sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Foi demais

Prometi interromper meu recesso anual sempre que algo extraordinário ocorresse e provocasse um comentário do Blog. Estou, outra vez, a postos para um breve comentário sobre os últimos acontecimentos políticos no cenário nacional. Antes, porém, uma ressalva que julgo necessária: quem me conhece de hoje ou dantes pode conferir que sempre fui um democrata por princípios, responsabilidade profissional e cumpridor dos meus deveres de cidadão. São características colecionadas pelo tempo que já vivi e através do qual recebi lições e conhecimentos morais e cívicos. Critiquei quando atentei para possíveis erros e elogiei sempre que pude. Tudo com valor, coragem e destemor. Nessa trajetória de vida e dependendo da conjuntura fui taxado das mais variadas imperfeições: desde comunista a liberal de direita, entremeadas de outras mais ou menos radicais. Por conveniência pessoal e desconfianças do ambiente reinante, nunca me filiei a qualquer partido politico, muito embora alguns insistentes convites. Caso houvesse aceitado, optaria por um com reais princípios social-democráticos. Coisa, aliás, que no Brasil nem sempre é praticado. Em resumo, pugno sempre pelos referenciais democráticos e considero a Democracia o regime ideal de governo. (O termo origina-se do grego antigo δημοκρατία (dēmokratía) ou “governo”, que foi criado a partir de δῆμος (demos ou "povo") e κράτος (kratos ou "poder") no século V a.C.) Enfim, creio que nada se compara a este sistema. Na minha ótica o Brasil ainda está longe de se dizer uma democracia consolidada. A Nação não amadureceu o entendimento do regime e, infelizmente, conserva na sua raiz cultural, de muitas camadas, os maléficos sinais de regimes ditatoriais do passado. É preciso que o povo assimile o regime, que tem por principio a componente da divergência. É preciso que entenda que divergir faz parte e é necessário para os ajustes políticos de um Estado. Que respeite a vontade da maioria. É à base salutar de uma democracia. No dia-a-dia, ter propostas à mesa do debate político é fundamental. Não aceitar essa premissa é “abrir portas” para o desentendimento e para desencadear o retrocesso político-social de uma Nação.
O que ocorreu em Brasília no domingo passado (08/01/23) foi um movimento contrário aos referenciais de qualquer regime democrático que, por princípios, comporta manifestações pacíficas e demandas de justas correções. A coisa ia correta até que manifestantes, até então pacíficos, fizessem uso de atos coercitivos, violência desmedida e exacerbados vandalismos às sedes dos três poderes do Estado Brasileiro. Naturalmente que surgem, nessas horas, narrativas díspares e contundentes, comum num ambiente de extrema polarização politica, como é o caso. Contudo, nada justifica porque contra os fatos não há argumentos. Na verdade, a democracia foi confrontada e enxovalhada de modo lastimável. O patrimônio público e particularmente o histórico nacional foi agredido e empurrado ao lixo. Entendo que analisar uma ocorrência dessa magnitude independe da posição e coloração partidária. Ser contra ou a favor do governo constituído é algo acima de qualquer cogitação nesta hora. O que constitui o fulcro da questão é a segurança nacional e a preservação do regime democrático. O que aconteceu foi demais. Para concluir, desejo que episódios dessa natureza não se repitam e que a História julgue de modo correto e honesto esta pagina dolorosa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O Mito Pelé

A ideia inicial era de ficar um mês de recesso como anunciado na postagem passada. Salvo um motivo especial. E este motivo se revelou ao receber a noticia do falecimento de Pelé, coisa que naturalmente o Blog não deixaria escapar e fazer um registro, prestando a devida homenagem a quem, reconhecidamente, foi o maior nome do futebol mundial e indiscutível motivo de orgulho nacional para o Brasil. O Atleta do Século 20. Eu ainda era um rapazote e pouco ligado no futebol, salvo torcer pelo Sport Clube do Recife, quando ouvi falar pela primeira vez no nome de Pelé. Recordo da vibração do meu pai ao final da Copa de 1958 e seu entusiasmo ao falar do sucesso daquele jovem mineiro de 17 anos que entrou em campo, integrando a seleção canarinha, na Suécia, e deslumbrou o mundo do esporte com suas jogadas fantásticas ajudando de modo decisivo o faturando do primeiro titulo mundial de futebol para o Brasil. Dali em diante o garoto ainda franzino e saído das fileiras de base do Santos Futebol Clube, de Santos (SP), ganhou fama se notabilizou nos estádios no mundo inteiro e fez bonito projetando o nome do Brasil e de um novo e revolucionário modo de atuar com uma bola nos pés nos gramados da vida. Outro lance que lembro bem me ocorreu ao chegar à minha primeira visita a Londres, no Reino Unido, quando o oficial de recepção do Hotel Bloomsbury, recebeu-me cheio de salamaleques por ser brasileiro e conterrâneo de Pelé. Recordo que frisou entusiasmado que eles tinham uma Rainha e nós brasileiros tínhamos um Rei, com o particular privilégio de ser sem sucessor. Falou maravilhas e encantos com o jogador e prometeu que torceria pelo Brasil sempre que Pelé entrasse em campo. Era um descendente de indiano. Lembrei-me dele no ano seguinte, durante a Copa do México de 1970, quando Pelé deu um show de bola especial e se tornou o único jogador tricampeão mundial de futebol do mundo, até hoje. O homem Edson Arantes do Nascimento encantou-se no dia 29 de dezembro passado, aos 82 anos, mas o Mito Pelé ficará para sempre nas próximas gerações. Na verdade, toda ocasião que se fale de algo especial ou competitivo o nome de Pelé será, com frequência, juntado como um legitimo adjetivo. Por exemplo, Ayrton Senna foi o Pelé do automobilismo. Resta-nos hoje agradecer ao Rei Pelé, que proporcionou ao mundo da bola as maiores glorias e seu moderno desenvolvimento. Seu nome e sua fama ultrapassaram de modo avassalador as quatro linhas de um estádio de futebol. Foi uma figura admirada e querida em todas as camadas e atividades sociais dentro e fora do Brasil. Foi um nome que brilhou internacionalmente dada sua competência nos gramados ou fora destes. E não foi por outra razão que recebeu titulo de Atleta do Século, sem duvidas o mais cabível. Sua trajetória começou ainda criança quando perambulou pelas ruas de Bauru (interior paulista) como engraxate. Em paralelo e seguindo os passos do pai, Dondinho, começou batendo bola de modo descomprometido nos campinhos interioranos. Logo cedo, chamou a atenção, se revelando bom para o negócio. Sendo observado por um olheiro esperto, foi identificado como promessa de um grande craque e sendo indicado para as bases do Santos. Ali nasceu o craque. Aos 16 anos chegou às fileiras profissionais e a atuar na Seleção defendendo a camisa Verde e Amarela. Pelé foi certamente a primeira grande estrela do futebol brasileiro no cenário esportivo mundial, com a grande virtude de nunca forjar cenas e exibições tão comuns e extravagantes como as exibidas pelos craques de hoje. Seu brilho era natural e responsável, como responsáveis e profissionais foram sempre suas atuações. Elegante em atitudes, seguro no falar e nas ações sociais que resultam num legado irretocável.
O Brasil perde um dos mais importantes ícones da sua História. A ele nossos agradecimentos e todas as homenagens. Saiu da vida terrena, mas, entrou com honras e glorias para a História. Em bom tempo, a presidência da FIFA (Federação Internacional de Futebol Amador) recomendou durante as exéquias do jogador, ontem em São Paulo, que cada país colocasse o nome do Rei Pelé num estádio de futebol. O Rei do Futebol encheu-nos de alegrias inesquecíveis ao chutar de placa muito mais de 1.200 gols nas redes do mundo afora, imortalizando a Camisa 10, ao tempo em que era constantemente procurado de perto por outras majestades (Vide foto acima com a rainha Elizabeth II) e “manda-chuvas” do seu tempo. Obrigado Pelé. O mundo não te esquecerá jamais. NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

BOAS FESTAS

O ano chega ao fim, mas, antes uma pausa a calhar para festejar o tempo do Advento culminando com o Natal de Jesus. Nada mais oportuna para que aproveitemos a chance de reflexões e dar um balanço no ano que termina. Não foi um tempo dos mais fáceis. A pandemia da Covid 19 dominou, com altos e baixos, indo, voltando e sempre assustando, durante os doze meses. Começou, inclusive, o ano provocando o cancelando do carnaval brasileiro e deixando o povão sem o lenitivo anual da folia. Muitos nomes importantes partiram para a eternidade deixando a cena artístico-teatral mais pobre, entre os quais lembramos do formidável Jô Soares, da corajosa Elza Soares e da magnífica cantora Gal Costa. Em paralelo algo inesperado eclode no leste europeu quando Vlademir Putin, tirano presidente russo, resolve invadir a Ucrânia e detona uma guerra sangrenta com justificativas ainda recheadas de controvérsias e até abalando o mundo com ameaças de ataques nucleares. Para completar, no âmbito doméstico, o ano foi dominado politicamente pela eleição presidencial mais disputada da História e no “apagar das luzes” uma Copa do Mundo que passou sem que o nosso sonhado Hexacampeonato fosse viabilizado. Paciência, porque o ano acabou. O Blog do GB procurou sempre estar atento e, quando oportuno, registrando cada momento, repercutindo cada fato e comentando os mais variados episódios geradores de noticias. Num post final, então, e aproveitando o oportuno momento do balanço anual, o mais importante que resta é agradecer aos amigos e amigas, bem como aqueles que por simples interesse ou curiosidade visitaram o Blog e prestigiando-nos com seus comentários. Foram muito brasileiros e inúmeros estrangeiros que acolheram nosso convite de visita e contribuíram de modo efetivo para que chegássemos a um número de acessos que, agora, se aproxima à casa dos 1.150.000. Efetivamente, não se trata de nenhuma coisa extraordinária quando comparando com similares. Contudo, em se tratando de um espaço planejado para algo mais intimista se torna uma marca a ser festejada. Por fim, é hora de desejarmos FELIZ NATAL e um venturoso Ano Novo de 2023. Que nosso Bom Deus e a figura do Menino Jesus ilumine cada momento dos nossos leitores e leitoras. Que tenhamos um Novo Tempo mais promissor, mais Humano e repleto de Paz, Generosidade com o Planeta e mais Solidariedade entre os povos. BOAS FESTAS! Por oportuno, anunciamos que o Blog entra em recesso, prometendo voltar em meados de janeiro ou a qualquer momento que algo sugira um comentário de destaque.

domingo, 11 de dezembro de 2022

O Sonho Acabou

O que mais tenho ouvido e visto as redes sociais, nesses dias de ressaca da derrota do futebol brasileira, pela seleção da Croácia, na Copa do Catar/2022 é que “o sonho acabou”. Sonho da conquista do hexacampeonato mundial. Acho, inclusive, curioso como a coisa toma corpo e contagia negativamente a população, sobretudo a nova geração. Vi jovens garotos chorando revoltados, após as cobranças dos pênaltis fatais. Aliás, o mundo assistiu aos próprios jogadores canarinhos vertendo copiosas lágrimas ainda em campo. (Foto a seguir) Chega a ser inacreditável. Não entender que no esporte um dia se ganha e noutro se perde, parece ser coisa impossível para um brasileiro. Faz parte do jogo, meu Deus. Alguém tem que perder, para que outro ganhe.
“Ah! Mas perder em cobranças de pênaltis” é uma vergonha, ouvi de alguns após o jogo com a Croácia. São pessoas que esquecem que já fomos campeões depois de uma rodada nervosa de cobranças de penalidades máximas, em 17/07/1994. Depois de empate em zero a zero, no tempo normal e na prorrogação, com a Itália, o Brasil venceu por 3 x 2 e foi Tetracampeão Mundial. Foi um feito histórico no domínio do futebol. A equipe era fantástica sob o comando de Carlos Alberto Parreiras. Os meninos jogaram com corpo e alma. Dessa vez recente não deu. O sonho acabou ali mesmo na monumental cancha do Catar. Parecia mentira, como pareceu mentira o episódio dos 7 x 1 impostos, dentro de casa, pela seleção alemã, em 2014. Bom... o episódio recente se projetou quando, com a vitória faturada na prorrogação com um belo gol de Neymar, a moçada relaxou e deixou a Croácia empatar. Foi ali, que “a casa caiu”. Faltava pouco tempo e as cobranças de pênaltis era iminente. O resultado foi cruel, para quem esperava a grande vitória. Toró de lágrimas de norte a sul e de leste a oeste, em Pindorama. Reconheçamos que é impressionante como a cultura legada pelas gerações passadas criou essa reação, natural para muitos, mas que, no final das contas, enraizou-se no meio social criando uma espécie de síndrome da revolta coletiva do derrotado. Uma revolta que se expressa das mais diversas formas porque, uma coisa é certa, criticar e buscar os culpados é coisa rápida e simples. Fácil, fácil... e, no Brasil, ser oposição é até um bom passa-tempo. Foi o jogador tal, ou foi o treinador? Quem errou e onde errou? As criticas e os memes nas redes sociais não param de crescer e se multiplicar. O jogador Neymar Jr. e o treinador Tite estão sendo crucificados a toda hora. São criticas bem fundadas? Vale à pena avaliar. O brasileiro precisa aprender que em futebol, ou noutro esporte qualquer, saber disputar e ter competência é coisa fundamental. “Foi pra chuva, tem que se molhar”. Viver dos louros do passado pode ser inútil. Cada jogo é um jogo. E cada Copa do Mundo é uma nova oportunidade de provar a competência. Um coisa, porém, tem que ser ressaltada: vai ser cada vez mais difícil formar uma seleção brasileira como as do passado. Vamos e venhamos, há uma diferença brutal entre nossos jogadores de hoje quando comparados com os nossos craques dos anos 60, 70, 80 e 90. O que vemos atualmente são figuras vaidosas, bilionárias e repletas de interesses pessoais, incapazes de se integrar, de corpo e alma – como exige o futebol – numa equipe formada às pressas e de última hora sem os devidos treinos. O resultado é que sem espirito de equipe e dependente de um figurão, Neymar neste caso, ao qual se atribui a responsabilidade maior, a situação se complica e dá no que dá. Futebol é esporte de equipe! Como recordar é viver vale lembrar que felizes fomos como campeões, cinco vezes, graças às valorosas pernas de jovens talentos, alheios aos salários milionários que hoje são pagos e habituados a formar equipes maduras e responsáveis. Nenhum ostentava joias caras, penteados e tatuagens de gostos duvidosos, carros possantes e caros, mansões fabulosas, mulheres exuberantes, aviões particulares e nem exigiam mordomias extravagantes dos patrocinadores. Claro que existe exceções da parte de alguns, mas isto não justifica o exibicionismo aviltante de alguns. Vergonhoso. Esses dias de ressaca uma foto, exibida nas redes sociais, é emblemática (vide a seguir) que mostra a simplicidade de uma velha equipe campeã se preparando para uma Copa. Jamais, esses rapazes de hoje, se sujeitariam a isso.
Aí pergunto: como ser campeão com uma formação tão viciada em mordomias extravagantes e vaidades absurdas? Como ser campeão contando com jogadores que sequer vivem no Brasil e que pouco apego manifestam ter pela camisa verde-amarela? Está difícil. Não tem sonho que se realize. Pensando bem, não adianta sonhar. Nota: Fotos obtidas no Google Imagens e na rede social.

sábado, 3 de dezembro de 2022

A Pátria de Chuteiras.

Já se vão bons anos desde que li, o hoje clássico, “A Pátria de Chuteiras”, da autoria do meu ilustre conterrâneo Nelson Rodrigues. Ninguém soube traduzir tão bem o latejar da alma brasileira e sua relação simbiótica com o futebol. O Cara era um gênio em cima de uma Olivetti que, suponho eu, não acompanhava à altura a cascata de imagens geradas por uma mente tão arguta. Rodrigues foi, para mim, o mais brasileiro dos brasileiros ao saber expressar, com competência e amor febril, o ardor patriótico que lateja na alma dos habitantes de Pindorama face às campanhas da seleção canarinha defendendo as cores da camisa verde-amarelo. Chegou ao ápice das suas observações quando disse se tratar de uma “pátria de chuteiras”. Acho esta imagem uma ideia brilhante. Pena que teve de nos deixar antes de jornadas brilhantes do pós-tri. Rodrigues faleceu em 1980.
Bom... o homem morreu, mas as imagens que desenhou continuam vivas e repetidas com frequência. Inegavelmente, esses dias de Copa do Mundo, no Catar, fora do seu habitual calendário, veio em boa hora para acalmar a Nação recém-saída de um traumático momento politico que a dividiu e esfacelou relações das mais sólidas - dentro e fora do plano político-partidário – e, por felicidade, vem despontando como uma solução oportuna de restaurar a união e apascentar os ânimos renitentes de partidários que ainda não atentaram para o fato de que a pátria ainda calça chuteiras. De repente, o verde-amarelo e o pavilhão nacional, pouco antes bandeira partidária, “reinventa-se” como flâmula de torcedor. Em boa hora, pois, os brasileiros amarraram as chuteiras e, tal como surfando numa onda de “hexapensamentos”, desengasgam os gritos de gols, há bom tempo, acumulados. Nesta semana decisiva, o Blogueiro acompanha atento aos embates que se desenrolam nas franjas do deserto, sofrendo e torcendo a espera de reviver grandes momentos de jornadas passadas. Simbora minha gente! Calcemos nossas chuteiras e juntos vamos ao Hexa! NOTA: Foto ilustração obtida no Google Imagens.

domingo, 27 de novembro de 2022

Deu o PIX

“Ôpa, doutor, tomei conta do seu carro! Descole aí um trocado pr´ajudar no leite das crianças”. Foi o que escutei do flanelinha diante da Farmácia, onde estacionei meu veículo e fiz uma compra. Avenida de grande movimento, aqui no Recife. “Tá ruim rapaz... estou sem trocados para te ajudar”, respondi apressado. “Ôxe, doutor, ninguém mais tem trocados, não. Por isso, eu já tenho Pix! Dinheiro trocado sumiu e, se não me cuidar, vou morrer de fome”. Voltei-me surpreso e perguntei qual a chave do Pix: CPF, CNPJ ou Celular? Sei lá... As coisas andam tão “organizadas” que surpresas podem rolar. O flanelinha não teve dúvidas e me passou um número de celular. “É seu número?” Perguntei curioso porque afinal... “Não senhor. Este número é do meu primo. Ele vai recebendo os trocados e depois me paga”. Meio duvidando perguntei qual o valor mínimo para fazer minha contribuição. Que jeito... A resposta foi imediata: “ôxe, doutor, pode ser até de Um Real. O senhor que sabe...” O mais curioso é que foram dois casos seguidos da falta de dinheiro trocado. Na Farmácia a mocinha do caixa rejeitou minha cédula de Cem Reais, por falta de troco. Pediu que o pagamento fosse realizado com cartão de crédito ou com Pix. Triste de mim se não fosse um portador dessas modernidades. Fiz um Pix na Farmácia, outro para o flanelinha, acionei meu carro e voltei dando “tratos à bola” para assimilar aqueles episódios. Sobretudo o segundo. Chegando ao sagrado recôndito do meu lar fui catar por onde andava um cofrinho plástico no qual, há anos, venho depositando moedas que recebo de trocos ao longo de muitas ocasiões. Modo de não abandonar por qualquer lado. Pesado de moedas – tem um formato de um botijão de gás de cozinha – abarrotado até a fresta de inserção dos depósitos, segurei-o como quem segura e admira algo raro e precioso. O que fazer com aquela “fortuna”? Pensativo e, sem duvidas, maravilhado com a “velocidade do andor na procissão”, acalmei minha alma e comecei a pensar no que fazer com essas raridades? Distribuo aos pedintes ou flanelinhas desprovidos de Pix? Troco por mercadorias numa farmácia? Num supermercado? Uma coleção de moedas antigas? Este é o meu dilema.
Enfim e pelo visto, antevejo que, do modo como as coisas avançam, como a moeda nacional se desvaloriza e a tecnologia da informática caminha veloz, muito em breve, serei cobrado em criptomoedas, nas farmácias e pelos flanelinhas. Que assusta, assusta. O cidadão comum e o brasileiro, particularmente, não estão preparados. Conheço muitos que ainda reagem e detestam a Internet, o telefone móvel e a automação das atividades mais banais. NOTA: Foto ilustrativa obtida no Google Imagens.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Garantia de Qualidade

Quem me conhece mais de próximo deve observar minha paixão por vinhos. É minha bebida predileta. Sobre vinhos embarco num bom sabor, numa aroma embriagante e numa história contagiante. Toda bebida tem, por trás do prazer de degustá-la, uma descrição da sua origem e a maneira como se produz. Com o vinho, além de ser rica no seu gênesis, envolve episódios sempre empolgantes e, algumas vezes, palpitantes. Já li muita coisa sobre o tema e já fiz questão de ir conferir in loco vários desses contos. Lembro-me de belas visitas a vinícolas na Europa, Chile, Argentina, Austrália, sul do Brasil e África do Sul todas com histórias formidáveis a serem lembradas. Contudo, nada me rendeu tanto prazer e acentuada dose de orgulho nas oportunidades em que visitei – nas condições de executivo de Governo ou turista – as vinícolas do Vale do São Francisco, entre os estados de Pernambuco e Bahia. Desconfiado a principio, acostumei-me ver brotando do solo árido da Caatinga nordestina as mais seletas das uvas, muitas das quais transformadas em vinhos finos, vinhos espumantes e sucos naturais de uva. Tenho, portanto, especiais motivos para falar sobre isto, neste post de hoje. O Polo Vitivinícola do Vale do São Francisco - muitas vezes lembrada como sendo a California Brasileira - que reúne uma quase dezena de vinícolas daquela região ocupa uma área de mais de 10 mil hectares localizados nos municípios pernambucanos de Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista e dos baianos Casa Nova e Curaçá. Dali, fantástico registrar, sai 99% da uva de mesa exportada pelo Brasil. Outro detalhe que sempre me apraz mencionar é o fato de que o polo de produção se destaca por ser o único do mundo que consegue colher duas safras por ano. Ocasionalmente pode ocorrer até duas e meia. A história conta que tudo começou por volta dos anos 60 quando, numa decidida vontade governamental, fortes investimentos promoveram a implantação de perímetros de irrigação aproveitando as águas do rio. Dali para frente, e o que hoje se desfruta, foi uma sequência ininterrupta de passos â direção do progresso. O vinho despontou logo cedo com as uvas plantadas nas terras da Fazenda Milano e sua Vinícola Vale do São Francisco, produtora da consagrada marca Boticelli. A partir daquele ponto, a produção de vinhos se espalhou pela região sempre de modo animador. O carro-chefe da produção são os espumantes (3 milhões de litros/ano), seguidos dos chamados vinhos tranquilos (1,5 milhão de litros/ano) que podem ser consumidos a qualquer tempo e devido às características de vinhos jovens, aromáticos, frutados e com gosto do sol do nordeste. Meu entusiasmo hoje se dá em decorrência de uma histórica etapa vencida pelos produtores dessa região vitivinícola que foi a recente conquista da primeira Indicação Geográfica de Vinhos Tropicais do Planeta. Concedido pelo Instituto da Propriedade Industrial (INPI), em 1º de Novembro recente, é motivo de imenso orgulho não somente para o Vale, mas também para o Brasil por se tratar da primeira região tropical do mundo a receber tal indicação. Foi um processo demandado, a cerca de 20 anos, pelo Instituto do Vinho do Vale do São Francisco (Vinhovasf), instituição privada, sem fins lucrativos que reúne produtores viticultores e vitivinícolas da região. Os referenciais que deram suporte à concessão são equivalentes aos adotados pela União Europeia, o que confere padrão de segurança e qualidade na produção regional. A previsão é que os primeiros vinhos com a Indicação de Procedência (IP) estarão no mercado a partir de 2023, depois de passarem pelas análises exigidas e pelas sessões de avaliação sensorial às cegas, etapas fundamentais para que o vinho possa receber o selo.Garantia de Qualidade, portanto. (Vide imagem do selo lá em baixo) Vamos ficar de olho nas marcas: Bianchetti, VSB, Miolo/Terranova, Garziera, Boticelli, Cereus Mandacaru, São Braz e Rio Sol.
A proposito do assunto, conversei com o empresário José Gualberto de Freitas Almeida (Boticelli), Presidente da Vinhovasf e da Valexport que manifestou seu júbilo e destacou que “este é um momento histórico e muito esperado pelos vitivinicultores da região, em especial aqueles estabelecidos no Vale do Submédio São Francisco.” Lembrou, também, que organismos como a EMBRAPA, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE) desenvolveram papeis relevantes no processo de conquista do IP em questão.
A feliz conquista dessa IP de agora aponta para um novo tempo de progresso para o Vale Vitivinícola do São Francisco, bem como poderá exercer forte atração a novos investidores nacionais e estrangeiros. Bons tempos estão por vir. Brindemos com um espumante nordestino! NOTAS: Fotos obtidas no Blog de Ana Claudia Thorpe e no Google Imagens. A imagem do selo foi antecipada pela Vinhovasf.

Tropeços Diplomáticos

Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...