sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ariano Imortal

A casa do meu avô em Fazenda Nova amanheceu, naquela manhã de 1957, no maior alvoroço. Um verdadeiro auê. O Grupo de Teatro Adolescente do Recife havia arrebatado num festival de teatro amador, que terminara nas vésperas, no Rio de Janeiro, o premio máximo com a encenação da peça “O Auto da Compadecida” de certo autor paraibano chamado Ariano Suassuna. Foi a primeira vez que ouvi falar desse Senhor. Muito menino ainda, embora ligado na conversa dos adultos da família Mendonça, acompanhei a euforia que reinava no ambiente. Afinal, naquela casa se respirava teatro o ano inteiro. O resultado maior é a Nova Jerusalém. A razão da euforia daquele dia era o fato de que o ator galã da família – Luiz Mendonça – fazia parte do referido Grupo de Teatro. Ganhar uma medalha de ouro e logo no Rio de Janeiro era tido como uma verdadeira façanha.

 
O Auto da Compadecida já havia sido encenado antes, no Teatro de Santa Isabel, no Recife. Eu quis muito ir, mas, minha mãe disse logo que era uma peça indecorosa e por isso, imprópria para menores de dezoito anos. Eu contava com apenas onze ou doze anos... Conformei-me, muito embora que a curiosidade, peculiar da idade, acendesse meu sinal de alerta naquela manhã de regozijo em Fazenda Nova. Fiquei de olhos e ouvidos atentos a todos os comentários. Foi então que descobri que o texto escrito por Ariano trazia cenas picantes de infidelidade no casamento do Padeiro avarento e sua fogosa mulher, que um padre corrupto, louco por dinheiro, fazia o enterro em Latim de um cachorro, em troca de bons trocados e que outro cachorro descomia dinheiro. Achei, naquele tempo, que descomer seria vomitar e não defecar. Por fim, o autor colocou um Jesus Cristo negro, chocando a sociedade conservadora e catolississima da época. Um Cristo negro era uma blasfêmia. Minha avó, embora muito vanguardista praqueles tempos benzeu-se – em nome do Pai, Filho e Espírito Santo – quando soube desse detalhe. Era carola toda...
O espetáculo premiado, lá no Rio, (Vide foto abaixo) teve a direção de Clênio Wanderley, que fez também o papel do encapetado Chicó e contou com vários atores amadores, entre os quais: Luiz Mendonça (meu tio) interpretando o tal Padeiro corneado, Nina Elva (hoje Ilva Niño) a infiel mulher do Padeiro, José Pimentel que fez o papel do Demônio e Socorro Raposo no papel de Nossa Senhora, entre outros. Lembro que o ator que desempenhou o papel de Cristo era uma lapa de negro, com voz marcante e dentes brancos e brilhantes. Diziam ser um sujeito culto, viajado e que dominava bem o idioma inglês. Um cara diferenciado que abafava no palco.

 
A trupe inteira baixou, dias depois, em Fazenda Nova, hóspedes da casa dos Mendonça e pude me inteirar de tudo, tintin por tintin. Diálogos do escript eram repetidos nas conversas e a diversão era sem fim. Já faz muito tempo... Comentando a morte de Ariano Suassuna, (23.07.14) conversei hoje (25.07.14) com Ilva Niño – que virou minha tia por afinidade, porque casou com Luiz Mendonça – e recordamos alguns daqueles momentos. Demos boas risadas. Orgulho-me de haver vivido esse antanho e registrar com satisfação neste espaço do Blog.
O tempo passou e o Auto da Compadecida se tornou um clássico do nosso teatro e da literatura regional. Foi levado à TV e às telas do cinema mais de uma vez e todo menino de dez anos de idade assiste sem restrições de idade, entende que dá gosto, aplaude e comenta.
Este monstro sagrado da literatura nordestina, chamado Ariano Suassuna – que agora nos deixa fisicamente – operou uma verdadeira revolução no nosso meio social, a partir do Auto  da Compadecida e de outras obras seguintes, desmistificando uma série de ideias e costumes que prevaleciam ainda no seu tempo. A inclusão do Cristo Negro, por exemplo, foi uma alusão ao arraigado e renitente preconceito racial presente na nossa sociedade. Alimentado ainda hoje... Mas, uma das maiores virtudes desse Imortal foi o fato de haver criado um teatro genuinamente regional, com textos que retratam a cultura local, espantando os textos importados, que dominavam a cena da ribalta local e, também, nacional. E fez escola. Quem assiste Um Sábado em Trinta, de Luiz Marinho, percebe bem o que digo. Suassuna escreveu outras magníficas obras que bem dizem dos nossos nexos sociais, a exemplo de A Pena e a Lei e O Santo e a Porca. Na mesma esteira de pensamento fundou o movimento Armorial, misto de erudito com profundos traços de regionalismo, mostrando ao restante do Brasil e do mundo que existe uma cultura brasileira autentica e pura, que deve ser vista, propagada e respeitada.
Tive o privilégio de assistir, várias vezes, suas aulas-espetáculo, das quais sai sempre com muito orgulho de ser conterrâneo desse Homem extraordinário. Nordestino, Ôxente!   
O Brasil chorou sua morte esta semana. As academias de letras regionais e a do Brasil estão com assentos vagos. Mas, o Mestre Ariano Suassuna continua vivo nos seus poemas, textos e demais páginas imortais. O Homem passa, mas sua história será contada por gerações adiante. Então, o Homem Vive. É Imortal.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

    

5 comentários:

Susana González disse...

Q hermosa experiencia !!! Tengo q leerlo.
Susana González (México)

Corumbá disse...

Bela lembrança, muito obrigado!

Almir Reis disse...

Caro Girley

Doce é uma memoria viva de tudo que se relaciona com Pernambuco, para nosso orgulho. Abraços ALMIR REIS

Fernando Moraes disse...

Girley,

Estou adorando seus textos. Além de fornecedor, virei um leitor de seus textos.

Grande abraço.

Fernando M. Moraes

Romero Duarte disse...

Girley
Formidável o seu blog sobre Ariano, principalmente por você fazer aquela referencia
a Fazenda Nova. Quanta saudade daquela tão bucólica vila.
Um abraço de
Romero Duarte.