terça-feira, 30 de setembro de 2008

CINEMA (AINDA) É A MELHOR DIVERSÃO

Outra coisa que observei, nessa minha última ida ao Rio de Janeiro, foi que os cinemas, lá também, foram banidos das praças, ruas e avenidas e estão socados, aos conglomerados, nos Shoppings Centers da vida.
Foi passando na emblemática Cinelândia, que me dei conta dessa moderna estratégia de mercado. Deve ter sentido na cabeça dos especialistas em marketing.
Pois é, já não existe mais os majestosos cinemas cariocas. A Cinelândia já pode até mudar de nome porque lá não tem um cinema sequer! Circulando pela cidade, andei catando os cinemas que freqüentei na minha juventude. Cadê o cinema Metro de Copacabana? E o fantástico Odeon, na Cinelândia? Segundo um motorista de táxi, não sobrou nada. “Na Praça Sanz Peña, na Tijuca, quando eu era rapazola, havia mais de quinze, não resta nada, Doutor” disse o taxista. O imenso Roxy, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ainda está por lá porque, para sobreviver, desmontou sua imensa tela de cinerama e se desdobrou em três, ao estilo dos modernos cinemas.
Era muito bom ir a cinema no Rio de Janeiro da década de 60. Engraçado era que o cidadão assistia aos lançamentos cinematográficos, que só vinham a ser exibidos, no Recife, dois ou três anos depois e, quando isso acontecia, o tal cidadão enchia a boca e dizia que já havia assistido a tal película há muuuiiiito tempo, numa das idas ao Sul. Pense na boçalidade. E tinha gente que “morriiiia” de inveja. O cara, para se mostrar ainda mais, contava para “atentas platéias” detalhes do “velho” lançamento.
Foi-se o tempo em que ir ao cinema era motivo de frisson. Era razão para colocar roupa especial. As salas de exibição de hoje são muito diferentes das dos anos 60,70 e 80. É impressionante como, aqui no Recife, desapareceram nossos cinemas, depois da estratégia dos conglomerados dos Shoppings Centers. O Recife perdeu todas suas salas de cinema comuns nas principais praças e vias da cidade
Sou dos tempos em que assistir a um filme exigia-se estar enfatiotado, metido num terno e “enforcado” por uma gravata. Para entrar nos antigos cinemas do centro da cidade – São Luis, Moderno, Art-Palácio e Trianon – o neguinho tinha que estar elegante. As moças usavam roupas toaletes e não dispensavam um par de luvas. Pensem numa gente alinhada... Nos trinques!
Indumentárias à parte, é de se considerar que sem a forte concorrência da moderna TV por assinatura, dos vídeo-tapes, DVDs e locadores de filmes da vida moderna a coisa se revestia do maior clima. Pré-estréias de gala, sessão da meia-noite e matinais infantis. As matinês eram sensacionais. Acho que a turma de hoje nem sabe o que significam os termos matinal, matinée e soirée, tirados do francês para encantar a sociedade tupiniquim.
Quem vem da juventude dourada dos anos 60, jamais esquecerá as manhãs de sábados com o cinema de arte do São Luis. Era um dos programas mais tchan (ainda se usa esse termo?) da época. Antes da sessão rolava a maior paquera e o filme, propriamente dito, muitas vezes, perdia o encanto diante das emoções que rolavam na platéia.
Hoje a coisa é diferente. O espectador corre num shopping, sofre para estacionar seu veículo, normalmente atravessa longos corredores apinhados de gente, tem dificuldades de escolher o filme que deseja dada a oferta elástica de títulos e gêneros, elege um, compra um quilo de pipocas e um litro de refrigerante, entra, se espalha numa poltrona espaçosa e embarca no mundo da fantasia, enquanto vai sujando o salão. Ao final de cada sessão a turma da limpeza sofre...
Não que isto seja ruim... Nada disso! Até porque as modernas tecnologias – de som e imagem digital, efeitos especiais etc. – transformam a arte cinematográfica em espetáculo de primeira grandeza. Mas, que dá saudade do passado, isso dá.
Mesmo transformado e sofrendo fortes concorrências, cinema é a melhor diversão. Êita, que frase original!

Nota: Foto da belissima sala de exibição cinema São Luiz, no Recife, hoje fechado e entregue às baratas. Obtida no Google Imagens

terça-feira, 23 de setembro de 2008

VENDE-SE UMA LAJE

A luta por um espaço onde viver parece ser um exercício sem fim para muitos brasileiros. Nas grandes metrópoles, a conquista pelo lugar onde construir uma moradia é uma verdadeira contenda. O cidadão de baixa renda cata, dia e noite, espaço nas periferias, burlando as autoridades e fiscalizações severas.
Fiquei impressionado como essa coisa é intensa na periferia da cidade do Rio de Janeiro, fora dos cartões postais e longe do Centro limpo e organizado que descrevi na postagem anterior.
Querendo viver perto do emprego ou da zona central da cidade o carioca (ou migrante) mora perigosamente “pendurado” nas favelas dos morros e pedras que circundam a cidade, criando uma zona residencial marginal, muitas das quais com regras próprias de convivência, quase sempre nocivas à comunidade ou à cidade, no seu todo.
São estratégias “imobiliárias” mirabolantes e arriscadas. No meio dessas, a que mais me impressionou foi a da especulação imobiliária da laje. Nas periferias do Rio de Janeiro, o sujeito, depois de muitas buscas, encontra um chão (alguns perigosamente situados), ocupa e constrói a moradia coberta por uma laje de cimento. Só Deus sabe como ele pode chegar até ali, como pode levar o material da construção e como obteve água e luz. Haja “logística”.
Obra concluída e ocupada, o cara põe uma placa de “vende-se a laje”. Sim, aquela que cobre a casa que ele construiu que, por sua vez, pode servir de piso para uma nova moradia. O primeiro tem, desse modo, o retorno do investimento que fez. Dependendo do seu talento como vendedor, esse retorno vem com bom lucro. O segundo adquirente do espaço, digo, da laje, procede do mesmo modo, isto é, constrói, se estabelece e vende – junto com o primeiro! – a segunda laje e assim por diante, várias vezes. Existe construções nas encostas de morros e pedras cariocas com seis pisos ou mais. É incrível. São verdadeiros edifícios erguidos, sem projeto ou cálculos seguros, pondo em risco um grande contingente populacional. Vez por outra, em tempos de chuva pesada, uma erosão inesperada leva morro abaixo construções desse tipo, vitimando muita gente, fazendo a festa da mídia, tirando o sono dos governantes e sensibilizando Deus e o mundo. A maioria tem, como bônus, o esplendoroso cenário do mar atlântico ou da baia da Guanabara, melhor do que qualquer penthouse de Ipanema ou da Barra da Tijuca.
Eis aí mais um jeitinho brasileiro. Digamos que um brazilian way of life.
Ah! antes que eu termine, lembro que, como bons brasileiros, esse habitante pendurado no morro não perde tempo e, enquanto não vende a laje, promove, nos fins-de-semana, um churrasquinho, regado a uma cervejinha gelada e ao som de um pagode, extraído de um “maneiro” três em um, comprado em trinta e seis prestações.
E você, quer comprar uma laje, voltada para o mar de Copacabana, Ipanema ou São Conrado?
Vá lá... deve haver alguma dando sopa... Vidigal e Roçinha são duas boas sugestões.


Nota: Fotos do blogueiro

sábado, 20 de setembro de 2008

O Centro do Rio de Janeiro

Estou, outra vez, no Rio de Janeiro. Mesmo numa missão de trabalho, impossível não admirar as belezas desta cidade, que continua linda.
Sabe de uma coisa, comparando com outras áreas centrais de diversas metrópoles brasileiras, o Centro do Rio está muito bem cuidado e é prazeroso de ser visitado. Bem diferente dos centros deteriorados de São Paulo ou Recife. Aqui foram conservadas e são preservadas cuidadosamente as marcas da história e o cidadão transita tranqüilo. Dá gosto de ver as inúmeras ruas antigas, entre as quais as da Quitanda, do Carmo, Assembléia e Ouvidor, limpas, com prédios de mais de duzentos anos, todos bem conservados e aproveitados.
Aliás, na minha opinião, é bem mais interessante caminhar pelo Centro carioca, do que, por exemplo, pelo bairro de Copacabana, que viveu nos anos 50, 60 e 70 sua fase áurea. Por ali, a impressão que se tem é que o tempo parou. As lojas não se renovaram. As vitrines, antes atrativas e charmosas, parecem sombrias e negligenciadas. Tudo muito parecido com o que havia há quarenta anos. Além disto, as avenidas e ruas transversais são sujas, mal tratadas e repletas de ambulantes. Já no Centro, que parece ter sofrido uma boa intervenção, vi lojas modernas coloridas e atraentes. Mais do que isto, vi, no horário do almoço, um carioca mais bem trajado (muitos executivos) disputando mesas nos inúmeros restaurantes de boa categoria, espalhados pela área.
Neste mesmo centro, para minha surpresa, notei a existência de vários quiosques para a venda de flores, dando mais graça à região. Vi, também, a exemplo de Paris ou Nova York, artistas populares vendendo, de modo sutil, sua arte. Destaco o maravilhoso saxofonista, na entrada da estação de Metrô da Carioca, tocando composições de Vinicius, conferindo mais beleza ao meio (vide foto ao lado). Cheguei a parar, por um momento, para observar e escutar o som emitido pelo anônimo artista.
Outra coisa, no Centro do Rio não se vê a fiação da rede elétrica ou de telefonia. É tudo subterrânea, que é uma coisa pouco valorizada noutras cidades brasileiras. Isto faz a maior diferença no ambiente urbano. O Recife, por exemplo, é um péssimo exemplo. Tem fios, de toda espécie, pendurados nos postes e alguns são tão baixos, que assustam o pedestre. Aliás, nem é bom falar sobre as barbaridades cometidas no centro do Recife. Quando penso que houve um Prefeito que abriu a Avenida Dantas Barreto, arrasando a melhor parte do sitio histórico do bairro de São José, incluindo templo secular e casario colonial, fico lamentando a ignorância e a brutalidade exercitada. Sobre a decadência do Bairro do Recife Antigo, decorrente de uma exacerbada miopia política, nem é bom falar. Fica para outro dia.
Pois é, não obstante as constantes notícias alarmantes da TV, sobre a “guerra” que se trava todo dia nas favelas da periferia carioca, o Centro carioca é muito agradável de ser visto. Recomendo.

Nota: As fotos são do Blogueiro

sábado, 13 de setembro de 2008

Saudades (do Recife) da aurora da minha vida

Depois que eu completei 17 ou 18 anos, ganhei total alforria dos meus pais para freqüentar os embalos da época, na maioria das vezes nos clubes sociais da cidade e nos assustados, nas casa de amigos. Era um tempo sem a violência dos dias de hoje e uma juventude mais comedida, longe da liberdade que a turma de hoje experimenta.
Digo isto, porque tenho um filho jovem, baladeiro ao extremo, que todo fim de semana, e muitas vezes durante a semana, entra de cabeça nos bares e boates da cidade. Motorizado, entra sai de casa, num abrir e fechar de olhos. “Os tempos são outros pai”, vive me avisando e eu resistindo por entender esses novos e assustadores tempos.
Para nós, os pais, que hoje ficamos em casa, muitas dessas noites se transformam num suplicio. Será que ele vai beber, beber até cair? Será que não vai ser assaltado? Vai dirigir embriagado? Com quem está saindo? Com quem está ficando? É um estresse danado. Claro, que confiamos na educação que demos, mas, muitas vezes, as companhias e a ocasião levam o cidadão aos extremos. Graças a Deus as coisas estiveram sempre sob controle. Na minha casa...
Lembro com pesar, que tenho amigos (eu disse no plural) que, não tendo a mesma sorte, já perderam filhos em assaltos e por conta do binômio bebida e direção. Vendo esses casos, faço sermões e advertências a toda hora, dentro de casa. Estou um pouco mais tranqüilo com a atual Lei Seca. Mas, essa tranqüilidade deixa, ainda, a desejar.
Conversando com companheiros de farras na juventude, recordamos a inocência daqueles tempos que não voltam mais. Não havia exageros na bebida, a moda era Cuba Libre (Rum com Coca-Cola) e bastava uma dose por noitada. Namorávamos sem ultrapassar os limites. Essa história moderninha de ficar era inimaginável. Ao contrário de hoje, que o namoro começa com um beijo tipo “desentupidor de pia”, beijar, naquela época, só depois de muito tempo. Bote tempo nisso. Algumas garotas tinham nojo e muitas pensavam que beijando perdiam a virgindade. Cama, nem pensar! Nem cama, nem outro móvel qualquer. Ir morar na casa da namorada ou do namorado, impossível. As moças, numa maioria esmagadora, casavam virgens, cheias de orgulho e confiança. Ou seja, namorar era um ato inocente, de conversas bestas e poucos amassos. E, quando a gente, o varão, não agüentava mais, ia tirar o sufoco hormonal na zona do Recife Antigo! Ou com a colaboração das empregadas domésticas, mais conhecidas por peniqueiras, soltas nas noites suburbanas da cidade. Essa coisa horripilante que é a Aids, não era nem sonhada. O pavor das doenças sexualmente transmissíveis ficava por conta da blenorragia e do cancro. Tudo perfeitamente curável e jamais mortal. Camisinha? Para que? Troço mais insólito... E, tem mais, raro! Hoje, tem até no supermercado. Eu, mesmo, só vi a primeira depois de bem madurinho. Achei engraçado e comprei só para exercitar o uso numa hora H oportuna.
Naqueles tempos da maravilhosa Bossa-Nova, como poucos rapazes tinham automóvel, o percurso de casa ao local do embalo era feito de ônibus ou mesmo a pé. Eu, por exemplo, morava no Rosarinho e ia para as festinhas, do Circulo Militar, em Ponte d’Uchoa, caminhando. Eu e os colegas de colégio, entre os quais lembro de Joe Gonçalves, Fred Moreira, Carlos Nobre, Marcos Cesário de Mello e Jorge “El Congo”. Era incrível a tranqüilidade que se vivia. Na volta para casa, de madrugada, ou dia já claro, a única coisa que nos amedrontava eram os cachorros de guarda soltos nos jardins das casas. Ah! Só havia casas. Essa coisa de condomínios de apartamentos só veio depois de algum tempo. Os bairros do Espinheiro, Aflitos e Rosarinho eram verdadeiras belezas. Pacatos, aprazíveis, menos quentes do que hoje, pouco trânsito, casas magníficas, jardins bem cuidados, ruas iluminadas, limpas e bem cuidadas. A cidade pulsava nessas bandas da zona Norte. Boa Viagem e Piedade ainda estavam começando a ser construídos. Eram lugares distantes, onde, praticamente, só íamos para veranear ou então para ir a “Putizzaria” Boate Samburá, quando aparecia uma carona, era muito longe, de um colega rico motorizado. Virgilio se chamava um desses. Ou então, mostrar aos visitantes forasteiros, a praia e uma casa em forma de navio (Foto ao lado), na beira mar, em Boa Viagem.
O Recife cresceu, virou metrópole, e com o crescimento – que é bom, não vou negar – vieram as dificuldades, a insegurança e a insustentabilidade. Nossa sociedade e governantes precisam reagir. Não dá mais para viver numa urbe que marca presença no topo do topo do ranking da insegurança nacional. Tenho saudades (do Recife) da aurora da minha vida.

Nota: Esta cronica é dedicada aos meus colegas Joe Gonçalves, Fred Moreira, Marcos Cesário de Mello, Carlos Nobre, Jorge El Congo, marcos Rufino Ferreira, Paulo Sergio Petis Fernandes e Virgílio (já falecido), meus companheiros de Colegio Marista e de farras inocentes nos anos 60.
Foto obtida no Google Imagens

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

FABRICANTES DE PÂNICOS

Tem gente que adora perturbar a população espalhando boatos calamitosos, metendo medo nos inocentes e ignorantes. São verdadeiros fabricantes de pânicos. Por incrível que pareça existem uma imensa parcela de pessoas que caem no conto e embarcam de cabeça na onda da boataria.
Hoje ocorreu um desses casos. Circula na Internet (que se presta para isto, como nada antes na história deste país) um boato de que o gigante acelerador de partículas, inaugurado hoje, na fronteira entre a França e a Suíça (foto ao lado), vai servir de acelerar a velocidade de rotação da Terra, ao ponto de arremessá-la num buraco negro no firmamento, que vai sugar o planeta num abrir e fechar de olhos. Com outras palavras: o mundo vai se acabar! Pense no desespero que se espalhou, em certas camadas sociais, pelo Brasil afora. Sintonizando uma dessas estações paulistas, que transmitem programação para o país todo, escutei depoimentos patéticos, estimulados por locutores cínicos, de um Programa denominado Pânico. Fizeram do assunto a festa do dia, na emissora. Entrevistaram pessoas na rua, em casa, no comércio, entre outros lugares e, somente no final, um cientista que colocou as coisas no devido lugar.
Se bem entendi a tal máquina que foi acionada esta manhã, lá na Europa, chamada de Grande Colisor de Hádrons, é uma versão gigantesca de muitas outras espalhadas no mundo, inclusive no Brasil, que se prestam para desvendar os mistérios das menores partículas que existem na natureza, incluindo o corpo humano, com finalidades das mais diversas a serviço do homem. Este Grande Colisor, instalado a 120 metros de profundidade e num túnel cilindrico de 27 Km., foi construído para desvendar os mistérios do universo. Pense no tamanho dessa máquina, que foi batizada, pelos boateiros, de Máquina do Fim do Mundo. Haja criatividade!
Esse negócio de espalhar o pânico é uma brincadeira de muito mau gosto e irresponsabilidade. Vez por outra, marcam uma data para o mundo se acabar. Quando era menino, fiquei apavorado com uma dessas ondas. Os mais velhos falavam com tanta seriedade que quase não durmo na véspera do fim do mundo. Não faz muito tempo, ocorreu um desses boatos. Meu filho mais novo, ainda inexperiente, veio, meio conformado e triste, me dizer: “Pai, que pena, eu sou tão novinho, ainda, e o mundo já vai se acabar. Quase não aproveitei o mundo. Será que vão dar um jeito?”. Tive vontade de rir, mas, ao invés disso, abracei meu inocente e procurei tranqüilizá-lo. Fala-se que, nessas ocasiões, as orientadoras psicológicas das escolas primárias têm muito trabalho para acalmar a garotada. Imagino, porque o coletivo infantil é uma parada.
Quem viveu a passagem do ano de 1969 para 1970 deve lembrar que espalharam o boato de que os indivíduos de cor negra virariam macacos no romper do ano novo. Nós tínhamos em casa uma secretária preta, atuando na nossa cozinha, que não gostou nada de viver aquela situação. Meus irmãos pequenos ficaram penalizados com a Severina, ao mesmo tempo que esperavam ansiosos, e no maior frisson, a passagem do ano para vê-la saltando de um lado para outro, arrastando um rabão (ela tinha nádegas imensas) pela cozinha e descascando uma banana atrás da outra. Pense na marmota. Na casa da minha Tia Ritinha, Miroucha, cria da casa, de cor morena bem queimada, a meia-noite do dia 31 de dezembro de 1969, trancou-se no banheiro e para arrancá-la de lá, para festejar o ano novo, foi uma mão-de-obra. “Mira, minha filha, saia prá fora... ôxente menina, tu num tais vendo que num aconteceu nada contigo. Num tá vendo não?” implorou minha tia, por muito tempo, batendo à porta do banheiro.
Pois é... naquele ano, os negros, graças a Deus, continuaram normais e o que restou do episódio foi, apenas, a lembrança e uma marchinha de carnaval, cantando o boato.
Outro pânico, inesquecivel, foi o do boato do estouro da Barragem do Rio Tapacurá (foto ao lado), em 1975, na entrada do Recife. Este, nem é bom lembrar. A cidade virou um hospício generalizado, diante da perspectiva de ser invadida por uma descomunal massa de água, que dizimaria a população. Mães abraçavam os filhos e se despediam do mundo. Carros eram abandonados nas avenidas. Gente caia pra trás e morria de colapso cardíaco. Outros queriam se suicidar para não sofrer o afogamento. O Hospital de Pronto Socorro bateu o recorde de atendidos e de não atendidos. Um caos geral, dirigido pelos fabricantes de pânico. Quanta perversidade e irresponsabilidade.
Pena que seja difícil identificar pessoas desse gênero, porque para eles só há um destino adequado, que é a cadeia e por muito tempo.
Nota: Fotos do Google Imagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Vozes do Poder

Grandiosidades à parte, dos dois empreendimentos inaugurados no fim de semana passado, em Suape, aqui em Pernambuco, chamou-me a atenção a forte conotação política que caracterizou os dois eventos.
Cortar a primeira chapa de aço para compor uma primeira embarcação a ser produzida no Estaleiro Atlântico Sul – EAS não poderia ter manifestação política maior do que vi, sob os majestosos galpões já construídos e ecoando nos canteiros de obras na Ilha da Tatuoca.
O Presidente Lula fez da oportunidade um verdadeiro happening político, ao desembarcar no estado com um séqüito de ministros e assessores dispostos a transformar a ocasião num grande comício de campanha política, para o momento e para o futuro. Um verdadeiro golpe de mestre. Tudo bem, ele tem lá suas razões e os pernambucanos agradecem. Mas, no afã de dar visibilidade aos seus afetos termina por abusar do direito de fazer campanha política velada e negar, a quem de direito, partes dos louros do sucesso. São as coisas perversas da política partidária.
Administrar oito discursos, a maioria dos quais inflamados e com jargões populistas, dirigidos a uma platéia formada, basicamente, de trabalhadores da planta terminou por transformar a “festa” num festival de aplausos e ovações além das medidas. Para quem foi lá interessado a ver o essencial, como foi meu caso, o momento chegou a ser exaustivo e inoportuno. Paciência. Fui para chuva, tive que me molhar.
O outro empreendimento, inaugurado no sábado, foi o da IMPSA (Wind Power Energy), empresa de capital argentino, que vai produzir, também em Suape, geradores de energia eólica. Dizem ser a maior do gênero na América Latina. Para este evento, quem veio foi a Presidente da Republica Argentina, Cristina Kirchner, voando de Buenos Aires direto para o Recife.
Esta inauguração teve uma dimensão menor, dadas as proporções do empreendimento, mas, igualmente, com importante componente política. A vinda da Senhora Kirchner além de conferir um imenso prestigio aos que fazem a empresa argentina – o Grupo Pescamona – líder no ramo naquele país e maior na América Latina, veio recheada de intenções político-econômicas a serem firmadas entre Brasil e Argentina. Há tempos não se falava tão bem em integração econômica.
Dessa vez, foram poucos e bons discursos. A vaidosa presidente argentina – na minha avaliação, ela faz o tipo mulher sedutora – foi à tribuna e brindou os poucos e seletos convidados com um discurso daqueles que costumo chamar de redondo. Com pé e cabeça. E, não foi nada pré-escrito. Foi um improviso subsidiado pelas falas que a antecederam. De forma sucinta e bem arrumada, a presidente elogiou a atual política industrial brasileira, manifestou compromisso com um intenso programa de integração econômica com o Brasil, alertou para a importância da utilização de processos industriais que agreguem valor aos produtos e, por fim, referindo-se ao discurso do empregado da empresa que, em tom otimista, confessou seu compromisso com a empresa para transformá-la na maior do mundo, porque da América Latina ainda é pouco, La Kirchner elogiou o entusiasmo do brasileiro, pela auto-estima e a vontade de crescer. Justificando, disse do esforço que vem desenvolvendo para recuperar a auto-estima do seu povo, ainda muito sofrido por tantas políticas sócio-econômicas equivocadas praticadas no passado recente do seu país.
Confesso minha surpresa com a fala da presidente e digo isto porque a achei excessivamente preocupada com as madeixas e a maquiagem, antes de usar a tribuna. A propósito, acho que ela não gostou nada da aspersão de água benta, no rosto, feita pelo pároco do Cabo de Santo Agostinho que abençoou as instalações da fábrica. Secou a face com um leque que portava e acionava seguidamente. Ela nem percebeu que o religioso quis apenas agradar a ilustre visitante. Pois é, foram dois momentos importantes para Pernambuco e consagrados com vozes de muito poder.


Nota: Fotos do Blogueiro. Lula admirando a moderna maquina de corte da primeira chapa e a Presidente Cristina Kirchner cheia de dedos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

VOTE CERTO

Nada mais interessante, nesses tempos de eleições, do que observar o comportamento dos postulantes a cargos eletivos. Uns mais qualificados do que outros. Muitos sem classificação. Inúmeros ridículos e impagáveis, mais divertidos do que o melhor dos humoristas.
É impressionante como essas pessoas, muitas vezes forçando sua própria natureza, se transformam em pessoas afáveis, gentis, educadas e populares, mesmo não sendo. Tiram o paletó e a gravata, vestem camisetas e calçam sandálias, sobem e descem ladeiras, bebem uma cachacinha aqui e outra acolá, comem do “pão que o diabo amassou” para aparentar que estão com o povo e ao lado dos comuns.
Na minha opinião, o período da campanha eleitoral é o tempo no qual a Nação mostra sua cara teatral. Quantos talentos estão no caminho errado (o da política), quando de fato deveriam estar buscando as luzes das ribaltas, nos palcos da vida. Fariam mais sucesso e viveriam felizes, porque são perfeitos atores.
É impressionante o número de candidatos, que saem do nada e de todos os recantos da cidade, cheios de ilusão e muita bossa, crentes que vão fazer sucesso e chegar lá. São quase 700 candidatos para 37 vagas na Câmara Municipal do Recife.
Observando nomes, currículos e densidade política, poucos se salvam e levam a melhor. Outros, os que não se salvam, até ganham a eleição e nem preciso fazer considerações a respeito do resultado prático, tamanha é a ignorância a respeito do papel que devia desempenhar.
Como circulo muito, vejo-me diante de inúmeros desses candidatos que, invariavelmente, vão logo atacando com o famoso clichê: “conto com você!”, acompanhado sempre de caloroso amplexo e do famoso “santinho”. Certas vezes, o entusiasmo é tamanho que só faltam oscular-me.
Outro dia, um cidadão que, sem a menor condição financeira para fazer uma campanha, inocente de pai e mãe, vestido de maneira berrante, boçal até dizer basta e com um linguajar pastoso encontrou-me num evento empresarial e não teve dúvidas de me abraçar, elogiar-me – segundo ele, cada dia estou mais moço e mais elegante! – e pedir o voto para vereador do Recife. Surpreso com a abordagem, conheço-o apenas de vista, não acreditei no que via. O cara puxou do bolso um folheto, mal impresso, com a foto, o “currículo” e as promessas de campanha. Nada se aproveitava. Tive que tolerar meia hora de lero-lero e, a pulso, pedir licença para sair. Jesus, que barbaridade! Imaginei aquela figura na tribuna municipal, sem ligar nada com coisa alguma e posando de legitimo representante do povo.
O negocio é o seguinte: sou daqueles que entende que a eleição municipal é a mais importante de todas. A participação popular deve ser mais consciente, porque, afinal, o que está em jogo é o dia-a-dia do cidadão. O município é a célula da Federação e nele reside a base da cidadania. Não pode haver sociedade sã se não houver um ambiente adequado ao bem estar, segurança e tranqüilidade na sua base espacial. Numa eleição municipal elegem-se, supostamente, representantes que devem cuidar, de perto, do cidadão. Isso me parece fundamental. Uma má escolha – que, na maioria das vezes, vem ocorrendo neste país – resulta numa sociedade defeituosa desde a raiz e incapaz de participar de modo mais adequado e justo nas escolhas superiores e que, em tese, se encarregam de construir um País com ordem e progresso e uma Nação sadia e em paz.
Vejo que no próximo pleito eleitoral, corremos o risco de ver saindo vencedores candidatos desqualificados – a maioria conquistando votos por meios desonestos – e, portanto, incapazes de representar idealmente o povo.
Por isso, caro (e)leitor ou (e)leitora, seja exigente. Ainda é tempo. Não se encante com os belos olhos do candidato, com um discurso demagógico ou o padrinho que o empurra. Ao invés disso, dê um voto certo, consciente, racional, pensando na sustentabilidade do coletivo sofrido que habita sua cidade.
O Brasil precisa de uma base política municipal mais digna para o futuro sonhado.




Nota: Foto obtida no Google Imagens

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

CONCERTO NA SERRA

Uma das boas coisas de Pernambuco se chama Gravatá. Pertinho do Recife (pouco menos de 80 Kms.), 45 minutos de boa rodovia, depois dos quais já se respira ar puro de montanha. Situada no alto da Serra das Russas, em pleno Planalto da Borborema, a cidade se encontra a uma altitude próxima de 500 metros, ocorrendo alguns pontos, no seu entorno, com até 700 metros. Estive por lá neste fim de semana.
Sábado passado algo deixou o local mais atraente do que o normal, por ocasião de um concerto de música erudita, a cargo da Orquestra Jovem de Pernambuco, sob a batuta do talentoso maestro Rafael Garcia, chileno de nascimento e pernambucano de coração e de direito, tendo o suporte da sua consorte, a pianista pernambucana, Ana Lucia Altino Garcia.
O local não poderia ter sido melhor: o Centro de Convenção do excelente Hotel Portal de Gravatá, dirigido, competentemente, pelos irmãos Cavalcanti, um deles, o Eduardo, amante da música clássica e um dos responsáveis pelo concerto deste fim-de-semana. Que, aliás, é bom lembrar teve apoio cultural e decisivo da Petrobrás. Bravo!
Imaginem uma noitada, na qual se juntam fatores que resulta, inevitavelmente, em sucesso: clima de montanha, música deslumbrante, conforto de instalações e, no final, uma boa fondue regada a um bom vinho. E “papos cabeça”!
Essa Orquestra Jovem de Pernambuco merece um especial destaque nesta conversa de hoje. A origem do Grupo data de meados dos anos 80, por iniciativa do casal Garcia e formado com jovens, na sua maioria, originários de vários projetos de assistência social à comunidades pobres da cidade e, consequentemente, de famílias de baixa ou baixíssima renda que, estrategicamente encaminhados, encontraram na música uma razão de viver, abandonando a rua e a marginalidade. Eis aí, de cara, uma razão para admiração e aplausos. Muitos já se tornaram músicos profissionais, inclusive contratados por grandes orquestras, noutras praças. Bravo, outra vez!
O projeto foi interrompido algum tempo, porque os Garcia tiveram que se afastar, por bom período, para os Estados Unidos. Retomaram a idéia no ano de 2005. Pois bem, apesar de tão pouco tempo dessa reativação, a moçada que compõe a orquestra atual reagiu de modo extraordinário e hoje, como diz o emocionado Rafael Garcia, se constitui na melhor orquestra de câmara do estado de Pernambuco. Trata-se de um projeto digno de admiração que, para minha surpresa, não recebe apoio de nenhum nível de governo, o que é lamentável.
No programa de sábado, em Gravatá, a seleta platéia foi brindada com obras de Mozart, Bach, Clóvis Peixoto e Astor Piazzola. Um programa, que eu diria, escolhido a dedo, para agradar a uma assistência muitas vezes carentes desse tipo de musica e numa cidade que raras as vezes tem a oportunidade de assistir a um concerto de música erudita. Foi de “lavar a alma”...
Aliás, por falar em lavar a alma, vale à pena um destaque, dentro deste maior: a garota Karolyne Santos, que, com 9 aninhos de idade, deu um verdadeiro show, tipo gente grande, executando ao violino o Concerto para Violino e Orquestra em Lá Menor, de Bach. (Foto ao lado) Para este caso, da menina, vou usar um termo antigo: mimoso. Essa menina aprende violino desde os 5 anos de idade. Tímida, séria, acredito que tensa diante da platéia, reagia aos aplausos sem mover um só músculo da face. Para agradecer os aplausos curvava-se solenemente, como uma japonesa diante do publico. No final, perguntei: “minha filha quantas horas, por dia, você exercita seu violino?” Escutei, num tom bem baixinho, com uma boquinha bem apertadinha, “2 a 3 horas durante a semana e 5 ou 6 horas nos finais de semana...” Para quem já criou três filhos, irrequietos, fiquei pensando como pode ser essa criança... sim, porque ela é uma criança, ficar presa ao violino tantas horas da semana? Sem brincar de “pula-pula” ou de “pega”. Nem de boneca? Será? Incrível. Se essa garota conseguir progredir na musica, como eu imagino, recomendo aos amantes da boa música, que guardem esse nome, misto de estrangeirismo e brasileiro comum.
Belo, meu fim-de-semana na Serra das Russas. Aplausos aos Garcia pelo belo trabalho que desenvolvem.

Nota: Foto da autoria do Blogueiro