quarta-feira, 22 de abril de 2009

Se correr o bicho pega, se ficar o bispo come!

Tenho acompanhado essa história do bispo/presidente do Paraguai, Fernando Lugo, que teve de assumir publicamente, semana passada, a paternidade de uma criança de dois anos de idade, fruto de uma aventura amorosa com uma jovem correligionária e, logo a seguir, na última segunda feira, enfrentar a aparição de mais um filhinho, que vivia encoberto e já com seis aninhos. Êita bicho bom de cantada... Acho que na volta dele é: “se correr o bicho pega, se ficar o bispo come”. Bom de papo, bom de cama e de comícios. Derrubou uma oligarquia de 36 anos. É mole...
A situação do Papá Lugo não teria nenhuma repercussão se o cara não fosse um sacerdote, bispo licenciado da Igreja Católica paraguaia e, por cima, o Presidente da República. Nessas circunstancias a coisa é grave e, como não poderia deixar de ser, o bicho pegou o bispo.
Vejam que situação vexatória: o homem é bispo (da Província de San Pedro) e passa ferro na fiel que foi pedir ajuda para solucionar um problema que tinha com o ex-companheiro, do qual havia engravidado e dado à luz a uma menina. Foi em busca de solução e arranjou mais encrenca. O resultado da “conversa” e do “conselho” do pastor foi outro bucho, que desembuchado recebeu o bíblico nome de Lucas. O garoto recebeu assistência financeira de Papá Lugo até que completou os dois anos de idade, quando caiu no esquecimento de papito que, agora, nem atende ao telefone da mãe do garoto e, por conta disso, e vingança pesada da mulher seduzida, se vê em palpos de aranha para explicar ao mundo essa outra travessura de alcova. Ela vive na pobreza, vende detergente caseiro nas portas da periferia de Cuidad del Este, fronteira com Foz do Iguaçu, no Brasil.
É isto aí gente. Estamos diante de mais um, entre os milhares, dos casos de sacerdotes católicos que não conseguem respeitar as regras rígidas do celibato.
Esta história vem de longe. Desde o Século V que a coisa rola, sem que, contudo, tenha sido seguida de maneira rígida. Muitíssimo depois, somente no Século XVI, que no Concílio de Trento (1545-1563) estabeleceu-se definitivamente o celibato sacerdotal obrigatório. Na ocasião a Igreja de Roma teve que tomar atitudes severas para acabar com a gandaia que reinava entre os seus sacerdotes. Descobri nas minhas pesquisas que, antes disso, durante certo Concilio em Costanza(não encontrei a data), na Alemanha, 700 prostitutas foram convocadas para atender sexualmente aos bispos ali reunidos. Assim... naturalmente, sem que houvesse qualquer tipo de restrição ou condenação. Numa nice... Outra coisa que estimulou a decisão de Trento foi a clara intenção de dar uma resposta à recente Reforma Protestante que permitia, e, inclusive, promovia os casamentos dos seus sacerdotes. Quer saber mais? Clique, por exemplo, em: http://forum.cifraclub.terra.com.br/forum/11/120170/ . Vale à pena uma espiada.
O celibato é uma grande hipocrisia e tem sido constantemente combatido e discutido nos concílios ou encontros similares da Igreja Católica, sem que haja algum progresso, não obstante os inúmeros movimentos católicos de renovação em defesa da sua abolição. Bento XVI, o atual papa, já deu seu veredicto sobre o assunto: o celibato é necessário. Que jeito...
O resultado dessa posição radical e retrógrada está explodindo, a cada dia e nos quatro cantos do mundo, através dos Lugos irresponsáveis, por pervertidos sexuais que molestam menores, ou ainda nos escândalos homossexuais intra-muros dos mosteiros e conventos católicos. Incluindo as freirinhas. É. Elas são bem danadinhas, também.
Estudei em colégios dirigidos por padres e irmãos católicos e lembro das figuras que, visivelmente, negavam ao mandamento do celibato. Muitos tiveram a coragem de largar as batinas, casar e constituir famílias. Outros continuavam na “clandestinidade” e outros mais eram homossexuais, cujas peripécias eram comentadas “a boca miúda” pela estudantada fofoqueira e reprimida da época. Pense na fuxicada dos corredores.
Na verdade, deve ser muito difícil para o sacerdote ou uma freira – um ser comum, de carne, osso e sistema nervoso – viver podado dos fortes instintos sexuais. É o tipo da coisa incontrolável. Imagine o seminarista, jovem e indefeso, no explodir dos hormônios da juventude, ver-se obrigado a “segurar a barra”. Coitado... Não tem saída. E o pior: na dúvida e na hora do “pega pra capar” ou dá ou desce. Imagino que deve imperar a lei do mais forte, num tipo de “guerra é guerra...” Uma lástima. Haja hipocrisia.
A meu ver, isso devia ser visto de modo mais atual. A Igreja Católica ganharia muitíssimo com uma mudança dessa regra obsoleta. O mundo mudou e a Igreja congelou!
Seria tão mais fácil flexibilizar aos poucos, restringindo o celibato aos voluntários e, quem sabe, aos aspirantes a cargos mais graduados (cônegos, bispos, arcebispos, cardeais, papa). Quem não tivesse essas aspirações poderia fazer sua vidinha particular, constituir suas famílias e verem-se livres das manobras escusas de alcovas, das condenações e ser um bom sacerdote. Isto reduziria muitíssimo os escândalos de seduções "donjuanescas", pedofilia, homossexualismo, orgias monásticas e qualquer tipo de peripécias sexuais. Como conseqüência positiva, aumentaria as vocações sacerdotais e faria nascer uma Igreja mais humana. E, por esse caminho, Lugo não estaria nessas dificuldades, que já põem em risco sua trajetória política de imenso significado histórico para o Paraguai. Não condeno o bispo. Ele pode ser, até, um mau caráter! Mas foi humano.
Notas: 1. Eu sou católico! 2. A charge foi colhida no Google Imagens

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Uma Questão de Ótica

Estou no meio de uma semana com uma agenda pesada. Quase sem tempo para o Blog, embora que assuntos não faltem. De todo modo, ocorre-me, hoje, comentar uma coisa que acho interessante: o choque de enfoques entre O Caminho das Índias x Quem quer ser milionário?
Algumas ocasiões, quando chego a tempo em casa, acompanhando minha esposa, me posto diante da televisão e assisto ao folhetim das oito, da TV Globo. Fico admirado com a exuberância e qualidade da produção, além de fazer idéia do investimento pesado da emissora, que se revela competente, entre outras coisas, na riqueza do cenário, guarda-roupa e locações deslumbrantes. Os atores são excelentes, embora que sem caras de indianos, salvo a protagonista, que tem biótipo próprio para o caso. Mas, minha bronca maior é que, no final das contas, mostra uma Índia, a meu ver, muito artificial. Quase irreal. A exuberância dos ambientes mostrados e os costumes retratados na novela, segundo alguns críticos, inclusive indianos radicados no Brasil, transmitem imagens de um passado remoto indiano. Parece que a coisa já é bem diferente.
A divisão social em castas, ainda pode existir, principalmente no interior, mas, nas grandes cidades, a sociedade mudou bastante, devido ao desenvolvimento econômico, a integração do país ao mundo globalizado, que, aliás, o coloca entre aqueles que estão prestes a fazer parte do clube das potências econômicas modernas, junto com China, Rússia e Brasil. Os quatro, juntos, formam o denominado bloco econômico do BRIC, uma referencia às iniciais dos nomes destes quatro países.
Por sorte, e para que tenhamos a chance de saber melhor sobre a realidade indiana, chegou às telas dos cinemas brasileiros o filme Quem quer ser milionário?, o qual tive o maior interesse de assistir, recentemente. Premiada com o Oscar de melhor filme, a produção de Bollywood (a Hollywood indiana, situada em Bombay, atual Mumbai) retrata, de modo mais realista, uma Índia atualizada e mais verdadeira.
A Índia é um país rico em tradições, história e cultura milenar e, certamente, o lugar do planeta onde o misticismo é mais intenso. Destino de meio mundo que deseja se purificar e repensar a vida nos inúmeros ashrans (centros de meditação e recolhimento liderado por um guru) (vide foto ao lado)espalhados pelo seu território, sempre rodeados de uma pobreza sem fim e difícil de ser exterminada.
O filme em questão revela uma nação divida e pontilhado de miséria cruel, como cruelmente foi mostrada a pobreza degradante e real existente no Brasil, em filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite e Carandiru.
Faça o caminho das Índias, com Juliana Paes, se encante com a superprodução global, mas não deixe de assistir a luta pela sobrevivência dos personagens Jamal e Latika, no filme indiano, premiado com oito estatuetas do Oscar.
Nota: Fotos do Google Imagens

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Antigamente, era muito diferente...

Antigamente, era muito diferente... a gente já deixava de ir a escola na 4ª. Feira, ninguém trabalhava, o comércio fechava, porque a partir do meio dia, já começava o retiro espiritual da semana santa. Dali em diante até a sexta feira, outro sinal muito efetivo vinha pelas ondas dos rádios – então muito prestigiados – que só colocavam no ar músicas clássicas e que todo mundo chamava de música fúnebre. Fazia-se um silencio no meio do mundo, que chamava a atenção de nós, meninos irrequietos, loucos que passasse aquela época tão monótona. Claro! Não se podia cantar, gritar ou fazer algazarras. Arengar com um irmão, seria um pecado mortal.
Paralelamente, a minha casa era invadida pelo cheiro do pescado e do bacalhau que era consumido durante três dias. Para acompanhar havia o feijão e o arroz de coco, verdadeiras delícias, completados pelo o bredo, ao molho de coco, também. Naquela época eu não era muito fã de peixe. Achava insuportável ter que fazer a abstinência de carnes vermelhas por três dias seguidos. Era um sacrifício.
Certas horas, havia o capitulo de ir à Igreja. Lembro da cerimônia do lava-pés, da celebração relembrando a instituição da eucaristia e da procissão do Senhor morto. Beatas choravam, com o terço na mão e beijavam o Cristo na cruz. Era um clima de puro féretro.

Apesar da austeridade exigida, havia duas coisas bem profanas e divertidas, que terminavam quebrando o clima pesado do retiro: a noite do serra-velho, acho que na 4ª. Feira e a da malhação do Judas, na 6ª. Feira. Não estou muito seguro desses dias. A primeira até hoje não entendi. Escolhiam um cidadão ou uma cidadã de muita idade e, de modo geral, antipatizado pela comunidade e simulavam sua morte. Munidos de um serrote, roçando numa lata velha, produzindo um barulho desagradável, alta madrugada e, na porta da vitima, tratavam de fazer um inventário e “distribuição” dos bens do “morto” entre os promotores da provocação. Tinha nego que ficava tiririca e reagia, muitas vezes, a fogo. Quando a arma cuspia balas, os “herdeiros” corriam com os pés nas costas. Quanto a história do Judas, lembro que escolhiam um cidadão, malquisto pela comunidade, para ser “julgado”, em praça publica, através da figura de um boneco em tamanho natural. Era a maior desfeita. Os promotores da malhação, muitas vezes, conseguiam, nunca se sabe como, algumas peças de roupas do cara, produziam um boneco recheado de trapos e folhas de bananeira (eu ajudei a fazer um) e penduravam num poste, bem debaixo da luz pública. O sujeito quando via aquele boneco com suas próprias roupas, era capaz de se suicidar. No fim da noite o boneco, digo o Judas, era derrubado e surrado aos gritos da cambada. Neste caso, estava claro, que se fazia uma relação com a figura do Judas, o traidor de Cristo.
Quando, finalmente, chegava o sábado havia uma explosão de alegria. As rádios, em vez de musica fúnebre, atacavam de frevos e marchinhas de sucesso do último carnaval. Os clubes sociais promoviam os chamados bailes de aleluia. Era o maior carnaval do mundo, numa única noite. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou!
Hoje é tudo muito diferente. Católico de nascença, fico meio desconcertado, quando vejo a programação dos dias da semana santa dos meus filhos, dos filhos dos meus amigos e dos próprios amigos. Definitivamente, acabaram com o clima de retiro e respeito à Paixão de Cristo.
No lugar das chamadas músicas fúnebres, a programação das rádios não muda em nada e se ouvem as costumeiras batidas do rock, os pagodes e sambas, ou coisas parecidas. Nas estâncias de férias, promovem-se monumentais festivais de músicas, nos quais a moçada se esbalda e extravasa seus instintos mais obscenos. Pra começar, as bandas, vejam só, levam nomes muito esquisitos, tais como Biquíni Cavadão, Garota Safada e Calcinha Preta, entre outros. Isto não casa com nada de bom senso, principalmente o religioso. Pense pular ao som da banda de Ivete Sangalo, em plena noite da 6ª. Feira Santa. E comer churrasco de picanha no meio da festa! Acontece, sim. Não é um horror? Se minhas avós, por um milagre que fosse, voltassem ao mundo dos vivos, davam uma marcha à ré e, fazendo o sinal da cruz, deitavam e morriam, outra vez. Eu nem choraria. Conformado, entendia que não lhes restava outra coisa.
Não! Não é saudosismo, nem beatice, nem falso moralismo. É desconforto espiritual. Acho que um retirozinho, uma pausa para meditar, pode fazer muito bem a essa juventude inquieta de hoje.

Nota: Fotos do Google Imagens