Era um dia
bem quente do verão de Teresina, capital do estado do Piaui (BR). Os termômetros marcavam algo próximo aos 40
graus. Desejando um lugar agradável e fresco fui, a convite de um amigo
companheiro de trabalho, almoçar uma peixada de tucunaré, num restaurante
típico à beira do rio Poti. Decorriam os anos de 90 do século passada. Como
comum naquelas bandas, apareceu-me uma garota com imensa barriga pedindo um
auxilio para comer. Fiquei muito impressionada com o perfil da menina. Dei uma
ajuda e comentei com o garçon que aquela criança devia sofrer de hidropisia
dado o tamanho da barriga. “Nada doutor, isso é barriga de menino! E a criança
está pra nascer com um pouco mais”. Parei de beber e comer diante daquela cruel
verdade. Incrédulo, mandei chamar a garota de volta com quem levei um diálogo doloroso. Quantos
anos você tem? “Tenho dez anos.” Respondeu com um sorriso largo. E o que é isso
na sua barriga tão grande? “Vou ganhar um neném”. Fiquei chocado. “Tomara que
seja um menino feme, pra brincar mais
eu”. Uma criança de dez anos sem seios ou pelos pubianos! Perdi o apetite e
fiquei, por dias, com aquela imagem dantesca e diálogo na cabeça.
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Infância abandonada e grávida
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Semana
passada, com o episódio da garotinha capixaba de dez anos trazida ao Recife
para fazer um aborto autorizado pela Justiça do seu estado, minha memoria
trouxe de volta as imagens daquela experiência que vivi em Teresina. Igualmente doloroso
é claro. Acompanhei o noticiário e fiquei provocado a escrever este artigo aqui
no Blog. Contudo, em se tratando de um tema delicadíssimo, envolvendo ética
profissional e princípios religiosos ortodoxos, confesso que tive sérias
precauções. Sou católico e me considero praticante da religião e tenho muito respeito
aos princípios éticos que são, também, esteios dos meus princípios religiosos.
Por estas razões não tenho coragem de tecer considerações mais profundas. Acredito
que seja uma questão para todo e qualquer cidadão ou cidadã amadurecer no seu
íntimo.Foi imensamente chocante tomar conhecimento da declaração do obstetra que assistiu e
executou o aborto, ao afirmar que “começou por injetar uma droga que paralisasse
o coração do feto” e a após algum tempo proceder uma curetagem. Deu-me náuseas.
Por onde andou a cabeça desse profissional? Aos manifestantes religiosos e populares que empreenderam um protesto contrário
ao procedimento, diante do Centro de Obstetrícia, minha revolta ao
classificarem essa criança violentada e estuprada, por um familiar e desde seus
seis de vida como sendo uma assassina. Coisa inominável. Decisão cruel. Lembrei-me
da Escolha de Sofia, no romance de
William Styron. Se essa garotinha, no desabrochar da vida, for uma assassina, o
que dizer do delinquente tio que se aproveitou da pobre coitada e inocente, por
tantos anos?
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O tio estuprador
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Paralelo aos
fatos reais, as conversas que tive com meus botões encorajam-me a fazer algumas
considerações a respeito dessa cruel sociedade brasileira, sempre alheia às
misérias que campeiam nas franjas remotas das nossas cidades e grotões
escondidos.Infelizmente,
para espante da nossa alienada sociedade e desprezo dos irresponsáveis governantes
de plantão, o caso da capixaba é bem mais comum do se imagina. Em Teresina, em
São Mateus (ES), no Recife e qualquer outra cidade brasileira a coisa se repete,
aos olhos alienados da Nação. Observemos as crianças pedintes nos semáforos das
nossas grandes cidades e facilmente veremos muitas crianças portando bebês, próprios
filhos gerados e paridos nas ruas da vida “severina” que levam.
A falta de
politicas governamentais, dos diferentes níveis, vem formando ao longo dos
tempos uma população à margem – não marginal! – do processo de educação e
segurança. Na prática e infelizmente, estão sendo reproduzidos animais com
formato humano com comportamentos de primatas selvagens com instintos
animalescos sem respeito aos seus semelhantes, sobretudo crianças indefesas. Esse
tio animalesco, lá no estado do Espirito Santo, é exemplo vivo.
O que merece destaque e lembrando que "todo
mal traz um bem", a esperança é que esse exemplo recente – exposto de forma
cruel e dolorosa na mídia nacional e estrangeira – sirva de referencial para
que sejam adotadas medidas de politicas educacionais e assistenciais secundadas
por legislação punitiva rigorosa aplicável a essas bestas humanas.
NOTA: Essas fotos foram obtidas no Google Imagens