terça-feira, 5 de abril de 2016

Turismo ameaçado

Esta semana vou deixar de lado minhas preocupações com os tropeços políticos reinantes no país e, ao mesmo tempo, poupar meus leitores desse tema recorrente e de certo modo esgotado amplamente pela imprensa aberta. Contudo, vou tratar de outro assunto também preocupante e que chama a atenção, de qualquer cidadão ou cidadã de são juízo. Refiro-me aos problemas que atingem e afugentam os turistas no Brasil.
Tenho sempre argumentado que, melhor do que qualquer campanha promocional de turismo, o chamado “boca-a-boca” emitindo opinião elogiosa a um país ou determinado local tem um efeito positivo e, muitas vezes, mais eficaz. Gosto muito de escutar referencias de pessoas que visitam lugares e me estimulam a visitá-los. Principalmente quando se trata de reconhecidos e experientes viajantes. Assim, receber bem um forasteiro visitante pode resultar num importante vetor de promoção turística.
Turista em geral é sempre muito exigente. Quer sempre ser rodeado de salamaleques, cortesias e bons tratos. Eu pessoalmente sou assim. E tem certa lógica. Ninguém se abala dos seus cômodos para padecer num lugar estranho. Salvo, obviamente, aqueles aventureiros que embarcam em viagens plenas de “emoções” e com muito estresse. Escalar o Everest, ver de perto regiões em conflito, dar uma de Amyr Klink e se perder em trilhas selvagens são bons exemplos. Tem muitos assim.  
Infelizmente tenho visto noticias de casos absurdos de agressões, alguns fatais, aos visitantes estrangeiros que tentam descobrir o Brasil. Chegam ávidos por entrar em contato com essa gente alegre e hospitaleira, curtir o sol e o mar constantes, tomar muita caipirinha, sambar e assistir uma partida de futebol. Tudo como propalada pelos agentes promotores. Para alguns, no entanto, nada disso é permitido por conta da insegurança e o despreparo da gente.  Outro dia vi na TV a reportagem da turista sul-coreana que foi assaltada no Rio de janeiro em pleno calçadão de Copacabana.  Perplexa, incrédula e sem dominar o idioma local passou por momentos de apuros inesperados. Outro caso foi do casal de namorados estrangeiros sequestrados por marginais, sujeitando-os a uma série de maltratos, incluindo estupros seguidos à jovem turista. Em Fortaleza(CE) outra jovem estrangeira foi assaltada e seviciada de modo cruel. Há os que são assassinados sem pena e sem dó. Não há nada mais negativo para um país que deseja desenvolver sua atividade econômica do Turismo – como é o caso do Brasil – quando registrados casos extremos desse tipo. Todos, diga-se de passagem, divulgados amplamente na mídia internacional.
O que me fez pautar este assunto foi o episódio vivido pela violinista sérvia, Vera Stefanovic, e a cantora lírica brasileira Thayana Azevedo, no último fim de semana, aqui no Recife. Passageiras de um cruzeiro marítimo, vindo de Buenos Aires, Rio de Janeiro e Salvador, tentaram aproveitar a parada de meio dia na dita Veneza Brasileira para ver sua gente, o artesanato regional e provar da culinária local. Nem bem desembarcaram, quando ainda diante do Terminal Marítimo do Recife, foram assaltadas por dois delinquentes armados. Tentando salvar a bolsa com documentos e dinheiro, a violinista reagiu e foi atingida por um golpe de arma branca, saindo com ferimento grave na cabeça. Essas moças jamais recomendarão uma visita ao Recife. Quiçá ao Brasil. Com razão! Essa reação tem uma lógica. Eu faria o mesmo. A propósito, lembro que certa vez fui ameaçado de morte por um taxista numa cidade do interior do Marrocos. A cidade se chama Tétouan. Não aconselho ninguém passar por ali.
Uma coisa é certa: o brasileiro precisa ser mais bem preparado para este novo tempo em que as pessoas, cada vez mais, mantêm, nas suas programações de vida, viagens através dos mais distintos, ágeis e provocativos meios de transportes modernos, que facilitam deslocamentos aos mais sedutores destinos nos quatro cantos do planeta. Naturalmente que para que isso ocorra de modo satisfatório e tranquilo por aqui é preciso que haja revolucionários programas governamentais de Educação e Segurança Pública que garantam condições dignas para receber o turista visitante.
Muito pouco são os brasileiros que percebem a importância econômica da atividade turística. Esses mesmos marginais, que hoje agridem, poderiam estar incluídos na força de trabalho direta ou indireta do setor.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Marcha à Ré

É impossível desligar-me dos fatos políticos que eclodem a cada hora no Brasil de hoje. Eu somente, não. O Brasil todo. Os episódios, sempre bombásticos,  se multiplicam de forma avassaladora e se transformam num monstruoso e complexo imbróglio com uma concreta dificuldade de ser solucionado. O país tem neste momento uma Nação dividida e a perplexidade toma conta da sociedade. 
É interessante notar que, o que na prática ocorre, é uma inusitada luta sem fim entre os poderes da República revelando uma disputa muitas vezes nociva ao estado democrático tão duramente conquistado. As autoridades de plantão se confundem – muitas vezes de forma patética ou equivocada – enquanto tentam confundir uns aos outros e, por fim, confundir a Nação. Há um clima de intranquilidade como poucas vezes se viveu. A História está aí para comprovar.
Se pelo lado político a coisa se apresenta de modo insustentável, pior está sendo para o domínio econômico. Este, lamentavelmente, se encontra refém do rachado quadro político-institucional reinante. O país está mergulhado num recessão sem precedente, fruto da insanidade da atual classe política e dos governantes de plantão. Claro que já passamos por muitas crises econômicas. Minha geração foi testemunha direta dos graves problemas que vivenciamos em poucas décadas atrás durante e em seguida ao regime ditatorial. Contudo, o que se experimenta dessa vez tem um sabor mais desastroso em face das ameaças que se revelam na prática e se rebatem, de modo inequívoco, sobre os progressos alcançados depois da estabilização econômica dos anos 90, caracterizada pelo sucesso do Plano Real, do controle da inflação, da capacidade segura de investir na produção, dos avanços nos campos do agronegócio e do setor industrial, além da adoção de medidas de política econômica importantes, entre as quais me lembro da Lei de Responsabilidade Fiscal e a do camle bio flutuante. Isto, sem falar no fortalecimento e autonomia de atuação de instituições chaves do Estado que se fortaleceram e hoje cumprem um papel fundamental para sustentação de um legítimo estado democrático.
Bom, é indiscutível que esta instabilidade política em curso confere um clima de desconfiança e muito difícil são aqueles que se encorajam investir em algum setor produtivo. Ao invés disso, muitos são os empreendimentos que se desmobilizam por falta de oportunidade de atuar num mercado, antes vigoroso e agora devagar quase parando. O consumo das famílias retraiu-se e as dividas pessoais estão arruinando a muitos.Resultado imediato dessa agonia é o crescimento do desemprego, que já atinge marcas assustadoras e aponta para um quadro ainda mais severo neste ano de 2016. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, via o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), nos últimos 12 meses, 1.706.695 empregados foram demitidos no país. Aqui em Pernambuco ocorreram 96.494 demissões. Mas, isto foi somente nos últimos 12 meses, porque, no todo, já são 9,6 milhões de desligamentos e a taxa registrada é de 9,5% da força de trabalho. A maior desde 2012. Tem desempregado, numa choradeira sem fim, batendo às portas das empresas, perambulando em busca de alternativas para sobreviver e, muitas vezes, desviando para o caminho da delinquência roubando e assaltando para comer e colocar comida dentro de casa. Doloroso.
O Comércio, certamente, foi o setor que mais demitiu, emitindo um concreto sinal de que o mercado vai mal, com repercussão inevitável nos demais segmentos. As perspectivas da atividade industrial são das mais pessimistas e no âmbito global, os institutos de estudos e pesquisas refazem com frequência seus cálculos e projetam mais uma taxa negativa para PIB anual.
Parece uma ironia que o Brasil esteja nessa situação tão negativa. Definitivamente, a República PTista conseguiu frear o crescimento do País e jogá-lo bem distante do seu sonhado desenvolvimento. O único jeito é continuar alimentando o sonho de País do Futuro, embora estejamos, por enquanto, andando numa franca marcha à ré.


Nota: Imagem obtida no Google Imagens 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Nação Perplexa



Esta postagem foi reformulada por três vezes. Cada vez que o fiz estive influenciado por novos episódios do turbulento cenário político-econômico nacional. Quase desisti porque a cada hora um novo escândalo é noticiado. De todo modo, resolvi dar minha opinião neste humilde espaço.
Os últimos fatos, sobretudo as ocorrências registradas da última quarta feira para cá (16.03.16), são de estarrecer qualquer cidadão de são juízo. Essas gravações de conversas liberadas pelo Juiz Moro são arrepiantes.  Definitivamente a situação do quadro político brasileiro chegou a um ponto de total insustentabilidade. O Estado afundou no mar de lamas da corrupção e a Nação está em deplorável orfandade. Os políticos de plantão não enxergam mais que um palmo além dos respectivos umbigos. Apenas o suficiente para proteger suas peles e se sustentar nesse “balança mas não cai” no que se transformou a república petista.
Nunca na historia deste país ouviu-se falar de tanta bandalheira, roubos e cinismo político. A repercussão dentro e fora das nossas fronteiras é das mais desastrosas e vai se projetar ao longo das próximas décadas, dado ao fato de que sair desse buraco vai custar um alto preço para os brasileiros de todas as classes e matizes políticas. Caro, particularmente, para quem governará.
No domingo passado (13.03.16), o povo foi às ruas, em volume nunca antes registrado, e clamou pela ordem e o progresso, como manda o pavilhão nacional. Já na quarta feira, após a nomeação/habeas corpus de Lula, alçado a Ministro de Estado por D. Dilma, o povo voltou de modo espontâneo para protestar e exigir a renúncia da presidente e a prisão do Lula, investigado por inúmeras improbidades. Estão nas ruas até a publicação deste post! 
Percebe-se que dificilmente Dona Dilma sairá incólume desse imbróglio no qual se meteu. E se meteu, pelo visto, conscientemente. As chances de concluir este seu segundo mandato são mínimas. As propostas de solução política que são esboçadas – Parlamentarismo, entre outras – são puros delírios de um Estado carcomido e em desespero. O processo de impeachment foi retomado com mais força e o “salvador da pátria” o ex-presidente Lula, um falso-mito mentor de toda essa barafunda, perdeu completamente a compostura e hoje está transformado num estorvo para, até mesmo, muitos dos seus antigos correligionários. É um prejuízo sem tamanho preciso. Resumindo a ópera é fácil concluir que esta aventura PTista jogou o País num tremendo desmantelo político-econômico, justo numa oportunidade em que mais se aproximou do estágio em que o elevava ao patamar das nações mais desenvolvidos. O esforço que se fez nas décadas anteriores foi por terra nesses últimos 12 anos.
Sempre ando cascavilhando notícias nacionais e internacionais.  Na semana que passou, por exemplo, deparei-me com um importante e abalizado pronunciamento que me deixa em estado de tristeza: o Brasil deverá registrar nova década perdida, avaliou Albert Fishlow, professor de relações internacionais da Universidade de Columbia (USA). “Falando do futuro, temos que lembrar que o PIB per capita do Brasil será, em 2020, igual à de 2010. Então, independentemente do que acontecer, será uma década perdida”. Isto é uma das infinitas repercussões da atual crise brasileira, no cenário internacional.
A situação se mostra mais preocupante ao enfrentarmos uma questão que não cala: Quem vai suceder este governo e dar jeito nessa bagunça? Acredito que, seja quem vier porque terá que haver alguém, vai enfrentar um colossal desafio. Para “arrumar a casa” terá que forçosamente enveredar por um caminho pouco agradável e provavelmente impopular que poderá deixá-lo, em pouco tempo, em péssimas condições políticas. Este será o alto preço que os brasileiros pagarão por não saberem escolher criteriosamente seus governantes. Haja perplexidade.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens

quinta-feira, 3 de março de 2016

Egípcio Odioso

Recordo, dos tempos da minha infância, que periodicamente recebíamos em casa a visita de um funcionário da Saúde Pública que, por determinação do Governo, percorria bairros e residências, fiscalizando a assepsia ambiental e domiciliar, evitando a proliferação do aedes aegypti, mais conhecido como muriçoca (em Pernambuco e estados vizinhos) ou pernilongo (nos estados do Sudeste) transmissor da febre amarela da filariose e mais recentemente da dengue, do zika e da chikungunya. O principal objetivo, na época, era contra a febre amarela.  Chegava, se não me falha a memória, com uma bandeirinha amarela que pendurava na porta do domicilio visitado, denunciando à vizinhança a chegada da fiscalização. Com uma lanterna, vasculhava cada recanto da casa. Ai de quem não estivesse com a casa nos trinques! Para completar o serviço borrifavam inseticida nos ralos, recantos mais inacessíveis, muros e paredes mais propícias à proliferação do mosquito. Segundo pude pesquisar essa coisa foi feita de modo rotineiro e aceito de muito bom grado pela sociedade até o final dos anos 50, quando o mosquito foi tido como erradicado. Ocorre, porém, que já nos anos 70 voltaram a se alastrar pelo país, segundo informes colhidos junto ao Professor Google, oriundos de países vizinhos que não deram o mesmo tratamento como no Brasil. Nessa época a retomada do combate ao mosquito foi com um tratamento mais moderno, quando da aparição dos fumacês. Eram veículos da Saúde Pública conduzindo uma máquina que fumegava inseticida no ar dos logradouros públicos, tentando exterminar mosquitos adultos evitando a proliferação dos mesmos. Bons tempos para a saúde pública.  Naquelas ocasiões, por incrível que pareça, havia governos mais preocupados com a saúde da população.
Todas essas estratégias foram abandonadas e a atual situação está aí: o povo brasileiro está refém de uma situação de saúde coletiva ameaçada e, se brincar, com uma geração prejudicada devido aos males que o odioso mosquito proporciona. Aqui em Pernambuco as emergências de hospitais e suas enfermarias estão abarrotadas de indivíduos acometidos de dengue ou chikungunya. O mesmo vem ocorrendo noutras unidades da Federação. Para tornar a situação mais calamitosa suspeita-se que essas ocorrências de microcefalia e da síndrome de Guillain-Barré relacionadas ao ataque desses mosquitos se constituem num escândalo sem precedentes.
Mas, vejam bem: engana-se quem pensa que esses mosquitos são novidade em terras brasileiras. Coisa nenhuma. Desde a época da colonização que esses minúsculos inimigos aportaram por nossas bandas trazidos pelos navios negreiros. São originários da África e muito comuns nos países tropicais. Os países latino-americanos são ambientes propicio para essa praga.
Uma missão hercúlea está nas mãos do atual tumultuado Governo: acabar com esse mosquitinho que ameaça a população e que pode se tornar mais um vetor de desgaste de Dona Dilma. Mobilizar a população, criar brigadas de combate e investir pesadamente têm sido programados pelos diferentes níveis de governo.  Contudo é de se considerar que, ao mesmo tempo, a sociedade tem que dar fundamental contribuição na luta que se trava, visando o próprio bem estar. Em cada casa a vigilância tem que ser redobrada.
Lembro, entretanto, que a propósito de contribuição da sociedade outro desafio aflora e é relacionado com o padrão educacional do público alvo. Tem sido complexo convencer a todos da importância de se engajar no processo. Falta gente esclarecida e aberta a contribuir com uma campanha de massa, sabendo-se, sobretudo, que é nas camadas mais carente que o problema se revela mais grave. Bom, onde há povo educado há maiores chances de sucesso para um projeto de tal envergadura. Infelizmente, não é o caso do Brasil.
Se a adesão de todos é desafio, há, para alguns especialistas, alguns equívocos de tratamento do problema. Tomei conhecimento disso conversando esta semana com um tarimbado engenheiro civil (Renato F. de Souza) que garante haver um ponto esquecido pela campanha, situado na rede de drenagem das ruas e avenidas. As águas correm e abaixo de cada sarjeta ou “boca de lobo” encontram um recipiente conhecido tecnicamente como “poço de visita”, onde se acumula por bom tempo uma boa quantidade de águas propicias à proliferação do mosquito. Para estes casos uma boa dose de inseticida em cada um desses poços seria bem vinda. Vide foto ilustrativa abaixo. Saiba mais acessando: https://pt.wikipedia.org/wiki/Po%C3%A7o_de_visita   
É lamentável que estejamos diante de tão grave desafio por falta de atenção e responsabilidade das autoridades sanitárias deste país. Coisa do inicio do século passado, quando Oswaldo Cruz encetou uma intensa campanha no Rio de Janeiro, infestado do mosquito, que o projetou nacionalmente.


NOTA: Aedes vem do grego “odioso” e aegypti do latim “do Egito”.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Que carnaval é este?

Por sete anos estive fora do carnaval no Recife. Este ano, por recomendação médica, permaneci por aqui. Não sai de casa, mas, fiquei de olho na TV assistindo de “camarote” o que se desenrolava na cidade, em Olinda e no resto do Brasil. Raros foram os momentos que me tocaram. Pode ser coisa da idade ou decepção com o que restou da nossa folia já que o carnaval do Recife foi desvirtuado, virou um grande negócio, sobretudo para os chamados “atravessadores” que atuam indiscriminadamente e sem ética junto às autoridades de plantão, que igualmente são parte interessada em altas negociatas.
O bom carnaval de rua que prosperou nos anos 90 foi explorado de forma adversa e o que era bom se transformou numa avalanche de insegurança. Os que se arriscam no ímpeto da folia estão sujeitos a sofrer violências das mais diversas. A camarotização é o melhor testemunho desse processo. Ora, o gostoso é  cair na folia, sem medo de ser feliz, brincar os quatro dias e lamentar a chegada da quarta feira de cinzas. Agora, meter-se num camarote (já passei por isto) disputar espaço pra ver “a banda passar” é desvirtuar a folia gostosa e relaxada. Há blocos que não se arriscam a entrar no miolo da atual festa. Isto é lamentável.
Se isto ocorre no Recife, lá em Olinda a coisa ficou mais difícil. Não ouvi falar, nas reportagens que assisti, sobre os desfiles de Pitombeiras e Elefante, dois blocos de alegoria tradicionais. Lembro que num passado não muito distante isto era a maior atração da velha Marim dos Caetés. Desfilavam tranquilos e a repercussão era garantida. Hoje, não. A cidade foi invadida por foliões escrachados cujo objetivo é beber, beber até cair e “brincar” agredindo os foliões autênticos com gestos e atitudes obcenas. Este ano, uma turista italiana fotografa, desejando documentar a folia, arriscou ir a Olinda no sábado à tarde – recomendei essa hora por ser supostamente mais tranquilo depois do arrastão da manhã no Galo do Recife – e não passou mais de meia hora. Mal entrou na cidade, ficou abismada com o comportamento de alguns ao assistir surpresa uma agressão a uma jovem que reagiu a abordagem de um folião afoito. Não acreditou, também, ao ver os muros da História pernambucana servindo se urinóis. Apressada, pediu ajuda a um policial que a acompanhou até onde conseguir um taxi. Coitada, imaginou coisa parecida com o carnaval em Veneza.
Entre as poucas coisas que me tocaram, lembro-me da saída do calunga “O Homem da Meia Noite” em Olinda. Naquilo vi a tenacidade de um grupo de olindenses que se orgulha de preservar uma tradição e realizar um autentico carnaval pernambucano. Infelizmente não sai mais acompanhado de carros alegóricos por conta da massa humana que se espreme no bairro de Guadalupe a espera da saída, a meia-noite do sábado. É impressionante aquela multidão. É preciso ser corajoso, ter resistência e muita vontade para entrar naquela onda.
Uma coisa ficou clara para mim, nas minhas apreciações: o carnaval do Recife virou uma sucessão de shows de bandas e artistas de fora. A multidão não faz outra coisa senão postar-se de pé, diante de um palco de colorido atrativo e assistir o desfilar de cantores contratados a “peso de ouro”. E neste item é exatamente que reside minha critica maior. Há alguns anos me surpreendo com essas contratações absurdas, em detrimento aos valores locais. Se perguntarmos a alguém, no meio da multidão no Marco Zero do Recife, vamos descobrir que o interesse maior é assistir a apresentação de algum artista de fora. Aqui pra nós, é uma lástima esta nova cultura local. Vai para o carnaval do Recife para ver J. Quest, Rappa e um tal de Johnny Hooker, que não sei de onde saiu. Aliás, soube que este último é recifense e já coleciona alguns prêmios de interpretação e composição. O nome é ridículo, o gênero musical não tem nada a ver com nosso carnaval e, para completar, apresenta indumentárias pra lá de duvidosas, mesmo sendo carnaval.
Quer ver outra coisa? Conversei com uma conhecida que foi ao Bal Masquê do clube Internacional só para ver Ivete Sangalo e Claudia Leite juntas. Ou seja, o tradicional baile recifense, o mais antigo do Brasil, virou um show de cantoras baianas. Veja se na Bahia chamam cantores pernambucanos para animar a folia. De jeito nenhum!
Minha última observação: percebi que o carnaval de rua no Rio e em São Paulo pegou de vez. Amigos paulistas foram explícitos em me dizer que já não precisam vir ao Recife e Olinda para curtir um bom carnaval de rua. Pura verdade!  
Cada vez mais estou decepcionado com essa nova cultura local. Que carnaval é este?    

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.

 

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Recife, quem te viu e quem te vê

Há quase sete anos fiz uma postagem, com grande repercussão entre os leitores, criticando o estado de abandono da cidade do Recife, descrevendo a situação desesperadora, sobretudo da região central, mergulhada na sujeira e total degradação.  Era na gestão PTista.
(vide:http://gbrazileiro.blogspot.com.br/2009/recife-uma-cidade-abandonada.html) Na ocasião relatei a vergonha que passei ao ciceronear um amigo paulista em visita à cidade e interessado em conhecer a área central e, sobretudo, os canais da “famosa” Veneza Brasileira.
Na recente semana pré-carnavalesca precisei ir a uma agencia bancária no bairro do Recife Antigo e, dadas as dificuldades de estacionamento, resolvi usar um serviço de taxi. Saindo do bairro do Derby, o motorista rumou ao destino pela Avenida Conde da Boa Vista, artéria central da cidade, e pela qual raramente transito. O que vi, fez-me rememorar o “desastrado passeio” que fiz com meu amigo paulista em 2009. Na condição de passageiro tive a chance de observar o estado geral da avenida – que, em minha opinião, devia se constituir num cartão postal da cidade – e rápido conclui que se trata de um espaço urbano degradado e, na verdade, abandonado pelas autoridades municipais. A avenida está completamente despreparada para receber os muitos turistas que baixam na cidade, nesta época de carnaval. Reconheci que o processo (nacional) de urbanização acelerada produziu uma tremenda deterioração da dita Veneza Brasileira. A visão geral é desoladora. Lixo por todos os lados, ambulantes invadindo as calçadas, disputando espaço entre eles e com a massa de transeuntes, copos descartáveis e latas usadas de cerveja e refrigerante espalhadas pelo meio-fio e, para completar, um transito desorganizado que assusta qualquer cidadão de são juízo. Aliás, será difícil para qualquer engenheiro de trânsito estabelecer uma ordem civilizada por ali, com aquele sistema estapafúrdio criado pela Prefeitura Petrália. Colocaram linhas preferenciais para ônibus – nos dois sentidos – na espinha dorsal da avenida, entremeada de várias estações mal construídas, hoje em estado desprezíveis. Em cima disso, a atual prefeitura, ao implantar o sistema BRT, começou a construir outro tipo de estação, melhor estruturada, que, por falta de grana, foram abandonadas pela metade deixando um rastro de desleixo e má impressão para um eventual visitante e para os nativos, é claro. Fico desesperado com coisas dessa natureza.
Lembro que estudei no antigo Colégio Marista (hoje com as atividades encerradas), nos tempos de adolescência e juventude, situado num dos primeiros trechos da Conde da Boa Vista. Conheci aquilo lá numa época áurea. Avenida limpa, bem frequentada, iluminação atualizada e comércio elegante. Tudo bem, que a cidade cresceu! Ninguém pode esquecer. Mas, será que essa expansão tinha que passar por esse processo de degradação urbana? Faltou responsabilidade dos administradores municipais. Bem como falta educação para nossa gente. É inadmissível que, nos tempos atuais, o cidadão ignore a existência dos coletores de lixo postos à disposição. Parece incrível, mas é justamente ao redor desses coletores que se acumulam mais detritos. Tenho a impressão que o sujeito tenta “acertar uma cesta”, erra e fica por isso mesmo. Isto, sem falar na coleta que é falha também. E a sujeira cresce a cada hora. Não tem limpeza urbana que dê jeito.
É verdade, também, que a maioria das cidades brasileiras têm, hoje, suas áreas centrais com problemas cruciais escancarados. A população urbana cresceu aceleradamente nos últimos trinta anos e o Recife não estaria imune a esse processo. Mas, infelizmente, constato que a situação por aqui é bem mais grave do que outras capitais, na própria região. Se a população metropolitana cresceu desordenadamente, que as cidades tratem com prioridade esta situação, até mesmo por uma questão de saúde publica. Pensando bem, não é à toa que o estado lidera as estatísticas de casos de microcefalia na atual crise da saúde. A sujeira impera, a população está habituada a essa sujeira e pouco se liga nas consequências.
Conversando com algumas pessoas a respeito desta situação ouvi relatos assustadores sobre a periferia da capital. Nos altos, córregos e canais do Recife a gente vive num completo abandono. Falta educação pra essas comunidades se ajustarem ao mundo civilizado. Minha secretária doméstica contou-me que o sujeito morre, o corpo é jogado no canal, a família e os amigos ligam para a Prefeitura ou policia que levanta o corpo e providencia o sepultamento. Incrédulo, perguntei a razão dessa coisa dolorosa. Recebi a explicação de que a família não podendo arcar com os custos de um enterro, usa dessa infame estratégia.  
Chega, por hoje, não preciso dizer mais nada. Tenho muita saudade do Recife da minha juventude.

NOTA: Sem fotos ilustrativas para não assustar os potenciais visitantes e os leitores de fora.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A qualquer momento tudo pode mudar


Vez por outra aparece na minha página do Facebook ou pelo Whatsapp uma imagem de Ayrton Senna secundando uma das suas mais famosas frases nos lembrando de que “somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. Premonição? Quem sabe? Para ele que vivia em altas velocidades, fez disso sua forma de viver e, numa curva traiçoeira perdeu a vida, é inegável que deixa qualquer um de nós, pobres mortais,  diante da imagem do ídolo, meditando e tentando entender o mistério do futuro. O futuro que a Deus pertence e o amanhã que pode ser totalmente distinto do planejado.
Minha recente experiência, no campo da saúde, cai, como uma luva, nesse tipo de reflexão. Eu não tive uma curva traiçoeira e louvo a Deus todos os dias. Mas, tive um amanhã tortuoso. Meu programa era aproveitar o ultimo domingo de Outubro passado, em casa e com todos da família, após vários fins de semana fora, inclusive no exterior. Havia certa estafa de fazer e desfazer mala, entrar e sair de aviões. Aquele domingo seria um dia mais do que desejado.  Contudo, “por mais que você programe...”  fui surpreendido por estranha dor nas costas. Pela renitência e suando frio, pedi ajuda a minha esposa e demais familiares. Levado à emergência de um hospital, tive o diagnóstico de enfarte no miocárdio. Aquilo determinou “o momento” que mudou a minha programação. Não apenas para aquele domingo, mas, também para um bom período adiante. A partir dali vi-me refém de um programa que nunca antes havia sido desenhado. Dominado pela perplexidade, questionei: por que eu que sempre cuidei muito da saúde do meu coração? Exames periódicos normais, taxas controladas, disposição física e todos os sinais de plena saúde. Mas, Senna tinha razão... “a qualquer momento tudo pode mudar”. O amanhã será sempre outro dia, que pode surpreender o sujeito frágil e insignificante que é o ser humano.
No final das contas, meus meses de  novembro e dezembro passados se tornaram numa verdadeira “viagem” ao meu mundo interior, levando-me a experimentar outras emoções e, pra falar a verdade, alguns sofrimentos físicos.
A extensão do tratamento ao qual fui submetido passou por uma cirurgia cardíaca, aquela radical que abre o tórax e implanta “pontes” seguras de circulação sanguínea eficazes  restaurando o bom funcionamento da “máquina” propulsora. Embora sendo uma intervenção de grande porte e, como qualquer outra, conferindo riscos, terminei escapando e, agora, conto a história como ela foi.
Hoje, em franca recuperação, devo agradecer à equipe médica que me assistiu de modo competente e, inclusive, livrou-me de padecer de dores no pós-operatório, coisa que muito me surpreendeu. Sempre ouvi relatos de que a sensação era de que um “trem” havia passado sobre o tórax do paciente. Voltado do sono anestésico, na UTI, fiquei na expectativa da passagem do dito “trem”. Até agora ele não passou. Dor foi coisa que não senti. Por quê? Não sei ao certo. Atribuo à competência da equipe médica.
Para não dizer que não sofri alguns percalços, lembro-me, de cara, do “inferno” que se denomina UTI. Ingenuamente, sempre imaginei ser um lugar calmo, tranquilo, em permanente penumbra, onde o paciente recém-operado poderia se recuperar com placidez em ambiente de muito silêncio. Nada disso! Foram três dias de suplício. Acho até que sai pior do que entrei. Exausto, sem dormir e estressado com tudo que vi, critiquei e fui ignorado. Como se sentir confortável num local onde não se apagam as luzes, dia e noite, os assistentes não respeitam os enfermos e conversam em voz alta, dão gargalhadas, falam aos celulares abertamente e até cantarolam. Isto tudo num hospital referencia e de primeira linha num importante polo médico  regional. Ali, vi, mais uma vez, o Brasil sem preparo profissional, baixo nível educacional e onde respeito ao próximo é coisa que não existe. Dormir, num ambiente desses, que seria bom foi impossível, até mesmo porque – com razão –  foi-não-foi, aferiam minha pressão, administravam medicamentos, faziam RX e extraiam sangue para exames laboratoriais. Pense em ser acordado de um cochilo fortuito, as 03:30h da madrugada e ser convidado para tomar um banho! Além de dar um fora na enfermeira, tive vontade de rir. Parecia uma pegadinha... Motivo explicado: “vou largar as 06:00h e quero adiantar minhas  tarefas”. Outra coisa abominável: a vaidade das médicas de plantão chega ao cúmulo de obrigá-las a usar sapatos de saltos altos, que, dia e noite e toda hora, emitem aqueles característicos sons de toc-toc-toc que desespera qualquer paciente. Maldita vaidade... Eu teria outras criticas, entre as quais sobre  a alimentação servida – verdadeiras “gororobas” –  mas, vou deixar prá lá porque tem gosto prá tudo. Depende do paladar. Vi  gente devorar cada prato que a mim causava náuseas. Passei fome...
Quando saí do inferno da UTI foi o maior alivio. Ter as atenções e carinho da família num apartamento privativo veio como um lenitivo. 
Mas, o importante mesmo é realçar o resultado final dessa “viagem”, que foi bem sucedida. Acho bom, e muitas vezes engraçado,  escutar dizer que estou de coração zerado. Já começo a testar a máquina recondicionada e vejo que responde bem. Para aqueles que se vejam na emergência de empreender uma “viagem” igual que a minha, minhas palavras são  de encorajamento. Não sinta o chão afundar, como me ocorreu na primeira hora. Confie no seu cirurgião e não esqueça que isso ocorre de repente e, de repente, “tudo pode mudar” . Relaxe vá em frente e zere a máquina. Vale à pena.

NOTA: O Blogueiro passou por esta  intervenção cirúrgica em 23.11.15

Foto obtida no Facebook
      

Tropeços Diplomáticos

Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...