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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Furna do Estrago

A presença de primitivos habitantes na região do Agreste Central de Pernambuco, de modo particular no município do Brejo da Madre de Deus, é coisa que ouço falar em família desde que eu ainda vivia minha primeira infância. Em Fazenda Nova, onde moravam meus ancestrais maternos e era meu destino favorito nas férias escolares, este assunto era frequente. A história relatada pelos antigos moradores e caçadores da região dava conta de que havia existido tribos indígenas habitando a região do Brejo. 
Naquela época não me passava pela cabeça a ideia de ir aos mencionados locais – eu pelava de medo – e nem imaginava que se tratava de coisas pré-históricas. Mas, o tempo passou, a idade da razão fez-me entender melhor os fatos e, agora, que atingi uma curva fechada do meu tempo de validade, agucei a curiosidade indo sem medo, conhecer a famosa área da qual fugi “como o diabo foge da cruz” nos ontem da vida.
No passado fim de semana, tive a chance de conhecer o Sítio Arqueológico da Furna do Estrago, nos arredores da cidade do Brejo da Madre de Deus (PE), onde existem preciosos registros da passagem dessa gente primitiva. Fiquei surpreso ao saber que Arqueólogos, Pesquisadores e Historiadores, que estudam a área, estimam que os primeiros indivíduos estiveram por ali há 11.000 anos! 11.000, gente! Cá pra nós, é um bocado de tempo! Uma segunda leva passou por lá há, aproximadamente, 8.000 anos e, por fim, um terceiro grupo há 2.000 anos.
O local que fomos conhecer serviu, há milênios, de abrigo temporário para essas tribos, durante a Era Glacial, quando a Terra estava coberta de gelo. Somente o terceiro contingente de aborígenes teve condições de migrar para as regiões ribeirinhas locais que se formaram, após o fim da glaciação. Foram estes, justamente, que deixaram os mais concretos vestígios das suas formas de vida, hoje preservados graças a uma iniciativa de um grupo de estudiosos cientistas e alunos da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP, onde, aliás, é mantido um museu com preciosas relíquias.
Confesso a emoção que senti ao lembrar-me da época de infância quando tremia de medo daquelas histórias. As viagens frequentes entre Fazenda Nova e Brejo da Madre de Deus eram para mim, em certo trecho, um suplicio devido ao temor que alimentava de sermos surpreendidos por uma emboscada indígena.
Hoje, com visão efetiva do que de fato aconteceu por ali milênios passados, a situação é  permeada de fascínio e muita curiosidade. O acesso ao local é relativamente fácil. A partir dos arredores da cidade do Brejo da Madre de Deus, o visitante empreende uma subida íngreme nas encostas da serra da Boa Vista, também conhecida como Serra do Estrago, até atingir a Furna do Estrago onde os arqueólogos descobriram um cemitério indígena. Para os que desejem visitar o local, aconselha-se a ajuda do guia local, o Senhor Tadeu Tavares de Souza, (Vide foto a seguir), que conhece cada
palmo de terra do local e é proprietário de um sítio, que serve de porta de entrada para o Parque. No inicio da trilha é possível admirar um roçado verdejante, onde Tadeu mantém sua cultura de subsistência (milho, feijão, jerimum, mandioca etc.) e dez cabeças de bovinos, numa demonstração de vida atual e dinâmica. Com poucos metros de distancia tudo passa a ser História. A vegetação da Caatinga  passa a dominar, o solo arenoso e pedregoso acidentado exige maior atenção e um crescente plano inclinado denuncia que estamos subindo a Serra. Respiramos fundo, seguramos melhor as pisadas e, aos poucos, alcançamos uma espécie de pátio amplo, debaixo de um arvoredo frondoso (uma árvore fincada nas rochas chama atenção – vide foto) onde os indígenas mantinham uma espécie de praça, com toscos bancos de granito, onde supostamente se reunião para trabalho e lazer. Vide foto a seguir. O ambiente arejado ali alcançado, sugere uma breve parada para refrescar, embora que ainda não seja o ponto final.

Um pouco mais de subida e eis que se chega ao ponto objetivo da trilha: a Furna que serviu de abrigo durante a Era Glacial e há 2.000 anos serviu de cemitério daquela gente primitiva. Escavando o local nossos arqueólogos encontraram esqueletos de adultos e crianças (sessenta ao todo) em bom estado de conservação e, junto a esses, peças de adornos pessoais dos mortos e instrumentos de defesa, como tacapes.
O ponto alto da visita, que encanta o visitante, fica por conta de uma série de pinturas rupestres, que testemunham de modo vibrante traços da cultura dessa gente que nos antecedeu. Admirável a forma como estão preservadas. Eles utilizavam material de origem vegetal e mineral. De coloração ocre, devido a origem do material utilizado (minério de ferro), as figuras contrastam com o cinza-grafite do granito que serviu de tela. As imagens são de figuras humanas, de animais ou simplesmente geométricas. Ver aquilo mexe com o sentimento humano do visitante e induz a um relacionamento concreto com o passado.
É sempre bom fazer uma trilha nessas plagas brejenses. É um Pernambuco pouco conhecido e carente de divulgação. 
Nessas horas, sinto orgulho de ser pernambucano. Orgulho dos meus antecedentes. E aí, não dá para alimentar dúvidas... Tenho sangue indígena nas minhas veias. Que maravilha. 
A seguir, fotos do nosso grupo na descida da serra.  


NOTA: Fotos das autorias do Blogueiro e de Lúcia Santos, integrante do grupo de visitantes.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sempre nova Fazenda Nova

É bem comum que admiremos mais os lugares distantes e esqueçamos o belo que temos por perto. Parece que o simples fato de saber que determinada atração turística se encontra à mão, termina sendo sempre deixada para depois. Cariocas que nunca subiram ao Corcovado e pernambucanos que nunca assistiram à encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém é fato bem mais comum do que se imagina.
Estes últimos dias, andei pensando sobre essa coisa, ao visitar por duas vezes um mundo que, embora fazendo parte da minha história de vida, vem sempre me surpreendendo e se renovando com sua paisagem peculiar de Agreste Semiárido. Refiro-me às plagas pernambucanas de Fazenda Nova – terra dos meus ancestrais – e Brejo da Madre de Deus, localidades situadas na Região do Agreste Central  de Pernambuco.   
Muitos são os pernambucanos que não têm ideia da riqueza natural daquele mundo mesclado de aridez e brejo, de serras e vales formando um ecossistema que pode deslumbrar um visitante.
Em Fazenda Nova, além da Nova Jerusalém, o visitante não pode deixar de visitar um museu a céu aberto, o Parque das Esculturas Nilo Coelho, para admirar as obras de arte esculpidas e cinzeladas no granito bruto da região, por artistas da terra, formados pelos admiráveis mentores, Diva e Plínio Pacheco, durante a construção da cidade teatro. Foi muito suor e sangue nas veias para extrair a pedra, tratá-la e transformá-la numa permanente exposição de figuras populares do povo nordestino. Vide fotos a seguir.
Num ambiente onde arte cênica abunda, a Mãe Natureza parece aderir ao movimento e se engalana para deslumbrar o visitante. Não é à toa que muitas companhias e produtores de cinema escolhem a região para locação das suas produções.
Outra característica local é a afabilidade da gente local. Antenados e atualizados, no tempo e no espaço, o homem brejense de Fazenda Nova ou da sede do município mantém sinergias diferenciadas capazes de nivelá-los aos hábitos e costumes dos grandes centros. Aliás, percebo que já não existe mais o antigo caipira, nosso tradicional matuto. A programação de TV chega aos mais escondidos grotões dos nossos interiores. Nas brenhas do Brejo da Madre de Deus (PE) é bem comum avistar uma tremenda antena parabólica sobre uma tênue casinha que inacreditavelmente consegue sustentar aquele moderno estrupício. 
Estimulado pela turma jovem (filho e sobrinhos) fiz, semana passada, um programa que nunca me atrevi, quando jovem, ao enveredar pela mata agreste recheada de cactos dos mais diversos, facheiro, coroas de frade e mandacaru, agaves, muitas cercas de avelós (Euphorbia tirucalli) e frondosos  juazeiros (Zizyphus joazeiro), entre outras espécies, para alcançar o alto de uma serra, denominada de Caiana. Trata-se de um lugar remoto, inacessível no passado e somente agora com uma trilha aberta. Nos meus tempos de menino devia ser um lugar para os caçadores mais atrevidos da região. Rara beleza é a forma que encontro para descrever. Quase tudo preservado. O homem poucas vezes andou por lá. A vegetação é de beleza indescritível e totalmente silvestre. Belo programa. (Vide Fotos a seguir) 
 O cume da Serra é uma belíssima formação rochosa, com coloração ferrugem, denunciando, quem sabe, a presença de elementos ferrosos na sua constituição. No alto daquela montanha, admirando meio mundo do meu universo e respirando puro ar da natureza, impossível não pensar: Deus existe!
Pois é. Vendo tudo aquilo me ocorre a ideia de como seria bom um maior aproveitamento turístico de áreas como a que acabo de descrever. Um teleférico ligando Fazenda Nova ao alto da Caiana, por exemplo. Faltam empreendedores, falta poupança, falta um inventário acurado das atrações turísticas no estado. Faltam... muitas coisas. Mas, a velha Fazenda Nova se revela sempre nova. 

NOTA: Fotos do Blogueiro 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ching-Ling no Brejo

A cidade do Brejo da Madre de Deus, no Agreste de Pernambuco, é uma cidade antiga, com registros de mais de 250 anos e berço de muitas famílias ilustres, incluindo barões e senhores poderosos na política imperial e republicana do estado. Tem um conjunto arquitetônico colonial de muita beleza e, mais ou menos, conservado. (Foto acima). Nos seus arredores ainda são encontrados remanescentes dos batavos, que após a chamada Restauração Pernambucana, no século 17, procuraram se refugiar, por falta de recursos financeiros e logísticos. Nunca voltaram para a Holanda e se radicaram naqueles confins do passado. Terminaram se misturando com os nativos e exercendo uma grande influencia no biótipo local. São muitos os atuais habitantes da região que denunciam – com a pele claríssima e sardenta, além de olhos bem azuis – essa mistura de raças.
Ando sempre por essas bandas, devido aos meus laços ancestrais, pelo lado materno. Como se diz atualmente, curto muito circular pela cidade e, particularmente, pela Feira livre que acontece ali a cada Sábado da graça de Deus. Não preciso dizer que dia de feira no interior é dia de festa. E eu gosto, que me enrosco, de uma festa
Sábado passado – aproveitando a ida para os festejos de São João, na roça – não perdi a chance de dar meu passeio pelo Brejo. Fui em caravana com a família. Em vários carros saímos de Fazenda Nova (mais ou menos 20Km. de distancia), estacionamos nos arredores e nos espalhamos no meio do povão, em pleno burburinho das compras e vendas. Chegamos bem na hora do pico.
Mesmo com o passar dos tempos, o cotidiano interiorano é tão divertido, como no passado. É fácil observar que as meninas assanhadas e as vitalinas encalhadas, de hoje, se comportam com as mesmas manhas e cavilações do passado, um pouco mais ousadas, talvez. Vão pra rua, enfeitadas dos pés à cabeça e beiços pintados de carmim, para catar namorados. Fingem que vão às compras, mas, o foco é outro. Os mancebos, que não se fazem de rogados, deitam e rolam no terreiro. Tudo estrategicamente pensado. Uma disputa sem fim... Antigamente, eles chegavam a cavalo. Quanto mais belo o alazão mais predicados o cara reunia. Hoje, o cavalo é de aço. São motos potentes, enfeitadas, brilhantes e barulhentas, com uma garupa disponível para aboletar a penitente escolhida. Interior, ontem ou hoje, é sempre uma graça.
Como a modernidade tem sempre um apelo muito forte, os brejenses não deixam passar nada. Afe Maria! Jamais! Por exemplo: ao invés de pano, vendido em peças de três a cinco metros, no meio da feira, que seria levado à uma costureira e transformado num vestido de festa, a freguesa atual encontra o vestido prontinho na hora, sem trabalho de procurar modelo num figurino, muitas vezes desatualizado, ou discutir o preço do feitio. Agora, ela escolhe um modelo exposto numa banca da feira, prova – tem provador improvisado com criatividade e prático (vide foto abaixo ) agarrado à bancada de venda – e pronto. Nessas condições, dando no corpo e no preço, o negócio é fechado. E ainda pode rolar uma barganhazinha, coisa comum no interior. Ah! Como Brejo da Madre de Deus fica próximo ao Polo de Confecções de Santa Cruz do Capibaribe/Caruaru/Toritama, os últimos lançamentos da moda estão ao alcance das brejenses e em primeira mão, segundo D. Graciete (nome fictício), uma vendedora local. “Ôxente moço, tá brincando? São modelos tirados das novelas da Globo! Última moda, visse?”. Sem dúvidas, uma senhora vantagem.
Mas, não somente as meninas dispõem de “boutiques” da moda, na feira do Brejo. Os marmanjos compram calças jeans cheias de rasgões e emendas indisfarçáveis - que é moda -, bordados exóticos, botões metálicos e adereços de gostos duvidosos. Para completar, levam também uma camiseta de malha preta com uma caveira, em paetê, aplicada, sabendo que aquilo é o must do momento... Dali, saem direto pro forró das noites juninas, esbanjando charme e safadeza para as clientes de D. Graciete. Êita vidinha simples e gostosa!
Agora, tem uma coisa nova e o que mais me impressionou, na feira de sábado, foi o local destinado aos importados. É inacreditável. Uma invasão de produtos ching-lings. A matutada se aglomera ao redor das bancadas, da feira, que se apresentam empestadas de relógios, rádios, aparelhos de som, telefones celulares, brinquedos, produtos de informática, utensílios domésticos, chapinha de alisar cabelos, ferramentas, cutelaria, calculadoras, filmadoras, entre outros inúmeros itens. Tudo Made in China e a preço de banana. Vendem a rodo, como acontece na Rua 25 de Março, em São Paulo.
Diante daquele quadro, que, certamente, se repete nos mais distantes grotões brasileiros, “sacolejei meus miolos” e cai na real: senti que estamos perdidos com essa concorrência desleal. Meus amigos da Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, com sede em São Paulo, que denunciam a desindustrialização do Brasil, precisavam ver aquilo.
É um Brejo dos tempos modernos! A matutada (será que ainda existem matutos?) dá o maior valor e volta pra casa com a bolsa cheia de modernidades importadas. Ponto para a competência chinesa! Que jeito? ching-ling nos brejenses.
NOTA: Fotos dos arquivos do Google (1) e da autoria do Blogueiro (2).

Tropeços Diplomáticos

Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...