sábado, 26 de novembro de 2011

Castelo de Areia Europeu

Cresce a preocupação do mundo quanto ao que vem ocorrendo na Europa, nesses últimos tempos. A fragilidade de boa parte das economias da Zona do Euro, incluindo inicialmente Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, já não poupa a Itália e avança célere pelas economias mais sólidas e ricas – França e Alemanha – todas praticamente em crise. Isto acende um sinal de alerta para o resto mundo. Juntando a isso tudo a situação, também difícil, dos Estados Unidos desenha-se um quadro de arrepiar, para a economia mundial.
Acompanhando a situação lembrei-me do livro de Jeremy Rifkin, intitulado de O Sonho Europeu (M.Books, 2005) que li há dois ou três anos, no qual o autor faz uma analise comparativa entre as culturas econômicas norte-americana e européia. Segundo Rifkin, há uma diferença colossal (adjetivo meu) entre esses dois povos. Tudo conforme suas raízes históricas, bem definidas e identificadas. Enquanto os americanos trabalham feito loucos, sem parar, para formar um patrimônio do tipo quanto maior, melhor, o europeu trabalha para alcançar uma vida tranqüila e economicamente segura, dando especial atenção para viver momentos de lazer, repouso e qualidade de vida. Estes pensam, por exemplo, com questões ambientais que lhe darão bem estar e prazer, ao passo que os americanos trabalham, dia e noite se preciso for, não importando o processo pelo qual o sujeito obtenha sua riqueza pessoal, interessando o, e somente o resultado. E conseguem... Foi para isso que ele nasceu, foi assim que ele foi educado e é para isso que ele existe. Ou seja, os americanos vivem para trabalhar e os europeus trabalham para viver. Tive dúvidas quanto a essa tese, à época que li a obra. Conheço norte-americanos que curtem a vida, embora que apóiem as manobras bélico-militares do país, sempre achando que eles são os senhores do mundo moderno e isso é abominável.
O europeu, não. Na Europa o cidadão comum nasce, cresce e se educa numa cultura distinta, que, na prática é formada de um inteligente mix de produzir, acumular e viver. As guerras não fazem parte da cultura deles, mesmo porque de guerras viveram seus antepassados. Hoje em dia, antes de ir à luta, o europeu moderno sempre opta pela negociação diplomática. A vida com lazer, cultura, bem-estar e pouca ostentação é uma tônica daquela gente. Em resumo, Rifkin acha (ou achava) que “a visão européia do futuro vem eclipsando silenciosamente o sonho americano”.
Mas, não é sobre essas diferenças que resolvi escrever hoje, mesmo porque não sou especialista na área. Minha questão nesta postagem está voltada para a atual situação econômica mundial. Há poucos dias comentando uma fala do norte-americano Lawrence Summers (ex-assessor de Clinton e Obama), numa conferencia que assisti em São Paulo, registrei a opinião (dele) de que os governantes europeus estavam muito indecisos nas tomadas de decisão quanto aos problemas da atual economia do continente. Dei razão na hora e vejo que não poderia ser de outra forma, dadas as características ali reinantes. A Europa é formada por um mosaico de imensa diversidade cultural. Os neolatinos diferem imensamente dos germânicos e dos eslavos. O pensar do grego está muito distante do que pensam os anglo-saxões e assim por diante. Ora, como administrar uma comunidade de economias e sociedades estruturalmente diferentes, políticos de padrões diversos e de estados emocionais díspares? Como organizar num único Estado, algo proximo a três dezenas de países com histórias diversas num sonhado Estados Unidos da Europa? O resultado do quadro assim desenhado é esse desencontro de idéias e de decisões que testemunhamos nos dias do hoje.
Desemprego em massa, povo nas ruas protestando e respondendo radicalmente inclusive nas urnas eleitorais é tudo quanto se registra na democrática Europa desse inicio de século resultando numa difícil situação.
Países em crise, além do desemprego crescente, têm baixo consumo das famílias, investimentos reprimidos, importações retraídas, entre outros obstáculos. Acreditar que a situação ficará restrita ao Velho Continente é pura ingenuidade. Para os que, sistematicamente, lhes fornecem produtos e/ou serviços, como o Brasil, a situação pode se complicar em proporções indesejáveis. Temo que o Castelo da União Européia seja de areia e desabe sobre o resto do mundo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Desafios de Porto de Galinhas

“Porto de Galinhas é uma beleza. Adorei o que vi e a dinâmica da vila. Aquelas piscinas naturais... Gostei do comércio sofisticado, dos bons restaurantes e a hotelaria é de primeira. Mas, o acesso rodoviário e a estrutura urbana ainda são muito fracas...” Foi assim que amigo meu, de São Paulo, comentou sobre sua visita ao mais famoso balneário pernambucano. Dei uma “desculpa de amarelo”, daquelas de quem defende do jeito que pode e até quando não pode. Parto sempre do principio de que turista é sempre exigente. Eu mesmo sou. Infelizmente, tenho a mesma opinião do amigo paulista. E por isso mesmo, fui conferir, in loco, neste feriadão de 15 de novembro. De fato, é uma beleza curtir a paisagem de Porto de Galinhas, com seu mar azul turquesa, suas atrações naturais, as piscinas (vide foto a seguir) os passeios de jangada e bugres e se deliciar com as várias opções de restaurantes. O comércio é simplesmente surpreendente. Ultimamente, inclusive, os lojistas locais têm caprichado na repaginação dos seus estabelecimentos e isso vem dando um novo perfil do centro comercial. O que era uma lojinha acanhada se transformou numa vistosa, atrativa e bem sortida casa de negócios, sem nada a dever dos grandes centros comerciais e, particularmente, de outros balneários no Brasil e no exterior. Está na cara que o dinheiro corre com mais intensidade e negociar em Porto de Galinhas se transformou numa atividade rentável.
Este quadro, pensando bem, já era esperado e muito se deve a dois importantes fatores: primeiro, pela concreta afluência turística, devida ao fato de que Porto vem sendo eleita – há quase dez anos – a mais bela praia do Brasil e, depois disso, a influência do desenvolvimento industrial da região vizinha, centrado no Complexo Industrial Portuário de Suape, a poucos quilometres dali. Executivos de empresa, técnicos graduados e trabalhadores da região foram, naturalmente, atraídos pelas belezas e amenidades do balneário. Muito desses já moram por ali e, por sorte, se livram a cada dia do transito caótico da Região Metropolitana. Junte a esse contigente o dos pernambucanos que mantêm suas casas de veraneio naquele paraíso tropical e pense no que pode acontecer em dias de alta estação. De uma coisa estou certo: o movimento turístico de Pernambuco se concentra naquela região litorânea. Basta uma voltinha pelas principais ruas da Vila e se nota as presenças de forasteiros nacionais e estrangeiros.
Contudo, lembrando meu amigo paulista, é decepcionante fazer a trajetória entre o Recife e Porto de Galinhas. Ele mesmo amargou 3 horas de engarrafamentos, ou seja, o mesmo tempo de vôo entre São Paulo e o Recife. Claro! As vias de acesso – BR-101 e PE-60 – são estradas de fazer vergonha. Ontem (15/11) à noite, ao retornar ao Recife, levei duas horas para um percurso que pode ser feito, no máximo e a baixa velocidade, em 40 minutos.
Outra coisa que deve ser atacada pelas autoridades locais é quanto a inaceitável infra-estrutura sanitária local. É vergonhoso circular pela Vila e respirar o mau odor de esgoto sanitário que sobe das sarjetas e de alguns pontos a céu aberto. Por mais que se entenda que o lugar cresceu de modo acelerado e desordenado, sem tempo de planejar melhor, é impossível aceitar. Do jeito que está, não pode continuar. A Prefeitura de Ipojuca tem que correr contra o tempo e dotar o local de melhor escoamento sanitário e cuidar da limpeza pública. Tem muito lixo nas ruas. Será que os turistas acham engraçadinho jogar copos descartáveis, papéis sujos e outros "bichos" na via pública? Faltam lixeiras? Dinheiro, todo mundo sabe, não falta. É uma prefeitura rica. Pelo visto, faltam competência e agilidade nas ações. Precisam salvar Porto de Galinhas, antes que seja tarde.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

domingo, 6 de novembro de 2011

Competitividade em Debate

Retornando de Buenos Aires ao Recife, na semana passada, fiz uma parada em São Paulo, onde me juntei ao grupo dos dirigentes do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas de Pernambuco (SIMMEPE) e da Fiepe, para participar o 6º. Encontro Nacional da Indústria - ENAI, promoção anual da Confederação Nacional da Indústria – CNI. Esse tipo de encontro criado pelo então Presidente da Confederação, Armando Monteiro Neto, vem se consolidando, ano a ano, como a melhor oportunidade da classe empresarial brasileira, do setor industrial, se encontrar, trocar informações, discutir seus problemas e, por fim, desenhar e propor trajetórias que julguem ideais na defesa dos seus interesses.
Além dos empresários de todos os estados brasileiros, técnicos, pesquisadores, convidados especiais, representantes do Governo e imprensa acompanham, atentamente, cada debate, todos caracterizados por profundo conteúdo. Este ano, a idéia-força foi discutir o Fortalecimento da Competitividade da Indústria Brasileira. Nada mais oportuno, visto que, sendo o Brasil, parte integrante da economia globalizada, cresce a toda hora a falta da capacidade de competir, num mercado dominado por players, cada vez mais agressivos e competitivos.
Os trabalhos, propriamente digo, foram abertos pela conferência do ex-Diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, Lawrence Summers, nos Governos de Bill Clinton e no atual, de Barack Obama. Sem, a rigor, apresentar grandes novidades Summers fez um histórico da situação econômica mundial, destacando a crise de 2008, o atual recrudescimento, as possibilidades de salvação dos Estados Unidos, o dilema da União Européia, que, segundo ele, com a indecisão dos governos locais pode arrastar o mundo para uma crise sem precedentes e, por fim, o papel das economias emergentes, principalmente o Brasil, ao qual atribuiu um importante papel, muito embora as necessidades de reformas, todas bem conhecidas, aqui em Pindorama, no dizer de Hugo Caldas.
Na seqüência dos trabalhos, os temas Regime Fiscal, Infraestrutura, Educação e Capacitação Profissional, Meio Ambiente e uma Agenda para a Competitividade Brasileira foram amplamente discutidos, por formadores de opinião, executivos da indústria, especialistas setoriais e representantes de governos, mediados pelos mais abalizados repórteres econômicos da TV brasileira.
Em meio aos debates, lembro bem de alguns pontos conclusivos e que merecem destaques: O Brasil é pouquíssimo competitivo comparado a 13 países diretamente concorrentes, devido a falta e custo da mão de obra capacitada, disponibilidade e alto custo do capital, infraestrutura e logística falhas, peso dos tributos e, claro, a debilidade dos setores da Educação e inovação tecnológica. Não vejo novidades nisso, mas, debatido naquele conjunto toma corpo e maior repercussão. No debate sobre as questões de infraestrutura e do meio ambiente a CNI, através do seu presidente, Robson Andrade, sugeriu mudanças nas regras de licenciamento das obras potencialmente não poluidoras, na tentativa de agilizar a melhoria da estrutura, sem o que a indústria brasileira perderá, cada vez mais, espaço no mercado mundializado.
O Governo Federal esteve representado por dois importantes ministros: Aluisio Mercadante, da Ciência e Tecnologia e Fernando Pimentel do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que deram seus recados oficiais, incensaram D. Dilma, e, em troca, receberam recados do empresariado.
Uma nota cômica num dos intervalos ficou por conta da charge viva, promovida pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), com uma figura patética denominada de Impostão: um cidadão caracterizado de gordão, alimentado por polpudos impostos cobrados pelos vários níveis de governo. Na cola dele um personal tranning insistia para ele praticasse exercícios de emagrecimento, entre os quais o desafiador das abdominais. Era uma pandega vê-lo embolar pelo chão. Vide foto. Após dois dias de trabalhos e debates restou a sensação de sucesso e a esperança de que bons resultados sejam colhidos. De parabéns a CNI, as federações de indústria e os sindicatos que são, no final das contas, suportes básicos do Sistema Indústria.


NOTA: A foto á da autoria do Blogueiro, que compôs a Comitiva do SIMMEPE e Fiepe, no Encontro.