segunda-feira, 19 de maio de 2014

Tecido Esgarçado

Sabe daquela situação em que você manuseia um tecido esgarçado e que, por qualquer esforço exigido, se rompe? Claro que sim. Qualquer cidadão já passou por essa situação. Pois bem, é assim que vejo o tecido social brasileiro, neste momento. O povo está cansando de tantas exigências e poucos esforços governamentais para mitigar a situação de fragilidade que tomou conta do país. De modo geral muito manso e ordeiro o brasileiro está mudando e tem aproveitado qualquer oportunidade de reação. Muitas, até incabíveis.
Os mais recentes exemplos de reação da massa social foram observados na Bahia, em abril passado, e em Pernambuco, na semana passada. Nesses dois estados os policiais militares resolveram entrar em greve, reivindicando melhores salários, entre outras demandas menores, provocando caos social inesperado. Diante da ausência de policiamento nas ruas os “mentores da desordem” entraram em ação e, de forma espúria, agitaram as massas instalando badernas, assaltos, saques ao comércio e instabilidade na segurança das cidades. O Brasil inteiro e muitas praças no exterior assistiram pela mídia flashes e relatos de um clima de guerra que se vivenciou em Pernambuco durante os três dias da greve da policia militar. De repente, os pernambucanos viram-se reféns de uma situação inusitada e recheada de surpresas desagradáveis. O que ocorreu no município de Abreu e Lima (Região Metropolitana do Recife), por exemplo, estarreceu meio mundo. Grandes magazines e pequenos negócios, do comércio local, foram invadidos e saqueados por uma massa ensandecida, muitos “indo na onda” e saqueando por saquear. “Quando vi todo mundo levando as mercadorias, fui também com meu neto e peguei um bocado de coisas”, afirmou aos risos uma popular. Assim, simplesmente! Nunca passou pela cabeça dessa Senhora que a partir daquela hora havia se transformado numa ladra declarada. Santa ignorância. Naturalmente que nessas horas a massa atende a uma voz de ordem. Acredito que, em Abreu e Lima, alguém gritou: “vamos invadir e levar tudo...” Foi o que esperava um povão, oprimido pela inflação reinante, pela provocação exercida pela publicidade consumista, pela falta de um bom emprego e receber os baixos salários, os sonhos de consumo, entre outros fatores.
Daí em diante e a partir das ruas de Abreu e Lima o medo se espalhou pela Região Metropolitana, o comércio fechou, as empresas dispensaram seus colaboradores e houve o maior alvoroço de correr para um abrigo seguro, como se uma guerra civil fosse estourar a qualquer momento. Atendendo ao pedido do governo estadual a Força de Segurança Nacional baixou no estado para garantir a ordem e chegou com tanques de guerra nas ruas. O cenário foi de pavor.  Para completar, os boatos alarmantes se espalharam pelas chamadas redes sociais, nas quais elementos nocivos à sociedade se divertiram implantando noticias e fotos mentirosas e alarmantes. Lamentável. Como na mesma ocasião uma série de manifestações contra a Copa do Mundo e com outras diferentes reivindicações se desenrolavam com muitos tumultos registrados, em muitas capitais brasileiras, o pernambucano foi tomado por verdadeira onda de terror. A que ponto chegamos! Quando a greve acabou, na quinta feira à noite, o clima de alívio tomou lugar na cidade e o dia seguinte parecia que nada havia ocorrido, o que não deixa de ser surpreendente. Foi, digamos assim, uma ressaca passageira. Ora, uma coisa dessas merece uma analise mais profunda. Algo de errado esteve claro para um cidadão de são juízo.
Por isso, digo que, como lição desse desagradável episódio, o pernambucano em particular e os brasileiros de modo geral, precisam refletir seriamente sobre essa sociedade que explode a qualquer estimulo maligno coletivo. Acredito que o netinho daquela Senhora da cidade de Abreu e Lima pode levar para o resto da vida as imagens daquele dia passado e com outros mais que, inocentemente participaram dos mesmos saques, se transformem em potenciais saqueadores no futuro.
Que tipo de sociedade temos hoje e qual a sociedade que estamos formando, agora? É pergunta que não cala. Faltam educação e civismo na nossa gente. Como faltam bons salários e respeito aos nossos professores e policiais. Urgem providencias de nossos governantes para melhorias nesses setores e na formação das novas gerações instruindo-as a saber que seus direitos acabam quando começam os diretos dos próximos! Que roubar é crime!
O Brasil precisa fortalecer seu tecido social.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Vexame Internacional

Vejam vocês que tristeza. Esse assassinato do jovem torcedor no Estádio do Arruda, semana passada, como de se esperar, terminou colocando de modo ostensivo os refletores internacionais na delicada situação da violência brasileira, particularmente aquelas que ocorrem nos campos de futebol. Num ano de Copa do Mundo no Brasil, então, este caso veio corroborar para a ampliação do clima de insegurança que reina na maioria das torcidas estrangeiras que se preparam para aportar no reino do futebol.
É inacreditável para qualquer cidadão de sã consciência, mundo afora, saber que um sujeito tem a capacidade de arrancar uma bacia sanitária de um banheiro publico (é o caso de um banheiro, num estádio de futebol) e arremessá-la das alturas, onde as arquibancadas, sobre uma multidão que se desloca na saída da praça de esportes. Surrealismo para qualquer um. Tenho certeza. Naturalmente, causa perplexidade.
O incrível, minha gente, que em meio aos comentários sobre essa tragédia tomei conhecimento de que “normalmente” ao final de cada partida de futebol, as administrações de estádios arcam com altíssimos custos para recompor setores depredados por torcedores revoltados, ou não, com o resultado final do placar. Bacias sanitárias, torneiras, pias, luminárias, cabos elétricos são danificados ou roubados de modo frequente. E que não foi a primeira vez que um vaso sanitário tenha sido arremessado das alturas. Muitos já se livraram da fatalidade, o que não ocorreu no caso de Paulo Ricardo Gomes da Silva, um trabalhador pacato, laborioso, soldador no Estaleiro Atlântico Sul, aqui em Pernambuco. Seu defeito era gostar de futebol e frequentar os estádios.  Conversei com uma gerente do referido Estaleiro, que me traçou um perfil do rapaz. Torcedor do Sport Clube do Recife e fotógrafo da Torcida Organizada do Clube  preparava-se para mais um clique com sua câmara, quando tombou morto. Qualquer outro tipo de comentário, agora, será redundância para essa barbárie.
A notícia escabrosa correu o mundo como um rastilho de pólvora: do Arruda para Johanesburgo e Sydney. Ao mesmo instante, Londres, Nova York e Tóquio. Um horror. O Recife, no final das contas, gerou as manchetes dos principais jornais do planeta. Dolorosas... é claro!   Vide foto a seguir.

Indecente foi escutar, dias depois, um comentário de que os dirigentes do Clube “tirando o corpo fora”, afirmaram não ter nada ver com o ocorrido. O Santa Cruz Futebol Clube fica sem mando de campo por duas partidas. Considero ser uma penalidade muito pequena, para um Clube que não atenta para a segurança da sua praça de esportes. 
Lamentavelmente, estamos chegando o “fundo do poço”. Nossa sociedade está em franca deterioração. O que mais poderá ocorrer? Vidas inocentes são interrompidas friamente. Criança é trucidada perversamente, no Rio Grande do Sul, por uma madrasta insana; filho decapitou o pai e desfila na cidade exibindo a cabeça, em Mato Grosso do Sul; em São Paulo, uma mulher é linchada até a morte por conta de um boato na Internet. Tudo nesses últimos dias! É uma crise de civilidade, humanidade, solidariedade, de tudo que contribua para se viver numa Nação digna e respeitada.
O Brasil precisa ser conduzido a uma reflexão coletiva, neste momento crucial. A pobreza disseminada induz a falta de perspectiva na vida de uma grande parte da população. Com educação e saúde em estados precários; com carência de um verdadeiro líder político; a bandidagem grassando nas mais diversas camadas sociais, inclusive na política; uma impunidade generalizada; a justiça ronceira e a urbanidade desgastada formaram o "caldo" que levou País a este quadro deplorável.  
Urge que tenhamos uma liderança forte assumindo os destinos da Nação, duvido muito, com consciência e visão de futuro para remontar esta sociedade em padrões civilizados e garantidores de um futuro de muita ORDEM e franco PROGRESSO.
Como os governos não são capazes de dar conta do recado, a sociedade organizada tem que dar as mãos e entrar nessa cruzada de salvação. Que venham as ONGs sociais, como as pastorais católicas, as organizações das demais igrejas, os Clubes de Serviços (Rotary e Lions), as associações de bairros e todos que queiram salvar o país da sanha marginal.    

NOTA: Foto obtida no Google Imagens

sábado, 3 de maio de 2014

Racismo Renitente

O tema desta semana é daqueles que insistem em se manter sempre atual: o preconceito racial. É impressionante como o tempo passa, o progresso das nações avança, os movimentos antirracistas se multiplicam, a globalização cresce aproximando nações povos e raças, mas, o mundo não consegue enxergar com naturalidade as diferenças raciais, seja nos seus aspectos físicos ou, principalmente, suas peculiares maneiras de ser, suas inteligências, expertises, hábitos e costumes. O Mundo é racista. O Brasil é um país racista. Em pleno século 21.
Episódios recentes no mundo do futebol têm sido frequentes e ostensivos. Acho que o tipo de ambiente, multidão, ajuda aos agressores agirem de forma anônima. Foi assim com o jogador Tinga, do Cruzeiro, em fevereiro passado, no Peru e, semana passada, na Espanha, com Daniel Alves. Para este atiraram uma banana, sugerindo se tratar de um macaco em campo.  Foto a seguir. Não faz muito tempo assisti, com pesar, no estádio da Ilha do Retiro (Recife) o achincalhamento que faziam com o jogador Carlinhos Bala, quando de posse da bola. A torcida adversária urrava uníssona como um chipanzé, perturbando o jogador. Repugnante.

Conheço e já conheci muitos cidadãos negros. Tenho o maior respeito por essas pessoas. Reconheço nelas suas qualidades, sobretudo nos aspectos inteligência, dignidade, caráter e honestidade. Entre esses, pessoas de condições humildes ou pessoas de graduação superior e bem postas na pirâmide social. Como não admirar o Joaquim Barbosa?
Embora criado e educado numa sociedade racista, descobri logo cedo que os pretos são tão humanos e tão gente quanto eu sou ou outro qualquer  semelhante. Recordo, para inicio de conversa, que meus pais resolveram me matricular  – a mim e meus irmãos – numa escola primária particular, dirigida e por uma família de negras. Eram três professoras respeitadas no nosso bairro. Competentes e rigorosas nos prepararam para vida de forma exímia. Tenho muito que agradecer àquelas negras maravilhosas. Quando Dona D’Lourdes entrava na sala de aula e olhava, a gente se postava em estado de disciplina e respeito. Acredito que o fato de conviver por quatro anos da minha infância, numa sala de aula, tendo como mestra uma mulher negra, inteligente, alta, elegante e dócil me fez aprender a respeitar e admirar os negros na forma que a natureza os fez. Nunca me ocorreu compará-los com qualquer tipo de símio.
Mas, o mais incrível é como essa coisa é arraigada na alma dos povos, inclusive dos brasileiros. Já tive oportunidade de ver dentro de casa um episódio inesquecível: Tereza (nome trocado), uma negra toda prosa, exímia cozinheira que servia na minha casa, preparou-se toda e foi brincar o carnaval, no Galo da Madrugada. Passado o carnaval perguntei: “e então Tereza, pulou muito no carnaval? Arranjou um namorado?” a resposta foi a coisa mais inesperada: “Pular, pulei. Mas, namorado que é bom, não. Só me apareceu um negão arrastando uma asa pro meu lado... dei-lhe um fora daqueles. Quero lá negócio com nêgo.” Espantado, reagi com outra perguntei: “Armaria, e você num gosta de nêgo, não?” Ela foi taxativa: “gosto não, Senhor. De cor basta eu”.  Ela não aceita ser negra. Inclusive, observei que na resposta que me deu, ela não se referiu à própria condição de ser negra e sim ser uma pessoa de cor. Aprendi com ela que o preconceito começa entre os próprios negros. São bem poucos os que manifestam orgulho da sua condição racial. Aliás, a atual secretária doméstica, na minha casa,  “morre”, mas não assume a sua negritude. Ela se diz morena. Negra, jamais.   
No futebol, o que vem acontecendo faz lembrar os primórdios desse esporte no Brasil, que inicialmente era uma modalidade reservada para as elites. Há um caso emblemático ocorrido no Fluminense do Rio de Janeiro. O time do Flu só tinha jogadores de raça branca. Um dia, porém, acharam por bem contratar um mulato bom de bola que, antes de entrar em campo, cobria o rosto com pó-de-arroz para tentar disfarçar sua cor. Quando a partida esquentava o suor do mulato derretia o pó e revelava sua verdadeira cor. Por conta disso as torcidas adversárias passaram a chamar o Fluminense de time pó-de-arroz. E aqui no Recife, os mais antigos dizem que o Clube Náutico Capibaribe, da primeira metade do século 20, não admitia nem jogador, nem sócio negros. Pode uma coisa dessas?
Outra coisa incrível é que faz pouquíssimo tempo que as propagandas e comerciais da TV e revistas, no Brasil, passaram a incluir figuras de modelos negros. Por sinal, belas! Um estrangeiro desavisado que no passado folheasse uma revista brasileira jurava que o país era povoado somente por brancos, quando na verdade é um país com mais da metade da população da raça negra. Atores negros é outra coisa dos últimos vinte anos.
É preciso que haja uma inteligente campanha de base, entre as novas gerações, preparando-as para compor uma sociedade futura mais humana e mais solidária, mostrando que racismo é crime. É preciso, principalmente, um governo capaz e atento para esses aspectos e responsável por construir uma nação civilizada e fiel aos seus valorosos filhos negros. Fim ao Racismo Renitente!


NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.

sábado, 26 de abril de 2014

Ravel à Cabocla

Há coisas com as quais não me convenço facilmente. Uma dessas, recentemente, é o fato de que João Pessoa, capital da Paraíba, esteja incluída entre as cidades mais violentas do mundo. Logo do mundo... Se pelo menos fosse do Brasil, eu até ponderaria. No recente feriadão fui conferir essa coisa, in loco.
Para quem mora no Recife é uma vantagem ir àquela cidade. Pouco mais de 100 km, por uma BR 101 em bom estado, e eis que se chega à cidade mais oriental da América do Sul, lugar onde o Sol nasce primeiro. Hospedado num hotel à beira mar, fiquei de olho atento ao movimento da cidade.  Só vi muita tranquilidade... Trânsito fluido, povo hospitaleiro, praia do Cabo Branco com mar sereno, nem ondas para agitar um pouco. Turistas por todo lado. Muitos pernambucanos se deliciando com a placidez da cidade e eu lá, buscando ver sinais de violência e nada! Nem no centro da cidade! Mesmo num sábado movimentado, na zona mais antiga da cidade e pelas imediações da Estação Rodoviária, não vi qualquer vestígio de violência. Pelo contrário, vi famílias, com muitas crianças altas horas passeando no calçadão da praia, fazendo seresta e bebericando na areia, sem medo de assaltantes ou outro qualquer tipo de malfeitor. Cheguei a conversar com alguns e indagar sobre a violência local. As respostas foram taxativas: “isto aqui é um paraíso. A cidade inteira é calma! Aqui se vive tranquilo”. Tudo coincidindo com a minha ideia. Cabe então, questionar: qual a base tomada pela ONU? A metodologia declarada se ateve nos registros de ocorrências policiais.  Fiquei desconfiado. Vai que, em João Pessoa, os registros são honestos e termina por penalizar a cidade. Há pessoas ou comunidades das grandes cidades que, de tanto sofrerem, com a violência banalizada, sequer vão à busca de auxilio policial para registrar os crimes cometidos. Minha secretária doméstica cansa de afirmar que, por onde ela vive, bairro de favelas do Recife, mata-se, rouba-se e estupra-se  com a maior “tranquilidade” e tudo fica por isso mesmo. Deve ser isto. Sub-registro das ocorrências. Só pode.  Rio e São Paulo com tantos queima- ônibus, assaltos, balas perdidas e atrocidades similares não estarem elencados na lista negra é no mínimo estranho.
Mas, João Pessoa além de tranquila, aos meus olhos, oferece ao visitante algumas atrações bem interessantes:  o Cabo Branco e a Ponta do Seixas são locais de um tour obrigatório. A mata atlântica do entorno do Cabo, a visão do mar, as praias e parques enchem a vista do turista.
Por outro lado, ouço sempre falar sobre um famoso pôr de sol às margens do rio Paraíba, na praia fluvial do Jacaré, entre João Pessoa e Cabedelo. Fui conferir, também. Lá um cidadão de nome Jurandir toca num saxofone afinado, todo santo dia e na hora que o sol se recolhe, o Bolero de Ravel. Quando o dia vai caindo, para dar lugar ao manto escuro da noite, ele aparece do nada, navegando numa canoa quase tosca e tasca o famoso Bolero. O cara arrepia. É bonito. 

Por conta disso, uma dezena de bares e restaurantes se instalou naquele exato ponto do rio, nos quais uma multidão (no dia em que estive lá calculei cerca de 10 mil pessoas) se posiciona para assistir a performance do artista. Ele consegue criar um clima romântico para os enamorados, nostálgico para os solitários, ameno para a criançada, curioso para outros e pitoresco em termos turísticos. É surpreendente o silencio que se faz quando ele toca. Ao final, uma verdadeira ovação.
Conversei com o Jurandir (vide foto acima) que me contou a origem daquele movimento. Tem mais de quinze anos. “Fui convidado, numa tarde, por Dona Eleonora, uma Senhora da alta sociedade da cidade, para tocar o Bolero, lá no restaurante dela. Ela estava com uma porção de amigos que vieram ver o por do sol e todo mundo era louco por essa musica. Tem um filme muito famoso que essa musica é tocada. E esse pessoal gostava de ver o por do sol escutando a musica que eu tocava. Repeti isso várias vezes para ela.” Segundo Jurandir, quando D. Eleonora resolveu fechar o restaurante (as instalações estão abandonadas – Vide foto a seguir) e ele, de gostar tanto da experiência, assumiu um compromisso pessoal de tocar todo dia. Nasceu daí um dos mais interessantes cases de economia criativa que vi ultimamente. 

Por conta de Jurandir, seu saxofone e o Bolero de Ravel formou-se naquela comunidade ribeirinha uma base econômica sustentável, dinâmica e conforme a cultura local. Na beira do rio, além dos bares e restaurantes, surgiram lojinhas de artesanato, pousadas, lanchas e barcaças para passeios no rio, catamarãs, entre outros pequenos negócios. “Antes nós só fazia pescar pra comer. Hoje a coisa é diferente... tem de tudo pra nós fazer.” Foi o que ouvi do barqueiro que me conduziu num passeio pelo rio. Parabenizei Jurandir, um cara simples, afável, sem vaidade e disponível a todo cidadão que se aproxime para uma conversa. Grande figura.
Jurandir, seu saxofone e o Bolero de Ravel, à moda cabocla, são, hoje, a maior atração turística de João Pessoa. Vale ver. Tenha mais uma ideia com a foto a seguir.

NOTAS: Fotos da autoria do Blogueiro e de JPAllain

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A Violência do Tráfico

É muito interessante como um assunto de ontem sugere um novo para hoje. Ao preparar a postagem da semana passada, quando comentei o resultado de uma pesquisa sobre violência no mundo, mapeada pela ONU, esbarrei num outro assunto, dentro da mesma temática, embora que mais específico. Refiro-me à questão do tráfico de pessoas. Durante a semana, pensei tanto nos números que encontrei, entre as publicações do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que o assunto se tornou o tema desta semana, aqui no Blog.

Descobri, por exemplo, que traficar pessoas é a maior fonte de renda no contexto do tráfico internacional. Supera os tráficos de drogas e armas. Surpreendente. Estimativas do UNODC e da OIT (Organização Internacional do Trabalho) dão conta de que 32 bilhões de Dólares são transacionados a cada ano, no mundo, somente nas atividades de compra e venda de seres humanos. É muito dinheiro perdido nas mãos de criminosos. Os motivos são os mais variados e perversos, passando pelo da exploração sexual – o mais popular – até os do trabalho escravo, venda de órgãos para transplantes, adoções ilegais e crianças frutos de partos clandestinos. Uma miséria sem fim.
E o Brasil está lá, bem presente, na corrente do tráfico, tanto doméstico, quanto internacional. Meninas e garotos entre 14 e 25 anos de idade são aliciados nos grotões da Amazônia e confins do Nordeste e levados para estados, grandes metrópoles do sul e sudeste, além de muitas do exterior, iludidos e pensando em realizar o sonho de uma vida melhor. As intenções são sempre de fugir da promiscuidade da vida em família, da falta de um lugar decente para morar, da pobreza sem fim, da falta de educação e saúde, da baixa remuneração – quando trabalham – e, em muitos casos, por conta das humilhações geradas pela prostituição precoce.  No novo mundo que passam a habitar, terminam num regime de escravidão, entregues ao comércio do corpo e das drogas, presos aos contratos draconianos  e, sobretudo, impagáveis dos traficantes.
O Instituto Europeu para Controle e Prevenção do Crime (não encontrei site desse Instituto! Talvez por desconhecer a denominação original. Mas, citado pelo Wikipédia) garante que cerca de 500 mil pessoas são traficadas para o continente europeu, por ano, oriundas de países pobres das Américas, Ásia e África. Quando o destino é mercado do sexo, 98% são mulheres. A Zona Vermelha de Amsterdam, com suas famosas vitrines, é o retrato fiel desse quadro. Segundo o mesmo Instituto, as pessoas traficadas entram fácil nos países europeus, com visto de turista e debaixo das “asas”de agenciamentos de modelos, babás, garçom ou garçonete ou bailarina.
Recordo que conversei, certa ocasião, numa Feira Industrial, em Dusseldorf, com uma pernambucana vítima do tráfico, vivendo na Alemanha. Num rasgo de sorte, coisa do destino, encontrou um cidadão de “boa vontade” que resolveu livrá-la da chamada “vida fácil” – sempre muito difícil – e levá-la para casa, como companheira.  Livre das artimanhas do traficante, graças à alguma negociação, pois ela supõe que foi “comprada”, passou a viver com mais conforto e mais segurança. Com algum tempo, porém, as coisas se complicaram, ela percebeu que não passava de uma escrava empregada doméstica, sem remuneração e, paulatinamente, era tratada de modo ríspido, brutal e muitas vezes com agressões físicas. Fugiu para uma cidade maior, procurou fazer biscates, faxinas, passou fome, dormiu em abrigos, juntou alguns euros e, quando conversou comigo, queria comprar um forno elétrico da marca Brasinox, produzido em Pernambuco, para montar uma pequena lanchonete ambulante, vendendo empadas e coxinhas de galinha. Por isso que digo que teve sorte. Indaguei se não voltaria ao Brasil. A resposta foi taxativa: “Não. Lá não terei do que viver. Não existe oportunidade para uma mulher como eu. Minha família é muito pobre. Fugi da pobreza! Passei muita fome. Aqui também passei fome, mas é muito mais fácil ser pobre na Alemanha!  Tenho saudade. Voltarei quando tiver mais dinheiro e condições de ajudar minha família”.
Em boa hora a Campanha da Fraternidade de 2014, da Igreja Católica do Brasil, tem como tema central o Combate ao Tráfico Humano. Com razão porque o Brasil é um país muito focado pelos traficantes, ao oferecer as facilidades da sua dimensão continental, da situação sócio-político-econômica  desfavorável e as inúmeras vias de saída do país.
O evento do Campeonato Mundial de Futebol, dentro de dois meses, é outro fator facilitador. Merecem aplausos o Serviço Social da Indústria (SESI) e a Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) que acabam de lançar uma intensa campanha contra o abuso sexual durante a Copa. O abuso  sexual é uma senha de entrada na corrente do tráfico. Salvemos nossos brasileiros e brasileiras incautos.


NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

domingo, 13 de abril de 2014

Violência Mapeada

A violência é endêmica em muitas regiões do mundo. E o Brasil entra de modo lamentável nesse doloroso mapa-múndi, num grupo que inclui México, Nigéria e Congo.   Um levantamento feito pela Organização das Nações Unidas, através do seu Escritório Sobre Drogas e Crime (UNODC), e publicado nesta semana que termina, trouxe uma informação dolorosa: 11 das 30 cidades mais violentas do mundo estão no Brasil.
Além de lamentável, algumas curiosas surpresas são trazidas pela referida Pesquisa. Por exemplo: a primeira coisa que se imagina é que as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo deviam vir na dianteira da lista. Mas, não. Sequer estão entre as trinta. Como pode? Diante da maciça divulgação pela mídia, diariamente e ao vivo e a cores, outra coisa não se pode imaginar. Ao contrario disso, cidades menores e, provavelmente com pouca cobertura do grande jornalismo, como Maceió, João Pessoa e Fortaleza, aparecem entre as dez mais. Uma surpresa, das grandes, para um simples mortal quem nem eu. Mais surpreendido quando – por felicidade, aliás – não vejo entre as listadas, nesse mapa da violência, a minha cidade do Recife, que já foi no passado recente uma das mais violentas do país. Parece que o Programa Pacto pela Vida, do atual Governo local, vem surtindo efeitos positivos.
Sinceramente, fico perplexo imaginando o nível de violência que vem ocorrendo nessas cidades listadas, principalmente nas menores. Pensando que alimento meus temores em andar à vontade no Recife e se, a cada dia, me assusto com as atrocidades que a imprensa e a TV nos mostra, na grande maioria ocorrida no Rio de Janeiro ou em São Paulo, minha surpresa é compreensível. Cá entre nós, fico temeroso de fazer visitas à Maceió – a mais violenta do Brasil – João Pessoa e Fortaleza. Não tenho como não me surpreender. Afinal são cidades para as quais sempre fui sem temor e de peito aberto.
Segundo a ONU, 437 Mil pessoas foram assassinadas no Mundo, em 2012. Quase meio milhão de vidas tiradas, em atos violentos intencionais. Mata-se mais do que nos conflitos armados em qualquer lugar. 36% dessas mortes ocorreram nas Américas, sobretudo Central e do Sul. A pequena Honduras é a “campeã” da lista, com duas cidades mais violentas do Mundo: San Pedro Sula e a Capital Tegucigalpa. Naquele país, ocorrem 90,4 homicídios intencionais entre cada 100 Mil habitantes. A Venezuela vem em seguida com uma taxa de 53,7 por 100 Mil e El Salvador, com 41,2. A taxa verificada no Brasil foi de 25 homicídios para cada 100 Mil Habitantes. São taxas endêmicas para o padrão mundial, que tolera no máximo 20.
Das 30 cidades que encabeçam a lista da violência no mundo, quase todas estão nas Américas. A única exceção é a Cidade do Cabo (20º lugar em violência) na África do Sul. Duas são norte-americanas: Detroit e Nova Orleans. Agora, para tristeza nossa, 11 são brasileiras. O restante é de cidades latino-americanas. Além das brasileiras já citadas, ainda estão, entre as 30 mais violentas: Natal (12ª), Salvador (13ª), Vitoria (14ª), São Luiz (15ª), Belém (23ª), Campina Grande (25ª), Goiânia (28ª) e Cuiabá (29ª). E muita coisa, minha gente.

Por curiosidade, fui examinar a outra ponta e descobri que nos principados de Mônaco e Liechtenstein, as taxas observadas foram de zero homicídios em 2012. Na mesma ponta destacam-se Cingapura, com 0,2 por 100.000 e o Japão com 0,3. O Iraque, vejam só, emergindo de um conflito armado sangrento apresentou uma taxa de assassinatos de 8% por 100 mil habitantes. Não é uma surpresa? Para mim, pelo menos, é. As taxas encontradas na Europa e Oceania foram, respectivamente, de 5% e 0,3%.
Esses dados alarmantes chegam com muita oportunidade neste tempo de eleições no Brasil. Tomara que nossos candidatos, seja qual for o nível de disputa, estejam atentos e com as informações às mãos na hora de compor seus planos de governo. E que o eleitorado tome conhecimento, aliás, consciência desta situação para cobrar de modo enfático e responsável nos debates e nas urnas.
Precisamos lutar por um país mais decente e livre das violentas atrocidades registradas nos últimos tempos, acabando, por exemplo, com a impunidade, que tem sido um dos maiores incentivos à pratica de crimes. Segundo o mesmo escritório da ONU, apenas 24 de cada 100 homicídios recebem sentença condenatória! Nessa mesma esteira de atitudes, precisamos dar um basta aos cartéis da droga, que imperam nas periferias urbanas brasileiras e sustentam as ações do crime organizado. Ah! Combater de modo severo e decidido com a violência contra as mulheres e o tráfico de pessoas... E, naturalmente, educar essa gente, para que possam conquistar um mundo adequadamente civilizado. Tristemente conclamo: Acorda Brasil!

NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens

  

sábado, 5 de abril de 2014

Pobre Astrogildo

Há poucos dias encontrei um amigo que, alguns anos atrás, comemorava os lucros que estava auferindo pelo investimento que fez em ações da Petrobrás. Usou dinheiro que tinha no FGTS. Petista de carteirinha, além de elogiar o aumento exponencial dos lucros registrados a seu favor, teceu loas ao Governo e, àquela época, ao Lula. Confesso que senti uma pontinha de inveja do cara. Quem não gosta de ganhar um dinheirinho, sem fazer força?
Nesse recente encontro com Astrogildo Buarque (nome fictício) a conversa foi bem diferente. Tive pena do meu amigo. O cidadão estava desencantado com a queda vertiginosa das ações da Petrobrás. Sem entender, ou sem querer entender muito bem, como essa coisa podia acontecer. Danado da vida com as trapalhadas do Governo e furioso com Dona Dilma. Perder, sem mais nem menos, uma nota preta. Não sei quanto, mas, acho que não se tratava de tão preta assim... embora que para ele representasse  um senhor “pé de meia”.  Como sou Economista e ex-Professor de Economia Brasileira, ele foi chegando e, de cara, pedindo minha opinião sobre a situação, sobre o mercado de ações e em particular sobre as perspectivas dos papéis da Petrobrás. Pense na dificuldade que tive de emitir essa opinião. Nessas horas tenho o maior cuidado de não baixar mais ainda o ânimo do sujeito, principalmente de pessoa que prezo e que se encontra em estresse. Explicar ao meu amigo, de modo sucinto e o mais didático possível, o funcionamento do mercado de ações e concluir dizendo que é um investimento de risco, por vezes alto risco, deu trabalho. Não que ele não soubesse de tudo. Até que sabia. Mas, quando o cara percebe seu dinheiro ir pra um buraco... fica mais difícil assimilar.
Assim como Astrogildo, que já perdeu muito e, sequer, tem o quanto investiu, muitos são os que arriscaram em ações da Petrobrás e que estão perplexos diante da desvalorização dos papéis da Empresa.
Tenho acompanhado os debates de especialistas sobre o caso Petrobrás e, sinceramente, lamento o que vem acontecendo. Como pode uma empresa desse porte, solidez  e importância internacional cair em tantos desatinos? Como pode uma equipe técnica de alto nível deixar acontecer tantos desmandos? Propinas, investimentos indevidos e mal fundamentados, como o caso da Refinaria de Pasadena, no Texas (USA), US$ 1,18 Bilhão pelo ralo, e projetos mal formulados, como o da Refinaria Abreu e Lima, aqui em Pernambuco, cujo investimento foi subdimensionado, tendo demandado, até agora, quase 10 vezes o valor total projetado que era de US$ 2,3 Bilhões – sem falar no blefe do tresloucado Hugo Chávez – e hoje se revela como escandaloso e lançado na vala dos desmandos da Empresa. Que horror. Essa é uma Petrobrás que os brasileiros não conheciam. Sempre me orgulhei de falar dessa empresa nas minhas andanças pelo exterior. Junto com a Embraer representava o que de mais eficiente e promissor do Brasil Moderno e aspirante a uma vaga no Clube do Primeiro Mundo. Esses recentes episódios, contudo, a mancham de modo surpreendente e indefensáveis. Observem, caros leitores, quantos erros esse Governo vem cometendo, capazes de matar nossa “galinha dos ovos de ouro”.   
É voz geral, para quem acompanha o caso, no que eu concordo, que a nossa Petrobrás vem sendo usada de forma espúria e sem pudor, a favor dos interesses políticos mais absurdos que se tem noticia na história econômica recente deste país. Nunca devia ter sido o instrumento de política para controle da inflação, que no final das contas tem claro caráter eleitoreiro. Ao controlar demasiadamente e por longo período os preços dos combustíveis a empresa vem enfrentando perdas expressivas na sua receita operacional. E pior, na sua programação de investimentos. O remédio tem sido contrair empréstimos e ficar altamente endividada. Mais do que isso, nossa petroleira tem tido necessidade de importar gasolina e óleo diesel para atender a demanda crescente nos postos de serviço, decorrente, inclusive, da própria política de incentivo à industria automobilística, reduzindo o IPI dos veículos, o que contribuiu para o aumento da frota e, automaticamente, para o consumo. Fala-se que o volume importado subiu quase cinco vezes (470%) de 2010 para 2013. E com esse Dólar Americano sendo apreciado frequentemente face ao Real, “a vaca vai direto pro brejo”. Difícil mesmo vai ser quem tiver de corrigir esses preços. E nem a produção do Pré-Sal tem salvo a situação.
Mas, não fica por aí. A Empresa tem sido também o vetor principal de um dispositivo de política de desenvolvimento industrial complicado ao exigir conteúdo local mínimo aos seus fornecedores, particularmente no segmento da Indústria Naval, hoje retomada no país. Isso tem sido difícil. Não existem empresas brasileiras que possam cumprir as exigências determinadas pela política desse Governo. Resultado é que fica difícil concorrer com os players internacionais e as construtoras de navios têm que rebolar, para oferecer um produto dentro dos conformes exigidos pela Petrobrás.
E todo dia surgem novas denuncias.
Voltando ao caso do meu amigo Astrogildo, meu conselho foi que esperasse alguns anos, cinco ou seis, para que tivesse suas ações revalorizadas, porque a Petrobrás é uma empresa sólida, bem estruturada – não será uma administração desastrada que vai acabar com ela – para ele voltar a sorrir. Ele acreditou, na Petrobrás e fez certo. Mas, ao acreditar neste Governo, caiu numa esparrela. Pobre Astrogildo.

NOTA: Ilustrações obtidas no Google Imagens.
 

A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...