quinta-feira, 17 de abril de 2014

A Violência do Tráfico

É muito interessante como um assunto de ontem sugere um novo para hoje. Ao preparar a postagem da semana passada, quando comentei o resultado de uma pesquisa sobre violência no mundo, mapeada pela ONU, esbarrei num outro assunto, dentro da mesma temática, embora que mais específico. Refiro-me à questão do tráfico de pessoas. Durante a semana, pensei tanto nos números que encontrei, entre as publicações do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que o assunto se tornou o tema desta semana, aqui no Blog.

Descobri, por exemplo, que traficar pessoas é a maior fonte de renda no contexto do tráfico internacional. Supera os tráficos de drogas e armas. Surpreendente. Estimativas do UNODC e da OIT (Organização Internacional do Trabalho) dão conta de que 32 bilhões de Dólares são transacionados a cada ano, no mundo, somente nas atividades de compra e venda de seres humanos. É muito dinheiro perdido nas mãos de criminosos. Os motivos são os mais variados e perversos, passando pelo da exploração sexual – o mais popular – até os do trabalho escravo, venda de órgãos para transplantes, adoções ilegais e crianças frutos de partos clandestinos. Uma miséria sem fim.
E o Brasil está lá, bem presente, na corrente do tráfico, tanto doméstico, quanto internacional. Meninas e garotos entre 14 e 25 anos de idade são aliciados nos grotões da Amazônia e confins do Nordeste e levados para estados, grandes metrópoles do sul e sudeste, além de muitas do exterior, iludidos e pensando em realizar o sonho de uma vida melhor. As intenções são sempre de fugir da promiscuidade da vida em família, da falta de um lugar decente para morar, da pobreza sem fim, da falta de educação e saúde, da baixa remuneração – quando trabalham – e, em muitos casos, por conta das humilhações geradas pela prostituição precoce.  No novo mundo que passam a habitar, terminam num regime de escravidão, entregues ao comércio do corpo e das drogas, presos aos contratos draconianos  e, sobretudo, impagáveis dos traficantes.
O Instituto Europeu para Controle e Prevenção do Crime (não encontrei site desse Instituto! Talvez por desconhecer a denominação original. Mas, citado pelo Wikipédia) garante que cerca de 500 mil pessoas são traficadas para o continente europeu, por ano, oriundas de países pobres das Américas, Ásia e África. Quando o destino é mercado do sexo, 98% são mulheres. A Zona Vermelha de Amsterdam, com suas famosas vitrines, é o retrato fiel desse quadro. Segundo o mesmo Instituto, as pessoas traficadas entram fácil nos países europeus, com visto de turista e debaixo das “asas”de agenciamentos de modelos, babás, garçom ou garçonete ou bailarina.
Recordo que conversei, certa ocasião, numa Feira Industrial, em Dusseldorf, com uma pernambucana vítima do tráfico, vivendo na Alemanha. Num rasgo de sorte, coisa do destino, encontrou um cidadão de “boa vontade” que resolveu livrá-la da chamada “vida fácil” – sempre muito difícil – e levá-la para casa, como companheira.  Livre das artimanhas do traficante, graças à alguma negociação, pois ela supõe que foi “comprada”, passou a viver com mais conforto e mais segurança. Com algum tempo, porém, as coisas se complicaram, ela percebeu que não passava de uma escrava empregada doméstica, sem remuneração e, paulatinamente, era tratada de modo ríspido, brutal e muitas vezes com agressões físicas. Fugiu para uma cidade maior, procurou fazer biscates, faxinas, passou fome, dormiu em abrigos, juntou alguns euros e, quando conversou comigo, queria comprar um forno elétrico da marca Brasinox, produzido em Pernambuco, para montar uma pequena lanchonete ambulante, vendendo empadas e coxinhas de galinha. Por isso que digo que teve sorte. Indaguei se não voltaria ao Brasil. A resposta foi taxativa: “Não. Lá não terei do que viver. Não existe oportunidade para uma mulher como eu. Minha família é muito pobre. Fugi da pobreza! Passei muita fome. Aqui também passei fome, mas é muito mais fácil ser pobre na Alemanha!  Tenho saudade. Voltarei quando tiver mais dinheiro e condições de ajudar minha família”.
Em boa hora a Campanha da Fraternidade de 2014, da Igreja Católica do Brasil, tem como tema central o Combate ao Tráfico Humano. Com razão porque o Brasil é um país muito focado pelos traficantes, ao oferecer as facilidades da sua dimensão continental, da situação sócio-político-econômica  desfavorável e as inúmeras vias de saída do país.
O evento do Campeonato Mundial de Futebol, dentro de dois meses, é outro fator facilitador. Merecem aplausos o Serviço Social da Indústria (SESI) e a Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) que acabam de lançar uma intensa campanha contra o abuso sexual durante a Copa. O abuso  sexual é uma senha de entrada na corrente do tráfico. Salvemos nossos brasileiros e brasileiras incautos.


NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

2 comentários:

Susana González disse...

Sin palabras!!! Un problema mundial y también de México, por más leyes, sigue...
Susana González

Ana Celi Ramos disse...

Realmente Primo, a cada dia o trafico de drogas e de prostituição , tem causado danos irreparável as nossas crianças e adolescentes. Infelizmente são iscas fáceis para os algozes. Os transtornos de conduta esta aumentando, numa escala crescente. O que fazer? Será que estas vitimas, conseguirão sozinhos a tão esperada liberdade? Acho tudo isso Impactante. Seu Blog é maravilhoso, como também serve de alerta para as famílias.
Ana Celi Ramos