terça-feira, 27 de outubro de 2020

Prepare seu Bolso

Embora que não haja, ainda, uma vacina salvadora e já se anuncie uma segunda onda, a Covid-19 continua mostrando ao mundo que não vai deixar barata a sua passagem entre nós. Os altos e baixos pelos quais estamos passando sequer apontam para um horizonte plácido. Além do ilimitado sofrimento humano e da perda de milhões de vidas, o que a essa altura dos acontecimentos se constata é um complexo desmantelo sócio-politico-econômico na maioria das nações. Principalmente nas mais pobres. Indiscutivelmente, um inesperado e inédito desafio para um moderno e relaxado mundo, construído por players inescrupulosos, sem referenciais de solidariedade e sempre ávidos interessados pelas riquezas dos terceiros com seus fatores básicos de produção. Isto sem falar na disputa pela hegemonia politica internacional. Aqui no Brasil, onde a pandemia atacou sem pena, respira-se hoje um duvidoso clima de alívio da praga e setores de produção começam a se arregimentar para uma retomada de atividades. Depois de uma parada inesperada e sem perspectivas de voltar ao normal a grande maioria das indústrias cerraram as portas, entraram em quarentena, ficaram aguardando ordens de cima e não pararam de contabilizar seus prejuízos. Tempo difícil. Para que não se diga que tudo parou registre-se a exceção, embora que em menor escala, das indústrias alimentícias. Estas, aliás, tendo os suportes de dois decisivos pilares: o Agronegócio que garantiu abastecimento e, na verdade, sustentou a Economia e a demanda gerada pelo Auxilio Emergencial do Governo que deu suporte à população mais carente ameaçada de padecer de fome e, sobretudo de Covid. Nesse clima duvidoso de reabertura algumas coisas saltam aos olhos do produtor industrial, com severas repercussões no lado do consumidor, ao se noticiar a escassez de matérias-primas para que as máquinas botem pra moer. Reclama-se a falta de insumos para as indústrias de material plástico e de papelão que são dois segmentos dinâmicos e que perpassam a maioria dos demais da indústria de transformação. Ora, se tudo exige embalagem como vão se virar os demandantes dessas matérias-primas e desses produtos. Outra falta gritante é a do aço, nas suas diversas apresentações. Imagine faltar aços planos na indústria automobilística, ou na da chamada linha branca. Podem faltar geladeiras, fogões e máquinas em geral. As usinas siderúrgicas apagaram seus altos-fornos e colocá-los de volta toma tempo e alto custo. Vai ser questão de paciência e animação para entender a duvidosa reabertura. E, por cima disso tudo, fazer vista grossa para a propalada segunda onda. A importação de insumos poderia resolver o abastecimento dessas matérias, mas, o dólar nas alturas inibe esse tipo de operação. Na foto a seguir Usiminas (MG)
Aqui em Pernambuco a situação tem eclodido em alguns lados e destacam-se dois ramos industriais que estão às voltas com sérias dificuldades de retomar suas atividades: têxtil/confecções e cimento e seus derivados. No primeiro, cujo Polo formado pelo triangulo Caruaru-Toritama-Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do estado, os produtores esbarram no desafio de aturar a oferta inelástica das matérias-primas – malhas, tecidos e aviamentos – versus a demanda crescente diante das perspectivas de vendas de fim de ano. A maioria desses materiais é produzida no sul-sudeste e tomam bom tempo, além de custo alto, para chegar ao consumidor intermediário da produção. Já a questão da escassez do cimento no mercado, uma explicação dada é o fato de que as cimenteiras, devido à pandemia, deligaram seus fornos e reaquece-los vem requerendo tempo e alto custo para voltar aos níveis pré-pandemia. Vi recentemente na imprensa de que um saco de cimento vem sendo disputado na tapa. Provavelmente muitos outros ramos industriais sofrem de semelhantes dificuldades revelando que essa retomada não será fácil.
Mas, tudo isso descrito para esboçar um horizonte preocupante para quem estiver na ponta do consumo: nada disso sairá barato. Analistas preveem uma subida da inflação. E faz sentido pensar assim. Quem comprar algum artigo que envolva plástico, papelão, chapa de aço, tecido, botão, linha de coser, cimento, entre outros, vai ter que arcar com o possível alto custo da sua produção e, como é sabido, tudo é sempre repassado ao consumidor final. Desse modo, prepare seu bolso. NOTA: Fotos ilustrativas obtidas no Google Imagens.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Escolha Certo

Estamos outra vez diante de um pleito eleitoral, como só acontece, a cada dois anos, neste pobre Brasil. Rolam fortunas e discursos inúteis. Agridem as consciências individual e coletiva. Coisa das democracias. Nos tempo de hoje, a campanha do mundo digital ataca até mesmo aqueles ou aquelas que pouco se ligam aos temas da politica partidária. Ou da politica de qualquer outra natureza. Precisamos estar conscientes de que estas próximas eleições, por serem as locais (municipais) exigem ser encaradas como as mais importantes para o cidadão ou cidadã consciente. Entendo que uma eleição municipal é a fundamentadora da participação democrática de uma nação organizada em termos de liberdade e escolha dos seus dirigentes. Uma escolha popular bem pensada resulta num espaço sólido e com mais resistência para sustentar a sociedade. O brasileiro comum precisa ter em mente que o município é a célula da Federação e é nela que reside a base da cidadania. Não compreendo uma sociedade sã sem um ambiente adequado ao bem-estar, segurança e tranquilidade na sua base espacial. Numa eleição municipal elegem-se, supostamente, chefes de executivo e representantes encarregados de cuidar, de perto, do cidadão e das famílias. Isso me parece ser fundamental. Portanto, uma má escolha – que não raramente ocorre neste país – resulta numa sociedade defeituosa desde sua raiz e incapaz de participar de modo adequado e justo nas escolhas superiores que, em tese, se encarregam de construir um País com ordem e progresso e, por fim, uma Nação forte e consolidada.
Do alto da minha experiência de vida, vejo, outra vez, que corremos o risco de ver saindo vencedores desqualificados e sem maturidade politica – muitos desses conquistando votos por meios desonestos – e, por isso mesmo, desabilitado para liderar ou representar de modo ideal seu povo. Diante do quadro descrito, caro(a) (e)leitor ou e(leitora) seja exigente na hora da sua escolha. Não se encante com os belos olhos de um(a) candidato(a), com os discursos demagógicos ou com o padrinho que o(a) empurra. Ao invés disso dê um voto seguro, consciente e racional. Tenha em mente a sustentabilidade do coletivo sofrido que habita sua cidade. E nunca esqueça que o Brasil precisa de uma base politica municipal mais digna e disposta a defender com dignidade o porvir nacional. NOTA: Foto ilustrativa obtida no Google Imagnes

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Caminho sem Volta

Um assunto muito comentado na semana que findou, e vem ganhando elástico espaço de debates entre os habitantes do mundo virtual, gira em torno do documentário norte-americano exibido pelo Netflix denominado de “O Dilema das Redes” (The Social Dilemma). Assisti e confesso haver ficado deveras impressionado, apesar da ideia que tinha, ainda que elementar, do que estamos sujeitos nesse mundo “novo” e conectado por milhares de formas e controles. A chamada inteligência artificial (IA) vai muito mais longe do que nós, pobres mortais, somos capazes de imaginar. Conclui que integrando uma rede do tipo Facebook, por exemplo, posso ser identificado, através de um numeral atrelado a um complexo algoritmo, numa central mundial que acumula meus dados pessoais, minhas preferencias gastronômicas, culturais, sexuais, estilo de vida, entre outras muitas é algo assustador. O que serei num futuro próximo? Temo não passar de um ser cativo a uma ditadura que mesmo virtual é acachapante? Ouvi falar que muitas pessoas já deletaram, ou pretendem assim, seus perfis e páginas do Facebook, Messenger, Instagran e semelhantes, assustados com o que podem estar sujeitos. A propósito disto, recordei-me do livro de Yuval Harrari, historiador israelense, “21 Lições para o Século 21” no qual ele descreve um mundo futuro, de forma fria e objetiva, no qual seremos comandados e guiados por robôs – Inteligência Artificial – num sociedade globalizada e sempre à busca de avanços tecnológicos, muitos dos quais inimagináveis. Num trecho do livro ele disco;rre sobre o fascínio e ambição do homem por tomar o lugar de Deus, de quem ele tem uma visão bem própria. E é verdade. Imagine que existem cientistas biólogos e médicos que garantem haver descoberto técnicas que ressuscitam mortos (segredosdomundo.r7.com). “muito mais fácil do que uma simples massagem cardíaca, usada para a reanimação cardiorrespiratória, pesquisadores da Universidade de Maryland, USA, desde 1960, Peter Rhee e Samuel Tisherman, alegam ter descoberto uma técnica capaz de ressuscitar os mortos. O mais curioso é que o procedimento já foi testado com sucesso em animais de laboratórios.” Esta informação volta às pautas, vez por outra, envolvendo, além dos aspectos científicos, os da ética, os religiosos e os culturais. Pense nessa revolução entre os humanos. Pense, também, nos interesses econômicos que podem gerar.
Apesar dos pesares que o documentário da Netflix expõe, entendo que o mundo trilha um caminho sem volta. A questão começa por interrogações bem simples: como seria esse tempo de distanciamento social (quarentena) da Covid-19 se não houvesse ferramentas tão úteis e tão utilizadas no plano das comunicações entre as quais a telefonia fixa, o celular, a internet e as populares redes sociais? O que seria da humanidade se não houvesse o progresso da ciência médica que hoje existe? A História nos mostra que durante a Peste Negra foi a pandemia mais devastadora da humanidade entre os anos 1347 e 1351, matando perto de 200 milhões (numero incerto dado a precariedade dos dados) de pessoas entre a Europa e Ásia. Àquela época a pobreza da medicina, os hábitos sanitários e os costumes culturais levaram a que a população recorresse, tão somente, às crenças religiosas, acreditando se tratar de um castigo divino e somente ao Divino havia de se reportar. Até hoje comunidades europeias pagam promessas por haver escapado da mortandade. Coisa muito comum e cultural no Velho Mundo. Outra pandemia assustadora foi a da Gripe Espanhola, entre 1918 e 1920. Mas, há um século o mundo já era outro e as iniciativas tomadas pelos países já foram bem mais plausíveis. Ainda assim 500 milhões de pessoas foram infectadas e 50 milhões pereceram. Minha conclusão: é doloroso conferir que, no mundo inteiro, 35 Milhões de pessoas foram infectadas pela Covid-19, dos quais 1 Milhão pereceu. A diferença entre estes dois numeros mostra quantos foram curados. São numeros arredondados. Mas, ainda podemos registrar relativo "conforto" dado ao progresso da Ciência e da Tecnologia que hoje se dispõe. Simbora porque este caminho não tem volta. NOTA: A imagem que ilustra o post foi colhido no Googles Imagens.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Novo Normal?

Há meses, desde quando a pandemia foi declarada, sentida e combatida no mundo inteiro, uma coisa tomou conta no pensar da humanidade: após a crise sanitária vamos experimentar um novo mundo, com maneiras de vida e convivência diferentes e desse modo vamos viver um novo normal. Mas, como será de fato esse tal novo normal? Será novo mesmo? Que novidades virão? Nas minhas tímidas andanças, ao sair da toca onde há meses – seis precisamente – resguardo-me da peste invisível, cato, ali ou acolá, sinais desse novo e não enxergo com clareza. Salvo as precauções imediatas de lavar as mãos, usar máscaras e evitar achegamentos com os próximos não vi, ainda, nada que diga ser novo realmente. Isto, até que a vacina garanta a segurança almejada. Mesmo o badalado home-office, as lives, o e-Commerce e similares não podem ser concretas novidades. Vamos e venhamos, são coisas já conhecidas e que se tornaram mais populares empurradas pela Covid-19. Sendo assim, aquilo que eu mesmo previ e meti-me a recomendar atenção pode, no final das contas, ser uma perda de tempo. A proposito do assunto, percebe-se que muita gente vem trilhando este mesmo trajeto de busca. Coincidentemente recebi uma mensagem de grande amigo – Teólogo e exímio Filósofo – Padre Sergio Absalão tratando de desmitificar essa coisa do “novo normal” ao qual ele atribuiu a qualidade de mantra. No seu texto Absalão teve o cuidado de explicar que “A palavra “mantra” vem do sânscrito, uma língua clássica e básica das vinte e três línguas faladas na Índia. A sílaba “man” significa “mente” e o “tra” se refere a “proteção”, “controle”. Traduzindo de forma livre, “mantra” é o instrumento para controlar ou proteger a mente.” Teria sido isto então, que se espalhou, no meio do mundo, a ideia do “novo normal”? Proteger as mentes? Na mesma mensagem Absalão lembrou sábio trecho de uma das homilias de Santo Agostinho, na qual aconselha que “Não fiques nunca satisfeito [...] onde te consideraste satisfeito, lá mesmo ficaste parado. Se disseres ‘já basta’, morreste. Cresce sempre, progride sempre, avança sempre” (Santo Agostinho. Homiliӕ 169,18). Ou seja, o ser humano deve sempre buscar o progresso. Nada melhor.
Noutro trecho do ensaio Absalão foi bem pragmático ao lembrar que ”hoje, por exemplo, em qualquer local, tem-se à disposição as “maquininhas” de cartão de crédito ou mesmo o celular. Passa-se o cartão, aponta-se o celular no QR Code e o pagamento é feito automaticamente. Uma maravilha! Num passado não muito distante, ia-se à famosa mercearia, do seu fulano de tal, comprava-se os suprimentos necessários e se pedia para pôr “no pendura”. O dono da mercearia tirava um toco de lápis Faber-Castell, preso por detrás da orelha, passava a língua na ponta e anotava numa caderneta que somente ele entendia onde começava e terminava. Foto acima. A mudança foi tão só na forma. A velha caderneta do “pendura” virou uma “maquininha” e o toco de lápis, agora, é o cartão de crédito ou o celular. Mudou a forma, mas o hábito permaneceu o mesmo. Outro exemplo pode ser aqui exposto. Guardadas as devidas proporções, que diferença há entre o Mercado de São José, o da Encruzilhada ou o de Casa Amarela com o Shopping Center Recife, Tacaruna ou o Rio Mar? (foto a seguir) Sem levar em conta uma hipotética qualidade, tanto nesses antigos Mercados, como nos modernos Shoppings, vê-se que a estrutura não é tão diferente quanto parece. Se por “novo” se entende essas transformações, próprias de cada período da história, então não há o que se dizer, senão o que está registrado na Sagrada Escritura: “Nada há de novo debaixo do sol” (Ecl 1,9). Por mais que se negue, não há nada de genuinamente novo e, por isso mesmo, o “mantra” “novo normal”, repetido cotidianamente, não passa de uma grande bobagem.”
Para sacolejar mais a mente do penitente aqui, Absalão acrescentou que “desse modo, quando se tem em mente o “normal”, se subentende certa continuidade de permanente procura e conquista que possibilita proteção e segurança para poder seguir em frente. É legítimo, por isso, se falar em “normal”, por se tratar de um dado instintivo do ser humano. No entanto, o que vem sendo anunciado e se tornado senso comum diz respeito a um normal “novo”, um “novo normal”, dando a entender que no pós-pandemia, como foi dito, teremos um novo modo de organização social, político, econômico, cultural, etc.” Antes fosse! Esse poder a Covid-19 não teve e nem terá. Nota: os mercados de São José, Encruzilhada e Casa Amarela, bem como os Shoppings Center Recife, Tacaruna e Riomar são centros de comércio da cidade do Recife, Brasil. Nota 2: As fotos ilustrativas foram colhidas no Google Imagens.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Virando o Jogo

A notícia que já corre solta é que o agronegócio brasileiro acelerou a virada do jogo econômico nacional e já desbanca o setor industrial, que perde espaço de modos expressivos na composição do PIB. A crise do Coronavírus servia para reforçar o “contra-ataque” e pelo visto o Brasil mergulha fundo num novo ciclo e redesenha de vez seu novo perfil econômico. Bom, a Indústria nacional já vem perdendo, gradativamente, sua posição e seus encantos urbanísticos. Com a virada do jogo a vida agitada dos grandes centros urbanos começa a ceder lugar ao viver no hinterland do país que vem atraindo fortes contingentes populacionais buscando, além de efetivas soluções de existência, uma vida tranquila, ar puro e melhor qualidade de vida. Certamente que depois da Covid-19 o chamado “novo normal” vai ditar padrões distintos dos que foram construídos nos últimos 80 ou 100 anos. O processo de industrialização brasileiro deflagrado na Era Vargas, seguido com mais intensidade por JK e pelos governos que se seguiram, conhecido como Modelo de Substituição de Importações, cometeu um pecado ao, equivocadamente, abandonar à margem do desenvolvimento os negócios do setor agrário que teve de se virar para sobreviver à duras penas. Somente gradativamente foi que medidas de fomento foram surgindo, atendendo demandas clamorosas de investidores, que garantiram deslocamento das fronteiras agrícolas e desenvolvimento tecnológico que conferem ao Brasil de hoje uma posição privilegiada de celeiro do mundo. A Indústria, numa trajetória inversa, perdeu o bom rumo do progresso ao se revelar pouco competitiva em preço e qualidade, no próprio mercado interno e sem espaço no mercado globalizado. Já não é mais São Paulo ou outro qualquer polo industrial que dá as cartas. A riqueza nacional está sendo gerada num espaço mais amplo e fértil do interior. Terras do Centro-Oeste e o Matopiba estão aí para provar a realidade. Vide o mapa a seguir e entenda o que vem ser esta última região citada.
A atividade do Agronegócio, finalmente, vem sendo a salvação da barca brasileira. Estimativas de diversos institutos de estatísticas e pesquisas dão conta de que uma fatia de 40% do PIB é tocada pelo segmento e seus agregados, isto é, produção, colheita, armazenamento, comercialização doméstica e internacional, logística de distribuição, negociações bancárias, entre outros menores. Conheço pessoas que vão mudar de CEP, no novo normal, movidas pelas descobertas que fizeram neste tempo de pandemia. Falo de pessoas que já decidiram fugir, por exemplo, da conturbada Metrópole Paulista ou do Recife Confuso e que, inclusive, já relocaram – com constatados alívios – seus escritórios de comando no Zoom, no Meet-Google ou similares. Adeus poluição sonora e do ar, adeus engarrafamentos e todos os inconvenientes das grandes cidades. E, tem mais: quando a briga do 5G acabar a coisa será bem mais tangível. A tacada pode ser ainda mais forte. Com este novo formato nascerá também uma nova sociedade. Poderá ocorrer uma corrente migratória inversa a dos anos 50. Falo daquela onda que formou um cinturão de pobreza e o levantamento de imensas favelas nas franjas dos grandes centros industriais. O interior poderá ser mais atrativo daqui pra frente. Num país continental como o nosso será bem fácil. Em recente artigo, Stephen Kanitz (09.06.20) foi enfático ao dizer “com o Covid, haverá uma fuga das cidades para o campo, dos apartamentos para casas, dos escritórios para o Zoom”. Imagino, desde já, a crise que se viverá no setor imobiliário dos grandes centros urbanos, bem como a especulação imobiliária que será praticada nos centros de pequeno e médio portes com um mínimo de condições de vida confortável. Aqui em Pernambuco, já ouvi corretor de imóveis anunciando que em locais próximos à Capital (Gravatá, Sairé e adjacências) tiveram uma repentina disparada de valor. Em São Paulo essa oferta será certamente bem elástica dadas a infraestrutura e as condições socio-economicas disponiveis. É ou não é uma autentica virada de jogo? NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens

sábado, 12 de setembro de 2020

SEIS LUAS

Já contei, pela minha janela, a Lua Cheia passando por seis vezes enquanto estou “dendicasa”. Estou dando uma de índio que contava o tempo pela passagem da lua cheia. Fico sem acreditar. Aquilo que esperei durasse, quando muito, um mês já me pôs em prova por muito mais tempo do que calculei. Que tempo é esse meu Deus? 

A minha lua de verão. Toda apressada
sem esperar o sol se recolher

Na realidade comum, sempre fui amante do luar. Toda vez que ela se enche e se exibe toda formosa, algo de prazer invade minha alma e provoca louvores à natureza e à vida. Admiro esse nosso satélite em qualquer época do ano: no verão quando se mostra desnudo e brilhante lembrando que seu gerador de luz e energia está no auge da sua inflamação e descarregando tudo que pode sobre ele ou no inverno quando aparece envolvido num diáfano véu de stratos e cumulus  fugindo, aparentemente, dos sólidos cirrus. Não sou especialista no tema, mas arrisquei. Pronto. Fotografei todas as seis luas daqui dendicasa.

Lua de inverno, envolta em diáfanos véus de nuvens  

Esperando o tão desejado novo normal reservo-me ao mundo doméstico apreciando a mudança de estação e a passagem de um ano que mal chegou a começar. Contudo, contando vitória porque para muitos o ano pode ter começado e a vida findada. Tempos difíceis.

Vi a passagem da Páscoa de longe, não soltei rojões e nem acendi fogueira no mês de junho. Fiquei um ano mais velho em agosto, hasteei a bandeira brasileira no 7 de setembro  e ando procurando o que fazer a  toda hora. Quando não tenho mais com o que me ocupar – ler, escrever, dormir, assistir um filme, cozinhar, entre outras atividades – me divirto, inclusive, correndo atrás de um robôzinho de limpezas doméstica. Brinquedo de gente velha. A casa fica limpa e o tempo parece não passar. Em alguns momentos me sinto pateta. Para minha surpresa e apurar o tempo,  já tem gente falando no Natal. Faz sentido porque sempre ouvi dizer que “quando entram os bros o ano está findando”. Já estamos no primeiro bro: setembro.

Nem um jornal tem mais graça. Tenho que escolher entre assistir ao noticiário na TV, cada noite, ou ler o jornal do dia seguinte. O que salvam, quando muito, são os artigos de opinião ou as analises dos especialistas em politica e economia. Tudo nas versões eletrônicas porque o físico pode estar contaminado de Covid. Vidinha chata está sendo esta.

Mas, lendo os jornais no meu celular ou iPad, observo que a fuxicada republicana (pouco republicana!) continua viva e perturbante. O poder continua fascinando meio mundo. Mundo despreparado para o mister. E no resto do planeta as coisas continuam com as costumeiras cachorradas. E eu catando os sinais de identificar de onde vem o novo normal.

Muitos pedem calma porque o prometido novo normal vai chegar quando descobrirem uma vacina milagrosa! Contudo, ando meio ressabiado com essa história. Chinesa, britânica, russa, norte-americana e não sei mais de onde. É outra face da corrida pelo Poder.  

Como não me resta outra coisa, a não ser acalmar, vou esperar a próxima lua cheia. Que jeito?

NOTA: As fotos são da autoria do Blogueiro

  

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Infância Abandonada

Era um dia bem quente do verão de Teresina, capital do estado do Piaui (BR). Os termômetros marcavam algo próximo aos 40 graus. Desejando um lugar agradável e fresco fui, a convite de um amigo companheiro de trabalho, almoçar uma peixada de tucunaré, num restaurante típico à beira do rio Poti. Decorriam os anos de 90 do século passada. Como comum naquelas bandas, apareceu-me uma garota com imensa barriga pedindo um auxilio para comer. Fiquei muito impressionada com o perfil da menina. Dei uma ajuda e comentei com o garçon que aquela criança devia sofrer de hidropisia dado o tamanho da barriga. “Nada doutor, isso é barriga de menino! E a criança está pra nascer com um pouco mais”. Parei de beber e comer diante daquela cruel verdade. Incrédulo, mandei chamar a garota de volta com quem levei um diálogo doloroso. Quantos anos você tem? “Tenho dez anos.” Respondeu com um sorriso largo. E o que é isso na sua barriga tão grande? “Vou ganhar um neném”. Fiquei chocado. “Tomara que seja um menino feme, pra brincar mais eu”. Uma criança de dez anos sem seios ou pelos pubianos! Perdi o apetite e fiquei, por dias, com aquela imagem dantesca e diálogo na cabeça.

Infância abandonada e grávida
Semana passada, com o episódio da garotinha capixaba de dez anos trazida ao Recife para fazer um aborto autorizado pela Justiça do seu estado, minha memoria trouxe de volta as imagens daquela experiência que vivi em Teresina. Igualmente doloroso é claro. Acompanhei o noticiário e fiquei provocado a escrever este artigo aqui no Blog. Contudo, em se tratando de um tema delicadíssimo, envolvendo ética profissional e princípios religiosos ortodoxos, confesso que tive sérias precauções. Sou católico e me considero praticante da religião e tenho muito respeito aos princípios éticos que são, também, esteios dos meus princípios religiosos. Por estas razões não tenho coragem de tecer considerações mais profundas. Acredito que seja uma questão para todo e qualquer cidadão ou cidadã amadurecer no seu íntimo.
Foi imensamente chocante tomar conhecimento da declaração do obstetra que assistiu e executou o aborto, ao afirmar que “começou por injetar uma droga que paralisasse o coração do feto” e a após algum tempo proceder uma curetagem. Deu-me náuseas. Por onde andou a cabeça desse profissional? Aos manifestantes religiosos e populares que empreenderam um protesto contrário ao procedimento, diante do Centro de Obstetrícia, minha revolta ao classificarem essa criança violentada e estuprada, por um familiar e desde seus seis de vida como sendo uma assassina. Coisa inominável. Decisão cruel. Lembrei-me da Escolha de Sofia, no romance de William Styron. Se essa garotinha, no desabrochar da vida, for uma assassina, o que dizer do delinquente tio que se aproveitou da pobre coitada e inocente, por tantos anos?

O tio estuprador
Paralelo aos fatos reais, as conversas que tive com meus botões encorajam-me a fazer algumas considerações a respeito dessa cruel sociedade brasileira, sempre alheia às misérias que campeiam nas franjas remotas das nossas cidades e grotões escondidos.
Infelizmente, para espante da nossa alienada sociedade e desprezo dos irresponsáveis governantes de plantão, o caso da capixaba é bem mais comum do se imagina. Em Teresina, em São Mateus (ES), no Recife e qualquer outra cidade brasileira a coisa se repete, aos olhos alienados da Nação. Observemos as crianças pedintes nos semáforos das nossas grandes cidades e facilmente veremos muitas crianças portando bebês, próprios filhos gerados e paridos nas ruas da vida “severina” que levam.
A falta de politicas governamentais, dos diferentes níveis, vem formando ao longo dos tempos uma população à margem – não marginal! – do processo de educação e segurança. Na prática e infelizmente, estão sendo reproduzidos animais com formato humano com comportamentos de primatas selvagens com instintos animalescos sem respeito aos seus semelhantes, sobretudo crianças indefesas. Esse tio animalesco, lá no estado do Espirito Santo, é exemplo vivo.
O que merece destaque e lembrando que "todo mal traz um bem", a esperança é que esse exemplo recente – exposto de forma cruel e dolorosa na mídia nacional e estrangeira – sirva de referencial para que sejam adotadas medidas de politicas educacionais e assistenciais secundadas por legislação punitiva rigorosa aplicável a essas bestas humanas.

NOTA: Essas fotos foram obtidas no Google Imagens

A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...