segunda-feira, 19 de maio de 2014

Tecido Esgarçado

Sabe daquela situação em que você manuseia um tecido esgarçado e que, por qualquer esforço exigido, se rompe? Claro que sim. Qualquer cidadão já passou por essa situação. Pois bem, é assim que vejo o tecido social brasileiro, neste momento. O povo está cansando de tantas exigências e poucos esforços governamentais para mitigar a situação de fragilidade que tomou conta do país. De modo geral muito manso e ordeiro o brasileiro está mudando e tem aproveitado qualquer oportunidade de reação. Muitas, até incabíveis.
Os mais recentes exemplos de reação da massa social foram observados na Bahia, em abril passado, e em Pernambuco, na semana passada. Nesses dois estados os policiais militares resolveram entrar em greve, reivindicando melhores salários, entre outras demandas menores, provocando caos social inesperado. Diante da ausência de policiamento nas ruas os “mentores da desordem” entraram em ação e, de forma espúria, agitaram as massas instalando badernas, assaltos, saques ao comércio e instabilidade na segurança das cidades. O Brasil inteiro e muitas praças no exterior assistiram pela mídia flashes e relatos de um clima de guerra que se vivenciou em Pernambuco durante os três dias da greve da policia militar. De repente, os pernambucanos viram-se reféns de uma situação inusitada e recheada de surpresas desagradáveis. O que ocorreu no município de Abreu e Lima (Região Metropolitana do Recife), por exemplo, estarreceu meio mundo. Grandes magazines e pequenos negócios, do comércio local, foram invadidos e saqueados por uma massa ensandecida, muitos “indo na onda” e saqueando por saquear. “Quando vi todo mundo levando as mercadorias, fui também com meu neto e peguei um bocado de coisas”, afirmou aos risos uma popular. Assim, simplesmente! Nunca passou pela cabeça dessa Senhora que a partir daquela hora havia se transformado numa ladra declarada. Santa ignorância. Naturalmente que nessas horas a massa atende a uma voz de ordem. Acredito que, em Abreu e Lima, alguém gritou: “vamos invadir e levar tudo...” Foi o que esperava um povão, oprimido pela inflação reinante, pela provocação exercida pela publicidade consumista, pela falta de um bom emprego e receber os baixos salários, os sonhos de consumo, entre outros fatores.
Daí em diante e a partir das ruas de Abreu e Lima o medo se espalhou pela Região Metropolitana, o comércio fechou, as empresas dispensaram seus colaboradores e houve o maior alvoroço de correr para um abrigo seguro, como se uma guerra civil fosse estourar a qualquer momento. Atendendo ao pedido do governo estadual a Força de Segurança Nacional baixou no estado para garantir a ordem e chegou com tanques de guerra nas ruas. O cenário foi de pavor.  Para completar, os boatos alarmantes se espalharam pelas chamadas redes sociais, nas quais elementos nocivos à sociedade se divertiram implantando noticias e fotos mentirosas e alarmantes. Lamentável. Como na mesma ocasião uma série de manifestações contra a Copa do Mundo e com outras diferentes reivindicações se desenrolavam com muitos tumultos registrados, em muitas capitais brasileiras, o pernambucano foi tomado por verdadeira onda de terror. A que ponto chegamos! Quando a greve acabou, na quinta feira à noite, o clima de alívio tomou lugar na cidade e o dia seguinte parecia que nada havia ocorrido, o que não deixa de ser surpreendente. Foi, digamos assim, uma ressaca passageira. Ora, uma coisa dessas merece uma analise mais profunda. Algo de errado esteve claro para um cidadão de são juízo.
Por isso, digo que, como lição desse desagradável episódio, o pernambucano em particular e os brasileiros de modo geral, precisam refletir seriamente sobre essa sociedade que explode a qualquer estimulo maligno coletivo. Acredito que o netinho daquela Senhora da cidade de Abreu e Lima pode levar para o resto da vida as imagens daquele dia passado e com outros mais que, inocentemente participaram dos mesmos saques, se transformem em potenciais saqueadores no futuro.
Que tipo de sociedade temos hoje e qual a sociedade que estamos formando, agora? É pergunta que não cala. Faltam educação e civismo na nossa gente. Como faltam bons salários e respeito aos nossos professores e policiais. Urgem providencias de nossos governantes para melhorias nesses setores e na formação das novas gerações instruindo-as a saber que seus direitos acabam quando começam os diretos dos próximos! Que roubar é crime!
O Brasil precisa fortalecer seu tecido social.

NOTA: Foto obtida no Google Imagens.

4 comentários:

Danyelle Monteiro disse...

Difícil analisar, visto que há atores distintos envolvidos; ladrões, movimentos contra a Copa depois do gasto realizado, funcionários públicos desvalorizados e pessoas comuns, muitas das quais miseráveis e descontroladas invadindo e saqueando o patrimônio privado. Parece mesmo que a sociedade de uma forma geral não aguenta mais a cara-de-pau de muitos políticos, enquanto a maioria ganha um salário de subsistência. Excelente termo "tecido esgarçado", é assim mesmo a sensação, de que a qualquer momento estoura.
Danyelle Monteiro

Susana González (Mexico) disse...

Te recomiendo leas a Saramago, en Ensayo sobre la Ceguera, describe muy bien esas situaciones. En la crisis sale lo mejor y lo peor de las personas. Tranquilo no es un caso exclusivo de los brasileños, sino del ser humano en general. Pero entiendo, vivirlo es decepcionante. Besos
Susana Gonzalez

Girley Brazileiro disse...

Amiga Susana,
Gracias por leer el Blog cada semana. Y por tu integración al debate. Si, coñozco la obra de Saramago. Asi, como la película. Allá, ese fenómeno puede ser explicado.
Abrazo cariñoso
Girley Brazileiro

Alvaro Moreira disse...

Prezado,
assistimos o brado das vítimas do neo- capitalismo abominável é insaciável, que transforma o seres humanos em em um consumidor, enloquecido, pelo TER. Este incidente revelou um lado da massa social, a maior parte, os deserdados carentes de tudo mesmo, subordinados por uma aparente inibição pelo ilícito, de tudo e arrastado pelo sonho das necessidade infinitas; fica na espreita de situações inusitadas como a acontecida, para saciar os seus sonhos: lá se vai uma parte do tecido. O importante é não esquecer a outra parte da massa, a sofrida classe média, responsável no, contexto econômico, pelo consumo de bens tangíveis e intangíveis, também sofre com o pesadelo do TER e faz qualquer négócio para não falhar perante os seus e os outros, lá se vai toda o tecido: não posso deixar de acreditar que em um acontecimento análogo , onde fossem anunciados a existência de pacotes de cédulas de cem reais nas ruas de bairos menos populares, houvesse uma mesma correria.
Alvaro MOreira