quinta-feira, 3 de março de 2016

Egípcio Odioso

Recordo, dos tempos da minha infância, que periodicamente recebíamos em casa a visita de um funcionário da Saúde Pública que, por determinação do Governo, percorria bairros e residências, fiscalizando a assepsia ambiental e domiciliar, evitando a proliferação do aedes aegypti, mais conhecido como muriçoca (em Pernambuco e estados vizinhos) ou pernilongo (nos estados do Sudeste) transmissor da febre amarela da filariose e mais recentemente da dengue, do zika e da chikungunya. O principal objetivo, na época, era contra a febre amarela.  Chegava, se não me falha a memória, com uma bandeirinha amarela que pendurava na porta do domicilio visitado, denunciando à vizinhança a chegada da fiscalização. Com uma lanterna, vasculhava cada recanto da casa. Ai de quem não estivesse com a casa nos trinques! Para completar o serviço borrifavam inseticida nos ralos, recantos mais inacessíveis, muros e paredes mais propícias à proliferação do mosquito. Segundo pude pesquisar essa coisa foi feita de modo rotineiro e aceito de muito bom grado pela sociedade até o final dos anos 50, quando o mosquito foi tido como erradicado. Ocorre, porém, que já nos anos 70 voltaram a se alastrar pelo país, segundo informes colhidos junto ao Professor Google, oriundos de países vizinhos que não deram o mesmo tratamento como no Brasil. Nessa época a retomada do combate ao mosquito foi com um tratamento mais moderno, quando da aparição dos fumacês. Eram veículos da Saúde Pública conduzindo uma máquina que fumegava inseticida no ar dos logradouros públicos, tentando exterminar mosquitos adultos evitando a proliferação dos mesmos. Bons tempos para a saúde pública.  Naquelas ocasiões, por incrível que pareça, havia governos mais preocupados com a saúde da população.
Todas essas estratégias foram abandonadas e a atual situação está aí: o povo brasileiro está refém de uma situação de saúde coletiva ameaçada e, se brincar, com uma geração prejudicada devido aos males que o odioso mosquito proporciona. Aqui em Pernambuco as emergências de hospitais e suas enfermarias estão abarrotadas de indivíduos acometidos de dengue ou chikungunya. O mesmo vem ocorrendo noutras unidades da Federação. Para tornar a situação mais calamitosa suspeita-se que essas ocorrências de microcefalia e da síndrome de Guillain-Barré relacionadas ao ataque desses mosquitos se constituem num escândalo sem precedentes.
Mas, vejam bem: engana-se quem pensa que esses mosquitos são novidade em terras brasileiras. Coisa nenhuma. Desde a época da colonização que esses minúsculos inimigos aportaram por nossas bandas trazidos pelos navios negreiros. São originários da África e muito comuns nos países tropicais. Os países latino-americanos são ambientes propicio para essa praga.
Uma missão hercúlea está nas mãos do atual tumultuado Governo: acabar com esse mosquitinho que ameaça a população e que pode se tornar mais um vetor de desgaste de Dona Dilma. Mobilizar a população, criar brigadas de combate e investir pesadamente têm sido programados pelos diferentes níveis de governo.  Contudo é de se considerar que, ao mesmo tempo, a sociedade tem que dar fundamental contribuição na luta que se trava, visando o próprio bem estar. Em cada casa a vigilância tem que ser redobrada.
Lembro, entretanto, que a propósito de contribuição da sociedade outro desafio aflora e é relacionado com o padrão educacional do público alvo. Tem sido complexo convencer a todos da importância de se engajar no processo. Falta gente esclarecida e aberta a contribuir com uma campanha de massa, sabendo-se, sobretudo, que é nas camadas mais carente que o problema se revela mais grave. Bom, onde há povo educado há maiores chances de sucesso para um projeto de tal envergadura. Infelizmente, não é o caso do Brasil.
Se a adesão de todos é desafio, há, para alguns especialistas, alguns equívocos de tratamento do problema. Tomei conhecimento disso conversando esta semana com um tarimbado engenheiro civil (Renato F. de Souza) que garante haver um ponto esquecido pela campanha, situado na rede de drenagem das ruas e avenidas. As águas correm e abaixo de cada sarjeta ou “boca de lobo” encontram um recipiente conhecido tecnicamente como “poço de visita”, onde se acumula por bom tempo uma boa quantidade de águas propicias à proliferação do mosquito. Para estes casos uma boa dose de inseticida em cada um desses poços seria bem vinda. Vide foto ilustrativa abaixo. Saiba mais acessando: https://pt.wikipedia.org/wiki/Po%C3%A7o_de_visita   
É lamentável que estejamos diante de tão grave desafio por falta de atenção e responsabilidade das autoridades sanitárias deste país. Coisa do inicio do século passado, quando Oswaldo Cruz encetou uma intensa campanha no Rio de Janeiro, infestado do mosquito, que o projetou nacionalmente.


NOTA: Aedes vem do grego “odioso” e aegypti do latim “do Egito”.

6 comentários:

Susana Gonzalez disse...

Un problema no sólo del Brasil, también lo padecemos, no donde yo vivo porq aquí no se reproduce el mosco. Pero un gran territorio propicio para ello. Es cierto q es un deber de las autoridades, pero creo yo q también es de cada uno de nosotros. Debemos crear consciencia a nuestro alrededor sobre el problema y pedir q las gentes q nos escuchen lo hagan. Tenemos además las redes sociales, q pueden un sitio muy importante. Y sobre todo actuar con el ejemplo, no esperando q nos resuelvan el problema.
Susana Gonzalez

Ina Melo disse...

Amigo Girley, só o Brasil pode ter tantas pragas ao mesmo tempo. Por isso que nossa Cleci está morando no Paraíso (Canadá), em vida, vale ressaltar. Mas é tão bom o calor dos nossos familiares e amigos e isto a gente só encontra aqui. Possivelmente, quando eu tiver atravessado a ponte para o infinito, este Brasil seja um lugar para se viver o hoje, sem temer o amanhã. Espero que isto aconteça para a nova geração que está chegando.
Ina Melo

Artur Reis disse...

É uma praga que pegou o Brasil no período onde a Saúde e a Educação estão nos seus piores momentos!
Artur Reis

José Artur Paes disse...

Grande GB,
Queimar chifre afasta cobras e mosquitos, mas fica um cheiro forte e um pouco desagradável. Os cornos que se cuidem. Mas, funciona. Outra dica é queimar esterco, vulgo Bosta de Vaca. Realmente acaba com os pernilongos e não cheira mal. E como aprendi tudo isto? Ora, minha origem é o interior! Belo Jardim, aonde imperam a Lagoa da Inhuma e o Rio Bitury. (com "y" mesmo). Mas, acho que mosquito não gosta de “véios”, pois aqui em casa (Jaqueira) não fazemos nada disso e não tem um, meu irmão. Quando aparece é um assombro.
Abração.

Cristina Henriques disse...

Girley :
Tenho 3 filhos.O 2o.filho nasceu com malformação congênita - mielomeningoceli.Eu tinha 17 anos,nenhum acesso a pesquisas,nem dados neurológicos.Passei décadas procurando resposta para o motivo daquela malformação.Hoje a resposta mais provável é ausência de ácido fólico na gestação.Provavel...Possivel - uma gravidez após 3 meses de parto.Imagino essas pobres mamães...Imagino essas gestantes passarem os 9 meses em estado de angústia...Até onde vai o irresponsabilidade governamental?Parece que só funcina com Navalha na carne.Só olharam para a a cidade de Ribeirão e região quando em 2010 até prefeito,vice e toda classe política também foram vitimas das enchentes e IGUALMENTE ficaram sem nada.Seu alerta é relevante.Peço que condense a parte técnica e coloque na página da APBS.Agradeço.

Corumbá disse...

Caro Girley.
Gostei de seu comentário, mas gostaria de fazer uma correção: em entomologia, ciência que estuda os insetos, todas suas denominações vêm do latim. Aedes é a denominação comum aos mosquitos do gênero Aedes, da família dos culicídeos, do qual o Aegypt é o nome específico dessa espécie de inseto, palavra que também vem do latim.
Apesar da criatividade, Aedes é uma palavra latina e não quer dizer nada em português, a não ser a designação do gênero entomológico da mosquito em estudo.
Um grande abraço,