sábado, 16 de julho de 2022
Três Tropeços
O Brasil assistiu nos dias recentes três episódios degradantes que retratam, de modo cruel, uma sociedade deteriorada e, pior, com limitadas perspectivas de adequado progresso. Foram coisas que para mim representam três tropeços sociais de um país que vem deixando de dar atenção devida, ao longo de décadas, aos corretos e necessários programas de desenvolvimento social. Faltam providencias e investimentos para melhorias das áreas de educação, saúde, segurança, assistência social, cidadania, habitação, urbanismo e outros correlatos que possam garantir a existência de uma sociedade minimamente digna e justa. Crianças, jovens e idosos vêm, cada vez mais, sendo penalizados para viver. Melhor dizendo, sobreviver.
O primeiro tropeço que listo é o caso da garotinha de 11 anos que grávida, após estupro, teve negado o direito de realizar o aborto, por uma incompetente magistrada de plantão. O caso teve repercussão nacional e terminou sendo revisto. O Ministério Público Federal (MPF) atuou de imediato e, com bases legais, a garota foi submetida à cirurgia de interrupção da gravidez. Hoje, ela se recupera do trauma, com apoio psicológico. Sou frontalmente contra o aborto. E já fiz recentemente matéria manifestando minha posição. Contudo, não deixo de lamentar um episódio dessa ordem e trazer à roda de discussão esse possível direito. Recuperar-se-á mesmo? Mais triste fiquei quando tomei conhecimento de que o estuprador teria sido um priminho da garota com 13 anos de idade. Mais do que isto, fiquei sabendo também que eram namoradinhos! Neste caso, o caso ganha nuances bem discutíveis: teria sido estupro mesmo? Ou foi algo consentido? Certamente que se deram ao prazer de se conhecer melhor! Simples e possível nestes tempos de agora. Naturalmente que se trata de duas crianças pouco orientadas ou acompanhadas pelos cuidados dos pais ou responsáveis. Examinando arquivos sobre o caso, na Internet, deparei-me com uma infinita lista de casos semelhantes. Cheguei à conclusão (parece que tardiamente) ser muito mais comum do que se imagina estes episódios, entre crianças e membros familiares resultando em casos de gravidez indesejada. Curioso que, entre muitos casos, me impressiona o recente da garota recifense, também de 11 anos, que procurou um hospital público, grávida de oito meses, para fazer um pré-natal. Ficou grávida de um irmão de 29 anos! E, neste caso, a gravidez é de alto risco e não pode ser interrompida devido ao estágio avançado da gestação. Um irmão e de 29 anos! Esse animal, para mim, só tem de gente os olhos. Um sujeito com essa idade, agredir uma irmãzinha de 11 anos e engravidá-la é definitivamente ignóbil. Por oportuno registro que, apesar de haver no Brasil uma legislação protetora, inserida no Código Penal (Lei 12.015/2009), para amparar as vitimas de abusos sexuais, grande parte destas resistem em denunciar os agressores, por motivos dos mais diversos, tais como medo, vergonha, pressão social, burocracia, “respeito” ao membro da família ou simples ignorância. É nessa hora que se percebe a falta de uma bem montada estrutura institucional social e uma justiça mais enérgica e punitiva exemplarmente.
Abusar sexualmente de vulneráveis parece ser tolice diante da mente doentia do médico anestesista estuprador, Giovanni Quintela Bezerra, no município de São João do Meriti, estado do Rio de Janeiro. Eis aí outro tropeço social inqualificável e revoltante. É inacreditável que um profissional de saúde, desse nível nobre e superior, tenha a coragem de estuprar uma paciente anestesiada e em plena mesa de cirurgia, inserindo seu órgão genital na boca da desacordada paciente dando vazão à sua fúria animal. Asqueroso, criminoso e bandido podem ser qualificativos ainda leves para classificar um indivíduo dessa índole. Presume-se que o criminoso usava de medicamento excessivo e desnecessário para atuar de modo “tranquilo e relaxante”. A Polícia já identifica pelo menos 30 mulheres como vitimas. Preso e incomunicável o “médico” está sujeito a severas penas e obviamente cassação dos direitos profissionais. Qualquer pena estipulada ainda será pouco.
O terceiro tropeço que reporto é aquele ocorrido em Foz do Iguaçu (oeste do estado do Paraná), onde, dois antidemocráticos militantes da atual campanha polarizada à presidência da Republica, travaram um duelo exacerbado, resultando na morte de um e outro ferido gravemente. O bolsonarista tresloucado provocou e o lulista reagiu, terminando por dar uma amostra da imaturidade politica que se reproduz neste país dividido politicamente. Assusta, naturalmente, porque a campanha de fato não foi deflagrada. Medidas mais severas devem ser tomadas pelas autoridades competentes para evitar outros derramamentos de sangue. Lamentavelmente, é numa dessas horas que se percebe quão verde é a democracia do país. Teremos muito que trilhar para alcançar a maturidade.
Tomara que, de tropeço em tropeço, sejamos um dia o tal país do futuro conforme prometido pelos nossos ancestrais.
NOTA: Foto obtida no Google Imagens
terça-feira, 12 de julho de 2022
Rio Maravilha
Há locais que, quando chego, sinto a sensação de estar em casa. O Rio de Janeiro é um desses. Estive por lá, esses dias recentes, cumprindo um compromisso social familiar, ocasião em que, por oportuno, aproveitei para rever espaços e locais por onde vivi momentos memoráveis do passado, principalmente, da minha juventude dourada e onde aprendi a sentir o Brasil de raiz. A chamada Cidade Maravilhosa (para muitos, nos dias de hoje, Cidade Perigosa) continua sendo, indiscutivelmente, a mais linda do planeta. À proposito, essa classificação deixou-me com dúvidas durante muito tempo. Mas, depois de percorrer outras inúmeras paragens nos quatro cantos do mundo, não alimento mais qualquer dúvida. Ocorre, também, que o Rio tem uma magia especial e própria do local. Acredito que sejam o quadro natural, o colorido do mar e das matas, as montanhas que o emolduram e o povo ajudam de modo definitivo. Reina sempre um clima de festa. A gente que vive por lá parece saber melhor celebrar a vida. É um quê muitas vezes inexplicável e curioso. Dessa vez fiz questão de ficar hospedado em Copacabana. Por ali, consegui rememorar a efervescência da vida carioca. Na primeira oportunidade corri para o calçadão, à beira mar, e, como tantos outros, dei uma “manera” caminhada, respirando o ar do mar, sem máscara destes tempos abomináveis de pandemia, observando o comportamento daquela sociedade que não deixa a “peteca cair” e toca pra frente uma vida como merece ser vivida.
Louras, morenas, jovens e velhas, corpos apolíneos ou ex-isto, brancos e negros, crianças, cadeirantes, enchem o calçadão no horário matinal do sábado, todos a caráter, como numa cena preparada para ser exibida aos meus olhos e na forma que desejei. Ah! Meu Rio de Janeiro, como me faz bem te rever. Quanta coisa boa me fazes recordar.
A Copacabana de hoje difere bastante dos dias da minha juventude. Antes não havia o calçadão. Um grande aterro foi construído nos anos 70 e uma nova cara foi dada ao bairro mais famoso do Brasil. No passado, a Avenida Atlântica tinha apenas duas faixas de rolamento. Horas do dia, conforme o rush, invertia o sentido. O que existe hoje, uma vasta extensão de praia, abriga uma miscelânea de atividades que resume o espirito carioca: bares, restaurantes, ambulantes, feira de badulaques e souvenires, artistas em plena atividade, entre outros. Não agrada a muitos. É verdade. Mas, está tudo lá fazendo a festa.
O Rio, porém, não se resume à Copacabana, claro. Por sorte tive tempo de “baixar” em outros pontos tão importantes quanto os da área praieira. Fui, inclusive, ao bairro boêmio da Lapa, levado pelo meu filho digital-influencer numa das suas coberturas. O antigo bas-fond carioca é atualmente um local divertido, colorido e cheio de atrações. Vale à pena ser visitado. Bares e restaurantes, sambões e boates para todos os gostos fazem da noite carioca aquilo que o público nativo ou visitante procura. Estivemos num dos mais movimentados, o Carioca da Gema, onde uma parcela da bateria da Mangueira se apresentava e levantava a clientela na noite de uma quinta-feira. Fomos recebidos pelos donos do pedaço e, sem dúvida, foi bem divertido.
Um capitulo à parte da cidade do Rio de Janeiro está no item da gastronomia. Come-se muito bem naquela cidade. Os cardápios são dos mais variados e para todas as exigências e desejos. Dos mais simples aos mais sofisticados. Mas, indo lá, prepare a carteira. As coisas não são nada em conta. Aliás, nem vou citar nomes para não cometer uma falta. Como pobre gastei mais do que devia. Mas, não tem dinheiro que pague um prazer fora do programa e de surpresa. Sim, porque cada vez que solicitei “passar a régua de uma conta” vinha uma surpresa. Não vou esquecer-me do quanto custou um café expresso, no Forte de Copacabana. Paguei. Claro! Mas, paguei certo que me cobraram a vista panorâmica de Copacabana no fim de tarde. Deslumbrante, tudo bem. Valeu Colombo!
Para não deixar de falar de insegurança, como é comum em qualquer local do Brasil de hoje, devo dizer que circulei, com minha família e em inúmeros pontos da cidade, com razoável tranquilidade e observei que a policia local está sempre alerta e de prontidão com guarnições motorizadas. Naturalmente que por onde estivemos a situação não oferece tantos perigos, mas, pergunto: onde se circula com segurança total, aqui no Recife? Ou em São Paulo? O Rio de Janeiro seria exceção?
Salve o Rio! Sempre a Cidade Maravilhosa.
NOTA:1)Fotos da autoria do Blogueiro. 2) Não deixe de ler na Coluna á direita a janela Para sua Reflexão
quarta-feira, 22 de junho de 2022
QUEBRANDO O JEJUM
Após dois anos de jejum, por conta da Pandemia, o interior nordestino está acendendo fogueiras e rendendo homenagens aos santos juninos Antônio, João e Pedro. Aqui em Pernambuco o movimento é grande e por coincidir com o clima de pré-campanhas politicas os festejos se intensificam e o povão se esbalda além das medidas. Ocorre que essa “mistureba” de retorno aos folguedos cruzado com a componente politica termina gerando um incrementado caldo, a meu ver, anticultural como nunca visto pelas nossas bandas.
Já faz algum tempo que observo a marginalização dos genuínos ritmos populares, originados nas raízes culturais locais. A sanfona, a zabumba e o triangulo vêm sendo esquecidos pelos conjuntos e arranjadores musicais contratados pelos organizadores dos festejos, neste caso, quase sempre, ligados às autoridades municipais. O forró autêntico, chamado pé de serra, vem se tornando coisa do passado e muito mal é lembrado nas grandes festas de locais como Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). Não por falta de artistas defensores do ritmo, mas, por interesses outros, como os de “lavagem de dinheiro” e agrados à galera jovem. São estes que terminam por exigir valores alienígenas que, sequer domina o menor compasso emitido pelo tradicional trio de ritmistas, prestigiados no passado e comandantes dos arrasta-pés, no chão de terra-batida, até o acabar do gás do candeeiro e o dia raiar. Tudo bem... Hoje a luz é elétrica, o som pode ser propagado até o mais distante espectador e a noite se prolonga mais do que antes. Contudo, para uma questão não tem resposta: precisava esquecer as músicas de Gonzaga? As de Dominguinhos? E aplaudir as dos valores mais atuais e vivos? A situação é tão critica que esses vivos sequer são convidados a contribuir com a animação dessa retomada. Ao invés disso, os convidados têm sido “outros” que não trazem relação com a cultura local e que terminam impondo seus ritmos e suas letras musicais duvidosas a uma galera – termo modernoso para denominar a jovem guarda – crentes de que se trata da mais genuína forma de cultura popular.
Por outro lado e por oportuno, observo que seguindo essa onda de “repaginação” da cultura junina ocorreu, no passado recente, um processo radical de mudança nas danças e indumentárias das nossas tradicionais quadrilhas juninas. Nossa tradicional dança matuta se transformou num festival de danças modernas, nada relacionadas com o que vivenciamos no passado. Coreógrafos especializados, figurinistas renomados são mobilizados. Deu samba! Sim, parece mais uma ala de escola de samba, em desfile pelo carnaval. O assunto é polêmico e, correndo o risco de ser mal interpretado, considero que cometeram um equivoco irremediável. Nunca é demais para registrar que a quadrilha junina foi trazida pelos colonizadores portugueses, herdeiros das tradições inglesas e francesas. Nas suas origens a dança da quadrilha era a forma de comemorar o fim de uma colheita. Os europeus eram (e são) sempre gratos por usufruir dos frutos da terra. Uma vez por aqui, as coisas seguiram do mesmo modo. A colheita do milho, no mês de junho, a produção das iguarias com os grãos dourados e a alegria da fartura reinante induziam os agricultores a festejar. E a forma de agradecer era se reunir para dançar a quadrilha. Tudo muito romântico e salutar. As roupas e as danças seguiam moldes culturais de raízes profundas. As calças remendadas dos cavalheiros e os vestidos de babados, com aventais remetiam aos hábitos dos campos de colheita. Tudo muito brejeiro e cultural. Essa chamada repaginação em voga apagou o que de histórico foi desenhado e executado por nossos ancestrais.
Nossa “galera” jamais saberá o significado histórico das nossas festas juninas. Vão crescer e transmitir para frente algo novo e sem amarração logica ou plausível. Lamento que meus filhos e netos não tenham tido as chances que eu tive. Ficarão crendo que guitarras estridentes, “bate-estacas” e percussões de arrebentar quarteirões, além de vozes estranhas são coisas normais. Essa forma de quebrar jejum é lastimável.
quarta-feira, 1 de junho de 2022
Volta Nassau, volta!
Quando vejo, outra vez, a minha cidade do Recife ser castigada e tomada pelas águas das chuvas torrenciais, como as desta última semana de maio, deixando um rastro calamitoso de mortes e prejuízos materiais, recordo dos cuidados e visão futurista dos colonizadores portugueses e holandeses que nos antecederam, segundo os registros históricos. O português Duarte Coelho (primeiro donatário da Capitania de Pernambuco) quando, em 1535, chegou procurando um sitio seguro para estabelecer a sede da sua administração elegeu locais altos e numa tirada famosa exclamou: “Oh linda situação para se construir uma vila!”. O local foi o da atual Sé Metropolitana. Estava fundada nossa joia preciosa que é Olinda. Claro que o donatário estava consciente de que além da beleza atlântica – incluindo a graciosa enseada de Del Chifre – havia uma imensidão de alagados e mangues que, com qualquer temporal, arrasaria a urbe que nascia. Já os holandeses, que encontraram a cidade do Recife instalada, (1630), perceberam os riscos de enchentes e devastações que o sitio, plano e ao nível do mar, prometia a olhos nus e trataram de adotar providencias. Daí, compartilho um registro curioso: o mais notável administrador do domínio holandês foi o Conde alemão Johan Mauritius van Nassau-Siegen (o popular Mauricio de Nassau - Vide Foto abaixo) que percebendo os perigos sinalizados pela paisagem do entorno, mandou trazer da Corte uma equipe de engenheiros, cientistas e artistas para fomentar o progresso na Holanda Tropical que lhe confiaram. Com experiência acumulada na construção dos famosos diques na Holanda da época, dotaram o Recife da época de um sistema de drenagem garantidor da segurança e tranquilidade para seus moradores. Pois bem, segundo se registra, é o mesmo que garante a drenagem das águas pluviais na Ilha do Recife (Bairro do Recife Antigo) e boa parte do bairro de Santo Antônio. Verdade histórica ou não, o fato é que tudo isso se observa nas ocasiões dos periódicos sufocos provocado pela Mãe Natureza. Os holandeses foram expulsos em 1654 e deixaram essa experiência para a posteridade.
Naturalmente que o tempo passou, as cidades cresceram de modo acelerado, sobretudo no século 20, e o quadro natural sofreu abalos e agressões da urbanização selvagem resultando nos sistemáticos problemas de convivência homem-natureza. Ilhas, antes existentes, foram desaparecendo e, aos poucos, dando lugar a aterros mal estruturados e equivocados. Muitas dessas antigas ilhas restam apenas nas denominações. Quem conhece bem o Recife sabe que as Ilhas do Retiro e do Leite são bons exemplos. Hoje são extensas áreas ocupadas com espigões que formam a selva de pedra recifense, abrigada sobre os aterros desordenados e destruturados (falta de galerias de drenagem) e da especulação imobiliária. Ocorre que a natureza, sem dar bolas para isto, sempre que oportuno vem cobrar o que dela tomaram. Desnessário lembrar que o crescimento populacional, incluindo o decorrente dos fluxos migratórias campo-cidade, lota as franjas da Metrópole Recifense e o caos se instala após qualquer milimetragem pluvial extra dos nossos tempos.
Obviamente, que as autoridades que administram a cidade e o estado são responsáveis por grande parte das crises. A natureza é inadiministrável mas o espaço urbano pode ser desenhado de modo adequado. Venho denunciando ao longo da existência deste Blog (desde 2007) que o Recife é, definitivamente, uma cidade abandonada. Há, pelo menos, 20 anos que o Recife vem sendo governado por uma récula de políticos amadores, muito mais interessados em se manter no poder do que governar de fato e honestamente como prometido nas campanhas eleitorais. São gestores improvisados por forças politicas ultrapassadas e, sobretudo, desonestas. Não se conhece uma politica social adequada aos movimentos de crescimento da cidade. A especulação imobiliária se aproveita da incapacidade governamental reinante, usa de todos os meios que dispõem para burlar os códigos éticos e urbanísticos, agindo de modo corruptivo, enquanto a urbe vai se deteriorando à vista de todos. Habitação popular, educação, saúde e segurança seriam os grandes pilares de uma politica correta e necessária ao Recife. Segundo os institutos de pesquisas é a pior capital estadual do Brasil em termos de indicadores sociais. Abunda a pobreza miserável. A população marginal se vira como pode e não vislumbra chances de viver dignamente. Faltam-lhes moradia segura, educação e saúde. Sem ter onde morar como desejado, se “encostam” nas barreiras frouxas dos periféricos altos desequilibrados ou montam palafitas nas marés que circundam a cidade. Para enganar os inocentes habitantes das áreas mais elevadas, os gestores municipais cobrem de mantas plásticas as encostas como proteção das chuvas do inverno. E os ribeirinhos sequer são lembrados. Chuva vem, chuva vai e os problemas sociais só se agudizam. Vergonha. Mostrar a periferia da Metrópole, a um visitante, e ter de explicar o significado daquelas mantas negras é algo desolador. Como faz falta um Nassau destes tempos! Volta Nassau, volta! NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens
sexta-feira, 27 de maio de 2022
Mundo Selvagem
Entre coisas assustadoras na vida dos norte-americanos – que podem ser inúmeras – uma certamente se destaca pela frequência e ousadia: surtos de loucura em jovens que praticam chacinas em escolas, universidades e centros de compras. Fico chocado, intrigado e curioso buscando entender as possíveis razões desses desatinos. O que leva um jovem de dezoito anos invadir uma escola – na qual foi educado – assassinar a bala, 18 crianças na faixa dos 6 a 10 anos e mais 4 adultos funcionários da escola? Foi mais um episódio desses que aconteceu esta semana (24/05/2022), na Escola Primaria Robb (foto a seguir), na minúscula cidade interiorana de Uvalde, do Estado do Texas, de apenas 16.000 habitantes, distante apenas de 130 Km. da cidade de San Antônio, a maior da região. Estarrecedor. Por que tantas ocorrências dessa natureza nos Estados Unidos da América? Eis uma pergunta que não cala.
Pondo-me no lugar de pai de uma dessas inocentes vitimas fico a imaginar o desespero. Como entender e como enfrentar a vida dali para frente? Como explicar aos eventuais irmãos menores ou maiores a ausência abrupta daquele integrante da família até então? Imagine o imigrante que foi fazer o american way of life dos sonhos e esbarrar num abalo desses.
Em tempos de permissão de vendas de armas, de modo aberto aqui no Brasil, casos como estes nos States acendem uma luz de alerta. A quem vem sendo permitida a venda de armamentos? Acredita-se nos critérios severos e bem monitorados estabelecidos legalmente. Contudo, nesta Terra de Cabral, onde a lei que prevalece é a do mais forte ou a do corrupto, afora a realidade de que a o dinheiro resolve qualquer parada, não deixa de ser um motivo de alerta. Pensando bem, ensaios, semelhantes aos dos norte-americanos, já foram registrados por aqui. Lembro, por oportuno, do massacre escolar ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), no dia 13 de março de 2019, quando dois atiradores, ex-alunos, mataram cinco estudantes e duas funcionárias. Após o massacre um dos assassinos matou o comparsa e em seguida se suicidou. Sei lá eu o que enchia as cabeças desses infelizes jovens. No caso do Texas (USA) o atirador foi morto pela policia. Ele havia completado 18 anos e a primeira providencia tomada foi comprar a arma do crime.
Respostas para esses surtos ianques de loucura passam, a meu ver, por aspectos que vão da obsessão por armas ao culto indiscriminado às campanhas de guerra. Por lá, portar uma arma de fogo é, para milhões, condição fundamental de viver enquanto que curtir febrilmente uma guerra é testemunho de patriotismo. Como fontes de estímulos e apoio a essa cultura belicosa que, aliás, se espalha mundo afora está, cada vez mais, crescente a produção cinematográfica hollywoodiana, a dos streamings e dos videogames que invadem e contaminam escancaradamente as mentes dos adolescentes e jovens do século 21. Além, obviamente, os potentes fabricantes de armas e equipamentos de guerra que não vivem de outra coisa salvo o exercício do combate. Doloroso pensar no futuro das nações.
E, pensando em futuro, volto a lembrar de que tudo começa na formação educacional. Este certamente o grande desafio dos governantes de hoje e do amanhã. E, como isto vai sempre depender da raiz cultural, acredito venha ser sempre uma quimera viver um sonhado mundo tranquilo.
Mal conclui este post e vejo a impressionante repercussão nacional e internacional (Vide foto acima) do assassinado de um popular numa “câmara de gás” improvisada numa viatura da Policia Rodoviária Federal, na BR-101, litoral de Sergipe, nordeste do Brasil. Genivaldo de Jesus Santos, de 43 anos, detido por razões não esclarecidas, foi jogado no porta-malas do veiculo policial, onde recebeu uma carga letal de gás, vindo a falecer por asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda. A notícia correu o mundo e expôs negativamente o Brasil. Policiais perversos e mal capacitados, produto de uma sociedade onde a educação nunca foi prioridade de governos. Mundo Selvagem e desanimador.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens e no THe Guardian
terça-feira, 24 de maio de 2022
Equivoco Lamentável
Com muita curiosidade e olhar critico de cidadão comum acompanho a tramitação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei PL-2.401/19, que concede aos pais ou responsáveis o direito de educar os próprios filhos no ambiente doméstico – também conhecida como homeschooling – sem que sejam obrigados a enviá-los a uma escola formalmente estabelecida. Justificativas são apontadas, mas, nem sempre convincentes. Ao menos para mim. Lembro-me, de imediato, aqueles ligadas às dificuldades econômicas da família, distanciamento constante de uma unidade educacional (famílias embarcadas, por exemplo, como aquela Família Schurmann), complicação logística de transporte domicilio-escola-domicílio ou, mesmo, principio cultural (obtuso, aliás) da família. O PL já foi aprovado, semana passada, na Câmara Federal e encaminhado ao Senado. O texto básico do PL foi aprovado por 264 deputados a favor, 144 contra e duas abstenções.
O sistema é experimentado em outros países (comum nos Estados Unidos) e, segundo avaliam, com sucesso. Tenho imensas dúvidas. Minha curiosidade e critica, como referido no principio, é baseada numa trajetória profissional de logos 40 anos, sempre defendendo princípios de um sistema educacional que proporcione a formação de uma sociedade sólida, participativa e republicana. Fosse eu um representante do povo na Câmara Alta votaria contra a proposta por considerá-la uma tremenda involução e prejudicial ao desenvolvimento social do país. Num Brasil, onde são sempre encontradas brechas para praticar a insensatez e o relaxamento dos caminhos para a formação do cidadão do futuro, um projeto de Lei com esse objetivo devia ser mantido nas gavetas do esquecimento parlamentar. Esta proposta ganhou prioridade, segundo analistas da área, durante a pandemia quando milhões de estudantes, dos menores aos maiores, tiveram que se valer da forma remota de estudar. Ora, meu Deus, foi uma situação extraordinária e maléfica ao bem social global. Quando passar, tudo volta ao normal. Sabe-se hoje que muitos, milhões também, dos casos de jovens que burlavam a prática da aula on-line e sequer acompanhavam o que era oferecido pelo professor ou professora por trás da tela. Meios não faltaram para essa burla. Avaliar os conhecimentos e aplicar graus de aproveitamento tornou-se um desafio para os mestres on-line. Isto, sem falar nos casos dos profissionais de ensino que encararam a situação de modo enfadonho, desestimulantes e pouco prático, em face da cultura original.
Por outro lado, ninguém me venha dizer que seja salutar educar seu filho menor dentro de casa e sob sua reponsabilidade. Duvido da sistematização de um programa de educação doméstica capaz de formar de modo adequado uma base segura para garantir uma competência ao cidadão do futuro. Sem falar da falta que fará ao menino ou menina, das possibilidades de sociabilidade e introjeção no mundo externo no qual, em algum momento, terá que interagir. Sendo mais rigoroso e critico, arrisco dizer que a vulnerabilidade das crianças submetidas a esse fatídico regime de ensino domiciliar será propicio à prática de abusos e malefícios às crianças indefesas. Não tenho dúvidas de que se trata de um equívoco lamentável dos nossos representantes. Espero que haja idas e vindas entre Câmara-Senado-Câmara e essa proposta mofe nas gavetas do Congresso.
Para encerrar, mas, por oportuno, pergunto: por que gastar tanto tempo, dinheiro e energia na discussão desse equivocado e polêmico PL e não investigar e propor aperfeiçoamento na Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDB) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que, por sinal, sofrerão cortes devido a essa impropria proposta em tela? Mais ainda: por que não discutir as possibilidades maciças de investimentos produtivos nas escolas públicas do país, dotando-as de condições eficientes e eficazes, para que tenhamos adiante uma sociedade mais digna e capaz?
NOTA: Foto iustração obtida no Google Imagens.
sexta-feira, 13 de maio de 2022
Simbora
Pauta para o Blog é o que não falta. O que falta mesmo é ânimo para comentar (ou analisar) tantas loucuras que se multiplicam mundo afora. Quando estamos com a mente afiada e a vontade de “baixar o sarrafo”, a coisa até que flui. Mas, diante de tantos desatinos, controvérsias e desespero nos quatro pontos cardeais do país e do planeta, resta muito desânimo ao Blogueiro. Ou será preguiça? Ou incompetência? Talvez a saturação, que a idade provoca, depois de experimentar tantos esforços e ações – a grande maioria ignorada – nas frentes de construção de um mundo melhor venha ser a justificativa para o desânimo. Paciência. Que meus seguidores/leitores me perdoem, mesmo porque a vida segue sem responder questões do tipo: onde erramos? Por que resultou nisso? Podemos reconhecer as falhas? Como não posso carregar o mundo nas costas, vamos simbora!
Desde muito jovem aprendi que “a esperança é a última que morre”. Contudo, penso, hoje, que vou morrer um dia (a única certeza que temos na vida) levando junto com minhas cinzas várias das minhas esperanças. Por exemplos: a de ver um Brasil mais justo e digno para minha gente; uma Classe Politica e governante com C e P maiúsculos, sem os atuais assaltantes e corruptos; um mundo sem fome e miséria; um mundo sem guerras e um planeta preservado.
Neste outono da minha existência, tenho dedicado dias, horas e minutos interagindo com o mundo que construí. Quero bem próximos: família, amigos, retornos a lugares favoritos, leituras prazerosas, muita musica (das boas!), escritos, leituras prazerosas, muita musica, retorno a lugares favoritos, amigos e família. Simbora, com idas e vindas, sim, que consigam abastecer a minh ‘alma e inspirem meu bom viver.
Reconheço, entrementes, que não posso reclamar de tudo porque, ao contrario de milhares, reclamo de barriga cheia. Por exemplo, no meu refugio interiorano (por sorte, tenho uma tapera na Serra das Russas – Pernambuco), enquanto desanuvio a mente dos ruídos ao redor da torre que habito (buzinas, vendedorwa de ovos e macaxeira, caminhão do gás) apraz-me observar a vida brejeira de uma gente que não tem ideia de quem seja Putin, que Kerson foi um nome bonito que Zefinha ouviu no noticiário da televisão, anotou, para registrar o filho que vai nascer no mês de Santana. Mais do que isto, fico impressionado ao descobrir que para alguns Dilma Roussef era a esposa de Lula e que morreu! Acho graça no vendedor de munguzá, que chama de Suíça uma cadela vira-lata, magricela e pulguenta, que encontrou na estrada (foto abaixo) e que Buenos Aires é um lugar ali pertinho (vai ver que é mesmo!). Acho divertido e criativo ver as cocotinhas da cidade desfilando, no dia de feira, com modelos copiados das personagens de novelas da TV.
E outra coisa inteligente é ver o cidadão usando relógio digital porque não sabe ver as horas num tradicional e analógico relógio de ponteiros, além de se deleitar ao gravar a voz em mensagens de WhatsApp porque não sabe ler e escrever. É nesse ambiente e mistura de culturas que se apura a mente “poluída” de qualquer tupiniquim portador de mestrado e doutorado no exterior, quando mergulhado no hinterland de modo frio e cru. É a ocasião em que a realidade pesa na consciência e no traseiro do diplomado que o obriga se manter com os pés plantados no chão. Lá na Serra eu não uso gravata, apesar de estar em Gravatá. Lá eu ouço o cantar dos quero-quero avoantes e encaro corujas com os olhos bem abertos como quem me diz “estás vendo o que estou te mostrando”.
Nessa pisada, outra coisa não me resta a não ser dizer: SIMBORA! A fila está andando.
Mas, antes de colocar o ponto final, devo dizer Não! Não estou deprimido. Pelo menos não quero estar. Estou é preocupado com este mundo descontrolado e com o futuro dos meus descendentes.
NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens
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