domingo, 31 de agosto de 2014

Dilema Eleitoral

A morte de Eduardo Campos em 13 de agosto passado provocou, indiscutivelmente, um verdadeiro tsunami na corrida eleitoral em curso, tanto o âmbito nacional, quanto em Pernambuco. Se antes do episódio havia, no plano nacional, um candidato ainda pouco conhecido, aquela morte brutal e inesperada o projetou e resultou numa extraordinária reviravolta nas intenções de voto dos eleitores. Sua candidata à vice – Marina Silva – teve seu nome confirmado como substituta na cabeça da chapa e adicionou ao seu já conhecido patrimônio eleitoral um percentual de inestimável significado. A dúvida que se tem, hoje, nos meios políticos é saber quem ajudou mais a quem. Se Marina antes era tida como uma alavancadora  da candidatura de Eduardo, agora já se diz que este, pós-morte, é quem está alavancando Marina. Coisas da política. Mas, também, é preciso não esquecer que tem muita coisa da cultura brasileira. Refiro-me à comoção nacional que se instalou após a morte do candidato. A emoção que tomou conta da Nação, o show da mídia cobrindo detalhadamente cada momento daquele episódio, desde a queda da aeronave até o sepultamento apoteótico  de Campos, o aproveitamento eleitoreiro desse show midiático, tudo quanto vimos na primeira hora do guia na TV – manifestações emotivas de aliados e opositores – e, por fim, o que estamos vendo a cada dia formou o caldo que transformou as intenções de voto num panorama completamente diferente do que se dispunha antes. E isto se reproduz de forma concreta no cenário eleitoral local, de Pernambuco, onde o desconhecido candidato do finado Eduardo Campos, tomou fôlego e subiu nas pesquisas ultimamente realizadas, ameaçando o candidato oposicionista Armando Monteiro.
O mais lamentável de tudo isso é perceber que o tom das campanhas, os pálidos discursos que estamos assistindo – é uma safra pobre de oradores – em nível nacional, as entrevistas e debate já levados ao ar e as “intenções” verbalizadas pelos candidatos refletem tão somente a eterna luta pelo poder. É o velho e batido jogo do poder pelo poder. Os verdadeiros interesses do país e do seu povo não passam de detalhes marginais. A candidata Dilma e sua turma lutando com unhas e dentes para não perder a posição na qual estão instalados por doze anos, o Aécio brigando pela recuperação do poder do seu partido, batendo forte no PT, e essa terceira via liderada por Marina Silva (PSB/Rede) tentando convencer de que vai governar a base de um novo modelo de gestão, embora usando dos mesmos velhos meios de abordagem. Essa mistureba de interesses dá contas de que o Brasil tem pela frente uma das eleições mais disputas, ao mesmo tempo em que pobre de ideias e ideais convincentes.
Acho de incrível desinibição ver D. Dilma, em campanha, afirmar que estamos bem de vida, que nunca se viveu tão folgadamente como agora, enquanto os organismos oficiais divulgam dados assustadores a respeito do desandar da economia. As manchetes dos jornais deste fim de semana foram claras em afirmar a recessão técnica instalada com o crescimento negativo por dois trimestres consecutivos. O PIBinho do ano promete ser ainda menor. É um desespero. A seca, a Copa do Mundo e a crise internacional estão sendo responsabilizadas pela recessão. Desculpa esfarrapada, para livrar a cara de quem comanda a política econômica. A inflação é uma realidade e sentida no dia-a-dia, sobretudo quando se fecha a conta no supermercado. A indústria nacional continua em queda e não se sabe o que virá no futuro. Mesmo o agronegócio que vinha dando fôlego à economia registrou um ínfimo crescimento, no ultimo trimestre observado. Mais irritante ainda é ver a candidata “presidenta” fazer propaganda das obras que foram construídas Brasil afora, no seu Governo, entre as quais a Ferrovia Transnordestina incompleta e se arrastando por uma década ou as obras da transposição do São Francisco, cuja finalização só Deus sabe quando vai ocorrer.
Esta semana transitei pela BR-101, entre Recife e Maceió, ocasião em que pude constatar a maneira como se arrasta a duplicação dessa importante via, no lado alagoano. Falta muito ainda para ver essa obra concluída. Mas, ver isso não foi nada. Curioso, mesmo, foi notar a força dos candidatos ao Senado e Governo no vizinho estado: Fernando Collor de Mello, para Senador, e Renan Filho, para Governador.  Fiquei surpreso, não posso negar. Vão levar brincando. Dos mais simples casebres em beira de estrada os pontos comerciais de porte exibem galhardamente imagens dos dois. Acho que em Alagoas, além da crise social – a insegurança é gritante – e a econômica que atinge o estado falta, também, novas lideranças.
Quanta falta faz um bom e competente líder para comandar uma Nação ou um Estado.

sábado, 16 de agosto de 2014

Lamentável Perda

“Somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. Este pensar é atribuído ao piloto Ayrton Senna e encontrei publicado numa das recentes mensagens que recebi pelo Facebook. A intenção foi fazer referencia ao acidente que matou Eduardo Campos. Na mesma oportunidade, perplexamente, eu acompanhava o noticiário sobre esse fatídico acidente aéreo de quarta-feira passada, em Santos (SP).
Senna teve razão e, inclusive, pode ter tido uma premonição quando assim se expressou. Falou de modo simples, mas disse uma grande verdade. Chocado com o drama humano retratado no noticiário refleti muito sobre a fragilidade do ser humano. Em poucos segundos tudo pode ter um fim. Fim de um grande projeto, de um ideal e da vida. O risco de viver é concreto e em momentos como o da quarta-feira passada nos damos conta, de forma assustadora.
Este doloroso fato que vitimou o candidato a Presidente do Brasil, Eduardo Campos, e sua jovem equipe de assessores, deixa um profundo vazio nos meios políticos de Pernambuco e do Brasil. É uma perda inestimável. Estou falando de um cidadão que se notabilizou, no passado recente da cena política nacional, pelos seus feitos como governador de um estado pobre e pela mensagem inovadora que ofereceu à Nação brasileira ainda tão carente de um líder à altura das suas prementes necessidades. Lamentável, porque com esse doloroso desenlace o país vai perder uma preciosa oportunidade de assistir a uma diferenciada campanha política, bem longe, seguramente, do mesmismo arcaico e retrógado que está acostumado a ver. O debate que se instalaria no Horário Político do radio e da TV, em minha opinião, seria bem distinto daquela enganação e xaropada das campanhas passadas. Ao invés da polarização PT x PSDB, Eduardo Campos, ao representar a denominada Terceira Via, mudaria o rumo das discussões e a Nação lucraria.     
Embora Campos pudesse promover essa desejada mudança e, inclusive, pudesse apontar para caminhos por um Brasil melhor, eu não acreditava na sua vitória em Outubro vindouro, em face das circunstâncias políticas que prevalecem atualmente. Colocado em terceiro lugar nas pesquisas eleitorais e enfrentando dificuldades de ascender a melhores patamares, Eduardo Campos seria, contudo, o mensageiro da prática de uma boa e honesta política e de lançar uma nova forma de governar, como imensa camada da população brasileira reclama. Por isso, que entendo estarmos diante de uma perda irreparável.
Conheci Eduardo Campos, bem jovem, recém-formado em Economia, meu colega de profissão, portanto, durante sua campanha para Prefeito do Recife, em 1992, aos vinte e sete anos de idade. Muito jovem e sob as “asas” do avô Miguel Arraes enveredou numa majoritária muito confiante, mas sem muita história pessoal, terminando derrotado. Fiz parte da campanha, enquanto colaborando com a campanha de vereador de um familiar, dentro da coligação liderada pelo Partido Socialista Brasileiro – PSB. Meu candidato a vereador, Celso Miranda, ganhou a eleição e o favorito da época, Jarbas Vasconcelos, foi eleito Prefeito. Vivíamos, então, um tempo de muita vibração e euforia, graças à recém-democratização do País. Tivemos um resultado satisfatório.
De lá para cá, Campos construiu uma trajetória política bem sucedida, foi deputado estadual, deputado federal, Ministro de Estado de Lula, governou Pernambuco por dois mandatos e alçou voo, se candidatando à Presidência da Republica. Pena que esse voo literalmente alçado na quarta-feira passada haja interrompido essa trajetória. Morreu com ele esperanças de dias melhores para muitos brasileiros.
Na verdade, devo frisar, que nem sempre estive – nem mesmo me acho – ao lado dos Eduardistas. Pelo contrário! Após a sua vitoria em 2006, que o levou à cadeira de Governador no Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo de Pernambuco, estive em hostes de oposição na campanha e no rescaldo da derrota nas urnas. Discordei de seus discursos e até me revoltei com algumas das suas propagandas. Coisas da política. Hoje, porém, reconheço haver me surpreendido por sua capacidade de político habilidoso no agregar, negociar, construir coalizões e chamar para seu lado pessoas de sãs consciências, coisas das quais o Brasil precisa cada vez mais.  
Por outro lado, impossível não fazer um especial registro sobre uma tocante virtude desse homem que nos deixa: sua dedicação à família. Nunca e nada do seu mundo político fez Eduardo Campos se afastar da bela família que formou com Dona Renata. Inúmeros são os testemunhos dessa sua faceta de pai e marido dedicado. Há poucos dias, soube através da minha esposa, que ele foi visto num centro médico, aqui do Recife, levando seu filho mais novo (sete meses) acompanhado da esposa, para receber uma vacina. Veja que coisa inesperada para alguém em plena campanha presidencial. E não foi nenhum jogo de marketing político. Foi, sim, o pai de família cumprindo seu papel. Outra coisa admirável: em pleno exercício de Governador do Estado, reservava tempo para encapar os livros dos filhos, no inicio de cada ano escolar, e se orgulhava dessa sua habilidade. Dois exemplos, apenas.
A morte de Eduardo Campos consternou o Brasil. Pernambuco foi marcado por imenso vazio nesta semana que finda. Correligionários e opositores se associam num único sentimento de lamentável perda. 

NOTA: Foto obtida no Google Imagens.

domingo, 10 de agosto de 2014

Recordei e Vivi

Por varias ocasiões já critiquei, neste Blog, a forma desordenada ou mesmo inexistente com a qual é tratado, aqui no Brasil, o que é de legado histórico, seja material ou imaterial. Numa postagem intitulada de Apagando a História (17.09.2009) comentei sobre o abandono que se atribui ao nosso rico patrimônio histórico. Foquei em casos que ocorrem em Pernambuco, embora saiba que a coisa se repete no restante do Brasil. Querendo conhecer melhor, clique em: http://gbrazileiro.blogspot.com.br/2009/06/apagando-historia.html
Passados cinco anos dessa critica e mantendo meus argumentos, devo fazer algumas ressalvas elogiando recentes iniciativas que foram tomadas aqui na cidade do Recife. Falo, primeiramente, do Passo do Frevo, entregue ao público no inicio deste ano e sobre o qual já comentei pouco antes do carnaval, e em segundo lugar do Cais do Sertão – Luiz Gonzaga, aberto à visitação em maio passado. O primeiro é um moderno museu contando a história do ritmo do frevo, com as melhores ilustrações gráficas, materiais e sonoras possíveis. O outro, também museu, transporta o visitante para um ambiente típico do sertão nordestino, ao mesmo tempo em que  coloca o mito Luiz Gonzaga como figura central da mostra permanente. Justo, porque a ele se deve o que de mais genuíno foi, até hoje, difundido sobre a cultura regional, através de música e poesia.
Somente neste fim de semana tive oportunidade de fazer uma visita a esse Cais do Sertão, literalmente debruçado sobre o Atlântico. Aquele juazeiro nos saudando na entrada é simbólico. Sai sensibilizado.

Um antigo e desativado armazém do Porto do Recife foi reformado e transformado num museu, com modernos conceitos de amostra, repleto de recursos audiovisuais e leiaute dinâmico e confortável, além de propicio à didática oferecida ao visitante.
O primeiro momento da visita é quase impactante: numa tela de 180 graus, mais imagens no piso, são projetadas cenas típicas da cotidiana vida no sertão pernambucano. As tomadas  foram feitas no Sertão do Pajeú e arredores da cidade de Serra Talhada (PE). A apresentação tem duração de 16 minutos e trata de mostrar a vida sertaneja durante um dia: do amanhecer ao fim da noite, com a virada do dia. Rodado e reproduzido com modernos recursos tecnológicos, a fita, além de instigante, pretende sutilmente inserir o espectador no ambiente apresentado, que se vê rodopiando, tal qual num carrossel do parquinho de diversões. Aquele raiar de sol, os meios de transporte – pés, jeep Toyota, bicicleta, moto e cavalo –, o dar milho pras galinhas no terreiro, o leite tirado ao pé da vaca, o dar uma mamadeira ao burrego rejeitado ou roubado da ovelha mãe, o corte da foice nos galhos secos do roçado, depois transformado em combustível que alimenta o fogo no preparo da bóia do meio dia, a enxada sendo afiada na expectativa de ser usada quando a chuva chover, o puxar e fechar dos foles das sanfonas que emitem um baião de Gonzaga ensaiando o som para o relabucho noturno, as figuras da nova geração que, acompanhando a modernidade, usam o skate nas pistas de rodagem modernas e, por fim, um forró do tipo pé-de-serra mostrando os arranjos xambreguentos de casais apaixonados responsáveis diretos pela formação de novas gerações de novos fortes e guerreiros nordestinos. O cenário geral é a terra castigada pela longa estiagem, o sol abrasador e as variações de temperatura, altas de dia e fresquinha no anoitecer.
Depois daquela projeção é entrar no restante do Cais do Sertão recifense, admirar seu sugestivo acervo e tentar viver as emoções que eu vivi.  

 
Eu nasci no Recife. Mas cresci indo e vindo ao interior do meu estado. Minha família é de origem interiorana. Ainda hoje vou e volto  lá de dentro. É como um buscar de energias para gastar nas metrópoles que me meto. Aquele filme de introdução ao Cais do Sertão me pegou pelo pé. Retrocedi no tempo. Tremi por dentro. A saudade escorreu pelos olhos. Vi meus ancestrais circulando naquelas imagens. Lembrei-me do cordeirinho rejeitado, que ganhei de presente do meu avô, aos cinco anos de idade, ao qual eu queria dar uma mamadeira a todo instante. Quase corri atrás daquele que surgiu na tela do Cais. Com os sons tirados da sanfona, da zabumba e do triangulo, naquele pé-de-serra projetado, recordei que aprendi a dançar em Fazenda Nova garrando das matutinhas fogosas, querendo pegar o neto do Coronel Epaminondas. Foi por ali que despertei para o doce jogo do amor e para os apelos do sexo. Tempos vão. Tempos não voltam, salvo nesses repentinos museus que surgem. É um programa imperdível, na cidade do Recife. 
Depois daquela projeção é entrar no restante do Cais do Sertão recifense, admirar seu sugestivo acervo e tentar viver as emoções que eu vivi.  Recordei e vivi.   




NOTA: As fotos que ilustram a postagem são da autoria do Blogueiro.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ariano Imortal

A casa do meu avô em Fazenda Nova amanheceu, naquela manhã de 1957, no maior alvoroço. Um verdadeiro auê. O Grupo de Teatro Adolescente do Recife havia arrebatado num festival de teatro amador, que terminara nas vésperas, no Rio de Janeiro, o premio máximo com a encenação da peça “O Auto da Compadecida” de certo autor paraibano chamado Ariano Suassuna. Foi a primeira vez que ouvi falar desse Senhor. Muito menino ainda, embora ligado na conversa dos adultos da família Mendonça, acompanhei a euforia que reinava no ambiente. Afinal, naquela casa se respirava teatro o ano inteiro. O resultado maior é a Nova Jerusalém. A razão da euforia daquele dia era o fato de que o ator galã da família – Luiz Mendonça – fazia parte do referido Grupo de Teatro. Ganhar uma medalha de ouro e logo no Rio de Janeiro era tido como uma verdadeira façanha.

 
O Auto da Compadecida já havia sido encenado antes, no Teatro de Santa Isabel, no Recife. Eu quis muito ir, mas, minha mãe disse logo que era uma peça indecorosa e por isso, imprópria para menores de dezoito anos. Eu contava com apenas onze ou doze anos... Conformei-me, muito embora que a curiosidade, peculiar da idade, acendesse meu sinal de alerta naquela manhã de regozijo em Fazenda Nova. Fiquei de olhos e ouvidos atentos a todos os comentários. Foi então que descobri que o texto escrito por Ariano trazia cenas picantes de infidelidade no casamento do Padeiro avarento e sua fogosa mulher, que um padre corrupto, louco por dinheiro, fazia o enterro em Latim de um cachorro, em troca de bons trocados e que outro cachorro descomia dinheiro. Achei, naquele tempo, que descomer seria vomitar e não defecar. Por fim, o autor colocou um Jesus Cristo negro, chocando a sociedade conservadora e catolississima da época. Um Cristo negro era uma blasfêmia. Minha avó, embora muito vanguardista praqueles tempos benzeu-se – em nome do Pai, Filho e Espírito Santo – quando soube desse detalhe. Era carola toda...
O espetáculo premiado, lá no Rio, (Vide foto abaixo) teve a direção de Clênio Wanderley, que fez também o papel do encapetado Chicó e contou com vários atores amadores, entre os quais: Luiz Mendonça (meu tio) interpretando o tal Padeiro corneado, Nina Elva (hoje Ilva Niño) a infiel mulher do Padeiro, José Pimentel que fez o papel do Demônio e Socorro Raposo no papel de Nossa Senhora, entre outros. Lembro que o ator que desempenhou o papel de Cristo era uma lapa de negro, com voz marcante e dentes brancos e brilhantes. Diziam ser um sujeito culto, viajado e que dominava bem o idioma inglês. Um cara diferenciado que abafava no palco.

 
A trupe inteira baixou, dias depois, em Fazenda Nova, hóspedes da casa dos Mendonça e pude me inteirar de tudo, tintin por tintin. Diálogos do escript eram repetidos nas conversas e a diversão era sem fim. Já faz muito tempo... Comentando a morte de Ariano Suassuna, (23.07.14) conversei hoje (25.07.14) com Ilva Niño – que virou minha tia por afinidade, porque casou com Luiz Mendonça – e recordamos alguns daqueles momentos. Demos boas risadas. Orgulho-me de haver vivido esse antanho e registrar com satisfação neste espaço do Blog.
O tempo passou e o Auto da Compadecida se tornou um clássico do nosso teatro e da literatura regional. Foi levado à TV e às telas do cinema mais de uma vez e todo menino de dez anos de idade assiste sem restrições de idade, entende que dá gosto, aplaude e comenta.
Este monstro sagrado da literatura nordestina, chamado Ariano Suassuna – que agora nos deixa fisicamente – operou uma verdadeira revolução no nosso meio social, a partir do Auto  da Compadecida e de outras obras seguintes, desmistificando uma série de ideias e costumes que prevaleciam ainda no seu tempo. A inclusão do Cristo Negro, por exemplo, foi uma alusão ao arraigado e renitente preconceito racial presente na nossa sociedade. Alimentado ainda hoje... Mas, uma das maiores virtudes desse Imortal foi o fato de haver criado um teatro genuinamente regional, com textos que retratam a cultura local, espantando os textos importados, que dominavam a cena da ribalta local e, também, nacional. E fez escola. Quem assiste Um Sábado em Trinta, de Luiz Marinho, percebe bem o que digo. Suassuna escreveu outras magníficas obras que bem dizem dos nossos nexos sociais, a exemplo de A Pena e a Lei e O Santo e a Porca. Na mesma esteira de pensamento fundou o movimento Armorial, misto de erudito com profundos traços de regionalismo, mostrando ao restante do Brasil e do mundo que existe uma cultura brasileira autentica e pura, que deve ser vista, propagada e respeitada.
Tive o privilégio de assistir, várias vezes, suas aulas-espetáculo, das quais sai sempre com muito orgulho de ser conterrâneo desse Homem extraordinário. Nordestino, Ôxente!   
O Brasil chorou sua morte esta semana. As academias de letras regionais e a do Brasil estão com assentos vagos. Mas, o Mestre Ariano Suassuna continua vivo nos seus poemas, textos e demais páginas imortais. O Homem passa, mas sua história será contada por gerações adiante. Então, o Homem Vive. É Imortal.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

    

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Balanço da Copa

A Copa do Mundo acabou. O Brasil viveu 30 dias em clima de férias coletivas. Muita festa e muita animação nos quatro cantos do continente brasileiro. E o bom de tudo é que ocorreu na mais perfeita ordem. Disso não temos a menor dúvida. Não fosse o “chocolate” dos 7 x 1 aplicado pelos alemães sobre nossos canarinhos, a festa estaria rolando até agora. Fica para outra ocasião. Mesmo sem a alegria e entusiasmo geral dos brasileiros houve festa até o apito final com a vitória da seleção germânica, que se tornou tetracampeã do futebol mundial. Não faltou torcedor para as equipes que chegaram à final no Maracanã, no último dia 13. A festa ainda foi maior porque foi a Argentina que fez o confronto final com a Alemanha e, com isso, arrastou muitos milhares de vizinhos hermanos para assistir ao jogão. E, de fato, foi um jogão.
O clima de hoje é de ressaca e de balanço. O Brasil, por várias frentes, faz um balanço geral para avaliar a execução do projeto. Tudo muito providencial em face das expectativas e criticas que foram desenhadas ao longo dos vários meses que antecederam ao evento.
Vários têm sido os caminhos para avaliar a chamada Copa das Copas. Pelo lado dos gastos com as construções dos estádios, hoje chamados de arenas, estamos carecas de saber que foram dos mais extravagastes, quando comparados com outros tantos em países sedes de Copas passadas, suscitando criticas das mais fortes, dentro e fora de Pindorama, e se transformando, desde logo, em objeto de avaliação pelos meios competentes, pelos parlamentares de plantão e pela sociedade cada vez mais cobradora. Em ano de eleições é prato cheio para todos.
Com uma economia mau humorada, no dizer do Professor Jorge Jatobá (Economista da CEPLAN Consultoria, do Recife, em artigo na revista Algomais – Nº 100 de Julho de 2014), convém mesmo que se proceda a uma avaliação minuciosa de tudo. E esse tudo tem de passar pelas obras superfaturadas que devem ter ocorrido a três por quatro, as construções inacabadas de infraestrutura nas cidades sede, os “elefantes brancos” que se tornarão muitas das arenas levantadas, os projetos de mobilidade urbana que sequer saíram do papel e passam a enfeitar temporariamente (muito em breve serão descartados) prateleiras de gabinetes de Brasília e um sem número de outros aspectos.
Quem pensou que a Copa das Copas traria grande progresso e franco desenvolvimento para o país, pensou errado. Tirando as ampliações – requeridas mesmo que não houvesse Copa – de alguns poucos aeroportos, as construções das arenas e entornos de algumas dessas, não me ocorre listar mais nada.
E empregos? É coisa discutível e de natureza diferente!
“Na realidade, a Copa do Mundo é simplesmente uma grande festa que, como toda festa, gera oportunidades de trabalho temporário e de curta duração” é o que lembra o Professor José Pastore, num lúcido artigo publicado n’O Estado de São Paulo de 15.07.14. Ele tem razão. É só ver o que acontece em cada carnaval. O mesmo articulista registrou que a Embratur estimou que a Copa criaria 1 Milhão de empregos e o Ministério Esportes anunciou que, com efeitos a longo prazo, seriam gerados 3,6 Milhões de empregos. Quanta ilusão!
Segundo Edson Domingues, da UFMG, apenas 185 Mil empregos foram gerados pelo torneio e, assim mesmo e na grande maioria, temporários e ligados às atividades de turismo, alimentação, transportes, produção e venda dos badulaques inerentes ao evento.
Mais estrangeiros do que se esperava aportaram no Brasil durante a Copa. Estima-se que foram cerca de 700 mil. Para atender as demandas desse contingente, fora o de brasileiros que se deslocaram para as cidades sede, muitos empregos temporários foram gerados. Mas, terminado o evento, tudo cessa. Tomara que esses estrangeiros voltem em tempos de férias e não de Copa. Aí, sim, poderemos falar de efeitos duradouros.
Enquanto isto, e aos poucos, a vida volta ao normal e as preocupações, sem festa e sem qualquer  graça, passam a ser a inflação que cresce a cada dia, o crescimento pífio da economia, o Governo mais preocupado em se manter no poder do que governar e as perspectivas de uma campanha política de nível rasteiro, que só prejudica mais ainda o país.



Para encerrar o papo de hoje, lembro que o mundo está de olho no Brasil. Ontem, por exemplo, foto acima, vi uma matéria do Financial Times, no qual o periódico britânico dá mais uma estocada na situação econômica brasileira: refere-se às dificuldades atualmente enfrentadas pelo país, com uma inflação anual próxima aos 7% e um crescimento do PIB projetado em  1%. “Outro 7 x 1! Dessa vez no campo da economia” diz aquele jornal, num certo tom de gozação. É doloroso pensar nisso e vê-lo comparado ao “chocolate” alemão no Mineiraço.  

NOTA: Ilustração colhida no site do Financial Times de 17.07.14    

 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Delirio Acabou

Comecei esta postagem, por duas ou três vezes e nada me agradava. Diferente da alegria na postagem anterior, o tema não poderia ser outro senão a decepcionante e acachapante derrota do selecionado brasileiro, diante da Alemanha, na Copa do Mundo 2014. Dentro de casa! A ressaca da “pancada” que levei deixou-me transtornado ao ponto de nem saber por onde começar estes comentários que agora faço. A dor emocional que cada brasileiro – ligado no mundial – sentiu foi bem maior do que aquela do atacante Neymar.
Agora, assimilada a derrota, lembro que nunca estive muito seguro dessa seleção de futebol deste ano. Achei que estava despreparada para um campeonato tão duro e competitivo. As outras tiveram que lutar para vir ao Brasil e a nossa ficou, na zona de conforto de anfitriã, sem competir, jogando, vez por outra, com seleções pouco pouco expressivas, ganhando sem talento e se enganando os brasileiros e a si mesma.
Aquele gol contra, nos primeiros minutos do campeonato, cometido pelo jogador Marcelo, foi para mim um sinal concreto das dificuldades que teríamos dali por diante. Nas partidas seguintes, o empate com o México, a disputa nos pênaltis com o Chile e o jogo sufocante com a Colômbia, apenas confirmou minha desconfiança. O fato de jogar em casa e ter um atacante consagrado e incensado mundialmente não me deu, em momento algum, a certeza de que chegaríamos lá. Futebol é jogo de equipe e não pode, jamais, ser confiado num único atleta. Faltou time para o sucesso do Brasil. E nesse caso o tal jeitinho, não dá jeito. Tínhamos 10 homens carregados pelo astro Neymar. Impossível vencer. O acidente com este astro destrambelhou, de vez, o grupo que rigorosamente nunca formou um time. O resultado ficou flagrante na partida contra os alemães. Estes ganharam com técnica e talento, mostrando que formam um coeso coletivo e que sabem como conduzir a pelota até às redes. Tiro meu chapéu para esses alemães.  Não foram à toa os aplausos que receberam dos torcedores brasileiros, ainda no Minerão. Bela atitude, por sinal.
Temo, agora, que nem o terceiro lugar seja conquistado. O futebol brasileiro está falido. E nas mãos desses cartolas da CBF vai se acabar de vez.


Olhando por outro ângulo e tentando, desde logo, tirar uma lição da derrota, acredito que o que ocorre com o atual futebol brasileiro é a contaminação do estado de espírito e desorganização socioeconômica que impera neste Brasil de hoje. A Nação está minada por uma política desgastante e devastadora que aponta para sérias dificuldades no futuro. Refiro-me a esse modelo retrogrado que propicia a preservação da já endêmica corrupção – capitalizada, aliás, por essa famigerada FIFA –, insegurança geral, péssimos índices de Educação e Saúde, sem falar no recente retrocesso da economia. Modelo incapaz, portanto, de gerar uma sociedade produtiva e atenta ao fortalecimento das estruturas necessárias à construção de um país mais desenvolvido, justo com seu povo e inserido no contexto mundial de primeira linha.  

 
No futebol, as coisas não são diferentes.  Basta ver o perfil de cada “craque” da atual seleção. A base é formada por jogadores que atuam no exterior, muitos deles sem experiências no âmbito doméstico, pinçados que foram por olheiros estrangeiros atentos e que quase todos fazem relativo sucesso, somente, em clubes inexpressivos no exterior. Pergunte onde jogam Hulk e Julio Cesar. São campeões de que? Onde?  Há outros que nem me lembro dos nomes. Nem quero lembrar! Segundo a FIFA, o Brasil exportou 1.530 jogadores de futebol no ano passado. E em 2012 já haviam ido 1.463. Fiquei pasmo com estes números.
E por que foram para o exterior? Está na cara que foram, favorecidos pela fama de ser jogador brasileiro e à busca de fazer seu pé de meia, normalmente meião. De repente, não mais que de repente, são convocados por um treinador prepotente, que não escuta opiniões alheias, marginaliza atletas consagrados internamente, manda formadores de opinião para o inferno e se acha o melhor do mundo. Esses convocados baixam no Brasil, cheios de vaidade, metidos à fashion, cabeleiras estranhas a cada partida, muita grana no bolso, carrão e mansão, desacatando os pobres coitados da planície e, sobretudo, usando chuteiras de cromo alemão, grifes caras e “salto alto”. Estão mais ligados em se exibir individualmente do que jogar futebol. Faltaram sobriedade e humildade nessa gente. Num país como o Brasil e numa competição dessa ordem é erro fatal.
Pobre torcedor brasileiro, pobre de mim que alimentei esperanças. Lágrimas foram derramadas e até vidas receberam apito final. É preciso saber perder, sem dúvidas. Mesmo que seja num escore tão elástico. Jogo é jogo, minha gente, alguém tem que perder. Esta foi a nossa vez. Paciência! Perdemos feio. Vai ser difícil esquecer. Aliás, jamais esqueceremos...
Mas, a vida continua e o brasileiro deve, agora, focar no embate que viverá em outubro próximo, que é muito mais importante do que os da Copa do Mundo. Precisamos eleger um time capaz de governar de verdade este país, com cabeças competentes, particularmente, nas áreas de Educação, Saúde, Segurança e desenvolvimento econômico. Time que leve o país a uma nova dimensão. Somente para ilustrar: a Alemanha tem 102 prêmios Nobel. A Argentina tem 5 e o Brasil tem ZERO.
Resumo da ópera: o futebol faz parte e sempre fará da vida brasileira. É salutar, é cultural. Mas esta vida precisa melhorar.  O delírio do hexa, deste ano, acabou!

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Imaginamos Errado?

Diante de inúmeros problemas políticos no país, manifestações sociais contrários à Copa e das imensas dificuldades para conclusão da maioria dos equipamentos infraestruturais nas cidades sedes dos jogos, o que mais se ouviu dizer foi o famoso clichê: “imagine na Copa!”. Virou até piada do dia-a-dia. Obras por terminar, insegurança nas ruas, manifestações populares, povo despreparado para receber os turistas/torcedores, ruas inundadas com águas das chuvas de junho, entre outras coisas, foram motivos de preocupação para meio mundo. Incluo-me no grupo dos preocupados. A Nação se dividiu entre os que eram a favor e aqueles contrários à Copa do Mundo no país. Resultou num imenso clima de incerteza. A mídia estrangeira não poupou, de criticas negativas, o Brasil e, sobretudo o Governo brasileiro, que não saiu da “frigideira”. A FIFA, nem se fala. A mais suave das criticas resumia a situação como tendo sido o Brasil uma infeliz escolha. Confesso que concordei muitas vezes.
O tempo passou rápido, muitas obras, de fato, estão inacabadas, outras ficaram no papel e dele dificilmente sairão, o povão, claro, não aprendeu a falar inglês ou espanhol, São Pedro mandou muita chuva em Natal e no Recife, com consequências até mesmo catastróficas na primeira cidade, o acesso à Arena Pernambuco foi, para muitos, uma aventura, mas, a Copa está rolando.  
Contudo, para surpresa de muitos, aqui, no resto do país e no Mundo, os aeroportos funcionam normalmente, não se registra atrasos fora do normal, os hotéis são suficientes e sobram disponibilidades, os transportes públicos funcionam, os torcedores estrangeiros estão se esbaldando, os nativos entraram na onda, deixaram os protestos de lado e caíram em campo torcendo e aplaudindo e, enfim, a Copa do Mundo/2014 está sendo bem avaliada e tida como sendo a maior de todos os tempos. Vamos e venhamos, uma coisa inesperada para nós brasileiros, que contávamos com um fiasco. Um importante jornal francês, que castigou em criticas anteriormente, admitiu, esta semana, que o Brasil está realizando, “ao seu modo”, uma extraordinária Copa e considera que isto é um “verdadeiro milagre”. Fiquei meio encabulado, embora entendendo a surpresa dos franceses, e procurando interpretar este “ao seu modo” que pode ser uma critica velada, assim como, considerar um “milagre” é outro motivo que exige melhor interpretação.
O fato de a coisa caminhar com certa tranquilidade e sucesso reconhecido pelos torcedores  que chegam de fora e pelos que de longe observam o evento, sugere uma serie de considerações que apontem para alguma lógica: a grande parte dos torcedores de fora – a maioria esmagadora é composta de homens jovens – pouco estão se incomodando com falhas de infraestrutura e logística, vieram dispostos a cair na “gandaia”, curtir adoidado cada momento e aproveitar de qualquer jeito. Soube de torcedor alemão que, depois de uma verdadeira aventura para chegar a tempo na Arena Pernambuco (fica bem distante de tudo), relatou de forma hilária tudo que experimentou: “vou ter muito o que contar quando chegar ao meu país”, explicou às gargalhadas. Outro fato que caiu nas redes sociais e se multiplicou ilimitadamente foi de integrantes da torcida norte-americano se esbaldando a caminho da Arena Pernambuco debaixo do maior temporal que caiu na cidade antes da partida entre Estados Unidos e Alemanha. Quem esteve por lá diz que foi impagável ver o espetáculo antes, durante e depois da partida.

 
Curioso é que o que mais se noticia na imprensa estrangeira é a descontração do clima que reina no Brasil, num verdadeiro congraçamento de raças e nações, provando que futebol não combina com política e, mais do que isto, une os povos. Povos tão carentes de, alegria, paz e união. A propósito, quase não acreditei, esses dias, vendo um torcedor estrangeiro afirmar, diante das câmeras de TV, que a Copa do Mundo devia ser sempre no Brasil. Era um cidadão europeu, de certa idade, e habituado a se fazer presente em vários outros Mundiais de Futebol.
Pois é, de repente as manifestações dos contra a Copa se apequenaram, encolheram e foram sufocadas pela alegria e entusiasmo da massa de torcedores que se espalhou pelo país. O brasileiro, antes temeroso, se contagiou, vestiu verde e amarelo, foi aos estádios, cantou a todo pulmão o Hino Nacional e mostrou ao mundo uma Nação – eu repito, Nação – alegre, bonita e vibrante chamada Brasil. Esta Copa vai deixar saudade, ainda que o Brasil não chegue ao embate final no Maracanã, próximo dia 13. Tomara que chegue! Antes de terminar, deixo uma pergunta: será que imaginamos errado?
NOTA: As fotos que ilustram a postagem foram obtidas no Google Imagens.

Tropeços Diplomáticos

Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...