sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
Eu não sabia que doía tanto
Quem diria que viveríamos dias de carnaval em clima de trevas? Parece mentira. Hoje poderíamos estar em plena folia. A Covid-19 fez silenciar os tambores e clarins de Momo, deste ano, deixando-os recolhidos nas sedes das agremiações. O Recife está mergulhado num silêncio inédito. Quando se é, de fato, bom pernambucano e que espera um ano para cair na folia carnavalesca, ao som do frevo rasgado e fazendo o passo da tesoura, amarga um momento de frustração e de puro ineditismo.
Mesmo sem haver entrado nos folguedos, nos anos recentes, minha alma cultural não aguenta este silencio que hoje vive. Eu não sabia que doía tanto ficar sem carnaval. Para os quem vivem da economia e do movimento carnavalesco deve ser um verdadeiro calvário. A única alternativa que resta é curtir as lembranças do passado e alimentar a esperança para 2022. As velhas fantasias ficarão guardadas e as planejadas não saíram das gavetas. É emocionante o documentário exibido na TV e retratando a dor que dói no coração pernambucano. Quer saber, clique em:
https://youtu.be/RSUK2m7u848
Ou copie e cole no navegador. Vale à pena.
Falando das lembranças recordo da minha infância carnavalesca com orgulho e com saudade. Minha mãe, grande foliã, preparava os filhotes, com antecipação, para viver o tríduo momesco com todo brilho e emoção. Lembro, como se hoje fosse, da bolsinha de filó por ela confeccionada na qual cada um guardava com cuidado sua cota de confetes coloridos, somente compulsados quando da oportunidade em que alguém merecedor de um punhado aparecia pela frente. Era um gesto inocente de declarar amor e amizade. E fazíamos sem perceber o sentido exato daquilo. Quanto lirismo! O álbum de antigas fotos da minha mãe está recheado de índios, palhaços, holandesas, bailarinas, pierrôs, entre outras figuras que enchiam de sonho as cabeças das crianças que fomos. Fantasias e ilusões que na quarta-feira eram guardadas esperando outro carnaval chegar. Ah! Lembro também do lança-perfume da marca Rodouro, na sua embalagem metálico-dourada e símbolo de status da época. Cada um recebia um tubo do tamanho infantil com a recomendação de ser parcimonioso no uso para durar o carnaval inteiro. Eu administrava aquilo com o maior cuidado para durar os três dias. Por trás disso, aliás, uma lição de saber não esbanjar. Do janelão da casa dos meus avós paternos, no velho bairro de São José (Recife Antigo), assistíamos ao desfile do corso, na versão tradicional, dos blocos carnavalescos e maracatus. Era uma festa de rua que enchia nossos olhos infantis. Uma lição de cultura a cada instante. Pensando bem, é natural sentir a dor provocada pela falta dos clarins e das orquestras de frevo que sentimos neste ano corrente.
Mas a saudade dói também quando me lembro dos inesquecíveis bailes de carnaval dos nossos clubes sociais nos anos 70, 80 e 90. Aquilo era verdadeira apoteose. Como era bom. Um dos mais estrondosos era o carnaval do Clube Internacional do Recife que explodia de alegria nas quatro noites de festas. Fantásticas orquestras - como as de Nelson Ferreira e José Menezes - se revezavam no palco e se constituíam em verdadeiras usinas de animação. Noites com mais de vinte mil pessoas, espalhadas pelos salões, jardins e parques do clube, a cantar e dançar até o dia raiar. Foram dias de gloria. Quem viveu sabe contar direitinho.
O tempo passou e mudanças ocorreram. O Recife cresceu, virou uma metrópole e o carnaval se tornou uma festa mais popular ainda do que no feitio das antigas. Saiu da fase dos salões de clubes sociais e ganhou as ruas, com forte esquema politico-comercial. Isto nem sempre bem visto. Contudo, as raízes foram preservadas e continuam muitos vivas. Ritmos alienígenas tentaram sufocar o frevo rasgado, mas, ficou claro que este ninguém abafa. Ao mínimo sinal a multidão se agita, o sangue pernambucano ferve e a povo enche os pulmões quando conjuga, com orgulho e muita alma, o verbo frevar. Tente ficar parado ao escutar os acordes do frevo- de-rua Vassourinhas, verdadeiro hino do carnaval pernambucano. Duvido. Tudo é verdade e nunca passou, por qualquer cabeça, que um dia um vírus venenoso pudesse dar um basta. Tomara que seja apenas uma pausa. Dói. Dói demais e eu não sabia que doía tanto.
Nota: Fotos ilustrativas colhidas no Google Imagens
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Esperança Injetada
O Brasil, apesar das extremas chafurdações politicas, avança neste inicio de fevereiro com
a operação “vacina para todos”, injetando esperança de paz e tranquilidade na
população. Finalmente as autoridades de plantão dão sinais de concórdia na
busca da solução para imunizar a brasileirada. Um começo atrasado, bom reconhecer. Nações ricas e poderosas
politicamente se adiantaram açambarcando os estoques existentes e futuros do precioso injetável na
defesa dos seus povos e administrando uma atitude de resistência e evidente preservação
dos poderes. A resultante inequívoca foi o engarrafamento de demandas denunciando
de modo claro, que se trava uma guerrinha econômica internacional para
aquisição nos quantitativos requeridos por grupos populacionais. O Brasil, muito
embora gozar de reconhecida expertise na produção de vacinas e antídotos
dos mais diversos, resvalou num infrutífero “bate-boca” politico tendo o
Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, como protagonista principal,
porquanto crente de se tratar d'uma moléstia que não causava o dano universal
propalado aos quatro ventos. Enganou-se. Pagando pela lingua foi contaminado, tratou-se,
resistiu e voltou a insistir na conversa ultrapassada sendo, por fim, levado a capitular
diante da gravidade da situação. Saiu, politicamente, com o prestigio popular
arranhado e criticado duramente pela oposição, sobretudo, por oportunistas
políticos que não abandonam o palanque eleitoral. O Presidente teve de
revisar as estratégias e originais iniciativas programadas de Governo, algumas das quais pouco sadias.
Pelo visto, muitas águas vão rolar debaixo dessa ponte que leva a 2022. Democracia tem
dessas coisas. Coisas boas, diga-se. Além das pendengas politicas domésticas
muitas outras se desenrolam no plano internacional alimentando a eterna contenda pelo
poder hegemonico, sempre recebendo novas nuances, novos protagonistas, muitas surpresas e
consequências das mais diversas que sempre respingam no Brasil.
Para “animar” os debates, o mundo acompanha, agora, uma disputa pela “taça da
melhor vacina”, sob forte influência da variável do nacionalismo -
principalmente na União Europeia – e justificando que no
backstage
vem sendo travada uma renhida disputa econômica, isto é, muito dinheiro em jogo. Ganhar
rápido e muito parece ser o lema da briga. Enquanto isso, a cada momento aparece uma nova fórmula
preciosa prometendo ser a melhor, a mais eficaz, quem sabe a mais
“cheirosa”, a melhor empacotada, mais gelada, menos gelada, dividida em duas
partes, dose única, provisória ou definitiva. Os penitentes que se virem diante da vitrine.
Mundinho difícil este do século 21. NOTA: A foto
ilustrativa foi colhida no Google Imagens
sábado, 30 de janeiro de 2021
Ano Novo e Vida Velha
Estamos de volta num novo giro anual e introduzindo o Blog com nova fachada. Se o ano de 2020 não deixou saudades, este janeiro de 21 não chegou a convencer. A velha ideia que sempre ronda nossas cabeças, numa passagem de ano, esperando um novo tempo cheio de auspiciosas novidades pareceu, ao menos dessa vez, uma autentica quimera. Nada mudou. A rigor começou com um janeiro bem tumultuado nos quatro cantos do planeta.
A crise sanitária do Covid-19 continuou campeando, pior até do que na segunda metade de do ano findo, e as perdas humanas se multiplicaram na onda da segunda onda. Na Europa e nos Estados Unidos, sem falar do Brasil, a situação recrudesceu e o alarme se espalhou mundo afora. Da África do Sul veio a primeira noticia alarmante devida ao surgimento de uma mutação mais violenta do vírus que logo invadiu o Reino Unido e colocou de sobreaviso o resto mundo. Uma serie de lockdowns foram retomados na União Europeia frustrando as populações que já respiravam liberdades de vida. No Brasil em pleno verão a galera não se segurou e “soltou a franga” à beira mar e nas baladas da vida. “Se todo mundo vai morrer um dia, morramos felizes, bronzeados e embalados”, parece ter sido o lema da temporada. Espantoso e irresponsável. Vide a seguir, por exemplo, uma imagem da praia de Boa Viagem, no Recife, num dia de verão deste janeiro de 2021.
Por outro lado, janeiro, também, nos proporcionou episódios políticos, aqui e alhures, que de modo indelével marcaram o mês que termina. Ver os ataques desferidos contra a Democracia pelos partidários de um tresloucado Trump, na Meca ocidental da ordem e da liberdade, foi episodio extremo e destaque internacional, tanto pelo ineditismo, quanto pela gravidade. Tio Sam tremeu e o mundo entrou em expectativa sentindo esse tremor. Tomara que Biden ponha a locomotiva nos trilhos. Já por aqui, no Brasil, as trapalhadas de João Doria (governador do estado de São Paulo) e Jair Bolsonaro (presidente da República) numa renitente luta pelo poder e na busca frenética por empunhar a taça da Vacina Salvadora, levou a população tupiniquim a mais um espasmo de perplexidade. Foi tempo em que mais de 220 mil mortes contabilizadas assombraram o mundo que resolveu fechar as portas aos brasileiros. A coisa piorou enquanto rolava o desvairado "bate-boca" politico, quando os casos fatais dispararam, culminando com a barbárie ocorrida no estado do Amazonas, onde pessoas morreram por falta de oxigênio engarrafado. Não foi, portanto, um início de ano sonhado de paz e tranquilidade.
Episódios aqui lembrados refletem, em boa medida, a natureza arredia e rebelde do ser humano. A falta de domínio e compreensão do que ditam as forças da natureza exercem um poder incontrolável sobre o livre arbítrio dos indivíduos. O afã de liberdade de escolha e o sempre latente espirito de oposição terminam por precipitar grupos sociais às raias da loucura. Ora, se aglomerar e confraternizar aos moldes tradicionais são atitudes desaconselhadas e prejudiciais à coletividade, por que transgredir de modo ostensivo e irresponsável? Pior ainda se praticados com conotações politicas que resultam em confundir a sociedade no seu todo.
Países democráticos como Brasil e Estados Unidos da América, com grandes contingentes populacionais e culturas heterogêneas, veem-se diante de colosais desafios sociopolíticos com vistas ao restabelecimento da ordem, da saude geral e da retomada econômica.
É provável e claro que a crise promete ainda muitos sacrifícios. O mundo, de fato, não será o mesmo depois disso tudo. Bill Gates, um reconhecido pensador do futuro, numa das suas recentes falas assevera que “as coisas não vão voltar totalmente ao normal por muito tempo”. E é muito provável. Segundo ele haverá uma fase em que o número de contaminados será muito baixo nos países que adotarem a vacinação em massa, embora ocorram surtos em outras regiões do mundo. Arremata dizendo que “muitas pessoas permanecerão bastante conservadoras em seus comportamentos, especialmente se associadas com pessoas mais velhas”. Será isso o novo normal? Somente o tempo dirá.
No Brasil o mês termina com campanhas de vacinação por grupos de pessoas mais vulneráveis fazendo nascer a esperança de dias melhores. Que o fevereiro – sem carnaval – venha cheio de bons fluidos e contínuos esforços na cata da proteção coletiva.
terça-feira, 22 de dezembro de 2020
Boas Festas
Neste momento, não importa o quanto 2020 tenha sido difícil. É inconteste.
Importa, sim, entender que o Natal está chegando e é chegada a hora de renovar
nossa crença de que o Menino Deus vai renascer entre nós, enquanto pessoas
confiantes e de fé. É, pois, tempo de buscar a paz e de reavivar o sempre
benvindo clima de esperança. Peçamos que Jesus nos proteja e fortaleça a fé e as
esperanças de que o amanhã será outro dia e que nos trará luzes de amor e
bonança. Do mesmo modo que Menino de Nazaré renasce nas nossas mentes, a cada 25
de Dezembro, é hora de festejarmos este Advento, ainda que com as limitações
impostas pelo vírus assustador, lamentando as perdas humanas que sofremos e
louvando havermos ultrapassado o inesperado obstáculo. Elevemos nossos
pensamentos e façamos renascer o ameno clima de paz, amor e solidariedade.
Iluminados por esta fé estendamos nossas mãos aos próximos em agradecimento
pelas atenções recebidas, pelo cultivo da amizade e da solidariedade, renovando
os laços de relacionamento e prometendo preservá-los.
Aproveitando o clima de Natal agradeço a todos e todas – no Brasil e no exterior
– que me acompanharam durante este ano que finda, através deste espaço do
Blog do GB, desejando Feliz Natal e um
Ano Novo de 2021 pleno de muita paz e saúde para a humanidade.
Com este post o Blog do GB entra em recesso de verão e voltará a circular em
Fevereiro, salvo numa ocasião extraordinária.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
Finda sem deixar saudades
Dentro de poucos dias o tumultuado ano de 2020 finda e, quero crer, dificilmente deixará saudades. A gente costuma ter saudades de coisas prazerosas. A pandemia da Covid-19 desmontou todos os esquemas de administração do planeta, desde os mais altos até o mais simples nível de organização – famílias, por exemplo – acarretando inéditos momentos de estresse coletivo e resultando em imensos prejuízos materiais e pessoais, com dolorosas perdas humanas e empobrecimento geral da humanidade.
Este ano vai encerrar deixando a todos perplexos pelos aflitivos momentos vivenciados e desejosos de virar uma página que inesperadamente foi lida.
Aprendi nesses meses de reclusão que sentimentos antes experimentados esporadicamente adquiriram dimensões muito mais elásticas e com efeitos muito mais desgastantes. Falo por exemplos de tédio, solidão e medo. Viver retido, por maior que seja o espaço privado, impõe sensação de prisão e isolamento que escorregam pela sempre apressada esteira do tedio aliado ao medo de contrair a moléstia que e alastra. Muitos não se equilibraram e caíram nas malhas da depressão. Ano difícil este que finda.
Contudo, como sempre fiz – referencial de vida – procurei tirar lições dessas nefastas experiências tentando fazer algo tal como uma limonada com o ácido limão disponível. Lembro que fiz um post no inicio da pandemia intitulado de “Todo Mal traz um Bem” (http://gbrazileiro.blogspot.com/2020/04/todo-mal-traz-um-bem.html) talvez antecipando o que hoje confiro. Assim, não obstante os sofrimentos, perdas irreparáveis e inúmeros momentos de tristeza, a pandemia apontou-me para aspectos invisíveis do tradicional modus-vivendi nunca antes valorizados e sequer apreciados.
Durante este prolongado recolhimento descobri que a minha casa é o lugar mais seguro do mundo; que certos recantos desta mesma casa nunca haviam sido por mim apreciados com olhos mais apurados; que cada obra de arte que coleciono deixou de ser um simples exemplar e passou a “dialogar” comigo contado, cada qual, uma história diferente; que a correta e rigorosa higienização dos objetos, alimentos e ambiente em geral (que eram feitas, claro) resultam numa melhor e mais segura qualidade de vida; que a vida e a energia que me sustenta de pé é mais frágil do que imaginei até agora; que a perda de um amigo ou familiar ceifado pela Covid-19 dói mais doída que qualquer outra dor e, por fim, que a salvação da humanidade reside nas forças que venham ser impulsionadas pela compaixão e pela solidariedade dos povos. Este pode ser o tal novo normal.
Concluo lembrando que vacinas, politicagem barata, disputa do poder, progresso da ciência e da tecnologia, inteligência artificial, entre outros modernismos podem ser importantes e oferecer confortos, mas, nunca substituirão os verdadeiros sentidos da alma do ser humano.
Adeus ano velho. Valeu a experiência. Não sentirei saudades. Mas, não te esquecerei.
NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
Duas Topadas
Dois temas me deixaram dividido na escolha da conversa semanal. Como um não pode esperar pelo outro lá vão os dois duma só vez. Dois em Um poderia ser o título do post. Ocupo o espaço da semana fazendo sínteses de duas topadas sócio-políticas neste conturbado mundinho de Pindorama.
A primeira topada ocorreu no Recife, fruto do baixíssimo nível de civilidade e moral dos nativos da Cidade Maurícia, reforçado pela incúria das autoridades municipais de plantão que não se dão aos cuidados de zelar pelo patrimônio cultural da cidade. Desse modo, mercê do abandono, vândalos insanos detonaram, na semana passada (04.12.20), o Parque das Esculturas do Marco Zero da cidade, roubando peças importantes dos monumentos que marcam a passagem do século na capital pernambucana. Eram magnificas peças de arte, produzidas em bronze, destinadas a legar, historicamente, às gerações vindouras, um testemunho do nível cultural que dominava a entrada do Recife no terceiro milênio. Dois expoentes da arte moderna do estado autores das obras que compõem aquele diferenciado logradouro: Francisco Brennand (1927-2019) e Cicero Dias (1907-2003) resultam sendo desrespeitados pelos seus concidadãos e pelas autoridades ineptas. Vide imagens a seguir com a escultura roubada e o espaço vazio. O mais provável é que tenha sido derretida e vendida por quilo.
Eis aí um oportuno momento para voltar ao recorrente tema, aqui no Blog, da falta de formação educacional de base para nossa gente. E não falo das elementares lições do b+a = ba, nem de 2+2=4. Falo sim de formação do indivíduo no seu todo, preparando-o para o viver em sociedade. Falo de educação moral e cívica. Desgraçadamente são disciplinas postas à margem de nossa comum grade pedagógica da escola primária. Segundo a sabedoria popular “é do pequeno que se faz o grande” e neste pobre Brasil não se faz desse modo. Educar para a vida e para ser um cidadão ou cidadã de bem capazes de contribuir com a ordem e o progresso tão propalado no nosso símbolo da Pátria. Educar para que não passemos por momentos tão lastimáveis nos quais administradores permitem apagar História deixando ao abandono nossos patrimônios históricos ou simplesmente destruir propositalmente os símbolos que marcam uma época e um povo.
A segunda topada ocorreu em Brasília: causou-me profunda surpresa e inquietação ao saber que o STF - Supremo Tribunal de Federal tenha levado solenemente ao plenário uma inoportuna discussão sobre a recondução ou não, dos mandatos dos presidentes da Câmara (Rodrigo Maia) e do Senado (Davi Alcolumbre), quando a Constituição é clara e proíbe essa manobra vergonhosa. Por felicidade o placar foi contrario a recondução nos dois casos. 6 x 5 contra Alcolumbre e 7 x 4 contra Maia. Alivio por um lado, mas, tristeza por outro ao concluir que cinco dos supremos magistrados – que se autoproclamam guardiões da Constituição – tenham tentado “quebrar os ovos e empurrar goela abaixo dos brasileiros um indigesto omelete” inconstitucional. Esta questão na verdade devia ter sido rejeitada pelo STF. Isso sim, teria sido mais digno por parte do Poder Judiciário.
Resumo da Ópera: triste do país que tudo e qualquer irrelevante questão – inclusive as reconhecidamente constitucionais – sejam levadas ao julgamento do seu Supremo Poder Constituído, no qual seus integrantes são chegados a dar torpes topadas.
Sem poder fazer qualquer coisa, resta-me renovar meus pedidos ao Divino Supremo para que aplaine nossos caminhos e nos livre de terrenas, ingremes e estúpidas supremas topadas.
NOTA: As imagens ilustrativas forma obtidas no Google Imagens
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
Fim de Jogo
Passado o período eleitoral sinto-me aliviado e, como sempre, alimentando esperanças de que nesses próximos dois anos que nos separam de um próximo pleito o Brasil preserve dignamente o clima de democracia como objetivo de todo(a) cidadão ou cidadã de bom senso. Confesso que no recente pleito, diante da minha ótica pessoal como sendo o basilar por alimentar o jogo politico da célula-mater – município – da Republica, mantive-me afastado de debates e considerações a respeito desse ou daquele candidato ou partido, preferindo me acomodar numa zona de conforto que a idade já permite e, sendo franco, diante dos contornos pouco dignos que foram traçados no município do Recife, em particular.
Impossível, porém, permanecer no aludido conforto e sem dar um pitaco que seja a respeito do processo encerrado no domingo (29.11.20) passado.
A primeira consideração que faço é que, no geral, foi um processo limpo e respeitado por todos, sobretudo pelos derrotados nas urnas. Ressalto que comparando com o recente processo norte-americano, sem discutir, temos motivos de sobra para manifestar orgulho, aplaudir e festejar o que foi realizado em Pindorama.
Como muitos acreditavam não foi a crise sanitária ou a postergação do pleito que reduziu o entusiasmo das campanhas dadas a sede de poder dos aspirantes, sobretudo, aos cargos majoritários. Por outro lado, no entanto, analisando o desenrolar das votações, uma coisa ficou muito clara: o voto obrigatório perde cada vez mais seu real efeito. Uma abstenção que chegou ou ultrapassou a casa dos 30% é algo a ser tomado com um forte recado do eleitorado às autoridades que decidem sobre a Lei Eleitoral. O caso de São Paulo – o maior colégio eleitoral do país – foi emblemático: a soma dos votos brancos e nulos junto com as abstenções - 3,65 Milhões - foi maior do que o total de votos dados ao prefeito eleito, Bruno Covas, que obteve 3,17 Milhões de votos. Claro que isto chama atenção. Aqui no Recife, a candidata do PT, Marília Arraes, com 347.029 votos, também perdeu para o somatório de brancos, nulos e abstenções que, neste caso, somaram 363.029. O Prefeito eleito, João Campos, obteve 445.992 votos, com apenas 82.637 votos a mais do que a soma dos brancos, nulos e abstenção. Interpreto isto como sendo um forte recado do eleitorado brasileiro, que, em grande parte, preferiu aproveitar o dia da votação para curtir uma praia ensolarada, um fim-de-semana na casa de campo ou, ficar em casa bebericando e assistindo um bom filme na TV, sujeito, apenas, pagar uma multa simbólica de R$ 3,50 para justificar a ausência na sessão eleitoral. Aliás, contando com a comodidade do meio eletrônico hoje adotado. Ora, manter a obrigatoriedade de votar pode ser um aspecto importante a ser repensado no Brasil.
Outro pitaco que arrisco é o de considerar que, no domingo passado, o quadro politico do país foi indiscutivelmente redesenhado. Ficou claro que o eleitorado brasileiro lacrou o desejo coletivo de mostrar que a tendência prioritária é do posicionamento de centro-direita. Sem contudo, querer sublinhar o fisiologismo do chamado Centrão. Na verdade, os extremos radicais perderam força e dificilmente vão se recuperar. Observo que os recentes vetores inflexíveis propulsores da polarização esquerda-direita caíram às margens do campo de disputas no fim do jogo. Não foi Bolsonaro, nem Lula e seus Lulopetistas que influenciaram no resultado final da “partida”. Pelo contrário, foram infelizes ao manifestarem apoio por esse ou aquele candidato e receberam pesados trocos. O PT de Lula foi o mais castigado. Não fazer nenhum prefeito nas capitais estaduais deve ter sido duro golpe. Pior foi haver perdido, também, 133 municípios, caindo de 257 para 124. Se o município for de fato como considero a célula-mater do jogo político do país, o PT deixa de contar com essa poderosa máquina. Falando friamente virou um partido em decadência. E os seus partidos aderentes pouco pesam na balança. Tomei conhecimento esses dias que, segundo estimativas publicadas, o outrora brilhante Partido dos Trabalhadores governa apenas 3,64% dos brasileiros. Vamos e venhamos é um percentual irrisório. Sendo tudo isto verdade, temos que abrir os olhos para que os partidos das velhas raposas não roubem nossas preciosas uvas. Que nossas uvas sejam sempre vistas verdes, como na fábula de Esopo, por essas sedentas velhas raposas.
Como democrata encerro o papo de hoje lembrando que, para vigiar as velhas raposas, é preciso que haja uma oposição séria, comprometida e atenta. Que não trabalhem com vistas ao poder e com garras a la Al Capone. Opositores são sempre necessários num regime democrático. Que corrijam as desarrumações que assistimos recentemente. O PT, por exemplo, se esfacelou e para se salvar, inclusive, arrebanhou valores sem seu DNA, como a candidata a prefeita do Recife, Marilia Arraes, que ajudou a detonar o Partido no âmbito local. Passos mal planejados e erros elementares. O desespero leva sempre a imprevistos finais de jogo.
Nota: A foto-ilustração foi obtida no Google Imagens.
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