terça-feira, 25 de março de 2008

DOIS DESAFIOS PARA UM BRASIL

Dois assuntos me ocorrem comentar nesta ocasião. Ambos de fundamental importância para o futuro sócio-econômico do País.
O primeiro diz respeito a atual política social assistencialista praticada pelo Governo Brasileiro, ao distribuir renda através do programa Bolsa Família, que reúne sob um “guarda-chuva”, os anteriores Bolsa Escola, Auxilio-Gás, Bolsa Alimentação e Cartão Alimentação. Lula juntou tudo através de uma Medida Provisória, que virou a Lei No. 2.836, de 09.01.2004, sob a égide do Fome Zero.
Lembro que, desde o primeiro momento, aplaudi o Bolsa Escola, de FHC, à medida que, promovendo a manutenção de crianças numa escola de ensino básico, tirava, da rua e do trabalho forçado, contingentes de menores, muitos com menos de 10 anos de idade.
O Bolsa Família assiste dois tipos de família: a primeira, que vive em extrema pobreza e a ela é garantido um fixo de R$ 50,00, mais um móvel de R$ 15,00, por filho na escola, limitado ao número de três, perfazendo, assim, um total de R$ 95,00 e, a segunda, que tem renda per capita mensal inferior a R$ 100,00, com crianças em idade escolar (6 a 15 anos) e garanta que essas crianças estejam freqüentando uma escola, para a qual é concedida uma ajuda de R$ 15,00 por criança estudando, com o limite, também, de R$ 45,00, isto é, três crianças por família.
De fato, com essa injeção de renda, muitas crianças saíram da rua ou do trabalho forçado, na roça ou na cidade, e recebem uma formação escolar básica. Isto é uma indiscutível vitória. O valor doado, per capita, pode parecer pouco, mas o que mais surpreende é que, segundo apurado, essas crianças ganhavam nos biscates ou trabalhos forçados, de antes, qualquer coisa a menos. Coitadas, eram duplamente exploradas: cassadas do direito de cidadania, conferida pela educação, e ganhando recompensas financeiras aviltadas.
Se por um lado, esses programas assistencialistas têm méritos indiscutíveis e marcam administrações voltadas para o social, por outro lado apontam para situações cruciais para qualquer futuro governante.
Pesquisas e avaliações mostram que os condicionantes para a concessão ou manutenção da Bolsa Família, têm se revelado ainda insuficiente para a formação, a longo prazo, de um cidadão economicamente independente. Eric Maskin, Nobel de Economia, em entrevista a Veja desta semana, faz um alerta para os riscos desse tipo de assistencialismo.
Ocorre que, se essa bolsa pode ser pouco para ajudar no sustento de uma família numa cidade como o Recife, é suficiente para a manutenção de uma família na área rural. Com essa quantia no bolso e sua roçinha particular de subsistência, o cidadão do interior passa muito bem obrigado, ao ponto de não buscar emprego – que começa a sobrar – fazendo, digamos, “corpo mole” para não perder o beneficio do Bolsa Família. É isto, exatamente, que vem acontecendo nas regiões do Agreste e Sertão do São Francisco de Pernambuco, onde empresários se ressentem da falta de mão-de-obra.
Dias atrás, ouvi falar numa modificação quanto à limitação do tempo de concessão da Bolsa. Não conheço, ainda, os detalhes. Mas, é preciso que isto aconteça. Caso contrário vamos formar uma sociedade viciada na dependência – na prática, parasita – num caminho de difícil retorno. O governante que ousar rever ou acabar com o Programa, vai provocar uma explosão de protestos, sem precedentes e socialmente perigoso. Eis aí um desafio colossal.


Mudando para o segundo assunto, refiro-me a outro tema divulgado na Veja desta semana, que expõe, de modo lamentável, a ausência de cientistas ou pesquisadores nas empresas privadas brasileiras. A Universidade de Brasília - UNB publicou um interessante dado sobre o assunto. A maior parte dos cientistas dos paises ricos trabalha nas empresas privadas. No Brasil, é o inverso. Eles se fecham, na maior parte, nas Universidades Federais e são mantidos com dinheiro público.
Há muito tempo ouço falar das dificuldades que são enfrentadas pelos que tentam construir uma relação Universidade-Empresa. As entidades disso encarregadas estão sempre às voltas com obstáculos muitas vezes intransponíveis. Na prática, existe uma cultura difícil de ser mudada. Pesquisadores acomodados enclausuram-se nos laboratórios das universidades, vibram com suas descobertas e deixam de socializá-las ou vendê-las no mercado, perdendo as chances de se projetar profissionalmente e contribuir para o progresso do país.
Ao mesmo tempo, empresários sem a devida sensibilidade de criar, nas respectivas empresas, departamentos de pesquisa e inovação, deixam de contratar especialistas para ampliar as chances de melhoria ou diversificação da produção, descobrimento de novos produtos e aumento da competitividade, num mundo cada vez mais exigente.
Fecha-se, portanto, um círculo vicioso, cujo resultado é um imenso prejuízo para o desenvolvimento do país.
Ilustrando a coisa, destaco alguns dados da citada pesquisa da UNB: 80% dos cientistas norte-americanos trabalham nas empresas privadas. No Brasil este percentual é de somente 27%. Lá, apenas 13% se encontram nas Universidades. Aqui, o percentual é de 66%. Muito alto. Estes cientistas têm que sair da clausura dos laboratórios acadêmicos e ganhar o mundo empresarial, dando uma chance ao pragmatismo.
Países que antes sofriam dessa paralisia acadêmica, reagem e se mostram mais atentos ao problema. A Coréia do Sul, por exemplo, já ostenta percentuais bem próximos aos dos Estados Unidos. Lá, segundo a mesma UNB, são 77% dos cientistas atuando nas empresas e apenas 16% nas academias. Vá conferir o progresso dos sul-coreanos.
Eis aí, dois desafios para o Brasil. Aguardemos o que vai acontecer.
Nota: As fotos foram obtidas no Google Imagens

terça-feira, 18 de março de 2008

Origens de uma Paixão

Todo ano é a mesma coisa. Quando chega a Semana Santa e abre-se a temporada das paixões de Cristo, em Pernambuco, multiplicam-se as noticias e crônicas sobre esta ou aquela produção, particularmente sobre o pioneiro espetáculo de Fazenda Nova, no considerado maior teatro ao ar livre do mundo, em Nova Jerusalém.
Neste caso, as versões têm tido, na minha opinião, altos e baixos.
Nesses baixos, os cronistas terminam por negar ou, apenas, citam en passant, o nome de Epaminondas Mendonça, como idealizador, escamoteando passagens da rica historia, uma verdadeira saga, do Clã dos Mendonça, ao qual pertenço, com muito orgulho.
Falo de uma história que não pode ser negada à sociedade pernambucana.
Sofro ao ver, paulatinamente, ser apagado dos registros da mídia, a original história do espetáculo de Fazenda Nova, empurrada, cada vez mais, no “baú do esquecimento”.
Antes de qualquer coisa – e por uma questão de lisura – devo registrar minha admiração pelo fantástico idealismo, perseverança e fibra de Plínio Pacheco ao fazer brotar nas áridas terras de Fazenda Nova a majestosa obra que é Nova Jerusalém. Sem aquilo lá, a velha Paixão de Fazenda Nova não seria viável. Não teria chances nas ruas do Distrito. E, certamente, Fazenda Nova nada seria.
Acontece que, antes de Plínio Pacheco aparecer pelos costados da Serra do Cachorro, se apaixonar pela minha tia Diva Mendonça, roubá-la (naquela época, isso era comum e emocionante) jovem e linda, para casar, voltar e assumir aquele fantástico projeto, Fazenda Nova já tinha seu clima de paixão instalado e uma indiscutível vocação para o que depois aconteceu.
Desde os anos 30, a casa da família Mendonça era um verdadeiro laboratório teatral, onde se forjavam – artesanal e ingenuamente, mas, com imenso amor à arte – cenas teatrais únicas, naquele meio de mundo agreste e isolado. Passagens da história do Brasil ou da chamada História Sagrada eram motivos de enredo de peças e esquetes, levados a um público que afluía dos sítios, fazendas e pés de serra, para assistir atento o que atores, sempre de sobrenome Mendonça, comunicavam num modesto palco. Era uma escrava açoitada, no dia 13 de maio, ou um bizarro D. Pedro, sem cavalo e sem riacho Ipiranga, a bradar Independência ou Morte, todo sete de setembro, ou o Martírio de Santa Filomena. Cenas perdidas no tempo que não parou e preservadas, apenas, nas poucas memórias vivas. Delicioso e emocionante, além de pedagógico, para um povo carente, sofredor, esquecido e analfabeto, que, por uma ablução de sorte, terminou sendo educado através de cenas teatrais.
Foi neste laboratório liderado pela matriarca, D. Sebastiana Mendonça, minha avó materna, secundada pelos seus filhos e filhas, que nasceu o chamado, à época, Drama do Calvário.
Conversando, um dia desses, com minha tia Nair Mendonça Travassos, a primeira atriz a desempenhar o papel de Maria, mãe de Jesus Cristo, emocionei-me ao escutar seus relatos sobre o nascer dessa Paixão: Epaminondas Mendonça, meu avô, chefe do Clã, leu, no início dos anos 50, uma reportagem sobre certo espetáculo da Paixão de Cristo, em Oberamergau, na Alemanha [1], provocando um alvoroço no laboratório teatral caseiro, para o qual ele dava pouco crédito, absorto muito mais nas lides políticas, um tipo de paixão que lhe trazia mais aprazimento do que o teatro.
Nair e Luís Mendonça – este logo assumindo o papel do primeiro Cristo, a ser “cravado” na cruz de Fazenda Nova – filhos de Epaminondas e Sebastiana, encasquetaram e não pensavam noutra coisa a não ser escrever, produzir e executar uma grande produção teatral, a qual logo deram o título de Drama do Calvário. Rigorosamente, foram eles dois os “pais” desta obra, que orgulha Pernambuco e o Brasil. Puro idealismo, indiscutivelmente, tão grande, quanto o de Plínio Pacheco, dez ou quinze anos depois, ao abraçar a construção de Nova Jerusalém. O que eles bolaram naqueles primórdios, justiça se faça, foi de importância fundamental para o que se tem hoje.
Aos dois foi se juntando o restante da família e, claro, D. Sebastiana – mulher de opinião firme, enérgica nas atitudes e cheia de criatividade teatral – rápido tomou para si a missão de arregimentar novos atores, meios e condições para transformar as idéias em pura realidade. Virou, digamos, diretora do espetáculo e, de cara, enfrentou as resistências do velho Epaminondas, temeroso com os custos da produção e, por isso mesmo, nomeado, por ela, produtor do Drama. Nascia, então, a Paixão de Cristo de Fazenda Nova, com nomes desconhecidos do grande público, entre os quais Paulo, Geni, Diva, José, Marly e Ilva e quase todos os outros Mendonça, da época, inclusive o próprio Epaminondas, que fez o papel de Caifás, no primeiro espetáculo, atuando, ainda, como contra-regra. Outros atores foram mobilizados no Recife e em Caruaru. Além, é bom lembrar, dos figurantes convocados na região.
Falar, hoje, do sucesso da empreitada é totalmente desnecessário e indiscutível. Quando vejo o que agora acontece – sob a competente batuta de Robinson Pacheco, filho de Diva e Plinio – recordo com desvelo os pioneiros que já partiram para a eternidade. É para eles que, a meu ver, vem faltando o justo preito de gratidão! Um povo sem memória é um povo sem história. Por isso, Ave César! no palco de Pilatos, loas à pirotecnia da ressurreição e aplausos aos astros globais, mas sem esquecer, jamais, os apaixonados pioneiros.

Fotos: Paixão de Cristo atual e meu avô, Epaminondas, dias antes de falecer em 1970, colhida no Google Imagens

[1] Em Oberamergau a Paixão é encenada, em imenso teatro, a cada dez anos, e serve para cumprir uma promessa feita no século XIX pelos habitantes da região ao se livrarem de uma peste que arrasava imensos contingentes populacionais da Europa. Em 1975, fui recebido pelos produtores locais, no próprio teatro da Paixão, que já colecionavam documentos jornalísticos falando da Paixão de Fazenda Nova.

quarta-feira, 12 de março de 2008

ESCRAVAS DO SÉCULO 21

Uma coisa que sempre chama muita atenção, nos quatro cantos do mundo, são os preços dos produtos Made in China. É impressionante o poder de competitividade de tudo quanto vem de lá. A qualidade quase sempre é sofrível, mas, o preço de mercado é arrebatador.
A explicação é dada pela planilha de custos da produção deles, que são infinitamente mais baixas, se comparadas com qualquer outra do planeta.
O Brasil com uma carga tributária descomunal, acrescida de obrigações sociais muito pesadas, perde longe neste jogo competitivo, dentro e fora do mercado doméstico.
Na China não tem nada que se compare com os nossos encargos sociais, PIS, COFINS, ICMS, ISS e outros muitos Is da vida brasileira. O jogo lá tem outro formato. Por exemplo: demitir um empregado é simples e indolor. Manda embora e esquece o nome do sujeito. Tente isto aqui no Brasil.
Enfim, não existe nada que atropele a produção. E, ai de quem atropelar.
Claro que é tudo muito mais fácil, devido ao regime centralizador/comunista de governo.
Mas, nesse contexto, o que mais chama a atenção do mundo é a chamada relação capital/trabalho chinesa. Muito já se falou e escreveu sobre isto. Este muito, contudo, pode ainda ser pouco.
Recordo de artigo, que li em 2005, num jornal britânico, relatando a estratégia chinesa de produção em alto mar (fábricas offshore). Impressionante. Navios gigantescos, estacionados no meio do Pacifico, transformados em fábricas, geralmente de quinquilharias, recebem, a cada seis meses, levas de operários, trazidos do Continente, para trabalhar durante um semestre, 18 horas por dia, com salário liquido mensal de, aproximadamente, US$ 50,00. Ao fim dos seis meses, são levados de volta às origens, felizes da vida com o “pé-de-meia” que fizeram, sem seguro social, seguro desemprego ou qualquer outra coisa do gênero. A produção em alto-mar é para atender, mais rapidamente, o mercado norte-americano, seu maior comprador. Inteligente logistica, sem dúvida.
Ainda sobre regime de trabalho – em minha opinião, regime de escravidão – li relatos arrepiantes, na Home Page do Doutor em Direito Europeu, Jorge Rodrigues Simão, português, residente em Macau, nas beiradas da China. Segundo ele, na China, só para a multinacional Mac Donald's, trabalham 70 milhões de jovens mulheres com jornada diária de 14 a 18 horas, 15 minutos para as suas refeições e 4 horas para dormir em beliches, em alojamentos, nas próprias fábricas. Antes de dormir são revistadas para comprovar que nada roubaram. O ambiente com portas de metal e barrotes nas janelas, parece mais um quartel. Numa das fábricas, 600 mulheres jovens trabalham como robôs, sem levantar os olhos, dar um suspiro ou falarem entre si. Todas vieram do campo tentando sair da pobreza. Têm horários reduzidos para ir ao banheiro e, somente, quatro horas para dormir. Uma sirene ruidosa anuncia cada novo dia, muito antes de amanhecer. As jovens levantam-se, vestem as fardas e agrupam-se em fila, para, descer as escadas, e se dirigir aos seus postos de trabalho. Essas moças são conhecidas como “dagongmei”, recebem salários de 1.500 Yuans, por mês, o que equivale a 135 Euros, dos quais são descontados a comida e o “alojamento”, que, em geral, são compartimentos onde dormem até 15 jovens. Nessas condições, piores que celas de prisão, não é de se estranhar que a maioria sofra de anemia, dores menstruais ou problemas de visão, visto que muitas trabalham na montagem de diminutos produtos a olho nu e sem descanso. Outras são intoxicadas pelo contacto com produtos químicos utilizados no trabalho ou simplesmente desmaiam de cansaço depois de intermináveis períodos de trabalho e uma “ração” de, apenas, um simples prato de arroz cada dia. Haja crueldade.
Se não apresentarem um rendimento como exigido, um sistema de penalizações permite aos chefes reduzir o salário ou os oito dias de férias anuais. Oito dias de férias, por ano!
Para essas “dagongmei”, algumas com apenas 12 anos de idade, que fazem sorrir de satisfação o consumo desenfreado e paranóico dos ocidentais, estas fábricas são a sua casa, a sua família e a sua cela.
O Comité Industrial Cristão de Hong Kong, uma ONG que se dedica a resgatar os menores que trabalham em semelhantes condições, enviou uma equipe de pesquisadores a uma fábrica e ouviu histórias comoventes como a de uma criança de 12 anos que disse: “Os meus pais não queriam que eu viesse. Chorei e implorei para que me deixassem, porque queria ver o mundo. A minha família tem outros três filhos, mas todos vão ao colégio. Quero poupar dinheiro para que os meus pais possam sobreviver”.
Pois é, na semana em que se comemora o dia internacional da mulher, vale à pena parar um pouco e lembrar dessas pobres mulheres chinesas, escravas do século 21.
E lembre-se também, ao cair na tentação de comprar um produto chinês, coisa muito fácil de acontecer nos nossos dias, pensem nessas “dagongmei” que deram seu sangue para você sorrir.

Sugestão de uma boa leitura: “As boas mulheres da China” Xinran – Companhia das Letras. 2003. Uma leitura comovente. Imperdível.
Foto obtida no Google Imagens.

sábado, 8 de março de 2008

RIO DE JANEIRO – TERCEIRO TEMPO ou Um giro por Copacabana

Desde muito jovem, tenho ido muito ao Rio de Janeiro. Perdi a conta. Tanto com propósitos turísticos, quanto em missões de trabalho.
A primeira vez foi em 1965, quando a cidade festejava seus 400 anos de existência. Foi um ano de festas por todo lado e o ano inteiro.
Hospedado na casa de uns primos, o que tornou a coisa bem mais econômica, no ponto mais “quente” de Copacabana – esquina da Avenida Atlântica com Hilário Gouveia – terminei ficando por lá, pelo menos, 40 dias. Foram, até então, as melhores férias da minha vida.
Naquela época, ir ao Rio de Janeiro era o mesmo que visitar o paraíso. O sujeito que fazia isso era tido como um privilegiado, invejado e, quando voltava, não falava noutra coisa. Virava um chato. E eu devo ter passado por essa idiotice.
Recordo que naquele ano, era inaugurado o Parque do Flamengo, num fantástico aterro na Baia da Guanabara, deslumbrando meio mundo. O maior parque urbano do mundo, com monumentos, equipamentos sociais (dezenas de quadras de esportes) de primeira linha e uma iluminação nunca vista por aquelas bandas e que, até hoje, encanta o visitante.
Copacabana ainda não tinha seu calçadão e a Avenida Atlântica era uma via simples com quatro faixas de rolamento, duas para ir ao centro e duas voltando. Nas horas do rush o transito era feito em mão única.
Ao longo desses anos todos, vejam que já são 43, tenho notado, atentamente, as mudanças pelas quais passou a Cidade Maravilhosa.
Dos anos 90 para cá, me impressiona e causa temor a pressão da “guerra” entre os traficantes de drogas, as balas perdidas e a onda de arrastões e assaltos, tornando a cidade quase que proibida. Eu mesmo fui assaltado uma noite, na porta do hotel e, de outra vez, tive arrombado um carro locado, na frente do hotel, durante a madrugada. Tudo em Copacabana.
Hoje, quero comentar coisas que vi, nesta mesma Copacabana, numa passagem recente.
Inicio de noite, num fim de fevereiro, caminhei pelas imediações do meu hotel – por coincidência, na mesma região onde fiquei na primeira vez – e pude avaliar como aquele bairro mudou, lamentavelmente, para pior.
Alcancei a Avenida N. S. da Copacabana, entrando pela Rua República do Peru, tomando o rumo da Praça Serzedelo Correia. O comércio, antes muito elegante, deu lugar a lojinhas de R$ 1,99 , lanchonetes de cara pouco confiável, botiquins sem charme, supermercados e farmácias. Esse era, antes, um trecho de boutiques famosas e elegantes.
Era, ainda, muito cedo, menos de oito horas da noite, e encontrei uma avenida suja, cheia de detritos, papéis, sacos e copos plásticos descartados, fruto de um movimentado dia de comércio. Centenas de camelôs, que não havia no passado, guardavam suas tralhas e tratavam de se recolher. Num beco escuro, uma espécie de depósito recebia os malotes desses ambulantes, certamente confiados até o dia seguinte.
Chegando à Praça Serzedelo, esquina com a Rua Hilário Gouveia, tive certamente a maior das surpresas. Nos anos 60 o que havia nessa esquina era uma bela igreja, a Matriz da Paróquia de Nossa Senhora de Copacabana. No melhor do estilo gótico, esse templo, com belos vitrais, pontificava naquela região e atraia, a cada domingo, a fina flor da zona sul carioca, para a missa dominical. Dava gosto ver a freqüência que para lá acorria. Inúmeras vezes, entrei lá e fiz minhas preces.
Nos anos 70, quando intensifiquei minhas idas ao Rio - porquanto morei em São Paulo, por um ano e meio - lembro da surpresa que tive ao ver a Paróquia, seguindo a onda do modernismo e da especulação imobiliária, que grassava no bairro, resolver demolir a bela igreja e construir um imenso complexo comercial e de escritórios, com lojas no térreo, incluindo um supermercado como âncora. Claro que incluíram uma nova matriz numa plataforma térrea do imenso edifício, voltada para a Praça. Uma igreja moderníssima, sem lembrar em nada a jóia arquitetônica demolida. Imagino a grana que deve ter rolado para a administração paroquial.
Mas, como falei antes, a surpresa muito maior, veio agora, em fevereiro de 2008. Incrédulo, dei de cara, nesse complexo de lojas, exatamente na esquina, sob o altar de Nossa Senhora de Copacabana, com uma boate de strip-teases – anunciando o show de uma sósia da bailarina Alzira, da novela das oito, fazendo suas performances numa barra de ferro – com uma lojinha de artigos eróticos, estrategicamente acoplada, ali, bem à mão dos freqüentadores. A iluminação feérica e os cartazes chamam muita atenção aos transeuntes. Tudo bem escancarado. Só vendo para crer.
Olha, sinceramente, por essa eu não esperava. Fico me perguntando se será, mesmo, a Paróquia o senhorio dessa “respeitável” casa de espetáculo.
Decepcionado, voltei à Avenida Atlântica e me deparei com o burburinho que, hoje em dia, caracteriza aquela artéria. Muita gente, muitos turistas, bares, restaurantes e, por fim, o que parece ser a grande atração do calçadão, as garotas e rapazes de programa. No meio deles, os homossexuais, travestis e outros GLS da vida. Um cenário insólito. Nada que se compare com o que a Globo colocou no seu Paraíso Tropical. Até que procurei ver Bebel. Desconfio que, naquela noite, ela tirava uma folga. No lugar dela, avistei grotescos “tribufus”. Sinceramente, não sei como fazem negócios. Só mesmo turista estrangeiro, cheio de caipirinha na cabeça, embarca numa roubada dessa.
A “catedral” dessa tribo moderninha é uma discoteca chamada Help, que tem, pelo menos, vinte e cinco anos de existência, no próprio calçadão.
A Copacabana da minha juventude era bem diferente. A Avenida Atlântica era uma tranquilidade. Calçadão não passava pelas nossas cabeças. À noite, passeávamos na antiga e bela calçadinha, a beira mar, namorávamos respeitosamente e recebíamos a brisa do mar, às vezes até o raiar do dia, sem medo de assaltos, balas perdidas ou assédios de mercadores do sexo. Algumas vezes, tomávamos drinks inocentes ou prosaicos sorvetinhos, num bar de hotel da avenida, incluindo, quando a grana estava elástica, o do Copacabana Palace. Por coincidência, num desses lugares, podíamos esbarrar com algum ídolo da época, como, Nara Leão, Elis Regina, Simonal, Chico Buarque, Edu Lobo, entre outros. Lá no inicio da praia, na ponta do Leme, a Pizzaria La Fiorentina recebia, diariamente, levas de atores de teatro, que, depois dos respectivos espetáculos, iam tomar um chopinho e comer a melhor pizza da cidade, em meio ao melhor buxixo da época. Este programa era um must na noite carioca. Estive muitas vezes por lá, levado pelos tios atores Ilva Niño e Luis Mendonça. Eu achava aquilo muito cheio de glamour, diferente do Recife provinciano da época. Nos sábados, muitas vezes, era possível uma esticada nas boates que marcaram aquela época, como a Le Bateau (na Praça Serzedelo) e o Jirau, numa rua bem próxima, cujo nome foge da minha memória.
Ah! um negócio engraçado, naquele tempo, e era programa obrigatório: assistir ao maior número possivel de filmes, porque só seriam exibidos, no Recife, dois ou três anos depois. E, quando isso acontecia, o sujeito enchia a boca e, com tom snob, dizia: “ah! Já assisti, faz muito tempo, lá no Rio”. Era uma graça. Ainda bem que as coisas mudaram.
Hoje, resta a memória de um tempo bom, de um Rio mais brasileiro e mais tranqüilo. Sem calçadão, guerra do tráfico, sem bala perdida, arrastões ou assaltos.
De todo modo, e antes de encerrar, não posso negar que o Rio de Janeiro (no geral e apesar de tudo) continua lindo!
Quem esperou neste Terceiro Tempo que eu voltasse ao assunto dos estaleiros, capacitação de empresários e metalurgia, me perdoe. Peraí gente... eu também sou filho de Deus e Ele me deu olhos para admirar e criticar outras coisas.

NOTA: Duas fotos de Copacabana. Uma atual e outra, em preto e branco, dos anos 60. As duas obtidos no Google Imagens.

terça-feira, 4 de março de 2008

RIO DE JANEIRO – SEGUNDO TEMPO

Participar de uma Missão, como a que o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Pernambuco - SIMMEPE promoveu e, em parte, comentei no artigo anterior (Rio de Janeiro – Primeiro Tempo), resulta numa excelente oportunidade de se estabelecer referenciais para novos projetos industriais. Neste caso específico, pistas que levem a identificar oportunidades de novos negócios, nas novas cadeias produtivas que se formam em torno dos grandes projetos estruturadores do Estaleiro Atlântico Sul e da Refinaria Abreu e Lima.
A expectativa que se tem, na conjuntura atual, é a de que, em Pernambuco, terá que surgir um pólo para a produção de componentes e prestação de serviços, para atender aos referidos empreendimentos.
Foi nessa intenção que a referida missão foi montada e foi com este objetivo que os “missionários” embarcaram no projeto.
Visitando um a um, cada estaleiro, muita coisa foi se aclarando para os integrantes da Missão, que logo perceberam os desafios que têm pela frente. Isto se, de fato, querem participar dessas novas cadeias produtivas, antes que alienígenas tomem conta do pedaço. Vejamos algumas observações:
Um primeiro desafio bate logo de frente: capital humano. Pernambuco não dispõe de pessoal qualificado o bastante para atender essa nova onda. As empresas do segmento metal-mecânico, hoje existentes, já andam as voltas com a escassez de soldadores, fresadores, especialistas em corte, em usinagem, em tratamento de superfícies metálicas, inclusive pintura (pintura naval, pelo que vimos, é coisa complexa), ferramenteiros entre outros. Os que existem são poucos e, a maioria, mal qualificados, carecendo de treinamento. E treinamento custa caro para as empresas. Os profissionais recém-saídos das agencias formadoras de mão-de-obra não atendem a contento e treinar em serviço, que pode ser uma estratégia, pode representar um risco.
Além disto, já se registra a falta de profissionais de nível superior para ocupar postos abertos nesses novos projetos. Em Pernambuco somente agora (antes não faria sentido) começam a surgir cursos de engenharia naval e tecnologia de petróleo e gás. E, ao que parece, somente em nível de pós-graduação. Nem é bom pensar no tamanho da carência.
Observei, num estaleiro do Rio, “juntas” de operários interpretando esquemas gráficos complexos, parte um projeto naval, sobre chapas de cortes diversos, exigindo, visivelmente, perícia cognitiva dos agentes. Foi inevitável perguntar, aos meus botões, se haveria recursos humanos dessa ordem, entre os nossos.
Este quadro leva a uma conclusão, aparentemente precipitada, mas, só aparentemente, porque a realidade é, digamos, inexorável. A necessidade premente de mão-de-obra qualificada vai levar à “importação” de profissionais, de outros estados ou, quem sabe, do exterior. Numa região em que as oportunidades de emprego são raras e o desemprego é grande, isto pode se converter numa grande frustração.
Contudo, isto parece ser um problema de dimensão nacional, à medida que nos estaleiros do Rio ouvimos queixas da falta de pessoal qualificado. Os antigos empregados (os da década perdida e quebra da indústria naval) tomaram outros rumos, se aposentaram ou faleceram levando consigo a memória da produção naval anterior. E agora, o que resta é formar novas gerações de especialistas.
Ah! Antes que me esqueça, por falar em importação de profissionais, um precedente já foi aberto num projeto no estado do Rio, o da Siderúrgica do Atlântico, do Grupo Thyssen/Krupp, em construção no Distrito Industrial de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, próximo ao Porto de Sepetiba, que está importando profissionais da China! Em outubro passado, o Ministério do Trabalho já havia deferido o visto de 48 pedidos da Siderúrgica. Eles falam em trazer 600! Olha aí que “rolo compressor”!
Pois é, esse problema de mão-de-obra é mesmo um grande desafio.
Coincidentemente, o Jornal do Comércio, do Recife, neste domingo, 2 de março, foi taxativa ao bradar, no Caderno de Economia que “Sobra vaga. Falta Experiência”. A reportagem focou os problemas pelos quais passam os setores da construção civil, refrigeração, vestuário e da produção de esquadria de alumínio. Não apurou a situação noutros setores, entre os quais o da metal-mecânica.
O mais dificil é que a coisa não pára por aí, porque outro desafio é o da produção com qualidade, preço competitivo e certificação. A indústria naval é regulada por normas de fabricação internacionais rigorosas. A exigência de um selo de qualidade é para a grande maioria dos componentes. Existem certificadoras próprias para este setor. Olha aí! E agora?
Acontece que boa parte das nossas indústrias – não necessariamente as que se fizeram representar na Missão aos estaleiros cariocas – somente agora está dando importância a uma simples certificação do tipo Serie ISO 9000. Imagino o que vai ser o ajuste às exigências impostas à indústria naval, que, de alguma forma, e em algum momento, recai sobre os fornecedores.
A propósito, uma das coisas que muito se ouviu no meio naval do Rio de Janeiro, foi a recomendação de se dar especial atenção quanto às exigências da Petrobrás, que, além de ter um esquema próprio e rigoroso, faz sempre uma auditoria/fiscalização draconiana.
Ora, se no Estaleiro Atlântico Sul o cliente, até agora, é a Transpetro, braço logístico da Petrobrás, e a Refinaria é propriedade dela, a prioridade do empresariado pernambucano tem que passar pela obtenção das adequadas certificações, seguindo a cartilha de quem compra e gosta de mandar.
Com mão-de-obra satisfatória, qualidade do produto e preço adequado, nosso empresário terá chances de se tornar fornecedor.
Mas, o que produzir? O que será que o EAS vai comprar aqui em Pernambuco? Como chegar a esta informação? Como se habilitar à fornecedora? E a Refinaria?
Eis aí um colossal desafio para esses empresários. Tenho para mim, que vai ser uma parada dura.
Terão eles condições de competir? Tomara que sim. Só não quero é que fiquem “a ver navios”.


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Para saber mais sobre este tema, clique no link a seguir:

http://gbrazileiro.blogspot.com/2008/02/rio-de-janeiro-2008-primeiro-tempo.html

Nota: Foto de um soldador, no Estaleiro da Ilha S. A.(Niterói) – Autoria do próprio GB.