quarta-feira, 5 de outubro de 2022
Irresponsabilidade Profissional
As eleições do domingo passado (02.10.22) como de se esperar provocaram, no antes e no depois das urnas apuradas, uma onda interminável de discussões e opiniões das mais diversas, divergentes e exacerbadas, típicas do Brasil dividido politicamente desde 2018. Surpresas não faltaram. Vencedores (e semivencedores) comemorando, derrotados em desespero e parte significativa da sociedade incrédula diante dos resultados. Incrédula, sobretudo, em face das discrepâncias grosseiras entre os números prognosticados pelos institutos de pesquisas e a realidade saída das urnas. Em 21 estados e no Distrito Federal muitas dessas discrepâncias foram conferidas. Indiscutivelmente, as pesquisas eleitorais que antecederam ao pleito deste ano revelaram um retrato de incompetência dos vários institutos que se prestaram a um autentico desserviço à sociedade. Digno, aliás, de revolta e desprezo geral. A rigor um crime social, se é que podemos considerar assim. Afinal, a sociedade tende sempre a se pautar por esses números que são levados a publico. Nada bateu certo e todos que se habilitaram estiveram bem distantes do que na realidade se confirmou na noite do domingo.
No item das diferenças percentuais entre os dois principais candidatos à Presidência da República, então, foi uma verdadeira desmoralização. Enquanto o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral cravaram numa diferença de apenas 5,23 pontos percentuais, importantes institutos de pesquisas (Ipec/Globo, Datafolha, Ipespe, entre outros) haviam calculado diferença na casa dos 14%, com margens de segurança elevadas. Mais do que isso, chegaram a prever a vitória do ex-presidente Lula no primeiro turno. Vamos e venhamos foi uma baita surpresa porque afinal, e neste caso especifico, a diferença entre 5,23 e 14% é uma coisa fora de discussão. O candidato Lula com sua militância viu-se obrigado a abortar a festa da vitória armada na Avenida Paulista, em São Paulo. E aos pesquisadores coube a desventura amargar as ácidas criticas da sociedade e, se brincar, devem ter enterrado suas caras no massapê do brejo mais próximo que acharam.
Pessoalmente confiei em alguns números apontados e dei como certo um resultado que ao final não se confirmou e, pelo contrário, andou bem distante do que esperei. Desapontado recordei que, por força do meu oficio, pautei minha trajetória profissional realizando pesquisas sérias e estudos nelas baseados que até hoje alimentam uma crença inabalável no oficio de pesquisador. Ao longo dos anos perdi a conta das pesquisas para quais tive que estabelecer termos de referências técnicas, estudar a natureza do meio a ser pesquisado, checar as estratégias de segurança, operacionalizar o levantamento da base informacional e analisá-la devidamente. Tudo com responsabilidade profissional, para servir a uma sociedade que me remunerava para tanto. Desse modo confiei cegamente no que projetaram para essa eleição de domingo.
Constatar, hoje, que esses institutos de pesquisas eleitorais podem ter atuado de modo irresponsável ou blefando contra uma sociedade carente de segurança se tornou para mim numa das mais cruéis das decepções. As pesquisas das eleições majoritárias – presidente da republica, por exemplo – foram as mais expostas e são as que mais estão em discussão. Pior, contudo, deve ter sido para candidatos a cargos legislativos que alimentaram ilusões de vitórias, baseados em pesquisadores irresponsáveis, quando no final amargaram derrotas. Pagaram pela incompetência de profissionais que visaram tão somente faturar, aproveitando a oportunidade apresentada pelo mercado. As desculpas que formulam estão longe de serem assimiladas e o estrago tende a se ampliara diante das iniciativas de processos judiciais que formalizam e, até mesmo, a instauração de uma CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito, na Câmara Federal para apurar mais a fundo por onde passam os verdadeiros interesses, bem como identificando os interessados por tamanha atrocidade. No meu humilde entender, porque não sou especialista na área, foi um crime de lesa-pátria.
De uma coisa estou certo: este nefasto imbróglio dificilmente será esquecido e esses irresponsáveis amargarão um profundo desprestígio no mercado de trabalho. Lembro que essa fase de pesquisas eleitorais tem seu tempo e sua ocasião. Fora esse momento de eleições os institutos de pesquisas ou os pesquisadores autônomos sobrevivem realizando pesquisas de outras naturezas, entre as quais as de opinião pública e as de mercado. Eu não teria coragem de encomendar uma pesquisa mercadológica das potencialidades do meu produto a um desses irresponsáveis.
No lugar deles estaria revendo os valores profissionais da empresa e da minha equipe, as atitudes éticas e os instrumentais metodológicos. Só para começar.
E para o Segundo Turno das eleições nem quero saber dos prognósticos.
NOTA: Foto ilustrativa obtida no Google Imagens
sábado, 1 de outubro de 2022
Noite Tenebrosa
Para quem já viveu bom tempo de vida e acompanhou episódios políticos
surpreendentes e muitas vezes indesejados, ainda se surpreende e estranha o
baixo nível dos quadros políticos nacionais, ao assistir a um debate televisivo
como o de ontem à noite (29.09.22), no qual se confrontaram os candidatos à
Presidência da Republica. A três dias do grande pleito eleitoral, quando sairão
eleitos Presidente, governadores estaduais e legisladores dos níveis estadual e
federal, o país parou diante das telinhas de televisão na expectativa de ver o
que os candidatos prometiam e se comprometiam. Ao final do embate, em plena
madrugada, restou-me a sensação de haver assistido a uma surreal película
cinematográfica, mal dirigida e com personagens saídas de um manicômio. Foi uma
noite tenebrosa. Pior, uma sensação de futuro incerto e assustador. Decepcionado
com tanta “porcalhada” exibida recordei que, por oficio, trabalhei tenazmente,
durante mais de quarenta anos, buscando contribuir para construção de um país
digno e seguro para meus filhos, netos e descendentes. Resultado foi que tive
uma noite mal dormida e marcada pelas incertezas que rondaram celeremente na
minha mente cansada e perplexa.
Surpreendeu-me mais ainda, ao amanhecer, escutar opiniões parciais e ingênuas
até, de analistas políticos ou diversos curiosos que consideram haver ocorrido
sucesso num ou noutro candidato e que o episodio fortaleceu o sistema
democrático hoje vigente. Ouvi elogios inclusive à presença de um candidato
Padre ou um travestido de Padre sobre o qual prefiro não perder tempo tecendo
comentários. Infelizmente estamos à mercê de uma geração de formadores de
opinião desonestos e pouco comprometidos com as próprias responsabilidades
profissionais cujas intenções parecem ser, tão somente, incutir falsas ideias
nas cabeças de uma sociedade saturada de sofrer e sem esperanças de dias
melhores. Destarte, é preocupante pensar ser governado por um daqueles tipos tão
despreparados como os vistos, ao vivo e a cores, “rasgando sedas” e “jogando
pérolas aos porcos”, mentindo sem pudor e sem medo de expor o nome do Brasil no
ambiente internacional, que somente aconteceu. Quase me enfio debaixo do sofá
quando uma candidata disse que existem, hoje no Brasil, 130 Milhões de crianças
órfãs de pais que morreram divido à pandemia da Covid-19. Ora, meu Deus, num
pais de algo em torno de 230 Milhões de habitantes essa conta tem que estar
errada. O IBGE que se cuide. Outra coisa inacreditável que escutei foi de que
naqueles cinco minutos de entreveros, tête-a-tête, de dois dos candidatos
“três mil árvores haviam sido derrubadas na Floresta Amazônica”. Abismado,
fiquei imaginando que naquela velocidade de destruição, ao amanhecer a principal
noticia da imprensa seria de que a destruição da Floresta estava prestes a ser
concluída. Mas, eu seria injusto em afirmar que não ocorreram propostas de
governo. Apesar da danação e despautério, ocorreram sim. Mas, essas,
lamentavelmente, foram prometidas por candidatos com poucas chances de vitória
e, por isto mesmo, abusaram da oportunidade de jogar irresponsavelmente para o
publico suas ideias, a meu ver, inexequíveis e verdadeiras quimeras. Zerar as
dividas dos inadimplentes, criar um imposto único nacional, equipar todos os
hospitais públicos – sem exceção – com toda sorte de equipamentos modernos,
alocar médicos nos rincões mais remotos do país e transformar todas as escolas
publicas do país em escolas de tempo integral foram exemplos de belas propostas
declamadas. Com os devidos ajustes e exequibilidades poderiam servir de boas
referencias para os que “perigam” sair vencedores. Estes, contudo, só tomaram
seus tempos de uso da tribuna para se agredirem e darem demonstrações de
imaturidades politica e republicana. Coisas, aliás, que certamente desconhecem
pelo que proporcionaram aos, segundo estimativas publicadas, 70 Milhões de
telespectadores. Neste domingo de 2 de Outubro de 2022, não nos resta outra
coisa senão fazer uma opção. Que jeito... Nada garante ser uma opção acertada.
Bom seria que houvesse a opção do NENHUM DESTES. Difícil, porém, seria recomeçar
o processo. Mais do que nunca se exige do eleitor o cumprimento do seu mais
importante papel de cidadão, que é exercer o voto e, ao menos, fortalecer a
democracia. Se for verdade de que “é errando que se acerta” vamos tocar pra
frente. Que noites tenebrosas como a de ontem, nunca mais se repita.
segunda-feira, 19 de setembro de 2022
Voto Consciente
Fui cobrado por leitora do Blog para adotar um posicionamento a respeito do próximo pleito eleitoral brasileiro. Pela maneira da cobrança chego a acreditar que posso até parecer um alienado em relação às atuais démarches politicas do país ao não explorar o tema com mais efetividade neste espaço semanal. De fato, venho evitando adotar publicamente uma posição a favor de um/a ou de outro/a candidato/a e ter que mergulhar numa vibe de campanha que não é propósito deste Blog, ao menos desta vez. Ando decepcionado com tudo que vejo ultimamente. Garanto, contudo, que já fiz minhas escolhas e tenho cá minhas preocupações devido ao clima de animosidade partidária reinante, em decorrência da polarização exacerbada, bem como quanto ao resultado que emergirá das urnas. Considero que estamos diante de um expressivo desafio político. Desafio duro, até mesmo, para o regime democrático. Acrescento ainda que entre minhas preocupações, a depender do resultado final, venha a se dar o recrudescimento da disputa insana entre o bem e o mal, hoje instalada, levando o país a um estágio socioeconômico nada favorável, face as atuais demandas nacionais. A interminável luta pelo poder deteriora qualquer plano de Governo. Outra preocupação que me ocorre é observar que a grande maioria do eleitorado nunca esteve tão perplexa e, segundo alguns críticos, sem sequer ter ideia segura do número de candidatos que deve eleger esquecendo, sobretudo, das escolhas dos futuros legisladores estaduais e federais que, a meu ver, podem ser os principais atores políticos a serem escolhidos. São estes que traçam os caminhos a serem seguidos pela sociedade. Para mim são eles que mandam e desmandam. É tudo muito complexo e lamentável. Resumo da ópera: corre-se o risco de se perder mais uma oportunidade de colocar o país nos adequados trilhos da Ordem e do Progresso. Almejo que cada eleitor ou leitora tenha consciência e entenda o papel importante que desempenha e pense na coletividade. Que não venda seu voto, que saiba escolher um candidato com condições reais de representá-lo/a e lute de forma republicana pelo bem da sociedade. Posso não atender a cobrança da minha leitora, mas estou tranquilo com minha consciência. Tomara que ela também esteja. NOTA: Foto ilustração obtida no Google Imagens.
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
Fim de Uma Era
A temporada de verão do Brasil, em 1968, começou com uma grande novidade: a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, agendou uma visita oficial ao país. No imaginário popular essa coisa rendeu milhões de fábulas e quimeras. Aqui no Recife essa coisa se tornou um fascínio sem precedentes, inclusive porque a cidade seria o primeiro ponto de parada da Monarca britânica. Os preparativos se desdobraram meses e dias para a grande recepção que se daria à ilustre visitante, apesar das poucas horas da visita.
Quando falo de imaginário popular refiro-me ao tradicional culto aos ares de nobreza que, sem perceber e ainda hoje, povoam as cabeças plebeias dos brasileiros, desde o berço, quando os recém-nascidos são tratados como “príncipes” ou “princesas”. Essa coisa, indiscutivelmente, faz parte da cultura dos habitantes de Pindorama. E não fica por aí! A meninada cresce sempre ouvindo histórias de reis e rainhas, príncipes e princesas, incutindo um traço de pensamento arraigado e que se transmite por gerações de modo continuo. Todo pai orgulhoso ou toda mãe vaidosa, no Brasil, exibe seu rebento novinho com um “chegue ver meu príncipe!” ou “venha ver minha princesinha!”. Pode ser herança dos tempos do Império, também, mas que acontece assim, isso acontece. Foi nesse clima e aura ambiente que Elizabeth II aterrissou na cidade numa bela e ensolarada tarde de novembro de 1968. Já reinava por aproximadamente quinze anos.
Eu já era um sujeito amadurecido, cursando uma universidade, apoiando os movimentos de oposição à ditadura militar “reinante” no país, que tendia endurecer e perseguir de maneira inclemente o cidadão que falasse em democracia. Foi justamente o ano do AI5 e o General Costa e Silva ocupava a cadeira principal da Praça dos Três Poderes, em Brasília, de modo totalmente “poderoso”. A visitante foi chamada, por muitos, de fascista e monarca decadente, sem poder qualquer e num cargo anacrônico, em pleno século 20. Lembro que quando alguém queria denigrir um politico sem prestigio ou um detentor de cargo sem poder efetivo era logo comparado à Rainha da Inglaterra, que, segundo muitos, fazia um papel decorativo.
Muito embora tudo isso, a população entrou na vibe da visita real e fez bonito para receber Sua Majestade. Aqui no Recife, o pernambucano se encheu de orgulho – coisa comum na gente da minha terra – porque a cidade estava como primeiro ponto de parada na programação de visita. Lembro, aliás, com saudades, de ver minhas irmãs mais novas cheias de entusiasmo e olhos brilhando sob a perspectiva de ver de perto a Rainha da Inglaterra. Com razão, porque afinal de contas não era qualquer um que podia ver de perto uma Rainha. Esperavam certamente uma daquelas dos contos de fadas que cresciam escutando. Alguma coisa teria de ser feita para matar os desejos das manas. Chegado o dia D, o Governo do Estado decretou feriado local e colocou todas as facilidades para que a população fosse às ruas saudar Elizabeth II. Noticiou-se, à época, que cerca de 200 mil pessoas foram receber a visitante. Bandeirinhas do Brasil e do Reino Unido em punhos, estudantes e populares não mediram esforços para ver de perto uma rainha em carne e osso, no trajeto entre a Base Aérea do Recife e o Palácio do Campo das Princesas (Eita!), sede do Governo Estadual, no Centro do Recife. Eu também fui para Avenida Boa Viagem (posicionei-me no muro do casarão de um tio) pra ver a Rainha passar. Com uma Yashica em punho documentei o Cortejo Real bem de próximo. Hoje lamento não saber onde foram parar essas fotos que bem poderiam estar ilustrando este post. Claro, que tive o cuidado de levar comigo minhas irmãs e irmãos menores para assistir ao desenrolar daquela história. Sem dúvida foi uma visita histórica e marcante na sociedade. Divertido, foi saber depois, que muitos sonhavam em ver passar uma rainha com manto, coroa e cetro. Viram passar, num carro aberto, uma Senhora com traje comum e sóbrio, ao lado do governador biônico da ocasião. “ Lá vem a Rainha!”, “cadê, cadê?!!!” “Ôxe, é aquela mulé?” “ E cadê a coroa dela?”. “Acho mais bonita e melhor ver Dona Santa, Rainha do Maracatu, no carnaval, gente!”. Que decepção ...
Hoje com a noticia da morte de Elizabeth II, no 8 de setembro de 2022 recente, essa história é revisitada e se repete na mídia que não cessa de render homenagens à mais longeva monarca que se tem conhecimento. Aos 96 anos Elizabeth II deixa um legado histórico, reconheça-se, invejável. Encerrou uma Era Histórica.
Foi-se a Mulher e surge um Mito. Teve a altivez e a coragem de reinar até a última hora. Com altos e baixos não cedeu um instante sequer. Cedeu, acredito que esperneando, à fatídica Senhora Morte à qual ninguém consegue resistir. Poderia ter renunciado bem antes a favor de Charles – agora Rei Charles III – mas, não. Preferiu deixá-lo de molho. Dizem as línguas ferinas que matou de raiva, por longos anos, a hoje “Rainha” Consorte, Camila Parker Bowles, pela qual Elizabeth não nutria grandes simpatias. Aliás, em matéria de descendência e aderentes, Elizabeth II teve que amargar muitos perrengues. Marido, Irmã, filhos e netos não pouparam a velha Senhora coroada. O caso da Lady Di , naquela tumultuada relação com o atual Rei e seu acidente fatal em Paris, foi certamente o mais emblemático. Quase derrubou a popularidade da monarca. Reagindo rápido, no capítulo final da Historia de Diana, cedeu e conseguiu se equilibrar.
Agora acabou. Mais de 70 anos de uma Era que chega ao fim. Escreveu uma longa História. Encerro meus comentários de hoje sem tratar dos episódios políticos que a Monarca teve de protagonizar. Seria impossível neste espaço semanal. Lembro, contudo, que o Reino Unido, onde sol nunca se punha, e a ela foi delegado, já não é o mesmo de sete décadas passadas. Encolheu consideravelmente. E Elizabeth não pode fazer muita coisa. Muito bem! Que repouse em paz. E, Rainha morta? Rei Posto! God bless the King!
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
Democracia é o tema
Defender a Democracia parece ser o fado da sociedade brasileira ao longo da sua História. É inegável que motivos justos não faltam em face das investidas – algumas bem sucedidas – que já levaram o país a viver ondas de intranquilidade e perspectivas incertas. Sou de uma geração pós-guerra provavelmente a mais fustigada por ameaças desse tipo. A Guerra Fria no domínio da politica internacional, as reações regionais e locais terminaram por conduzir a sociedade internacional a severas e dolorosas lições de regimes pouco desejados. Perderam-se vidas e inteligências preciosas. No Brasil foi duro viver no denominado Estado Novo (1937-45), regime ditatorial de Getúlio Vargas, na democracia disfarçada do mesmo, nos anos 50, e no período da Ditadura Militar (1964-85). Passada a fase negra e restaurada a Democracia, a partir de 1985, com a vitória de Tancredo Neves numa eleição realizada num Colégio Eleitoral, o Brasil vem esperneando na busca de equilibrar seu regime democrático a duras penas conquistado. Campanhas e lutas intermináveis se repetem até hoje e registros históricos estão postos à disposição da sociedade por meios analíticos dos mais diversos.
Agora, na perspectiva das eleições gerais (Presidente, governadores estaduais e distrital, senadores, deputados federais e estaduais), no próximo dia 2 de outubro, novamente as forças antagônicas se mobilizam e investem acirradamente, em nome da Democracia, com propostas dirigidas, em larga escala, a um universo de sociedade perplexa e alimentando esperanças de tempos melhores. Nada disso, contudo, vem sendo apontado como possibilidades nas propostas de governo dos candidatos que se cansam de repetir suas já cansadas retóricas de campanhas. Não percebem que o interesse do cidadão comum não é comungar das suas insaciáveis sedes de poder, mas sim vislumbrar possibilidades de ocupar um lugar digno num mundo acima do que habita, onde não haja famintos, desempregados, analfabetos, idosos abandonados, preconceito racial, entre outros desvalidos. Num processo social espúrio, como só ocorre, argumentos ideológicos de Politica se multiplicam com, quase sempre, inúteis e duvidosos formatos, confundindo o menos esclarecido que, lamentavelmente, forma a grande parcela do eleitorado. Para completar o voto vira moeda de troca e é comum ser posto a leilão, nas periferias e cafundós do país, onde os mais poderosos economicamente sempre pagam melhor e sufocam candidaturas promissoras e democráticas de raiz. Pior, grande parte do eleitorado termina sem saber em quem votou porque na hora da sessão eleitoral o que importa é quanto faturou vendendo seu voto. Pesquisas oportunas mostram que uma maioria expressiva já não sabe ou não se lembra do candidato ou candidata a quem deu seu voto no pleito anterior.
Resultado é que fica difícil e bem remoto pensar numa verdadeira Democracia devido à forma como o processo ocorre historicamente. Segura mais essa Brasil!
NOTA: Foto obtida no Google Imagens
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
Sociedade Cambeta
O titulo pode ser um exagero, mas, vai este mesmo. Os mais jovens talvez nunca tenham visto ou ouvido falar do termo cambeta. Poderão entender se, porventura, deem-se ao trabalho de ler esta postagem até o final. Vamos lá.
Faz bem pouco tempo que nos surpreendemos com o vandalismo cometido por ladrões inescrupulosos contra o Parque das Esculturas, no Marco Zero do Recife, onde o artista-escultor, pernambucano, Francisco Brennand deixou uma das suas mais importantes obras, saudando a chegada do século 21. Roubaram inúmeras partes ou peças inteiras daquela monumental coleção, um orgulho para todo Pernambuco, que terminaram derretidas nas pequenas e clandestinas fundições que existem nas redondezas do Grande Recife. Uma lástima e, certamente, um golpe execrável nos meios artísticos nacionais. Polêmica instalada em torno do fato e findou numa inútil busca pelos culpados. Sociedade revoltada responsabilizando as autoridades pela falta de segurança e pela falta de zelo com o patrimônio público deu em nada. Puxa daqui e empurra para acolá o governo local arranjou verba e tratou de recuperar o Parque. Dinheiro do contribuinte, claro.
Como os malfeitores ficaram anônimos e, por conseguinte, livres das penalidades cabíveis voltaram a agir, recentemente, praticando novas barbaridades e, para não variar, tendo como objetivo saquear obras históricas do Recife. Na semana passada levaram uma imensa placa de ferro fundido, instalada por mais de 100, na velha ponte Mauricio de Nassau, contendo inscrições históricas sobre a referida construção – primeira ponte urbana construída na América do Sul – que liga os bairros de Santo Antônio e do Recife. Tem sua historia sempre lembrada como a ponte do Boi Voador de Nassau. Datada do século 17 e construída pelo Conde Mauricio de Nassau, que, à época, governava o Brasil Holandês. A construção atual em concreto, não é a original, é mais ampla e melhor disposta, datada de 1917. Com estilo neoclássico abriga quatro imensas belíssimas estátuas nas cabeceiras, representando a Sabedoria, a Agricultura, a Justiça e o Comércio, produzidas em ferro-fundido, na Fundição Val d’Osne, na França. A placa roubada estava, por mais de cem anos, afixada sob a estátua da Justiça. Que ironia. Vide foto a seguir.
A coisa, porém, parece não ter fim. A semana que passou deu-se por falta o busto de ferro-fundido, também, de Frei Caneca, exposto numa praça do centro do Recife, desde 1981. Homenagem ao líder revolucionário pernambucano, ferrenho opositor do Governo Imperial, e um dos promotores da Revolução Republicana de 1817 e da Confederação do Equador. Foi fuzilado por ordem imperial em 1825, no local onde estava o busto roubado, a Praça das Cinco Pontas.
Quem não se lembra do roubo da Taça Jules Rimet de Futebol, conquistada após o tricampeonato de futebol mundial da seleção brasileira? Foi roubada do Museu da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no centro do Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1983, causando um forte impacto de revolta nacional. Sem que fosse resgatada, descobriu-se que os bandidos a negociaram com um comerciante de ouro argentino que a derreteu e “torrou-a nos cobres”. Teria sido uma vingança dos hermanos? Deve ter sido, isso sim, um bom negócio para os gatunos porque, afinal, eram três quilos e meio de ouro maciço! Foto logo abaixo.
O que leva um indivíduo ou uma quadrilha cometer tamanhos absurdos? Fome, maldade, falta de educação e civilidade, covardia, revolta social? Aspectos inexplicáveis, em minha opinião. Saquear um patrimônio público, apagar traços importantes da História de um povo, impunidade, falta de percentimento social, marginalidade, estraçalhar a memória pátria, negar o que de bom foi guardado como herança de uma sociedade, enfim, o que pensar dessa gentalha? Fica claro que as coisas estão sendo muito relaxadas neste país. E, mais uma vez, lembro que falta uma politica pública de Educação que ensine o que significa respeito ao próximo, civilidade, honestidade, sociedade, politica, enfim tudo aquilo que venha a formar cidadãos e sociedade sadia. A proposito, esta semana, estive num evento (Festival Virtuosi de Gravatá) e na abertura foi executado o Hino Nacional. Para minha surpresa uma grande parcela da plateia não se abalou, manteve-se sentada e parecia que escutavam uma marchinha de carnaval qualquer. Um casalzinho de namorados, ao meu lado, sorria e, acredito mesmo, que achava estranha aquela minha postura de pé e respeito ao que se ouvia. Claro, aquilo me chocou profundamente. Minha leitura do momento foi que já não se forja patriotismo e respeito aos símbolos da Pátria como no passado. Resultado está aí: nasce, a olhos nus, uma sociedade cambeta, isto é, manca, cambaleante e coxa. Pobre Brasil, ziu, ziu!
sábado, 13 de agosto de 2022
Seleção de Debochados
Além das futricas politicas rotineiras no nosso quotidiano, uma verdadeira piada de mau gosto ganhou luzes nas redes sociais, desta semana, dando conta de que a Comissão de Esporte da Câmara Federal aprovou um requerimento para criação de um grupo de trabalho destinado a acompanhar a preparação da seleção brasileira para Copa do Mundo de 2022, a se realizar no Catar entre os dias 21 de novembro e 18 de dezembro. Proposta de um certo Deputado baiano que atende pelo nome de José Rocha (União/BA). O parlamentar justificou sua ideia afirmando que “a imagem da seleção está em baixa e, por causa disso, o futebol brasileiro tem se afastado cada vez mais do público. Precisamos então recuperar esse esporte que, além da função social indiscutível que possui, é considerado paixão nacional”. Também pudera, depois do Mineraço de 7 x 1 impostos pela seleção alemã na Copa realizada dentro de casa!
Para dar conta dessa nobre missão o grupo deve contar com o empenho de onze deputados. Um time de futebol! Me engana que eu gosto... Para reforçar sua justificativa o parlamentar arredondou que “a proposta desse Grupo de Trabalho é provocar discussões dentro deste colegiado e junto à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade máxima do futebol brasileiro, como parte de um conjunto de esforços para resgatar a imagem do Brasil como o país do futebol”. Nem precisava dizer, o texto da proposta foi aprovado por unanimidade.
Posso imaginar, assim como qualquer brasileiro sério e honesto também, o entusiasmo dessa reunião e a disputa acirrada para a formação do Grupo. É preciso ser muito idiota para não acreditar que o objetivo do Grupo não é nada do que ficou assentado na proposta aprovada. Muito mais fácil, óbvio até, é entender que o objetivo precípuo é o de levar o Grupo ao Catar, para conferir o resulto de tão “grande esforço”, assistir de camarote aos jogos do torneio, com todas as despesas pagas por nós, os babacas contribuintes. Onze “engraçadinhos” formando uma Seleção de Debochados, nas Arábias. Imagino que aqueles que correm risco de derrota nas urnas de Outubro envidarão os maiores esforços para cumprir tão difícil missão e não perder a boquinha.
É lamentável e revoltante viver num país, pobre e lascado, onde tantas corrupções e tramoias parlamentares são cometidas impunemente e acobertadas legalmente, nas barbas do cidadão. Cidadão Eleitor que esquece tudo na hora de exercer seu papel de decisão do próprio futuro e o da Nação, nas urnas eleitorais.
Por oportuno, e não querendo ser injusto nas minhas criticas, fui conferir na Legislação as atribuições da Comissão em tela e catar (desculpe o trocadilho!) uma relação entre estas e o que se desenhou para o Grupo recém-criado. Resultado é que nada me garante que haja relação entre as duas coisas, haja vistas que são atribuições da Comissão do Esporte: debater e votar os temas relativos à i) sistema desportivo nacional e sua organização; politica e plano nacional de educação física e desportiva; e ii) normas gerais sobre desporto; justiça desportiva.
Não consegui identificar a rubrica orçamentária da Comissão do Esporte, na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) ou no Portal da Transparência (das aparências?), embora, creia que seja exígua como tem sido em casos de outras dotações e de outras comissões ou pasta administrativa. Curioso, entretanto, é ter a certeza de que comunidades situadas nos grotões do Brasil anseiam por incentivos financeiros e apoios governamentais para desenvolver atividades desportivas entre seus membros, muitos dos quais revelando potenciais habilidades e com concretas possibilidades de se tornarem estrelas nas diferentes modalidades esportivas. Infelizmente, ficam apenas no plano da ansiedade. Ao contrario disto, onze debochados parlamentares prestam-se para compor um “faz de conta” e, por fim, viajar em classe executiva, se hospedar em hotéis babilônicos de Doha, comer e beber do melhor, dispor de um carnê de ingressos à livre escolha para os jogos do troneio, fazer programas de “mil e uma noites” e, se brincar, voltar se mostrando exaustos da “farrinha” parlamentar. Haja verba para custear essa estupidez parlamentar. Tenha dó. Quisera poder votar contra todos esses debochados em outubro. Acorda Brasil!
NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens / Charge da autoria de Gazo.
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