quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A qualquer momento tudo pode mudar


Vez por outra aparece na minha página do Facebook ou pelo Whatsapp uma imagem de Ayrton Senna secundando uma das suas mais famosas frases nos lembrando de que “somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. Premonição? Quem sabe? Para ele que vivia em altas velocidades, fez disso sua forma de viver e, numa curva traiçoeira perdeu a vida, é inegável que deixa qualquer um de nós, pobres mortais,  diante da imagem do ídolo, meditando e tentando entender o mistério do futuro. O futuro que a Deus pertence e o amanhã que pode ser totalmente distinto do planejado.
Minha recente experiência, no campo da saúde, cai, como uma luva, nesse tipo de reflexão. Eu não tive uma curva traiçoeira e louvo a Deus todos os dias. Mas, tive um amanhã tortuoso. Meu programa era aproveitar o ultimo domingo de Outubro passado, em casa e com todos da família, após vários fins de semana fora, inclusive no exterior. Havia certa estafa de fazer e desfazer mala, entrar e sair de aviões. Aquele domingo seria um dia mais do que desejado.  Contudo, “por mais que você programe...”  fui surpreendido por estranha dor nas costas. Pela renitência e suando frio, pedi ajuda a minha esposa e demais familiares. Levado à emergência de um hospital, tive o diagnóstico de enfarte no miocárdio. Aquilo determinou “o momento” que mudou a minha programação. Não apenas para aquele domingo, mas, também para um bom período adiante. A partir dali vi-me refém de um programa que nunca antes havia sido desenhado. Dominado pela perplexidade, questionei: por que eu que sempre cuidei muito da saúde do meu coração? Exames periódicos normais, taxas controladas, disposição física e todos os sinais de plena saúde. Mas, Senna tinha razão... “a qualquer momento tudo pode mudar”. O amanhã será sempre outro dia, que pode surpreender o sujeito frágil e insignificante que é o ser humano.
No final das contas, meus meses de  novembro e dezembro passados se tornaram numa verdadeira “viagem” ao meu mundo interior, levando-me a experimentar outras emoções e, pra falar a verdade, alguns sofrimentos físicos.
A extensão do tratamento ao qual fui submetido passou por uma cirurgia cardíaca, aquela radical que abre o tórax e implanta “pontes” seguras de circulação sanguínea eficazes  restaurando o bom funcionamento da “máquina” propulsora. Embora sendo uma intervenção de grande porte e, como qualquer outra, conferindo riscos, terminei escapando e, agora, conto a história como ela foi.
Hoje, em franca recuperação, devo agradecer à equipe médica que me assistiu de modo competente e, inclusive, livrou-me de padecer de dores no pós-operatório, coisa que muito me surpreendeu. Sempre ouvi relatos de que a sensação era de que um “trem” havia passado sobre o tórax do paciente. Voltado do sono anestésico, na UTI, fiquei na expectativa da passagem do dito “trem”. Até agora ele não passou. Dor foi coisa que não senti. Por quê? Não sei ao certo. Atribuo à competência da equipe médica.
Para não dizer que não sofri alguns percalços, lembro-me, de cara, do “inferno” que se denomina UTI. Ingenuamente, sempre imaginei ser um lugar calmo, tranquilo, em permanente penumbra, onde o paciente recém-operado poderia se recuperar com placidez em ambiente de muito silêncio. Nada disso! Foram três dias de suplício. Acho até que sai pior do que entrei. Exausto, sem dormir e estressado com tudo que vi, critiquei e fui ignorado. Como se sentir confortável num local onde não se apagam as luzes, dia e noite, os assistentes não respeitam os enfermos e conversam em voz alta, dão gargalhadas, falam aos celulares abertamente e até cantarolam. Isto tudo num hospital referencia e de primeira linha num importante polo médico  regional. Ali, vi, mais uma vez, o Brasil sem preparo profissional, baixo nível educacional e onde respeito ao próximo é coisa que não existe. Dormir, num ambiente desses, que seria bom foi impossível, até mesmo porque – com razão –  foi-não-foi, aferiam minha pressão, administravam medicamentos, faziam RX e extraiam sangue para exames laboratoriais. Pense em ser acordado de um cochilo fortuito, as 03:30h da madrugada e ser convidado para tomar um banho! Além de dar um fora na enfermeira, tive vontade de rir. Parecia uma pegadinha... Motivo explicado: “vou largar as 06:00h e quero adiantar minhas  tarefas”. Outra coisa abominável: a vaidade das médicas de plantão chega ao cúmulo de obrigá-las a usar sapatos de saltos altos, que, dia e noite e toda hora, emitem aqueles característicos sons de toc-toc-toc que desespera qualquer paciente. Maldita vaidade... Eu teria outras criticas, entre as quais sobre  a alimentação servida – verdadeiras “gororobas” –  mas, vou deixar prá lá porque tem gosto prá tudo. Depende do paladar. Vi  gente devorar cada prato que a mim causava náuseas. Passei fome...
Quando saí do inferno da UTI foi o maior alivio. Ter as atenções e carinho da família num apartamento privativo veio como um lenitivo. 
Mas, o importante mesmo é realçar o resultado final dessa “viagem”, que foi bem sucedida. Acho bom, e muitas vezes engraçado,  escutar dizer que estou de coração zerado. Já começo a testar a máquina recondicionada e vejo que responde bem. Para aqueles que se vejam na emergência de empreender uma “viagem” igual que a minha, minhas palavras são  de encorajamento. Não sinta o chão afundar, como me ocorreu na primeira hora. Confie no seu cirurgião e não esqueça que isso ocorre de repente e, de repente, “tudo pode mudar” . Relaxe vá em frente e zere a máquina. Vale à pena.

NOTA: O Blogueiro passou por esta  intervenção cirúrgica em 23.11.15

Foto obtida no Facebook