sábado, 26 de março de 2022
Janela Escancarada
Tenho acompanhado, com alguma curiosidade, essa história de “janela partidária” que ocorre, legalmente, nestes trinta dias de março, no cenário politico brasileiro. Como não sou especialista em legislação eleitoral fui remexer nos meus alfarrábios e sites de pesquisas, não apenas em busca de entender aos detalhes legais, assim omo e principalmente investigar essa coisa de mudar de legenda partidária noutros países. Para este ultimo aspecto, aliás, não obtive o sucesso desejado e fico tendente a acreditar que se trata de mais uma “jabuticaba” brasileira. Com a palavra os especialistas. Mandem as ordens, por favor.
Sinceramente, fico questionando, intrigado, como esse processo se dá. Afinal, podemos confiar numa representação politica séria – tão necessária para sustentação de uma democracia republicana – à medida que os representantes sentem-se à vontade para “pular de galho em galho” a depender dos interesses pessoais e dos arranjos eleitorais presumidamente vantajosos? E como explicar ao eleitor? Mais do que isto, até onde vão os princípios ideológicos e as filosofias partidárias que servem de referencias a cada representante quando opta por esse ou aquele partido?
Com uma diversidade partidária tão grande e com uma crise politica tão aguda, como a que hoje vivemos, o processo da “janela” poderá, quando muito, ser benéfico para quem tem esperanças no amadurecimento democrático do país. Temos muitos partidos políticos. Alguns são tão nanicos, como se diz popularmente, que chegam a ser ridículos. É uma colorida salada de partidos (Foto abaixo). Melhor seria algo mais compacto.
Apesar de me parecer uma insólita medida, se trata de uma regra regulamentada pela Reforma Eleitoral de 2015 (Lei 13.165/2015) e Emenda Constitucional 91, de 2016, que prevê a possibilidade de troca de partido, para deputados estaduais, federais e vereadores, num período que antecede a seis meses de uma eleição. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) partiu do principio que o mandato pertence ao partido e não ao candidato eleito. A intenção foi, inclusive, preservar a fidelidade partidária. Estão livres, bom ressaltar, dessa vedação os detentores dos cargos de Presidente, Governador, Senador e Prefeito, visto que os votos são consignados a cada individuo e não pertence ao partido que esteja filiado. Desse modo, a tal da “janela partidária” ocorre durante trinta dias para que parlamentares possam mudar de legenda sem perder o mandato.
Estamos, pois, em plena festa! O movimento é grande nos quatro cantos do país e, pelo visto, “escancararam a janela”. Tem parlamentar “arrumando as trouxas” às pressas para não perder o prazo. Tem partidos fazendo verdadeiros leilões de atração a candidatos promissores. Tem partido empobrecendo, partido criando musculatura e tem partidos com estruturas abaladas devido às ganâncias de poder e a vaidade desmedida de boa parcela de parlamentares. Nunca se brigou tanto pelo Poder nesta Terra de Cabral. Detalhe importante a ser lembrado é que, sem “janela partidária”, é permitida a mudança quando apresentada uma justa causa, tais como: fim ou fusão do partido, desobediência ao programa partidário ou grave comportamento pessoal do representante. Já ouvi falar de vários desses.
A esperança é que o eleitor fique atento, saiba acompanhar e analisar cada movimento e cada candidato, para que em 2 de Outubro acerte em escolhas responsáveis e comprometidas com a Nação. Chega de tantas crises. O país precisa viver momentos de tranquilidade. Temos oportunidades e não podemos perder as chances que se revelam promissoras. Se a “janela escancarada” é uma realidade permitida, que se feche com sucesso.
domingo, 20 de março de 2022
Futuro Sombrio
O tempo vai passando e minha esperança de que o conflito do leste europeu se dissipe e o mundo sossegue aliviado. Ainda inacreditável que isso venha ocorrendo em pleno século 21. As partes não cedem, as negociações não avançam e o resto do mundo se exaspera diante da barbárie, transmitida ao vivo e a cores, de uma infinidade de seres humanos que se esgueira debaixo de bombardeios e destroços de vidas amontoados procurando refúgios. Impossível não se sensibilizar e se revoltar diante de um quadro tão inesperado para este tempo.
A mídia internacional tem tido pautas inesgotáveis e fazem da guerra seu dia-a-dia nesses quase trinta dias de conflito. Veículos informativos, das mais diferentes localizações e nuances politicas, tomam posições e interpretam ao bel prazer cada movimento tendendo, na maioria das ocasiões, aos quadros mais sinistros e preocupantes.
Graças à modernidade digital, tenho tido oportunidade de acompanhar os diários de noticias e as revistas informativas semanais e confesso minhas apreensões quanto ao futuro dos meus netos. Jornais europeus e norte-americanos se “esbaldam” em estampar imagens, opiniões e relatos assustadores. Hoje mesmo, aqui no Brasil, a revista semanal Isto É, (20.03.22), traz uma reportagem de capa que, no mínimo, provoca inquietação, desde a primeira vista, ao interrogar personalidades de destaque com: “Uma Terceira Guerra Mundial é Possível?”. (vide foto ao lado) E, mais do que isso, faz referencia enfática sobre o uso de armas nucleares. Armados até os dentes e detentores de arsenais nucleares dos mais potentes, os grandes rivais dessa contenda – Rússia e Estados Unidos – endurecem as formas de guerrear e, aparentemente, não temem em medir essas forças brutais pondo em risco o planeta como um todo.
O clima instalado me faz lembrar uma das mais tocantes experiências, que vivi nos idos de 1984, quando estive, pela primeira vez, no Japão e visitei a cidade de Hiroshima (Foto ao lado), alvo do monstruoso bombardeio atômico, deflagrado pelos norte-americanos, no final da Segunda Grande Guerra. Em 6 de agosto de 1945 foi lançada a primeira bomba atômica que se conheceu no mundo. Denominada de Little Boy arrasou a cidade de Hiroshima, transformada em verdadeiro inferno e matando aproximadamente 150 mil pessoas, metade das quais na ocasião da explosão. A cidade se transformou no alvo dos “terroristas” norte-americanos por se tratar da única forma de render o exercito do Império Japonês e dar um ponto final à Segunda Guerra. A escolha da cidade foi estratégica, dado ao fato de ser local onde funcionavam grandes estaleiros de navios de guerra e por dispor de um grande parque industrial metalomecânico, no qual se produzia armas e equipamentos bélicos. Conhecer de perto a cidade foi para mim uma oportunidade impar e capaz de me fazer melhor conscientizado sobre o poder devastador de uma arma nuclear. A Little Boy descarregou uma carga de urânio, que explodiu a 570 metros acima do solo e provocou um imenso cogumelo de fumaça (18 km. de altura), gerando uma descomunal temperatura de 300 Graus Celsius. Hiroshima (Nagasaki também bombardeada) foi reconstruída (Foto abaixo) e pouco mostra marcas da tragédia, salvo no parque memorial Abomb Dome, no exato ponto da explosão. Ali se localiza um museu organizado com uma dantesca coleção de peças e animais taxidermados resultantes dos efeitos a bomba. O visitante é recomendado se preparar para ficar diante de imagens e objetos capazes de provocar náuseas, revoltas e abalos emocionais. Um cavalo esfacelado, uma máquina de costura doméstica retorcida e garrafões de vidro amassados estão, até hoje, na minha memoria. Fora fotografias de humanos em estados dos mais deploráveis. Não tenho noticias de que Putin ou Biden tenham visitado este museu.Bom, de nada valeria...
Ouvir falar em Terceira Grande Guerra e ameaças do uso de armas nucleares, hoje, é, ao meu modo de prever, o fim do mundo. Sabe-se que tanto a Rússia, governada por um cidadão nada confiável, e os Estados Unidos com, respectivamente, 5.977 e 5.500 ogivas nucleares podem – numa deslize de cabeça – destruir o planeta Terra. A bomba que explodiu em Hiroshima é fichinha comparada às que hoje são mantidas nestes dois países e correspondem a mais de 90% das armas nucleares existentes. Nem é bom pensar neste futuro sombrio. Que a concórdia se estabeleça.
terça-feira, 8 de março de 2022
O Inesperado Acontece
Impossível me livrar do tema mais atual, isto é, a Guerra da Ucrânia, na edição de um post para esta semana. Até que eu gostaria. Esperei para ver no que daria e já se vão mais de dez dias. Refletindo melhor sobre a relutância de postar algo, cheguei à curiosa conclusão que, subconscientemente, esperei que, a peleja bélica deflagrada pela Rússia contra a Ucrânia, não duraria mais do que três ou quatro dias e que, um pacto de paz, seria logo celebrado. Infelizmente, enganei-me. Minha vontade teria sido de louvar o imaginado entendimento e, então, dar um “pitaco” sobre o que teria resultado da contenda.
Confesso meu pesar por testemunhar tempo tão sombrio, como este que a humanidade sofre neste inicio de século. Tudo muito inimaginável. Nenhuma guerra é justificável e o inesperado esta acontecendo. É abominável. Não bastasse a grande crise sanitária, seguida de duríssima debaque econômica, de dimensão mundial, provocada pela Pandemia da Covid 19, eis que surge um impertinente líder russo, autocrata anacrônico, desejando se impor num mundo totalmente diverso dos seus mestres e ancestrais políticos, pondo em risco a paz mundial. Inacreditável. Recordo que a Segunda Grande Guerra (1939-45) resultou numa configuração geopolítica mundial que prometia tudo, menos o que hoje assistimos. Para tanto, um encontro de nações, saturadas dos sofrimentos e perdas irreparáveis pelas quais passaram, trataram de se organizar, preventivamente, em instâncias internacionais globais, capazes de por fim, pela raiz, tremores políticos internacionais e, sobretudo, conflagrações de caráteres coletivas. A Organização das Nações Unidas – ONU, o Banco Mundial, os Tribunais Internacionais, blocos de mercados comuns, como a União Europeia, a OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte podem ser lembrados como exemplos concretos desses esforços. Verdade, contudo, que nunca deixamos de ouvir falar de conflitos localizados, particularmente os fraticidas nos Extremo e Médio Oriente.
A coisa de agora, porém, assume riscos de proporções mais temerosas, na medida em que põe em confronto indiscutíveis forças potentes e radicais, com arrasadores armamentos – inclusive nucleares – e que remetem à luta pelo poder mundial entre a extinta União Soviética e os Estados Unidos, durante a época da chamada Guerra Fria. A situação, portanto, deixa de ser fria e passa a ser quentíssima ao evidenciar, de cara, a luta/temor da Rússia contra o avanço do cerco da OTAN. Putin, o autocrata anacrônico russo, expõe razões outras, de caráter politico, como politico é seu temor, mas, burlando todas as convenções internacionais, determinou que suas forças militares invadissem uma nação soberana e democrática. Tive a curiosidade, esses dias, de ler um pouco sobre a História secular daquele país e percebi o quanto o povo ucraniano já lutou (até contra os Hunos) pela defesa do seu chão. Contra a Russia, inclusive. Pelo visto, se trata e de uma Historia mal resolvida. O Putin está forçando uma barra por motivos políticos, mas, também econômicos: a Ucrânia tem as terras mais férteis da Europa Central, celeiro de meio mundo, e é rica em recursos minerais nobres. Para completar, deseja entrar na União Europeia e na OTAN. Aí fez tremer as bases do Kremlin. O resultado está aí, ao vivo e a cores. Lamentável.
A verdade, nua e crua, é que o mundo está de prontidão diante das barbáries cometidas, pela Rússia, contra um bravo e destemido povo que se mantem fiel às origens históricas. Bom, como guerra é guerra, o ucraniano está indo à luta com braços fortes e resistindo ao ponto de surpreender o mundo, inclusive os russos que, aparentemente, esperavam mais facilidades nos campos de batalhas. O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky (foto acima), tem liderado uma campanha de modo corajoso e inesperado. Ao mesmo tempo, o Mundo Ocidental, liderado pelos países da OTAN – que não entram na luta campal, por razões regimentais do Tratado – além de ajudar a Ucrânia com armamentos pesados e missões humanitárias, vem impondo a moderna estratégia de sufoco politico-comercial à Rússia, ao cortar todos os links criados pela Era Digital da globalização econômica com a nação de Putin. É a moderníssima forma de guerrear entrando em cena, conforme vaticinou o cientista israelense, Yuval Harari, sobre uma moderna guerra travada no campo cibernético. Suponho que Putin não imaginava ou, então, desconhece o poder desta arma. Corre o risco de perder a guerra e arruinar a economia do seu país.
No mais, dói muito assistir pela TV e ao vivo o desenrolar dos ataques e das batalhas travadas. Coisa parecida com os filmes de Hollywood sobre guerras passadas. Insuportável, porém, constatar que se trata de uma dura realidade de hoje. Doloroso ver o sofrer de uma gente inocente fugindo do horror dos bombardeios e clamando pela paz. Velhos, crianças e mães em meio ao desespero sem fim e atônitos com o que assistem. Depoimentos estarrecedores. Tristeza sem limites. Jovens cheios de planos e homens que abandonam suas famílias para ir aos fronts de guerra. Inaceitável!
E, ao redor do planeta, os protestos contra os invasores e pedidos de paz rolam sem parar. Surpreendente como que, na própria Rússia, multidões vão às ruas protestar e condenar o louco governante. São reprimidos e presos mas, não se calam diante da estupidez. A propósito e para concluir, faço uma pergunta aos meus botões: estariam esses soldados invasores dispostos e comprometidos, de fato, com essa insólita guerra? Serão fiéis ao Putin ou blefarão? Como o inesperado acontece... Fica a provocação.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Tragédia Anunciada
Impossível passar esta semana sem comentar a tragédia que arrasou a cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, deixando centenas de mortos, desaparecidos e flagelados. Indiscutivelmente, uma tragédia anunciada e mais uma dor de tamanho nacional. Petrópolis, a cidade imperial, sofre historicamente episódios dessa monta e tem sido tema recorrente, inclusive neste espaço, com o agravante de que, a cada ocasião, os relatos se tornam mais dantescos. O desta semana vem sendo considerado como o mais dramático pelas proporções descomunais.
Na verdade, como já referido, não se trata de uma novidade para a população da região serrana daquele estado fluminense. O Museu do Império, instalado na mesma Petrópolis, guarda registros do diário do Imperador Pedro II narrando, de modo apreensivo, ocorrências de alagamentos e severas enchentes na cidade, como quem anunciava o que se testemunha nestes tempos recentes. Isto, por volta de 1850! Pelo retrovisor ainda se enxergam fortes marcas de grandes tragédias, como as de 1971, 1979, 1988, entre outras, que ao longo dos tempos vem destruindo a tradicional e aprazível cidade serrana. Aliás, sem esquecer que, não apenas Petrópolis é castigada pelas intempéries severas da estação das chuvas, mas, também, por situações, não raras, semelhantes passam as belas cidades de Teresópolis e Nova Friburgo, no mesmo estado.
Sem ater-me aos dolorosos números da tragédia desta semana, porque isto os meios de comunicações não param de mostrar, a cores e ao vivo, prefiro arriscar comentários sobre essa condição desafiante que vem sendo o viver no Brasil do século 21.
Tragédias como esta recente e outras mais, tão difíceis quanto, são a resultante de um país cujos governos, nos três níveis administrativos, pouco se preocupam, salvo raríssimas exceções, em adotar politicas sociais e de infraestrutura eficazes em apoio à sociedade como um todo e, em particular, a grande parcela dos menos favorecidos, através de ações diretas e fundamentalmente básicas. Curioso, porém, é notar que na ocasião de cada tragédia, belas ideias e ajudas financeiras aos vitimados se multiplicam, erros são constatados e promessas animadoras rolam. Tudo com verve politica e manipulação eloquente, logo esquecidas à medida que a situação se acalma, isto é, os mortos são sepultados, as casas são limpas e recuperadas, o comércio reabre e a cidade volta a se movimentar. Tudo é passado! As propostas corretivas são esquecidas e por “sorte” coincide com uma eleição de novos gestores e a memória coletiva cai na velha e carcomida vidinha utópica. O manso brasileiro alimenta sempre uma boa esperança.
Bom, neste inicio de século, as grandes cidades brasileiras estão abarrotadas de pobres em condições de vida subnormal, consideravelmente agravadas em face da crise gerada pela Pandemia do novo Coronavírus. O processo de urbanização, iniciado na segunda metade do século passado, continua intenso e tende a se elevar. Conforme o IBGE, na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) realizada em 2015, a maior parte da população brasileira - 84,72% - vive nas áreas urbanas. O restante, 15,28%, vive nas áreas rurais. Tem sido difícil fixar o homem no campo devido a uma serie de fatores bem evidentes, dos quais destaco três dos mais expressivos: a) intensificação das correntes migratórias incrementadas pelos modernos meios de transportes, pelas vias de circulação abertas, interligando regiões e o advento das modernas formas de comunicação e facilmente disponíveis; b) jovens que decidem não mais viver aos moldes roceiros dos seus ancestrais e, sem tardar, procuram viver aonde amenidades, formação e progresso profissional, além de vida mais lúdica prometem ser melhor, e c) o progresso acelerado do agronegócio e a mecanização intensa das lavouras afugentando a grande parcela da população economicamente ativa que, juntando o útil ao agradável, procuram soluções nas grandes metrópoles e cidades de porte médio.
Petrópolis é um exemplo concreto desse movimento e não está isenta deste processo socioeconômico transformador. O mesmo pode ser dito sobre muitas outras cidades bem localizadas no território nacional e que ofereçam oportunidades de viver ou, ao menos, sobreviver. O resultado é que cidades sem condições infraestruturais são literalmente invadidas por levas de migrantes que se viram, ao modo que podem, correndo os riscos da chamada urbanização selvagem, caracterizada por habitações subnormais, comumente em íngremes e frouxas encostas e sem autorizações devidas. Naturalmente que nunca será tarde para lembrar que, como pano de fundo, falta educação básica e noção de civismo dessa população (incluindo a classe politica) que vive de forma renitente anunciando tragédias.
sábado, 12 de fevereiro de 2022
O Negócio da Guerra
O mundo se encontra em estado de alerta diante da possibilidade de um grande conflito bélico envolvendo as mais poderosas nações do Planeta, em terras da Europa. É, indiscutivelmente, inaceitável ouvir falar de guerra, neste inicio de século 21. E já era, há pouco mais de cem anos, quando eclodiu a I Guerra Mundial e muitos acreditavam que aquele seria o último conflito dos tempos e que trataria de “arrumar” o mundo num formato definitivo. Ora, a História mostra que este pensamento não passou de uma doce quimera dos cientistas político-sociais da época. Tanto foi que, vinte e poucos anos depois, veio um conflito de maiores dimensões logo denominado de II Grande Guerra, tanto pelas suas dimensões, quanto o resultado arrasador que gerou. E nem assim os “donos do mundo” se contentaram. De lá pra cá, encarou-se a Guerra Fria, várias outras guerrinhas pontuais e a cultura de guerrear parece não ter fim. Fazer guerra parece ser um viés de caráter dos povos, sempre às voltas de ganâncias econômicas e poderios políticos, doméstico ou mundial. A guerra como um bom negócio. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS foi dissolvida em dezembro de 1991, mas parece que nunca deixou de ser um caso “mal resolvido”.
A Rússia, sobretudo sob o comando Vlademir Putin, que se alterna nos cargos de Presidente e Primeiro Ministro, ao longo desses últimos vinte anos, tem dado provas disto. Estrategista politico, ex-Agente da KGB (a inteligência secreta russa), chefe dos serviços secretos do país, se julga dono do pedaço e visivelmente não pretende ceder espaço nos âmbitos local e internacional. A Ucrânia não sai da sua mira. Vide mapa acima. Já investiu e anexou a Crimeia (2014) e agora quer anexar o restante do país. Trata-se de um “filé” que Putin quer porque quer abocanhar. Ele tem lá suas justificativas, mas, o mundo europeu de hoje não comporta mais essas espúrias manobras. A Ucrânia é um país organizado institucionalmente, apesar da crise politica em 2014, quando teve um presidente cassado, mas, se reorganizou. Aliás, a Rússia se aproveitou da fragilidade politica de 2014 e investiu na operação da Crimeia, se aproveitando das forças pró-russos, da ocasião. Agora a briga é com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que reúne as nações da Europa Ocidental, mais os Estados Unidos e o Canadá. Admite-se, e Putin antevêe isto, que a Ucrânia seria uma candidata a fazer parte do Tratado. Eis o nó político da questão. Putin não quer nem pensar nessa vizinhança.
Apesar da preocupação com a possível aproximação da OTAN na sua fronteira, há quem opine que as raízes da crise da Ucrânia podem haver sido geradas pelo recente desempenho ruim da economia russa. Segundo Justin Fox, articulista da Harvard Business Review, a permanência de Putin no poder é graças a um período longo de crescimento econômico do país. “Como a coisa tem engasgado é possível argumentar que Putin precisa de uma distração”. Fox considera que a distração a que se refere é uma maneira de avivar o patriotismo da população, que, de modo geral, ocorre quando do envolvimento do país num conflito armado. Seria assim, uma forma de distrair a população de uma crise econômica e fortalecer sua popularidade. A proposito da ideia, é curioso como o articulista pinçou alguns conflitos do passado recente que se coadunam a esta tese. Por exemplo, o governo militar argentino, diante da derrocada econômica e da rejeição popular, resolveu investir uma guerra suicida, em 1982, ao invadir as Ilhas Malvinas. Inflamou os brios dos argentinos logrou pontos positivos, logo perdidos com o final do processo. Outro caso apontado, como exemplo, foi a luta de George W. Bush contra o terror. A tomada do Iraque pode ter recuperado sua aprovação a níveis elevados, bem como haver garantido sua eleição de 2004.
A verdade é que não deve ser fácil investir numa guerra. A Rússia poderá sofrer incalculáveis prejuízos nessa investida ucraniana. E Biden não terá dúvidas em reunir forças da OTAN para sufocar um Putin com visíveis problemas de sustentação. A História vai registrar.
Começar uma guerra nunca foi um bom negócio, mas, ainda há loucos dispostos a "surfar nessa onda" pensando num bom negócio.
domingo, 6 de fevereiro de 2022
Sonho Interrompido
A semana que passou, excetuadas as futricas politicas intermináveis, o que marcou, de fato, a vida brasileira foi o bárbaro assassinato do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mais uma vez o abominável preconceito racial e suas nefastas consequências ganha as páginas policiais dos meios de comunicações brasileiros, com sérios rebatimentos no cenário internacional.
A vítima chegou ao Brasil, junto com sua família, fugindo de uma sangrenta instabilidade politica vigente na Republica Democrática do Congo (RDC), após a guerra civil que ocorreu naquele país entre 1996 e 2003. Foi o conflito mais letal que o mundo assistiu, depois da segunda guerra mundial. O Congo é um país rico em recursos minerais e, ao mesmo tempo, paupérrimo socialmente falando. Tem um dos piores IDH registrados entre centenas de países. A origem dessa dramática história tem origem na época da colonização belga, que, ao desistir da colônia, deixou a população entregue ao abandono, sem mínimos meios de sustentação. Até hoje conflitos entre grupos armados e forças de segurança espalham o terror na população que sofre todo tipo de perseguição e atrocidades. Em jogo está sempre a busca pelo poder e do tesouro mineral do país. Entre 2000 e 2003 morreram cerca de 3,8 milhões de pessoas, a maioria de inanição e doenças endêmicas. A malária é o maior problema de saúde do país. A alternativa que resta para muitos congoleses é fugir para países vizinhos ou pedir asilo humanitário a outras nações. Este foi o caso de Moïse Kabagambe e sua família ao buscar asilo no Brasil.
Segundo o Comitê Nacional de Refugiados (Conare), o Brasil já recebeu mais de 850 refugiados do Congo que optam por viver em São Paulo e Rio de Janeiro, locais tidos como hospitaleiros e de grandes oportunidades. Nem por isso, esses refugiados – na ocasião gritante do assassinato de Kabagambee – deixaram de relatar fatos de preconceito racial aos quais vivem sendo sujeitos. As oportunidades com as quais sonhavam se resumem a serviços de faxineira, emprego doméstico, varredor, ou similares, mesmo para aqueles portadores de diploma superior e falar dois ou três idiomas. Todos recebem uma auxilio do governo que mal paga um humilde aluguel.
Ao jovem Moïse coube uma “oportunidade” de trabalho numa barraca de praia, no Rio de Janeiro. Após trabalhar dois dias cobrou do “patrão” sua remuneração e, como pagamento, foi morto a pauladas. Pobre congolês!
Coincidentemente terminei de ler o segundo volume da trilogia “Escravidão”, da autoria de Laurentino Gomes, onde o escritor, numa linguagem leve no estilo e duro nas narrativas, historia a situação do cidadão negro na formação da sociedade brasileira. Gomes fez um dos trabalhos mais completos que se tem conhecimento. Viajou pelo mundo afora, sobretudo pela África, colhendo dados e documentos para compor sua obra. Se no primeiro volume tive contrações estomacais e náuseas em certos trechos, neste segundo volume, que abrange o período da época da corrida do ouro em Minas Gerias até a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, pude me dar conta das infames raízes do preconceito racial neste Brasil. Recomendo a leitura da obra que já vai no segundo volume.
É doloroso perceber que este estigma social nunca se apaga e que a sociedade pouco faz no sentido de exterminá-lo. A começar por muitos dos negros espalhados pelo país que, inexplicavelmente se diz moreno e nunca negro, como se isso fosse uma desonra.
O assassinato desse congolês desponta como mais uma ponta de iceberg, numa sociedade corroída de preconceitos centenários que se perpetuam por gerações inconscientes e malvadas. As vozes que se levantam em denúncias parecem ser algo corriqueiro e sem relevância, tal como uma nuvem de fumaça escondendo uma realidade doentia e perversa.
O sonho de Moïse Mabagambe, interrompido na flor da sua idade, deve ser sempre lembrado porque muitos sonham de modo igual. Seus algozes devem ser julgados e condenados, como uma lição a essa nação inconsciente e alheia aos grandes problemas sociais.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
Rasgando Dinheiro
Uma das coisas mais estupidas do momento politico brasileiro foi a aprovação do chamado Fundo Eleitoral destinado a cobrir os custos das campanhas eleitorais dos partidos políticos na disputa do pleito de outubro vindouro. Trata-se de uma solução oficial para substituir as doações de pessoas jurídicas que rolavam durante as campanhas até então ocorridas. Na prática havia uma espécie de “uma mão lava a outra” entre os candidatos e empresários financiadores. O sujeito era eleito, mas, já assumia de “rabo preso” vendo-se obrigado a retribuir de modo generoso ao empresário ou grupo empresarial que lhe deu o suporte decisivo para vencer nas urnas. Rolaram sempre bilhões de reais, bem como benefícios legislativos indecentes. Era um costume também conhecido como lei de São Francisco, isto é, “é dando que se recebe”. Após muitos debates, “lavação de roupas sujas”, inquéritos, escândalos nos legislativo e executivo, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2015, pela proibição de doações de pessoas jurídicas. Aí, a coisa danou-se. Sem essa fonte de custeio “preciosa” o Congresso Nacional se mobilizou e criou, em 2017, o tal do Fundo Eleitoral (Leis 13.487 e 13.488). Recursos tirados dos bolsos do contribuinte. Simples e tranquilamente. Se antes era um desatino, agora é um desmando. A cada oportunidade de um pleito eleitoral trava-se uma luta vergonhosa, entre legislativo e executivo, por um fundo cada vez mais volumoso. Sem falar que existe outro fundo, mais antigo, de 1995 (Lei 9.096), denominado de Fundo Partidário, também com recursos públicos, que é dividido entre os partidos, conforme critérios de desempenho destes, destinado a custear atividades e rotina, incluindo pagamentos de água, luz, telefone, passagens aéreas entre outras “bijouterias”. Resumindo: o pobre contribuinte é quem termina pagando a conta. Povinho caro esses nossos representantes em Brasília.
O mais estupido, agora, é saber que o Fundo Eleitoral aprovado para custear o próximo pleito de 2022 é de R$ 4,9 Bilhões. É assustador, para quem tem juízo no lugar, lembrando que na eleição de 2018 o montante tirado do Tesouro Nacional foi de R$ 1,7 Bilhão, já considerado, àquela época, como escandaloso. Francamente.
Segundo pesquisa realizada pela Agencia CNN, a previsão para este ano corresponde a sete vezes o montante pago pelo Governo Federal, em 2021, à Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) encarregada de exercer um papel central no combate à pandemia do Coronavirus. A Agência recebeu apenas R$ 663,5 Milhões. Ora, mesmo guardando as proporções de despesas, vamos e venhamos é uma covardia.
Comparando o que o Governo aplicou na área da Educação, no ano passado, e este fundão eleitoral aprovado, a situação é desalentadora: três vezes menor. Entre janeiro e dezembro de 2021, o Portal da Transparência registra o montante de apenas R$ 1,6 bilhão para dar sustento do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) sendo este o modo pelo qual as escolas se sustentam para as mais diversas despesas de melhorias de infraestrutura e pedagógica.
Mas, a situação se repete em varias outras frentes de atividades governamentais e de interesse coletivo, o que, a cada ponto, o Fundão se revela como uma concreta calamidade pública. O programa da Força Nacional de Segurança Pública, coisa de absoluta prioridade, como outro exemplo é 54 vezes menor do que o Fundo Eleitoral. Já o Sistema de Proteção a Amazônia – SIPAM recebeu, em 2021, mil vezes menos. Francamente.
Outro dado destacado pela CNN foi a miséria de recursos que se destinou, em 2021, para investimentos na reestruturação e modernização dos hospitais universitários federais do país, pouco menos de R$ 340,0 Milhões, ou seja, 14 vezes menos do que esse extravagante Fundo Eleitoral. O descalabro se repete em diversas outras áreas sociais, como habitação popular e saúde publica. A proposito, para concluir, o Programa de Saneamento Básico, recebeu apenas R$ 415,0 Milhões. Doze vezes menos do que esses quase R$ 5,0 Bilhões que serão “rasgados” numa Campanha Eleitoral que promete ser ranheta, preocupante e cheia de emoções desnecessárias ao pobre povo brasileiro.
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