove inúmeros tours, passando pela antiga sede da empresa – o monumental palacete de Dom Melchor Concha y Toro (foto acima), construído no século 19 –, pelo cultivo das uvas, pelas bodegas centenárias e, por fim, por uma rodada de degustação de vinhos brancos e tintos, destacando-se o mais famoso deles, o Casillero del Diablo. O final da visita – como não poderia ser diferente, que eles não são burros – é numa loja de sourvenirs, sobretudo vinho e um restaurante em anexo.
A historia da Concha y Toro começou quando o empresário e político Dom Melchor resolveu, em 1883, trazer algumas cepas de nobres uvas da região de Bordeaux (França), para cultivo nas suas terras de Pirque, no vale do Maipo. Trouxe também um enólogo (Monsieur Labouchere) encarregado de produzir os melhores vinhos possíveis. Desde então, a produção só fez crescer e a vinícola é hoje uma das maiores exportadoras de vinho da América do Sul, com presença em mais de cem países.
Visitar uma vinícola pode não ser uma novidade para muitos. Eu mesmo já estive em várias outras, mundo afora. Mas, o interessante é saber que cada uma tem uma história, quase sempre pitoresca, a ser contada e na Concha y Toro não é diferente.
Um dos pontos pitorescos de lá está na explicação da denominação do vinho Casillero del Diablo. Não há duvidas de que se trata de um nome insólito para uma bebida de tão boa qualidade. Traduzindo ao português, a denominação seria Carcereiro do Diabo. Que diabos de denominação é essa? Sempre perguntei. Somente agora tomei conhecimento da origem desse nome.
Conta-se que Dom Melchor construiu uma bodega especial, no subsolo da vinícola, mais ou menos 8 metros abaixo do nível normal, onde a temperatura é constante e propicia à conservação do produto. Como todo vinho ali guardado era o de melhor qualidade, começou a surgir “sócios”, surrupiando as melhores garrafas. Eram camponeses e empregados da própria vinícola que viviam nas redondezas.
Ciente das crendices e da religiosidade populares, Melchor criou um boato, que logo se espalhou pelo Vale, de que o Diabo andava, também, pela sua bodega especial roubando vinhos e que ele estava tratando de flagrá-lo com a “mão na botija” para aprisioná-lo.
Nunca mais lhe roubaram vinhos. Nasceu daí a denominação do mais famoso vinho da Concha y Toro. Numa jogada de marketing, a empresa colocou num compartimento do fundo da bodega, a projeção da imagem de Lúcifer, atrás das grades. (Vide foto abaixo). Eu dei graças a Deus por vê-lo preso lá no Chile. Só assim ele não vem atazanar nossas vidas aqui no Brasil. Sai prá lá Satanás... Cruz, credo. Outra coisa interessantíssima dessa bodega é sua concepção arquitetônica. Uma beleza secular construída, pasme, com argila, cal e argamassa feita com claras de ovos! É uma informação que surpreende a todos que andam por lá. Não tive dúvidas de perguntar quantos ovos foram quebrados nessa construção. “Não se sabe quantos ovos, mas temos pena das galinhas...” respondeu a guia. Pelo tamanho da adega, é incalculável a quantidade de ovos que foram quebrados para construir aquele prédio. É uma beleza.
Gozado é que eu tinha ouvido falar desse tipo de argamassa muito usada na construção de mosteiros na Europa. Pensei que era fabulação e não é! Dizem que, em Portugal, as monjas tinham tantas gemas de ovo sobrando que terminaram criando guloseimas, até hoje famosas, entre as quais uma delicia que se chama de Toucinho do Céu. Se o leitor não conhece, procure conhecer e veja como é bom. Tem uma coisa: é o maior volume de colesterol que se pode ingerir de uma só vez. Portanto, cuidado. Coma com moderação.

NOTA: Fotos do Blogueiro: o Palacete de Dom Melchor e o Diabo preso na Adega.

Terça-feira, 3 de Março de 2009

QUANDO O PERTO SE TORNOU DISTANTE

Não dá para calar. Foi mais fácil assistir a partida entre o Sport Recife e o Colo Colo, em Santiago do Chile, do que ir assistir, amanhã, Sport e LDU, do Equador, aqui no Recife, na Ilha do Retiro. A diretoria do Sport está pisando na bola, na ânsia de lucrar o mais que puder. Aliás, está dando uma de timinho, que quer aproveitar as chances de faturar, enquanto o time não é desclassificado da competição.
Estou irado, sim. Sou rubro-negro de coração, mas não aceito certos métodos retrógrados de vendas de ingressos ao campo e a flagrante incompetência da diretoria do Clube.
O que aconteceu estes dois últimos dias na sede do Sport é no mínimo revoltante. Pessoas sérias – eu sou um homem sério – disputando quase às tapas um ingresso para o jogo contra a LDU e sair de mão abanando. Inadmissível! Isto sem falar que todo cuidado era pouco, visto que havia no meio dos demandantes de ingressos, assaltantes surrupiando o ingresso do torcedor vencedor da maratona, batendo carteira e assaltando sem pena. Francamente, estou fora! Onde é que nós estamos?
Não, isto não pode ser visto como euforia da torcida. A venda, como feita no Sport, é indigna. Desisti de ir ao campo, para assistir mais um importante jogo do leão da Ilha.
Continuo rubro-negro, até a morte, porque o Sport é maior do que seus incompetentes dirigentes.
Ainda que contra a vontade, tentei descobri se havia, o que meus pais diziam, alguma “porta de travessa” que facilitasse a minha compra. Isto é, uma forma apadrinhada para alcançar meu objetivo. Não encontrei nada. No meio da confusão encontrei meu filho, também, revoltado. Ele comprou um tal de carnê de ingressos antecipados. Só que ele comprou como estudante, para assistir ao jogo num camarote a convite de um amigo. De última hora e na véspera da partida, a diretoria do Sport resolveu que ingresso de estudante não vale para entrada na área dos camarotes, obrigando a que todos comprem o ingresso de R$ 100,00! Absurdo. Abuso dos maiores. Afinal, o jovem estudante, pagando R$ 50,00, está pagando muito bem. Quanta incompetência.
Agora, meu amigo ou amiga, comparando com o que ocorreu no Chile, dá uma tristeza imensa. Em Santiago os muitos torcedores rubro-negros puderam comprar ingressos do jogo de modo civilizado, sem atropelos ou sustos, sem filas, em pontos estratégicos de qualquer dos shopping-centers da cidade, com cartão de crédito, para sentar em cadeiras confortáveis, de um estádio bem projetado e ao justo preço de apenas R$ 47,00. Não vale mais do que isto! Eu mesmo comprei ingressos quatro horas antes do jogo. Numa boa. Resultado: casa cheia, público vibrante e disciplinado, mesmo que derrotados pelos leoninos pernambucanos. Assistimos ao jogo sem percalços, em segurança e felizes com a vitória. Aquilo lá é outro mundo! Não sei quando vamos nos civilizar...
Pois é: foi mais fácil ir ao Monumental do Colo Colo, no Chile, do que ir a Ilha do Retiro. Onde, aliás, não vou amanhã! Vou assistir pela TV. Porque afinal, pelo Sport TUDO!
Moral da história: o perto se tornou muito distante.

Para esta postagem, em sinal de protesto, não coloco fotos!

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Chile: cenário exuberante na América do Sul

Assistir a vitória do Sport Clube do Recife sobre o Colo Colo, dentro de casa, foi tão bom quanto rever Santiago, depois de quatorze anos sem ir até lá.
Para minha surpresa, encontrei a capital chilena com um novo perfil. É impressionante como conseguiram, em tão pouco tempo, transformar a cidade numa metrópole de padrão internacional. Dá gosto transitar pelas largas, bem tratadas e limpíssimas, avenidas, alamedas e parques. E mais: túneis imensos, viadutos, trevos viários complexos e passagens inferiores, que terminam por conferir à cidade um trânsito ágil, com motoristas tranqüilos e seguros. Os serviços de transporte de massa é outro detalhe importante, destacando-se o metrô agora mais extenso e com novas linhas a serviço da população, além de muito limpo. Inúmeros estacionamentos subterrâneos dão uma imagem clean à cidade. Não existem as populares áreas a céu aberto ou carros estacionados pelas calçadas ou imprensados a cada lado das ruas e avenidas, atrapalhando o fluxo de transito, como e vê na maioria das cidades brasileiras. E, tem mais, não vi engarrafamentos de veículos. Talvez nessa época de férias. Não sei noutras épocas do ano.
Pelo visto, o Governo investiu maciçamente na estrutura urbana, enquanto que a iniciativa privada se encarregou de dotar a cidade de arrojados edifícios, dando uma imagem futurista de grande impacto para o visitante.
Fica claro que rolou muito dinheiro e isto dá uma idéia da pujança econômica que o país vive nesses últimos vinte anos.
Outra coisa que salta aos olhos do visitante brasileiro é o fato de não haver pedintes nas esquinas e semáforos. Limpador de pára-brisas? Nem pensar! Menores abandonados à sorte, tampouco. O povo que circula pelas ruas, em geral, desfruta de uma boa qualidade de vida e revela muita dignidade. Não vi descamisados (embora o calor de 30 graus), descalços ou maltrapilhos.
Bom... É assim, pelo menos, na capital. Não sei no interior.
O Chile não tem montadoras de veículos e importa tudo que o chileno sonha ter. Santiago está repleta de carrões, das marcas mais sofisticadas, das mais diversas procedências, circulando numa nice, sem medo de assaltantes. Ocorre que os impostos são muito baixos e um carro sai por menos da metade do preço no Brasil. Meus filhos, que estavam comigo nesta viagem, ficaram babando com o preço da sofisticada Masserati 2009, de um amigo chileno, que foi de US$ 220.000,00. No Brasil um carro igual não sai por menos de US$ 500.000,00. Isto, quando é vendido, uma vez na vida. São Paulo, pode ser...
Sempre gostei muito de visitar o Chile por ser uma experiência muito instigante. Já andei por lá quatro vezes. A conformação geográfica desse país é muito especial. Trata-se, na prática, de uma extensa “língua” de terra – encostada na Cordilheira dos Andes e escorregando pelo Oceano Pacífico – dotada de imensa diversidade. Em menos de 24 horas, por exemplo, fizemos um recorrido de, no máximo 150 km., desfrutando de uma bela praia no Pacifico, em Viña del Mar, e de uma estação de sky, no alto dos Andes, no Valle Nevado. Isto na região central do país, arredores da capital. A visão da Cordilheira, coroada de neves eternas, dão um especial toque ao cenário de Santiago. Não tem “pau de arara” que resista. Haja exclamações! Mais tempo tivéssemos, alcançaríamos o mais severo deserto do planeta, o Atacama, no Norte do país, ou, viajando no sentido Sul, teríamos chegado à bela região dos lagos chilenos. Fica para outras ocasiões.
E, se o assunto for gastronomia, não há quem resista às iguarias da cozinha chilena, misto de espanhola, crioula e mapoche. Come-se muito bem no Chile. Como especialidade, o que se destacam são os frutos do mar. Peixes deliciosos, crustáceos exuberantes, como a centolla – imenso caranguejo – que pela raridade e sabor da carne pode custar, no mercado público, a bagatela de R$ 400,00 a unidade. O sujeito precisa ter muitos pesos chilenos na carteira e muita coragem para enfrentar uma conta dessa ordem. Além disso, saboreiam-se com facilidade outros produtos do mar, entre os quais as ostras magníficas, ouriços, lagostas, locos e peixes deliciosos como o côngrio e a reineta. Para quem for por lá, aconselho pedir um popular Chupe de caranguejo e loco. É de comer ajoelhado, lamber os beiços e sentir vontade de repetir. Ah! Já ia esquecendo de registrar que o Chile é especialista na produção de salmão. É de lá, aliás, o salmão que em geral consumimos no Brasil.
Outro destaque desse maravilhoso país é a produção vinícola e isto merece outra postagem, que logo seguirá. Nesta não cabe mais...
Foi bom voltar ao Chile que, sem dúvidas, se constitui num cenário diferenciado na América Latina.

Nota: Fotos do Blogueiro e do Google Imagens.

Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

Um Leão contra os Mapoches

Os mapoches eram índios guerreiros, que lutaram por trezentos anos contra os espanhóis colonizadores, vindos dos Andes peruanos, na ocasião comandados por Pedro de Valdivia e sua guerreira mulher Inês Suárez. Isto foi no século 16.
Sempre em busca de metais preciosos, particularmente o ouro, resolveram atravessar uma das regiões mais inóspitas do continente sul-americana, o deserto do Atacama, indo parar mais ao Sul, formando, a partir dali, o que compreende o Chile de hoje.
Saíram do Peru com verdadeiro exército e muitos escravos. A travessia do deserto foi uma verdadeira epopéia que durou anos. Durante o dia a temperatura podia chegar aos 50 graus Celsius e à noite batia um frio congelante. Sem suportar tanta agressividade do tempo, os escravos foram morrendo pelo meio do caminho e ao chegar à região central, onde fundaram a cidade de Santiago, a capital chilena, já era um efetivo bem reduzido e, por isso mesmo incapaz de vencer os primitivos habitantes, o indios Mapoches. Foi uma luta sem trégua. Os conquistadores tiveram imensas dificuldades, sobretudo por quererem escravizar esses indígenas. Foi um jogo bem diferente daquele que tiveram mais ao Norte, contra os Incas e Maias.
Entre os caciques mais famosos dos mapoches, houve um, chamado Colo-Colo, que se tornou um ícone, dada sua bravura de guerreiro e estrategista. Defendeu como poucos, com unhas e dentes, sua gente e sua nação.
Os espanhóis com muitos reforços vindos do Vice Reinado do Peru e da própria Espanha terminaram, como se sabe, conquistando a estreita língua de terra apertada entre os Andes e o Oceano Pacífico, hoje conhecida como Chile.
Os chilenos, quando não são de biótipo ibérico (descendentes de espanhóis) são do tipo índio e conservam seus orgulhos de nação indígena.
Em homenagem ao cacique Colo-Colo os chilenos criaram um time de futebol e deram seu nome. O time é hoje um dos mais populares do país, tanto pelas belas campanhas que vem fazendo dentro do país e no continente, quanto pelo patrimônio que acumula.
Na atual Copa Libertadores da América, versão 2009, toca ao Sport Clube do Recife competir com o Colo Colo, pela conquista do mais importante troféu do continente.
O primeiro jogo entre as duas equipes aconteceu nesta semana pré-carnavalesca e foi travada em território colocolino, em Santiago do Chile.
O entusiasmo do Clube pernambucano foi de tal forma que terminou por mobilizar uma torcida calculada em 2.000 pessoas vestindo a camisa rubro-negra, dentro do Estádio Monumental do Colo Colo no subúrbio de Macul, em Santiago do Chile.
Movido pelo fanatismo rubro-negro do meu filho José Antonio (Tico), depois de 7 horas voando, desde o Recife, juntei-me com ele à torcida pernambucana dentro do Estádio Monumental do Colo Colo, onde vivi um dos momentos desportivos mais emocionantes da minha vida. Passados dois dias deste embate ainda me sinto em estado de prazer e satisfação. Valeu à pena este esforço de atender este pedido de Tico.
Falando do evento em si, começo afirmando que fiquei impressionado com a quantidade de torcedores que vieram até o Chile para, eu diria, assustar os colocolinos com o grito de guerra do cazá, cazá, cazá. Eles ficaram surpresos com essa torcida estrangeira nunca antes vista, dentro da própria casa. Os jornais chilenos não se cansavam de registrar este fato. As ruas de Santiago, de repente, se encheram de torcedores rubro-negros, causando preocupações para a policia local – os Carabineiros de Chile – e para a representação diplomática brasileira. Os colocolinos, por sua vez, além de surpresos, com aquela inédita manifestação sentiram-se desafiados, dentro de casa, e reagiram com gestos obscenos e termos chulos. Tive alguma preocupação quanto à segurança, logo dissipada pela severa assistência dos carabineros, que estiveram a postos diuturnamente, garantindo a ordem.
O clima que se instalou foi um verdadeiro frisson. A rigor foi emocionante ver a bandeira de Pernambuco tremulando, misturada com as do Brasil e a do Sport. Foi, igualmente emocionante ouvir a torcida pernambucana gritar, como nunca, o cazá, cazá, cazá. Os chilenos ficaram galvanizados. Amigo chileno afirmou que ninguém entendia como apareceram tantos torcedores estrangeiros na cancha chilena.
A entrada em campo, do time do Sport, foi apoteótica. O torcedor pernambucano delirava. Vi nego chorando de emoção. Bandeiras, confete, balões vermelho e preto no ar, chuva de papel picado, apitos e outros bichos. Um delírio pernambucano no território mapoche. Quase uma ousadia.
Mas, o melhor estava por vir: com seis minutos de jogo, Ciro, o menino de Salgueiro, comete um gol na rede do Colo Colo, levando a galera pernambucana ao que chamo de orgasmo coletivo. Milhares de abraços, até beijos apaixonados, muita gente se desequilibrando nas cadeiras, o grito de guerra uníssono, começando uma festa que já dura dois dias, desde a Cordilheira dos Andes até o Vale do Capibaribe. Antes de terminar o primeiro tempo o Sport, através de Wilson, marcou outro gol ainda mais bonito, cuja reação o leitor pode imaginar.
O mais interessante, por outro lado, foi observar a perplexidade que se instalou entre os chilenos, que zombaram do Sport a semana toda. Pela primeira vez, em Copa Libertadores, um time brasileiro dava um banho no Colo Colo. Pareciam não acreditar e, a essa altura, já não reagiam adversamente. Ao contrário, murcharam sempre sob o olhar da policia. Inclusive, tentavam trocar as camisas que vestiam pelas dos trocedores rubro-negros. Imagine a cena. Houve quem aceitasse a proposta.
No segundo tempo o técnico do Sport resolveu praticar uma retranca e sustentar o belo placar de 2x0. Uma falha da zaga rubro-negra deixou que os colocolinos fizessem um gol, o gol de honra, levando os torcedores locais a um momento de alegria.
O tempo correu e o apito final marcou a vitória do Sport Club do Recife. Daí para frente foi uma festa pernambucana, espalhada pela capital chilena, tudo devidamente e fartamente registrado pelos meios de comunicação local.
Pois é, com todo respeito à História, o Leão da Ilha devorou o Cacique Colo Colo, na fria noite chilena de 18 de fevereiro de 2009.

NOTA: Cronica postada em Santiago do Chile, 21.02.09
Fotos do Blogueiro. A torcedora rubro negra e pernambucana e meu fiho torcedor incondicional do Sport

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

A Erotização do Carnaval

As revistas semanais e, particularmente, as de fofocas da sociedade e da TV já estampam com destaques as figuras femininas que vão brilhar – com trajes reduzidos – na passarela do samba da Marquês de Sapucaí e em outros pontos carnavalescos do país.
Nessas horas, com certeza, as agencias de publicidades estão a postos para colher as melhores poses e fazer a promoção turística do Brasil, baseada nas beldades peladas, corpos exuberantes e a promessa de muita gandaia. Esta é, infelizmente, a marca registrada do nosso país, mundo afora: futebol e mulher sedutora e liberal.
Sem dúvida, como um bom brasileiro, encho a vista com as beldades que são mostradas na TV, vídeos e magazines impressos. A mulher brasileira é muito bonita, mesmo.
Mas, por outro lado, não gosto muito dessa marca brasileira. Estou cansado de ser saudado, no exterior, como um cidadão vindo do reino do futebol, samba e mulata. Acho que o Brasil tem muitos outros motivos para ser admirado.
Fico revoltado de ver em algumas cidades brasileiras, principalmente no Nordeste, as hordas de estrangeiros à cata das meninas carentes – muitas de menor idade – vendendo o corpo, sob o cúmplice olhar das autoridades.
E, quando chega o carnaval, a coisa se multiplica de modo assustador. Parece que o clima carnavalesco incita a mulherada. Haja bundas, pernas e peitos mais peitos, pernas e bundas, para a escolha do freguês.
Conta-se que a erotização do carnaval começou pelas bandas do Rio de Janeiro, no inicio do século passado, após o surto da gripe espanhola. Esta história vem bem contada por um estudo realizado pela Fiocruz, em 2006, sob o titulo O Carnaval, a peste e a “espanhola”, realizado pelo pesquisador Ricardo Augusto dos Santos. O relato é impressionante no que tange ao arrasador surto da famosa gripe, entre setembro e novembro de 1918.
Mas, o que mais me chamou a atenção foi a abordagem sobre o Caranaval. O texto é relativamente longo. Mas, uma das partes mais interessantes, foi quando da constatação de que, salvos da peste, os cariocas festejaram o reinado de Momo, de 1919, de maneira mais liberal, escancarada e cheia de malícias. Marchinhas e sambas foram compostos fazendo referencia à gripe, também conhecida como Peste Negra (os mortos ficavam pretos e sangravam) e incentivando o povo a curtir desbragadamente a vida. Uma dessas marchinhas dizia: Assim é que é! Viva a folia!/ Viva Momo – Viva a Troça!/ Não há tristeza que possa/ Suportar tanta alegria/ Quem não morreu da Espanhola,/ Quem dela pode escapar/ Não dá mais tratos à bola/ Toca a rir, toca a brincar ...
O mulherio carioca, a partir daquele carnaval, resolveu exibir as suas partes, até então, mais intimas, como pernas, e colo, num comportamento inusitado. As saias subiram, os decotes se aprofundaram e os machos enlouqueceram. Segundo o estudo, “começou o Carnaval e, de repente, da noite para o dia, usos, costumes e pudores tornaram-se antigos, obsoletos e espectrais” e, mais adiante, reza que: “desde as primeiras horas do sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade”. O povo resolveu comemorar a vida da forma mais liberal e exacerbada possível.
Carlos Heitor Cony, num dos seus escritos, considera que, nesse carnaval de 1919, houve uma rápida mudança de padrões de relacionamento social, comprovado pelo record número de defloramentos registrados nas delegacias de policia. Sim, naquela época era caso de policia! Somente na Rua Santo Amaro (região do Catete e Glória) foram registrados cerca de 2 mil casos.Tantos que os que ocasionaram gravidez deram origem à expressão “filhos da gripe”.
Pelo visto, a turma gostou tanto daquela gandaia que nunca mais abandonou o costume. E, ao longo dos carnavais subseqüentes, trataram de aperfeiçoar os figurinos. Noventa anos depois, as alegorias do samba e os camarotes não dispensam a nudez e gandaia domina o espírito da festa. Já teve até Presidente da República, acompanhado por uma sem calcinha!
E agora a coisa é muito mais fácil. Defloramento é coisa elementar e primária. É uma necessidade na cabeça de qualquer mocinha. Virgindade é falta de higiene. Ninguém corre o risco de sofrer um inquérito policial, até porque, com as oficiais camisinha e pílula do dia seguinte, a coisa fica extremamente mais estimulante. Não tem filho da gripe, nem do carnaval! A ordem é curtir.
O costume se espalhou pelo resto do país, ainda que com menor intensidade. Mas, se espalhou. Onde tiver carnaval, tem sexo exacerbado.
Não! Não sou puritano! Mas, acho que um pouco de comedimento faria um enorme bem a este País.
NOTAS:
1 - Quer saber mais sobre este estudo da Fiocruz? C lique em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702006000100008&lng=en&nrm=iso Vale à pena.
2 – Meus agradecimentos à amiga Profa. Rosa Carneiro (UFPE), que provocou e me ajudou na pesquisa deste tema.

3 - Foto obtida no Google Imagens

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Acabaram com o Frevo

Mesmo sem entusiasmo de cair na folia carnavalesca, como já confessei semana passada, incentivado por amigos, decidi participar de uma das previas deste carnaval que se aproxima. Fui, ontem a noite, ao Baile do Havaí, do Country Club do Recife. Este baile foi sempre uma das melhores festas carnavalesca da cidade. Nada de multidões, muita gente amiga e bonita e, finalmente, um local especial, tanto pela beleza natural, quanto pela segurança garantida.
Coloquei uma roupa colorida, minha esposa pôs flores nas madeixas, os amigos vieram também coloridos e lá fomos nós.
Pela decoração do salão e redondezas, a coisa prometia uma festa de arromba.
Logo na entrada, vi que uma orquestra, pouco conhecida, executava músicas carnavalescas, igualmente pouco conhecidas e os primeiros foliões faziam suas evoluções no salão.
Muita gente jovem, incluindo muitas garotas lindas. Uma festa cheia de beleza.
Mal começamos a “calibrar” com as primeiras doses de uísque e vimos a festa simplesmente parar. A tal orquestra completou seu tempo contratado e bateu retirada. Fez-se um silencio incomodante, somente quebrado por uma música mecânica “tocada” por um moderninho DJ. As músicas não tinham nada a ver com o se conhece como carnaval na terra do frevo e do maracatu. O cara teve a audácia de colocar músicas de sucesso na zona do rock americano. Intrigado com a parada extemporânea da festa e indignado com o gênero de música, imposta por um fedelho metido a doutor no assunto, achei-me no direito e não tive dúvidas de ir até lá protestar. Para minha surpresa e alívio, percebi que não estava sozinho nesse protesto. Antes de mim já havia duas ou três pessoas “dando um pau” no tal DJ. “Ah! coloquei essas músicas, a pedido da galera” desculpou-se o sujeito com a cara mais cinzenta. Apareceu, na mesma hora, uma cidadã se desculpando e explicando que a banda que deveria se apresentar naquele momento havia atrasado e que providências estavam sendo adotadas para corrigir a situação.
Voltei para minha mesa e algum tempo depois a nova banda executa seus primeiros acordes.
Quem esperava frevos ou bons sambas carnavalescos, outra vez se frustrou. Entrou em cena um cidadão que somente interpreta músicas de Chico Buarque de Holanda. Artista excelente! Mas, para aquela festa? Nunca! A morgação somente se ampliou. No meio da apresentação ele convocou uma pequena batucada, com componentes de uma escola de samba da cidade e logo depois encerrou a sua apresentação. Metade do pessoal que foi à festa já havia desistido. Eu tive muita vontade de debandar, mas tive que ficar “fazendo sala” para meus amigos convidados, que por gentileza agüentaram esses acontecimentos. Eles são pernambucanos, mas vivem em Washigton (Estados Unidos) e chegaram ao início da semana, “loucos” por frevar.
Depois de outro longo tempo de intervalo foi a vez de uma banda de Axé-Music. Já passava das três horas da manhã e o pequeno grupo de foliões que restava, buscava segurar a animação. A maioria era gente jovem, que gosta do ritmo baiano.
Chegou uma hora que os nossos amigos resolveram ir embora e algum pouco tempo depois bati retirada, com minha mulher e meu filho. Insatisfeito até dizer basta, para não dizer bosta.
No caminho da volta para casa, critiquei severamente a ruindade da festa e a decepção de não haver visto carnaval, à moda pernambucana. Foi aí que tive a maior surpresa da noite: meu filho contestou-me e me perguntou se o que eu desejava era ter ouvido frevo e a orquestra do Maestro Spock. Ele foi inclemente. “Pai, esta festa foi massa! Tu não sabe o que tá dizendo! O show de Seu Chico foi o máximo! Essa história de frevo é uma coisa antiga. Tu tem que se atualizar”. Tive vontade de chorar. Incrédulo, resolvi calar-me e engolir, a seco, aquela realidade, deixando o papo que devo levar com ele, sobre este tema, para outra hora. Fui dormir insatisfeito e lamentando o ocorrido.
Moral da história: acabaram com o frevo! Vão acabar com nosso verdadeiro carnaval.
Para completar, ao acordar neste sábado, li no jornal que a Banda Calypso, com Chimbinha e Joelma, animará o Galo da Madrugada. Por acaso eles sabem o que é frevo? Chega. Está demais. Acabaram com o frevo.
Ainda bem que estarei longe dessa traição, neste ano.
Sinto saudades dos velhos carnavais, como o do Clube Internacional do Recife, das orquestras de Nelson Ferreira e de José Menezes, que tocavam sem parar e não deixava a turma parar de fazer o passo até o dia raiar.

NOTA: estou tão desolado que nem fotos encontro para ilustrar esta crônica.

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

É CARNAVAL, OUTRA VEZ

Antigamente, quando chegava esta época do ano, eu ficava ligadão nas prévias carnavalescas e ia “esquentando as baterias” para curtir o tríduo momesco.
Hoje em dia, porém, a coisa tem sido muito diferente. Mudei eu, é verdade, com o passar do tempo. Mas, mudou também o carnaval. Já não é como antigamente. Hoje, tudo é agigantado, fabricado, comercializado, explorado e, por cima, permeado de violência. É preciso ter muito cuidado para o que ocorre no meio da folia. Prefiro a segurança de um programa mais recatado.
Lembro – com saudade – dos velhos reinados de Momo e do tranqüilo carnaval de Olinda, dos anos 80. Levávamos nossos filhos pequenos, sem dificuldades e sem medo de enfrentar contratempos. Poucos anos antes, brincávamos o carnaval dos salões, nos nossos principais clubes sociais. Eram festas retumbantes, de saudosas memórias.
Ultimamente, a coisa tem sido de tal maneira assustadora que prefiro fugir da folia, muitas vezes correndo para lugares distantes e culturas distintas. Maioria das vezes para lugares que carnaval nem é lembrado.
Em 2007, fui, com a família, curtir Buenos Aires, capital da Argentina. Lá carnaval passa à distancia. Aqui e acolá, podem ser vistos agrupamentos de pessoas em ruas previamente fechadas, para curtir uma coisa parecida com uma quermesse de interior ou subúrbio brasileiro. A festa da Vitória Régia, que acontece todo novembro, no bairro de Casa Forte, Recife, bate qualquer desses festejos argentinos. Na avenida principal de Buenos Aires, a famosa 9 de Julio, o carnaval foi comemorado, nesse ano, com um grande torneio de tênis, envolvendo as estrelas locais deste esporte, dentro de uma mega arena ali montada. Para o turista é ótimo porque lá, não é feriado. Tudo funciona normalmente: comércio, escolas, bancos e repartições do governo
No interior do país, na localidade de Gualeguaychu, vem sendo promovido um carnaval, digamos, mais audacioso numa tentativa de imitar o carnaval carioca. Tem desfile de fantasias e de mulheres com trajes sumários. Dançam os ritmos regionais, que têm certa cadência e evoluções propícias aos propósitos de imitar nosso carnaval tupiniquim.
Noutros pontos do país, particularmente nas províncias do Noroeste argentino, segundo meu amigo argentino, Jorge Morandi, – atualmente passando férias no Recife, como meu hóspede – o carnaval acontece de formas bem típicas, respeitando os fortes traços da cultura local. Para começar a coisa é lembrada como um folguedo ligado à figura do Diabo. Brinca-se a valer, por oito dias, sempre se reportando à figura do dito cujo, representado pelas centenas de mascarados, conhecidos como los endiablados.
Na Província de Jujuy, numa região denominada Quebrada de Humahuaca (Paisagem Cultural da Humanidade, pela Unesco!), acontece um carnaval muito animado e concorrido. É atração turística. A folia reina absoluta ao som e ritmos trazidos dos ancestrais incas da Bolívia e do Peru. Vide imagens a seguir.
Segundo Morandi, quando o carnaval termina, no domingo seguinte, os grupos de comparsas (blocos carnavalescos) enterram o carnaval, oferecendo, em agradecimento à Pachamama (Mãe Terra, no idioma indígena) a oportunidade vivida e um agradecimento pelo que foi colhido durante o ano. São frutas, cereais, bebidas e, o que eles consideram muito importante, uma folha de coca. É oportunidade, também, de pedir graças à Pachamama. Os que, por exemplo, desejam construir uma moradia oferecem ferramentas de construção, tijolos ou outras peças relativas ao pedido. Pede-se, ainda, pela saúde, pela família e pela felicidade afetiva.
Por fim e para completar, enterram também o Demônio, que neste caso é representado por um caprichado boneco. Deixam-no por lá, para que não perturbe durante restante do ano. A cova é marcada por um montinho de pedras, para que no ano seguinte seja encontrada facilmente, ocasião em que desenterram o “sujeito” abrindo uma nova temporada de festejos carnavalescos.
Ah! Já ia esquecendo! O tal boneco de Satanás, pode ter um pênis com proporções avantajadas, que é beijado, com ardor, pelas moças solteiras desejosas de arrumar um marido. Dizem que, quando a coisa é feita com fé, é “tiro e queda”... no ano seguinte a beijadora não precisa repetir o gesto.
Este gênero de carnaval, que acontece na Quebrada de Humahuaca, se repete com pequenas variações, já pude observar, em países da América Central e Caribe. Lembro de haver visto algo parecido na República do Panamá, onde já passei um carnaval. Lá, ao invés de endiablados, são chamados de diablicos. São costumes interessantíssimos.
Neste próximo carnaval, pretendo ir ao Chile. Quem sabe descubro outros costumes, para entender, outra vez, que carnaval não se faz somente com samba e frevo.

Notas: Fotos obtidas no Google Imagens.
Sugestão: se quiser saber mais sobre o carnaval e a Quebrada de Humahuaca, abra o Google. Tem informes excelentes.

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

HACHIKO – UM ÍCONE JAPONÊS

Está combinado. Encontro você, hoje, às 18:30h. na saída da estação do Metrô, em Shibuya, junto a estátua do cão Hachiko” . Foi o que me disse Mr. Kitagawa, quando resolveu me levar a uma partida de futebol, no estádio de Yoyogi, em Tóquio, nos idos de 1984, quando passei uma temporada no Japão.
O que significa Hachiko? Que cão é esse? Estátua?” perguntei ao meu adviser japonês. Ele, muito apressado e sempre sorridente, disse-me que, lá, junto a tal estátua, teria mais tempo de me contar uma bela história. “Procure essa estátua, Buragireiro Sam (Sr. Brazileiro), e me espere”, saiu dizendo o japona. Assim fiz.
Pouco antes da hora aprazada, como manda a pontualidade nipônica, eu estava no local do encontro. Postei-me próximo da inusitada (para mim) estátua em bronze, de um belo cachorro. Ao meu redor, várias outras pessoas, igualmente, esperando outras pessoas mais. De cara, dava para ver que se tratava de um estratégico ponto de encontros na mega-metrópole nipônica. Fiquei curioso, para saber da tal bela história, prometida por Kitagawa.
Hachiko era o nome do cachorro, da raça Akita, famoso pela sua lealdade ao seu dono, e que se transformou num ícone popular, no Japão, da passada década de 20.
Todo santo dia, Hachiko acompanhava o seu dono, o Professor Eizaburo Ueno, da Universidade de Tóquio, de casa até a estação de metrô e, no fim da tarde, ia encontrá-lo no mesmo local, acompanhando-o de volta para casa.
Aconteceu que no dia 21 de maio de 1925, quando Hachiko tinha um ano e meio de idade, o Professor Ueno não voltou, por haver sofrido um derrame cerebral fatal, em plena sala de aula.
Após a morte do seu dono Hachiko foi adotado por parentes do Professor. Obstinado, terminou fugindo e voltando à rotina de esperar seu dono, toda tarde, na estação de Shibuya. Naturalmente que o fato causou imensa surpresa, pelos que o observava a cada dia. Penalizados e, sobretudo, muito sensibilizados com o quadro, os funcionários da estação e alguns freqüentadores assíduos do local alimentavam Hachiko, que insistia naquela espera inútil. Essa coisa durou até 7 de março de 1934, quando o pobre cão, já velho, com sérios problemas de saúde e andar cambaleante morreu no mesmo local, ainda esperando seu dono voltar. Esperou por, quase 9 anos!
Esta história repercutiu nas mentes dos japoneses. A memória de Hachiko está, até hoje, imortalizada por uma estátua, mandada fazer por amigos e admiradores do cão, colocada na entrada da movimentada estação do bairro de Shibuya. É um dos pontos de encontro mais famosos e tradicionais de Tóquio. Foi lá que me encontrei com Kitagawa, para ir ao estádio de Yoyogi. Foi lá que ouvi esta tocante história, prova inequívoca da lealdade da raça canina, para com seu dono. Sempre que me ocorria passar naquela estação – eu vivi num hotel, em Shibuya – parava e reverenciava a imagem do leal cão.
Curioso, me explicou Kitagawa, foi que, durante a 2ª. Guerra Mundial, o Governo recolheu todas as estátuas de bronze do país, derreteu e transformou o material resultante em armamento. Após a Guerra, contudo, em 1948, os amigos de Hachiko procuraram o filho do escultor da primeira estátua e mandaram reproduzi-la como originalmente. É a que se encontra lá até hoje. Foi a que eu vi e, ao lado da qual, escutei atentamente o relato do meu simpático adviser.
Esta história virou um filme – Hachiko Monogatari – de imenso sucesso no Japão, no ano de 1987, rendendo US$ 4,5 milhões nas bilheterias de cinemas daquele país.
Para minha surpresa vi, esta semana, no Blog Panorama Nihon, que recomendo ( http://oglobo.globo.com/blogs/panoramanihon/), da jornalista pernambucana, Bruna Siqueira Campos, atualmente vivendo em Tóquio, que Hollywood está rodando uma nova versão dessa história, estrelado por Richard Gere, cujo titulo deverá ser Hachiko, a História de um Cão. Vou ficar na expectativa da estréia, que, segundo Bruna, deve ocorrer no segundo semestre deste
ano.

Notas 1: Foto obtida no Google Imagens. 2: Agradeço à amiga Bruna Siqueira Campos por provocar-me estas reminiscências e de escrever esta postagem. 3: Se tiver interesse de ver imagens dessa história clique num dos YouTube indicados ao lado, em cima. Recomendo especialmente o primeiro e o quarto clips.

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

INOCÊNCIA PUERIL

A inocência das crianças é quase sempre coisa muito divertida. Na missa do domingo passado, assisti a uma cena simples, porém muito divertida. Uma senhora veio receber a comunhão com uma filhinha de, aparentemente, cinco anos. Após receber a eucaristia, imagino que teve dificuldades de explicar à filhinha que ela, ainda, não podia comungar. A garotinha chegou a abrir a boca e esperar uma hóstia. Ora, se todo mundo come, por que não posso comer também, deve ter pensado a inquieta menina. Vai ver ela estava com fome. Tive que achar graça na situação.
Esta história me fez lembrar outra passagem, também por ocasião de uma comunhão. A velhota, muito vaidosa, cabeleira tingida de lilás, talvez rosa choque, perua até dizer basta, cheia de balangandãs e extremamente falante vai à missa com uma netinha, imagino que da mesma faixa de idade da garota da missa de domingo. Na hora da comunhão deixa a garota no banco e vai receber a comunhão. Retorna contrita, cabeça baixa, mãos postas tocando no queixo e encaixada entre os peitos avantajados, ajoelha-se e fica lá por um bom tempo orando. A netinha observa intrigada a “tristeza” daquela cena de repentino recolhimento da avó perua e ao final, quando a coroa, digamos, volta ao seu normal, a menininha se sai com uma verdadeira pérola: “Vovó, foi ruim? Tem gosto de que?”. O episódio foi relatado a Deus e o mundo, pela estridente vovó, causando o maior sucesso.
Boa também foi a de uma garotinha, filha de colegas de trabalho, que nunca havia observado o tamanho da barriga de uma mulher grávida e manifesta sua admiração quando uma amiga da família chega à sua casa, em meio de uma festa de aniversário, e se sai com um diálogo inesquecível: “Êita neguinha, tu tá é gorda!”. A grávida muito feliz diz: “Tô gorda não. Tô esperando um bebê. Ele está aqui dentro da minha barriga”. A meninha, muito admirada, não teve dúvidas e atacou com outra pergunta: “Ôxente, e como foi que tu engoliu esse bebê?”. Inocência pura.
Acho que todo mundo tem uma boa para contar. Eu mesmo, no meu dia-a-dia de pai, vivi momentos deliciosos com meus inocentes filhos.
Não posso esquecer que Manuela, com sete anos de idade, num telefonema, comigo em Tóquio (Japão), me pediu que na volta eu trouxesse uma caixinha de morangos, que ela gostava muito. Como trazer de tão distante, com tantas horas de vôo, uma caixa de morangos? Inocência pura, também.
Já José Antonio - o Tico - meu caçula, nos fez passar por duas boas: a primeira foi quando ele ainda usava fraldas e aprendia a falar. Entrou na sala, cheia de visitas, com a descartável pesada de xixi e cocô, pedindo para a mãe trocar a fodinha! Foi demais. A casa quase vem abaixo com tantas risadas do “público presente”. Explico: quando minha esposa o chamava para trocar a fralda suja, dizia carinhosamente: “Vamos trocar a fraldinha”. Ele entendeu desse modo... paciência.
A outra de Tico foi também impagável: certa manhã de domingo, ele veio com Sonia, ao meu encontro na sede do Country Club (Recife), onde eu havia passado por um treino na quadra de tênis. Eu ainda estava de short e raquete na mão, conversando com companheiros de cancha, quando o guri entrou e correu feliz para me abraçar e disparou com a seguinte pergunta: “Painho, tu já jogou pênis hoje?” Foi hilário! A partir desse dia, meus amigos, no Clube, quase sempre perguntavam se eu ia jogar pênis...
É gostoso ser criança. É fantástico observá-la. As franqueza e pureza da infância são encantadoras.
Dos meus filhos crianças, hoje bem crescidos, dois dos quais já casados, resta a saudade dos tempos de inocência.
Agora, estou à espera dos netos, para viver novos e deliciosos episódios pueris.
Nota: Ilustrações tiradas do Google Imagens.

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

ORDEM E PROGRESSO, COM AMOR IMPLÍCITO.

O ano nem bem inicia e já começam a surgir idéias insólitas, tiradas do imaginário de quem, aparentemente, não tem o que fazer. Só sendo.
Imagine que comecei 2009 lendo, entre muitas outras coisas, um artigo retomando a idéia de incluir a palavra AMOR entre os Ordem e Progresso da bandeira nacional. Segundo o articulista, isso seria um incentivo à solidariedade no seio da sociedade brasileira, desorganizada e saturada de problemas socioeconômicos. Com AMOR inscrito na bandeira o brasileiro se sensibilizaria e poderia transformar o País. Ficaria então: Ordem, Amor e Progresso. Uma ilusão, na minha humilde visão.
Na prática, esta idéia remete às origens da inscrição contida na bandeira, surgida na ocasião da proclamação da Republica, com os Jacobinistas (assunto para outra ocasião) marcando presença histórica e impondo parte do lema do movimento positivista liderado pelo pensador francês Auguste Comte, que dizia exatamente: Ordem, Amor e Progresso. Amor por principio, Ordem por base e Progresso por fim. Ou seja, uma idéia copiada dos franceses, sem nenhum idealismo brasileiro.
Tudo bem, deu certo e os brasileiros incorporaram com amor, ao longo desse século e pouco de república.
Quando eu pensava que isso já havia sido demais, ouvi, na Hora do Brasil de ontem (05.01.09), o anúncio do projeto de Lei, do senador Cristóvão Buarque, propondo a supressão total da inscrição Ordem e Progresso, do pavilhão nacional, no ano de 2014, caso, até lá, ainda houvesse analfabetos no país. A justificativa do senador é de que aquela inscrição não faz o menor sentido, diante do imenso contingente de analfabetos, que ainda existe no País. Outra ilusão. Ele quer chamar atenção.
Fiquei atônito diante dessas “genialidades”. E, de imediato, me perguntei: o que será que virá primeiro, o Ordem, Amor e Progresso ou a faixa branca do NADA?
Esta coisa me faz lembrar outras idéias estapafúrdias que surgiram no ano passado. Quem não se lembra das “brilhantes idéias” de implodir o Cristo Redentor – eleito na ocasião como uma das sete maravilhas do mundo moderno – por ser horrendo e de imenso mau gosto, ou a idéia de cassar o título de Padroeira do Brasil, concedido, por Lei, a Nossa Senhora Aparecida? Haja paciência...
Mas, voltando ao caso da bandeira, resta encontrar a lógica dessas idéias de mudar ou suprimir a tradicional inscrição da bandeira nacional. A pergunta que não cala é: desde quando uma dessas mudanças, transformaria o Brasil num país justo para com seus cidadãos e socialmente mais organizado? Ninguém garante.
Para começar, o pavilhão nacional é muito pouco reverenciado pelos brasileiros. A bandeira brasileira só ganha espaço e amor febril, de quatro em quatro anos, por ocasião de uma Copa do Mundo de Futebol. Todo mundo vai às ruas com sua bandeirinha ou bandeirão e, dá-lhe Brasilililililil !!!! Isto, se a seleção se encaminhar bem. Se ocorrer ao contrário, o auriverde pendão é recolhido, mais que depressa. Ou seja, para o povão é, muito mais, considerada uma banal flâmula de um time de futebol, do que qualquer outra coisa. Doloroso...
Noutros países o cidadão comum faz questão de hastear o seu pavilhão nacional na frente de casa e todo dia. A gente anda pela Europa e o que mais encontra são as bandeiras nacionais e, agora, da União Européia, hasteadas em lugar de destaque. Nos Estados Unidos, nem se fala. É uma “febre”! Tem bandeira hasteada em todos os prédios públicos, casas comerciais, bancos, escolas e, até, simples residências pelo país afora. Na 5ª. Avenida, em Nova York, é o que mais se vê. Uma atrás da outra.
Onde se vê isto no Brasil? São raros os casos. Em Brasília, além do bandeirão da Praça dos Três Poderes, podemos ver outra menor no Palácio do Planalto, para avisar a presença de Lula, no Congresso e em alguns outros prédios da Esplanada.
Aqui pra nós, acho que o brasileiro tem é preguiça de hastear (de manhã) e recolher (ao escurecer), a bandeira, a cada dia. Embora existam muitos mastros, por todo lado.
Portanto, do que valerá tirar ou acrescentar inscrições à bandeira brasileira. Ela é bonita e imponente com a mensagem que sempre teve. Ninguém vai mudar o Brasil com idéias tolas como estas.
O caminho para a Nação Solidária e Justa, que se sonha, passa por outros ideários. São os projetos que visam ao desenvolvimento da Educação, da Saúde, do Emprego, com distribuição de renda mais democrática, e um grande projeto de construção nacional visando a Sustentabilidade Socioeconômica e Ambiental, com efetiva participação dos governos e iniciativas privadas.
E você caro leitor, o que acha disso? Responda a pesquisa em cima da Coluna ao lado.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens.

A Pesquisa sobre a nudança na bandeira nacional foi respondida por 16 visitantes do Blog. 94% disse não concordar com mudanças. Apenas uma pessoa concorda com uma mudança.

Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Ano Novo em ritmo preguiçoso

O ano começou, mas, em ritmo de preguiça. Essas duas últimas semanas do ano, de finais longos e quase que colados, deixou a metade do mundo numa lomba danada. Tudo no ritmo de dolce fare niente e comemorações seguidas. As ressacas do Natal e outra, maior ainda, do Reveillon contribuíram decididamente. Tenho me espreguiçado muito, com alguma impaciência, e não entendo como tem gente que gosta de viver ao sabor do ócio.
A noite de Natal foi em família. Junto com minha esposa, filhos e nora enchemos a casa, com os parentes, em torno de uma caprichada mesa natalina e muitos presentes a serem trocados.
Uma oração de agradecimento e o nosso habitual canto de Parabéns Prá Você ao Menino Jesus – presente numa imagem em madeira, talhada em Braga, Portugal, no inicio do Século 19 e herança de família no centro da mesa (Vide imagem ao lado, numa pose especial para o Blog) – abre o que eu considero uma extravagante comilança.
Um detalhe: nessas ocasiões me entrego, por inteiro e cheio de prazer, ao meu lado de Chef de Cozinha e preparo o peru e tender natalinos. Passo dois dias ligado nas coisas que vão sair do forno e fogão. O pessoal gosta e come de se lamber.
O que mais me encantou e preciso comentar, dessa nossa noite de Natal, foi o fato de havermos usado e abusado dos recursos da moderna tecnologia de comunicação, ao “trazer”, para a noite de Natal em família, nossa filha, Manuela, e o genro, Nigel Davidson, que vivem na Austrália. Através de um fantástico programinha instalado nos nossos computadores foi possível que eles participassem da festa da família, acompanhando ao vivo e a cores, todos os lances da nossa noitada. Os computadores passaram a noite ligados e sintonizados nas duas casas, uma no Recife e outra em New Castle (200 km ao Norte de Sydney), onde vive a família do meu genro. Em casa, inclusive, conectei o computador a uma grande TV de LCD, onde as imagens, geradas no outro lado do mundo, davam-nos a sensação, quase física, da presença da família Davidson entre nós. Maravilhoso mundo moderno. Belo presente de Natal.
Desse intercambio, algumas coisas merecem ser registradas: enquanto aqui era meia-noite, na Austrália já era 14h do dia 25, hora, aliás, em que os australianos comemoram o Natal, sempre num almoço solene, em família. A imagem que recebíamos era de um belo dia de sol (eles estão em pleno verão), à beira mar, com uma mesa bem montada, num varandão na casa dos sogros de Manuela. O prato principal era uma ovelha assada ao molho de hortelã e os vinhos eram de boa safra australiana. A Austrália é produtora de grandes vinhos. O clima era de descontração e as pessoas vestiam-se com roupas leves, ao contrário dos brasileiros, com roupas mais soirée e de gala. Brindamos simultaneamente em português e inglês.
Manuela e Nigel, com a família australiana, tiveram a chance de ver cada um de nós, trocar saudações, chorar de emoção, ver os presentes que eram distribuídos, participar das brincadeiras que rolaram, enquanto nós, do lado de cá, matamos a saudade dos dois.
Foi um Natal para guardar na memória.
Viva a moderna tecnologia. Viva a inteligência humana. Que Deus nos permita mais avanços. Nem posso imaginar o que. Mas, fico na expectativa de novidades.
E o reveillon foi numa festa de arromba no Country Club. Muitos fogos, Champagne e outros aditivos. Quando voltamos para casa o sol brilhava e já era ano novo.
Nota: Foto do Blogueiro

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

Um ano de Blog e Feliz 2009

Neste domingo (28) o Blog do GB completa um ano de existência. O que prometia ser puro passatempo, se transformou num compromisso pessoal para um imenso grupo de amigos ou amigos de amigos que se tornaram ilustres e pacientes leitores dos meus artigos e crônicas semanais.
À medida que se ampliava o número de visitantes e surgiam os comentários na página do Blog, aumentava também meu entusiasmo pelo projeto, a ponto de se tornar uma rotina na minha atribulada vida profissional e social.
Descobri que quando aparecia um tema interessante e um tempinho sobrando, pude desenvolver facilmente um script para transformar numa postagem e distribuir entre os amigos. Foi uma deliciosa descoberta.
Com este post, somo 74 temas desenvolvidos e, desde março – quando instalei o contador de visitas –, já vejo registrada a marca próxima aos 18.000 acessos. Para um Blog que pretende ser quase intimista, isto é, restrito a um pequeno grupo de amigos e conhecidos é uma marca e tanto.
Entrei 2008 lembrando a possibilidade de dificuldades na economia com o tema “Feliz (cuidado com) 2008”, imaginado que alguma dificuldade ocorreria no meio do caminho e o resultado todos nós estamos vendo.
Ainda no inicio do ano, registrei impressionado o descuido da Prefeitura do Recife, no tocante a decoração das ruas e avenidas da cidade para os festejos natalinos. Coisa que, aliás, se repetiu neste final de 2008, em maior dimensão. Com a mesma Prefeitura fiquei revoltado por “jogar fora” R$ 3,0 milhões num desfile fajuto da Escola Samba Mangueira – atolada num escândalo de lavagem de dinheiro – no carnaval do Rio de Janeiro, que, ao invés de contribuir, só fez denegrir a imagem cultural do Recife, com alegorias truncadas e que não refletiam a realidade da cidade Maurícia.
Várias vezes comentei sobre problemas do dia-a-dia nacional, entre os quais o renitente problema da Educação e o da Segurança.
Como viajei bastante durante o ano – a negócios ou turismo – tive o prazer de descrever passagens e cenários interessantes do Brasil, entre os quais os da metrópole São Paulo, a beleza de Belém, portal da Amazônia; Brasília e sua efervescência política e o Rio de Janeiro, sempre bonito. Revisitei a Europa e em várias postagens falei sobre a bela e eterna Itália, nas passagens por Roma, Bolonha, Verona e, de quebra, a bela Republica de San Marino. Baixei em Portugal e comentei sobre as belezas lusas e o delicioso bacalhau que degustei.
Noutras ocasiões ri muito, e provoquei o riso de muitos, ao descrever causos do meu dia-a-dia. Quem leu as crônicas sobre os nomes impróprios, sobre os fabricantes de pânicos, sobre o lobisomem, a incrível história do mendigo inadimplente e sobre o assalto do meu genro australiano, se divertiu muito e até hoje comenta, ao me encontrar pela vida afora. Outra que fez imenso sucesso foi a que intitulei de “Eles não foram eleitos”. Esta foi ótima. Depois que terminei a postagem, li e reli, e, sozinho, ri pra valer.
Acompanhei o estouro da crise econômica, nos Estados Unidos, e sofro com o desenrolar. Foi impossível não comentar. E por falar nos Estados Unidos, vibrei com a vitória de Obama e me impressionei com a história da vida deste novo presidente americano.
O post que provocou o maior número de acessos (mais de 250, num único dia), um imenso sucesso, versou sobre a descoberta de petróleo na camada do pré-sal. Provocado por amigos, pesquisei sobre a matéria e inseri um gráfico bem didático que, para minha surpresa, somente depois, a mesma imagem veio a ser publicada na revista Veja. Fiquei muito feliz nessa ocasião.
Outro assunto que me pegou, por duas tacadas, foram as Olimpíadas da China. Nessa ocasião, fiquei admirado com a choradeira dos brasileiros e promovi uma pesquisa sobre o choro masculino, em público. 75%, dos que responderam a enquête, garantiu que chora em publico, sem dificuldades. Ora vivas, os machões brasileiros se modificam.
Em novembro comentei sobre duas divas da música internacional. A primeira foi a sul-africana Miriam Makeba, a Mama África, que morria na Itália em pleno palco e após um belo recital e, a segunda, em pleno vigor da voz, a argentina Mercedes Sosa, La Negra, que se apresentou e encantou os recifenses, na inesquecível noite de 26 de novembro, para uma casa cheia, no Teatro Guararapes, do Recife.
Foram muitos outros temas que abordei e que já começam a se perder na memória.
Mas, o mais importante de tudo isto e, que por justiça, tenho que registrar foi o estímulo que recebi, a cada postagem, dos amigos que se deram ao trabalho de visitar o Blog, a cada ocasião que recebiam o aviso de uma nova no Blog. Muitos comentaram diretamente na página, outros em mensagem para meu email e muitos manifestaram interesse e admiração em encontros pessoais. Isto foi, certamente, o maior estimulo para que o Blog tivesse a vida e a dinâmica que adquiriu. A todos meus especiais agradecimentos e a promessa de manter este canal de comunicação vivo e aberto, pelo tempo que Deus me permitir.
Finalizando, desejo aos amigos leitores um Feliz 2009.
Nota: Imagem do Google Imagens

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

FELIZ NATAL

O Anjo Gabriel trouxe a boa nova e Maria aceitou cheia de graça. Com o sim da Virgem, Deus veio habitar entre nós na pessoa de Jesus. Desde então o mundo se transformou. Estejamos sempre disponíveis à ação do Espírito Santo de Deus para abrir nossos corações e entendermos o mistério da sua encarnação e a sua mensagem.
Assim, estaremos propensos a viver em paz com o próximo, a ajudar os fracos e oprimidos a construir um mundo mais digno.

Para todos os leitores e leitoras do BLOG DO GB

FELIZ NATAL 2008

Girley Brazileiro
e família


Sugestão: Antes da sua Ceia Natalina presenteie um menino pobre com um brinquedo. Seu gesto pode mudar o rumo dessa criança. E, se possível, dê uma cesta básica para uma família pobre, para que eles não tenham fome na noite do Natal.

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

PRECISAMOS FESTEJAR

Esta coisa de alimentar um Blog, com algum tempo, vira uma compulsão. Naturalmente que as reações dos leitores servem de estímulo e incentivo para que a produção aumente, a cada dia. Fico sensibilizado diante dessas interações amigas.
Tudo que vejo me dá vontade de comentar. Há momentos, como nesta semana, que fico sem saber que tema explorar, diante de tantas provocações. Fiquei impressionado com o caso do garoto de 12 anos que matou, a tiros, um amiguinho, de 10, e enterrou no quintal de casa; de uma garota de 12 anos grávida de gêmeos e, outra, de 20 anos, viciada em drogas e mãe de seis filhos; do brutal acidente em Boa Viagem, provocado por um jovem alcoolizado, matando uma mãe de família, grávida, e deixando em estado grave marido e filhinha. Vibrei com a sapatada que Bush levou, na visita ao Iraque. Decepcionei-me com a descoberta e golpe – seguido de desmoronamento – da pirâmide financeira, do ex-presidente do Nasdaq, fragilizando ainda mais a economia norte-americana e, consequentemente, o mundo financeiro no resto do planeta. Cada um desses casos daria inúmeros posts no Blog.
Perplexo, com tantos desatinos, resolvi dar uma pausa para pensar. Aonde vamos parar? O que podemos fazer? Onde estão os governos? E as ONGs da vida? Os clubes de Serviços? Como educar este mundo?
Não, não quero desanimar. Preciso ter fé e esperança. Afinal, estamos em tempo de Natal. Deixemos renascer as esperanças de um mundo em paz e mais justo.
É nesta época, que a cidade se veste de luzes e cores. Ainda que mascarando a miséria e insegurança reinantes nos arredores, o Recife – assim como, as grandes cidades brasileiras – não deixa de festejar. Afinal, o brasileiro é sempre um povo alegre e gentil.
Para complementar, circulando na espinha dorsal da cidade – a Avenida Agamenon Magalhães – deparo-me com um cenário de Primavera. Nada mais oportuno para animar meu espírito inquieto.
É interessante como, nesta época do ano, quando se vive a estação das flores, no Hemisfério Sul, elas não deixam de se mostrar com força e beleza, mesmo num Recife ensolarado e tropical, insistindo dizer que já é Verão. No mesmo Recife inseguro e assustador para muitos. As flores brotam em amarelo e lilás, dos ipês frondosos, avisando que a vida é bela e renasce a cada amanhecer, sugerindo esperança aos mais apreensivos, como tem sido o meu caso.
É isto aí, tem Primavera no Recife. Corra e vá ver a avenida florida, enquanto o Verão não chega. Parei e fotografei. Especialmente para mostrar ao visitante do Blog.
Foram os ipês floridos que me fizeram esquecer, por bons momentos, as apreensões descritas lá em cima. É Natal e é Primavera. Precisamos festejar. Faz bem à alma.
NOTA: Foto do Blogueiro.

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

É TEMPO DE VIRTUOSI

Quando vai se aproximando o fim do ano, logo me lembro que é tempo de Virtuosi. Há mais de dez anos o recifense é brindado com esse que se tornou o mais importante Festival de Música Erudita, que tenho conhecimento, neste Vale do Capibaribe. Um autêntico presente de Natal, para a alma nordestina carente de movimentos desta ordem.
Tudo nasceu do idealismo do fantástico casal formado pela pianista pernambucana Ana Lucia Altino Garcia e seu marido, o Maestro Rafael Garcia, chileno de nascimento e pernambucano de direito e coração, ambos amantes e mestres da boa música erudita.
Há dez anos, cientes da carência, por este gênero musical, reinante entre os pernambucanos, este casal de mestres decidiu transformar o Recife num ponto de encontro anual de uma plêiade de grandes astros da música clássica mundial, para uma jornada de apresentações e concertos, revolucionando o meio cultural da província.

A partir de então, toda vez que se fala em música erudita e concertos sinfônicos, no Recife, a primeira coisa que vem à mente é o Festival Virtuosi. Pensando bem, a história desse gênero musical, na capital pernambucana, pode ser descrito em duas fases: antes e depois do Virtuosi.
Acompanhar este Festival é experimentar de uma pura imersão no que há de mais seleto e autêntico no mundo da musica clássica.
Uma das coisas mais interessantes é que a cada ano os promotores fazem uma homenagem justa aos valores da terrinha. Assim, já foram homenageados: Marlos Nobre, o exímio pianista pernambucano; Antonio Menezes, violoncelista fantástico, que depois de imenso sucesso no exterior, tornou-se conhecido entre nós, graças ao Virtuosi; Maestros Clóvis Pereira e Duda, que, para surpresa do grande público, foram mostrados como compositores eruditos, diferente das famas de carnavalescos e, por fim, o percursionista Naná Vasconcelos, homenageado de 2008, que terá a oportunidade, imagino, de se apresentar em grande estilo, com a Grande Sinfônica Virtuosi. Espero ansioso por essa noite.
Não vejo a hora, também, de assistir as performances de nomes internacionais como: Bjarne Hanse, espala da Sinfônica Odense; o “monstro” no contrabaixo, Catalin Rotaru, Docente da Universidade do Arizona, com lugar cativo no Virtuosi; o “louco” do trombone, que é Christian Lindeberg, o mais famoso do mundo, na atualidade, de volta ao Recife; Ilya Gringolts, prêmio Paganini de 1998, com seu violino; os filhos do casal Garcia, Rafael (Viola) e Leonardo (Violoncelo) Altino, que não negam a máxima popular de que “filho de peixe, peixinho é”; a doutora em Violino Soh-Hyun Park, coreana, professora e chefe do Departamento de Cordas, da escola de Musica da Universidade de Memphis e, outra vez, o exuberante e virtuoso pianista filipino Victor Asunción, que tantos aplausos colheu na temporada de 2007. Tem, ainda, Antonio Meneses (Violoncelo), Marlos Nobre (Piano) e Clóvis Pereira Filho (Violino), gente da terra, que faz sucesso lá fora. Há outros nomes, tão importantes quanto os já citados, mas meu espaço não caberia comentar sobre todos eles. Fico devendo. E os leitores vão ter oportunidade de conferir.
Por fim, naturalmente que vou querer aplaudir muito, e de pé, a dupla dinâmica, Rafael Garcia e Ana Lúcia Altino. O que seria de nós, pernambucanos, se não fosse a garra e a coragem destes dois loucos maravilhosos, que vivem da música e para a música e, todo dezembro, transformam o Recife na capital brasileira da música erudita. Obrigado aos dois! E, atenção, porque é para agendar: Festival Virtuosi de 2008, Teatro de Santa Izabel, a sala de visitas do Recife, de 17 a 21 de Dezembro.
Notas: Sugiro clicar no banner ao lado e conhecer a programação completa do Virtuosi 2008.
Foto: Virtuosi.com.br

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

FESTA NO MORRO

Dia 8 de dezembro é feriado municipal no Recife. A cidade volta suas atenções para o Morro da Conceição, no bairro de Casa Amarela, onde se festeja e se rende homenagens a uma das padroeiras da cidade, Nossa Senhora da Conceição. Trata-se de uma manifestação religiosa secular, cujo epicentro é a imagem gigante da Virgem da Conceição, trazida da França, no ano de 1904. Mede 5,5 metros de altura e pesa 1.806 kg. Foi ali colocada, pela então Diocese do Recife, em comemoração ao cinqüentenário do dogma da Imaculada Conceição. Na mesma ocasião foi também construida uma capela em estilo gótico e aberta uma estrada para acesso ao local. Devida a sua posição alta e privilegiada, a imagem da Virgem é vista de vários pontos da cidade.Não tardou muito e a localidade se tornou um bairro populoso e ponto de romarias, não apenas para os católicos recifenses, mas também para inúmeros de outros pontos do país.
Também não tardou muito para se formar um pólo de festejos profanos, que rola durante uma semana que antecede o oito de dezembro de cada ano, quando ocorre o ponto culminante e encerramento da festa.
Desde de muito jovem tenho o hábito de subir o Morro da Conceição, cada oito de dezembro. Misto de religiosidade e curiosidade. Sempre fui muito chegado a observar as manifestações culturais, daqui e de alhures. Quem me levou a cultivar este hábito foi um compadre, já falecido, que morava na subida do Morro e, invariavelmente, transformava o dia de N. S. da Conceição num grande momento de confraternização. A casa dele virava um ponto de encontro de amigos, amigos dos amigos, politicos e artistas, de onde partiam para empreender a subida ao Morro. Na volta, ele oferecia uma farta mesa com toda sorte de substanciosas iguarias populares, como sarapatel, buchada, dobradinha, tripa assada, mão-de-vaca, arrumadinhos, entre outros, regadas por um boa pinga ou uma cerveja geladinha, providencial para baixar o calor reinante no início de cada verão recifense.
Mantendo a tradição, subi o Morro hoje de manhã. Fui beijar a pedra.
Percebo que a cada ano aumenta o número de romeiros. Vi pessoas de todas as camadas sociais. Ricos e pobres. Políticos e empresários. Pequisadores. Muita gente. Muitas trajando uma mortália azul (cor do manto da Virgem), outras que subiam ajoelhadas, algumas sobem ou descem de costas. Crianças novinhas são levadas aos pés da Santa, para agradecer a vida. Soube que um cidadão subiu, ainda na madrugada, “nadando” para agradecer o milagre de haver sido salvo de um naufrágio.
Nos pés da Santa, no alto do Morro, em locais especiais, os romeiros acendem velas. São milhões de velas. O calor se torna insuportável e o corpo de bombeiros mantem-se sempre presente para apagar as frequentes labaredas mais altas.
Durante a subida é impossivel não notar a presença de comerciantes informais vendendo artesanatos, imagens, velas, comidinhas, água e picolé e dos pedintes que se postam, ao longo do percurso. Velhos deficientes, moços desempregados, mulheres jovens arrodeadas de inúmeros filhos que chegam a passar a noite inteira num dos pontos da ladeira, esperando a passagem dos peregrinos. Ali, na maior promiscuidade, dormem amontoados, em colchões estendidos na calçada, comem, bebem e fazem suas necessidades fisiólogicas, insençando o ambiente de forte odor de urina. A Prefeitura tenta controlar a presença, sobretudo dessas levas de crianças, mas é sempre burlada.
Como tudo na vida, há sempre um lado cômico a ser registrado e, neste caso, fica por conta dos nomes pitorescos, das crianças que se espalham e são chamadas pelas mães aflitas. Nomes quase sempre inspirados nos astros do cinema ou da TV. Parei para ouvir gritos por Jacqueline, Joelma, Michael Jackson, Morgana, Madona, Sabrina, entre outros. É engraçado, todo mundo querendo ser importante.
Salve a Virgem da Conceição e sua Festa popular.

Nota: Fiz esta crônica lembrando do meu Compadre Sebastião Alves, agora, certamente, vivendo no Reino do Céu. Ao descer do Morro visitei a viúva, Carminha, sempre bondosa e gentil e lembrando, aos choromingos, o finado Bastião.
Fotos do Blogueiro.

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

ACREDITE SE QUISER.

Quando, há quinze dias, eu falei que estava ficando difícil e que havia perdido as esperanças, diante da onda de assaltos e arrastão na porta de casa, muita gente reagiu e me aconselhou não perder as esperanças. Porque perder as esperanças é o mesmo que perder a fé. Pensei muito sobre isto. Meditei e busquei respostas para minhas perplexidades.
Os dias foram passando e já me recuperava do susto, quando ouço falar de um outro “arrastão” no maior shopping center da cidade. Povo correndo em desatino, lojas fechando as portas e pânico geral. Achei que foi uma coisa audaciosa, dei graças a Deus não ter sido vitima dessa emboscada e voltei à estaca zero nas minhas reflexões a respeito da insegurança reinante na minha cidade.
Não temos em quem confiar! Esta é a realidade dolorosa.
Mas, para minha surpresa, ainda maior, eis que os bandidos atacaram, outra vez, na minha região e numa rua paralela à minha. Nas barbas da policia de plantão na esquina da Telles Junior, após o arrastão de quinze dias atrás. Desta vez, eles fizeram uma investida na rua paralela, a Carneiro Vilela, distante, apenas, cem metros da guarnição policial de plantão. Parece mentira! Inacreditável. Fica difícil morar nesse miolo do, antes aprazível e tranqüilo, bairro dos Aflitos, por trás dos clubes Náutico e British Country Club. É uma ironia. Agora sim, podemos dizer que estamos, literalmente, aflitos. Tem sido, minha gente, uma guerra não declarada.
Nestas duas ruas, ultimamente, ninguém pode ver um carro parado no trânsito. Pensa logo que vai sair, lá de dentro, uma quadrilha de bandidos armados.
Eles estão desafiando a policia. Parece que brincando de “gato atrás do rato”.
Está claro que não temos mais a quem apelar. A polícia de plantão na rua é “cega e surda”. A Delegacia do Distrito faz, aparentemente, um “faz de contas”. Governo do Estado? Coitado. Só pensa na campanha eleitoral de 2010. Lula também. Este, aliás, não faz nada pela segurança pública do País. Não dizem nada para ele. Não sabe de nada. Com razão, aliás, porque anda tranqüilo, cercado de seguranças e, pensando bem, é capaz de pensar que esses assaltantes são pobres coitados, injustiçados pelo cruel sistema social brasileiro. É danado não ter a quem apelar. Estamos ao Deus dará. Só resta, quem sabe, pedir socorro ao Conselho de Segurança Nacional ou o da ONU! Ou a Bento XVI! Entreguei-me, com minha família, a Deus. Perdi as esperanças, é claro. Não posso dizer outra coisa.
Acredite se quiser. Mas, uma coisa eu garanto: tudo isto é verdade.
Nota: Foto do blogueiro da manchete do Jornal do Commercio, do Recife, dia seguinte ao segundo arrastão.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

O JAPÃO NO RECIFE

Mais uma vez, neste último domingo de novembro, o bairro do Recife Antigo, se transformou num ambiente nipônico, com a já tradicional Feira Japonesa do Recife.
Pelo décimo segundo ano consecutivo os integrantes e simpatizantes locais da cultura do País do Sol Nascente, reunidos em várias associações recifenses, deram-se os braços e promoveram o que vem sendo considerada uma das mais belas festas populares do calendário turístico da cidade do Recife.
A Rua do Bom Jesus foi transformada numa autêntica rua japonesa. Logo na entrada um imenso Tori (portal estilo japonês) denunciava a transformação do local. Depois disso, eram muitos bambus, carpas decorativas e lanternas, entre outros adereços, dando um especial colorido ao ambiente e atraindo um público calculado em, aproximadamente, 40 mil pessoas circulando durante o domingo inteiro.
Barracas foram montadas para a comercialização de produtos artesanais, alimentos e bebidas, arranjos florais japonesas (ikebana), bonsais e vestuários típicos completaram a festa e deram alegria aos consumidores e comerciantes.
No final da Rua, na Praça do Arsenal de Marinha, foi montado um grande palco, onde desfilaram inúmeras atrações, locais e de fora. O ponto alto dessas apresentações foi o Grupo Ryukyu Koku Matsuri Daiko, de São Paulo, que deu uma exímia exibição de percussão com taikôs (tambores). Houve ainda as apresentações de Taikôs de Recife e da Paraíba e de uma cantora japonesa, Mio Matsuda, que arrancaram demorados aplausos do imenso publico que prestigiou o Festival.
Um espetáculo à parte ficou por conta da turma do Anime-Mangá-Tokusatsu. Essa turminha virou atração especial, ao fechar uma das ruas do pedaço e, com suas indumentárias tiradas dos filmes de desenho animado e gibis japoneses, surpreenderam os menos avisados e encantou a turma jovem.
A Feira deste ano serviu de fecho das comemorações do Ano do Centenário da Imigração Japonesa no Estado, sobre o qual já falei, outro dia. Foi, na verdade, um encerramento com “chave de ouro”, devido ao sucesso do que se viu ontem no bairro do Recife Antigo.
Por fim, registro uma especial atração da Feira deste ano que foi a Gincana Cultural do Centenário, na qual 32 alunos de oito escolas públicas, do Município e Estado, enfrentaram uma maratona de estudos, pesquisas e práticas dos costumes, artesanato, história, gastronomia, esportes, religião e outros aspectos do quotidiano japonês, num verdadeiro mergulho naquela cultura oriental. Coordenei esta gincana e vibrei, junto com a moçada (de 15 a 17 anos), mostrando as habilidades no uso do hashi (pauzinhos japonesas), confeccionando origamis, vestuário e conhecimentos gerais. Tenho a certeza de que, hoje, esses adolescentes pernambucanos sabem de tudo sobre a cultura japonesa. Como em qualquer outra gincana, foram proclamados vencedores da disputa e distribuídos prêmios valiosos. Porém, o mais importante, ao meu modo de ver, foi que esses jovens – todos de famílias de origem humilde – lucraram culturalmente e jamais esquecerão a experiência que tiveram.
Tudo isto não seria possível se não fosse o empenho do Consulado Geral do Japão no Recife, da Prefeitura da Cidade, das associações culturais japonesas e da Associação Nordestina de Ex-Bolsistas no Japão, que deram de tudo para o sucesso do evento.
Deu um trabalho imenso. Mas, valeu à pena.

Dedico esta crônica a minha amiga e colaboradora, Zélia Faria, diretora cultural da Anbej, que trabalhou feito uma louca, para coordenar a execução da 12a. Feira Japonesa do Recife. Valeu Zélia!
Nota: As fotos são do Blogueiro.

Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

VIVA LA NEGRA

Ainda vivíamos a década de 70, quando uma amiga – Leony Muniz – “apresentou-me” Mercedes Sosa, La Negra. Apaixonei-me, de cara, pela voz e pela história dessa argentina fantástica. Sai comprando todos os discos – long play, na época – lançados na praça.
As estações de rádio do Brasil davam espaço e cantores famosos, como Caetano Veloso e Milton Nascimento, abriam fatias generosas dos seus shows para que La Negra se apresentasse ao publico brasileiro. A cada apresentação crescia sua legião de fans.
Perseguida pelos ditadores argentinos ela foi proibida, a partir de 1976, de cantar na sua própria terra e, com isto, preferiu se refugiar na Europa – Espanha e França principalmente – onde fez um sucesso ainda maior e sua fama correu o mundo.
Com a democratização da América Latina e, sobretudo, na Argentina, Mercedes Sosa retornou a sua terra natal e continuou sua trajetória artística.
Hoje, 25 de novembro de 2008, assisti a um grandioso show dessa Diva da música popular latino-americana, no Teatro Guararapes, do Recife. Estou em estado de graça.
Em cima dos seus 72 anos, a mulher soltou a voz, tão firme quanto há 35 anos, encantando uma platéia comovida pelas músicas e poemas por ela interpretados.
Numa entrada triunfal, foi recebida de pé e aplaudida por longos minutos.
Daí em diante, foi quase duas horas de um repertório que mesclou antigos e novos sucessos. Ao interpretar Gracias a La Vida e Volver a los 17, dois dos seus grandes sucessos dos anos 70, a mulher galvanizou o publico. Vi gente enxugando as lágrimas.
Com razão. São musicas que remetem a um tempo político difícil, no qual somente as composições musicais de artistas de vanguarda e engajados nos movimentos pró-democracia encantavam a juventude da época, que são os maduros de hoje e que compunham a platéia desta noite. Foram sambas (a la argentina), chacareiras e outros gêneros musicais da nação irmã, num desfilar de interminável sucesso.
Mas, não foram apenas as musicas argentinas que arrancaram os aplausos no Guararapes. Composições musicais brasileiras, entre as quais Coração Vagabundo, Insensatez e Coração de Estudante, além de emocionar os tupiniquins presentes, revelou uma argentina amante da Terra Brasilis. E ela, sem se fazer de rogada, respondeu com um sonoro “Muito Obrigado”. Nem preciso dizer qual foi o clima que se instalou.
La Negra está pesando além do normal. Imagino que, cento e bote força. Anda com dificuldades. Sempre ajudada. Já não faz as evoluções coreográficas do passado. Não dança, por exemplo, uma Chacareira. Apenas mexe, graciosamente, com os braços. Canta sentada e, como sempre, envolta em muitos panos. Na verdade um imenso poncho. Uma iluminação especial e em permanente movimento, substitui a coreografia da artista do passado.
Ainda assim e, não obstante, a relativa paralisia, Mercedes Sosa resolveu pedir ajuda, pôs-se de pé e ensaiou algumas evoluções, cantando “Maria! Maria!”, composição de Milton Nascimento, para encerrar o show desta noite. Foi o ápice dessa apresentação inesquecível. Ninguém conseguiu ficar sentado. Algo em torno de mil pessoas, de pé, cantou junto com ela. Foi, eu diria, apoteótico. E, sinceramente, com forte tom de despedida.
Viva La Negra! Como Mama África – sobre a qual falei recentemente – uma Voz da Liberdade, neste caso, da América Latina.
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

PERDI AS ESPERANÇAS

Está ficando muito difícil. As autoridades perderam o controle da situação da segurança na cidade do Recife. À medida que o tempo vai passando, dá para perceber que os assaltos, roubos, furtos e assassinatos tornaram-se corriqueiros e verdadeiras banalidades do dia-a-dia recifense. As pessoas já ouvem falar dessas barbaridades, como sendo coisas de rotina. Recebem a informação de forma indiferente. Coisa comum e sem surpresa. Às vezes a noticia passa desapercebida.
Hoje em dia, a gente já sai de casa com o espírito preparado para um eventual episódio, tamanha é a freqüência da coisa. Cuidado aqui ou ali, cortando sinal vermelho, escolhendo por onde circular, vivendo um autentico suplício. Haja estresse.
Interessante é que os mais otimistas tendem sempre a pensar que a coisa só acontece com os outros e a certa distancia, o que é um ledo engano, devido a constância.
Esta semana fui surpreendido, na frente do prédio onde moro, no Rosarinho, com um audacioso assalto a oito veículos encurralados pelos bandidos, entre duas transversais, usando dois automóveis atravessados na via pública. A Rua Teles Junior é estreita, com muitos prédios, muitos habitantes, sempre cheia de veículos estacionados dos dois lados e com estreita pista de passagem para um intenso tráfego. Foi uma “barbada” para os assaltantes. Após obstruírem a rua, em dois pontos estratégicos, “fizeram a feira” em poucos instantes e partiram em disparada, levando as chaves de todos os veículos represados. Era um bando de mais de dez. Restaram oito motoristas e seus acompanhantes em estado de desespero, sem lenço, sem documentos, sem dinheiro e, com certeza, sem esperanças de paz.
Na manhã seguinte os jornais traziam o retrato da calamidade com a clamorosa manchete: Arrastão e Terror em Rua do Rosarinho. A minha rua! Foi a violência batendo a minha porta.
É isto aí, meus amigos. Sinto que estamos perdendo as esperanças de ir e vir tranquilamente. De viver, mesmo dentro de casa, sem temor. Perdendo as esperanças de viver numa cidade segura.
As autoridades vivem de promessas e sem apresentar resultados tangíveis. Os marginais já devem rir à toa, com tanto sucesso que alcançam nas suas ações devastadoras. E pela facilidade que encontram, as organizações criminosas se multiplicam diante da impotência do Estado. Há uma verdadeira máquina de criminalidade.
É verdade que é um problema nacional. Mas, no Recife as coisas estão sem limites. A cidade está inviável. Acredito que esta geração não terá chances de viver num ambiente de paz. Serão necessários muitos anos para que uma estratégia política de ordem e segurança vingue por estas bandas. Vai ser preciso um trabalho de base que salve da marginalidade as próximas gerações , a base de educação, saúde, moradia e emprego necessários a esta população que vive nas periferias das nossas grandes cidades, incluindo o Recife.
Estou certo de que não será uma coisa para o meu tempo. Tomara que seja para meus netos. Sofro por conta da minha falta de esperança, mesmo que ela seja a última a morrer, conforme a sabedoria popular.
Nota: Foto obtida no Google Imagens .

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

Cuidado! Tem Lobisomem na Praça

Eu faço questão de ter um café-da-manhã tranqüilo. Com suco, frutas variadas, café preto ou com leite e torradas com geléia e queijo branco. Enquanto isto, ouço – diariamente – a Ave-Maria de Gounoud, em tom bem baixinho. O CD nem sai do meu 3 em 1. Nunca. Ah! Leio os jornais do dia, também. É uma hora de tranqüilidade e preparação para o dia que começa, quase sempre, muito movimentado.
Minha tranqüilidade só é quebrada pela minha Secretária Doméstica, D. Iracema, que, freqüentemente, trás noticias de um mundo, digamos, quase cão, onde ele habita.
Outro dia, não posso esquecer jamais, chegou me dizendo que por lá (região pobre Recife, por trás dos bairros do Arruda e Água Fria) tem gente que quando morre, o corpo é jogado no canal por falta de dinheiro para um sepultamento, por mais simples que seja. Telefonam para a Polícia, que chega a seguida, levanta o corpo e enterram como indigente. Pense na minha cara. Fiquei abismado com essa realidade chocante. Francamente, não é um mundo cão? Fora disso, assassinato, prisão de maconheiro e assaltante, extermínio e estupro é rotina naquelas bandas.
Esta semana Iracema está em verdadeira polvorosa. Vive alarmada com uma novidade que se espalhou pela região, de que um lobisomem anda solto pela área, pintando miséria. Ataca a partir da meia-noite “Inté o raiá do dia!!!!” no linguajar dela. “E esta semana que tem noite de lua-cheia, o bicho vai pegar!” O curioso é que Iracema, coitada, tem uma prótese ocular no olho esquerdo – que, aliás, ela diz ser uma próstata (!) ocular – e, quando fala, arregala um olho só. É uma cena... “Tô cum medo de sair de noite e de vortá prá casa!”. Aconselhei-a que ficasse por aqui, para não cair nas garras do monstro. “ De jeito nenhum! Tenho que vortá pá tomá conta das minhas fias e netas. Esse danado de lobisomem tem sede de minina fema e mulé donzela!”
Confesso que fiquei dando corda no papo e conferir até que ponto chegava. Uma vontade danada de rir. Como é que pode? Em pleno século 21!
Segundo Iracema, os lobisomens são filhos amaldiçoados pelas mães. “Praga de mãe, pega que nem gripe, Dotô Giley.” E acrescentou: “Ou então, é no que dá dessas mulé severgonha que transam com cachorro e fica grávida de lobisomem”. Disse, com uma boca miúda, baixinho e cheia de pudor. Dei um pulo da mesa e me sai com algo, mais ou menos, assim: “Ah não! A Senhora, agora, foi longe demais! Que coisa mais feia! Eu não acredito numa sujeira dessas. Isso é outra invenção sua!”. “ Ôxi!, qué bem mi dizer que num sabe! É o que mais tem por aí. Inclusive essas mulé da alta, que o Sinhô conhece, que é rica e pode ter o homem que quiser, mas prefere um cachorro! E, quando o minino lobisomem naice, ela manda jogá na mata, porque ninguém vai querer um lobisomem sorto dento de casa. Tá pensando o que? O que mais tem no mundo, é mulé severgonha.” Aí, não tive jeito de segurar. Ri, como diz Geraldo Pereira, “à bandeiras despregadas”.
O imaginário popular é uma coisa fantástica. Em qualquer lugar do mundo se manifesta e cria essas figuras folclóricas.
Indiscutivelmente, estou falando de um traço cultural que, ao mesmo tempo, mobiliza as pequenas comunidades, em verdadeiras festas macabras, inclusive, ocasionando o surgimento de aproveitadores da inocência coletiva. Isso dá um trabalho daqueles à Policia.
São essas histórias populares do dia-a-dia, que entram pela porta da minha área de serviço e me surpreende na mesa do desjejum.
Na noite desta sexta-feira, com lua cheia, a Comunidade de Chão de Estrelas, onde vive Iracema e sua prole, vai se mobilizar para pegar o danado do lobisomem que anda solto por lá. Tem homem armado, de pau e pedra, por todos os lados. “ Tenho fé em Deus que vão pindurar o danido morto, num poste da praça!” Disse Iracema, cheia de esperança e confiança.
Até que ocorra essa emocionante captura, ela vai se apressar por encerrar o expediente dela, aqui em casa, correr assustada e se trancafiar num quarto, com as filhas e netas que, segundo ela, estão dormindo juntas e amuquecadas numa mesma cama. Mortas de medo! Aliás, ela garante que nem consegue dormir, porque fica “atucaiando a porta”.
Pensando bem, tenho que ser grato a essa figura do dia-a-dia da minha casa, porque ela é meu link com a realidade social do povão. É ela que me arrasta do alto da pirâmide social que vivo e me mostra – sem pena e cruelmente – a maneira de viver da gente humilde e desassistida.
Mas, por via das dúvidas, cuidado! O lobisomem está por aí... Não duvide! Que ele pegue e estraçalhe quem discordar disso.
Aliás, sabe de uma coisa? Para me precaver, vou recomendar a Sonia, minha mulher, que volte cedo do trabalho, de preferência com a luz do dia. Seguro morreu de velho!
Nota: Imagem colhida no Google Imagens

Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Adeus, Mama África

Quando o DJ atacava de Pata-Pata, nas discotecas da minha juventude, a moçada ia à loucura. A pista de danças ficava pequena e o “rala-rala” dos corpos em evolução dava o tom da alegria da noitada. Tratava-se de uma música que explodia nas paradas de sucesso do mundo inteiro.
Tempos depois, quando já nem me lembrava, fui ouvi-la na distante África do Sul, nos idos de 1996, quando andei por lá, numa Missão de negócios. Estranhando o sucesso tardio, comentei a um nativo de que a época dessa música, no Brasil, havia ocorrido muitos anos antes. Para minha surpresa, meu interlocutor explicou que Pata-Pata será, para os sul-africanos, um eterno sucesso, por ser da autoria da mais famosa cantora do país, Miriam Makeba, mais conhecida como Mama África, pela sua internacional militância em favor da independência das nações africanas, na segunda metade do século 20.
Intrigado com aquela novidade, fui atrás de discos, digo CDs, da cantora famosa do país que eu visitava pela primeira vez. Mais do que isso quis saber a respeito da vida dela, já que se tratava de uma personalidade política de um povo que experimentava a liberdade, depois da sombria Era do Apartheid. Mandela estava em liberdade e governando a Nação que ajudou a construir. Era uma história que andava me fascinando e me levando a explorar tudo quando estava ao meu alcance, ou seja, lances históricos, personagens e futuro. Foi quando soube que ela, Miriam Mabeka, depois de longos anos no exílio, por insistência de Nelson Mandela havia retornado a África do Sul, sua terra natal, em 1992 e de lá continuava fazendo sucesso no mundo inteiro, enquanto desenvolvia um trabalho social de apoio a adolescentes em situação de risco, nos subúrbios de Johannesburgo.
Não tive o prazer de conhecê-la ou de assistir alguma das suas apresentações.
Hoje (11.11.08), amanheci o dia lendo, nos jornais do Recife, a noticia da sua morte repentina, ontem, na Itália, aos 76 anos de idade. Lamentável. Depois de um show, em favor do escritor Roberto Saviano, ameaçado de morte pela máfia italiana. Morreu quase que cantando, desmaiou, ainda no palco, quando se preparava para um bis, ao som de aplausos dos fans. Talvez, como um dia desejou. Seguramente feliz. Morreu em plena militância política em favor dos oprimidos. Morreu sendo a voz da África. Cantando a verdade, como sempre dizia. “Eu não canto nunca para a política, mas sim para a verdade” esta foi sua declaração mais famosa.
Calou-se, assim, uma voz lendária do Continente Africano, pouco conhecida ou divulgada no Brasil. Não tenho noticias de apresentações por nossas bandas.
Mama África, uma zulu de alma, ficou mais de 30 anos no exílio. Foi como pagou pelo intenso combate que exerceu contra a degradação do seu povo, sob o jugo dos chamados nacionalistas africaners, de origens holandesa e britânica. Correu meio mundo na sua vida de exilada. Inglaterra, Estados Unidos, onde experimentou do maior sucesso e chegou a cantar na Casa Branca, na época de John Kennedy e, por fim, na Guiné. Suas musicas que misturavam ritmos tradicionais africanos com blues, jazz e gospel foram proibidas no seu país natal, devido às denuncias contra o regime racista sul-africano, na ONU, no remoto 1963, quando ela contava com apenas 31 anos de idade.
Pata-Pata, embora sendo de 1956, estourou nas paradas de sucesso do Brasil, se não me falha a memória, nos anos 70. Só pode ser ouvida pelos sul-africanos com o fim do Apartheid.

Nota: As fotos forma colhidas no Google Imagens

Domingo, 9 de Novembro de 2008

Vitória da Raça

Sem dúvidas o maior acontecimento da semana foi a vitória de Barack Hussein Obama na eleição de Presidente da República, nos Estados Unidos.
Muito se espera do novo presidente norte-americano. Acho que qualquer que fosse o vitorioso seria assim. O nefasto governo de Bush fez com que o mundo inteiro torcesse por uma mudança e colocasse todas as fichas nesse jogo. Aliás, pensando bem, foi Bush o maior cabo eleitoral de Obama.
Há muitas décadas os norte-americanos não se mobilizavam, para uma eleição, como ocorreu na semana que passou. Dessa vez o eleitor não ficou apático. Foi às ruas, fez campanha, gritou, votou – houve uma afluência nunca vista às sessões eleitorais – e comemorou a vitória, dando testemunho de que lá se pratica a maior democracia do planeta.
Os Estados Unidos, mergulhado na maior crise econômica de todos os tempos e as portas de uma longa recessão, esperam dessa sua nova liderança algo como passes de mágica para tirar o país do buraco que Bush colocou. A expectativa é tamanha que assusta os mais avisados e conscientes do desafio. Não vai ser uma coisa fácil. E é aí onde reside a preocupação da equipe de governo já se formando. O primeiro discurso, não o da festa da vitória, numa grande Praça em Chicago, que foi carregado de emoção, mas o da primeira coletiva à imprensa mundial foi claro ao avisar das dificuldades e pedir calma.
Mas, não é desses aspectos político-econômicos que quero falar. Ao invés disso, tenho me detido mais em observar a alegria do povo negro norte-americano. Esta sim foi uma vitória retumbante. Conheço os Estados Unidos de Norte a Sul e Leste a Oeste. A primeira vez que estive por lá foi no longínquo 1967. Muito jovem, tive a oportunidade e a curiosidade de observar as relações entre brancos e negros e senti, claramente, a diferença que se impunha entre os cidadãos das duas raças.
Vivi os tempos de campanha de Martin Luther King e acompanhei o episódio do seu assassinato em 1968. Em 1972, de volta aos Estados Unidos e, mais precisamente, a cidade de Atlanta (Geórgia), no Sul do País, onde a questão racial sempre foi mais acirrada, fiz questão de visitar o túmulo desse mártir pela luta contra o racismo na Terra de Tio San. Lá mesmo, na capital da Geórgia, como sinal da separação racial, fui recomendado atentamente, pelos meus anfitriões e por um primo que fazia intercambio, de não entrar, por descuido, no bairro comercial dos negros. Isto numa época em que a coisa já era, oficialmente, inaceitável. Temia-se que eu fosse abordado de modo adverso pelos negros, ainda vivendo em guetos.
Noutras ocasiões, e, até recentemente, sempre que volto aos Estados Unidos, visitando lugares diferentes – grandes centros e pequenas cidades – não percebi progressos muito claros nesse relacionamento. Naturalmente, que vi negros e brancos, circulando juntos, em todas as partes. Mas vi, também, que a coisa nunca deixou de ter o ranço do preconceito histórico.
A vitória de Obama pode marcar o ponto final dessa diferença e o exemplo vai levar o resto do mundo, de uma vez por todas, alijar o racismo, onde quer que ele ainda exista. Os democratas com mais facilidade do que os republicanos, mas provavelmente todos juntos, em honor ao President of The United States of América e a tradição democrática do país vão perceber que não cabe mais alimentar o ranço. Acho que a Nação vai se unir em torno desse homem que vem com a aura de Salvador da Pátria.
É minha gente... A História muda. Nasce uma nova América. Para gáudio do Planeta! É a vitória da raça, 40 anos depois da morte de Luther King, que é considerado o fundador da moderna democracia norte-americana.
Nota: As fotos de Obama e Luther King foram colhidas no Google Imagens

Domingo, 2 de Novembro de 2008

O Mendigo Inadimplente

Bastião (nome fictício) é deficiente físico – anda com ajuda de muletas rudimentares – e fez da “profissão” de pedinte seu ganha-pão. Seu “estabelecimento comercial” é num movimentado cruzamento, no bairro dos Aflitos, Recife. Todo santo dia o sujeito está por lá pedindo um trocado aos que param em atenção ao semáforo e, dessa forma, ganha a vida e sustenta uma família de vários rebentos. Só vendo como o pobre “trabalha”. Acho que tem o sovaco mais sofrido da cidade.
Penalizado com o infeliz ofereci, certo dia, uma oportunidade de emprego na fabrica de vassouras de um amigo. Salário mínimo, carteira assinada, INSS, FGTS, vales transporte e refeição, cesta básica, salário família e tudo mais que um trabalhador formal recebe. Para minha surpresa recebi um tremendo NÃO. “Tá brincando dotô... saláro mínimo? Tô fora! Dá não... aqui eu tiro muito mais...” O sinal abriu, passei uma primeira e segui minha trajetória, abestalhado com o que ouvi e disposto a nunca mais, digamos, colaborar.
Passado algum tempo, na época em que mudaram o transito na área e o fluxo de veículos diminuiu, parei meu carro atendendo ao sinal amarelo de atenção e lá me vem Bastião com uma insólita conversa. A coisa foi mais ou menos assim: “Dotô, tudo bem? Colabore aí, hoje. Tô meio atrapaiado. A loja mandou me dizer que tô inadiprente... Acontece que o movimento por aqui diminuiu muito, só passa carro prum lado e o movimento tá ruim demais. Deixei de pagar três prestação da televisão e da geladeira... parece que vão lá em casa tumar tudo de vorta.”
Nem preciso comentar o tamanho do meu espanto. O cara estava me explicando o motivo da sua inadimplência na praça! Um simples esmoleiro! Quase não acreditei no que ouvi. Ainda de olhos, certamente, bem arregalados escutei a melhor parte: “Dotô, eu sei que o Sinhô é devogado, por favor me ajude...” Respondi, apressado, que não era Advogado, que era Economista, passando uma primeira e partindo. Ainda deu tempo de vê-lo com olhos arregalados, bem espantado, e exclamando: “Vixe Dotô! O Sinhô é comunista! Nunca pensei!” Dali prá frente ele não quis mais negócio comigo. Quando eu passo por lá, ele olha desconfiado... deve dizer, lá vai aquele comunista. E, continua por lá. Há, pelo menos, 30 anos. Isto é um exemplar retrato do Brasil!
Nota: Imagens colhidas no Google Imagens

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

CÁLCULO ERRADO

Nas minhas idas e vindas Brasil afora, quase sempre em missão de trabalho, algumas coisas chamam-me à atenção. Coisas que muitas vezes comento aqui neste espaço e coisas que se acumulam na memória e, de repente, afloram de e maneira clara e pedindo reflexão ou comentário.
Ontem à noite, por exemplo, voltando de mais uma ida a Brasília, observei que naquela cidade há também um tremendo problema de trânsito.
Fiquei impressionado, a caminho do aeroporto, com o pesado fluxo de automóveis que saia, por volta das 19h, do chamado Plano Piloto – a área central da Capital Federal – para as cidades satélites. Isto, porque a opção do trajeto foi a via que margeia o Lago Sul, considerada melhorzinha. Momentos houve, de paralisia geral do transito, que senti a sensação de que perderia o vôo. Conduzido por um amigo, fui informado de que isso é rotina.
Vejam só! O brasiliense, para cumprir suas agendas, já começa a se programar considerando o tempo que vai perder no deslocamento. Quem diria? Uma cidade projetada para ter um trânsito fluído, sem cruzamentos e sem semáforos, transformada num inferno recheado de automóveis.
Acho que os projetistas da Capital, na primeira metade do século passado, subestimaram duas coisas: o poder de atração que a nova capital exerceria sobre boa parcela da população que terminaram por elegê-la como domicilio e, depois, a popularização do automóvel neste país de Cabral. Indiscutivelmente, foi um cálculo equivocado.
É isto mesmo. Brasília está inchada. São inúmeras as cidades satélites e os núcleos residenciais no entorno do Plano Piloto que funcionam como dormitórios, despejando, diariamente, levas e mais levas de trabalhadores comuns, vendedores ambulantes, funcionários públicos, comerciários, bancários, funcionários de embaixadas e organismos internacionais, entre outras categorias, na região central resultando num movimento populacional que já ultrapassa a casa dos 2 Milhões. Ora, Brasília foi projetada para abrigar, quando muito, apenas 650 Mil habitantes. Resultado é que a cidade ficou pequena para abrigar tanta gente. Depois do sufoco no transito, encontrei o Aeroporto JK apinhado de gente. É o terceiro aeroporto mais movimentado do País. Ali ocorre, a cada dia, uma prova concreta de que viajar de avião virou uma coisa corriqueira neste país. É impressionante o movimento de passageiros naquele terminal do Planalto Central. E aí, outra constatação: o aeroporto de Brasília é outra coisa que, também, ficou pequena para o imenso número de vôos que chegam e partem dali. As salas de embarque são confinamentos acachapantes e parecem ser sempre desorganizados. No meu caso, ontem à noite, antes do embarque apontavam um determinado portão, lá dentro o portão era outro. Um estrangeiro, coitado, ficaria perdido e desorientado.
Dado o embarque, vi-me numa aeronave literalmente lotada. Tem sido sempre assim. Há muito tempo só viajo em aviões lotados.
Enfim, considerando o calor de 37º C reinante nos últimos dias na Capital Federal, um outro “calor” emitido pelo debate da Crise Internacional, a baixa umidade relativa do ar, os engarrafamentos no transito, a poluição seca e sufocante de poeira e queimadas, o avião lotado e apertado, a gravata, o paletó, uma maleta de rodinhas e um notebook pesado a tiracolo... estou cansado até agora, depois de passadas 24 horas. É duro agüentar essa Brasília do século 21, sendo exigida a mais do que o que calculado.
Nota: Imagens obtidas no Google Imagens. Panorama de Brasilia e engarrafamento em Brasilia

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Nas mãos da China

Hoje fiz diferente. Sem outro assunto para uma postagem, salvo os que se referem à Crise Economica, preferi postar um artigo que li ontem no Diário de Pernambuco, da autoria de Paulo Paiva, do Jornal O Estado de Minas. Ele foi muito feliz na sua analise jornalistica, com a qual concordo plenamenta. Esta é, aliás, a preocupação dos cidadãos norte-americanos, segundo meu irmão Gustavo Brasileiro, economista, radicado nos Estados Unidos, com o qual conversei longamente neste sábado passado. Tem muito a ver com minha postagem anterior.
Veja a seguir o artigo:
"O mundo está nas mãos da China. Está ali, entre os chineses, o novo poder econômico mundial. E há pelo menos dois bons motivos para isto. O primeiro são as reservas internacionais da China, estimadas hoje em US$ 1,9 trilhão, ou quase 10 vezes maiores que as brasileiras, ou apenas US$ 1 trilhão a menos do que EUA e Europa estão gastando, juntos, para salvar seu sistema financeiro, ou ainda bem maiores que Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, estimado em US$ 1,3 trilhão. Em resumo: hoje, o dinheiro está na China.Estima-se que pelo menos um terço desse montante esteja aplicado em títulos do Tesouro americano - o que faz da China, na prática, o verdadeiro banco central americano, já que cabe a ela financiar os gigantescos déficits fiscal e comercial da América. Em grande parte, será também o dinheiro chinês, convertido em títulos dos EUA, que financiará o pacote de US$ 700 bilhões anunciados pelo presidente George W. Bush para salvar os bancos americanos. Outra parte das reservas chinesas estão aplicadas em ações e empresas americanas, como o Banco Morgan Stanley. Mais: em dificuldades econômicas, Angola e Paquistão foram pedir empréstimos a Pequim, e não a Washington, como antigamente.O segundo motivo também é robusto: o Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu 9,9% de janeiro a setembro, e 9% no terceiro trimestre. É verdade que o percentual anualizado representa uma queda em relação aos 12% do ano ano passado, e aos 10,5% do segundo trimestre, mas ainda é um colosso comparado ao crescimento praticamente nulo dos EUA e Europa este ano, e mesmo em relação ao Brasil, cujo PIB, se tudo der certo, deve avançar 5%. Os bancos chineses, já estatizados, não enfrentam a turbulência que assola as instituições financeiras ocidentais. Por isso, não seria exagero dizer que, neste momento, graças às suas reservas e ao seu crescimento, a China é a dona do mundo. Isso não quer dizer que a crise financeira mundial não chegou à China. Chegou. Na semana passada, duas fábricas de brinquedo fecharam as portas, demitindo quase 7 mil pessoas. Mas o governo chinês está reagindo. E tem bala na agulha para isso."Com reservas de US$ 1,8 trilhão, a China pode usar ferramentas como incentivos fiscais e isenção de impostos para empresas. As reservas chinesas funcionam como um instrumento para ceder crédito. E agora, com a crise nos EUA, pode ser a grande oportunidade para a China comprar ativos americanos por preço barato. A China, de forma seletiva, pode ir às compras", diz Luiz Iani, sócio da DLM Invista. Iani também concorda que a China vai ditar o crescimento do mundo nos próximos anos."

Sábado, 18 de Outubro de 2008

Outro Império que cai.

Faça o que eu digo e não o que eu faço. Esta parece ter sido a referencia econômica dos Estados Unidos, durante todo esse tempo em que liderou a economia do planeta. Digo liderou, porque, a meu ver, isto é coisa do passado. O império norte-americano acaba de ruir. Durante décadas os yankees deram as cartas, apregoaram e impuseram limitações aos paises periféricos, para, em troca, ter suporte para a sua política de liderança planetária, acumulando, hoje, uma divida colossal por assumir um sistema financeiro erodido, financiar cortes fiscais internos e patrocinar aventuras militares ilimitadas.
O maior mandamento da política econômica norte-americano, a do livre mercado, se auto-destruiu na medida em que parte importante do seu sistema financeiro foi ao fundo do poço e teve que ser socorrido pelo Governo. Ou seja, foi estatizado. Vejam só! Eles agora andam na contra-mão! Resultado: caos instalado, mundo em convulsão econômica, desconfiança geral, perdas incalculáveis. O fim do mundo...
Acredito que estamos diante de uma mudança geopolítica histórica, no qual o equilíbrio do poder no mundo se altera de uma forma irreversível. Não se trata apenas de uma crise financeira. Há também uma profunda crise política. Falta uma liderança de pulso na condução dos negócios globalizados. Bush pôs uma pesada pá de terra no império do Norte. A era de liderança estadunidense, que vem desde o final da Segunda Grande Guerra, ao que parece, chegou ao fim. Tenho pena é do futuro inquilino da Casa Branca, até porque não vejo perfil de estadista em nenhum dos dois postulantes.
Muito bem. Como as coisas não podem ficar, por muito tempo, à deriva, os lideres da União Européia se mobilizaram e começam a estabelecer estratégias de longo alcance para dar fim a desordem instalada. Reprovando energicamente o despautério bancário norte-americano, estão dispostos a estabelecer regras claras e rigorosas para uma nova ordem econômica internacional. Fica claro, portanto, que aos europeus passará o papel de dar as cartas. É a minha opinião.
O interessante disso tudo é que a História nos mostra que a derrocada de um império se caracteriza pela interação do binômio: guerra e dívida. Assim foi com o Império Britânico que se enfraqueceu e se esvaiu na Primeira Grande Guerra, com o Nazismo de Hitler, como foi com a União Soviética e como ocorreu com outros mais remotos, entre os quais o Império Romano e o de Napoleão Bonaparte. A Guerra do Iraque e a balbúrdia creditícia debilitaram fatalmente a liderança econômica dos Estados Unidos. Eles continuarão sendo uma das maiores economias do mundo, mas, indiscutivelmente, com grandes limitações e sem o brilho do passado. A farra acabou! Novas potências econômicas ascendentes tomarão seu lugar e, inclusive, quem sabe, se encarregarão, uma vez superada a crise, de comprar o que restou intacto do sistema econômico-financeiro norte-americano, inclusive para tirá-lo da recessão que vai reinar nos próximos anos.
É isto aí: de repente está surgindo um novo mundo, no qual a liderança dos Estados Unidos será coisa do passado. É outro Império que cai, para registro da História.
Nota: A ilustração foi colhida no Google Imagens.

Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Marola ou maremoto?

Como qualquer cidadão brasileiro e de sã consciência, estou ligado no debate da crise econômica mundial que se alastra nos quatro cantos do planeta. Não pretendo fazer nenhum comentário especial – por incompetência ou pelas complexas características do caso – mas, vou fazer algumas considerações, baseado em comentários na mídia, conversa com empresas e pessoas amigas aqui no Brasil e fora do país.
A primeira coisa que me ocorre comentar é a opinião do Governo Brasileiro e, particularmente, do nosso Presidente Lula. Desde o inicio do problema fiquei muito impressionado com os pronunciamentos do nosso mandatário, por serem excessivamente otimista, ignorando o fato concreto de que o Brasil é player do jogo da economia globalizada e capitalista. Pensando bem, no mundo de hoje, é inteiramente impossível, a qualquer país, ficar imune a este debaque econômico nas proporções do atual. Isto parece claro e cada vez mais certo, mesmo no “reino encantado de Lula”.
Fala-se muito do sistema bancário brasileiro, que é bem estruturado e se encontra numa fase segura. É verdade. Mas, este mesmo sistema bancário não vive autarquicamente, digo, independente de relações internacionais, porque boa parte faz parte de conglomerados internacionais e, por isso, vai ter lá seus percalços. Prova disso é que o Banco Central e o Governo maneiraram na questão do depósito compulsório, liberando bom percentual para manter irrigado o sistema financeiro nacional.
Depois disso, lembro que as grandes empresas brasileiras, internacionalizadas, com ações na bolsa de Wall Street, obviamente vão sofrer efeitos da crise, e as que, por razões diversas, dependem de transações no mercado externo – seja comprando matérias-primas ou vendendo seus produtos – vão certamente sofrer sérios efeitos do problema.
Ao mesmo tempo, considerando o que está ocorrendo com os preços das commodities – em baixas acentuadas – a situação começa a ser mais preocupante ainda. O petróleo, por exemplo, cujo preço do barril vem caindo todo dia, sem perspectivas de recuperação em curto prazo, remete a que os cálculos da receita projetada com o óleo brasileiro, da camada de pré-sal, devem ser refeitos e o resultado vai ser uma inesperada surpresa. Depois disso, tem o minério de ferro, a soja, o açúcar, o suco da laranja, fortes itens da nossa pauta exportações e por aí vai.
Ah! Mas o Dólar americano, na esteira da crise, se valorizou frente ao Real e isto vai representar uma recuperação das nossas exportadoras. É possível... mas, é bom lembrar que o mercado consumidor pode se retrair e isto pode gerar uma queda nas vendas ao exterior.
Estive conversando com uma pessoa da família, que vive nos Estados Unidos, e fiquei sabendo das mudanças nos hábitos do consumidor americano. Há muita preocupação e cautela dos que estão com o poder de consumo equilibrado, assim como há os incapacitados de consumir por estarem quebrados, depois de cair nas ciladas do crédito fácil. O clima, por lá, é de muita incerteza e de alguma revolta. Ora, se está sendo difícil na terra de Tio Sam, será difícil, também, para muita gente ao redor do mundo e o brasileiro não é melhor do que os outros. Imagino que, por estas horas, os chineses devem estar calculando as perdas devido à retração do consumo dos norte-americanos, que são os maiores compradores das bugigangas chinesas.
Conversei também com representantes de algumas empresas locais e cheguei à conclusão de que paira sobre elas “nuvens pesadas” sinalizando uma tempestade a qualquer momento. Um deles me disse que, por sorte, está com o almoxarifado abarrotado de componentes importados e, por enquanto, o Dólar alto não afetará seus negócios. “Daqui a três meses, espero que o Real se valorize, outra vez, e minhas compras de componentes sejam viáveis. Caso contrário vai ser difícil segurar...”, explicou meu interlocutor. Outra, estava preocupada com o preço do componente principal e mais valioso do equipamento que produz, porque é de origem norte-americana e, portanto, vai depender de um Dólar mais caro. Está com medo de perder a competitividade de mercado. Noutra empresa, que além de comprar componentes no exterior, vende muito no mercado externo, considera que a alta da moeda americana vai ser mais conveniente ao seu negócio. Isto, se não houver retração no consumo. Falei ainda com outra, multinacional, com sede na Europa e unidade no Recife e ouvi uma explicação interessante: apostou (não sei como) numa valorização do Euro e, com isto, orçou a produção e a comercialização anual com uma taxa de cambio valorizado. Acertaram na mosca. Estão tranqüilos, mesmo que temporariamente.
É isso aí. Esta coisa, de uma forma ou de outra, vai nos afetar. O pãozinho de cada dia vai subir, a ceia do Natal vai ficar mais cara e quem planejou viajar para o exterior (como é o meu caso) vai ter que esperar o furacão passar, juntar os pedaços e rever seus projetos.
É prudente, então, que não acreditemos na idéia de marola de Lula, porque nem ele mesmo acredita mais. Notaram? Resta saber se é marola ou maremoto?
Nota: Fotos obtidas no Google Imagens

Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

ELES NÃO FORAM ELEITOS

Confesso que fiquei aliviado, quando conferi os nomes dos vereadores eleitos para a Câmara Municipal do Recife. Além de encontrar nomes de conhecidos e amigos, vi que não aparecia nenhum dos folclóricos nomes de candidatos que encontrei listado no Diário de Pernambuco, do dia 20 de julho passado.
Durante toda a campanha, fiquei numa inquietação desmedida. Eleição sempre traz muitas surpresas. A gente só sabe o resultado quando as urnas são apuradas. Caso alguns desses candidatos saíssem vitoriosos, eu veria muitas dificuldades para a sociedade absorver seus nomes raros, quase alcunhas, nada recomendáveis para a composição da Casa de José Mariano.
Imaginem vocês o que faria, se eleito, o Vereador Faca Cega (PTN), como legislador municipal e em favor da cidade. Mais do que isso, imaginem, ele se candidatando à Presidência da Casa. No mínimo ele iria compor, a mesa diretora, com Largura (PV), para ampliar a mesa, Gordo da Salada (PTC), que refrescaria o plenário com sua salada de frutas, Pombo Branco (PPS), para estabelecer a paz nas horas de tumulto, Radio Olinda, o Popular (PSL), irradiando todos os acontecimentos, e Tieta do Agreste (PTN), que se desmancharia em carinhos e sensualidade, para aprovação de alguns projetos. Na Secretaria da Casa, a melhor pedida, para ele, seria Tati Pink (DEM), que, aliás, olhe lá, teve uma votação excelente e ficou com uma suplência.
Para a articulação política da Câmara, atuando no “meio de campo”, Faca Cega teria como boa pedida o nome do vereador Mauro Shampoo, cabeleireiro e jogador do Íbis, que, com toda certeza, seria desafiado pelo vereador Pelé (PTdoB), sob a alegação de que seu nome é uma grife mundial. E, aqui prá nós, seria justíssimo!
Pensem ainda nos esforços que Paulo Rodela (PSDC), Gorda (PRP), Dalva Maga (PSDC) e Cenoura (PTN) fariam para derrotar essa chapa de Faca Cega, que, aliás, nessa hora, já teria o apoio de Liberato Costa Junior, que, depois do enézimo mandato, saiu derrotado nas urnas e, sem outro remédio, apostava todas as cartas no seu ex-militante. Isso mesmo, eu soube que Faca Cega era o mais importante cabo eleitoral de Liberato. Cá pra nós, a meu ver, um verdadeiro Calabar! Como é que pode? Liba não merecia!
Eu só sei que a briga deveria ser grande, até porque eles iriam argumentar que representavam uma renovação, sangue novo e novo tempo na Câmara Municipal. Os poucos veteranos, restantes, estariam neutralizados e sem ação, diante de tantas novas energias. Além destes, ainda concorreram: Mimi, Bibiu, Zé Ninguém (que poderia mudar de nome para Zé Gente), Neno Burracheiro, Jorge da Pressa, Lourdes do Posto e Fátima da Lojinha (coitadinhas), Louro José, imagine só, Adilson Bolinho e Cuscuz.
Ah! Fiquei pasmo, também, com alguns candidatos do interior e ainda não tive tempo de examinar quem foi eleito em algumas cidades. Fico preocupado se entre os vitoriosos se encontram Peitinho (PRB), Potência (PV) e Dedé da Simpatia (PSDB), em Petrolina, que, aliás, tiveram a subida honra de disputar vagas com Alexandre Barak Obama (PSDB). Aí sim, só era o que faltava, Barak Obama ser eleito para a Câmara Municipal de Petrolina... e perder nos States. Estaria feita a maior confusão internacional...
Pois é, eu acho que esses senhores e senhoras, sem a menor chance de fazer uma campanha adequada e ganhar a eleição, apelam para a gaiatice desmedida e tentam, com isto, desmoralizar um processo que requer respeito e maturidade. O Brasil merece coisa melhor!
A idéia que passam é que jogam um jogo do vale tudo. Deve ser isto mesmo. Foi assim que Reginaldo Rossi e a empresária de garotas de programa, Odete, encararam as urnas, em Jaboatão dos Guararapes e a rebolativa Gretchen, em Itamaracá.
Meus amigos, foram muitos outros nomes folclóricos que se apresentaram como candidatos, no Pernambuco afora, entre os quais: Durão (PSL), Galega (DEM), esta, segundo o jornal, é uma legitima afro descendente, Xupeta (PDT), Fossa (PTdoB) Véi de Gaia (vôte!) (PDT), Buda (PMDB), João da Ema (PPS), Sapo de Tomate (PTB) Isac do Xuxu (PSDC), Pudim (PDT), Zé Pezão (PSC) e Paulo Doido (PDT).
Para terminar, eu soube de um que se chamava Nem, cuja propaganda era simples e indolor: Nem Fez, Nem Faz, Nem Fará. Pode uma coisa dessa?
Chora Brasiiiiiiiil!
Ufa! Ainda bem que eles não foram eleitos!

Nota: As ilustrações foram colhidas no Google Imagens.

Sábado, 4 de Outubro de 2008

Recife vai parar

Sabe, minha gente, a situação do transito no Recife está chegando ao limite. Já não há mais hora boa para circular. Agora, é engarrafamento o dia todo. Acho que, dentro de dois ou três anos, ninguém conseguirá sair de casa com seu próprio veículo.
A estrutura da cidade já não suporta tantos veículos em circulação. Segundo o Detran estadual, a Região Metropolitana do Recife tinha registrado, em agosto passado, um total de 763.595 veículos, incluindo automóveis, ônibus, veículos de carga e motos. Este número corresponde, aproximadamente, à metade da frota que circula no estado inteiro.
Ultimamente, há meses em que o Detran emplaca mais de 5 mil novos veículos. A tendência tem sido de crescimento, inclusive pelas facilidades de crédito para compra de automóveis. Há financiamentos em até 60 meses.
Pensando bem, os números apontados são de considerável magnitude para uma cidade de estrutura urbana antiga, com um traçado desordenado, em face da construção histórica e modo espontânea, carente de vias de circulação modernas e sem condições de expansão. Imagine, ainda, que, por razões das mais diversas, este número de veículos em circulação na cidade é sempre acrescido por veículos oriundos de vários pontos do próprio estado e dos vizinhos, seja de passagem ou permanência mais longa, atraídos pelo pólo sócio-econômico. Não tem jeito, a cidade vira uma balbúrdia, com um ambiente cujas características principais são engarrafamentos, motoristas estressados, buzinação, acidentes etc.
Para completar, temos um povo pouco educado ao volante, que transformam o transito da cidade numa grande aventura. O cidadão mais cuidadoso e educado sai sempre de casa sem ter a certeza de voltar incólume.
Quando vejo os atuais candidatos a prefeito do Recife, fico me perguntando se incluíram, nos seus planos de governo, uma ação voltada à administração desse caos. Ouço falar numa tal de via Mangue, há um bom tempo, e nada mais. Como se a citada via – prometida tantas vezes, sem sair do papel – fosse solucionar o problema da cidade como um todo. Acredito, que venha ser muito útil à zona Sul da cidade. Mas, é na zona Norte onde a coisa vem se agudizando. Nesta área houve uma intensa expansão imobiliária nos últimos dez anos, concentrado um alto contingente populacional.
Moro numa rua pequena (aproximadamente 300m) e estreita, nos Aflitos, na qual, em quatro anos, surgiu uma meia dúzia de novos edifícios com, em média, 20 andares. Imagine que sendo construções de dois apartamentos por andar, resulta, por baixo, em 240 moradias. Todas com, pelo menos, um automóvel. Minha rua hoje tem um movimento atípico. Muitos veículos, num permanente entra e sai, estacionamento nos dois lados e a circulação (mão única) sempre muito tortuosa. Isto se repete em inúmeros pontos da região e da cidade no seu todo, deixando a população atônita e preocupada com o futuro.
Sabe de uma coisa? A esta altura dos acontecimentos, uma das soluções, mais adequada e emergencial, seria adotar o esquema do rodízio de placas, como o vigente, há um bom tempo, na cidade de São Paulo. Lá o problema ainda não foi solucionado, mas ajudou.
Aqui o sistema seria odiado por muitos, sobretudo por conta da péssima rede de transporte coletivo e do comodismo das classes alta e média. Mas, não vejo outra solução, até que os governantes de plantão descubram outras. Como está, não pode ficar.
O Recife vai parar, porque tem muitos carros e poucas ruas.

Notas: Escrevo este artigo lembrando meu Companheiro rotariano Ubiracy Silva, que vem manifestando preocupação com o transito do Recife.


A foto é do transito do Recife, obtido no Google Imagens


Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

CINEMA (AINDA) É A MELHOR DIVERSÃO

Outra coisa que observei, nessa minha última ida ao Rio de Janeiro, foi que os cinemas, lá também, foram banidos das praças, ruas e avenidas e estão socados, aos conglomerados, nos Shoppings Centers da vida.
Foi passando na emblemática Cinelândia, que me dei conta dessa moderna estratégia de mercado. Deve ter sentido na cabeça dos especialistas em marketing.
Pois é, já não existe mais os majestosos cinemas cariocas. A Cinelândia já pode até mudar de nome porque lá não tem um cinema sequer! Circulando pela cidade, andei catando os cinemas que freqüentei na minha juventude. Cadê o cinema Metro de Copacabana? E o fantástico Odeon, na Cinelândia? Segundo um motorista de táxi, não sobrou nada. “Na Praça Sanz Peña, na Tijuca, quando eu era rapazola, havia mais de quinze, não resta nada, Doutor” disse o taxista. O imenso Roxy, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ainda está por lá porque, para sobreviver, desmontou sua imensa tela de cinerama e se desdobrou em três, ao estilo dos modernos cinemas.
Era muito bom ir a cinema no Rio de Janeiro da década de 60. Engraçado era que o cidadão assistia aos lançamentos cinematográficos, que só vinham a ser exibidos, no Recife, dois ou três anos depois e, quando isso acontecia, o tal cidadão enchia a boca e dizia que já havia assistido a tal película há muuuiiiito tempo, numa das idas ao Sul. Pense na boçalidade. E tinha gente que “morriiiia” de inveja. O cara, para se mostrar ainda mais, contava para “atentas platéias” detalhes do “velho” lançamento.
Foi-se o tempo em que ir ao cinema era motivo de frisson. Era razão para colocar roupa especial. As salas de exibição de hoje são muito diferentes das dos anos 60,70 e 80. É impressionante como, aqui no Recife, desapareceram nossos cinemas, depois da estratégia dos conglomerados dos Shoppings Centers. O Recife perdeu todas suas salas de cinema comuns nas principais praças e vias da cidade
Sou dos tempos em que assistir a um filme exigia-se estar enfatiotado, metido num terno e “enforcado” por uma gravata. Para entrar nos antigos cinemas do centro da cidade – São Luis, Moderno, Art-Palácio e Trianon – o neguinho tinha que estar elegante. As moças usavam roupas toaletes e não dispensavam um par de luvas. Pensem numa gente alinhada... Nos trinques!
Indumentárias à parte, é de se considerar que sem a forte concorrência da moderna TV por assinatura, dos vídeo-tapes, DVDs e locadores de filmes da vida moderna a coisa se revestia do maior clima. Pré-estréias de gala, sessão da meia-noite e matinais infantis. As matinês eram sensacionais. Acho que a turma de hoje nem sabe o que significam os termos matinal, matinée e soirée, tirados do francês para encantar a sociedade tupiniquim.
Quem vem da juventude dourada dos anos 60, jamais esquecerá as manhãs de sábados com o cinema de arte do São Luis. Era um dos programas mais tchan (ainda se usa esse termo?) da época. Antes da sessão rolava a maior paquera e o filme, propriamente dito, muitas vezes, perdia o encanto diante das emoções que rolavam na platéia.
Hoje a coisa é diferente. O espectador corre num shopping, sofre para estacionar seu veículo, normalmente atravessa longos corredores apinhados de gente, tem dificuldades de escolher o filme que deseja dada a oferta elástica de títulos e gêneros, elege um, compra um quilo de pipocas e um litro de refrigerante, entra, se espalha numa poltrona espaçosa e embarca no mundo da fantasia, enquanto vai sujando o salão. Ao final de cada sessão a turma da limpeza sofre...
Não que isto seja ruim... Nada disso! Até porque as modernas tecnologias – de som e imagem digital, efeitos especiais etc. – transformam a arte cinematográfica em espetáculo de primeira grandeza. Mas, que dá saudade do passado, isso dá.
Mesmo transformado e sofrendo fortes concorrências, cinema é a melhor diversão. Êita, que frase original!

Nota: Foto da belissima sala de exibição cinema São Luiz, no Recife, hoje fechado e entregue às baratas. Obtida no Google Imagens

Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

VENDE-SE UMA LAJE

A luta por um espaço onde viver parece ser um exercício sem fim para muitos brasileiros. Nas grandes metrópoles, a conquista pelo lugar onde construir uma moradia é uma verdadeira contenda. O cidadão de baixa renda cata, dia e noite, espaço nas periferias, burlando as autoridades e fiscalizações severas.
Fiquei impressionado como essa coisa é intensa na periferia da cidade do Rio de Janeiro, fora dos cartões postais e longe do Centro limpo e organizado que descrevi na postagem anterior.
Querendo viver perto do emprego ou da zona central da cidade o carioca (ou migrante) mora perigosamente “pendurado” nas favelas dos morros e pedras que circundam a cidade, criando uma zona residencial marginal, muitas das quais com regras próprias de convivência, quase sempre nocivas à comunidade ou à cidade, no seu todo.
São estratégias “imobiliárias” mirabolantes e arriscadas. No meio dessas, a que mais me impressionou foi a da especulação imobiliária da laje. Nas periferias do Rio de Janeiro, o sujeito, depois de muitas buscas, encontra um chão (alguns perigosamente situados), ocupa e constrói a moradia coberta por uma laje de cimento. Só Deus sabe como ele pode chegar até ali, como pode levar o material da construção e como obteve água e luz. Haja “logística”.
Obra concluída e ocupada, o cara põe uma placa de “vende-se a laje”. Sim, aquela que cobre a casa que ele construiu que, por sua vez, pode servir de piso para uma nova moradia. O primeiro tem, desse modo, o retorno do investimento que fez. Dependendo do seu talento como vendedor, esse retorno vem com bom lucro. O segundo adquirente do espaço, digo, da laje, procede do mesmo modo, isto é, constrói, se estabelece e vende – junto com o primeiro! – a segunda laje e assim por diante, várias vezes. Existe construções nas encostas de morros e pedras cariocas com seis pisos ou mais. É incrível. São verdadeiros edifícios erguidos, sem projeto ou cálculos seguros, pondo em risco um grande contingente populacional. Vez por outra, em tempos de chuva pesada, uma erosão inesperada leva morro abaixo construções desse tipo, vitimando muita gente, fazendo a festa da mídia, tirando o sono dos governantes e sensibilizando Deus e o mundo. A maioria tem, como bônus, o esplendoroso cenário do mar atlântico ou da baia da Guanabara, melhor do que qualquer penthouse de Ipanema ou da Barra da Tijuca.
Eis aí mais um jeitinho brasileiro. Digamos que um brazilian way of life.
Ah! antes que eu termine, lembro que, como bons brasileiros, esse habitante pendurado no morro não perde tempo e, enquanto não vende a laje, promove, nos fins-de-semana, um churrasquinho, regado a uma cervejinha gelada e ao som de um pagode, extraído de um “maneiro” três em um, comprado em trinta e seis prestações.
E você, quer comprar uma laje, voltada para o mar de Copacabana, Ipanema ou São Conrado?
Vá lá... deve haver alguma dando sopa... Vidigal e Roçinha são duas boas sugestões.


Nota: Fotos do blogueiro

Sábado, 20 de Setembro de 2008

O Centro do Rio de Janeiro

Estou, outra vez, no Rio de Janeiro. Mesmo numa missão de trabalho, impossível não admirar as belezas desta cidade, que continua linda.
Sabe de uma coisa, comparando com outras áreas centrais de diversas metrópoles brasileiras, o Centro do Rio está muito bem cuidado e é prazeroso de ser visitado. Bem diferente dos centros deteriorados de São Paulo ou Recife. Aqui foram conservadas e são preservadas cuidadosamente as marcas da história e o cidadão transita tranqüilo. Dá gosto de ver as inúmeras ruas antigas, entre as quais as da Quitanda, do Carmo, Assembléia e Ouvidor, limpas, com prédios de mais de duzentos anos, todos bem conservados e aproveitados.
Aliás, na minha opinião, é bem mais interessante caminhar pelo Centro carioca, do que, por exemplo, pelo bairro de Copacabana, que viveu nos anos 50, 60 e 70 sua fase áurea. Por ali, a impressão que se tem é que o tempo parou. As lojas não se renovaram. As vitrines, antes atrativas e charmosas, parecem sombrias e negligenciadas. Tudo muito parecido com o que havia há quarenta anos. Além disto, as avenidas e ruas transversais são sujas, mal tratadas e repletas de ambulantes. Já no Centro, que parece ter sofrido uma boa intervenção, vi lojas modernas coloridas e atraentes. Mais do que isto, vi, no horário do almoço, um carioca mais bem trajado (muitos executivos) disputando mesas nos inúmeros restaurantes de boa categoria, espalhados pela área.
Neste mesmo centro, para minha surpresa, notei a existência de vários quiosques para a venda de flores, dando mais graça à região. Vi, também, a exemplo de Paris ou Nova York, artistas populares vendendo, de modo sutil, sua arte. Destaco o maravilhoso saxofonista, na entrada da estação de Metrô da Carioca, tocando composições de Vinicius, conferindo mais beleza ao meio (vide foto ao lado). Cheguei a parar, por um momento, para observar e escutar o som emitido pelo anônimo artista.
Outra coisa, no Centro do Rio não se vê a fiação da rede elétrica ou de telefonia. É tudo subterrânea, que é uma coisa pouco valorizada noutras cidades brasileiras. Isto faz a maior diferença no ambiente urbano. O Recife, por exemplo, é um péssimo exemplo. Tem fios, de toda espécie, pendurados nos postes e alguns são tão baixos, que assustam o pedestre. Aliás, nem é bom falar sobre as barbaridades cometidas no centro do Recife. Quando penso que houve um Prefeito que abriu a Avenida Dantas Barreto, arrasando a melhor parte do sitio histórico do bairro de São José, incluindo templo secular e casario colonial, fico lamentando a ignorância e a brutalidade exercitada. Sobre a decadência do Bairro do Recife Antigo, decorrente de uma exacerbada miopia política, nem é bom falar. Fica para outro dia.
Pois é, não obstante as constantes notícias alarmantes da TV, sobre a “guerra” que se trava todo dia nas favelas da periferia carioca, o Centro carioca é muito agradável de ser visto. Recomendo.

Nota: As fotos são do Blogueiro

Sábado, 13 de Setembro de 2008

Saudades (do Recife) da aurora da minha vida

Depois que eu completei 17 ou 18 anos, ganhei total alforria dos meus pais para freqüentar os embalos da época, na maioria das vezes nos clubes sociais da cidade e nos assustados, nas casa de amigos. Era um tempo sem a violência dos dias de hoje e uma juventude mais comedida, longe da liberdade que a turma de hoje experimenta.
Digo isto, porque tenho um filho jovem, baladeiro ao extremo, que todo fim de semana, e muitas vezes durante a semana, entra de cabeça nos bares e boates da cidade. Motorizado, entra sai de casa, num abrir e fechar de olhos. “Os tempos são outros pai”, vive me avisando e eu resistindo por entender esses novos e assustadores tempos.
Para nós, os pais, que hoje ficamos em casa, muitas dessas noites se transformam num suplicio. Será que ele vai beber, beber até cair? Será que não vai ser assaltado? Vai dirigir embriagado? Com quem está saindo? Com quem está ficando? É um estresse danado. Claro, que confiamos na educação que demos, mas, muitas vezes, as companhias e a ocasião levam o cidadão aos extremos. Graças a Deus as coisas estiveram sempre sob controle. Na minha casa...
Lembro com pesar, que tenho amigos (eu disse no plural) que, não tendo a mesma sorte, já perderam filhos em assaltos e por conta do binômio bebida e direção. Vendo esses casos, faço sermões e advertências a toda hora, dentro de casa. Estou um pouco mais tranqüilo com a atual Lei Seca. Mas, essa tranqüilidade deixa, ainda, a desejar.
Conversando com companheiros de farras na juventude, recordamos a inocência daqueles tempos que não voltam mais. Não havia exageros na bebida, a moda era Cuba Libre (Rum com Coca-Cola) e bastava uma dose por noitada. Namorávamos sem ultrapassar os limites. Essa história moderninha de ficar era inimaginável. Ao contrário de hoje, que o namoro começa com um beijo tipo “desentupidor de pia”, beijar, naquela época, só depois de muito tempo. Bote tempo nisso. Algumas garotas tinham nojo e muitas pensavam que beijando perdiam a virgindade. Cama, nem pensar! Nem cama, nem outro móvel qualquer. Ir morar na casa da namorada ou do namorado, impossível. As moças, numa maioria esmagadora, casavam virgens, cheias de orgulho e confiança. Ou seja, namorar era um ato inocente, de conversas bestas e poucos amassos. E, quando a gente, o varão, não agüentava mais, ia tirar o sufoco hormonal na zona do Recife Antigo! Ou com a colaboração das empregadas domésticas, mais conhecidas por peniqueiras, soltas nas noites suburbanas da cidade. Essa coisa horripilante que é a Aids, não era nem sonhada. O pavor das doenças sexualmente transmissíveis ficava por conta da blenorragia e do cancro. Tudo perfeitamente curável e jamais mortal. Camisinha? Para que? Troço mais insólito... E, tem mais, raro! Hoje, tem até no supermercado. Eu, mesmo, só vi a primeira depois de bem madurinho. Achei engraçado e comprei só para exercitar o uso numa hora H oportuna.
Naqueles tempos da maravilhosa Bossa-Nova, como poucos rapazes tinham automóvel, o percurso de casa ao local do embalo era feito de ônibus ou mesmo a pé. Eu, por exemplo, morava no Rosarinho e ia para as festinhas, do Circulo Militar, em Ponte d’Uchoa, caminhando. Eu e os colegas de colégio, entre os quais lembro de Joe Gonçalves, Fred Moreira, Carlos Nobre, Marcos Cesário de Mello e Jorge “El Congo”. Era incrível a tranqüilidade que se vivia. Na volta para casa, de madrugada, ou dia já claro, a única coisa que nos amedrontava eram os cachorros de guarda soltos nos jardins das casas. Ah! Só havia casas. Essa coisa de condomínios de apartamentos só veio depois de algum tempo. Os bairros do Espinheiro, Aflitos e Rosarinho eram verdadeiras belezas. Pacatos, aprazíveis, menos quentes do que hoje, pouco trânsito, casas magníficas, jardins bem cuidados, ruas iluminadas, limpas e bem cuidadas. A cidade pulsava nessas bandas da zona Norte. Boa Viagem e Piedade ainda estavam começando a ser construídos. Eram lugares distantes, onde, praticamente, só íamos para veranear ou então para ir a “Putizzaria” Boate Samburá, quando aparecia uma carona, era muito longe, de um colega rico motorizado. Virgilio se chamava um desses. Ou então, mostrar aos visitantes forasteiros, a praia e uma casa em forma de navio (Foto ao lado), na beira mar, em Boa Viagem.
O Recife cresceu, virou metrópole, e com o crescimento – que é bom, não vou negar – vieram as dificuldades, a insegurança e a insustentabilidade. Nossa sociedade e governantes precisam reagir. Não dá mais para viver numa urbe que marca presença no topo do topo do ranking da insegurança nacional. Tenho saudades (do Recife) da aurora da minha vida.

Nota: Esta cronica é dedicada aos meus colegas Joe Gonçalves, Fred Moreira, Marcos Cesário de Mello, Carlos Nobre, Jorge El Congo, marcos Rufino Ferreira, Paulo Sergio Petis Fernandes e Virgílio (já falecido), meus companheiros de Colegio Marista e de farras inocentes nos anos 60.
Foto obtida no Google Imagens

Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

FABRICANTES DE PÂNICOS

Tem gente que adora perturbar a população espalhando boatos calamitosos, metendo medo nos inocentes e ignorantes. São verdadeiros fabricantes de pânicos. Por incrível que pareça existem uma imensa parcela de pessoas que caem no conto e embarcam de cabeça na onda da boataria.
Hoje ocorreu um desses casos. Circula na Internet (que se presta para isto, como nada antes na história deste país) um boato de que o gigante acelerador de partículas, inaugurado hoje, na fronteira entre a França e a Suíça (foto ao lado), vai servir de acelerar a velocidade de rotação da Terra, ao ponto de arremessá-la num buraco negro no firmamento, que vai sugar o planeta num abrir e fechar de olhos. Com outras palavras: o mundo vai se acabar! Pense no desespero que se espalhou, em certas camadas sociais, pelo Brasil afora. Sintonizando uma dessas estações paulistas, que transmitem programação para o país todo, escutei depoimentos patéticos, estimulados por locutores cínicos, de um Programa denominado Pânico. Fizeram do assunto a festa do dia, na emissora. Entrevistaram pessoas na rua, em casa, no comércio, entre outros lugares e, somente no final, um cientista que colocou as coisas no devido lugar.
Se bem entendi a tal máquina que foi acionada esta manhã, lá na Europa, chamada de Grande Colisor de Hádrons, é uma versão gigantesca de muitas outras espalhadas no mundo, inclusive no Brasil, que se prestam para desvendar os mistérios das menores partículas que existem na natureza, incluindo o corpo humano, com finalidades das mais diversas a serviço do homem. Este Grande Colisor, instalado a 120 metros de profundidade e num túnel cilindrico de 27 Km., foi construído para desvendar os mistérios do universo. Pense no tamanho dessa máquina, que foi batizada, pelos boateiros, de Máquina do Fim do Mundo. Haja criatividade!
Esse negócio de espalhar o pânico é uma brincadeira de muito mau gosto e irresponsabilidade. Vez por outra, marcam uma data para o mundo se acabar. Quando era menino, fiquei apavorado com uma dessas ondas. Os mais velhos falavam com tanta seriedade que quase não durmo na véspera do fim do mundo. Não faz muito tempo, ocorreu um desses boatos. Meu filho mais novo, ainda inexperiente, veio, meio conformado e triste, me dizer: “Pai, que pena, eu sou tão novinho, ainda, e o mundo já vai se acabar. Quase não aproveitei o mundo. Será que vão dar um jeito?”. Tive vontade de rir, mas, ao invés disso, abracei meu inocente e procurei tranqüilizá-lo. Fala-se que, nessas ocasiões, as orientadoras psicológicas das escolas primárias têm muito trabalho para acalmar a garotada. Imagino, porque o coletivo infantil é uma parada.
Quem viveu a passagem do ano de 1969 para 1970 deve lembrar que espalharam o boato de que os indivíduos de cor negra virariam macacos no romper do ano novo. Nós tínhamos em casa uma secretária preta, atuando na nossa cozinha, que não gostou nada de viver aquela situação. Meus irmãos pequenos ficaram penalizados com a Severina, ao mesmo tempo que esperavam ansiosos, e no maior frisson, a passagem do ano para vê-la saltando de um lado para outro, arrastando um rabão (ela tinha nádegas imensas) pela cozinha e descascando uma banana atrás da outra. Pense na marmota. Na casa da minha Tia Ritinha, Miroucha, cria da casa, de cor morena bem queimada, a meia-noite do dia 31 de dezembro de 1969, trancou-se no banheiro e para arrancá-la de lá, para festejar o ano novo, foi uma mão-de-obra. “Mira, minha filha, saia prá fora... ôxente menina, tu num tais vendo que num aconteceu nada contigo. Num tá vendo não?” implorou minha tia, por muito tempo, batendo à porta do banheiro.
Pois é... naquele ano, os negros, graças a Deus, continuaram normais e o que restou do episódio foi, apenas, a lembrança e uma marchinha de carnaval, cantando o boato.
Outro pânico, inesquecivel, foi o do boato do estouro da Barragem do Rio Tapacurá (foto ao lado), em 1975, na entrada do Recife. Este, nem é bom lembrar. A cidade virou um hospício generalizado, diante da perspectiva de ser invadida por uma descomunal massa de água, que dizimaria a população. Mães abraçavam os filhos e se despediam do mundo. Carros eram abandonados nas avenidas. Gente caia pra trás e morria de colapso cardíaco. Outros queriam se suicidar para não sofrer o afogamento. O Hospital de Pronto Socorro bateu o recorde de atendidos e de não atendidos. Um caos geral, dirigido pelos fabricantes de pânico. Quanta perversidade e irresponsabilidade.
Pena que seja difícil identificar pessoas desse gênero, porque para eles só há um destino adequado, que é a cadeia e por muito tempo.
Nota: Fotos do Google Imagens

Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Vozes do Poder

Grandiosidades à parte, dos dois empreendimentos inaugurados no fim de semana passado, em Suape, aqui em Pernambuco, chamou-me a atenção a forte conotação política que caracterizou os dois eventos.
Cortar a primeira chapa de aço para compor uma primeira embarcação a ser produzida no Estaleiro Atlântico Sul – EAS não poderia ter manifestação política maior do que vi, sob os majestosos galpões já construídos e ecoando nos canteiros de obras na Ilha da Tatuoca.
O Presidente Lula fez da oportunidade um verdadeiro happening político, ao desembarcar no estado com um séqüito de ministros e assessores dispostos a transformar a ocasião num grande comício de campanha política, para o momento e para o futuro. Um verdadeiro golpe de mestre. Tudo bem, ele tem lá suas razões e os pernambucanos agradecem. Mas, no afã de dar visibilidade aos seus afetos termina por abusar do direito de fazer campanha política velada e negar, a quem de direito, partes dos louros do sucesso. São as coisas perversas da política partidária.
Administrar oito discursos, a maioria dos quais inflamados e com jargões populistas, dirigidos a uma platéia formada, basicamente, de trabalhadores da planta terminou por transformar a “festa” num festival de aplausos e ovações além das medidas. Para quem foi lá interessado a ver o essencial, como foi meu caso, o momento chegou a ser exaustivo e inoportuno. Paciência. Fui para chuva, tive que me molhar.
O outro empreendimento, inaugurado no sábado, foi o da IMPSA (Wind Power Energy), empresa de capital argentino, que vai produzir, também em Suape, geradores de energia eólica. Dizem ser a maior do gênero na América Latina. Para este evento, quem veio foi a Presidente da Republica Argentina, Cristina Kirchner, voando de Buenos Aires direto para o Recife.
Esta inauguração teve uma dimensão menor, dadas as proporções do empreendimento, mas, igualmente, com importante componente política. A vinda da Senhora Kirchner além de conferir um imenso prestigio aos que fazem a empresa argentina – o Grupo Pescamona – líder no ramo naquele país e maior na América Latina, veio recheada de intenções político-econômicas a serem firmadas entre Brasil e Argentina. Há tempos não se falava tão bem em integração econômica.
Dessa vez, foram poucos e bons discursos. A vaidosa presidente argentina – na minha avaliação, ela faz o tipo mulher sedutora – foi à tribuna e brindou os poucos e seletos convidados com um discurso daqueles que costumo chamar de redondo. Com pé e cabeça. E, não foi nada pré-escrito. Foi um improviso subsidiado pelas falas que a antecederam. De forma sucinta e bem arrumada, a presidente elogiou a atual política industrial brasileira, manifestou compromisso com um intenso programa de integração econômica com o Brasil, alertou para a importância da utilização de processos industriais que agreguem valor aos produtos e, por fim, referindo-se ao discurso do empregado da empresa que, em tom otimista, confessou seu compromisso com a empresa para transformá-la na maior do mundo, porque da América Latina ainda é pouco, La Kirchner elogiou o entusiasmo do brasileiro, pela auto-estima e a vontade de crescer. Justificando, disse do esforço que vem desenvolvendo para recuperar a auto-estima do seu povo, ainda muito sofrido por tantas políticas sócio-econômicas equivocadas praticadas no passado recente do seu país.
Confesso minha surpresa com a fala da presidente e digo isto porque a achei excessivamente preocupada com as madeixas e a maquiagem, antes de usar a tribuna. A propósito, acho que ela não gostou nada da aspersão de água benta, no rosto, feita pelo pároco do Cabo de Santo Agostinho que abençoou as instalações da fábrica. Secou a face com um leque que portava e acionava seguidamente. Ela nem percebeu que o religioso quis apenas agradar a ilustre visitante. Pois é, foram dois momentos importantes para Pernambuco e consagrados com vozes de muito poder.


Nota: Fotos do Blogueiro. Lula admirando a moderna maquina de corte da primeira chapa e a Presidente Cristina Kirchner cheia de dedos.

Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

VOTE CERTO

Nada mais interessante, nesses tempos de eleições, do que observar o comportamento dos postulantes a cargos eletivos. Uns mais qualificados do que outros. Muitos sem classificação. Inúmeros ridículos e impagáveis, mais divertidos do que o melhor dos humoristas.
É impressionante como essas pessoas, muitas vezes forçando sua própria natureza, se transformam em pessoas afáveis, gentis, educadas e populares, mesmo não sendo. Tiram o paletó e a gravata, vestem camisetas e calçam sandálias, sobem e descem ladeiras, bebem uma cachacinha aqui e outra acolá, comem do “pão que o diabo amassou” para aparentar que estão com o povo e ao lado dos comuns.
Na minha opinião, o período da campanha eleitoral é o tempo no qual a Nação mostra sua cara teatral. Quantos talentos estão no caminho errado (o da política), quando de fato deveriam estar buscando as luzes das ribaltas, nos palcos da vida. Fariam mais sucesso e viveriam felizes, porque são perfeitos atores.
É impressionante o número de candidatos, que saem do nada e de todos os recantos da cidade, cheios de ilusão e muita bossa, crentes que vão fazer sucesso e chegar lá. São quase 700 candidatos para 37 vagas na Câmara Municipal do Recife.
Observando nomes, currículos e densidade política, poucos se salvam e levam a melhor. Outros, os que não se salvam, até ganham a eleição e nem preciso fazer considerações a respeito do resultado prático, tamanha é a ignorância a respeito do papel que devia desempenhar.
Como circulo muito, vejo-me diante de inúmeros desses candidatos que, invariavelmente, vão logo atacando com o famoso clichê: “conto com você!”, acompanhado sempre de caloroso amplexo e do famoso “santinho”. Certas vezes, o entusiasmo é tamanho que só faltam oscular-me.
Outro dia, um cidadão que, sem a menor condição financeira para fazer uma campanha, inocente de pai e mãe, vestido de maneira berrante, boçal até dizer basta e com um linguajar pastoso encontrou-me num evento empresarial e não teve dúvidas de me abraçar, elogiar-me – segundo ele, cada dia estou mais moço e mais elegante! – e pedir o voto para vereador do Recife. Surpreso com a abordagem, conheço-o apenas de vista, não acreditei no que via. O cara puxou do bolso um folheto, mal impresso, com a foto, o “currículo” e as promessas de campanha. Nada se aproveitava. Tive que tolerar meia hora de lero-lero e, a pulso, pedir licença para sair. Jesus, que barbaridade! Imaginei aquela figura na tribuna municipal, sem ligar nada com coisa alguma e posando de legitimo representante do povo.
O negocio é o seguinte: sou daqueles que entende que a eleição municipal é a mais importante de todas. A participação popular deve ser mais consciente, porque, afinal, o que está em jogo é o dia-a-dia do cidadão. O município é a célula da Federação e nele reside a base da cidadania. Não pode haver sociedade sã se não houver um ambiente adequado ao bem estar, segurança e tranqüilidade na sua base espacial. Numa eleição municipal elegem-se, supostamente, representantes que devem cuidar, de perto, do cidadão. Isso me parece fundamental. Uma má escolha – que, na maioria das vezes, vem ocorrendo neste país – resulta numa sociedade defeituosa desde a raiz e incapaz de participar de modo mais adequado e justo nas escolhas superiores e que, em tese, se encarregam de construir um País com ordem e progresso e uma Nação sadia e em paz.
Vejo que no próximo pleito eleitoral, corremos o risco de ver saindo vencedores candidatos desqualificados – a maioria conquistando votos por meios desonestos – e, portanto, incapazes de representar idealmente o povo.
Por isso, caro (e)leitor ou (e)leitora, seja exigente. Ainda é tempo. Não se encante com os belos olhos do candidato, com um discurso demagógico ou o padrinho que o empurra. Ao invés disso, dê um voto certo, consciente, racional, pensando na sustentabilidade do coletivo sofrido que habita sua cidade.
O Brasil precisa de uma base política municipal mais digna para o futuro sonhado.




Nota: Foto obtida no Google Imagens

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

CONCERTO NA SERRA

Uma das boas coisas de Pernambuco se chama Gravatá. Pertinho do Recife (pouco menos de 80 Kms.), 45 minutos de boa rodovia, depois dos quais já se respira ar puro de montanha. Situada no alto da Serra das Russas, em pleno Planalto da Borborema, a cidade se encontra a uma altitude próxima de 500 metros, ocorrendo alguns pontos, no seu entorno, com até 700 metros. Estive por lá neste fim de semana.
Sábado passado algo deixou o local mais atraente do que o normal, por ocasião de um concerto de música erudita, a cargo da Orquestra Jovem de Pernambuco, sob a batuta do talentoso maestro Rafael Garcia, chileno de nascimento e pernambucano de coração e de direito, tendo o suporte da sua consorte, a pianista pernambucana, Ana Lucia Altino Garcia.
O local não poderia ter sido melhor: o Centro de Convenção do excelente Hotel Portal de Gravatá, dirigido, competentemente, pelos irmãos Cavalcanti, um deles, o Eduardo, amante da música clássica e um dos responsáveis pelo concerto deste fim-de-semana. Que, aliás, é bom lembrar teve apoio cultural e decisivo da Petrobrás. Bravo!
Imaginem uma noitada, na qual se juntam fatores que resulta, inevitavelmente, em sucesso: clima de montanha, música deslumbrante, conforto de instalações e, no final, uma boa fondue regada a um bom vinho. E “papos cabeça”!
Essa Orquestra Jovem de Pernambuco merece um especial destaque nesta conversa de hoje. A origem do Grupo data de meados dos anos 80, por iniciativa do casal Garcia e formado com jovens, na sua maioria, originários de vários projetos de assistência social à comunidades pobres da cidade e, consequentemente, de famílias de baixa ou baixíssima renda que, estrategicamente encaminhados, encontraram na música uma razão de viver, abandonando a rua e a marginalidade. Eis aí, de cara, uma razão para admiração e aplausos. Muitos já se tornaram músicos profissionais, inclusive contratados por grandes orquestras, noutras praças. Bravo, outra vez!
O projeto foi interrompido algum tempo, porque os Garcia tiveram que se afastar, por bom período, para os Estados Unidos. Retomaram a idéia no ano de 2005. Pois bem, apesar de tão pouco tempo dessa reativação, a moçada que compõe a orquestra atual reagiu de modo extraordinário e hoje, como diz o emocionado Rafael Garcia, se constitui na melhor orquestra de câmara do estado de Pernambuco. Trata-se de um projeto digno de admiração que, para minha surpresa, não recebe apoio de nenhum nível de governo, o que é lamentável.
No programa de sábado, em Gravatá, a seleta platéia foi brindada com obras de Mozart, Bach, Clóvis Peixoto e Astor Piazzola. Um programa, que eu diria, escolhido a dedo, para agradar a uma assistência muitas vezes carentes desse tipo de musica e numa cidade que raras as vezes tem a oportunidade de assistir a um concerto de música erudita. Foi de “lavar a alma”...
Aliás, por falar em lavar a alma, vale à pena um destaque, dentro deste maior: a garota Karolyne Santos, que, com 9 aninhos de idade, deu um verdadeiro show, tipo gente grande, executando ao violino o Concerto para Violino e Orquestra em Lá Menor, de Bach. (Foto ao lado) Para este caso, da menina, vou usar um termo antigo: mimoso. Essa menina aprende violino desde os 5 anos de idade. Tímida, séria, acredito que tensa diante da platéia, reagia aos aplausos sem mover um só músculo da face. Para agradecer os aplausos curvava-se solenemente, como uma japonesa diante do publico. No final, perguntei: “minha filha quantas horas, por dia, você exercita seu violino?” Escutei, num tom bem baixinho, com uma boquinha bem apertadinha, “2 a 3 horas durante a semana e 5 ou 6 horas nos finais de semana...” Para quem já criou três filhos, irrequietos, fiquei pensando como pode ser essa criança... sim, porque ela é uma criança, ficar presa ao violino tantas horas da semana? Sem brincar de “pula-pula” ou de “pega”. Nem de boneca? Será? Incrível. Se essa garota conseguir progredir na musica, como eu imagino, recomendo aos amantes da boa música, que guardem esse nome, misto de estrangeirismo e brasileiro comum.
Belo, meu fim-de-semana na Serra das Russas. Aplausos aos Garcia pelo belo trabalho que desenvolvem.

Nota: Foto da autoria do Blogueiro

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Pré-Sal: que danado é isto?

Numa roda de amigos, dia destes, rolou um papo sobre um tema muito comum, ultimamente, nos meios de comunicação do Brasil: Petróleo do Pré-Sal.
Petróleo tudo bem, mas ninguém sabia o que significava pré-sal. Voltaram-se pro meu lado e me desafiaram descobrir o que danado vem ser isto e transformá-lo em assunto do Blog. Entusiasmado, “encarei o desafio”. Deixa, que eu mesmo andava curioso por saber o significado da coisa. Cai em campo e a primeira consulta foi, é claro, na Internet. Este seria o caminho de qualquer um. Depois, uma conversinha com um geólogo amigo e, rapidamente, charada abatida.
O negócio é que o Brasil descobriu ser detentor de uma fabulosa fortuna de petróleo – de primeira qualidade – nas profundezas do Atlântico, logo depois das nossas belas praias. E essas profundezas recebem a denominação cientifica de camada do pré-sal.
E aí vai a explicação: Pré-sal é uma camada de sal em pedra, soterrada no fundo do mar, a mais de 5 mil metros de profundidade, contados a partir do fundo mar, que por sua vez está a mais de mil metros da superfície. Pensem bem nessa profundidade. Pense o que é trabalhar esse negócio.
Segundo meu amigo geólogo, essa tal camada de pré-sal está situada abaixo de outra conhecida como camada de sal, sobre a qual há uma outra denominada de pós-sal e somente acima desta, aliás, estão todas as descobertas anteriores da Petrobrás. Estamos falando, explico, de unidades (camadas) geológicas, que são classificadas e ordenadas do centro, lá do miolo, para a superfície do planeta. Por isso que a tal camada do pré-sal está mais abaixo. Tem uma lógica em principio difícil de entender, mas fica fácil depois de exposta e digamos que seja uma lógica ao inverso. Enfim, é um negócio pra lá de profundo, pronto.
Pois bem... nessas profundezas oceânicas, no litoral entre os estados do Espírito Santo e Santa Catarina, descobriram reservas que comprovadamente chegam a 8 bilhões de barris. Mas, já estão avisando que este número pode se multiplicar por dez. Ou seja, são 80 bilhões de barris cada um valendo, a preços atuais do mercado internacional, acima de US$ 100,00. Faça a continha. É dinheiro pra não acabar mais... vai empinar este país às estratosferas da riqueza, quase igualando-o ao Iraque, o que, aliás, já me deixa preocupado. Sim porque, à luz da história, começo a temer pela nossa segurança. Ninguém me convence que os Estados Unidos invadiu o Iraque apenas para implantar uma democracia.
Por essas horas já deve ter nego, lá fora, de olho gordo na nossa riqueza repentina.
Não preciso dizer que isto é motivo de euforia na esfera governamental. Êita menino de sorte, esse Presidente Lula...
Mas, como dizia minha finada mãe, “dinheiro é muito bom, mas, também dá muito trabalho e dor de cabeça”. Haja dor de cabeça para manejar essa grana toda. Será que vamos ter tecnologia pra tomar conta disso tudo? Será que vamos ter governo competente e probo para administrar essa carga pesada? Será que o Brasil vai saber distribuir a riqueza através de investimentos produtivos e geradores de renda e emprego? Ou, a exemplo dos países do Oriente Médio, vai ser um país rico com uma nação de pobres e comandada por meia dúzia de marajás do petróleo?
A Petrobrás, que é famosa por ser a empresa mais competente do mundo na exploração de óleo, em águas profundas, em principio deveria ser a exploradora do petróleo do pré-sal. Mas, olhe lá, tem o inconveniente de ter 60% das suas ações em mãos estrangeiras. O governo, estrategicamente, já sinaliza com a criação de uma nova estatal somente para a exploração do pré-sal. Estatal? Sei não... muitas águas vão rolar nesse debate.
E você, caro leitor, estimada leitora, o que acha disso? Dê sua opinião. Faça um comentário. Petrobrás ou nova estatal no pré-sal? Eis a questão.
Participe, porque este Blog tem sido acessado em vários pontos do País e do exterior. A última postagem, por exemplo, foi lida por aproximadamente 350 pessoas.

Nota: Gráfico obtido no Google Imagens e originalmente do Globo On line.
A enquete sobre chorar em público continua até dia 30. Vote.

Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

QUANDO NÃO DÁ PARA SEGURAR

Uma das coisas que mais me chamou a atenção nestas últimas Olimpíadas, em Pequim, foram as lágrimas derramadas pelos atletas brasileiros. Nos momentos da vitória e de fracasso. Não consegui ver atletas de outras procedências tão chegados aos extremos emocionais, como ocorrido com os nossos.
Isto, aliás, foi assunto para a imprensa, na TV e rodas de bar, sempre em tom critico e de reprovação.
Lembro que, quando era menino, meu pai dizia que homem que é homem, não chora. E, pior, me fazia engolir o choro, sempre que este me aflorava em situação de estresse.
Isto se tornou um trauma na minha vida inteira. Tanto é que, tenho vontade de chorar em muitas ocasiões, quando diante de uma cena forte do cinema, da morte de um ente querido ou da alegria de um reencontro, mas, digamos que, pelo trauma de infância tento, sempre, esconder as lágrimas, a emoção, isto é, a razão de ser um ser humano.
Quando vi Bernadinho chorando por perder a medalha de ouro do Volley masculino, fiquei admirando a capacidade e coragem de ser ele, diante das câmaras, ao vivo e a cores, cheio de emoção e sensibilidade. Confesso que tive vontade de acompanhá-lo nas lágrimas, como que me solidarizando. Tive pena – como já falei no artigo anterior – de ver Diogo Hipólito chorando, de bunda no chão, e pedindo desculpas ao Brasil, bem como vibrei ao ver Maureen Maggi chorando pela medalha de ouro que conquistou. Achei fantástica a vitória das meninas do volley e emocionei-me vendo-as chorar de alegria ao receber a medalha de ouro. Novamente, quase chorei de alegria, é claro.
No caso dos atletas, há uma confluência de razões. A maioria, acredito, chora porque vestiu a camisa do Brasil e sendo atleta quer fazer bonito e chegar ao máximo. Outros porque são vaidosos e buscam a perfeição. Mas, há também aqueles que, além de competir, buscam conquistar um “lugar ao sol” no competitivo mundo do esporte e o melhor exemplo disto é o das meninas do futebol. Todas, segundo dizem, de origem humilde e carentes de reconhecimento, choravam, também, por perderam a chance – mesmo sendo prata – de impor num país machista, como é o Brasil, o devido prestígio do esporte que praticam, na categoria feminina. E, finalmente, há aqueles que choram porque, embora bem situados, em prestigio esportivo e gordas contas bancárias, perderam chances de incrementar essa situação. Haja choros.
Pois é. Há momentos que não dá para segurar, mesmo. Mesmo que seja homem, machão e duro de coração. Afinal, lágrimas existem e não ficam represadas. Faz parte da natureza humana. A lágrima é um sintoma claro de um estado de emoção – tristeza ou alegria – que após vertida confere uma sensação de relaxamento e alívio. Todo ser humano precisa pensar nisto, relaxar e chorar.
Ah! isto é coisa típica de latino...” ouvi comentários desse tipo, acrescido da “brilhante” explicação de que fossemos anglo-saxões, nipônicos ou chineses, reagiríamos de modo mais comedidos emocionalmente e saberíamos, assim, encarar a realidade como mais frieza.
Mas, e daí? Somos de origem latina sim. Emotivos por natureza. Geniosos e chorões. Mas, somos humanos, o que nos confere o direito de ser gente, com nossos maravilhosos traços culturais, que se traduzem, também, quando das nossas explosões de alegria contagiante e única, que empolgam meio mundo.
Portanto, se o choro tem forte relação com a cultura do cidadão, estão explicadas as lágrimas brasileiras, em Pequim.
Preciso lembrar mais que sou latino, para, depois de adulto e velho, me livrar do trauma de infância e dos mandamentos do meu pai. Preciso chorar quando preciso for.

ENQUETE: Sendo Homem, responda a pesquisa ao lado. Chora ou não chora em público?
Resultado da Enquete: Após 5 dias de pesquisa - depois de postada esta matéria -, 89% dos homens afirmam que são capazes de chorar em público. enquanto os 11% restante dizem não ter coragem de fazer isto.

Nota: Fotografias colhidas no Google Imagens

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

BRASIL: SEM MEDALHAS DURADOURAS

Constrangimento nacional depois do jogo de hoje (19.08.08) entre Brasil e Argentina, pelo ouro olímpico, em Pequim. Ronaldinho foi “paralisado” pelos hermanos porteños. Discussões, desculpas de “amarelo”, brigas e expulsões de campo. Uma confusão sem fim. Que tolice e que palhaçada. Sim, tudo isto é tolice de quem se habituou a viver o “reino” do futebol, vassalo, inclusive, de um Rei!
Esquecem que, dessa vez, perdemos para um adversário a altura. Pior foi perder (com todo respeito) para Camarões, de outra feita.
Sabe minha gente, precisamos aprender a perder. Não é possível vencer toda vez! Assim não teria graça! Precisamos ter mais humildade e, sobretudo, fair-play (jogar limpo). Precisamos encarar a coisa com mais equilíbrio emocional e civilidade e, por fim, ter espírito esportivo, porque, de fato, o mais importante é competir. E, saber perder quando for preciso.
Bom, resta a esperança de que, quem sabe, as meninas “lavem a alma” tupiniquim. Aliás, diga-se de passagem, que meninas danadas. Dunga podia convocar algumas delas. Imagino que a rapidez é porque para elas não sobram bolas! Ui!
Tenho acompanhado, na medida do possível, o desenrolar dessa Olimpíada e venho fazendo algumas reflexões. Por exemplo, Diogo Hipólito, Jade ou Daiane e um dos judocas (não lembro o nome) não conquistaram as esperadas medalhas. Coitados desses moços.
Fico pensando, nessas minhas horas de observador pela TV, na angustia que rola nas cabeças desses jovens atletas brasileiros. É muita pressão gente! Não tem sistema nervoso que suporte. Por mais treinado e mais preparado psicologicamente é muito difícil enfrentar fortes concorrentes, público exigente, mundo estranho e 180 milhões (nem todo mundo, é verdade) de brasileiros, no outro lado do planeta, esperando a hora de “correr para o abraço”, em plena madrugada. Tudo por uma imensa necessidade de afirmação de uma Nação carente de prestigio e de certo modo alienada, sem perceber que existem outras “olimpíadas” que devemos ganhar com mais urgência e com medalhas mais socializáveis e mais duradouras, como são as das corridas contra a fome e o baixíssimo nível da Educação.
Eu não gostaria de ser ou de ter na minha família um jovem no lugar do Hipólito, Jade ou Daiane. O estresse só pode ser percebido quando rolam as lágrimas da decepção nas faces desses moços, ingenuamente, pedindo desculpas ao Brasil por não haver feito bonito. Coitados... não percebem que já vivem fazendo bonito e são campeões antes de Pequim. Não percebem que o Brasil e meio mundo já os consagraram e o pedido de desculpas devia ser ao inverso.
Não! Não estou querendo reduzir de importância o fato de participar e concorrer numa Olimpíada. Até porque, na minha cabeça, quem chegou por lá já chega como campeão. Não é isto! Pelo contrario, acho que é importante participar. E, se ganhar, tanto melhor. Afinal, o esporte faz parte da formação de um povo e da educação dos jovens.
Mas, estou querendo fazer ver que, antes de ganhar medalhas de ouro, prata ou bronze em Pequim, temos o imenso desafio de ganhar, por exemplo, a “Olimpíada” da Educação. O Brasil acumula riquezas materiais fantásticas, está prestes a se tornar uma potencia petrolífera, é a 10ª. economia do planeta, é o reino do futebol, do carnaval e da cachaça, tem mulheres bonitas e sensuais, como Gisele Bündchen, “carregada de medalhas”, tem sol e mar, pois é um Patropi! Enfim, é o maior escambau da Terra! Não sei bem o que significa escambau, mas sei que deve ser o máximo, pelas formas que o termo é usado. Mas, e a Educação? E o Conhecimento?
Nossa Educação – que seria a base da prosperidade social e econômica – é um horror. Está prá lá das cucuias (eis aí outro termo muito usado, nestes casos), o que é péssimo.
Pois é, minha gente, antes de qualquer coisa, precisamos dos coachs (técnicos) e “atletas” da Educação.
A propósito disto, a revista Veja desta semana traz uma boa matéria investigativa mostrando nossas deficiências. São dados de matar de vergonha qualquer Nação. Imagine o que seja este País com: 22% dos professores do ensino básico não tendo diploma universitário, sem computar os leigos, que ensinam tudo errado, nos grotões do Nordeste e da Amazônia. Imagine que numa lista de 57 paises, o Brasil é o 52º. lugar em conhecimentos de ciências e o 53º. em matemática. 60% dos estudantes chegam a 8ª. série sem saber interpretar um texto ou efetuar operações matemáticas simples e 16% dos alunos repetem a 1ª. série do ensino fundamental.
É isto aí... estamos perdendo a mais importante das olimpíadas, que é a do Conhecimento.
Diante disto, só nos resta lamentar porque não sabemos perder nas canchas e campos de futebol, quando o que mais fazemos é perder fora deles. Perdendo inteligências, recurso humano adequado, oportunidades, tempo e progresso.
Por isso, não tenho dúvidas, somos um país sem medalhas douradas, digo, duradouras.

Nota: As caricaturas de Ronaldinho e Gisele Bündchen foi obtidas no Google Imagens

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

ADORO COMER BEM

Na semana que terminou uma noticia, divulgada pela BBC, surpreendeu o mundo inteiro. No Estado de Bihar, na Índia, o Secretário de Bem-Estar Social, Vijay Prakash, instou a população a comer carne de rato como forma de combater a crise dos alimentos na região. Segundo ele a proposta é fundamentada em “muita pesquisa e trabalho de campo” e se concentrará na comunidade de Musahar que já tem por tradição cozinhar pratos à base de carne de rato. O sujeito acrescenta que a carne do roedor, além de muito delicada, é rica em proteínas e muito popular “na Tailândia e na França”. Na França?! E mais, disse ter receitas para pratos à base de rato e vai distribuí-las entre os hotéis de Bihar. Ah! Anunciou que a região vai começar a produzir ratos para o abate da mesma forma como é feito com aves.
A meu ver, comer é uma dos maiores prazeres da vida. Gosto de comer bem e de cozinhar nas horas vagas. Mas, pensando bem, o que é muito bom para mim, pode parecer uma coisa asquerosa para outros. Ou seja, “cada terra tem seu fuso e cada povo tem seu uso”. Eu gosto de peito de peru a Califórnia, mas outros (indianos, por exemplo) de peito de rato assado, com molho de pimenta do reino... que se vai fazer?
Há alguns anos, houve uma denúncia de que o homem pobre do Nordeste brasileiro, para não morrer de fome, comia ratos gabirus. Não era verdade. Não chegaram a tanto. O que eles comiam eram preás, também conhecidos por porquinho da India, muito comum no semi-árido. São roedores, sim. Como são as cutias e os coelhos.
Nos últimos dias a China tem sido noticia diária por conta das Olimpíadas. Quem quer falar daquele país tem mil temas a abordar e, se a opção for a culinária, haja espaço para todos os comentários. A cozinha chinesa é tida como uma das mais sofisticadas do mundo. Há uma rica variedade que vai de um simples yakisoba ao pato laqueado de Pekim. Mas, tem, também, um serie de “iguarias”, cujas imagens circularam, recentemente, na Internet, que é de arrepiar qualquer gourmet, em qualquer parte do planeta. Imagine-se comendo espetinhos de cobras do rio, lacraia, cavalinhos marinhos, cigarra, lagarto a milanesa e fígado de cachorro com legumes. Pense em saborear uma caldeirada de cérebro de cachorro! E a de pulmões de cabra com pimentões. Se quiser, dê um pulinho até lá e delicie-se. E, tenha bom apetite. Mas, por favor, nessa hora, não se lembre de mim.
É isso mesmo. Existe muito exotismo no mundo da culinária. E, no nosso caso, o sarapatel e a buchada são exemplos nítidos. Nem todo mundo enfrenta.
Viajando, certa vez, pela África do Sul, vi-me, com um grupo de pernambucanos, num restaurante, onde serviam, segundo os proprietários, 99 tipos de caças. Desfilaram pela nossa mesa assados de toda espécie. Da letra A a Z. Entre outras me recordo de antílope, girafa, queixada, hipopótamo, filhote de puma, jacaré, cobra, veado, cervo e zebra. Foi um vexame... ninguém queria encarar os excessos de exotismo. O que fez a alegria da mesa, no final das contas, foi uma galinha d’Angola servida num molhinho saboroso. De fato, as várias carnes servidas exalavam, todas elas, um forte cheiro de capim. Era como se estivéssemos comendo mato. Já pensou? Foi um tal de tomar vinhos, para amenizar o gosto ruim, que deixou a maioria pra lá do Cabo da Boa Esperança, ali bem perto.
Mas, não precisa ir à África ou Ásia para encontrar pratos diferentes. Certa vez, em Nova York, falando sobre os preços de restaurantes da cidade, alguém me falou de um local que servia um sofisticado prato de formigas ao molho da manteiga, que custava U$ 120,00! Achei estranho, até que uma amiga pernambucana me disse que as formigas não passavam de exuberantes bundas de tanajuras! Quase “morro” de rir. Vai ver as tanajuras que serviam por lá haviam sido importadas de Bonito ou Bezerros, interior de Pernambuco, onde a espécie dá de sobra.
Por isso tudo, não custa lembrar: em viajando, vá preparado para as surpresas.

Nota: A foto de um mercado chinês foi obtido no Google Imagens

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Ôxente, assim não dá (2) (Passe o Celular)

Meu genro, Nigel Davidson, é australiano de New Castle (200 km ao Norte de Sidney). Com seu tipo nórdico, decidiu viver algum tempo, com Manuela, entre nós, aqui no Recife. Foi a maior alegria na família, tê-los por perto.
Mas, a minha maior preocupação era ver aquele rapagão, de quase dois metros de altura, típico escocês, herdado dos seus ancestrais, solto pelas ruas do Recife, cheia de oportunistas "carentes" e, aqui ou acolá, um assaltante para tirar a tranqüilidade.
Ele, muito descontraído, ia e vinha pelas ruas da cidade, com boa desenvoltura e cheio de confiança, sobretudo porque, muito rápido, dominou o idioma local.
Eu, pelo meu lado, recomendava toda hora muito cuidado, sobretudo nas ocasiões das caminhadas noturnas. Ele tem a mania de ir a todo lugar “rodando” sobre os próprios tênis, tamanho 45.
Tudo corria muito bem até a noite em que dois sujeitos muito feios, na opinião dele, numa moto, o espreitaram e, armados de revólveres, o atacaram tomando-lhe alguns trocados e o telefone celular.
Assustado, o australiano correu para casa, bem perto do local do assalto, e do telefone fixo me avisa que fora assaltado. “Fui assaltado, Girley”, disse-me com a voz embargada. “Mas, lhe machucaram?” perguntei logo. Com a resposta negativa fiquei mais tranqüilo. “Graças a Deus, entendi o que eles falavam. Foi bom aprender falar português” desabafou meu pobre genro, manifestando alívio de estar em casa, com segurança.
Acredito que, somente nessa noite, ele entendeu nossas recomendações e os perigos que corria, ao circular de peito aberto (ele tem um respeitável chest de nadador australiano) e tranqüilidade.
Viver no Brasil precisa ter peito, meu filho”, disseram a ele, em algum momento. Ele deve ter traduzido “ao pé da letra” e pensado: “é comigo mesmo”. E, foi por aí...
Taí, no que deu...
Passado o susto e ficha caída, Nigel tratou de avisar ao pai dele na Austrália, Mr. Michael Davidson, o ocorrido e recomendar que deletasse o número do celular roubado.
Surpreso e intrigado, Mr Davidson perguntou: “por que o celular?”. Na cabeça dele um celular só tem serventia para seu proprietário. “O que esse ladrão vai fazer com seu celular, meu filho?” Com um frouxo de riso, Nigel explicou que aqui no Brasil é muito comum roubar celulares. “Que coisa mais rara!”, retrucou Michael Davidson.
Mas, o melhor ainda estava por vir. Mr Davidson, sorrindo e satisfeito porque o filhote havia saído ileso da emboscada, perguntou: “mas, também, agora você deve ser uma pessoa famosa aí no Brasil... porque, imagino, que isso deve ter sido noticiado na mídia escrita, falada e televisada”. Nem precisa dizer que Nigel – já bem abrasileirado – dobrou a risada. Riu, riu, "à bandeiras despregadas".“Que nada dad... aqui, só é noticia para a mídia quando a vitima é assassinada!”
Se Mr Davidson falasse português certamente teria exclamado: “Ôxente, assim não dá!”.
Nigel e Manuela mudaram-se para a Austrália desde janeiro passado. Acho que por lá estão livres de assaltantes e ladrões de celulares.

Nota: A imagem de uma caricatura foi colhida no Google Imagens.

Esta postagem é dedicada a Manuela e Nigel felizes, na distante Austrália

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

BRASILIA – 50 ANOS

...e uma das primeiras coisas que vi, ao desembarcar e circular pelas largas artérias da capital federal, foi um placar digital com contagem regressiva informando que faltam somente 622 dias para as comemorações do cinqüentenário da cidade. Em 21 de abril de 2010, Brasília completa 50 anos de inaugurada.
Já estive muitas vezes na cidade, a passeio e em muitas missões de trabalho. A primeira vez, recordo bem, foi em 1967 e a minha primeira idéia era de haver chegado aos cafundós de Judas.
Para começar, naquela época, o aeroporto era um barracão de madeira, como de madeira foi, durante muito tempo, o Palácio do Governo – chamado de Catetinho – metido no meio do cerrado, antecessor dos monumentais palácios do Planalto e da Alvorada.
Naquela época, o vento seco do cerrado rodopiava ao redor do sujeito, deixando roupas e sapatos em tom avermelhado da cor da terra que caracteriza a região. No fim do dia o cidadão menos preparado, para aquele imenso canteiro de obras, espirrava partículas, digamos, de tijolo.
É incrível ver a Brasília de hoje. A imponência dos palácios governamentais e a exuberância da arquitetura moderna de Oscar Niemayer e Lucio Costa, que, mesmo depois de cinco décadas, continua moderna e vanguardista, encantando a brasileiros e estrangeiros, que já não padecem do vento carregado de terra vermelha e termina o dia, urbanamente, limpo.
Contudo, algumas coisas já chamam muita atenção. Uma delas é o intenso transito da cidade. Tenho a impressão que algo foi equivocado no projeto original ou então não foi possível conter a atração que a cidade exerceu sobre uma legião de brasileiros que, buscando novas oportunidades de vida, decidiram se radicar por ali, na imensidão urbana do Planalto Central.
A cidade foi planejada para suportar uma população de 500 mil habitantes. Neste 2008, já vivem ali mais de 2 milhões de almas.
Claro que, ajudado pela expansão continua do uso do automóvel, sonho de consumo de todo brasileiro, a sonhada capital brasileira – pacata e sem engarrafamentos, cruzamentos e semáforos – viu-se obrigada a usar das obvias modernidades para administrar o movimentado de tráfego ali reinante. A entrada ou saída do Plano Piloto – região que concentra os equipamentos urbanos básicos, como palácios governamentais, câmara federal e senado, ministérios, repartições públicas comuns, comércio, escolas e universidades, zonas hoteleiras e as super-quadras residenciais – se constitui, na hora do rush, num exercício de paciência para quem vive nas chamadas cidades satélites.
Prestes a completar seu cinqüentenário de existência, Brasília já se transformou numa grande metrópole, que na pratica representa a síntese do Brasil.
Se vivo fosse, o Presidente Juscelino Kubitscheck, o JK, estaria certamente orgulhoso da sua criação e, sobretudo, por haver entrado na História como sendo o maior de todos os bandeirantes. Na minha opinião, JK foi o maior desses desbravadores porque, ao fundar Brasília, promoveu a ocupação/inclusão da região Centro-Oeste, antes disso uma verdadeira ficção para a grande maioria dos brasileiros habitantes da faixa litorânea do “continente” brasileiro.
Ao circular por Brasília, na semana que terminou, e me surpreender com o passar dos 50 anos, pude fazer essas reflexões e admirar a beleza e a urbanidade dessa cidade brasileira que é capaz de reunir gente de todos os quadrantes do país, construindo um mosaico étnico dos mais interessantes. Lá estão os índios e caboclos do Norte, os nordestinos, os afro-descendentes, os brasileiros de origem asiática ou filhos dos imigrantes europeus, antes concentrados no Sul, enfim uma miscigenação sem precedentes, que terminam por construir uma sociedade própria e cheia de histórias familiares para contar, sempre transcendendo a pouca idade do próprio habitat.
Salve Brasília, quase cinqüentona.
Viva JK, nosso último estadista e desbravador dos rincões do Centro-Oeste.

Nota: As fotos foram obtidas no Google Imagens. O Blogueiro esteve em Brasilia, nos dias 6 e 7 de agosto em misssão de trabalho do Simmepe.

Dedico esta cronica ao simpático casal rotariano, Mário Cunha e sua italo-brasileira esposa Cida Cunha, que gentilmente me recebeu em Brasilia, na semana que passou. A pizzza oferecida foi maravilhosa, mas o nosso papo foi sem precedentes. Adoro histórias de imigrantes.

Sábado, 26 de Julho de 2008

PAGUE DOIS E LEVE UM

Outro dia recebi um email mostrando, com fotos bem produzidas e numa serie de slides (formato power-point) carrões norte-americanos com seus respectivos preços de mercado. Um verdadeiro acinte ao pobre coitado do consumidor brasileiro. Não eram carrinhos dos tipos celtinhas, kasinhos ou pálios. Repito, mostravam carrões. Hilux ao preço de US$ 16.000,00, por exemplo. Um terço do preço no mercado brasileiro. Os do tipo “banheira”, que podem fazer o maior sucesso nas nossas praças mas ninguém pode comprar, por preços relativamente ridículos. Enfim, uma mensagem que deixa qualquer cidadão brasileiro “arrasado”, se sentido roubado e o pior, com vontade de deixar tudo para trás e ir viver na terra do Tio Sam.
De fato, não é fácil viver num país com uma carga tributária tão pesada.
Aqui tudo que se compra para consumir e usufruir se paga em dobro.
Coincidentemente, logo após receber o tal email, assisti a uma exposição de um especialista (Eduardo Queiroz, que é o atual Governador do Distrito 4500, do Rotary International) sobre a carga tributária brasileira e terminei pasmo com algumas informações prestadas.
Segundo ele, existem cerca de 74 tributos sendo cobrados no Brasil, entre impostos, taxas e contribuições. Muita coisa cobrada em cascata (tributação em dobro, triplo etc.) Depois disso, a CPMF caiu. Mas, a essa altura dos acontecimentos um a mais ou a menos, pouco influi.
O sistema tributário brasileiro é o mais complexo e mais caro do planeta” disse Queiroz. Existem 3.200 normas em vigor, entre leis complementares, ordinárias, medidas provisórias, decretos, portarias, instruções e o “diabo a quatro”. Tudo isto operacionalizado – só Deus sabe explicar – através de 55.767 artigos, 33.374 parágrafos, 23.497 incisos e 9.456 alíneas. É inacreditável e, definitivamente, um verdadeiro absurdo.
Para ficar em dia com o Fisco (1,5% do faturamento), uma empresa tem que cumprir 97 obrigações acessórias! É por isso que se diz que o empresário brasileiro existe de teimoso que é!
Somando-se a isto as chamadas escorchantes taxas de juros, que inibe o consumo, os investimentos e, portanto, o progresso, não dá para entender como este Brasil pode crescer.
Comparando o Brasil com alguns países importantes, como os Estados Unidos, onde o imposto sobre o consumo não passa dos 15%, na França 22% e no Japão 18%, nossa situação é lastimável. É duro ser brasileiro.
E a coisa não pára por aí. Há claros sinais de mais tributos! Fala-se na substituição da CPMF, na criação de um tributo ambiental e outro sobre a circulação de veículos automotores, além da implementação de uma tal de Super-Receita.
Pois é, aqui, na terra de Cabral – diferentemente de economias mais desenvolvidas e ostentando renda per-capita mais alta – tudo que se compra vem com uma carga tributária tão estúpida que induz a um slogan simples e claro, para o comércio local: Prezado Cliente, não perca tempo, PAGUE DOIS E LEVE UM. É um barato este país de Lula!
Nota: Charges colhidas no Googles Imagens


Domingo, 20 de Julho de 2008

O FUTURO CHEGOU

As regiões Norte e Nordeste vêm sendo, nos anos recentes, escolhidas como localizações – estratégicas e privilegiadas – para grandes projetos estruturadores que se instalam no País. O que sonhávamos nas agencias regionais - SUDENE e SUDAM - , dos anos 80, torna-se realidade agora, quase 30 anos depois.
Exemplos disso são os megaprojetos de extração e beneficiamento mineral (sobretudo metálicos) da Vale do Rio Doce, que ocorrem nos estados do Maranhão e Pará, a implantação de grandes projetos do ramo da celulose e da indústria automobilística (Ford), na Bahia; o Estaleiro Atlântico Sul – que já começa a produzir seus primeiros navios –, a Refinaria de Petróleo Abreu e Lima, em Pernambuco, e mais duas em estudos para o Ceará e Maranhão; duas usinas siderúrgicas anunciadas, uma em Pernambuco e outra no Ceará, além de inúmeros outros grandes projetos em andamento, alguns em fase final de implantação, que irão transformar – para melhor e de uma vez por todas – os parques industriais das duas regiões.
São projetos que, vistos separadamente, já constituem flagrantes avanços para as economias das duas regiões e que, no conjunto, conferem maior realce face às imensas repercussões sociais que podem trazer.
Mas, como “nem tudo são flores”, paira sobre as duas regiões a incerteza da adequada apropriação dos frutos desse progresso repentino de duas regiões historicamente pobres e sempre exigindo políticas governamentais mais agressivas e efetivas, além de investimentos produtivos sustentáveis. O motivo são os gargalos e entraves observados nas estruturas sociais, econômicas e infra-estruturais reinantes nesses dois espaços geográficos brasileiros.
Mais do que nunca, nordestinos e nortistas precisam se mobilizar para não perder o bonde da história. A hora é esta, não pode ser depois. Ou seja, o futuro é hoje.
Aos Governos – Federal, estaduais e municipais – cabem imensas responsabilidades, enquanto provedores de infra-estrutura, educação básica e capacitação da mão-de-obra, segurança e saúde publica, administração ambiental, entre outras correlatas. E à iniciativa privada regional resta a missão de saber se ajustar a essa nova realidade, de maneira competente e, sobretudo, em tempo hábil, na busca de colher as benesses que os novos tempos lhe oferecem, sem esquecer que eventuais investidores extra-regionais, sempre caçando boas oportunidades, podem estar de olho nesse boom da periferia que se transforma rapidamente e promete bons retornos.
O desafio que esses dois atores – governo e iniciativa privada – têm pela frente, além de grande, exigirá uma forte dosagem de ousadia, inovação e determinação. Sob pena de perderem a chance de participar do salto qualitativo sócio-econômico sonhado há muitas décadas.
Na prática, tem muita gente extasiada com esse sopro repentino de progresso e, aparentemente, sem saber para onde correr. Usando a linguagem popular, a ficha ainda não caiu!
O Futuro chegou e muitos ainda não perceberam.


NOTA: Foto das obras de implantação do Estaleiro Atlantico Sul, Suape-PE, obtida no Google Imagens

Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

ÔXENTE, ASSIM NÃO DÁ (1)

Acredite, isto aconteceu de verdade. Coisas do Brasil.
Um amigo e companheiro do Rotary Recife - Casa Amarela, Heitor Bezerra de Brito, foi tomado de assalto, ao sair do seu escritório. Pelas costas o assaltante – um jovem desgrenhado, cabelo oxigenado cor de fogo e de, aparentemente, 20 anos – anunciou a investida com um revólver na cabeça do meu amigo, exigindo carteira, celular, relógio, cordão de ouro e tudo que avistou.
Cara a cara com o assaltante, Heitor administrou o estresse, magistralmente, como aconselhável e começou a atender a ordem.
Ao receber a carteira – entregue cuidadosamente e com gestos estudados e anunciados, como manda o figurino – o marginal deixou cair a arma nos pés de Heitor.
Meu amigo, embora muito estressado, teve a feliz idéia de chutar para bem longe aquele revólver ameaçador, ao mesmo tempo em que se atracou com o ladrão e gritou por ajuda.
Bandido dominado e arma recolhida, Heitor mandou a secretária chamar a polícia.
Mas, como só acontece, a polícia demorou muito a chegar e Heitor, inchado de raiva e impaciente, resolveu pregar uma peça no assaltante.
Contra a vontade dos que lhe rodeavam pediu uma corda e preparou o assaltante para ser enforcado, ali mesmo, diante da multidão que os cercava e numa árvore frondosa ao lado do prédio. Que idéia mais medieval... enforcar, exige certa cerimônia e é coisa que ocorre lentamente. Não é vaput-vuput como um linchamento, por exemplo.
Nessas horas chega gente de todos os lados. Pense no estardalhaço. Uns diziam que não fizesse aquilo, que ele poderia se dar mal. Outros, concordando com a idéia, gritavam como torcida em campo futebol: “enfoooorca, enfoooorca ...”. Foi o maior auê da paróquia.
O enforcável, nem precisa dizer, se borrava todo, distribuindo seu mau cheiro fecal, na cena teatral dirigida por Heitor.
Ajoelhado o marginal pedia clemência, mas, Heitor segurou o tranco até que a Policia chegou. Era essa a intenção do meu companheiro rotariano. Queria somente assustar o cara.
Quando a viatura chegou e despejou os policiais – com aquele garbo, armas armadas e "agilidade" de sempre – o assaltante se levantou e exclamou aos brados: “graças a Deus, vocês chegaaaaram! Esse homem aí, quase me mata enforcaaaaaaado!”
Heitor entregou o sujeito, que, aos supapos, foi empurrado no camburão.
Aliviado, Heitor deu o caso por encerrado, até o dia em que recebeu uma intimação da policia para responder um inquérito por tortura e assédio moral contra aquele, digamos, outro eleitor.
Já pensou? O cidadão de bem é assaltado, passa por um estresse de lascar, vê a morte de frente, saindo – risonha e saltitante – do cano do revólver de um desclassificado e é quem paga o pato!
Ôxente, assim não dá!... Com a palavra os homens da Lei...

NOTA: Este caso real, relatado pelo próprio Heitor Bezerra de Brito, está publicado no livro “Crônicas e Contos Inesquecíveis”, reunindo escritos de vários autores e organizado pelo escritor Edvaldo Arlégo, da Editora Edificante, recém lançado.

A ilustração foi colhida no Google Imagens

Domingo, 13 de Julho de 2008

COMENDO NO MERCADO PÚBLICO

Foi-se o tempo em que comer num mercado publico, do Recife, era coisa de cidadão subabonado. Esta palavra acaba de ser inventada, até que provem em contrário. Hoje, os garis, frentistas, feirantes e semelhantes têm que dividir as mesas dos restaurantes populares dos mercados públicos com portadores de cartão de crédito ou cédulas azuis (das mais valiosas!) de Real.
A freqüência desses restaurantes mudou de perfil. Agora é a classe média alta e a rica que têm por costume baixar nos mercados da cidade para saborear, com o maior prazer do mundo, as delicias da cozinha popular, que, no final das contas é autêntica, tradicional e tem o sabor de cozinha caseira. Ô, como tem! E aí está o segredo do sucesso.
Aliás, nestes tempos de campanha eleitoral, os locais são, literalmente, prato-cheio para os candidatos.
Duvido que você vá encontrar mesa vazia, na “praça de alimentação” do mercado da Encruzilhada, num sábado, às 11 da manhã. É preciso ter muita sorte. E, se o destino for o Restaurante Bragantino, perca as esperanças. Lá se come o melhor bolinho de bacalhau do planeta. Nem em Portugal! Tô pra ver. Como o portuga, proprietário da casa, não aceita reservas, procure chegar cedo.
O que ocorre, agora, no Recife, já venho notando, há muito tempo, noutras cidades e as que mais me chamaram atenção foram as do Mercado Público de São Paulo (já falei, em fevereiro aqui no Blog), o magnífico e tradicional de Salvador (Bahia) e o de Montevidéu (Uruguai). Neste último se come o melhor fruto do mar da Província Cisplatina.
Aqui no Recife, inclusive, a coisa está se transformando numa das melhores opções turísticas e, não raro, já se vê até estrangeiros diante de uma buchada, de um bode guisado ou de gordurento sarapatel. Sei não... mas, tem uma coisa, depois de duas lapadas de Pitu, entra tudo.
Neste sábado percorri os três mais atrativos desses locais: Encruzilhada, Madalena e Boa Vista. Os cenários já são, por si só, interessantes. O Mercado da Boa Vista, inclusive, tem pintura em terra-cota e, até, uma galeria na frente (vide foto ao lado), lembrando os prédios de Bolonha (Itália), que comentei em postagem de junho passado. Muito bonito.
Pois bem. Todos três locais estavam – usando um termo bem pernambucano – coalhados de gente.
Aproveitando a esteira do sucesso, a Prefeitura do Recife vem patrocinando, ultimamente, uma boa idéia de colocar um conjunto musical, executando repertório típico, próprio para o ambiente e as comidas que são servidas. Tem baião, xóte e xaxado. O Clip no final da postagem dá uma boa idéia do negócio. E, de vez em quando, um frevinho para lembrar que estamos no Recife. Ah! Algumas vezes, um grupo de chorinho bem puxado nos violões e cavaquinhos. É uma beleza.
Não tenho dúvidas que estou diante de uma coisa certamente sustentável.
Agora, sem que ponha em risco esta sustentabilidade, nascidas espontaneamente nesses três locais, seria de muito bom tom que a Prefeitura do Recife promovesse uma reforma no Mercado de São José, na região central da cidade, instalando um mezanino (cabe muito bem) onde pudessem surgir restaurantes típicos voltados para o turismo. A construção é belíssima. A localização, também. Seria um sucesso, tenho certeza. Fica aí uma idéia para os candidatos a burgomestre da Mauricéia.

Nota: Fotos e clip são da autoria do blogueiro e feitas neste sábado 12.07.08

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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

A Solução está na Crise

Depois de vários anos de tranqüilidade, o que mais se noticia é a volta do dragão da inflação. A Veja desta semana (pág.67) mostra num quadrinho bem claro, que a cesta básica subiu nas principais capitais brasileiras e o Recife lidera o rank, com a maior taxa de aumento, 29% no primeiro semestre de 2008. Isto é demais. Em São Paulo foi de 14%. Muito ruim, sobretudo para quem vive de salário mínimo e paga aluguel.
De fato, para quem freqüenta os supermercados da vida, esta coisa fica visível e preocupante, sobretudo nos itens dos cereais, da carne e do leite e seus derivados. Como o sustento alimentar está baseado nesses produtos, o que se conclui é que a situação não é das mais alvissareiras.
São muitos os indicativos para explicar a situação e na maioria são de origem externa. Na recente viagem pela Europa, o que mais vi, nos jornais dos principais países, foram manchetes, artigos e analises sobre o problema, sobremodo na pressão sobre os gêneros alimentícios.
Entendo, então, que o que estamos vivendo no Brasil, não é fruto, necessariamente, de uma dificuldade na produção nacional, mas, sobretudo na escassez da oferta mundial. Como não somos auto-suficientes na produção de todos os itens, a exemplo do trigo e do arroz, estamos sujeitos a amargar a alta dos preços.
A incrível alta diária do petróleo, no mercado internacional (o barril do óleo já beira a casa dos U$ 150,00), obviamente, tem marcado de forma flagrante sua participação na elevação dos preços. Claro, porque o transporte da produção é feito por meios de transportes movidos a diesel, gasolina ou querosene, contribuindo para a elevação do preço final ao consumidor. Agora, não há dúvidas que o cartel do petróleo está “deitando e rolando”, enquanto pode, para elevar os preços, temendo a consolidação do sucedâneo etanol obtido de fontes renováveis e sustentáveis para mover o transporte mundial de bens, serviços e pessoas. Detalhe: o petróleo dificilmente vai voltar aos preços do passado. Pode cair um pouco, mas, não o suficiente para tornar aos níveis de cinco anos atrás.
Outra explicação, cada vez mais constatada, é a de que países em desenvolvimento, particularmente a Índia e a China, passaram por profunda mudança na sua estrutura social, com imensos contingentes populacionais – na casa dos bilhões – ascendendo nas classes sociais e passando a consumir mais cereal e mais proteína. Essa demanda inflada fez com que as fontes supridoras se ressentissem da incapacidade de atendimento, gerando o que, naturalmente, acontece: quando a oferta do produto diminui, o preço aumenta. E, o pior, nem sempre na mesma proporção! Porque os especuladores estão sempre de plantão.
No Brasil, um fato concreto contribuiu para que a situação fosse também sentida, com detalhes similares. Vigorosa política social (Bolsa Família), implementada pelo Governo Federal, distribuindo renda à população carente, remeteu imenso contingente populacional ao mercado de bens e serviços, impondo uma nova dinâmica no grande e pequeno comercio.
Indiscutivelmente, que os resultados imediatos dessa política são positivos, embora que a sustentabilidade do programa, seja discutível visto que, na sua essência, é assistencialista. Agora, o que mais preocupa é que a escassez dos gêneros de primeira necessidade, com a conseqüente alta dos preços, venha por em risco a governança dessa estratégia governamental.
Contudo, vista por outra perspectiva, a crise, como qualquer outra, suscita saídas estratégicas e guinadas fantásticas e este momento pode ser muito bom para a economia brasileira. A imensidão das terras cultiváveis deste continente verde-amarelo pode transformá-lo – de uma vez por todas – num privilegiado celeiro do planeta.
O Brasil tem 850 milhões de hectares. Aproximadamente 40% são agricultáveis. Desse percentual, estima-se que menos de um quarto tenha sido tocado. Temos, portanto, uma imensidão de terras a serem aproveitadas. Basta que haja recursos para a mobilização dos demais fatores de produção, incluindo o financiamento. Sem esperar muito.
Afinal, um país que descobriu e domina a tecnologia do etanol, a base da cana-de-açúcar, tem condições de produzir, competitivamente, um sem numero de outros produtos, sobretudo os alimentares.
E, por falar em etanol a base da cana-de-açúcar, tão criticada no meio do mundo – sobretudo pelo cartel do petróleo – por sugerir a redução da oferta de alimentos, um dado interessante vem da Agencia Nacional do Petróleo – ANP: o Brasil produz, atualmente 22,5 bilhões de litros de etanol, em, mais ou menos, 370 usinas que utilizam apenas a irrisória parcela de 0,73% daquelas terras agricultáveis, acima referidas. Francamente... tenha paciência!
Portanto, vamos produzir mais, com eficiência e modernas técnicas. O Brasil pode sim tirar partido dessa situação internacional. Não apenas para atender demandas internas e externas, mas também para dar uma resposta competente ao mundo.

Nota: as fotos - Colheita de soja (em cima) e canavial (abaixo) - foram obtidas no Google Imagens.

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

REALIZEMOS OS SONHOS

A sustentabilidade da vida no Planeta como um todo, dos povos e nações, cidades e metrópoles, aldeias e pequenas comunidades é um dos temas mais em evidencia no mundo atual. Cientistas, pesquisadores, políticos, artistas e cidadãos comuns debruçam-se sobre estudos e pesquisas para debater propostas que apontam para soluções que levem ao usufruto de um mundo equilibrado e sem riscos de tragédias, que é o que todos nós sonhamos.
Trata-se de um formidável desafio para o homem contemporâneo, à medida que os governos mostram-se incapazes de prover, aos seus territórios e sua gente, os meios que garantam esse desejado estado sustentável. A coisa se torna exacerbada devido à ganância das grandes corporações que, na maioria das vezes, mostram-se insensíveis à questão e fogem do papel que devem desempenhar, enquanto agentes efetivos do desenvolvimento social e econômico.
Os resultados, quase sempre nefastos, passam, entre outros aspectos, pela exploração predatória do meio ambiente, pelo crescente empobrecimento de mais da metade da população mundial e pela crescente escassez de alimentos.
A ECO 92, realizada no Brasil (Rio de Janeiro, 1992), reunindo chefes de estados e cientistas de todas as partes do planeta, foi um marco no processo de conscientização para mostrar ao mundo a importância da preservação do meio ambiente, enquanto base de sustentação da vida. O Protocolo de Kioto (1997), por seu lado, transformou as constatações do Rio, num “documento operacional”, lamentavelmente não chancelado pelo segundo maior emissor de gás carbônico do mundo que são os Estados Unidos da América.
Destarte, difunde-se pelo Planeta a necessidade urgente da formação de uma consciência cidadã, que respeite o meio-ambiente, preserve os aqüíferos de sustentação e distribua maior equidade social entre os povos, antes que uma tragédia de proporções irreversíveis se instale.
Por sorte, já são muitas as sociedades mais conscientes e corporações mais comprometidas com o futuro, que se mobilizam no sentido de desenvolver ações, mesmo que localizadas, visando à preservação do meio ambiente e assistência às comunidades mais necessitadas, dando, assim, uma parcela inestimável de contribuição para a sustentabilidade e a paz no Planeta. Naturalmente, que se trata de uma ação complementar a dos governos, mas, indiscutivelmente, necessárias num mundo com renitentes desigualdades inter-regionais e internacionais de renda.
No meio disso tudo, destaco uma entidade internacional que – quase silenciosamente – trabalha diuturnamente – há mais de um século – pela busca da paz e da união entre os povos, através de concretas ações que passam pela preservação ambiental, a erradicação de moléstias contagiosas, o combate à fome e o analfabetismo, assistência a populações em risco de vida ou vitimadas por catástrofes e guerras, entre outras. Esta entidade é o Rotary International, fundada por um inteligente e visionário cidadão norte-americano – Paul Harrys – que, antevendo os problemas e desafios impostos pelo progresso, tratou de mobilizar lideres comunitários para desenvolver a nobre missão de promover a paz e a concórdia em nível local, com visão mundial, inspirado por um lema emblemático: “dar de si, antes de pensar em si”.
Ao fundar a Entidade, em 1905, Harrys certamente não pode estimar o tamanho dos desafios dos seus seguidores, cem anos depois. Contudo, a semente de amor por ele lançada naquele já longínquo ano, indiscutivelmente, faz do Rotary International, tanto pela sua trajetória vitoriosa, quanto pela sua dimensão nos dias atuais, ser reconhecido como a mais antiga e mais competente entidade cidadã do mundo moderno, visto que, nas suas ações locais ou internacionais, seus objetos de preocupação e as soluções propostas são todos permeados das idéias e estratégias que o resto do mundo – somente agora – discute e busca entender.
O atual presidente do Rotary International, o coreano Dong Kurn Lee, responsável pela continuidade do projeto de Harrys, escolheu, para seu ano de gestão, que inicia esta semana, o lema Realizemos os Sonhos, focando as ações na redução da mortalidade infantil no mundo inteiro. Ou seja, preservar a vida humana no Planeta, para garantir a sustentabilidade.
Existem, atualmente, 33.049 clubes de Rotary, com 1.228.810 membros, espalhados por 208 paises nos cinco continentes. No Brasil já são 2.304 clubes, com mais de 52.000 membros, contribuindo – de forma cidadã – para a realização do doce e mágico sonho de viver de milhões de brasileirinhos e para a melhoria da qualidade de vida das nossas populações em situação de risco.
Assim, transformemos nossos sonhos em pura realidade!

NOTA: Dedico esta postagem aos valorosos companheiros rotarianos do Rotary Club Recife - Casa Amarela e às companheiras da Casa da Amizade do Casa Amarela, que no ambulatório Vicente Gallo assistem, aproximadamente, 5.000 pessoas carentes do bairro de Casa Amarela e adjacências, no Recife.

Terça-feira, 24 de Junho de 2008

OXÊNTE MENINA, SEGURE O XÓTE.

Todo ano é sempre assim: quando chega o mês de junho o Nordeste se transforma num enorme arraial junino. É xóte, xaxado e baião, nos incontáveis forrós espalhados, sobretudo, nas cidades do interior.
Aliás, forró, bom mesmo, só no interior. E, se for daqueles do tipo pé-de-serra, com um trio formado de sanfoneiro, zabumba e triângulo, é uma delicia.
Eu, sempre que posso, fujo da cidade e corro para o interior para curtir a noite de São João. Aproveito para rever irmãos, parentes e amigos de longas datas, no meio da festança. Foi o que ocorreu neste fim-de-semana prolongado, com a noite de São João no meio. Garrei minha mulé e me mandei pra Fazenda Nova, terra dos meus ancestrais.
Lá, no “feudo familiar”, hoje sob a liderança do meu irmão Gil Brasileiro, organizamos nosso forró pé-de-serra, comemos e bebemos todos os vinhos da adega e revivemos, saudosamente, momentos do passado. Lembramos dos que já partiram e festejamos os recém-chegados com muitos fogos, fogueira, milho assado, pamonha, canjica e pé-de-moleque.
Na hora da saudade, lembrei-me que, antigamente, chegava a me vestir de matuto – calças remendadas, paletó apertado, gravata mal-amanhada – e gritava várias quadrilhas. Mas, isso foi coisa da minha juventude. Hoje em dia, as coisas são bem diferentes. A quadrilha moderna já não tem seus integrantes vestidos à moda matuta. Ao invés disso, criam um guarda-roupa especial, mais lembrando fantasias carnavalescas, com muito brilho e sem remendos. A coreografia, nem se fala. Nem de longe, lembra a velha quadrilha ao estilo francês, cheio de reverencia e solenidade. Poucos são os jovens que se caracterizam de caipira. Parece até que há uma rejeição ao gracioso estilo brejeiro. Uma pena...
No triangulo geográfico formado por Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe e cidades vizinhas (incluindo Fazenda Nova e Brejo da Madre de Deus), pólo da moda e confecções do estado, isto se torna ainda mais flagrante. No período junino, as moçoilas aproveitam para exibir o último grito da moda. Não existe mais matuto! Acabaram com a matutice, minha gente!
Num encontro de sanfoneiros no Brejo, tive oportunidade de observar de tudo. Lembro da jovem vestida, insinuantemente, com uma blusinha transparente, por baixo um sutiã cheio de paetês e um short bem curtinho, tanto de cima pra baixo, quanto de baixo pra cima. O zíper devia ter, se muito, 3 cm! Era literalmente short. No palco tocavam um xóte, em baixo ela dançava dentro do short, bem xortinho... Passei sorrateiramente e recomendei: “muito bem menina, segura o xóte...” Sem saber direito, penso eu, o que é um xóte, a moderninha brejense olhou pro xortinho, deu uma levantada... não sei como, e seguiu, digamos que, com todo respeito, xoxotando! Tempos modernos.
Velho assanhado? Quem? Eu? De jeito nenhum! Velho cuidadoso com a moral publica interiorana. Na minha época as meninas eram tão recatadas... Ah! Meu Deus! Era mais emocionante.
Mas, ainda bem que, nem tudo está perdido ou se modernizou de vez. Há, ainda, alguma coisa preservada. Foi o caso que flagrei, no mesmo encontro dos sanfoneiros, no Brejo da Madre de Deus: de repente – quando um trio sapecou um forró, desses que o caboco já queimado diz logo: “êita que esta não tem pareia, é arretada” – duas mulheres se abraçaram e saíram dançando, rodopiando animadamente, no salão, sem medo de virar jacaré! Isto mesmo, sem medo de virar jacaré! Acontece que, nos meus tempos de menino, ouvi muitas vezes, dos mais velhos, que “mulher com mulher dá jacaré e homem com homem dá lobisomem”. Criança inocente, lá em Fazenda Nova, nas noites de bailinhos, no hotel do meu avô, eu torcia para que uma dupla de mulheres dançando virasse jacaré ali mesmo no meio do salão. Pense que quadro sensacional! As duas estribuxando e se arrastando pelo chão, abrindo o bocão cheio de dentes e assustando o magote de gente ali reunido para se divertir. Cheguei, muitas vezes, a planejar o lugar para trepar, na hora do “pega-pra-capar”.
Naturalmente que meu sonho nunca se tornou realidade e, a cada ocasião, eu ia dormir decepcionado. Imaginação infantil, daquela época, e pureza e espontaneidade interiorana preservada até hoje. Uma beleza! Veja no clip, anexado abaixo, a dupla sem medo de virar jacaré.
Para terminar, cabe um comentário indispensável: na Fazenda Nova atual, todo 23 de junho, acontece uma especial noite pirotécnica. Para o deleite dos nativos e deslumbre dos visitantes, trava-se uma verdadeira “batalha” com queimas monumentais de fogos de artifício. Por volta das 8 da noite meu primo Robinson Pacheco, lá da Nova Jerusalém, dá inicio ao festival, com uma queima que lembra a cena final do Drama da Paixão, na semana santa. Uma beleza para os olhos. A resposta vem, com um intervalo aproximado de meia hora, com a queima dos fogos do deputado local. Passados 40 ou 60 minutos, o Prefeito do município faz sua apresentação, com uma queima colorida e demorada. Finalmente, por volta da meia-noite, um magnata do cimento que escolheu o local como uma das suas bases no interior, dá o maior show pirotécnico que se tem noticia em Pernambuco. Este dura aproximadamente 30 minutos numa queima extravagante e de proporções indescritíveis.
O céu da minha velha e querida Fazenda Nova se enche de luz e cores e, aos poucos, se transforma numa atração turística, nas noites de São João.

Nota: Clip e foto do blogueiro.

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Terça-feira, 17 de Junho de 2008

PASSAGEIROS DO KASATO MARU

Nesta semana comemora-se, no Brasil e no Japão, o centenário da chegada do primeiro contingente de imigrantes japoneses, de uma grande série – apoiado por um acordo bilateral entre os governos dos dois países – que trocaram a terra do sol nascente pelo calor dos trópicos, numa saga de imensos desdobramentos para eles próprios e para o Brasil, um país jovem, pleno de oportunidades e em construção.
Quando, no dia 18 de Junho de 1908, 781 japoneses, após 50 dias de viagem, desde o Porto de Kobe, desembarcaram do navio Kasato Maru (foto ao lado), no Porto de Santos, em S. Paulo, nem eles mesmos tinham idéia de como viveriam dali para frente. A única coisa que desejavam era trabalhar muito, fazer o que no Brasil chamamos de um “pé de meia” e voltar à terra natal, com melhores condições econômicas e carregando a esperança de encontrar o país natal em melhores condições de vida. Ou seja, não vieram para ficar e sim para passar uma temporada.
Para os brasileiros esses imigrantes eram vistos, apenas, como mão-de-obra direcionada para a lavoura do café, à época mergulhada numa imensa crise de mão-de-obra, devido ao fim do regime forçado da escravidão, secundado pela necessidade de atender a crescente demanda pelo produto no mercado mundial. Esse adicional contingente de força de trabalho, portanto, chegava numa boa hora.
Até o início da 2ª. Guerra Mundial, desembarcaram no Brasil, algo em torno de, 190.000 japoneses! Desses, apenas 10% retornaram ao Japão.
Ficaram aqueles que, após anos de sacrifício, muitos no árduo trabalho da agricultura, isto é, no êito da enxada, construíram uma vida estável e profícua. Criaram raízes, constituindo famílias, miscigenadas com brasileiros, num mosaico racial de rara beleza. Os nipo-brasileiros são, geralmente, indivíduos de porte esbelto e de especial charme, que fazem sucesso, inclusive, na terra dos seus ancestrais.
Ao se radicarem no Brasil construíram, então, uma das mais sólidas amizades binacionais que se tem noticia no mundo. Vivem hoje, no Brasil, aproximadamente, 1,5 Milhão de descendentes, além de alguns remanescentes, ainda, do fluxo migratório. O Brasil tem a maior comunidade nipônica fora do Japão.
São brasileiros de olhos apertadinhos que vêm dando uma inestimável contribuição ao desenvolvimento do Brasil – nos mais diferentes domínios sociais e econômicos – e nosso país, indiscutivelmente, não seria o que está aí, não fosse a presença do imigrante nipônico.
Tradicionais produtores agrícolas, no Oriente, introduziram novas formas de cultivo da terra e uma imensa gama de novos produtos entre grãos, frutas e hortaliças, antes desconhecidas.