quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

UMA QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA - Carnaval em Olinda

Temos acompanhado pela imprensa as notícias sobre a preocupação que vem tendo a Prefeitura de Olinda, com relação aos “mijões” que circulam na cidade alta, durante os dias de carnaval.

Conhecemos bem a situação deplorável que ficam algumas artérias da nossa cidade monumento nessas ocasiões. Naturalmente que se trata de uma séria questão sanitária e, pelas proporções que assume, uma questão de saúde pública. Não tem quem agüente a fedentina que se instala, porque, como se sabe, urina é cruel.

Por outro lado, ficamos constrangidos quanto ao atentado ao pudor que se verifica a luz do dia. É preciso ter cuidado – quando acompanhado da esposa, filha ou namorada – em escolher por onde transitar, para não se deparar com cenas de pura descontração e exibicionismo dos grupos de marmanjos, ao “tirar a água do joelho”. Não são dois ou três! São muitos de uma só vez.

Fala-se até que existem locais que já são consagrados pelos “apertados na bexiga” e recebem denominações do tipo Ladeira do Mijo. Não sei onde fica a tal ladeira, mas certamente deve ser uma artéria que, na realidade, tem um nome muito mais digno da nossa bela Olinda, patrimônio cultural da humanidade. Imaginamos as dificuldades dos moradores locais.

Numa recente visita que fizemos a Holanda, vimos, em Amsterdan, a solução que foi dada, no Red Light District, a zona do baixo meretrício local.

Atraídos pela forma de exposição – as famosas vitrines – e pelas facilidades oferecidas pelo “mercado”, levas de turistas circulam sem parar, sobretudo homens, tomando cervejas aos borbotões e, por isto mesmo, necessitando de urinar a toda hora. Como no carnaval de Olinda. A crescente corrente de visitantes levou o local a um verdadeiro caos. A solução encontrada, pelas autoridades sanitárias holandesas, foi de instalar espécies de mictórios públicos extremamente funcionais e devidamente ligados à rede sanitária da cidade. O aparato é simples e, sobretudo, prático.

Moldado em fiber-glass, em módulos de três postos, lembram muros – coisa que todo mijão procura – e, por isso mesmo, segredo do sucesso. De fácil higienização, com e irrigação e drenagem próprias, nem se compara com os tais de banheiros químicos usados aqui no Brasil, que são, de cara, fétidos e um atentado à saúde do usuário. Bilhões de bactérias, das mais “cabeludas”, vagam em cada um desses cubículos, inevitavelmente abafados pelo calor dos trópicos. Quando muito, e com restrições severas, poderiam continuar para usuárias do sexo feminino. Enquanto, é claro, não apareça alguma coisa mais funcional, segura e higiênica.

Outra vantagem desses mictórios holandeses é que, embora ao ar livre, pela sua conformação plástica, não expõem as genitálias dos mijões às senhoras e senhoritas que transitam na redondeza.

Vale à pena copiar este modelo. É uma idéia. Claro que depende da viabilidade econômica e da vantagem ou necessidade de instalá-los de forma permanente, como na Holanda. Lá, a estrutura urbana é outra, o nível educacional também e o fluxo de turista é durante o ano inteiro... Aqui é por temporada. Mas, reforçamos que, em termos de higiene e saúde pública não se compara com o que se usa atualmente, por aqui. Não custa nada tentar. Afinal, precisamos de coisas mais civilizadas.

Nota: A foto que ilustra a matéria é da nossa autoria e foi captada em Amsterdan, em 03/11/2007.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

REAL EM ALTA E EXPORTAÇÕES TAMBÉM


Falemos de economia, dessa vez. Pois é, tanto o Governo, como vários setores da economia comemoram o resultado das exportações de 2007. A comemoração tem sentido porque, ao contrário do que se especulava no inicio do ano – face as crescentes valorizações do Real diante do Dólar americano – as vendas ao exterior continuaram crescendo.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comercio Exterior – Mdic já publicou os resultados dando contas de que foram exportados US$ 160,6 bilhões em 2007. A meta do Governo era de US$ 155,0 Bilhões. Foi bom. Aliás, como também foi bom em 2006, quando as exportações somaram US$ 137,5 Bilhões, ultrapassando a meta do Governo que era de US$ 135,0 Bilhões. O negócio, então, tem sido melhor do que se espera.

É claro que, com o Dólar desvalorizado, houve uma entrada maior de produtos estrangeiros e as importações chegaram a marca dos US$ 120,6 Bilhões, influindo na balança comercial. Mas, essa coisa de balança pode ser assunto para outro dia.

Segundo os executivos do Ministério, estão crescendo as exportações de produtos básicos (agropecuários e minerais), os semi-manufaturados, aqueles saídos das siderurgias do aço e alumínio e os produtos químicos. Também crescem as exportações de material de transporte (incluindo aviões e automóveis) e o seleto grupo das máquinas, equipamentos e bens de capital. Ora, vivas! Estamos falando de produtos com maior valor agregado.

Este quadro, na verdade, revela algumas coisas interessantes: a) que o empresário brasileiro vem, aos poucos, pegando os macetes do mercado externo, abandonando, de uma vez por todas, a idéia de que o mercado interno, por si só, já satisfaz; b) que os mais competentes, já descobriram que com qualidade, preço e prazos seguros de entrega conquistam clientes estrangeiros, até os mais exigentes e c) que no mercado externo tem quem confie nos produtos brasileiros. Existem outras, mas, vamos ficar nestas três.

Outra coisa que vem sendo sublinhada é que regiões fora do pólo de São Paulo estão obtendo sucesso de vendas no exterior, tanto pela competência de oferecer um bom produto, quanto nas brechas abertas pela vigorosa onda de consumo e novos investimentos produtivos que se espalhou pelo planeta, nestes últimos anos.

Pernambuco, a propósito, vem demonstrando isto. Tradicional entreposto regional de importados, o estado teve, em 2007, um ano auspicioso nas vendas ao exterior. Foram negociados US$ 870,5 milhões. Sem dúvida, ainda é pouca coisa. Mas, lembrando os pífios resultados do passado, foram US$ 265,8 milhões de 1999, por exemplo, o que vemos hoje é um sucesso.

Claro que o açúcar garante seu histórico lugar na pauta, mas, outros itens – produtos do boom industrial local – estão chegando e conquistando posições de destaque, como, por exemplo, a resina PET que passou a ser produzida a partir de fevereiro de 2007, pela empresa M&G – Mossi & Ghisolf, instalada em Suape, e já marcou sua presença de forma efetiva na pauta de exportações estadual, contribuindo com US$ 52,8 milhões. E, promete aumentar.

Mesmo o Vale do São Francisco, cujas perspectivas não eram animadoras, terminou por dar uma boa contribuição. Foram exportados US$ 120,7 Milhões, em 2007, contra os US$ 92,0 milhões de 2006. Segundo José Gualberto de Almeida (Botticelli), presidente da Valexport, o clima ajudou, sobretudo para a uva que é mais sensível às variações do tempo, e a safra foi 20% maior do que no ano anterior. “Se o dólar tivesse segurado seu valor, a contribuição teria sido, ainda, maior”, lembra Gualberto. Que o tempo continue ajudando, porque é importante, também, sustentar os mercados conquistados, ainda que baixando um pouco os preços dos produtos.

Cabe então festejar porque, mesmo com um Real valorizado, as coisas avançam com sucesso, em níveis nacional e local.
Nota: A foto que ilustra a matéria é do Porto de Suape (PE).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

São Paulo: dois programas imperdíveis

Diferente da maioria, sou daqueles que têm São Paulo como um dos destinos favoritos. Gosto dessa cidade.

Chegar a capital paulista é sempre um grande prazer que experimento. Semana passada, repeti este prazer.
Tenho lá minhas razões afetivas, mas, é indiscutível que, sabendo aproveitar e não alimentando preconceitos, o visitante encontra, além do progresso que se expõe a primeira vista, uma estrutura urbana diferenciada, um ambiente cultural de primeira linha, uma invejável rede de restaurantes e um sem numero dos mais categorizados hotéis do Brasil, quiçá da América Latina. Sem esquecer o comércio fabuloso, os parques e teatros.

Para os turistas, duas coisas imperdíveis na Paulicéia de hoje: a primeira é uma visita ao Mercado Municipal e a outra é ao mais novo museu da cidade, o da Língua Portuguesa.

São duas atrações que valem à pena, desde os imponentes prédios que os abrigam até os seus conteúdos.

O Mercado Municipal, uma construção em estilo eclético, comum no inicio do século passado, de autoria do arquiteto Ramos de Azevedo, tendo como característica principal o uso de fachadas sóbrias, com colunas internas e externas, em estilos grego, jônico ou dórico. A concepção arquitetônica foi cuidadosa ao incluir telhas de vidros, clarabóias e vitrais, proporcionando uma perfeita iluminação natural. Mais conhecido por Mercado Central, foi inaugurado em 1932, período de efervescência política e época na qual São Paulo se mobilizava para se tornar a metrópole que é hoje.

Sábado pela manhã, este é o melhor programa para o turista. Uma vez no mercado e percorrido os inúmeros boxes de comercialização dos produtos chegados fresquinhos das hortas e pomares paulistas, a pedida é subir ao mezanino, onde estão os bares e restaurantes, apinhado de gente desde cedo, para, sem cerimônia e caprichando no popular paulistês, pedir “um chopes e dois pastel”. E, se o estomago aceitar, pedir o robusto e famoso sanduíche de mortadela (alguns pronunciam mordandela). Com chopes, também. Vale por um almoço.

Já o Museu da Língua Portuguesa, instalado na secular Estação da Luz, no coração da cidade, é, sem dúvida, um programa obrigatório, para brasileiros, portugueses e de cidadãos de outras nacionalidades. Vi até australianos encantados com o que se expõe, naquele espaço cultural.

Extremamente moderno, este Museu se notabiliza pela utilização da mais moderna tecnologia cibernética para alcançar seu propósito, isto é, mostrar de onde veio, como se desenvolveu e o que representa nos dias atuais o idioma que falamos. Definitivamente, não é um museu convencional. Ao invés disso, é luminoso, colorido, vibrante, interativo e, por tudo isto, surpreendente. Distribuído em três pisos, da velha e conservada estação, um dos quais com um acervo fixo e, os dois outros, com exposições temporárias.

Neste momento, aliás, o primeiro piso abriga uma mostra da obra de Gilberto Freyre. Peças históricas do antropólogo pernambucano são encontradas num lay-out igualmente moderno e extremamente atraente. A amostra vai até maio próximo. Para um pernambucano, é puro orgulho da terrinha.

Estão aí dois programas imperdíveis, para quem visita São Paulo.

Nota: A foto de cima é uma vista interna do mercado, a segunda é o suculento sanduiche de "mortandela" e a última foto é da Estação da Luz, onde se encontra o Museu da Lingua Prtuguesa.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

RECIFE: pouca luz e poucas cores no Natal

Há dias venho tentando me livrar da tentação de criticar a recente iluminação natalina do Recife. Mas, como os comentários se sucedem, por onde circulo, resolvi fazer algumas humildes observações.

Começo lembrando que, há muito tempo, nossa cidade não vem tendo a decoração que merece e que se considere bela. Diferente do passado, quando a cidade se enfeitava de maneira magistral – muita luz como o Natal exige – nos festejos de fim de ano. Augusto Lucena, enquanto prefeito da cidade, foi caprichoso neste item.

Ultimamente, a coisa tomou um rumo quase intolerável. Nos festejos passados, digo 2006-07, a coisa beirou a indecência. A Prefeitura gastou uma fortuna incalculável por tiras de papel metálico, azul e encarnado, amarradas às arvores da Avenida Agamenon Magalhães e chamou isso de decoração, acrescido do desplante de dizer que se referia à tradição do pastoril. Tenha paciência... E a sobra do dinheiro – que deve ter sido fantástica – foi parar nos bolsos de algum “tubarão”. O autor da idéia e da obra, segundo se comenta, fez um “pé-de-meia” para o resto da vida.

Quem não lembra dos anjos horrendos pendurados nos postes e que esperaram o carnaval, quando se transformaram em palhaços e pierrots? Isto foi em 2003 ou 2004. Francamente.

Nos recentes festejos, a Prefeitura chamou ao Recife um cidadão tido como o “Papa” da iluminação. Fala-se de um expert alemão. Já pensou? Nem me interesso saber do nome dele. Deve ter saído, também, com boa soma de Reais nas mãos. O resultado é muito discutível. Só se salva a iluminação das pontes. Justiça se faça. Mas, de resto... A Avenida Agamenon foi um fiasco. Os globos brancos e os sabres coloridos, outra vez lembrando pastoris, não empolgaram.

Acontece que, essa gente, não entende que decoração de Natal exige profusão de luzes e não essas coisas espaçadas que estão até agora sendo mostradas. Será que este alemão é alemão mesmo? Ou é um alemão paraguaio? Na Alemanha, as luzes são aos milhões de pontos, nessa época do ano. Mais perto de nós, em Gramado, no Rio Grande do Sul, a Prefeitura “dá um banho”, com um Natal de luzes e cores, que o visitante não esquece jamais. Aliás, gente, é atração turística. É negócio, dos bons, para aquela cidade gaúcha.

Estive, recentemente, na Holanda e voltei impressionado como, já em novembro, o País se achava iluminado – com propriedade – para o fim-do-ano.

Pois é. Pobre cidade do Recife, que, confiada a incompetentes decoradores, amarga sempre fins-de-ano, rigorosamente sombrios.

Nota: A foto que ilustra esta matéria é da Praça da Liberdade, Belo Horizonte, MG, colhida no Google Imagens

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Olha aí! O carnaval já chegou.




Nem bem saímos dos festejos natalinos e final de ano, já se ouvem os clarins de Momo pelos quatro cantos do Recife. O mesmo deve ocorrer em cidades carnavalescas, sobretudo no Rio e em Salvador.
Este ano vai ser diferente, o carnaval cai nos primeiros dias de fevereiro. Antes disso, impossível. Bom, por um lado, porque o ano brasileiro vai começar mais cedo e ruim, por outro, porque vai pegar o folião na ressaca do Natal e do Reveillon. E falo, principalmente, da ressaca financeira. A turma da folia vai ser apanhada sem a grana desejada no bolso, preocupada em pagar as dívidas contraídas com o Papai Noel de 2007.
Antigamente, se dizia que com dinheiro ou sem dinheiro se brincava o carnaval. Havia mesmo uma marchinha que enaltecia esta vantagem. Hoje, contudo, o carnaval virou um dos maiores negócios do ano. E, por isso, não se brinca sem dinheiro. Os apelos e imposições do comércio e organizadores da frevança são irresistíveis. O cidadão, por mais pobre que seja, não se atreve a cair na folia sem seus trocados no bolso e uma indumentária adequada.
Mais grave, porém, é constatar que esta comercialização da folia e os “bombardeios” dos trios elétricos, axé-music, samba carioca e outros ritmos alienígenas fizeram com que o carnaval de Pernambuco perdesse suas características mais marcantes.
Ultimamente, só se fala num tal de Carnaval Multicutural, que, se durar mais do que já dura, vai incutir uma nova forma de brincar o carnaval nas novas gerações. Permitindo afastamento das raízes culturais pernambucanas a coisa se constitui num verdadeiro absurdo. Não me conformo de ver, no sitio histórico do Recife Antigo, apresentações de bandas de rock e exibições de tangos, milongas e reggaes, deslumbrando a moçada. O frevo – nossa música maior – passa ao largo dessa galera, que, no máximo, admite um axé baiano. Que falta de visão cultural.
Ouvi dizer que essa denominação de Multicultural tem, somente, encarecido a promoção e, com isto, gerado renda para meia dúzia de interessados, sobretudo políticos que trabalham a base do Caixa 2. “Pagam-se” fortunas por artistas de fora – fala-se que Milton Nascimento vem fazer a abertura oficial do Carnaval 2008! Já pensou? E ele entende de carnaval de Pernambuco? – em detrimento dos valores da terra e, sobretudo, das agremiações carnavalescas locais. A estas, aliás, destinam míseros e simbólicos trocados de reais, que, sequer paga uma orquestra de seis componentes. As fantasias, dos componentes, são pobres e as fisionomias não conseguem esconder as faces sofridas de uma gente humilde, esquecida e fazendo uma figuração medíocre.

Mas, como ainda existem cabeças de bom-senso e responsabilidade cultural, uma coisa pode salvar nosso autentico carnaval, que é o crescimento dos chamados blocos líricos, na minha opinião, a melhor resposta pernambucana a esses ambiciosos inovadores multiculturais.
Falo de iniciativas como o Bloco da Saudade, segundo contam, inspirado no antigo e extinto Bloco das Flores, na esteira do qual vieram outros, tão autênticos quanto, que, a cada carnaval, enchem as ruas recifenses de poesia e músicas tiradas, geralmente, de bandas de pau e corda. Não fazem apelos maledicentes, letras com grosseiras segundas intenções. Fazem poesia e melodias. E, com isto, fazem também a diferença. É uma manifestação que traduz a alma de um povo, orgulhoso das suas tradições e que não precisa buscar lá fora novos ritmos e novas caras para fazer um grande carnaval.
Quando criança, ouvi falar, muitas vezes, que em Pernambuco se fazia o melhor carnaval do mundo. Turistas brasileiros e estrangeiros enchiam as ruas do Recife para ver Vassourinhas, Madeira do Rosarinho, Pás, Batutas de São José, Lavadeiras do Pina, Bola de Ouro e muitos outros. Bote muito nisso. Hoje muitas dessas agremiações desapareceram e algumas restantes já nem saem no carnaval, por falta de patrocínio e apoio governamental, além de provar que sem dinheiro não se brinca carnaval.
Na década de 60, Catarina Real, uma pesquisadora americana, baixou por aqui, deslumbrou-se com o nosso carnaval e mudou-se de “mala e cuia” para o Recife. Pesquisou e estudou o nosso jeito de festejar Momo. Fez disso uma cachaça. Divulgou e exaltou ao mundo o que se fazia por aqui. Não sei se ainda vive. Mas, sei que caiu no esquecimento.
É por tudo isto que está na hora de dar um basta nesse descaso com nossos valores culturais. Precisamos urgentemente restabelecer nosso autêntico carnaval, valorizando o frevo de rua e o frevo-canção, os blocos líricos, o maracatu, os caboclinhos, o papa-angu, a la ursa, entre outros. E o Governo precisa sair na frente.
E cuidado, porque o carnaval de Pernambuco não pode nunca seguir o modelo show-business dos carnavais de Salvador e do Rio. Ao invés disso, deve ser uma festa do povo, sem a necessidade de “valores” alienígenas. Nada de roqueiro ou sambista. Dançarinos de tango? Nem pensar! Idem para os axés baianos. Fiquemos somente com o frevo, o maracatu e as vozes dos nossos valorosos Claudinor Germano, Getúlio Cavalcanti, Alceu Valença, Lenine, André Rios entre outros. Tem coisa melhor? Acho que não!
Viva o autêntico carnaval de Pernambuco! E, atenção, não é nativismo!

sábado, 5 de janeiro de 2008

DUAS NOTICIAS: UMA ALARMANTE E OUTRA ESTABANADA

DUAS NOTICIAS: UMA ALARMANTE E OUTRA ESTABANADA

Nesta primeira semana do ano, em meio às notícias de retrospectiva do ano passado, balanço econômico, pacote tributário, tiroteio em Copacabana, acidentes no feriadão, resgates na Colômbia, o assassinato de Benazir Bhutto, os massacres no Oriente, entre muitas outras, duas chamaram-me especial atenção tanto pelas formas, quanto pelos conteúdos. Uma alarmante e outra estabanada.

1 - A noticia alarmante veio de Brasília, com um pronunciamento bombástico do senador Heráclito Fortes, integrante da Comissão de Relações Exteriores, dizendo que até julho a Venezuela invadirá a Colômbia.

Surpreso com esta afirmativa pus-me a imaginar o quadro: a Colômbia vem, há décadas, administrando seus conflitos internos, que penalizam uma nação dócil, um povo alegre e cheio de potencialidades. Conheço de perto o país e sua gente e sei o quanto é difícil viver sob a pressão imposta pelas Forças Armadas Revolucionária da Colômbia – FARC. Isto, sem falar dos famosos cartéis do tráfico de drogas, notadamente os de Cáli e o de Medellin que perturbaram durante anos aquele país andino.

Mais recentemente, entra em cena o aspirante a ditador da Venezuela, Hugo Chávez, se intrometendo na casa do vizinho – seu esporte favorito – e posando de “salvador da pátria”, para resgatar reféns nas mãos dos rebeldes, das FARC. A manobra do presidente da Venezuela não deu certo, já se sabe, mas, uma ilação pode ser tirada desse movimento: é mesmo possível que Chávez, que já vive às turras com o presidente colombiano, Álvaro Uribe, esteja disposto a apoiar, de modo efetivo, os revolucionários colombianos nas suas manobras e, com estes, projete, através de força armada, a tomada definitiva do poder, na Colômbia. Aliás, sinal preocupante foi divulgado, hoje, pela imprensa internacional de que as FARC anunciam uma ofensiva geral, alegando que o governo constituído anda desgastado e muitas unidades militares estão exaustas da peleja, oportunizando essa ofensiva.

Será que estamos, mesmo, às portas de um conflito entre nossos dois vizinhos? Temo que sim, sabendo que já alimentam uma rivalidade histórica e por isso podem, facilmente, se envolver numa luta sangrenta. Nada bom para ambos, assim como para a América Latina. Um conflito desse tipo coloca em risco o equilíbrio político-econômico do Continente com sérios comprometimentos para todos. O Governo Brasileiro precisa ficar atento e estudar formas de mediação, papel que muito facilmente lhe será confiado, numa eventual concretização do conflito.

2 - A notícia estabanada ficou por conta da explicação dada pelo Ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a quebra do compromisso do Presidente Lula, de não criar ou aumentar qualquer tipo de imposto, lançando o Pacote Tributário (aumento do IOF e da CSLL dos bancos), no primeiro dia útil do ano, para repor as perdas com o fim da CPMF. Pois, não é que o Ministro disse que “o acordo era válido, somente, até 2007!” Ou seja, rompido o ano de 2008 tudo volta a estaca zero. Pelo visto, em Brasília ou nas hostes petistas, o conceito de compromisso é bem diferente do restante do Brasil.

É claro que todo brasileiro – de sã consciência – sabia que viriam “pedradas” pela frente. Mas, explicada desse modo, virou uma coisa politicamente inconseqüente. Vá lá que, haja o consenso de que em política tudo é possível, mas, esta foi demais! É subestimar as consciência e dignidade do cidadão comum. Depois desta, qualquer outra do mesmo gênero, será aceita pelos brasileiros. Os tolos, é claro. Aliás, como só acontece. É a mesma coisa do tipo “relaxe e goze” de Marta Suplicy.

Aí, eu pergunto, como relaxar com um barulho deste?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Inflação chinesa pode repercutir no Brasil.

Uma amiga, depois de ler o Blog do GB, me pergunta como a inflação na China pode influenciar a economia internacional e do Brasil. Tentei explicar e ela achou difícil entender certos termos do “economês”. Trocando em miúdos, vou tentar explicar.

Quando eu falei de economia reflexa, no artigo postado semana passada, quis dizer que o que acontece no mundo afora pode influenciar de modo positivo ou negativo na economia de muitos países engajados no mercado internacional. E o Brasil é um bom exemplo dessa coisa.

Nas últimas três décadas a China revelou-se como uma economia em franca expansão, crescendo, por várias vezes, a taxas superiores a 10% ao ano, de forma sustentável, graças a decisão do Governo liderado por Deng Xiaoping (sucessor de MaoTsé Tung), a partir dos anos 80, que resolveu abrir a economia e investir, de forma agressiva, no mercado internacional. Para ele, mesmo mantendo os princípios e comando de um partido comunista, nenhum país pode sobreviver de maneira autárquica.

As mudanças adotadas foram de tão grande magnitude, que a economia chinesa de hoje ameaça as posições de liderança das tradicionais maiores do mundo, como Estados Unidos e Japão, puxada, sobretudo, pelo intenso crescimento da sua produção industrial e suas fantásticas vendas ao exterior.

Com uma mão-de-obra abundante e, o que é importante, de custo baixíssimo, o governo investiu maciçamente em educação, capacitação de recursos humanos, infra-estrutura e implantação de zonas especiais de produção e plataforma de exportações, transformando o país, numa das mais diversificadas economias industriais do planeta.

Estatísticas do Banco Mundial e de institutos nacionais de pesquisas apontam para números fantásticos da penetração dos produtos chineses em todos os mercados do mundo. No Brasil, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria – CNI, 52% das empresas brasileiras que atuam no mercado interno perderam espaço para as concorrentes chinesas. Ou seja, “dentro de casa” o empresário tupiniquim sofre com a concorrência chinesa. No mercado externo a coisa é um pouco mais dura, à medida que 58% das empresas brasileiras que participam do mercado internacional sofrem forte concorrência dos produtos chineses.

Para amenizar a situação, grande número de empresas do Brasil, a exemplo de outras espalhadas pelo mundo afora, se associaram a chineses ou estabeleceram filiais, dentro da China, para produzir a um custo substancialmente inferior e ganhar maiores condições de competir, tanto no mercado interno como no internacional.

Agora, porém, dada essa mudança radical, a China terminou por construir um novo padrão social e de consumo para o seu povo que vem gerando, inevitavelmente, uma pressão inflacionária de demanda interna. O governo ciente do fenômeno já vem adotando providencias político-econômicas para evitar danos ao seu programa de desenvolvimento.

Ora, se é verdade que se forma uma onda inflacionária na China, que repercute de modo direto nos custos da produção interna do país, é inexorável que venha ocorrer o repasse desses custos para os preços de mercado dos bens ali produzidos e que são vendidos no exterior, incluindo o Brasil.

Matérias primas básicas, como cimento e chapas de aço, componentes e produtos acabados eletro-eletrônicos, aparatos de informática, veículos automotores e seus componentes, tecidos, vestuários, calçados, bens de consumo durável, brinquedos, utensílios domésticos (quinquilharias) de vidro, plásticos e metal, papelaria e artefatos de papel e papelão, produtos químicos e fármacos, e um sem número de outros itens, hoje importados a preços competitivos, sofrerão aumentos que repercutirão no Brasil e no resto do mundo.

É esta a inflação que causa certo temor na atual conjuntura econômica mundial. Espero que, se de fato ocorrer, as conseqüências no Brasil sejam bem tênues e não atrapalhe a nossa estabilidade econômica.