segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Sociedade Cambeta

O titulo pode ser um exagero, mas, vai este mesmo. Os mais jovens talvez nunca tenham visto ou ouvido falar do termo cambeta. Poderão entender se, porventura, deem-se ao trabalho de ler esta postagem até o final. Vamos lá. Faz bem pouco tempo que nos surpreendemos com o vandalismo cometido por ladrões inescrupulosos contra o Parque das Esculturas, no Marco Zero do Recife, onde o artista-escultor, pernambucano, Francisco Brennand deixou uma das suas mais importantes obras, saudando a chegada do século 21. Roubaram inúmeras partes ou peças inteiras daquela monumental coleção, um orgulho para todo Pernambuco, que terminaram derretidas nas pequenas e clandestinas fundições que existem nas redondezas do Grande Recife. Uma lástima e, certamente, um golpe execrável nos meios artísticos nacionais. Polêmica instalada em torno do fato e findou numa inútil busca pelos culpados. Sociedade revoltada responsabilizando as autoridades pela falta de segurança e pela falta de zelo com o patrimônio público deu em nada. Puxa daqui e empurra para acolá o governo local arranjou verba e tratou de recuperar o Parque. Dinheiro do contribuinte, claro. Como os malfeitores ficaram anônimos e, por conseguinte, livres das penalidades cabíveis voltaram a agir, recentemente, praticando novas barbaridades e, para não variar, tendo como objetivo saquear obras históricas do Recife. Na semana passada levaram uma imensa placa de ferro fundido, instalada por mais de 100, na velha ponte Mauricio de Nassau, contendo inscrições históricas sobre a referida construção – primeira ponte urbana construída na América do Sul – que liga os bairros de Santo Antônio e do Recife. Tem sua historia sempre lembrada como a ponte do Boi Voador de Nassau. Datada do século 17 e construída pelo Conde Mauricio de Nassau, que, à época, governava o Brasil Holandês. A construção atual em concreto, não é a original, é mais ampla e melhor disposta, datada de 1917. Com estilo neoclássico abriga quatro imensas belíssimas estátuas nas cabeceiras, representando a Sabedoria, a Agricultura, a Justiça e o Comércio, produzidas em ferro-fundido, na Fundição Val d’Osne, na França. A placa roubada estava, por mais de cem anos, afixada sob a estátua da Justiça. Que ironia. Vide foto a seguir.
A coisa, porém, parece não ter fim. A semana que passou deu-se por falta o busto de ferro-fundido, também, de Frei Caneca, exposto numa praça do centro do Recife, desde 1981. Homenagem ao líder revolucionário pernambucano, ferrenho opositor do Governo Imperial, e um dos promotores da Revolução Republicana de 1817 e da Confederação do Equador. Foi fuzilado por ordem imperial em 1825, no local onde estava o busto roubado, a Praça das Cinco Pontas. Quem não se lembra do roubo da Taça Jules Rimet de Futebol, conquistada após o tricampeonato de futebol mundial da seleção brasileira? Foi roubada do Museu da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no centro do Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1983, causando um forte impacto de revolta nacional. Sem que fosse resgatada, descobriu-se que os bandidos a negociaram com um comerciante de ouro argentino que a derreteu e “torrou-a nos cobres”. Teria sido uma vingança dos hermanos? Deve ter sido, isso sim, um bom negócio para os gatunos porque, afinal, eram três quilos e meio de ouro maciço! Foto logo abaixo.
O que leva um indivíduo ou uma quadrilha cometer tamanhos absurdos? Fome, maldade, falta de educação e civilidade, covardia, revolta social? Aspectos inexplicáveis, em minha opinião. Saquear um patrimônio público, apagar traços importantes da História de um povo, impunidade, falta de percentimento social, marginalidade, estraçalhar a memória pátria, negar o que de bom foi guardado como herança de uma sociedade, enfim, o que pensar dessa gentalha? Fica claro que as coisas estão sendo muito relaxadas neste país. E, mais uma vez, lembro que falta uma politica pública de Educação que ensine o que significa respeito ao próximo, civilidade, honestidade, sociedade, politica, enfim tudo aquilo que venha a formar cidadãos e sociedade sadia. A proposito, esta semana, estive num evento (Festival Virtuosi de Gravatá) e na abertura foi executado o Hino Nacional. Para minha surpresa uma grande parcela da plateia não se abalou, manteve-se sentada e parecia que escutavam uma marchinha de carnaval qualquer. Um casalzinho de namorados, ao meu lado, sorria e, acredito mesmo, que achava estranha aquela minha postura de pé e respeito ao que se ouvia. Claro, aquilo me chocou profundamente. Minha leitura do momento foi que já não se forja patriotismo e respeito aos símbolos da Pátria como no passado. Resultado está aí: nasce, a olhos nus, uma sociedade cambeta, isto é, manca, cambaleante e coxa. Pobre Brasil, ziu, ziu!

sábado, 13 de agosto de 2022

Seleção de Debochados

Além das futricas politicas rotineiras no nosso quotidiano, uma verdadeira piada de mau gosto ganhou luzes nas redes sociais, desta semana, dando conta de que a Comissão de Esporte da Câmara Federal aprovou um requerimento para criação de um grupo de trabalho destinado a acompanhar a preparação da seleção brasileira para Copa do Mundo de 2022, a se realizar no Catar entre os dias 21 de novembro e 18 de dezembro. Proposta de um certo Deputado baiano que atende pelo nome de José Rocha (União/BA). O parlamentar justificou sua ideia afirmando que “a imagem da seleção está em baixa e, por causa disso, o futebol brasileiro tem se afastado cada vez mais do público. Precisamos então recuperar esse esporte que, além da função social indiscutível que possui, é considerado paixão nacional”. Também pudera, depois do Mineraço de 7 x 1 impostos pela seleção alemã na Copa realizada dentro de casa! Para dar conta dessa nobre missão o grupo deve contar com o empenho de onze deputados. Um time de futebol! Me engana que eu gosto... Para reforçar sua justificativa o parlamentar arredondou que “a proposta desse Grupo de Trabalho é provocar discussões dentro deste colegiado e junto à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade máxima do futebol brasileiro, como parte de um conjunto de esforços para resgatar a imagem do Brasil como o país do futebol”. Nem precisava dizer, o texto da proposta foi aprovado por unanimidade. Posso imaginar, assim como qualquer brasileiro sério e honesto também, o entusiasmo dessa reunião e a disputa acirrada para a formação do Grupo. É preciso ser muito idiota para não acreditar que o objetivo do Grupo não é nada do que ficou assentado na proposta aprovada. Muito mais fácil, óbvio até, é entender que o objetivo precípuo é o de levar o Grupo ao Catar, para conferir o resulto de tão “grande esforço”, assistir de camarote aos jogos do torneio, com todas as despesas pagas por nós, os babacas contribuintes. Onze “engraçadinhos” formando uma Seleção de Debochados, nas Arábias. Imagino que aqueles que correm risco de derrota nas urnas de Outubro envidarão os maiores esforços para cumprir tão difícil missão e não perder a boquinha.
É lamentável e revoltante viver num país, pobre e lascado, onde tantas corrupções e tramoias parlamentares são cometidas impunemente e acobertadas legalmente, nas barbas do cidadão. Cidadão Eleitor que esquece tudo na hora de exercer seu papel de decisão do próprio futuro e o da Nação, nas urnas eleitorais. Por oportuno, e não querendo ser injusto nas minhas criticas, fui conferir na Legislação as atribuições da Comissão em tela e catar (desculpe o trocadilho!) uma relação entre estas e o que se desenhou para o Grupo recém-criado. Resultado é que nada me garante que haja relação entre as duas coisas, haja vistas que são atribuições da Comissão do Esporte: debater e votar os temas relativos à i) sistema desportivo nacional e sua organização; politica e plano nacional de educação física e desportiva; e ii) normas gerais sobre desporto; justiça desportiva. Não consegui identificar a rubrica orçamentária da Comissão do Esporte, na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) ou no Portal da Transparência (das aparências?), embora, creia que seja exígua como tem sido em casos de outras dotações e de outras comissões ou pasta administrativa. Curioso, entretanto, é ter a certeza de que comunidades situadas nos grotões do Brasil anseiam por incentivos financeiros e apoios governamentais para desenvolver atividades desportivas entre seus membros, muitos dos quais revelando potenciais habilidades e com concretas possibilidades de se tornarem estrelas nas diferentes modalidades esportivas. Infelizmente, ficam apenas no plano da ansiedade. Ao contrario disto, onze debochados parlamentares prestam-se para compor um “faz de conta” e, por fim, viajar em classe executiva, se hospedar em hotéis babilônicos de Doha, comer e beber do melhor, dispor de um carnê de ingressos à livre escolha para os jogos do troneio, fazer programas de “mil e uma noites” e, se brincar, voltar se mostrando exaustos da “farrinha” parlamentar. Haja verba para custear essa estupidez parlamentar. Tenha dó. Quisera poder votar contra todos esses debochados em outubro. Acorda Brasil! NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens / Charge da autoria de Gazo.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Salve o Negro Brasileiro

Sempre me dei muito bem convivendo com pessoas de cor negra. Acredito que tudo começou na minha infância quando meus pais decidiram matricular-me, aos sete anos, numa escola particular, muito comum à época, onde uma família de negras professoras se dedicavam ao ensino primário. Mudaram-me de um colégio de freiras, no qual pouco progredi embora haja aprendido a rezar muito e onde fiz primeira comunhão. As professoras afrodescendentes, do Externato Santos Cosme e Damião, eram enérgicas e competentes no ensino do “be-a-bá” exigido àquela época. Aluno sempre aplicado fui logo cercado de afetos, admiração e afagos por Dona D´Lourdes, minha mestra, por quase quatro anos. Aquela negra, embora sempre circunspecta, me encantava e me fez perceber os mistérios de um mundo, no qual eu vivia, em que ter pele negra transformava o individuo em cidadão de classe inferior. Quanta dignidade havia naquela família de negras professoras comandando classes cheias de alunos predominantemente de raça branca e com condições financeiras para remunerar a escola que mantinham. Belos aprendizados recebi: formal e cívico Estas reminiscências de hoje são provocadas por lastimáveis episódios que, com frequência, ainda testemunhamos, neste inicio de século 21. Nos dias recentes, aqui no Brasil, dois fatos tomaram conta da mídia e jogaram luzes sobre o renitente preconceito de cor que se vive no chamado estado democrático brasileiro. O primeiro foi o da “mulher da casa abandonada”, numa zona nobre e tradicional da cidade de São Paulo. Virou atração turística. Todo mundo queria saber quem era aquela misteriosa mulher, depois identificada como sendo uma tal de Margarida Bonetti, foragida da justiça norte-americana por manter em regime de escravidão, por 20 anos, uma empegada doméstica. A sujeita não chegou a ser julgada pela justiça americana, não foi presa e, mais do que isso, conseguiu fugir para o Brasil no ano 2000, onde se trancou até hoje no casarão que herdou. Descendente de uma família rica e poderosa da pauliceia exercia a habitual exploração de serviçais negras, tratadas historicamente como um bem de capital. A negra vitima dessa atrocidade vive ainda nos Estados Unidos gozando de cidadania e direitos civis, muito embora as restrições sociais que, como todos sabemos, ainda perduram na Terra de Tio Sam. O outro caso que ganhou espaço no noticiário e correu o mundo foi o da senhora portuguesa que tratou de modo pejorativo e desprezível os dois filhos, adotivos e negros, dos atores brasileiros Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, num restaurante de uma praia nos arredores de Lisboa, onde passam temporada. O caldo engrossou por lá e a atriz Ewbank, desempenhando seu inesperado papel de mãe vigilante e furiosa, enfrentou a agressora de modo direto e, segundo relatos, desferiu um belo tapa na agressora! A portuguesa preconceituosa foi chamada à responsabilidade e está embalada em maus lençóis. Bom, foram dois fatos ocorridos lá fora, embora que corriqueiros no Brasil de agora. Para fechar minha semana, e esta edição do Blog, fui parar no lançamento do terceiro volume da trilogia Escravidão do jornalista escritor Laurentino Gomes. Eis aí uma obra que recomendo ser lida por todos os brasileiros. O autor dedicou-se por anos a uma profunda pesquisa sobre o tema escravidão nas Américas e terminou produzindo três volumes de formidáveis relatos sobre o assombroso regime escravista nas Américas e que arrastou o Brasil ao último país a proclamar o fim da escravidão no chamado Novo Mundo, em 1888, ao contrário de países como México, Chile e Bolívia já o haviam proclamado entre 1818 e 1840. Essa tardia passagem histórica e sua difícil assimilação pela aristocracia escravista prevalecente, à época, num império de “rabo preso” a essas elites resultou na formação de uma sociedade preconceituosa e de tal forma arraigada que, até hoje, em pleno século 21, produz cenas de insanidade, desumanidade e pouco democráticas contra sua imensa população negra.
Estima-se que algo próximo a 5 Milhões de homens, mulheres e crianças foram trazidos da África para o Brasil, como escravos, entre os séculos 16 e 19. Ora meu Deus, impossível pensar que essa população não se reproduzisse e formasse essa multidão, inclusive miscigenada, que provoca tantas controvérsias sociais no atualmente. Laurentino Gomes descreve na sua trilogia uma História apaixonante, dolorosa em certos capítulos, mas, vibrante em termos de registro. Para ele, “a Historia é um instrumento para construção de uma identidade e formação de cidadania”. Concordo. A formação da cidadania brasileira deve aos afrodescendentes suas mais sólidas bases e coloridas nuances. Respeitemos e honremos essa herança. Salve o Negro Brasileiro!

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Quebra Cabeça Brasileiro

É curioso como venho encontrando, cada vez mais, pessoas que se manifestam decididas a não acompanhar o noticiário da mídia nacional dizendo-se saturadas com as avalanches de notícias dramáticas, trágicas e assustadoras veiculadas. Pior ainda, já não querem mais, particularmente, tomar conhecimento dos episódios da vida politica nacional, quase sempre conturbada. Falo de pessoas de considerável nível social. Mesmo avaliando que o dia-a-dia do país – mergulhado numa grande crise sócio-politico-econômica – não possa gerar noticias amenas, como desejadas por todos, não deixa de ser curioso e perceber se tratar de um pensamento em dimensões coletivas. Diante dessa constatação, questiono se se trata de uma postura sadia ou prejudicial sob o ponto de vista social. Ora, numa democracia o que se espera é a sustentação social politizada e bem informada. Caso contrário, nunca haverá sucesso. Na esteira dessa manifestação preocupante, muitas dessas pessoas declaram não suportar Politica. “Não tolero esse mundo politico, não vou votar e, em indo à sessão eleitoral por obrigação, darei um voto nulo ou em branco”. Alguns arredondam a aversão acrescentando que “a Politica só faz atrapalhar a vida do país”. Bom, neste caso é, a meu ver, o extremo da desinformação. Historicamente Politica é parte basilar de uma sociedade. Hoje em dia, no Brasil, o individuo, logo ao nascer e por ocasião do registro civil, já recebe um número de Certificado de Pessoa Física, o popular CPF, que, na prática, já o introduz na vida politica do país. Dali em diante, todos já sabem o que acontece no que tange aos seus direitos e deveres. Não gostar de Politica, ou não acreditar no poder dela é a forma mais rápida de contribuir para a formação de uma sociedade capenga e uma Nação sem estrutura estável. Aliás, porque, ao contrário dessa já imensa parcela social, surgem os que gostam – mesmo sem ter a noção adequada – e terminam praticando a Politica oportunista, arbitrária e maléfica que, quase sempre levam ao caos e à miséria muitas sociedades. O resultado desse quebra-cabeça, no Brasil de agora, assusta e aponta para um estado confuso e inseguro politicamente, carente, por um lado, de uma rede de comunicações honesta e livre de falsas noticias (fake-news) e, por outro, de políticos cientes e comprometidos com as demandas sociais de uma Nação sofrida e saturada pelas instabilidades socioeconômicas provocadas por irresponsáveis postos no topo do Poder. Nota: Foto ilustração obtida no Google Imagens

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Vivendo no Aperto

Como se não bastassem os efeitos devastadores da pandemia no estado da saúde mundial, o panorama internacional está, inegavelmente, bagunçado. Estamos diante de verdadeira convulsão político-econômica global, em face das mal traçadas e maltratadas decisões politicas desta calamitosa safra de lideranças mundiais. Tudo faz, mesmo, crer que o vírus da Covid19 terminou mexendo severamente nas mentes humanas, incluindo as dos que decidem os destinos do planeta. São casos surpreendentes e, sobretudo, desanimadores. Recebi pelas redes sociais uma relação de fatos recentes que confirmam a tese: as peripécias e renuncia de um descabelado Boris Johnson no Reino Unido; a fúria de Putin sobre a Ucrânia; a queda da popularidade de Joe Biden e a inflação galopante nos Estados Unidos; a economia da Alemanha patinando na eminência dos cortes de fornecimento de gás da Rússia; a escassez de matérias primas no mercado internacional; estranho e inusitado assassinato de um prócer politico japonês, entre outros não menos importantes. Neste cenário nem precisa dizer que “o pau está quebrando na cabeça dos mais fracos”. A situação se rebate de modos diferentes e cobra pesado naqueles mais pobres e que menos mandam. Os preços de combustíveis dispararam no mundo inteiro; na Venezuela – já abatida após anos de desmando da governança esquerdista – a população já come lixo ou morre de fome; na vizinha Argentina a inflação passa dos incríveis 60% em doze meses; em vários países europeus os aeroviários fazem greves e instalam verdadeiros caos nos aeroportos, em plena temporada das férias de verão; crise de mão-de-obra (não sei como!) na China, além da falta de matérias-primas e por aí vai. E o Brasil não escapa. Claro. Além da inegável crise politico-institucional reinante neste “trem-fantasma” chamado Brasil, a população vê-se às voltas com as agruras da alta taxa de desemprego, o empobrecimento das famílias e o estresse coletivo gerado pela exacerbada polarização politica na campanha eleitoral do ano. Fora tudo isto, é óbvio, que a inflação – acima de 10% no ano passado – seja o maior motivo das noites mal dormidas do cidadão comum. Uma ida ao supermercado, nesses dias recentes, tem sido um exercício de paciência na seleção de produtos com preços mais acessíveis ou nas frequentes promoções de descontos. Há produtos que, de tão altos preços, são mantidos com embalagem de segurança para evitar ações de clientes mais espertos. O preço da carne, por exemplo, é um desses produtos. Ontem, numa loja de importante rede nacional, fiquei surpreso ao observar, que peças de filé mignon bovino ofertadas são embaladas com um dispositivo de segurança, tipo “pega-ladrão”, somente retirado após registro no caixa de check-out. Vide foto a seguir. Senti um misto de constrangimento e vergonha. Mas, que jeito?
Por acaso, tomei conhecimento hoje dos resultados de uma pesquisa do Instituto FBS Pesquisa, por encomenda da SulAmerica Seguros, dando conta de que a crise da pandemia da Covid-19 abateu de forma agressiva a vida de 63% das famílias brasileiras e que precisaram reduzir gastos drasticamente. Quase metade dos pesquisados garantem viver “apertados” financeiramente. Mais do que isto, constatou-se que aproximadamente 32% da população não dispõem de renda suficiente para cobrir os custos básicos de casa. Despesas inesperadas, nem pensar. Os empréstimos bancários são demandados por quase 40% dos entrevistados e 52% desses estão com pagamentos atrasados. Também pudera, com as taxas de juros e spreads nas alturas, não poderia ser diferente. Felizes estão os banqueiros que deitam e rolam em cima da miséria dos desafortunados. São dados são bem atuais. A pesquisa foi realizada em maio passado, com duas mil entrevistas, via remota, nos vinte e sete estados brasileiros. Tudo indica que o principal vilão principal da onda inflacionária no mundo vem sendo atribuído às altas do preço do petróleo, em meio a guerra da Ucrânia. Aqui no Brasil o problema se torna mais evidente devido a uma série de outros fatores específicos resumidos no conhecido jargão do Custo Brasil. Um deles que mais se destaca, na conjuntura, é a falta de investimentos na infraestrutura do país. Problema crucial. Depender quase que exclusivamente do modal rodoviário torna a estrutura de transporte de bens e simples mercadorias sempre onerosa. Num país continental como o nosso, devido a uma equivocada decisão politica do passado, esqueceu-se de criar uma rede de transporte ferroviário, tal como existe nas grandes nações, que prestassem serviços para troca de mercadorias, matérias primas leves e pesadas, grãos e, por fim, passageiros. Por outro lado, outro modal esquecido foi o do transporte marítimo e fluvial. Com uma costa atlântica de quase 7.500 km.e uma invejável rede de vias fluviais o Brasil explora muito pouco estas vantagens. Grandes portos com terminais alfandegados, situados estrategicamente, e portos distribuidores regionais, a serviço de florescentes empresas de cabotagem a coisa seria outra. Mas, isto pode ser assunto para outra ocasião. A preocupação maior agora é sair do aperto. Tomara que medidas de politicas acertados salvem os barcos à deriva. Nota: Foto ilustrativa da autoria do Blogueiro.

sábado, 16 de julho de 2022

Três Tropeços

O Brasil assistiu nos dias recentes três episódios degradantes que retratam, de modo cruel, uma sociedade deteriorada e, pior, com limitadas perspectivas de adequado progresso. Foram coisas que para mim representam três tropeços sociais de um país que vem deixando de dar atenção devida, ao longo de décadas, aos corretos e necessários programas de desenvolvimento social. Faltam providencias e investimentos para melhorias das áreas de educação, saúde, segurança, assistência social, cidadania, habitação, urbanismo e outros correlatos que possam garantir a existência de uma sociedade minimamente digna e justa. Crianças, jovens e idosos vêm, cada vez mais, sendo penalizados para viver. Melhor dizendo, sobreviver. O primeiro tropeço que listo é o caso da garotinha de 11 anos que grávida, após estupro, teve negado o direito de realizar o aborto, por uma incompetente magistrada de plantão. O caso teve repercussão nacional e terminou sendo revisto. O Ministério Público Federal (MPF) atuou de imediato e, com bases legais, a garota foi submetida à cirurgia de interrupção da gravidez. Hoje, ela se recupera do trauma, com apoio psicológico. Sou frontalmente contra o aborto. E já fiz recentemente matéria manifestando minha posição. Contudo, não deixo de lamentar um episódio dessa ordem e trazer à roda de discussão esse possível direito. Recuperar-se-á mesmo? Mais triste fiquei quando tomei conhecimento de que o estuprador teria sido um priminho da garota com 13 anos de idade. Mais do que isto, fiquei sabendo também que eram namoradinhos! Neste caso, o caso ganha nuances bem discutíveis: teria sido estupro mesmo? Ou foi algo consentido? Certamente que se deram ao prazer de se conhecer melhor! Simples e possível nestes tempos de agora. Naturalmente que se trata de duas crianças pouco orientadas ou acompanhadas pelos cuidados dos pais ou responsáveis. Examinando arquivos sobre o caso, na Internet, deparei-me com uma infinita lista de casos semelhantes. Cheguei à conclusão (parece que tardiamente) ser muito mais comum do que se imagina estes episódios, entre crianças e membros familiares resultando em casos de gravidez indesejada. Curioso que, entre muitos casos, me impressiona o recente da garota recifense, também de 11 anos, que procurou um hospital público, grávida de oito meses, para fazer um pré-natal. Ficou grávida de um irmão de 29 anos! E, neste caso, a gravidez é de alto risco e não pode ser interrompida devido ao estágio avançado da gestação. Um irmão e de 29 anos! Esse animal, para mim, só tem de gente os olhos. Um sujeito com essa idade, agredir uma irmãzinha de 11 anos e engravidá-la é definitivamente ignóbil. Por oportuno registro que, apesar de haver no Brasil uma legislação protetora, inserida no Código Penal (Lei 12.015/2009), para amparar as vitimas de abusos sexuais, grande parte destas resistem em denunciar os agressores, por motivos dos mais diversos, tais como medo, vergonha, pressão social, burocracia, “respeito” ao membro da família ou simples ignorância. É nessa hora que se percebe a falta de uma bem montada estrutura institucional social e uma justiça mais enérgica e punitiva exemplarmente.
Abusar sexualmente de vulneráveis parece ser tolice diante da mente doentia do médico anestesista estuprador, Giovanni Quintela Bezerra, no município de São João do Meriti, estado do Rio de Janeiro. Eis aí outro tropeço social inqualificável e revoltante. É inacreditável que um profissional de saúde, desse nível nobre e superior, tenha a coragem de estuprar uma paciente anestesiada e em plena mesa de cirurgia, inserindo seu órgão genital na boca da desacordada paciente dando vazão à sua fúria animal. Asqueroso, criminoso e bandido podem ser qualificativos ainda leves para classificar um indivíduo dessa índole. Presume-se que o criminoso usava de medicamento excessivo e desnecessário para atuar de modo “tranquilo e relaxante”. A Polícia já identifica pelo menos 30 mulheres como vitimas. Preso e incomunicável o “médico” está sujeito a severas penas e obviamente cassação dos direitos profissionais. Qualquer pena estipulada ainda será pouco. O terceiro tropeço que reporto é aquele ocorrido em Foz do Iguaçu (oeste do estado do Paraná), onde, dois antidemocráticos militantes da atual campanha polarizada à presidência da Republica, travaram um duelo exacerbado, resultando na morte de um e outro ferido gravemente. O bolsonarista tresloucado provocou e o lulista reagiu, terminando por dar uma amostra da imaturidade politica que se reproduz neste país dividido politicamente. Assusta, naturalmente, porque a campanha de fato não foi deflagrada. Medidas mais severas devem ser tomadas pelas autoridades competentes para evitar outros derramamentos de sangue. Lamentavelmente, é numa dessas horas que se percebe quão verde é a democracia do país. Teremos muito que trilhar para alcançar a maturidade. Tomara que, de tropeço em tropeço, sejamos um dia o tal país do futuro conforme prometido pelos nossos ancestrais. NOTA: Foto obtida no Google Imagens

terça-feira, 12 de julho de 2022

Rio Maravilha

Há locais que, quando chego, sinto a sensação de estar em casa. O Rio de Janeiro é um desses. Estive por lá, esses dias recentes, cumprindo um compromisso social familiar, ocasião em que, por oportuno, aproveitei para rever espaços e locais por onde vivi momentos memoráveis do passado, principalmente, da minha juventude dourada e onde aprendi a sentir o Brasil de raiz. A chamada Cidade Maravilhosa (para muitos, nos dias de hoje, Cidade Perigosa) continua sendo, indiscutivelmente, a mais linda do planeta. À proposito, essa classificação deixou-me com dúvidas durante muito tempo. Mas, depois de percorrer outras inúmeras paragens nos quatro cantos do mundo, não alimento mais qualquer dúvida. Ocorre, também, que o Rio tem uma magia especial e própria do local. Acredito que sejam o quadro natural, o colorido do mar e das matas, as montanhas que o emolduram e o povo ajudam de modo definitivo. Reina sempre um clima de festa. A gente que vive por lá parece saber melhor celebrar a vida. É um quê muitas vezes inexplicável e curioso. Dessa vez fiz questão de ficar hospedado em Copacabana. Por ali, consegui rememorar a efervescência da vida carioca. Na primeira oportunidade corri para o calçadão, à beira mar, e, como tantos outros, dei uma “manera” caminhada, respirando o ar do mar, sem máscara destes tempos abomináveis de pandemia, observando o comportamento daquela sociedade que não deixa a “peteca cair” e toca pra frente uma vida como merece ser vivida. Louras, morenas, jovens e velhas, corpos apolíneos ou ex-isto, brancos e negros, crianças, cadeirantes, enchem o calçadão no horário matinal do sábado, todos a caráter, como numa cena preparada para ser exibida aos meus olhos e na forma que desejei. Ah! Meu Rio de Janeiro, como me faz bem te rever. Quanta coisa boa me fazes recordar. A Copacabana de hoje difere bastante dos dias da minha juventude. Antes não havia o calçadão. Um grande aterro foi construído nos anos 70 e uma nova cara foi dada ao bairro mais famoso do Brasil. No passado, a Avenida Atlântica tinha apenas duas faixas de rolamento. Horas do dia, conforme o rush, invertia o sentido. O que existe hoje, uma vasta extensão de praia, abriga uma miscelânea de atividades que resume o espirito carioca: bares, restaurantes, ambulantes, feira de badulaques e souvenires, artistas em plena atividade, entre outros. Não agrada a muitos. É verdade. Mas, está tudo lá fazendo a festa.
O Rio, porém, não se resume à Copacabana, claro. Por sorte tive tempo de “baixar” em outros pontos tão importantes quanto os da área praieira. Fui, inclusive, ao bairro boêmio da Lapa, levado pelo meu filho digital-influencer numa das suas coberturas. O antigo bas-fond carioca é atualmente um local divertido, colorido e cheio de atrações. Vale à pena ser visitado. Bares e restaurantes, sambões e boates para todos os gostos fazem da noite carioca aquilo que o público nativo ou visitante procura. Estivemos num dos mais movimentados, o Carioca da Gema, onde uma parcela da bateria da Mangueira se apresentava e levantava a clientela na noite de uma quinta-feira. Fomos recebidos pelos donos do pedaço e, sem dúvida, foi bem divertido. Um capitulo à parte da cidade do Rio de Janeiro está no item da gastronomia. Come-se muito bem naquela cidade. Os cardápios são dos mais variados e para todas as exigências e desejos. Dos mais simples aos mais sofisticados. Mas, indo lá, prepare a carteira. As coisas não são nada em conta. Aliás, nem vou citar nomes para não cometer uma falta. Como pobre gastei mais do que devia. Mas, não tem dinheiro que pague um prazer fora do programa e de surpresa. Sim, porque cada vez que solicitei “passar a régua de uma conta” vinha uma surpresa. Não vou esquecer-me do quanto custou um café expresso, no Forte de Copacabana. Paguei. Claro! Mas, paguei certo que me cobraram a vista panorâmica de Copacabana no fim de tarde. Deslumbrante, tudo bem. Valeu Colombo!
Para não deixar de falar de insegurança, como é comum em qualquer local do Brasil de hoje, devo dizer que circulei, com minha família e em inúmeros pontos da cidade, com razoável tranquilidade e observei que a policia local está sempre alerta e de prontidão com guarnições motorizadas. Naturalmente que por onde estivemos a situação não oferece tantos perigos, mas, pergunto: onde se circula com segurança total, aqui no Recife? Ou em São Paulo? O Rio de Janeiro seria exceção? Salve o Rio! Sempre a Cidade Maravilhosa. NOTA:1)Fotos da autoria do Blogueiro. 2) Não deixe de ler na Coluna á direita a janela Para sua Reflexão

A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...