segunda-feira, 31 de outubro de 2011

SABOR A TANGO

O pano sobe, a platéia se acomoda e um quinteto de cordas e bandoneon galvaniza, com um tango tradicional, o grande salão do Palazzo Rossini, na Calle Perón. Sabor a Tango é o titulo da cena-show que se segue. Dançarinos se envolvem em verdadeiros enroscados de pernas e braços, corpo inteiro, sugerindo atitudes libidinosas, somente possíveis quando bailando um tango. É um clima de puro frisson. Muito próprio para aquele gênero de música. Na verdade, quando bem executado, o tango traduz sensualidade, paixão, melancolia, exala cheiro de amor e sabor de volúpia. Por vezes, também pode "carregar nas tintas" com tons de ódio ou perfídia. É incrível como a coisa, que filtra pelos poros do interprete, se entranha nas mentes dos espectadores mais sensíveis. Haja emoção... Estou voltando de uma nova visita a Buenos Aires, que é um dos meus destinos favoritos. Desembarcar ali é sempre prazeroso. A cidade parece, mesmo, estar sempre a minha espera. Temos uma relação de intimidade antiga. A primeira vez foi nos tempos de juventude, depois de uma decepção amorosa. Naquela ocasião, os bons ares portenhos envolveram-me na forma de uma brisa amena de primavera, como a de agora, acalmando meu jovem e inquieto espírito ainda apaixonado. Voltei recuperado, prometendo retornar outras vezes. Assim ocorreu. Vi a cidade mudar e se modernizar. Vi governos arcaicos e oligárquicos, passeatas e revoltas, ditadura, pós-guerra e moedas diversas. Vi redemocratização e hiperinflação. Vi um povo sofrendo e mantendo a fleuma de uma sociedade acostumada ao fausto. O portenho é garboso e orgulhoso dos seus valores.
No show do Palazzo Rossini, na noite do sábado (22.10.2011), abri os arquivos da minha memória e relembrei momentos inesquecíveis. Saudosismo? Talvez! Como “recordar é viver”, recordei vivendo.
Na visita da semana passada, fugi do chamado micro-centro e hospedei-me num hotel em Puerto Madero, região da Costanera Sur, onde uma nova Buenos Aires se desenvolve e faz-nos respirar uma agradável onda de modernidade. Largas avenidas, passeios espaçosos e o binômio água/vegetação a emoldurar uma cidade estruturada à moda européia do inicio do século 20. Restaurantes de vanguarda, hotéis de luxo, centros comerciais e empresariais brotaram ao longo desses últimos vinte anos e hoje fazem a festa do visitante, entremeados de velhos guindastes do antigo porto, transformados em peças de museu a céu aberto.
A Argentina vem mudando e, aos poucos, se reorganiza para ocupar seu tradicional lugar de destaque nos quadros políticos, sociais e econômicos da América do Sul.
A propósito, cheguei a Buenos Aires ao final da campanha política para as eleições que ocorreram no domingo (23). Cristina Kirchner foi reeleita presidente da Republica. Uma vitória considerada inusitada, com percentual acima dos 53%, esmagando uma oposição visivelmente desorganizada, com vários candidatos e votações atomizadas, sem a menor chance de somar, o que quer que seja, para o atual quadro político do país.
Tentando mergulhar no clima das eleições, provoquei taxistas, balconistas, garçons e engraxate. Descobri um eleitorado dividido e com certa dose de perplexidade. Há muita insatisfação com a inflação em alta – gira em torno de 25% ao ano – e a conseqüente alta no custo de vida. Descobri também que a candidata Cristina Kirchner aproveitou bastante, segundo os meus interlocutores, a condição de viúva no poder. Nas minhas especulações, entendi que a viuvez parece ser uma condição que sugere compaixão na visão do argentino comum. E, quando capitalizado politicamente, é “mão na roda”. Tem sabor de tango!
Circulei bastante, durante o dia da eleição, a cata de testemunhar a festa nas ruas. Para minha surpresa, nenhum sinal de votação. Parecia um dia qualquer, um domingo como os de sempre. Na mais perfeita ordem, os eleitores foram aos comícios (assim são chamadas as secções eleitorais) e depois se entregaram ao lazer. A Lei Seca foi desobedecida nos quatros cantos de Buenos Aires. Tomei uns tantos Malbecs com meus amigos, sem qualquer percalço. Nada de manifestação pró ou contra A ou B. Nenhum papel de propaganda. Santinhos? Boca de urna? Nem pensar! Acho que soariam como coisas estranhas e sem sentido. Absolutamente nada. Uma coisa, digamos, sem graça, se comparada com um dia de eleições no Brasil. O comércio aberto e faturando sem parar. Fiquei em dúvidas se era, ou não, dia de eleições. Aqui ou acolá, muito poucas vezes, encontrei um sóbrio sinal, num cartaz ou grafitagem. Da oposição nem sinal. “Ah! A vitória de Cristina, antes da hora, tirou o entusiasmo da campanha e do eleitor!” Explicou o garçon do restaurante, garantindo não haver votado nela. No final da noite do dia 23 a Plaza de Mayo se encheu de eleitores, para comemorar. Se houve tango, não vi, mas vi outros ritmos latinos. Pela TV vi a vitoriosa Senhora Kirchner, de luto fechado, ensaiando seus passos no balcão da Casa Rosada, que agora está sempre feericamente iluminada, de cor rósea.
Antes do pano baixar, no Palazzo Rossini, deliciei-me com as composições de famosos como Hector Varela, Jorge Valdez e do magistral Astor Piazzola, entre outros. Ah! Não faltou o já tradicional “No llores por mi Argentina” tributo à Evita Perón. Muito sabor a tango.




Nota: Fotos da autoria do Blogueiro.

Se quiser saber mais sobre o Palazzo Rosini, clique em: www.saboratango.com.ar

sábado, 15 de outubro de 2011

Galinha dos Ovos de Ouro

Em setembro passado, muito antes do que se esperava, os impostômetros da vida brasileira acusaram o alcance da marca de 1,0 Trilhão de Reais arrecadados pelo Governo Federal, este ano. É uma fantástica soma de recursos financeiros que a Fazenda Nacional dispõe para, em troca, não retribuir como desejado ou como lhe compete. É uma galinha dos ovos de ouro! A cada ano que passa o brasileiro precisa trabalhar mais dias para pagar seus impostos. Pesquisas realizadas apontam que, no ano passado, foram necessários 148! São 4 meses e 29 dias trabalhando para cumprir as obrigações com o Fisco. Na década de 70, era de apenas 76 dias. E, naquela época, todo mundo reclamava. Quando e onde vamos parar? Pelo visto, nunca e em lugar incerto. Outro dia, num verdadeiro ato de bravura, acabaram com a CPMF. Insatisfeito o Governo não se cansa de lamentar e quer a todo custo reeditá-la. Acabar, nunca! Criar, sempre.
Nossos vizinhos argentinos e chilenos precisam trabalhar muito menos dias do que nós, para pagar seus impostos. Os primeiros gastam apenas 97 dias e os chilenos 92. A coisa no Brasil se equipara ao que ocorre em nações desenvolvidas como França (149 dias) e Suécia (185). Ocorre, porém, que o retorno aos contribuintes, nestes países, nem de longe se compara com o que se verifica aqui na Tropicaliente Terra Brasilis. Quem dera que tivéssemos os padrões de atenção à Saúde, Educação e Segurança que os suecos gozam. Quem dera, também, que a infra-estrutura brasileira seguisse o padrão francês. Nada disso! Nosso suado dinheirinho vai parar, muitas vezes, em lugares incertos e não sabidos. Quem tiver idéia do que significa 1 Trilhão de Reais (até o fim do ano pode chegar muitíssimo acima disso) pode imaginar o que poderíamos viver, fosse o Brasil um país sério e governado por homens honestos.
O Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário – IBPT vem estudando esse despautério da vida brasileira e revela dados assustadores: num estudo recente dá conta de que, desde a promulgação da Constituição Federal de 1998, foram editadas mais de 4,35 Milhões de normas. Não é engano, eu disse Milhões, porque isto está ali registrado. Dessas, 155.954 foram federais, 1.136.185 foram estaduais e 3.061.526 municipais. Desse total, 566.847 continuam vigentes e perturbando a vida de todos nós.
Segundo o estudo, 275.094, dessas normas, são tributárias. Indo à calculadora, conclui-se que desde Outubro de 1988, foram “fabricadas” 33 normas por dia. Melhor: 1,3 por hora. Não tem quem agüente.
Quer ver uma coisa? O mesmo IBPT publica, no seu site, um outro dado incrível: em 2010, os proprietários de veículos automotores recolheram a soma de R$ 21,0 Bilhões de Reais de IPVA, aos cofres estaduais. As Fontes dos dados foram o CONFAZ, o Denatran e IBGE. Pensando no sentido dessa cobrança, fácil se verifica que o retorno é uma lástima.
Abismado com tantos absurdos, não posso deixar de registrar um impressionante dado exposto no mesmo site do IBPT: as empresas brasileiras gastam cerca de R$ 43,0 Bilhões por ano, para manter funcionários, consultorias, sistemas e equipamentos para acompanhar a dinâmica movimentação – modificações, na verdade – da legislação brasileira. E, ai de quem não arcar com essa despesa, porque o resultado vem em forma de pesadas multas. É duro ser empresário neste país.
É ou não é uma galinha dos ovos de ouro?
NOTA: Imagem obtida no Google Imagens.
Se quiser saber mais coisas absurdas, acesse o IBPT através do Google.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

JOGO SEM FIM

Já notaram como neste país nunca se deixa de falar em eleições? Pode até ser igual, aí por fora... Mas, cá prá nós, isso aqui é uma compulsão. Nem bem termina um pleito, como o do ano passado, para eleger governador, senadores, deputados federais e estaduais já se falava, dia seguinte, nas eleições de 2012 e 2014. Quem seria candidato natural, quem iria se aventurar ou quem teria, ou não teria, chances de se candidatar. Inacreditável. Dizem que faz parte do jogo... Do jogo, minha gente. Como jogo e jogador, hoje em dia, goza de conceitos mais amplos, tudo bem!
Ocorre, porém, um detalhe desse jogo que vale à pena registrar: de dois em dois anos, o Brasil gasta cerca de R$ 704,0 milhões com a realização de eleições. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, o País gastou R$ 462,0 milhões nas últimas eleições apenas no lado operacional, com investimentos em equipamentos, transporte de urnas, impressão de cadastro de eleitores e relatórios de votação e alimentação para mesários. A este valor, some-se mais R$ 242,0 milhões de renuncia fiscal com a isenção de impostos concedidos às emissoras de rádio e TV que transmitiram o horário eleitoral. Com essa grana, o Governo Federal poderia construir 32 mil casas populares, mais 2.350 postos de saúde ou 3.520 quadras poliesportivas cobertas. Francamente, é um absurdo para um país cheio de carências sociais. Eleição unificada, a cada quatro anos, já seria de bom tamanho para esse... esse jogo! Pense na economia para os cofres públicos.
Agora, por exemplo, já se instalou o clima de eleições para 2012, embora falte um ano para a realização do pleito. É por essa e outras que o nosso eleitor se acha fazendo papel de palhaço. A grande maioria, sim. Estou tentando livrar minha pele, embora sem muito segurança...
Na prática, essa turma não faz outra coisa a não ser articular e fazer campanha para se eleger. E, nesse ambiente de eterna campanha, esquece de discutir e trabalhar pelo que, de fato, interessa ao eleitorado. São poucos, muitos poucos, que se mostram empenhados por resolver os problemas fundamentais da sociedade, entre os quais os da Saúde, da Segurança, da mobilidade urbana e da Educação. E, sendo poucos, já viu. Entra ano, sai ano, sai governo, entra outro e esses temas são sempre postos à margem. Viram retóricas de palanques, de dois em dois anos.
O Brasil não merece esta situação. Infelizmente, ou por sorte, vive aqui um povo manso e conformado com um estado de penúria e degradação social, onde o que impera é a insegurança, as doenças endêmicas, uma mobilidade prejudicada, uma Educação de base indigna e, para completar, um sistema eleitoral inadequado que privilegia o acesso de pessoas, em grande parte, desabilitadas para exercer qualquer dos cargos eletivos. É revoltante. Quem, porventura, mete os pés fora do país, volta decepcionado ao conferir os padrões social, infra-estrutural e político que se respira nesta Terra de Cabral. Imagine em que condições sócio-econômicas estaríamos, se tivéssemos um povo educado, qualificado tecnicamente, com saúde, empresários mais competitivos, juros civilizados, investimentos produtivos seguros, infra-estrutura de país grande e liderado por governantes éticos.
O eleitor (falo do orientado) já não agüenta mais de assistir essa estupidez. Já não tem mais condições de ver, por exemplo, seu representante votar secretamente num processo de julgamento de um deputado corrupto que, no final da sessão, ao invés de cassado, sai triunfante e com os louros da absolvição! Essas votações – por uma questão de ÉTICA – teriam que ser DECLARADAS. Queria ver como seria. Fico tiririca da vida de não saber como foi o voto do meu representante, digo, aquele no qual votei. Acho engraçado é que, nessas horas, como todos querem sair bonitinhos no filme, dizem que votaram pela condenação. Prá cima de mim...
Pois é, não se fala noutra coisa a não ser de eleições, ano após ano. Discutir os anseios da sociedade é coisa para o dia “são nunca”. Na hora da campanha preparam um discurso bem bolado – com ajuda de um marqueteiro, um neurolinguista, um maquiador/cabeleireiro, por vezes um pai-de-santo e, claro, um bando de asseclas gritando o “já ganhou”... – E ganha! A maioria não sabe o que fazer depois de eleito. E povo? Ah! Como dizia certo humorista, o povo é apenas um detalhe. É um jogo sem fim.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

domingo, 2 de outubro de 2011

Dolorosas Interrogações

Na semana passada comentei sobre a grande possibilidade de um novo ataque do dragão da inflação no Brasil. Claro que fiz isto de modo muito simplório, pensando no universo diversificado dos leitores deste Blog. Na prática, a coisa é muito mais complexa, exige uma analise mais profunda e com mais argumentos técnicos. Estou consciente disto.
Nesta semana, tive dificuldades de eleger um tema para meu “bate-papo” semanal, embora que, diante de pauta significativa. Ficou difícil fazer uma escolha.
Por fim, não tive saída, a não ser voltar, mais ou menos, à questão da semana passada, na medida em que os sinais emitidos pelos poderes públicos e os fatores exógenos confirmaram minhas preocupações.
O Brasil vai precisar de enérgicas medidas de políticas fiscais e monetárias para se safar dessa recidiva da crise de 2008. Os analistas brasileiros e estrangeiros dão seus recados de modo claro e garanten ser inexorável. Os daqui garantem que o país está sem as mesmas condições de três anos atrás e os lá de fora dão como certo uma profunda e inevitável recessão na Europa e garantem que nos Estados Unidos terão, facilmente, um retorno ao passado (falo de 2008). Isto é muito ruim para o mundo inteiro.
A Europa vai sofrer sérios percalços, tendo em vista as naturais dificuldades econômicas dos seus estados membros, sobretudo daqueles da Zona do Euro, da queda da produção industrial e da desaceleração do seu mercado interno. O desemprego já assume proporções alarmantes, na Espanha, em Portugal, na Grécia e agora, inclusive, na França, com manifestações e protestos a toda instante. No caso dos Estados Unidos a coisa não se apresenta, ainda, tão grave, mas será inevitável. O Governo Obama está em meio ao desafio de segurar a barra, sem muito espaço de manobra. A taxa de juros está tendendo a zero sem, contudo, oferecer os resultados esperados e os gastos públicos – como no Brasil – vem a ser um calcanhar de Aquiles. E, o pior, uma eleição pela frente, na qual ele pretende se reeleger. Com este elemento adicional, a situação por lá tem forte conteúdo político.
Os emergentes – China, Brasil, Rússia, Índia e México – não estarão imunes à situação internacional. A China, inclusive, que vem ao longo dos últimos anos disparada, na corrida do crescimento econômico, média de 10%, pode, sim, sofrer algumas surpresas. Analistas de jornais norte-americanos fizeram, estes últimos dias, uma previsão de que a taxa do gigante oriental pode cair, até, pela metade. Acho meio difícil... Isto será um choque para eles, salvo se programarem medidas que possam aumentar o consumo interno, que tem, aliás, uma imensa margem de manobra. E a explicação passa, é claro, pelo fato de que Estados Unidos e Europa são os maiores clientes dos chineses. Em recessão vão reduzir consideravelmente as compras chinesas. Mas, não podemos esquecer que no regime político chinês cabe toda sorte de solução. De repente...
No Brasil, onde o regime político é outro – graças a Deus – a coisa pode ser enfrentada com mais dificuldades. Uma saída pode ser a retomada da estratégia de ampliação do consumo interno que pode proporcionar algum resultado. Nada como no caso chinês, mas, ainda, com algum bom espaço, muito embora a altíssima taxa de juros praticada. A maior do mundo. Por outro lado e outra vez, a redução severa dos gastos públicos, tantas vezes apontada como remédio, poderá também ajudar. E, por fim, olho aberto no cambio. Ainda dependemos muito de compras no exterior. São inúmeros os itens que precisamos comprar lá fora, para atender simples demandas da população, como por exemplo, o pão. Isto, pão feito com trigo importado. Nesse quadro de Dólar apreciado, como hoje, a inflação pode voltar. É nisso que o dragão está atento e que foi meu tema da semana passada.
Ah! É verdade que, no sentido contrário, poderemos lucrar com as vendas das nossas commodities para o exterior. Mas, teremos compradores num mundo em crise? Será que os chineses vão precisar do nosso minério de ferro nas mesmas quantidades de hoje? E a soja? E o suco de laranja? A carne e tantos outros itens? Dolorosas interrogações.


NOTA: Foto e ilustração obtidas no Google Imagens