sexta-feira, 30 de maio de 2008

SAN MARINO – República da Liberdade (Pé no Mundo Serie 2 No. 4)

Cidade-Estado, pincipado, países minúsculos, sempre exerceram muito fascínio na minha cabeça de viajante. Para quem vive num país de dimensões continentais, como o Brasil, percorrer um outro em poucos minutos ou num par de horas é, sem dúvidas, uma experiência pouco comum. É o que sinto, por exemplo, ao entrar no Vaticano ou em Mônaco. Ou quando passei pelo Liechtenstein e Andorra.
Movido por esse tipo de interesse, não tive dúvidas de visitar, nesta minha última viagem à Itália, a República de San Marino. Um enclave no território italiano.
A trajetória entre Bolonha e Rimini, na costa do Mar Adriático, Leste da Itália, foi vencida em mais ou menos uma hora, num confortável trem Inter-City. Dali até San Marino foi um salto. Num moderno ônibus de linha, que parte da frente da estação ferroviária italiana, o visitante alcança a mais antiga república da Europa, a República de San Marino.
O país, encravado no território italiano, entre as províncias da Emília-Romana e Marche, tem apenas 60 km², divididos entre nove municípios – o que corresponde a nove castelos – esparramados sobre o Monte Titano, de cima do qual se avista o país inteiro.
Segundo a história, na verdade é uma lenda, San Marino foi fundado no Século IV, por um eremita, com um grupo de seguidores, que se afastaram no monte, fugindo de perseguições. Desde o século XII o país tem uma sólida estrutura política, baseada num estatuto, transformado na atual Constituição, capaz de suportar crises provocadas por forças endógenas e exógenas.
No século XVI foi ocupado por César Bórgia. Várias vezes os Estados Pontifícios tentaram anexar a república. Quando Napoleão invadiu a Itália respeitou a independência da republica e ainda propôs a ampliação do território. Isto foi no final do Século XVIII. Após as guerras napoleônicas, em 1815, o Congresso de Viena reconheceu a soberania do País.
Durante o século passado problemas políticos envolvendo membros dos partidos comunistas e socialistas impuseram várias crises, sem que qualquer dessas pusesse em risco a autonomia da velha república.
Mas, deixando a história de lado, minha experiência atesta que percorrer San Marino é uma das mais interessantes visitas do gênero. Não suplanta, é verdade, a beleza de Mônaco, mas é, no seu todo, um conjunto de castelos parecidos com os dos contos de fada ou tirados dos filmes de Walt Disney. As ruas são estreitas e repletas de arcadas e sólidas construções de pedra e cal. Lojas, bares e restaurantes preenchem esses espaços, fazendo a alegria do visitante e mantendo a base econômica local. Como se trata de uma zona de livre comércio, tudo que se comercializa por lá é, mais ou menos, 40% mais barato do que na Itália, ali bem juntinho. Ao lado disso, a paisagem que se descortina do alto, com Mar Adriático ao fundo e as belas construções locais, compõe um mix dos mais atrativos para o turista.
O ônibus que faz linha internacional, entre a Republica e Rimini, não tem como chegar ao topo do Titano e, por isso, a partir de certo ponto um teleférico transporta as pessoas até o centro da Vila San Marino, lugar central do País. Preferi subir, aos poucos e a pé, valendo-me de ladeiras e escadas, parando aqui e acolá, examinando lojas e degustando bebidas ou petiscos oferecidos nas casas comerciais, até atingir o alto do Monte.
Do alto do monte, pude dizer que vi uma republica por inteiro, num abrir e fechar de olhos, com uma paisagem que, no Brasil, costuma-se dizer ser parecida com um presépio.
Naturalmente que tudo aquilo tem um que de Itália. No idioma, na gastronomia, nas manifestações artísticas e no modo de ser, o samarinês se espelha no italiano, preservando, contudo, sua independência e sua história secular de liberdade.
Giuseppe Garibaldi, O Homem dos Dois Mundos, depois de lutar pela liberdade no Sul do Brasil, Uruguai e durante as lutas pela unificação da Itália, se exilou em San Marino. Encontrei por lá, em praça pública, uma placa em mármore assinalando o agradecimento de Garibaldi pela acolhida recebida.
Na entrada do país um grande portal sustenta um letreiro que diz “Bem-Vindo a Terra da Liberdade”. Isto, indiscutivelmente, transmite uma sensação de bem-estar.
As fotos e clip desta matéria - da autoria do Blogueiro - ilustram a descrição deste singular país.
Clique abaixo e sinta a sensação de um passeio relâmpago em San Marino. Duvido que não sinta vontade de arrumar a maleta e ir até lá. Boa Viagem!


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terça-feira, 27 de maio de 2008

VERONA, ALÉM DE ROMEU E JULIETA (Pé no Mundo – Serie 2, No. 3)

A primeira coisa que Verona lembra é o fato de ser o cenário da peça dramática "Romeu e Julieta", imortal obra de William Shakespeare. A cidade, de algum modo, faz disso um forte apelo turístico e importante suporte de comércio.
Como turista é, muitas vezes, bicho besta e cede aos apelos, por mais piegas que seja, Verona deita e rola em cima dos visitantes. Eu me incluo nesse grupo de babacas, digo logo. Por exemplo: entrei numa fila, confesso, para tirar uma foto afagando o peito de uma estátua de bronze, somente porque a dita cuja lembra a personagem de Julieta.
Afagar o peito desgastado daquela estátua, pensando depois, é um detalhe totalmente dispensável, diante da beleza daquele lugar. Caindo em mim, verifiquei que melhor, que esse afago metálico e frio, é admirar a casa que segundo dizem foi onde viveu a jovem apaixonada, da obra de Shakespeare. Uma construção medieval das mais belas da cidade. Por bom tempo, fiquei ali olhando cada ângulo da construção, cada porta e janela e as sacadas – incluindo a do quarto de, com todo respeito, Juju (Vide foto a seguir), de onde ela acenava para seu “príncipe encantado” – outro local, aliás, disputado para uma foto. Esse casarão, uma vila na verdade, fantástico é certamente um prefeito exemplo do conjunto arquitetônico da cidade.
Verona, situada na Província do Vêneto, é uma coisa belíssima. Caminhar pelas suas ruas históricas, entrando pela Piazza Bra, e enveredando pelas vias que nela nascem é, na prática, entrar num mundo que começou a ser construído há muito mais de 2000 anos, pelos Celtas e depois pelos romanos que chegaram por lá no ano 89 da Era Cristã. Nessa época a cidade tinha o nome Augusta.
Somente em 1866 é que Verona foi incorporada ao Reino da Itália, depois da Terceira Guerra de Independência Italiana. A cidade foi, durante muito tempo, o principal centro artístico do país, rivalizando com Florença, por ter uma importante escola pictórica, na qual se destacou o pintor Paolo Veronese. Percorrendo a cidade encontram-se nas fachadas de muitas construções medievais afrescos de rara beleza, até hoje preservados pelo patrimônio histórico, como aqueles da Praça Delle Erbe. (Vide foto ao lado)
Mas, partindo da citada Piazza Bra, a primeira coisa que se avista é o imponente Anfiteatro Romano (Arena de Verona, que lembra o Coliseu de Roma) onde são levadas durante o anual Festival de Verão, grandes óperas, monumentais concertos e exibições fantásticas dos Pavarottis da vida. Quem tiver oportunidade de passar por lá, numa dessas ocasiões, gostando do gênero, vai certamente assistir ao espetáculo inesquecível da vida. Para a próxima temporada, que começa em junho entrante, vi anunciadas, num grande cartaz: Aida, Tosca, Nabbuco, Carmem, Rigoletto e, para fechar a temporada, a apresentação de Gala de Romeu e Julieta, no mês de agosto. Deu vontade de ficar esperando na praça o espetáculo começar e só sair de lá quando apagassem os últimos refletores.
Passada a Arena, a rua mais movimentada que nasce na praça, a Via Giuseppe Mazzini, surge num canto, de portas abertas, com um convite irrecusável para o visitante entrar. Este, aliás, é o caminho que leva à Via Cappello, onde morava Julieta. Haja turista nessa rota. Ali se ouve toda sorte de idiomas, circulam pessoas de todas as raças e hordas de ambulantes abordam os visitantes sem cerimônia. São engraçadas, embora de gosto duvidoso, as figuras caracterizadas com trajes de época que vendem a imagem para uma foto com o turista, a Euros 5,00 por cada clik da câmera. E tem gente que dá o maior valor por uma foto com uma dessas.
Nessa Via Mazzini se concentram as mais sofisticadas casas de comércio da cidade. Negócios de grifes famosas e tudo de altíssimo luxo. É preciso ter muitos Euros na carteira para encarar qualquer daqueles balcões. As vitrines enchem a vista, até mesmo do cidadão mais resistente ao consumismo. É que, o negócio é pura tentação... E, como sempre na Itália, bom gosto indiscutível.
Uma visita ao Centro Histórico de Verona termina quase sempre na Piazza delle Erbe, diante do Pallazo Maffei e a dois passos do Palazzo della Ragione com uma escada famosa, na qual todo visitante posa para a posteridade.
O rio Adige corta a cidade e sobre este, anexo ao Castelo Vecchio, passa uma ponte de rara beleza, datada do tempo dos romanos. Vale à pena uma esticada até lá.
Nem precisava registrar, mas, é bom saber que em Verona come-se muito bem, também. Lá servem uma pizza de massa robusta, típica da região. Não me agrada, mas tem gente devorando as porções como se estivesse comendo a melhor pizza do mundo ou nunca esteve em São Paulo. Nessa visita, comi uma lazanha deliciosa, (parecida, aliás, com a da Dom Gennaro, aqui do Recife), com um vinho da região.
Valeu, meu domingo, 18 de maio de 2008, em Verona.

Nota: Fotos do Blogueiro.





sexta-feira, 23 de maio de 2008

BOLONHA – Cenário em Terracota (Pé no Mundo Serie 2 No. 2)

É interessante como as cidades italianas parecem ter, cada uma delas, características arquitetônicas bem próprias. Umas têm avenidas largas, outras muitas fontes e jardins, outra brota no meio das águas, como é o caso de Veneza, algumas, da época medieval, são enclausuradas em altíssimas muralhas, com casinhas de pedra e cal e muitas outras são pequenininhas esparramadas sobre montanhas, como as que vi na passagem pela Toscana. Estas, aliás, vistas de longe, mais parecem miniaturas ou casinhas de brinquedo.
Bolonha, capital da Região da Emilia-Romana, onde passei seis dias, é uma cidade monumental, importante centro econômico e cultural, localizada no meio do caminho entre Roma e Milão, as maiores cidades italianas. É ainda um importante parque industrial e foi sempre uma grande encruzilhada comercial, desde que conquistada pelos romanos no ano 187 AC. Já são, portanto, quase 2200 anos de história e cultura.
Ao longo dos tempos, Bolonha construiu uma cultura própria e, no meio disto, um estilo arquitetônico muito próprio. É austero e caracterizado por galerias e arcadas, que, domina toda a cidade. Ao todo, são 37 km de galerias e arcadas. É algo notável. Engraçado, guardando as proporções e com a licença dos italianos, a Avenida Guararapes, no Recife, é formada de edifícios com galerias, quem sabe inspiradas nas de Bolonha.
Nessa especial arquitetura bolonhesa, o que mais chama a atenção é que todos os prédios comerciais, residenciais, palácios, templos e edifícios, seja qual for o seu fim são pintados na cor terracota, com pequenas variações de tonalidade. É muito interessante. O centro histórico da cidade tem um primoroso conjunto arquitetônico, diferente de qualquer outra importante cidade italiana. São ruas e ruas, sempre com arcadas e galerias, em tons terracota. Como não existe poluição visual, como no Brasil, a beleza plástica das construções seculares reina absoluta e enche a vista do visitante. Em dia de sol o contraste da terracota com o celeste azul do céu é algo notável.
Outra característica, desse cenário, são as torres que fazem a fama e a história da cidade. Conta-se que na Idade Média ocorreu uma grande disputa entre os magnatas da cidade para ver quem construía a torre mais alta. Arrojo e ousadia, para aquele tempo. Quanto mais alta era a torre, mais rica e poderosa era a família proprietária. Assim, surgiram mais de 100 grandes torres, espalhadas pela cidade.
Hoje, a maioria já desapareceu. Restam no máximo 20. As mais famosas e procuradas pelos que visitam a cidade, estão localizadas no centro histórico e pertenceram às famílias Garisenda e Asinelli. Um detalhe interessante é que esta última, que prometia ser a mais alta, não chegou a ser concluída por sofrer uma perigosa inclinação, ameaçando desabar. Até hoje está lá, inclinada como a de Pisa, no ponto da interrupção, fazendo história e tomando conta da cidade com a vizinha Garisenda, mais alta e imponente.
Além das suas características arquitetônicas, Bolonha tem muitos outros atrativos. A cidade é sede da mais antiga universidade européia. Dizem, até, que do mundo. Segundo alguns pesquisadores o termo universidade nasceu em Bolonha.
Pela tradição e alto conceito uma vaga por lá é disputadíssima, por estudantes do mundo inteiro. A afluência é tão grande que se estima ser formado por jovens estudantes, um terço da população local.
Por isto, a cidade é um lugar de intensa alegria, cheio de vida, bares e intensa vida noturna. E, claro, uma cidade cosmopolita.
Outra importante particularidade de Bolonha é a gastronomia, tida como a mais sofisticada da Itália. Come-se muito bem e em qualquer lugar da cidade. As pastas, naturalmente, são as melhores e mais famosas do país. Os tortellini e tortollones pegam o visitante pela boca, deixando-os com gostos inesquecíveis. Os tortellini in brodo (espécie de sopa), al ragu (a bolonhesa) ou al funghi (champions do bosque), são pedidas obrigatórias. Isto, sem falar dos espaguetes, tagliateles, pizzas e lasagnas. Ah! Como entrada o fromagio (queijo) parmegiano temperado com gotas de aceto balsâmico cremoso ou uma boa talhada do prociuto (presunto) de Parma.
Como segundo prato, uma boa pedida pode ser uma vitela ao forno com batatas coradas.
São coisas inesquecíveis.
E, para regar essas iguarias, um bom vinho nacional a base da uva Sangiovesi, que cai muito bem. Para quem gosta de vinho frisante a pedida é um Lambrusco, que é uma especialidade da Região.
Depois, é só curtir devagar para aprender e não esquecer as coisas da Emilia-Romagna.
Por todas essas atrações Bolonha é conhecida por la dolce vita.
Embora não seja uma cidade incluída no roteiro comum do turista brasileiro, Bolonha deve ser descoberta e explorada, pela sua história e seu clima cultural.
Nota: Fotos do Blogueiro, que viajou a Itália em Missão Empresarial do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado de Pernambuco - SIMMEPE, no periodo 11 a 20 de maio de 2008.

Outros artigos correlatos são encontrados em www.gbrazileiro.blogspot.com




quarta-feira, 21 de maio de 2008

PRIMAVERA EM ROMA (Pé no Mundo, Serie 2 – No. 1)

É primavera no Hemisfério Norte. Na Europa é, certamente, a estação mais esperada do ano. E, quando isto acontece, uma verdadeira explosão de flores, colore o continente.
Por sorte, estive os últimos dez dias na Itália. Como na maioria das vezes por motivo de trabalho, coordenando uma Missão Empresarial, de pernambucanos, a busca de oportunidades de negócios com o mundo externo, numa feira industrial na cidade de Bolonha, Província da Emília Romana.
Desta vez encontrando um clima mais ameno do que o de novembro passado, na Holanda, quando tive que suportar forte frio.
Antes de Bolonha, porém, uma passada por Roma, que na primavera se transforma numa festa ainda maior do que noutras horas do ano. O clima é agradabilíssimo neste meio de maio e a cidade, como sempre, está repleta de turista.
Com uma tarde de domingo disponível e uma brecha na agenda de trabalho, houve tempo para rever a cidade eterna. A cidade com o especial nome de AMOR, quando lido de trás para frente: Roma – amoR.
Meu hotel, embora situado numa zona tumultuada – próximo a Estação Termini , a grande estação terminal de todos os modais, no centro de Roma e a maior da Europa – tem a vantagem de estar a poucos passos do sitio histórico da cidade.
Saindo da Piazza Cinquecento, diante da estação, o visitante se livra de uma área poluída, cheia de camelôs (acho que tem, inclusive, roupas baratas da Sulanca), desocupados, imigrantes africanos, romenos e albaneses, ciganos, punks e outros mais, o visitante alcança a bela Piazza de la Republica, adentrando na Roma histórica e cheia de charme italiano. Prédios seculares de belíssimas linhas arquitetônicas, palácios, largas avenidas, ruas curtinhas e apertadas, vicolos (vielas) aconchegantes e infindáveis vias históricas, recheadas de monumentos, ruínas preservadas e muitas fontes. Percorrer Roma equivale a um mergulho na história da humanidade.
As ruínas da sede do Império Romano, por exemplo, formam um sitio histórico impar. Dependendo dos conhecimentos de historia e da capacidade imaginativa do visitante, o cidadão é capaz de “vislumbrar” Brutus assassinando com 23 punhaladas seu pai adotivo, o poderoso Imperador Caio Julio César, entre as colunas do Senado Romano. Amante da história antiga, como é meu caso, e ajudado pelas imagens produzidas pelo milagre do cinema, mergulho nessas ocasiões, de corpo e alma, nessa “viagem” ao passado. Mais do que isto, emociono-me. No que resta daquele conjunto histórico, passo entre as ruínas do Palácio Imperial e, mais alguns metros, chego às ruínas do Coliseu, passando por baixo do Arco de Tito Lívio.
No que restou do Coliseu, outra vez sou capaz de retroceder no tempo, através da mente e lembrando o filme “O Gladiador”, e tenho a visão da Roma Imperial, quando o Anfiteatro del Colosseo era o palco dos grandes espetáculos oferecido ao povo, pelo Imperador de plantão. Esses espetáculos equivaliam ao do futebol e das touradas dos tempos modernos. Com um detalhe: tudo terminava com muito sangue derramado. O Coliseu, nos seus tempos de glória, tinha capacidade para receber até 65 mil espectadores. Cinco dos quais, de pé. Quase a capacidade do nosso Maracanã.
O que hoje se encontra é o que restou após a queda do Império Romano e de um terremoto no século 14. Com a derrocada do Império, Roma passou a ser governada pela Igreja Católica Romana, tendo os substitutos de São Pedro, isto é, os Papas, como máximos mandatários. Uma das primeiras providências dos novos governantes, foi arrancar, por inteiro, o mármore travertino que revestia o Coliseu usando-o nos revestimentos das basílicas, igrejas e palácios monumentais que construíram e até hoje existentes. Por trás disso, uma razão óbvia era: destruir o palco onde milhares de cristãos perseguidos foram sacrificados por feras enfurecidas e famintas. Sem dúvidas, o Coliseu foi um fantástico monumento arquitetônico daquela época. Os engenheiros romanos foram formidáveis. Os mecanismos da construção ainda estão por lá às vistas do visitante. Diante daquelas ruínas, imaginei o louco do Nero (interpretado na tela do cinema pelo ator inglês Peter Ustnov) com o polegar para baixo, condenando um gladiador mais fraco ou ordenando soltar as feras para devorar os cristãos perseguidos.
Voltando à realidade, percebi pequeninas flores amarelas brotando do nada e nas pedras brutas das ruínas do velho anfiteatro, para afiançar a primavera reinante. Lembro que comecei falando de primavera e de flores.
Ainda tive tempo de dar uma passada pelo Circo Máximo, outro ícone do apogeu da Roma Imperial, também em ruínas, onde experimentei a sensação de imaginar Ben Hur – encarnado na tela do cinema por Charlton Heston, num filme excepcional que conquistou 11 Oscars – pilotando sua fantástica carroça e ganhando a Fórmula 1 da sua época. Bravo!
Noutra volta pela cidade eterna, fui rever dois outros pontos de Roma, igualmente importantes para o visitante: a Fontana de Trevi – a famosa Fonte dos Desejos – e a Piazza di Spagna.
Na fonte, cumpri, mais uma vez nesta vida, o ritual de jogar uma moedinha e sonhar com um breve retorno. Na Piazza contemplei a Igreja da Trinitá dei Monte e a famosa escadaria apinhada de turista.
Tomando o rumo da Piazza Navona, uma paradinha na praça do Panteón, contemplei uma Roma, no fim de semana, cheia de vida e beleza com os cafés e restaurante apinhados de uma gente elegante, sendo observada pela plebe turística que não pára de passar. E eu, no meio desta... no estilo “tô nem aí..” admirando cada quadrante da cidade e achando tudo bom demais.
Cansado da caminhada, fiz uma pausa para degustar um sorvete já nos domínios da Piazza Navona. Os gellati italianos são os melhores do mundo. É, aliás, uma invenção italiana e, naquele cenário, ficou ainda mais saboroso. Escolhi o sabor tiramissu, meu preferido na Itália.
A Praça Navona (grande nave, em italiano), foi no passado outro centro de exibições romanas e mercado, é também ponto obrigatório do visitante. Outro dia vou falar sobre ela, até porque a praça tem um especial significado para nós brasileiros, por abrigar uma das mais belas Embaixadas com o pendão verde-amarelo.
Todo este percurso foi feito a pé, que é a forma ideal para explorar Roma.
No final de tudo, mesmo com os pés reclamando muito, a sensação de prazer e sentir o aRoma de Roma com seu eterno festival de bom-gosto e muito charme. Cada esquina um restaurante ou um café com flores na entrada ou numa janela/vitrine. Bares pergulados com luxuriante verde e vasos com os tradicionais pés de louro, dando mais aconchego aos comensais. E, claro, muitas flores.
É muito bom visitar uma cidade sem a costumeira “selva de pedra”, de muitas metrópoles mundo afora e onde se respira história. Uma cidade que é um museu a céu aberto e que oferece prazer aos cinco sentidos.
Vivo, ou melhor, Viva esta Primavera de 2008, em Roma. Uma benedeta Dolce Vita. Arrivedeci!
Nota: Nas próximas postagens, da serie Pé no Mundo 2, falarei de outros pontos que visitei na Itália no período 11 a 20 de maio.
As fotos são da autoria do blogueiro.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

FALTA AMOR NO MEIO DO MUNDO.

Impossível não acompanhar ou comentar esses dois casos monstruosos, que fazem a mídia do Brasil e do mundo, esses últimos 30 dias: o assassinato de Isabela Nardoni e o horripilante caso do austríaco que manteve a filha e três filhos incestuosos em cativeiro num porão, da própria casa, durante 24 anos!
Sou pai apaixonado pelos meus três filhos, dois dos quais, na realidade, meus enteados, vivendo comigo desde tenra idade e, por isso mesmo, tidos como filhos verdadeiros. Não saberia viver sem eles. Já são adultos, formados, os mais velhos casados e o mais novo bem encaminhado. Não sei do que seria capaz numa situação de risco para qualquer dos três.
Imbuído desse pensamento e do papel de pai, fico impressionadíssimo com esses dois casos absurdos.
Como pode um pai se juntar a uma madrasta, matar a filha e arremessá-la prédio abaixo? E um outro, violentar uma filha com onze anos, tempos depois trancafiá-la no porão de casa, fazer sete filhos-netos nela e viver como se nada estivesse acontecendo, inclusive curtindo a vida e variando de parceiras nas férias tailandesas.
Por vezes, fiquei sem acreditar que o tal Alexandre Nardoni houvesse mesmo assassinado a filhinha meiga e indefesa. Lendo a crônica da Professora Amparo Caridade, no Jornal do Comércio, do Recife, sábado passado, fiquei – mais uma vez – comovido com a presumida situação que antecedeu a morte da garota. Aquele “pára pai, pára...” ouvido por alguém, nos arredores da cena do crime, ecoam ininterruptamente na mente de todo e qualquer cidadão de sã consciência. Nem precisa ser pai. Não precisa ser um pai extremado. Basta ser humano.
Intrigado, questiono: o que pode passar pela cabeça de um pai que comete tamanha barbaridade? Que tipo de desespero leva a uma atitude tão extrema? Que tipo de ameaça poderia representar aquela criaturinha, para esse pai desalmado? E, que força maligna pode ter a tal Anna Carolina Jatobá sobre este homem a ponto se levá-lo a essa loucura? Teria tido tempo de antever as conseqüências? Pensou no que estava fazendo? Pensou nos outros dois filhinhos? O que será dessas duas crianças, no futuro? O que dizer, de convincente, para eles? Perguntas. Muitas perguntas sem respostas. Pelo menos agora.
Tão estarrecedor quanto o Caso Nardoni, descoberto simultaneamente, é o do austríaco Josef Fritzl, um louco sádico, que manteve a filha, Elizabeth, no porão de segurança da própria casa, como sua escrava sexual durante inacreditáveis 24 anos. Mais do que isto, fez 7 filhos/netos na filha escravizada. Torrou, no incinerador do lixo, um natimorto! Que horror!
E, para este caso, outras perguntas me ocorrem: como pode um pai cometer tamanha barbaridade? Que tipo de trauma de infância pode guardar esse individuo? Como pode sete, oito, quatro, três, sei lá quantos, seres humanos sobreviver, sem ver a luz do sol, nos subterrâneos de uma mesma casa, onde o algoz desfruta de uma vida abastada e plena de regalias, no plano de cima? Como, durante tanto tempo, esse monstro pode enganar a todos? Como trazer ao mundo sete crianças, sem assistência médica antes, durante e depois do parto? Como criar esses seres? Como esse bandido entrava e saia – sem ser visto – desse esconderijo? E que tipo de mulher é essa mãe de Elizabeth, esposa do monstro? E esses três filhos que foram deixados, como abandonados pela mãe, na porta da mansão, o que dirão disso tudo? Será que nunca passou pela cabeça desse monstro, a possibilidade da sua própria morte acidental, repentina – nunca se sabe – deixando essas criaturas do cativeiro abandonadas para sempre?
Além de louco, maníaco incestuoso e sádico, este sujeito deve ser possuidor de uma mente terrivelmente má e diabólica. Aos 73 anos, ele vem encarando a policia austríaca com aparente tranqüilidade e olhar, lógico, de desequilibrado metal, surpreendendo o mundo.
Quanta barbaridade. Que mundo é este, meu Deus? Onde está o erro dessa sociedade do século 21? Que teremos no futuro? Onde está a dignidade humana?
Falta amor no meio do mundo!


Nota: A foto que ilustra a materia foi colhida no Google Imagens, arquivo "Boneca Quebrada"