Vejam vocês,
caros leitores e leitoras, como as coisas “evoluem” no campo da cultura
regional. Na época do carnaval venho sempre criticando a inclusão de cantores
sulistas, interpretes de musicas sem qualquer relação com os ritmos do carnaval
pernambucano, na grade de atrações principais para animar nossos festejos. Tudo
em detrimento dos artistas locais que entram de maneira marginal na programação
oficial e com aviltados cachês. Os convidados de fora são privilegiados com
cachês polpudos e recebidos com honras e salamaleques comuns com grandes
estrelas do show business. Uma
humilhação sem tamanho para os que sabem dos valores da cultura local.
Agora, por
ocasião dos festejos juninos, surge uma nova investida contra a prata da casa regional,
ao se constatar que, nas monumentais programações das festas de Caruaru (PE) e
Campina Grande (PB), as grandes atrações são os chamados cantores sertanejos do
Centro-Sul, em flagrante ofensa aos cantores regionais, discípulos de Gonzagão
e Dominguinhos. Há uma tremenda diferença entre os ritmos nordestinos e aqueles
do Festival de Barretos (SP), berço dos tais sertanejos, onde, aliás, os
cantores nordestinos (como Elba e Dominguinhos) são impedidos de se apresentar para
não ofuscar o brilho dos tais sertanejos. E certamente o fariam. Pensem numa
Elba incendiando aquela arena de touros.
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| Elba Ramalho |
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| Mestre Dominguinhos |
Ora, meu
Deus, onde vamos parar? Por que tanta insensibilidade cultural? Por que tanta
irresponsabilidade desses promotores de eventos e governantes locais? Todos
muito cínicos em defender suas programações insanas. Os safadões, luans, além das
inúmeras duplas sertanejas são as atrações deste ano nos grandes eventos
regionais. São esses que já fazem as cabeças dos nossos jovens. Jovens
nordestinos que nos anos recentes já consideram o frevo e o maracatu ritmos
insuportáveis e logo, logo vão abominar o forró. Pobres coitados, não saberão
jamais o quanto é gostoso garrar de
uma menina e se arrastar num balancê de esfrega-esfrega
sensual de corpos suados e se esbaldar ao som da sanfona, triângulo e zabumba,
de um forró pé de serra. Tudo, obviamente, com um desfilar de vozes genuínas e
cheias de poesia. Ao invés disso, preferem beber (bebe-se muito, hoje em dia) e
assistir de pé as apresentações desses intrusos bem pagos. Ninguém dança
agarradinho e, muito mal, balança o esqueleto. Coisa mais besta! Dançar uma
quadrilha é coisa démodé e sem qualquer
motivação. As quadrilhas atuais viraram outra estupidez, porquanto estão mais
para desfile alegórico do que a dança inocente, brejeira e romântica dos anos
60 e 70.
Não, não sou
contra as mudanças e as inovações. Mas, tenha dó! No caso da Cultura é preciso
ter cuidado. Uma coisa é evoluir, a outra é deletar
(este termo é neologismo e sinal de modernismo!) o que represente valores culturais.
Países da
Europa e da Ásia são mestres da modernidade, mas, preservam cuidadosamente suas raízes culturais e valorizam o repassar
de geração a geração. No Japão, visitando uma indústria de Tecnologia da
Informação, em Kyoto, fiquei surpreso ao me exibirem o layout de circulação dos micros-filamentos de um circuito de minúsculo
chip (do tipo usado na telefonia celular) que reproduzia uma tapeçaria milenar
(muito antes de Cristo) japonesa, cujo original está exposto no Museu Ueno
(Tóquio). Apenas como exemplo.
| Savinho do Acordeon |
Tenho
acompanhado os protestos dos cantores populares regionais contra essas
promoções de forasteiros nos nossos festejos. A cantora Elba Ramalho já colocou
a boca no trombone dos protestos e se ressente da sua exclusão nos festejos da
sua cidade natal, Campina Grande. Aqui em Pernambuco, um dois maiores
defensores do forró e difusor das músicas de Gonzaga e Dominguinhos, Savinho do
Acordeón, (foto acima), não deixa por menos e com o
slogan: “Festa Junina é com forró e não com Sertanejo”, vem denunciando essa dependência
cultural dos desavisados no poder. Danado é que os políticos de plantão fazem
disso, também, uma maneira de cativar os eleitores.
Salvemos o
Forró nordestino, enquanto é tempo.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens e arquivo particular de Savinho do Acordeón.

