sábado, 3 de maio de 2014

Racismo Renitente

O tema desta semana é daqueles que insistem em se manter sempre atual: o preconceito racial. É impressionante como o tempo passa, o progresso das nações avança, os movimentos antirracistas se multiplicam, a globalização cresce aproximando nações povos e raças, mas, o mundo não consegue enxergar com naturalidade as diferenças raciais, seja nos seus aspectos físicos ou, principalmente, suas peculiares maneiras de ser, suas inteligências, expertises, hábitos e costumes. O Mundo é racista. O Brasil é um país racista. Em pleno século 21.
Episódios recentes no mundo do futebol têm sido frequentes e ostensivos. Acho que o tipo de ambiente, multidão, ajuda aos agressores agirem de forma anônima. Foi assim com o jogador Tinga, do Cruzeiro, em fevereiro passado, no Peru e, semana passada, na Espanha, com Daniel Alves. Para este atiraram uma banana, sugerindo se tratar de um macaco em campo.  Foto a seguir. Não faz muito tempo assisti, com pesar, no estádio da Ilha do Retiro (Recife) o achincalhamento que faziam com o jogador Carlinhos Bala, quando de posse da bola. A torcida adversária urrava uníssona como um chipanzé, perturbando o jogador. Repugnante.

Conheço e já conheci muitos cidadãos negros. Tenho o maior respeito por essas pessoas. Reconheço nelas suas qualidades, sobretudo nos aspectos inteligência, dignidade, caráter e honestidade. Entre esses, pessoas de condições humildes ou pessoas de graduação superior e bem postas na pirâmide social. Como não admirar o Joaquim Barbosa?
Embora criado e educado numa sociedade racista, descobri logo cedo que os pretos são tão humanos e tão gente quanto eu sou ou outro qualquer  semelhante. Recordo, para inicio de conversa, que meus pais resolveram me matricular  – a mim e meus irmãos – numa escola primária particular, dirigida e por uma família de negras. Eram três professoras respeitadas no nosso bairro. Competentes e rigorosas nos prepararam para vida de forma exímia. Tenho muito que agradecer àquelas negras maravilhosas. Quando Dona D’Lourdes entrava na sala de aula e olhava, a gente se postava em estado de disciplina e respeito. Acredito que o fato de conviver por quatro anos da minha infância, numa sala de aula, tendo como mestra uma mulher negra, inteligente, alta, elegante e dócil me fez aprender a respeitar e admirar os negros na forma que a natureza os fez. Nunca me ocorreu compará-los com qualquer tipo de símio.
Mas, o mais incrível é como essa coisa é arraigada na alma dos povos, inclusive dos brasileiros. Já tive oportunidade de ver dentro de casa um episódio inesquecível: Tereza (nome trocado), uma negra toda prosa, exímia cozinheira que servia na minha casa, preparou-se toda e foi brincar o carnaval, no Galo da Madrugada. Passado o carnaval perguntei: “e então Tereza, pulou muito no carnaval? Arranjou um namorado?” a resposta foi a coisa mais inesperada: “Pular, pulei. Mas, namorado que é bom, não. Só me apareceu um negão arrastando uma asa pro meu lado... dei-lhe um fora daqueles. Quero lá negócio com nêgo.” Espantado, reagi com outra perguntei: “Armaria, e você num gosta de nêgo, não?” Ela foi taxativa: “gosto não, Senhor. De cor basta eu”.  Ela não aceita ser negra. Inclusive, observei que na resposta que me deu, ela não se referiu à própria condição de ser negra e sim ser uma pessoa de cor. Aprendi com ela que o preconceito começa entre os próprios negros. São bem poucos os que manifestam orgulho da sua condição racial. Aliás, a atual secretária doméstica, na minha casa,  “morre”, mas não assume a sua negritude. Ela se diz morena. Negra, jamais.   
No futebol, o que vem acontecendo faz lembrar os primórdios desse esporte no Brasil, que inicialmente era uma modalidade reservada para as elites. Há um caso emblemático ocorrido no Fluminense do Rio de Janeiro. O time do Flu só tinha jogadores de raça branca. Um dia, porém, acharam por bem contratar um mulato bom de bola que, antes de entrar em campo, cobria o rosto com pó-de-arroz para tentar disfarçar sua cor. Quando a partida esquentava o suor do mulato derretia o pó e revelava sua verdadeira cor. Por conta disso as torcidas adversárias passaram a chamar o Fluminense de time pó-de-arroz. E aqui no Recife, os mais antigos dizem que o Clube Náutico Capibaribe, da primeira metade do século 20, não admitia nem jogador, nem sócio negros. Pode uma coisa dessas?
Outra coisa incrível é que faz pouquíssimo tempo que as propagandas e comerciais da TV e revistas, no Brasil, passaram a incluir figuras de modelos negros. Por sinal, belas! Um estrangeiro desavisado que no passado folheasse uma revista brasileira jurava que o país era povoado somente por brancos, quando na verdade é um país com mais da metade da população da raça negra. Atores negros é outra coisa dos últimos vinte anos.
É preciso que haja uma inteligente campanha de base, entre as novas gerações, preparando-as para compor uma sociedade futura mais humana e mais solidária, mostrando que racismo é crime. É preciso, principalmente, um governo capaz e atento para esses aspectos e responsável por construir uma nação civilizada e fiel aos seus valorosos filhos negros. Fim ao Racismo Renitente!


NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens.

5 comentários:

maria helena disse...

meu amigo, este é um assunto tão sério,tão cheio de nuances ...não sendo junguiana, mas , acreditando em algo além da visão sociológica, vem a marca arquetípica de uma linguagem que projeta as emoções mais primárias em cores,e parece espalhar esta coisa de preto -o negativo, e branco o positivo , para os seres humanos...nem podemos dizer que isto é animalesco, porque com animais, não se usa este tipo de preconceito...o que posso dizer, é que é humilhante para os racionais, ainda terem este tipo irracional de atitude criminosa

Liliana Falangola disse...

Girley,
A atriz LUPITA NYONGO’O, de "12 Anos de Escravidão", Oscar de Melhor Atriz Coadjuavnte, selou o status de superestrela ao ser eleita na quarta-feira, 23/04, a mulher mais bela do mundo pela revista People. ***** Lupita, nascida há 31 anos no México, em uma família queniana, afirmou que "A beleza era o que eu via na televisão: pele clara, cabelo longo, liso e volumoso. Inconscientemente, comecei a apreciar mais essas características do que as minhas". ***** Sua visão sobre o estereótipo de beleza mudou no México, quando ela retornou, aos 16 anos, ao país em que nasceu, para aprender espanhol. Ali, sentiu-se "bela pela primeira vez".Um dia, quando fazia compras, ouviu uma menina dizer à mãe: "Olha, ela está bronzeada!", lembrou a atriz, rindo. "A mãe ficou sem graça, mas esta é a beleza das crianças. Abriu meus olhos para a possibilidade de o mundo me ver de outra forma e para eu me sentir à vontade em minha própria pele."

Anita Dubeux disse...

Excelente crônica, Girley. O racismo é deplorável e, no Brasil, assume uma característica ainda mais nociva: é disfarçado. Está sub-reptício ao discurso dos brasileiros, em todas as dimensões da sociedade. É preciso que haja uma ação efetiva dos governos e das instituições da sociedade civil no sentido de reprimir a prática do racismo, não somente com atos punitivos, mas com informação e educação, afinal todos os brasileiros são descendentes de negros ESCRAVOS!
Somente no Século XVIII 2 milhões de seres humanos foram importados para trabalhar como cativos nas unidades produtivas deste país. De cada 3 brasileiros, um era escravo. Portanto, o racismo dos brasileiros é a negação de si próprio!
Anita Dubeux

Susana González (Mexico) disse...

Girley, este tema me toca el fondo de mi alma, mi país es totalmente mestizo, y aquí no hay racismo contra los negros, porque hay pocos pero hay racismo contra los indígenas, heredado por los españoles, sin embargo, somos orgullosos de nuestras culturas prehispánicas, tenemos mucho reventó miento hacia la forma de la conquista española que se refleja en actitudes también, así que es difícil entender como puede uno renegar de su raza, compuesta de ambas. Yo estoy muy orgullosa de saber que desciendo de ambas y lo promulgo. Estoy de acuerdo que lo que se necesita es más educación, pero no sólo como responsable el gobierno sino la propia familia. En cuanto a los negros, me pregunto los primeros pobladores, como se sabe hasta ahora fueron africanos, deberíamos ser consientes de ello.
Susana González

Wilma Clélia Reis disse...

Tenho verdadeira aversão a pessoas racistas e até hoje, juro,não entendo o porquê de agirem com tamanha superioridade.Deus nos criou TODOS iguais, sem restrição de cor ou de quaisquer outros motivos.
Wilma Clélia Reis