sábado, 29 de agosto de 2015

Cruel Conjuntura

Eu não tenho dúvidas de que os assuntos relativos à política e o desandar da economia brasileira não são do agrado geral. Pelo menos no rol dos que me acompanham semanalmente neste Blog. Vez por outra, recebo claros retornos a respeito dessa rejeição. E é compreensível porque as pessoas andam saturadas dessas noticias ou comentários.  Ao mesmo tempo, é impossível passar batido diante desse cenário caótico que atravessamos, na atual conjuntura. No meio do mundo há verdadeiros desastres e aqui “dentro de casa”, nem se fala. Aliás, se fala... Fala-se, sobretudo, que o “fim do poço” ainda está longe de ser atingido. A cada amanhecer, uma novidade bombástica.
Fico estarrecido com as imagens da TV mostrando aqueles pobres coitados asiáticos e africanos buscando melhores meios de sobrevivência em terras da Europa, se lançando em precárias barcas superlotadas e atravessando o Mar Mediterrâneo, na busca de uma terra firme e segura. São jovens em idade ativa, crianças, mulheres e idosos totalmente vulneráveis que, sem meios de sobreviver ou ter segurança e sem esperanças na terra natal, jogam com a sorte na busca de dias melhores. A situação é, muitas vezes, tão extrema que morrer afogado no meio do mar termina sendo uma opção considerada. O que revela a falta total de perspectiva de vida. Doloroso. Estima-se que aproximadamente 300 mil pessoas já empreenderam essa desventura e pelo menos 3.000 já morreram na travessia, somente este ano, segundo os organismos internacionais que monitoram esse movimento migratório.
Ultimamente, o que chama a atenção é que muitos desses estão acampados em Calais (França) aguardando oportunidades para se meter no Eurotunel e atravessar o canal da Mancha, a pé, pegando caronas perigosas ou pendurados – como só Deus sabe – em caminhões de carga, para alcançar a Inglaterra. É uma imagem sem precedentes. Aterradora. São seres humanos em inimaginável degradação social. (Foto abaixo)
Nisso tudo que ocorre na Europa, temos a prova concreta de que os europeus que colonizaram os países africanos e asiáticos estão pagando um preço altíssimo pelas atrocidades e atitudes predatórias que cometeram no passado. Sem nunca planejar um futuro digno e uma relação civilizada, exploraram tudo que puderam dessas nações deixando-as, em meio a lutas sangrentas, na miséria e na desorganização político-social. Eis, então, um colossal desafio para quem está, há séculos, instalado numa zona de conforto invejável. Pobres europeus. Estão experimentando do “pão que o diabo amassou”.
Outra coisa que assusta e não me conformo é a destruição criminosa do patrimônio histórico da humanidade, que vem sendo praticado pelo tal do Estado Islâmico. Esta semana destruíram, sem pena, templos romanos, com mais de 2.000 anos, em Palmira, na Síria. Esses loucos se alastram pelo Oriente Médio, espalhando medo e terror nas nações da região. (Foto a seguir)
Como se tudo isso fosse pouco, para nós de Pindorama, a situação vai de mal a pior. Um espasmo de concórdia rolou nas últimas duas semanas sem que, contudo, surtisse o efeito político desejado. Os “líderes” de plantão – geralmente com os rabos presos – não cedem nem avançam e a Nação sofre cada vez mais. Estamos vivendo um pesadelo nunca visto antes na História deste País. A inflação está corroendo os salários e a tendência é de piora, ao beirar a emblemática casa dos dois dígitos. Estima-se que em setembro ela passe dos 10%. Quando isto acontece, acende-se uma luz vermelha e a grita geral se torna mais clamorosa. O PIB (Produto Interno Bruto), anunciado nesta Sexta Feira (28.08), caiu 1,9% no segundo trimestre deste ano, apontando para o aprofundamento da recessão. Ao mesmo tempo, já se fala em cobrança de CPMF outra vez. Ou seja, mais impostos, no lombo do contribuinte. É desesperador. Se o assunto for desemprego, a coisa fica ainda mais difícil. As demissões na Indústria e no Comércio assustam qualquer analista de são juízo. Aliás, neste país, analisar a situação econômica é puro risco profissional. O que será do amanhã? Ninguém sabe!
O que nos resta, nesta cruel conjuntura, é sentar e orar. Se você não professa nenhum credo, procure um terapeuta que acalme seus ânimos abalados.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.


domingo, 16 de agosto de 2015

Eu vi Hiroshima

Esta semana que terminou, o mundo lembrou com comemorações o final da Segunda Guerra Mundial,  há 70 anos, após a traumática rendição dos japoneses destroçados pela derrota geral imposta pelos aliados e, particularmente, abatidos pelas explosões de duas bombas atômicas que ceifaram as vidas de aproximadamente 200 mil cidadãos civis, nas cidades de Hiroshima (06.08.45) e Nagasaki (09.08.45).
O Japão que formava com a Alemanha, de Hitler, e a Itália, de Mussolini, um Pacto Tripartite, denominado de Eixo, resolveu resistir ao final do conflito que já havia ocorrido nos campos da Europa desde maio anterior, quando as Forças Aliadas (norte-americanos, britânicos, franceses e seus aliados) invadiram a Normandia, no episódio que entrou na Historia como o Dia D.
O Japão era governado pelo Imperador Hirohito (1901-89), um homem orgulhoso, resistente, provido de muita autoridade e comprometido com seus súditos, que o veneravam e lhe atribuíam poderes divinos. Um verdadeiro deus, conforme a tradição japonesa. Hirohito, celebrou um pacto com o Eixo, entrou de cabeça na Guerra e sensibilizou-se com as doutrinas nazistas e fascistas, chegando inclusive a autorizar a organização do Partido Nazista Japonês. Para o Imperador o mais difícil foi reconhecer a derrota que terminou o levando aos mais esmagadores ataques daquele conflito mundial. No processo de reconstrução e reestruturação política  do país teve, por várias vezes, que enfrentar confrontos e atentados dos que o acusavam de criminoso de guerra. Não fosse a benevolência dos comandantes norte-americanos que, por imposição dos Aliados, assumiram o controle do país até 1950, teria sido destronado. Os americanos tomaram medidas democratizantes, anularam o caráter divino do Imperador e instituíram uma monarquia constitucional. Passado o conflito e a retomada da ordem, Hirohito conseguiu dar ao seu país notável impulso econômico colocando-o entre as maiores potenciais industriais do mundo moderno.
Já estive por duas vezes no Japão. A primeira foi no Outono de 1984, quando  fiquei por lá cerca de três meses, participando de um curso de especialização. A segunda vez foi mais recente, em 2012, numa passagem mais rápida defendendo negócios empresariais para Pernambuco e que durou apenas uma semana.
Visitar aquele país é sempre muito oportuno. Desde muito jovem alimentei a esperança de viver essa experiência. Cheguei a produzir, na época de Faculdade, uma monografia sobre a economia e a cultura japonesa, o que me proporcionou um mergulho no mundo nipônico de maneira indelével. Lembrar-me da destruição que sofreram e a maneira como se recuperaram sempre foi algo que exerceu imenso fascínio na minha cabeça de jovem estudante. Quando me surgiu a chance de ir até lá, não tive dúvidas em aceitar. Nem preciso dizer da minha curtição. Ver de perto aquela gente, aquelas paisagens, a pujança econômica, a riqueza cultural marcou-me para o resto da vida.
Uma coisa, porém, quero destacar: sai do Brasil decidido a ver de perto Hiroshima ou Nagasaki. Previamente li alguns livros, reportagens e artigos sobre os episódios das bombas atômicas jogadas sobre essas cidades. O horror que senti ao longo dessas leituras e a crescente curiosidade que alimentei justificavam este desejo.
Com um natural misto de curiosidade e uma pontinha de temor pelo risco de sofrer alguma radiação nuclear – fui recomendado por amigos mais cuidadosos – desembarquei de um Trem Bala (Shikansen), num belo dia de novembro de 1984, na estação de Hiroshima. Confesso que tomado de forte emoção e satisfeito pelo desejo realizado, deparei-me com um cartão de visitas inesquecível: um parque florido, aprazível e caprichado à moda japonesa. Minha primeira impressão foi de imensa surpresa. Fui tomado, desde o primeiro momento, por uma sensação de paz e PAZ foi a palavra que mais ouvi e encontrei grafada nos mais distintos pontos da cidade. A reconstrução é algo monumental e tudo leva a entender a grande intenção de apagar o dantesco quadro que restou daquele 6 de agosto de 1945. Dificil acreditar que ali existiu um momento em que a imagem daquilo que conhecemos como inferno foi reproduzido de maneira rigoroso, devido a uma insana manobra de guerra, sabidamente desnecessária. O Japão se renderia mais dias ou menos dias. Havia perdido a sustentação estratégica que norteava o Eixo e o Imperador teimoso não teria saída. Lamentável.
Percorrer Hiroshima, sua região central, onde a bomba explodiu, e o estarrecedor Museu Memorial da Paz, (vide fotos a seguir) foi uma das melhores lições de vida que recebi. Já visitei também o Museu do Holocausto, em Washington (USA) e não sei dizer onde sofri mais, diante de visões tão estarrecedoras. Ainda hoje não consigo entender como pode haver seres humanos capazes de produzir tantas carnificinas. Em nome de que? Por que? Quanta maldade! O mais repugnante e atroz filme de terror que venha a ser produzido não conseguirá suplantar as imagens expostas no museu japonês.  



No Japão sobrou uma tênue vida, brotou a paz e foi construída a maior e mais forte rede de solidariedade. Das cinzas de Hiroshima surgiram águias vigorosas e precursoras de tempos de progresso que se experimenta no arquipélago japonês.
Eu vi Hiroshima. É uma cidade viva e bela.
A seguir, duas fotos em dois momentos da minha vida no Japão. A primeira em Hiroshima, em 1984, jovem e barbudo seguindo a moda da época, às margens do Rio Motoyasu, vendo-se ao fundo o predio do Banco do Japão, o unico que restou de pé, embora que bem avariado. Este edificio é preservado como ficou após a destruição. A segunda foto, mais abaixo, é do recente 2012, diante do Buda de Kamakura, um cartão postal da Terra do Sol Nascente.

 
NOTAS: 1) As três primeiras fotos foram obtidas no Google Imagens e as particulares são do Arquivo Pessoal do Blogueiro. 2) A primeira viagem ao Japão foi a convite da Japan International Cooperation Agency - JICA, enquanto fui funcionario da Superintendencia do Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE e a segunda viagem foi integrando uma Missão Empresarial de Pernmabuco, representando o Sindicato das Industrias Metalurgicas de Pernambuco - SIMMEPE. 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Cuidado com o mês de Agosto

Quando chega o mês de agosto muitos brasileiros ficam de “orelha em pé” e cheios de expectativas em relação ao quadro político reinante. Eu, pessoalmente, fico torcendo que passe logo. Agosto sempre foi emblemático, politicamente falando, para o país. Conheço político que entra o mês cruzando os dedos, pendura figa no pescoço, se benze e pede aos deuses que o tempo passe logo.
Também pudera, Getúlio Vargas deu fim a vida no fatídico 24 de agosto de 1954, em meio a uma crise política profunda, provocando uma consternação social de dimensão nacional. Janio Quadros, após seis meses de um governo cheio de bombásticas medidas administrativas e ridicularizadas nos quatros cantos de Pindorama, surtou e terminou renunciando no dia 25 de agosto de 1961, provocando uma crise político-institucional que veio desaguar no golpe militar de 1964. Em Pernambuco, particularmente, agosto já proporcionou duas surpresas que entraram na história do estado e do país: a primeira foi a morte súbita do governador Agamenon Magalhães, na trepidante madrugada de 24 de agosto de 1952. Saiu de cena e entrou para a história como tendo sido um governante cruel nas atitudes e perseguidor de prostitutas, afrodescendentes, homossexuais e, sobretudo, seus opositores. A outra surpresa foi mais recente, cuja lembrança ainda está fresquinha nas mentes brasileiras, que foi a trágica morte de Eduardo Campos, no brutal acidente aéreo de 13 de agosto de 2014, em Santos (SP), quando se encontrava em pujante campanha à presidência da República. Diante desses fatos concretos, como não temer os ventos de agosto?
Lembrando-me desses episódios desagradáveis à vida nacional fico, mais do que nunca, desejando que este agosto de 2015, sobrecarregado de crises – econômica, ética, moral e política – seja breve e leve, de uma vez por todas, esses ares malfazejos que vêm soprando o cenário brasileiro desde que encerrado o processo eleitoral de 2014. Uma eleição de diferença apertada entre vencedora e derrotado, não assimilada por setores importantes da sociedade organizada, secundada por uma exposição cruel do estado deplorável no qual a economia brasileira havia sido irresponsavelmente jogada, nos últimos anos.
Bom, uma coisa é certa: não há Governo que se sustente quando provoca tropeços à economia. Quando a cortina de fumaça gerada no Palácio do Planalto para encobrir as manobras de sustentação do poder se dissiparam e a realidade veio a público, um clima de instabilidade sócio-político-econômico implantou-se, cujo controle está perdido até hoje. Ao descobrir a realidade, os próprios eleitores da candidata vencedora, a torcida do Flamengo e o povo em geral, juntos e de mãos dadas, mergulharam de cabeça na maior onda de frustração social, como nunca antes na história deste país. Preocupante é que esta coisa vem rebolando até o presente agosto, no qual forças opositoras deitam e rolam sem dó, muitas vezes de forma irresponsável – sem pensar nos prejuízos que acarretam aos que representam – deixando pessoas, como eu, em permanente expectativa diante de cada novo assalto nesse verdadeiro ringue poliédrico, onde forças políticas antagônicas são medidas a qualquer preço e em qualquer hora.
Ora, minha gente, é lógico que o debate, mesmo que acalorado, além das dialéticas mais apuradas, é necessário e benéfico ao estado democrático. Sem isto, aliás, não existe Democracia. Para isto, contudo, é preciso que haja um Parlamento consciente, comprometido com a Pátria e a Nação, que haja responsabilidade do Estado e, sobretudo, haja líderes de fato que patrocinem a retomada da ordem e do crescimento socioeconômico.  Infelizmente, não vejo nada disso na atual conjuntura brasileira. Estamos como num barco à deriva. Nossa “presidenta” perdeu a bussola que lhe colocaram nas mãos e o descrédito e o pessimismo tomaram conta dos cidadãos. Ao mesmo tempo, as “lideranças” políticas estão mais preocupadas em garantir seus quinhões do que qualquer outra coisa e pouco se incomodam com a coletividade, agora abandonada.
Diante deste quadro caótico urge que apareça um grupo de coalizão política responsável que promova o entendimento como os brasileiros esperam e assumindo o comando dessa locomotiva desgovernada, pare, olhe e escute e, depois, escolha qual caminho tomar. O Brasil merece e o povo vai agradecer. Mas, que façam logo porque agosto está aí.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Furna do Estrago

A presença de primitivos habitantes na região do Agreste Central de Pernambuco, de modo particular no município do Brejo da Madre de Deus, é coisa que ouço falar em família desde que eu ainda vivia minha primeira infância. Em Fazenda Nova, onde moravam meus ancestrais maternos e era meu destino favorito nas férias escolares, este assunto era frequente. A história relatada pelos antigos moradores e caçadores da região dava conta de que havia existido tribos indígenas habitando a região do Brejo. 
Naquela época não me passava pela cabeça a ideia de ir aos mencionados locais – eu pelava de medo – e nem imaginava que se tratava de coisas pré-históricas. Mas, o tempo passou, a idade da razão fez-me entender melhor os fatos e, agora, que atingi uma curva fechada do meu tempo de validade, agucei a curiosidade indo sem medo, conhecer a famosa área da qual fugi “como o diabo foge da cruz” nos ontem da vida.
No passado fim de semana, tive a chance de conhecer o Sítio Arqueológico da Furna do Estrago, nos arredores da cidade do Brejo da Madre de Deus (PE), onde existem preciosos registros da passagem dessa gente primitiva. Fiquei surpreso ao saber que Arqueólogos, Pesquisadores e Historiadores, que estudam a área, estimam que os primeiros indivíduos estiveram por ali há 11.000 anos! 11.000, gente! Cá pra nós, é um bocado de tempo! Uma segunda leva passou por lá há, aproximadamente, 8.000 anos e, por fim, um terceiro grupo há 2.000 anos.
O local que fomos conhecer serviu, há milênios, de abrigo temporário para essas tribos, durante a Era Glacial, quando a Terra estava coberta de gelo. Somente o terceiro contingente de aborígenes teve condições de migrar para as regiões ribeirinhas locais que se formaram, após o fim da glaciação. Foram estes, justamente, que deixaram os mais concretos vestígios das suas formas de vida, hoje preservados graças a uma iniciativa de um grupo de estudiosos cientistas e alunos da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP, onde, aliás, é mantido um museu com preciosas relíquias.
Confesso a emoção que senti ao lembrar-me da época de infância quando tremia de medo daquelas histórias. As viagens frequentes entre Fazenda Nova e Brejo da Madre de Deus eram para mim, em certo trecho, um suplicio devido ao temor que alimentava de sermos surpreendidos por uma emboscada indígena.
Hoje, com visão efetiva do que de fato aconteceu por ali milênios passados, a situação é  permeada de fascínio e muita curiosidade. O acesso ao local é relativamente fácil. A partir dos arredores da cidade do Brejo da Madre de Deus, o visitante empreende uma subida íngreme nas encostas da serra da Boa Vista, também conhecida como Serra do Estrago, até atingir a Furna do Estrago onde os arqueólogos descobriram um cemitério indígena. Para os que desejem visitar o local, aconselha-se a ajuda do guia local, o Senhor Tadeu Tavares de Souza, (Vide foto a seguir), que conhece cada
palmo de terra do local e é proprietário de um sítio, que serve de porta de entrada para o Parque. No inicio da trilha é possível admirar um roçado verdejante, onde Tadeu mantém sua cultura de subsistência (milho, feijão, jerimum, mandioca etc.) e dez cabeças de bovinos, numa demonstração de vida atual e dinâmica. Com poucos metros de distancia tudo passa a ser História. A vegetação da Caatinga  passa a dominar, o solo arenoso e pedregoso acidentado exige maior atenção e um crescente plano inclinado denuncia que estamos subindo a Serra. Respiramos fundo, seguramos melhor as pisadas e, aos poucos, alcançamos uma espécie de pátio amplo, debaixo de um arvoredo frondoso (uma árvore fincada nas rochas chama atenção – vide foto) onde os indígenas mantinham uma espécie de praça, com toscos bancos de granito, onde supostamente se reunião para trabalho e lazer. Vide foto a seguir. O ambiente arejado ali alcançado, sugere uma breve parada para refrescar, embora que ainda não seja o ponto final.

Um pouco mais de subida e eis que se chega ao ponto objetivo da trilha: a Furna que serviu de abrigo durante a Era Glacial e há 2.000 anos serviu de cemitério daquela gente primitiva. Escavando o local nossos arqueólogos encontraram esqueletos de adultos e crianças (sessenta ao todo) em bom estado de conservação e, junto a esses, peças de adornos pessoais dos mortos e instrumentos de defesa, como tacapes.
O ponto alto da visita, que encanta o visitante, fica por conta de uma série de pinturas rupestres, que testemunham de modo vibrante traços da cultura dessa gente que nos antecedeu. Admirável a forma como estão preservadas. Eles utilizavam material de origem vegetal e mineral. De coloração ocre, devido a origem do material utilizado (minério de ferro), as figuras contrastam com o cinza-grafite do granito que serviu de tela. As imagens são de figuras humanas, de animais ou simplesmente geométricas. Ver aquilo mexe com o sentimento humano do visitante e induz a um relacionamento concreto com o passado.
É sempre bom fazer uma trilha nessas plagas brejenses. É um Pernambuco pouco conhecido e carente de divulgação. 
Nessas horas, sinto orgulho de ser pernambucano. Orgulho dos meus antecedentes. E aí, não dá para alimentar dúvidas... Tenho sangue indígena nas minhas veias. Que maravilha. 
A seguir, fotos do nosso grupo na descida da serra.  


NOTA: Fotos das autorias do Blogueiro e de Lúcia Santos, integrante do grupo de visitantes.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sempre nova Fazenda Nova

É bem comum que admiremos mais os lugares distantes e esqueçamos o belo que temos por perto. Parece que o simples fato de saber que determinada atração turística se encontra à mão, termina sendo sempre deixada para depois. Cariocas que nunca subiram ao Corcovado e pernambucanos que nunca assistiram à encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém é fato bem mais comum do que se imagina.
Estes últimos dias, andei pensando sobre essa coisa, ao visitar por duas vezes um mundo que, embora fazendo parte da minha história de vida, vem sempre me surpreendendo e se renovando com sua paisagem peculiar de Agreste Semiárido. Refiro-me às plagas pernambucanas de Fazenda Nova – terra dos meus ancestrais – e Brejo da Madre de Deus, localidades situadas na Região do Agreste Central  de Pernambuco.   
Muitos são os pernambucanos que não têm ideia da riqueza natural daquele mundo mesclado de aridez e brejo, de serras e vales formando um ecossistema que pode deslumbrar um visitante.
Em Fazenda Nova, além da Nova Jerusalém, o visitante não pode deixar de visitar um museu a céu aberto, o Parque das Esculturas Nilo Coelho, para admirar as obras de arte esculpidas e cinzeladas no granito bruto da região, por artistas da terra, formados pelos admiráveis mentores, Diva e Plínio Pacheco, durante a construção da cidade teatro. Foi muito suor e sangue nas veias para extrair a pedra, tratá-la e transformá-la numa permanente exposição de figuras populares do povo nordestino. Vide fotos a seguir.
Num ambiente onde arte cênica abunda, a Mãe Natureza parece aderir ao movimento e se engalana para deslumbrar o visitante. Não é à toa que muitas companhias e produtores de cinema escolhem a região para locação das suas produções.
Outra característica local é a afabilidade da gente local. Antenados e atualizados, no tempo e no espaço, o homem brejense de Fazenda Nova ou da sede do município mantém sinergias diferenciadas capazes de nivelá-los aos hábitos e costumes dos grandes centros. Aliás, percebo que já não existe mais o antigo caipira, nosso tradicional matuto. A programação de TV chega aos mais escondidos grotões dos nossos interiores. Nas brenhas do Brejo da Madre de Deus (PE) é bem comum avistar uma tremenda antena parabólica sobre uma tênue casinha que inacreditavelmente consegue sustentar aquele moderno estrupício. 
Estimulado pela turma jovem (filho e sobrinhos) fiz, semana passada, um programa que nunca me atrevi, quando jovem, ao enveredar pela mata agreste recheada de cactos dos mais diversos, facheiro, coroas de frade e mandacaru, agaves, muitas cercas de avelós (Euphorbia tirucalli) e frondosos  juazeiros (Zizyphus joazeiro), entre outras espécies, para alcançar o alto de uma serra, denominada de Caiana. Trata-se de um lugar remoto, inacessível no passado e somente agora com uma trilha aberta. Nos meus tempos de menino devia ser um lugar para os caçadores mais atrevidos da região. Rara beleza é a forma que encontro para descrever. Quase tudo preservado. O homem poucas vezes andou por lá. A vegetação é de beleza indescritível e totalmente silvestre. Belo programa. (Vide Fotos a seguir) 
 O cume da Serra é uma belíssima formação rochosa, com coloração ferrugem, denunciando, quem sabe, a presença de elementos ferrosos na sua constituição. No alto daquela montanha, admirando meio mundo do meu universo e respirando puro ar da natureza, impossível não pensar: Deus existe!
Pois é. Vendo tudo aquilo me ocorre a ideia de como seria bom um maior aproveitamento turístico de áreas como a que acabo de descrever. Um teleférico ligando Fazenda Nova ao alto da Caiana, por exemplo. Faltam empreendedores, falta poupança, falta um inventário acurado das atrações turísticas no estado. Faltam... muitas coisas. Mas, a velha Fazenda Nova se revela sempre nova. 

NOTA: Fotos do Blogueiro 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Nem todo mal traz um bem

Tenho ouvido com frequência que a Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014,  foi inspirada na famosa Operação Mãos Limpas (Mani Pulite) da Itália, nos idos dos anos ’90 e destinada a apurar um grande esquema de corrupção – semelhante ao constatado no Brasil de hoje – na sequencia de outros escândalos envolvendo o Banco Ambrosiano, este misturado com a Mafia, o Banco do Vaticano e a uma Loja Maçônica, conhecida por P2. Aquilo lá foi um rolo compressor que terminou esmagando a chamada Primeira República Italiana.
Para que se faça ideia melhor, foram 2.993 mandados de prisão, 6.059 pessoas investigadas, inclusive 872 empresários, 1.978 administradores de governos locais e 438 parlamentares, entre os quais quatro ex-primeiros-ministros. Como aqui, a Itália estava metida num propinoduto sem limites, envolvendo negociações de todo e qualquer tipo de contratos do Governo. Detalhe: o início da coisa foi dado a partir de denúncias de um dissidente do Partido Comunista Italiano – PCI que abriu do verbo e revelou que a KGB havia financiado o tal PCI, com pelo menos US$ 4,0 milhões, para sustentá-lo no poder. O Partido Comunista italiano era respeitadíssimo no mundo comunista da época pela sua atuação e liderança. Também pudera, com um caixa altíssimo sustentado por Moscou. Essa denúncia foi inicialmente deixada de lado, para tranquilidade da maioria dos políticos e empresários que se locupletavam do espúrio sistema. Mas foi o próprio Partido Comunista que resolveu reagir, inclusive com respaldo da opinião pública revoltada, passando a cascavilhar o que havia sido empurrado à penumbra.
Faltaram celas nas cadeias italianas para industriais, políticos, advogados e magistrados. Uma dúzia deles cometeu o suicídio. O suicídio mais ruidoso foi o de certo multimilionário, Raul Gardini, (foto a seguir com manchete de jornal da época) empresário “bem sucedido” e muito admirado pelos italianos. Fugas cinematográficas foram registradas. Os empresários pagavam propinas polpudas aos políticos para vencer licitações de construções de ferrovias, autoestradas, edifícios públicos, estádios e na construção civil. Qualquer semelhança (com o Brasil) é pura realidade. Institutos de pesquisas italianos  garantem que o valor médio das obras públicas caiu de modo expressivo, o que seria indício da queda no superfaturamento que se praticava, antes.
Como se pode constatar, o modelo de governar italiano serviu de exemplo para a turma de ladrões brasileiros. Esse juiz Sérgio Moro deve ser um profundo conhecedor do caso italiano e por isso o refere com alguma frequência em seus escritos e declarações. Veja foto a seguir, capa de trabalho publicado em 2004.
Foi Ludwig Von Beethoven que disse uma vez: “tenho paciência e penso: todo mal traz consigo um bem”. Tomo emprestadas as palavras do virtuoso acreditando que o Brasil pode estar sendo passado a limpo com essa devassa que se faz no mundo político-empresarial do país. Estamos atolados numa crise sem precedentes. Porém, alimentemos a esperança de que dias melhores virão, embora nem tudo esteja garantido.
Segundo um amigo italiano, a Mãos Limpas fez um tremendo esforço de limpeza moral na Itália sem, contudo, resolver o problema pela base. O vírus continua bem vivo. A corrupção ainda rola solta na Republica Itálica. Nem a onda severa do Euro deu jeito. O caso mais gritante, no passado recente, tem como personagem central o ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, implicado na Operação e que astutamente se conservou, por longos anos, no Poder. “Pintou e bordou” nos vários poderes do país, sempre em beneficio próprio e engordando sua conta bancária. Um cínico.
O italiano, de modo geral, conclui hoje que a justiça do país não funciona e que a corrupção é um dos principais obstáculos para o desenvolvimento sonhado pelos italianos.
No final da Operação Mãos Limpas, os tradicionais partidos políticos sumiram, a classe empresarial sucumbiu, o setor público segue desacreditado e nunca mais o país gozou do prestigio de dantes. Prestigio calcado num lamaçal de fazer vergonha à sua História esplendorosa.
Fico então, com este exemplo, preocupado com o que virá pela frente aqui em Pindorama. Os políticos e seus partidos estão desmoralizados e as megaempresas envolvidas estão com seus lideres na cadeia. Muitas em franco declínio. Alguns em recuperação judicial. Pelo caminhar do Processo as grandes empreiteiras não terão – pelo menos por longo período – oportunidades de participar de concorrências públicas que é, digamos, o filé dos seus negócios.  Temo que novos aventureiros, inclusive estrangeiros, tomem conta da fatia. O Governo tem incontáveis projetos e obras paralisadas.  Já se fala em chineses sobrevoando o Brasil à cata de obras. Que perigo...
A maioria dos partidos políticos, principalmente o PT, o PMDB e o PSDB estão numa berlinda sem fim. E neste caso temo, também, que nos apareça um “Berlusconi” caboclo qualquer. O Brasil merece coisa melhor.  Aí, minha gente, sou forçado a considerar que nem todo mal traz um bem. Vamos torcer pelo melhor.

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.


sábado, 11 de julho de 2015

O que está ruim pode piorar

Quem sabe, dentro de alguns dias, D. Dilma venham a ter razão ao afirmar que a crise internacional seja a responsável pelas sérias dificuldades pelas quais passa, atualmente, a economia brasileira. Sim, porque até agora não passa de uma “desculpa de amarelo”. Tem sido apenas uma tentativa de enganar a comunidade internacional. A crise de hoje foi toda forjada aqui dentro no governo dela mesma. E as perspectivas não são nada boas...
Vejamos, então, as razões das perspectivas piores: primeiro, a crise que reina na Europa, com a Grécia em clima de falência não pode ser nada bom para meio mundo, incluindo o Brasil. Tudo vai depender das negociações que rolam, neste fim de semana, entre a República Helênica e as autoridades da União Europeia, em Bruxelas. As responsabilidades que os gregos assumirem e as possibilidades de executá-las, definirão o quadro a seguir. A dívida, que é impagável, com o acréscimo que agora pleiteiam do Banco Central Europeu (Vide foto a seguir), de Euros 53,4 Bilhões, se tornará do tipo que vai levar para as calendas gregas (*). Se já era difícil antes, acredito que pior será daqui prá frente.

O segundo motivo, no qual D. Dilma pode se pendurar, é o que se desenha prasbandas da China. A coisa começa a se complicar por lá, também. E esta pode ser uma razão muito mais forte do que a primeira. Nossa dependência é bem maior neste caso. Tudo indica que “estourou uma bolha” que os filhos de Mao inflaram nos últimos anos. O dragão se agitou e anda querendo pegar a turma que esbanjava. A Bolsa de Xangai deu um chabú, em três semanas registraram-se perdas de US$ 3,2 Trilhões (na China os números são sempre fora do normal!), o Banco Central Chinês socorreu com uma injeção de US$ 81,0 Bilhões para os grandes bancos do país, mas, a coisa não garantiu a recuperação. Os chineses estão com as mãos na cabeça.  (Fotos a seguir)

  
Ao mesmo tempo, o FMI reviu seus estudos e já antecipou, esta semana, que a economia brasileira, ao invés de recuar 1%, como anunciado antes, vai decrescer 1,5%, este ano. Olha aí, pessoal, o resultado disto é que o que estava ruim pode ficar pior.
Diante de tantas incertezas, tive a curiosidade de pesquisar dados das relações comerciais entre o Brasil e as duas economias em crise. Consultei as estatísticas do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e descobri coisas bem concretas e que podem revelar os riscos que corremos. Vejamos a seguir.
Com a Grécia – ela em separado – nossas relações comerciais são irrisórias, não causam nenhum temor, nossas exportações, para aquele destino, não passam de US$ 0,1 Bilhão. O país, além de ser um minúsculo mercado (11 milhões de habitantes) foi em 2013 nosso 82º parceiro comercial. Representa 0,1% do comercio exterior do Brasil. Isto, então, não é nada. Os produtos principais das nossas vendas são: café (40% das exportações), açúcar, calçados, fumo, minério de ferro e automóveis. Tudo em quantidades insignificantes em se falando de comércio internacional. O saldo da balança comercial é sempre favorável ao Brasil. US$ 36,0 milhões em 2013.
Já no caso da China a conversa é outra. Mercado fantástico de 1,3 Bilhão de Habitantes e PIB de US$ 10,36 Trilhões. Pense no que seja abastecer esse mundão! Somente em 2014 o Brasil mandou, para consumo dos chineses, toneladas de mercadorias, de diferentes naturezas, que resultou num valor total de US$ 46,0 Bilhões. O Brasil é o 7º maior vendedor para o mercado chinês. Observem que isto representa muita coisa. Ao mesmo tempo, é verdade, compramos deles toneladas de produtos, sobretudo manufaturados (98% das compras), mas, o saldo da balança comercial tem sido sempre favorável ao lado brasileiro. Em 2014 foi de US$ 3,28 Bilhões. É bom, ? Se os chineses entrarem em recessão as exportações brasileiras poderão sofrer tremendo baque. E aí, vem a pergunta mais adequada: para onde venderemos as “montanhas” de soja, minério de ferro, petróleo bruto, açúcar e fumo que habitualmente são produzidas justamente para atender as demandas daquele destino?
Desse modo, minha gente, preparemo-nos para escutar discursos atualizados da nossa “presidenta”. Certamente, mais clamorosos. O bicho pode (vai) pegar.

 (*)Calendas (daí o termo calendário) era o primeiro dia de cada mês no calendário romano. Não havia o termo calendas no calendário grego. Quando os romanos ironicamente falavam das “calendas gregas”, queriam referir-se a uma data que não existia.


NOTA: Dados estatísticos obtidos em www.brasilglobalnet.gov.br e fotos no Google Imagens.

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