Recordo, dos tempos da minha infância, que periodicamente
recebíamos em casa a visita de um funcionário da Saúde Pública que, por
determinação do Governo, percorria bairros e residências, fiscalizando a
assepsia ambiental e domiciliar, evitando a proliferação do aedes aegypti, mais conhecido
como muriçoca (em Pernambuco e estados vizinhos) ou pernilongo (nos estados do
Sudeste) transmissor da febre amarela da filariose e mais recentemente da
dengue, do zika e da chikungunya. O principal objetivo, na época, era contra a
febre amarela. Chegava, se não me falha a memória, com uma bandeirinha
amarela que pendurava na porta do domicilio visitado, denunciando à vizinhança
a chegada da fiscalização. Com uma lanterna, vasculhava cada recanto da casa.
Ai de quem não estivesse com a casa nos trinques! Para completar o serviço
borrifavam inseticida nos ralos, recantos mais inacessíveis, muros e paredes
mais propícias à proliferação do mosquito. Segundo pude pesquisar essa coisa
foi feita de modo rotineiro e aceito de muito bom grado pela sociedade até o
final dos anos 50, quando o mosquito foi tido como erradicado. Ocorre, porém,
que já nos anos 70 voltaram a se alastrar pelo país, segundo informes colhidos
junto ao Professor Google, oriundos de países vizinhos que não deram o mesmo
tratamento como no Brasil. Nessa época a retomada do combate ao mosquito foi
com um tratamento mais moderno, quando da aparição dos fumacês. Eram veículos
da Saúde Pública conduzindo uma máquina que fumegava inseticida no ar dos
logradouros públicos, tentando exterminar mosquitos adultos evitando a
proliferação dos mesmos. Bons tempos para a saúde pública. Naquelas
ocasiões, por incrível que pareça, havia governos mais preocupados com a saúde da
população.
Todas essas estratégias foram abandonadas e a atual situação está
aí: o povo brasileiro está refém de uma situação de saúde coletiva ameaçada e,
se brincar, com uma geração prejudicada devido aos males que o odioso mosquito
proporciona. Aqui em Pernambuco as emergências de hospitais e suas enfermarias
estão abarrotadas de indivíduos acometidos de dengue ou chikungunya. O mesmo
vem ocorrendo noutras unidades da Federação. Para tornar a situação mais
calamitosa suspeita-se que essas ocorrências de microcefalia e da síndrome de
Guillain-Barré relacionadas ao ataque desses mosquitos se constituem num
escândalo sem precedentes.
Mas, vejam bem: engana-se quem pensa que esses mosquitos são
novidade em terras brasileiras. Coisa nenhuma. Desde a época da colonização que
esses minúsculos inimigos aportaram por nossas bandas trazidos pelos navios
negreiros. São originários da África e muito comuns nos países tropicais. Os
países latino-americanos são ambientes propicio para essa praga.
Uma missão hercúlea está nas mãos do atual tumultuado Governo:
acabar com esse mosquitinho que ameaça a população e que pode se tornar mais um
vetor de desgaste de Dona Dilma. Mobilizar a população, criar brigadas de
combate e investir pesadamente têm sido programados pelos diferentes níveis de
governo. Contudo é de se considerar que,
ao mesmo tempo, a sociedade tem que dar fundamental contribuição na luta que se
trava, visando o próprio bem estar. Em cada casa a vigilância tem que ser
redobrada.
Lembro, entretanto, que a propósito de contribuição da sociedade outro
desafio aflora e é relacionado com o padrão educacional do público alvo. Tem
sido complexo convencer a todos da importância de se engajar no processo. Falta
gente esclarecida e aberta a contribuir com uma campanha de massa, sabendo-se,
sobretudo, que é nas camadas mais carente que o problema se revela mais grave. Bom,
onde há povo educado há maiores chances de sucesso para um projeto de tal
envergadura. Infelizmente, não é o caso do Brasil.
Se a adesão de todos é desafio, há, para alguns especialistas, alguns
equívocos de tratamento do problema. Tomei conhecimento disso conversando esta
semana com um tarimbado engenheiro civil (Renato F. de Souza) que garante haver
um ponto esquecido pela campanha, situado na rede de drenagem das ruas e
avenidas. As águas correm e abaixo de cada sarjeta ou “boca de lobo” encontram
um recipiente conhecido tecnicamente como “poço de visita”, onde se acumula por
bom tempo uma boa quantidade de águas propicias à proliferação do mosquito. Para
estes casos uma boa dose de inseticida em cada um desses poços seria bem vinda.
Vide foto ilustrativa abaixo. Saiba mais acessando: https://pt.wikipedia.org/wiki/Po%C3%A7o_de_visita
É lamentável que estejamos diante de tão grave desafio por falta
de atenção e responsabilidade das autoridades sanitárias deste país. Coisa do
inicio do século passado, quando Oswaldo Cruz encetou uma intensa campanha no
Rio de Janeiro, infestado do mosquito, que o projetou nacionalmente.
NOTA: Aedes vem do grego “odioso”
e aegypti do latim “do Egito”.

