segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
Rasgando Dinheiro
Uma das coisas mais estupidas do momento politico brasileiro foi a aprovação do chamado Fundo Eleitoral destinado a cobrir os custos das campanhas eleitorais dos partidos políticos na disputa do pleito de outubro vindouro. Trata-se de uma solução oficial para substituir as doações de pessoas jurídicas que rolavam durante as campanhas até então ocorridas. Na prática havia uma espécie de “uma mão lava a outra” entre os candidatos e empresários financiadores. O sujeito era eleito, mas, já assumia de “rabo preso” vendo-se obrigado a retribuir de modo generoso ao empresário ou grupo empresarial que lhe deu o suporte decisivo para vencer nas urnas. Rolaram sempre bilhões de reais, bem como benefícios legislativos indecentes. Era um costume também conhecido como lei de São Francisco, isto é, “é dando que se recebe”. Após muitos debates, “lavação de roupas sujas”, inquéritos, escândalos nos legislativo e executivo, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2015, pela proibição de doações de pessoas jurídicas. Aí, a coisa danou-se. Sem essa fonte de custeio “preciosa” o Congresso Nacional se mobilizou e criou, em 2017, o tal do Fundo Eleitoral (Leis 13.487 e 13.488). Recursos tirados dos bolsos do contribuinte. Simples e tranquilamente. Se antes era um desatino, agora é um desmando. A cada oportunidade de um pleito eleitoral trava-se uma luta vergonhosa, entre legislativo e executivo, por um fundo cada vez mais volumoso. Sem falar que existe outro fundo, mais antigo, de 1995 (Lei 9.096), denominado de Fundo Partidário, também com recursos públicos, que é dividido entre os partidos, conforme critérios de desempenho destes, destinado a custear atividades e rotina, incluindo pagamentos de água, luz, telefone, passagens aéreas entre outras “bijouterias”. Resumindo: o pobre contribuinte é quem termina pagando a conta. Povinho caro esses nossos representantes em Brasília.
O mais estupido, agora, é saber que o Fundo Eleitoral aprovado para custear o próximo pleito de 2022 é de R$ 4,9 Bilhões. É assustador, para quem tem juízo no lugar, lembrando que na eleição de 2018 o montante tirado do Tesouro Nacional foi de R$ 1,7 Bilhão, já considerado, àquela época, como escandaloso. Francamente.
Segundo pesquisa realizada pela Agencia CNN, a previsão para este ano corresponde a sete vezes o montante pago pelo Governo Federal, em 2021, à Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) encarregada de exercer um papel central no combate à pandemia do Coronavirus. A Agência recebeu apenas R$ 663,5 Milhões. Ora, mesmo guardando as proporções de despesas, vamos e venhamos é uma covardia.
Comparando o que o Governo aplicou na área da Educação, no ano passado, e este fundão eleitoral aprovado, a situação é desalentadora: três vezes menor. Entre janeiro e dezembro de 2021, o Portal da Transparência registra o montante de apenas R$ 1,6 bilhão para dar sustento do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) sendo este o modo pelo qual as escolas se sustentam para as mais diversas despesas de melhorias de infraestrutura e pedagógica.
Mas, a situação se repete em varias outras frentes de atividades governamentais e de interesse coletivo, o que, a cada ponto, o Fundão se revela como uma concreta calamidade pública. O programa da Força Nacional de Segurança Pública, coisa de absoluta prioridade, como outro exemplo é 54 vezes menor do que o Fundo Eleitoral. Já o Sistema de Proteção a Amazônia – SIPAM recebeu, em 2021, mil vezes menos. Francamente.
Outro dado destacado pela CNN foi a miséria de recursos que se destinou, em 2021, para investimentos na reestruturação e modernização dos hospitais universitários federais do país, pouco menos de R$ 340,0 Milhões, ou seja, 14 vezes menos do que esse extravagante Fundo Eleitoral. O descalabro se repete em diversas outras áreas sociais, como habitação popular e saúde publica. A proposito, para concluir, o Programa de Saneamento Básico, recebeu apenas R$ 415,0 Milhões. Doze vezes menos do que esses quase R$ 5,0 Bilhões que serão “rasgados” numa Campanha Eleitoral que promete ser ranheta, preocupante e cheia de emoções desnecessárias ao pobre povo brasileiro.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
Voz do Milênio
Acompanhei nos últimos dias o noticiário sobre a morte, velório e sepultamento da cantora Elza Soares, de quem nunca fui fã ardoroso. Os obituários que rolaram, porém, apontaram detalhes da vida da cantora que terminaram me provocando uma admiração tardia. Acredito que alimentei preconceitos tolos, devidos ao seu estilo extravagante e sua maneira pouco formal na cena artística. A provocação levou-me a mudar a pauta semanal do Blog, focando nessa consagrada interprete do samba brasileiro, considerada, numa votação promovida pela BBC de Londres, em 1999, como a “voz do milênio”, detalhe que somente agora tomei conhecimento. Por outro lado, recordo que já fiz postagens sobre cantoras, estrangeiras por sinal, que me fizeram falta por serem convocadas à eternidade. Entre essas, destaco a sul-africana Miriam Makeba (1932-2008)(interprete de Pata-Pata) e a argentina Mercedes Soza (1935-2009)(interprete de Gracias a la Vida) e que seria, portando, injusto não me referir a essa brasileira guerreira e defensora das mulheres e de negros.
Que me recorde, assisti Elza Soares ao vivo, uma vez apenas, num dos programas Pixinguinha ou Seis e Meia, no Teatro João Caetano, do Rio de Janeiro. A Funarte levava às plateias das grandes cidades brasileiras os grandes nomes da MPB a preços populares, nas décadas de 70, 80 e 90. Nem sei o que restou desses excelentes projetos. Naquela ocasião assisti uma Elza cheia de “fogo” levando o público à loucura interpretando paginas das mais conhecidas do seu vasto repertório. Saí admirado da sua energia e seu carisma, mas nem assim tornei-me fã incondicional. Desses de catar seus discos ou acompanhá-la pela TV.
Como não acompanhei, à miúde, a trajetória dessa mulher, confesso que fiquei sensibilizado com tudo quanto ouvi falar nesses obituários que vêm sendo publicados. Incrível saber que foi obrigada, pelo pai, a casar com 13 anos de idade por haver engravidado. Naquela época era assim, “casava na policia”. Perdeu dois filhos recém-nascidos devido à fome que passava. Com pouco tempo enviuvou ficando com um filho nos braços. Cansada de sofrer com essas perdas, percebeu que tinha voz, gostava de cantar e resolveu se inscrever num programa de calouros comandado por Ary Barroso, na Radio Tupi do Rio de Janeiro. O objetivo principal era ganhar algum dinheiro, sobretudo, para alimentar o filho que restava dessa relação imatura. Pois bem. Depois de uma recepção pouco amistosa do Ary e até, mesmo, pejorativa, Elza não levou o gongo e ganhou o prêmio. Mais do que isto, ouviu do seu “algoz” o elogio que se tornou o passaporte para o sucesso que teve pela frente. Aplaudindo-a Barroso foi categórico: “senhoras e senhores acaba de nascer uma estrela”. Aquilo era taxativo, à época, para o mundo da musica popular. A mocinha, saída da favela de Padre Miguel, desengonçada, franzina, mal vestida, com um arranjo de roupa da mãe, que vestia um manequim o dobro do dela, ajustado com alfinetes saiu vitoriosa e se jogou de corpo e alma no mundo concorrido das vozes do samba. Isto foi no final da década de 50. Numa das suas entrevistas, ela disse que “para dar sorte me apresento sempre com um alfinete na roupa”. Nos últimos 70 anos o mundo viu e aplaudiu a cantora, a ativista politica social, defensora das mulheres, dos negros e dos pobres. Fez muito pela gente pobre da sua favela de origem. Uma das passagens mais famosas da vida pessoal de Elza foi, indiscutivelmente, sua relação amorosa com Mané Garrincha, astro da Seleção Brasileira, campeão do mundo, após a vitória do bicampeonato mundial, no Chile, em 1962. Garrincha, casado e com dez filhos, largou tudo e se agarrou numa louca paixão com a já consagrada sambista. Foi o maior auê daqueles tempos. (Vide foto abaixo). O casamento não chegou a ser um mar de rosas, segundo relatam. Foi tumultuado, sobretudo por conta do alcoolismo do jogador. “Mané era uma figura doce e querida, mas a bebida estragou tudo” e “Todo mundo dizia que eu havia sido o motivo da decadência dele como jogador, mas o que o derrotou foi joelho doente”. São frases de Elza quando no trato do assunto. E arrematava com uma declaração saudosa ao afirmar: “mas, foi um amor como nunca eu havia sentido. E ele, também!”
Há quem afirme que ela é insubstituível. Com certeza será sempre lembrada.
sábado, 15 de janeiro de 2022
SOTURNO
Após um período de recesso o Blog do GB está de volta. Ano novo, vida igual. O som que vem das ruas é como dantes, o vento que sopra nas vidraças é, tal qual, o dos ontens. Já a pandemia dá sinais de retorno com força e assusta todo mundo. E as contas? Ah! Essas continuam chegando. Até mais volumosas.
É curioso lembrar como o espirito de esperanças e de paz que permeiam os dias de festas no fim de ano, criando sempre expectativas de um bom tempo pela frente, se esvai “com o cair da ficha” e a mídia noticiosa, honesta ou desonesta, ecoar na minha sala e jogar, sem dó, a verdade do momento. Fico a procurar um adjetivo para qualificar o novo momento, o novo ano. Foi difícil. Contudo, numa mensagem de amigo apareceu-me um que coube justo nas minhas reflexões de ano novo: soturno. Adjetivo pouco usado. Mas, muito próprio para este ano que prometia uma trégua e vem, de cara, nos negando. Soturno quer dizer algo melancólico, tristonho, sombrio, grave...
Posso estar enganado, mas, este inicio de 2022 vem assustando ainda mais do que o ano passado. Pessimista? Não. Realista. Fujo das noticias calamitosas, mas, como não me compadecer da massa populacional que entrou o ano mergulhada nas avalanches de águas vertidas pelas comportas abertas dos céus baianos e mineiros? Casas destruídas, perdas materiais e vidas roubadas. Como não me sensibilizar e lamentar com aquele triste acidente na represa de Furnas (Capitólio/MG) (Foto abaixo)? Soturno demais.
Além dos desastres provocados pelas revoltas da Mãe Natureza, no Brasil, soturno é também a situação que, segundo as agencias de noticias, reina ao redor mundo. Europa, África, Américas, Ásia e Oceania ja foram atingidas pela cepa do momento - ômicron - da Covid-19. “Não vai escapar ninguém. Cem por cento da população contrairá o vírus!”. Li isto, nos primeiros dias do ano, num jornal europeu. Ainda bem que agregaram um paragrafo anunciando que, segundo especialistas, seria o fim da pandemia. O vírus passaria a ser endêmico. Entendi, portanto, que vamos conviver com esse “bandido” para sempre. Fora o fato de que, aqui no Brasil, ainda sola uma gripe (H3N2) que se junta à Covid-19 e ganha uma denominação prosaica de Flurona. Tempos difíceis.
No ambiente doméstico, como esperado, a briga renitente pelo poder da República entra o ano revelando novos e palpitantes lances e cruzando temas dos mais diversos, que se estendem de uma “briguinha de comadres” como a da administração de vacinas para população infantil à vergonhosa dotação de grana para as campanhas eleitorais. Ah! Há também a reprise das cansadas denúncias de corrupções. Fico soturno com essas coisas.
Ainda bem que nem tudo é soturno e, por isso, estou aplaudindo os cancelamentos dos carnavais, Brasil afora, em beneficio da saúde coletiva. Recordo que fiz um apelo por este Blog quando ainda estavam programando as festas de natal e réveillon. Estas, aliás, desnecessárias dadas às noticias que chegavam do outro lado do mundo. Não tenho dúvidas que prevalece, mais uma vez, a velha sabedoria popular: “brasileiro só fecha a porta depois que é roubado”.
Lamento emitir um post tão soturno, mas, não tive para onde correr. Na próxima semana vou relatar uma escapada que dei pelo interior do Brasil, numa ousadia, inclusive, de entrar num avião e aterrissar em Goiás. Até lá. Boa semana e cuidado com a Flurona! !
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
Mensagem de Paz
Prezadas/os leitoras e leitores,
Logo mais estaremos comemorando o Natal
da Cristandade e a entrada de um Novo Ano. Antecipo-me com costumeira mensagem,
fazendo coincidir à temporada de férias, a partir do próximo fim de semana, e
prometendo voltar nos meados de janeiro com as postagens semanais.
2021 foi, indiscutivelmente, um ano difícil. Tivemos
que administrar estresses diversos, na grande maioria decorrente da terrível
pandemia que nos assaltou há quase dois anos. Perdemos familiares e amigos,
lutamos contra o vírus e suas consequências e, por cima disso tudo, ainda passamos a conviver coletivamente
com abalos políticos e econômicos. Para os mais jovens uma lição para o resto da
vida e aos mais avançados na idade um desgaste lamentável com a dose amarga de
tempo perdido. O mundo sofreu e ainda sofre nessa esteira interminável de
dissabores.
Contudo, a velha filosofia de que a “esperança é a última que morre”
volta às nossas mentes, sobretudo nessa época do advento, ocasião em que o
espirito de luz e confraternização acende com maior brilho, nas mentes dos que
creem num amanhã promissor. Vivamos este tempo com muita fé e banhados por esse
brilho. Alimentemos a esperança para que ela esteja sempre viva.
Com este espirito, agradeço sensibilizado a todos e todas que me acompanharam durante este
ano que finda, nos quatro quadrantes do mundo. Foi prazeroso constatar que fui seguido por
leitores e leitoras localizados numa diagonal ligando o Alaska e a Terra do
Fogo, nos Andes e nos Alpes, nas encostas do Himalaia e dos Urais. Na fria
Sibéria, nos mares do Sul, no Mediterrâneo e no Oceano Indico, nas queridas Austrália e Nova Zelãndia, além,
naturalmente, dos meus compatriotas espalhados da Amazônia ao cabo Branco e entre o
Oiapoque e o Chuí. Durante esta jornada anual, explorei temas que me pareceram
interessantes ao meu publico e tentei, particularmente, acertar nos meus
posicionamentos sociais e políticos.
Para aqueles que me tomaram como formador de opinião, meus especiais agradecimentos. Desse modo, aceitem minha Mensagem de
Paz, desejando um Feliz Natal e Augurando um 2022 repleto de sossego e felizes
realizações pessoais e coletivas.
sábado, 4 de dezembro de 2021
O dilema de decidir
Decidir por algo ou por alguém é, indiscutivelmente, um dos maiores desafios do ser humano. E quando uma decisão depende de alguém de poder, com concretas influências – positivas ou negativas – na vida de uma coletividade o desafio se revela muito mais expressivo. As guerras, as relações internacionais nas vertentes políticas e econômicas, as calamidades decorrentes das “revoltas” da natureza, as disparidades socioeconômicas, enfim as relações humanas de modo geral exigem tomadas de decisões quase sempre estressantes. É por aí que a humanidade vem passando historicamente, com frequentes episódios e, particularmente, os constatados neste tempo de pandemia.
Tenho acompanhado atentamente as démarches sobre as decisões dos governantes locais quanto à realização de eventos, sempre grandiosos, por ocasião da passagem do ano e do carnaval que se aproximam.
Naturalmente que há um jogo de interesses, velho conhecido da sociedade, que provoca o grande dilema deste momento. E, em se tratando de ano de eleições, qualquer episódio dessa natureza provoca um tremor ilimitado nas campanhas eleitorais, colocando candidatos num quadrado limitado. Eu não gostaria de vestir a pele de nenhum desses detentores do poder de decidir. Imaginemos o dilema de lidar com duas correntes antagônicas e em relativo desespero: por um lado, há os que desejam a comemoração monumental de cada ocasião, na busca de faturar com sua produção ou prestação de serviço, alegando ser a “tábua de salvação” que resta para atenuar o momento de baque econômico. Por outro, os cientistas e os defensores da saúde pública aconselham cancelamento sumário dos festejos.
Está difícil provar à sociedade que a pandemia não terminou. O desejado convívio com o vírus e a esperança de um tempo de endemia ainda são coisas distantes de virar realidade. Segundo os especialistas do assunto, as possibilidades de novas variantes e repetição de surtos continuam evidentes haja vista ao ocorrido na semana passada, com o surgimento da variante ômicron, que já se manifestou nos cinco continentes.
A vida continua e precisamos vivê-la. É verdade. Mas, tenho pra mim, que não será a mesma dantes. O propalado novo normal, tantas vezes negado, pode se revelar de modo lento e, no mundo moderno, por pelo menos dez anos. É um tempo provável de recuperação, similar ao que ocorreu na pandemia da gripe espanhola que tomou muito tempo para ser esquecida.
Neste momento, por fim, resta ao Blogueiro ratificar o apelo da semana passada para que o dilema de decidir tenda a considerar as referências científicas vigentes e que a sociedade viva em segurança sanitária nos próximos tempos. Parece ser o caminho adequado. Enquanto isto, vacinas, cuidados pessoais (máscara e asseio) e consciência coletiva sejam cumpridos na risca. E, dos nossos poderes decisórios esperamos coragem e pulso para o bem geral.
sábado, 27 de novembro de 2021
Água Gelada na Fervura
O mundo tentando esquentar a retomada da vida e uma nova onda do vírus ameaça o processo. Ômicron é a novidade da semana. Uma nova variante identificada na África do Sul e com suspeitas de casos pelos demais continentes. É o que chamo de “agua gelada na fervura”. Um amigo prefere dizer que “botaram água na cerveja do carnaval”. Além de ser uma descoberta inesperada e desagradável é, também, mais um sinal de que nem tão cedo vamos nos livrar dessa peste.
A coisa parece tomar força na Europa, em plena estação do frio e das nevascas, onde países que aparentemente tinha a coisa controlada, com bons percentuais de vacinas aplicadas, já se mobilizam para retomar as medidas de precauções. Alemanha (passando pelo pior momento da pandemia), Holanda, Itália, Áustria e França são países onde a 4ª onda já se faz presente. Noticias atualizadas (27.11.21) pela Agencia Reuters, Italia, Alemanha e Reino Unido já registram casos com a nova variante. Em Milão, um passageiro procedente de Moçambique testou positivo para esta nova variante. Mau sinal. O virus vai se espalhar rapido.
No último dia da semana, os pregões das bolsas de valores, do mundo inteiro, reagiram de modo negativo e os negócios caíram vertiginosamente em quase todas as praças, sob o pavor dos efeitos danosos na economia. No Brasil o índice Bovespa caiu 3,39%, fechando a semana no prejuízo.
Numa sintomática decisão do Governo Brasileiro, coisa que surpreende devido ao histórico recente, as fronteiras do País estarão fechadas a seis países do sul da África (África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbabue), onde o ômicron já é detectado.
Ao mesmo tempo, o mais surpreende, aqui no Brasil, são as providencias contrárias como se tudo fosse passado e a pandemia seja uma página virada. Não se fala noutra coisa – a exceção das costumeiras trapalhadas políticas – a não ser dos preparativos para as festas de réveillon e carnaval. O Rio de Janeiro prepara um grande desfile de escolas e os ingressos para as arquibancadas se esgotaram no primeiro dia de vendas. São Paulo, também. Ora, se não houvesse ocorrido o carnaval de 2020 a nossa história seria outra. Mas, não. Há organizações como a do “O Galo da Madrugada”, maior bloco de rua do mundo (!), aqui do Recife, já escolheu tema (Viva a Vida, Viva o Frevo), monta suas alegorias e marca ensaios. Entidades de classe médica e científicas, locais e nacionais, já se manifestam oficialmente contrárias, alertando para os altos riscos de uma recidiva da pandemia. Conforme as noticias veiculadas pelos meios de comunicação, a vacinação tem sido um sucesso no país. A população tem sido receptiva, ao contrário de muitos países lá fora. Contudo, os especialistas sugerem a manutenção dos cuidados, uso de máscaras e assepsia das mãos com álcool. E avisam: é cedo para abrir de vez. Assustador é também saber da hipótese de que as vacinas hoje administradas venham a ser ineficazes para o tal do ômicron. Mesmo dando o desconto do sensacionalismo da imprensa é de se ficar atento com os próximos dias. Afinal, não esqueçamos de que o vírus original continua sendo pouco conhecido, as vacinas são ainda emergenciais e... Bom, que o futuro ainda é incerto.
Diante deste quadro e desta modesta plataforma, cabe um apelo para que as autoridades “reinantes” usem do bom senso e decidam pelo melhor e, sobretudo, pensando na população. Pelo menos desta vez.
NOTA: Charge de NANDO MOTA obtido no Google.
sexta-feira, 19 de novembro de 2021
Talentos Encantados
Nestes tempos sombrios da pandemia, a tristeza parece ainda mais triste do que sempre foi. Além do recolhimento forçado venho contabilizando perdas dolorosas de pessoas queridíssimas, inclusive uma irmã, resultando num vazio d´alma difícil de preencher. Dizem ser sentimento de quem muito vive. Mas que é um coisinha difícil de ser vivida, isto é indiscutível. Certa feita, conversando com a grande Dama do teatro pernambucano – Geninha da Rosa Borges – ao completar seus 90 anos, ouvi dela uma assertiva que guardo e, foi não foi, recordo. Segundo ela, “envelhecer pode ser mesmo uma dádiva divina... Contudo, é duro ver partir para a eternidade muita gente querida... dói muito.” De fato, ainda que um pouco distante dos 90, começo a sentir o peso dessa verdade. Gente iluminada, cabeças brilhantes, talentos singulares se encantam deixando-me (deixando-nos) para trás. Muitos partem sem tempo dar um “até logo”.
Dias recentes perdi amigos talentosos e verdadeiros ícones da cultura local. Primeiro, em setembro, foi a partida do exímio violonista e compositor Henrique Annes; logo depois, no mês de outubro, foi a vez do grande Maestro Rafael Garcia e, na ultima semana de outubro, o compositor e meu grande amigo do peito, Severino Luís de Araújo, a quem dedico o espaço do Blog neste fim-de-semana. O clima é de luto no cenário musical pernambucano. Foram três perdas lamentáveis. É numa hora dessas que me ponho a questionar o velho ditado do “ninguém é insubstituível”.
Conheci Araújo nos idos dos anos 70, quando casando com a minha dileta colega sudeniana, Adelina Freitas de Araújo. Vivíamos os áureos tempos dos combates à pobreza nordestina. Ele no Condepe, depois na Codevasf e nós (eu e Adelina) na velha SUDENE, a verdadeira. Éramos, na realidade, três jovens economistas envolvidos pela missão de desenvolver o Nordeste.
De origem humilde, na Paraíba, Araújo veio, ainda menino, com os pais e irmãos, para ganhar a vida em Pernambuco. Deu certo para a família e para o menino da Vila de Araçá (atual município de Mari) se tornando homem de destaque na Terra de Nabuco.
Inquieto, experiente profissional e bem relacionado, Severino Araújo ganhou o mundo e terminou atuando com louvor em inúmeras frentes profissionais nos poderes executivo e legislativo nacional.
Mas o profissional atuante trazia na veia outra rara habilidade voltada ao domínio poético-musical, sobre a qual prefiro destacar. Não mais importante do que as demais habilidades, mas, seguramente, a que mais estreitou nossa amizade.
Acompanhei a vitoriosa vida desse compositor, desde sua estreia triunfante com o frevo-canção “Morena Azeite” (1984), a grande campeã do IV Frevança (Festival de Frevo e Maracatu), promovido pela Rede Globo de Televisão. Foi a primeira grande vitória na condição de autor de um frevo. Depois dessa vitória, sustentada pela voz do saudoso cantor pernambucano Expedito Baracho, outras inúmeras se seguiram em Pernambuco e na Paraíba. Não tardou muito e o nome do nosso amigo se notabilizou Brasil afora. Muitos famosos disputaram interpretar suas composições, entre os quais: Claudionor Germano (rei do Frevo), Ivanildo Silva, este interpretando “Sem Você Eu me Dano”, composição campeã, no V Frevança, Guadalupe, Valéria Moraes, Cristina Amaral. Por sorte, Araújo contou com arranjadores de mãos-cheias como José Menezes, Ademir Araújo e Duda. Enfim, foi uma sequencia elástica de sucessos musicais entremeados de contos e belos sonetos, revelando, sempre, um ser de extrema sensibilidade e muito humanismo. Mas, como sendo pouco, Severino Araújo enveredou, com igual sucesso e nas últimas estações da vida, pela popular arte da Cantiga de Cordel. Como sempre dedicou tempo e talento compondo verdadeiros poemas depois publicados no livro “A Vida não É Cor-de-Rosa” (2019), onde, por felicidade, deixou sua autobiografia para os que gozaram da sua convivência alegre e gentil.
A propósito, sendo hoje, 19 de Novembro, o dia do cantador/cordelista, conforme lembra o Imortal José Paulo Cavalcanti (Jornal do Comercio, 19/11/210), torna-se oportuno homenagear Severino Luís de Araújo, um talento encantado no último 27 de outubro, com um belo cordel da sua autoria:
Muita tolerância e fé/
Pratiquei na minha vida/
Bati em todas as portas/
Fui em frente na corrida/
Tenho orgulho do que fiz/
Sonhando em ser feliz/
Todos me deram guarida.
NOTA: Foto obtida no Facebook
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