segunda-feira, 28 de abril de 2008

SOCORRO! QUEREM IMPLODIR O CRISTO REDENTOR

“Estou com raiva do Cristo desde que ele foi eleito uma das sete maravilhas do mundo. Foi um absurdo. A estátua não tem nenhum valor artístico. Seria maravilhoso implodir aquele bagulho, um espetáculo.” São palavras do ator Paulo César Pereio, numa entrevista a revista Veja, desta semana (Veja de 30.04.08, p. 48). Incrédulo, li na entrevista que o sujeito resolveu lançar uma campanha para implodir o Cristo Redentor. Dizendo-se ateu, pessoa paradoxal e ex-comunista, justifica-se dizendo que o monumento enfeia a paisagem carioca. Êita lapa de doido!
Fico pensando como uma coisa tresloucada dessas pode acontecer. Ah! Tenha paciência, esse cara quer aparecer. Vai ver está sem trabalho nos palcos e no cinema. Isto, aliás, é bem provável porque, com aquela cara de desequilibrado, deve ter diretor correndo dele.
Indiscutivelmente, o Cristo é um ícone do Rio de Janeiro e do Brasil. Sinto imenso prazer ao vê-lo estampado em propagandas turísticas por onde ando mundo afora. Ele está para o Brasil, como a Torre Eiffel para Paris, as esculturas de Michelangelo para a Itália e a Estatua da liberdade para Nova York. Ou seja, é a nossa marca!
Esta coisa maluca me faz lembrar incríveis episódios de ataques a famosas obras de arte espalhadas pelo mundo, particularmente na Europa, igualmente ícones de seus respectivos países.
Pessoas, geralmente turistas estrangeiros, são atacadas pelas síndromes de Stendhal e Davi, que provoca confusão mental e alucinações e traz transtornos psíquicos latentes, especialmente diante de obras do renascimento italiano.
Psicologicamente transtornado e sentindo-se humilhado pela perfeição e beleza anatômica do Davi de Micheangelo, exposto em Florença, Pietro Cannata (imagino o traste) danificou a obra com marteladas certeiras, no ano de 1991.
Outra obra de Michelangelo, a Pietá, foi atacada em 1972, pelo louco geólogo Laszio Toth (parece que húngaro) que entrou na Basílica de São Pedro, em Roma, e com machadadas danificou a obra, gritando “Eu sou Jesus Cristo”. Hoje, a Pietá é protegida, dentro de uma capela, por um vidro blindado e é mantida a distancia dos loucos. Em 1969, quando estive pela primeira vez em Roma, quase pude tocar a imagem. Ela ficava ao alcance de qualquer visitante.
Mas, não são apenas as esculturas os alvos dos loucos soltos pelo mundo afora. A Mona Lisa, o mais famoso quadro de Leonardo da Vinci, de 1503, pertencente ao acervo do Museu do Louvre, em Paris, foi alvo de dois ataques, no ano de 1956: no primeiro, um anônimo lançou ácido danificando a parte inferior da tela, logo recuperada. No mesmo ano, no dia 30 de dezembro, um turista estudante boliviano lançou uma pedrada arrancando parte da pintura, que é sobre madeira de álamo. O débil mental foi preso e levado para uma prisão psiquiátrica. Depois disso o quadro é protegido por uma placa de vidro blindado.
O quadro mais agredido, contudo, foi a Ronda Noturna de Rembrandt (1642) pertencente ao Rijksmuseum de Amsterdã (Holanda). Gosto demais desse pintor e deste quadro em particular, que considero a sua mais importante obra. Em 1915, um sapateiro desempregado riscou a tela, que é imensa e ocupa um único salão do Museu, causando leves danos. Em 1975, um desconhecido desferiu 13 facadas na tela, algumas com 80 cm. E 1990, um holandês jogou ácido sulfúrico sobre a obra. Depois dessas ações desatinadas a Ronda Noturna, devidamente recuperada, só pode ser vista a distancia e a salvo dos pereios da vida.
É impressionante o número de débeis mentais espalhados pelo planeta, destruindo obras de arte.
Claro que outros episódios podem ser lembrados, como o que ocorreu, final do século passado, quando os Talibãs destruíram as maiores estátuas de Buda que havia no mundo, uma delas com 53 metros de altura, esculpidas nas montanhas do Afeganistão. O motivo apresentado por eles, que são islâmicos radicais, era de que aquelas imagens históricas contrariavam sua religião. É, na verdadeira expressão da palavra, uma barbaridade! E, haja barbaridades, soltas por aí...
Essa idéia maluca do Paulo César Pereio deve ser repudiada pela sociedade brasileira. O Cristo Redentor, embora nem se compare com as obras antes citadas, é nosso ícone maior. É, sim, uma maravilha do mundo moderno e tem que ser preservada e protegida. Salvemos o Cristo da “sanha pereiana”.
Da minha parte, garanto que nunca mais vou pagar para assistir um filme ou uma peça de teatro cujo protagonista, ou mesmo coadjuvante, seja esse ator desmiolado. Pode ser uma retaliação tola, mas me tranqüiliza.

Nota: Fotos obtidas no Google Imagens.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

NOME PRÓPRIO OU IMPRÓPRIO? EIS A QUESTÃO.

“Wellington, o marceneiro, se encontra?” “Não, Senhor. Ele saiu e só volta mais tarde”. Perguntei se ele tinha celular? “Tem sim, Senhor”, respondeu a mocinha, entregando-me um cartão dos irmãos marceneiros, no qual encontrei, com letras em negrito: Uélito e Uoxinto, marceneiros competentes, endereço, telefone, etc. e tal.
Fiquei pasmo com aquele horror de grafia. Vejam só: Uélito e Uoxinto!
Sempre fui muito ligado nessa discussão de nome próprio. A razão é simples: quem tem o nome próprio Girley, tem pela frente inúmeras dificuldades a administrar. Ora é chamado de Gírley, depois por Shirley, Gisley, Girleno e outras formas estranhas. Nos países de língua espanhola a coisa se dana, porque G tem som de R e por isso eu viro Rirley ou Rírley. Complicado até de pronunciar. Em inglês é pior, vira Guerlí ou coisa parecida. Nesses casos prefiro usar o nome Antonio, meu segundo nome próprio.
Canso de receber correspondências com o tratamento de Ilma. Sra. e Prezada Amiga. Já pensou que situação? Ou então, toca o telefone e pedem para falar com a Senhora Shirley, Girley ou Gírley! Minha secretária fica em desespero e a empregada, em casa, nem se fala.
Sempre questionei minha mãe por haver me dado este nome raro e problemático. Ela me dizia achar lindo. Tem jeito uma coisa dessas? Lindo, é demais! Minha falecida mãe era uma pessoa de bom gosto, mas, com 17 anos, ao me trazer ao mundo, foi na onda da minha avó paterna e me arranjou essa beleza de nome. Pois é, minha avozinha – que Deus a tenha num bom lugar – tinha mania de colocar nomes estranhos e longos nos filhos. Não sei bem a razão. Pelas loucuras dos nomes que colocou nos filhos acho mesmo, que a pobre coitada passava por distúrbio puerperal, ao qual dei um nome vulgar de “síndrome da sopa de letrinhas”. O meu pai recebeu no registro de nascimento o singelo nome de Gueythysymayny. Os irmãos receberam os graciosos nomes de: Gylwalraydy, Gueyfryryldy, Galwestony, Guethywoney, Gylglaskony, Gueythyraydy e Gueythycheyny. É verdade! E, acredite se quiser. Esses pobres coitados, portadores desses desatinados nomes sofreram e protestaram, a vida inteira, esses nomes (im)próprios. Meu pai só faltava morrer de raiva. Nunca o nome dele era grafado corretamente e isso se transformava num calvário para consertar, sobretudo, nos documentos oficiais.
Ah! o mais curioso é que nenhum era conhecido pelo nome impróprio. Todos receberam apelidos, os mais jocosos possíveis. Meu pai era Yôyô. Ridículo. Não combinava com ele. Os demais eram: Xôxo, Marumbo, Pituca, Voninho, Chenita, Guetinha, Radinho e vai por aí... Imagine só: "vem cá Xôxo" ou "Sai pra lá Xôxo, agora é Yôyô". Sei não...
O pior é que minha mãe me dizia que o meu nome devia ter sido Fernando Antonio. Ficou Girley Antonio. Minha avó exigiu um nome com a letra G, tradição na família, e queria me dar um nome parecido com os dos meus tios. Vôte! Menos ruim, este Girley.
Mas, deixo claro, que este era o único defeito da minha avó. Era uma pessoa adorável e carinhosa, sobretudo com os netinhos. Morreu muito moça, ainda, com pouco mais de 60 anos. Deixou saudades. Não pelos nomes que deu aos filhos e alguns netos, mas pelos gestos e bondades. O convite para a missa de Sétimo Dia, publicado na imprensa foi uma sensação, pelos nomes estranbólicos, dos filhos que convidavam. Teve gente que foi a missa, na Igreja do Carmo, só para ver essa gente “estrangeira”. Aliás, todos com o sobrenome de Brasileiro. Inacreditável.
Pois é. Essa coisa de nome próprio é muito séria. Os pais deviam ser mais cuidadosos. Um nome impróprio pode mesmo complicar a vida de um cidadão. É preciso ter cabeça no lugar para administrar essas coisas.
Quando, a cada ano, sai a lista dos aprovados no vestibular, corro para ver as maluquices. Já vi coisas estranhas como: Yereschelein, Crayton, Tairone Pover, Geliadson, Gredson e Gleybson. Estes três últimos, vai ver, são meus parentes. Ah! Já vi Gisley! Que coisa mais louca, meu Deus.
Mas, a mais estarrecedora foi ver na primeira página do sangrento jornal Folha de Pernambuco, uma noticia com foto e tudo e a legenda: “José Girley foi morto com um tiro na cara”. Meu Deus, quanta gozação, naquele dia.
Se, por um lado, o nome próprio pode criar problemas, outra coisa muito séria é a do sobrenome. Alguns são impossíveis de se administrar. Imagine o cidadão ter o sobrenome de Rola. No Ceará tem uma família com este nome. Comerciantes famosos, donos da Casa Rola. Eu soube, não sei se é verdade ou piada, que nessa família tem duas senhoras que respondem pelos nomes de Imaculada e Benvinda. Espero que não tenha nenhum Jacinto. Sinceramente, se for verdade, esses pais deveriam receber ordem de prisão, no Cartório de Registro Civil.
Ocorre-me lembrar um outro caso incrível: tive que apresentar um conferencista num seminário técnico de metal-mecânica, que coordenei, no Recife, na década de 90. Ao receber o cartão do cidadão, fiquei pasmo com o nome do cara: Waldir Fodra. Meio encabulado perguntei como deveria apresentá-lo ao publico e depois à imprensa. Ele disse, bem sério, Waldir Fodra. Digamos, com licença da palavra, que foi “fodra” fazer aquela apresentação. Nem preciso relatar a reação da platéia.
Para terminar, não posso deixar de relatar o caso mais traumático que vivi, por conta dessa coisa de nome impróprio. Há 30 anos, conheci, em São Paulo, a mãe de uma amiga, judia alemã, que se chamava Erda. Imediatamente, associei a palavra (m)Erda. Impossível não acontecer. Depois de algum tempo voltei a encontrar a dita senhora e, confiante na minha memória e associação antes feita, cometi a maior gafe da minha vida: chamei-a de D. (b)Osta. Nunca mais quis ver essas pessoas.
Por conta de tudo isto, já pensei em liderar um movimento nacional criando uma Sociedade dos Portadores de Nomes Impróprios – SPNI. O inverso de INPS! O objetivo seria orientar os pais para não serem acometidos pela síndrome da sopa de letrinhas ou pela mania de exotismo do nome (im)próprio. Além disso, essa Sociedade iria coletar assinaturas para apresentar um projeto popular ao Congresso Nacional que facultasse ao cidadão – de modo mais simples e sem ônus – a escolha de um novo nome, após completar a idade da razão.

Foto colhida no Google Imagens.

domingo, 13 de abril de 2008

MERCI BEUACOUP, NAPOLEÃO.

Este mundo dá muitas voltas. Ai de nós, se não fosse assim. Verdades de hoje, podem não ser amanhã. Imagens manchadas, no passado, tornam-se imaculadas depois.
Tenho acompanhado, nesses últimos meses, a recuperação da imagem de D. João VI, que reinou no Brasil, há duzentos anos.
Todo mundo lembra bem desse personagem da nossa história, mostrado sempre de forma patética e, até mesmo, grotesca.
Agora, porém, alguma justiça começa a ser feita e a primeira conclusão é que houve um forte exagero e muito folclore. Recentes debates e publicações sobre os duzentos anos da chegada da Família Real portuguesa ao Brasil, melhor fundamentados, dão conta de uma história mais digna ao monarca que, sem dúvidas, mudou o Brasil.
Tive a curiosidade de ler a obra de Laurentino Gomes, intitulada “1808”, primeiro lugar entre as mais vendidas, no seu gênero.
Numa linguagem leve e moderna, a figura de D. João VI é mostrada de forma mais correta. Segundo Gomes, o homem não era tão idiota como mostrado na TV ou pelo filme de Carla Camurati, embora não chegasse a ser um grande exemplo de monarca ou chefe de estado.
D. João VI chegou ao poder de uma forma indesejada: a principio ocupando o lugar de herdeiro, devido à morte do irmão mais velho e depois, assumindo o posto de Príncipe Regente no lugar da mãe, Dona Maria, a Louca. Aguardou a morte dela, para, enfim, ser coroado Rei do Reino Unido do Brasil e Portugal, em 1816.
Foram muitas agruras na vida desse homem, que sem querer e sem ter vocação, tornou-se um monarca movido a espasmos de governante, que, de um modo ou de outro, terminaram dando certo.
Casado com a espanhola Carlota Joaquina, causadora de inúmeras dificuldades, inclusive políticas, D. João comeu do “pão que o diabo amassou”. Tanto ela, como a Rainha Mãe, foram, na prática, “duas cruzes” carregadas por D. João, à vida inteira. Duas loucas numa porta só. Uma já é ruim e não tem quem agüente. Imagine duas!
Doidas à parte, vou lembrar dos feitos e das vantagens, para o Brasil, resultantes das decisões desse nosso Rei.
Ninguém podia imaginar, naquela época, o que poderia acontecer à Família Real e ao reino de Portugal, depois daquela fuga açodada, no dia 29 de novembro de 1807. As tropas de Napoleão ainda avistaram as embarcações, zarpando do cais de Belém, em Lisboa, rumo ao Atlântico e com destino à Colônia do Brasil. Chegariam ao destino? Voltariam algum dia? O que seria daquele reino, dali em diante?
Com muitos percalços, a comitiva Real encostou no Brasil após mais de três meses navegando em condições sanitárias deploráveis, além das situações adversas e inseguras, num tempo em que os meios de comunicação eram mais do que rudimentares. A Inglaterra, a rainha dos mares, à época, tradicional aliada de Portugal, escoltou a esquadra Real e garantiu a chegada ao seu destino.
A Colônia não passava de celeiro do reino de Portugal. Ouro, pedras preciosas, madeira de lei, açúcar, entre outros poucos itens eram levados para comercialização na Europa e sustentavam um Portugal combalido e cada vez mais decadente. A cartada final estava nas mãos de Napoleão Bonaparte, que naquela ocasião invadia todos os paises europeus e ampliava seu Império de forma nunca vista. Ao ser coroado na Notre Dame, em Paris (02/12/1804), o sujeito foi considerado “o mais poderoso sopro de vida humana sobre a face da Terra”.
O Rio de Janeiro, onde D. João se estabeleceu, era uma cidade com aproximadamente 60 mil habitantes, vivendo em condições subnormais, sem qualquer estrutura urbana. Um verdadeiro caos. Na intenção de transformar o Brasil na sede do Reino, o Regente D. João, tinha que mudar esse quadro e assim procedeu. Desde os primeiros momentos, ainda na sua parada em Salvador, começou a por em prática uma série de mudanças que transformariam, completamente, os padrões geo-políticos e sócio-econômico da, até então, subjugada Colônia do Brasil. Abriu os portos às nações amigas, criou um curso de medicina – a medicina era, naquela época, exercida por barbeiros e curiosos – outros de técnicas agrícolas, um laboratório de estudos e analises químicas, a Academia Real Militar, que ensinava Engenharia Civil e Mineração, fundou a imprensa nacional e o primeiro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional, criou, ainda, o Jardim Botânico, o Real Teatro de São João (hoje João Caetano), o Banco do Brasil, liberou e incentivou as atividades comerciais e industriais, que eram proibidas, construiu as primeiras estradas do país e tratou de expandir e fixar as fronteiras do país. Para completar ainda mandou vir da França uma plêiade de artistas para criar um ambiente europeu nesse reino tropicalista. São famosas, por exemplo, as obras de Debret e Taunay.
Coube a D. João, portanto, o importante papel de dar uma forma digna à antiga Colônia, para adequá-la às condições exigidas para sede do seu Reino. Em suma, o Brasil saiu da condição de colônia subjugada e alçou vôo que, depois, o levou à independência, em 1822, pelas mãos do herdeiro de D. João, o principe D. Pedro.
Mas, pensando direitinho, eu acho que isso tudo se deve mesmo é a Napoleão Bonaparte. Claro! Se ele não tivesse investido contra Portugal, essa família real teria, certamente, ficado por lá, depredando a Colônia do Brasil, até que esta se transformasse num grande “barril de pólvora” explodindo na forma de inúmeras republiquetas, como ocorreu na América espanhola, amargando maiores problemas do que os que hoje administramos. Não é mesmo?
Se essa minha tese ganhar fôlego, vamos ficar devendo homenagens ao Bonaparte, além da rede pernambucana de fast-food. Avenidas, estátuas, praças... sei lá, o que mais.
Por isso, por via das dúvidas, pelas voltas que o mundo dá e por enquanto, Merci Beuacuop Napoleão!

NOTA: Fotos obtidas no Google Imagens: em cima, o feio D. João VI e, abaixo, Napoleão, que era feio também, mas tinha um belo e famoso cavalo branco.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O PORTAL DA AMAZONIA

Este país é mesmo fabuloso. Quanto mais se anda, mais beleza se encontra. Semana passada estive, numa missão de trabalho, por dois dias, na bela capital do Pará, a cidade de Belém. Não foi minha primeira visita a capital marajoara. Já andei por lá várias vezes, desde a década de 70. Ao longo desse período, venho observando as mudanças, para melhor, é claro, daquela que é a metrópole do Norte.
A cidade recebe o visitante de “braços abertos” com sua atmosfera amazônica, o que a torna diferente de qualquer outra localidade brasileira. Não tarda muito e o visitante se depara com um verdadeiro paraíso aquático devido sua localização numa confluência de vários rios, quase boca do grande Amazonas. O luxuriante verde domina a cidade e ao percorrê-la o forasteiro é inevitavelmente envolvido pela seiva reinante da maior floresta do planeta, que naquele sitio já domina o ambiente. Belém é, na pratica, um Portal da Amazônia.
“Estas mangueiras doutor, no mês de dezembro, ficam carregadas de frutos deixando a cidade repleta de verdadeiras árvores de natal. É lindo doutor!”, comentou o motorista – excelente exemplo da hospitalidade paraense – que, durante dois dias, me conduziu pela cidade. Pude imaginar o que ele me dizia, porque isto foi uma coisa que sempre me chamou a atenção, em Belém. É impressionante a quantidade dessas fruteiras, naquela cidade. Aliás, Belém é também conhecida com a cidade das mangueiras. Seu maior estádio desportivo se chama Mangueirão.
Nesta época do ano chove muito na região. Aliás, como é amplamente sabido, chove todo santo dia, depois do meio-dia. É muito engraçado. Tradicionalmente, o povo local já pauta sua programação diária considerando dois momentos: antes ou depois da chuva. A chuva só dá uma trégua no mês de julho, que é a grande temporada de verão. A cidade praticamente pára nesse mês. As famílias correm para o litoral e curte a praia do Mosqueiro, próxima a foz do Amazonas.
Cidade muito antiga, Belém tem um conjunto arquitetônico colonial dos mais belos e bem preservados do país. A parte histórica da cidade é um verdadeiro presente para os olhos do turista. A Praça da Sé, com a própria igreja cadetral, compreende ainda a Igreja de Santo Alexandre, com o Museu de Arte Sacra e sua fantástica coleção de imagens, se constituindo numa das maiores atrações da cidade. Na mesma praça dois outros pontos turísticos completam o cenário: o Forte do Castelo e o Sobrado das 11 Janelas. No sobrado encontra-se um movimentado bar e restaurante, uma franquia do Boteco do Recife. Sem dúvidas o mais belo da rede. A comida nem se fala. Já o Forte merece ser percorrido e visitado, onde, também, se encontra outro museu.
Bem próximo da Sé, outra praça se destaca com dois prédios magníficos: o Museu do Estado (1771) e a Prefeitura da Cidade, este uma réplica do Museu Imperial de Petrópolis. São duas belas construções. À noite, com a iluminação turística, enchem a vista do visitante.
Mas, não fica por aí. A caminho da Praça da Sé, está o tradicional mercado do Ver o Peso, festejando, durante minha passagem pela cidade, 372 anos de existência. É lá que o turista encontra todo tipo de ervas e garrafadas, frutos da sabedoria e ciência indígena da Amazônia e que, segundo eles, curam todo tipo de dor, mal-estar, impotência e frigidez, mazelas, mandingas e outros bichos. Ah! Tem, também, sabonete para chamar dinheiro, mulher ou homem. Pó para afastar olho grande, azar e urucubaca. Mas, bom mesmo é conversar com o vendedor. Divertidíssimo. Atração turística imperdível. É lá que se encontra o melhor do artesanato da região. Mas, atenção, os locais recomendam segurar a carteira. Nada de mais, já que Belém é Brasil.
Como as atrações não param, é importante dar uma passada no Complexo Turístico das Docas. O antigo Porto de Belém foi transformado num dos mais belos equipamentos turísticos do Brasil. Um water-front de causar inveja a qualquer outro do gênero, no mundo. Sinceramente, no mesmo padrão de Puerto Madero, Píer 17 ou Bay Side. Dá gosto e orgulho ver aquele negócio. Uma jogada de mestre! E, estando lá, a melhor pedida é degustar uma cerveja com sabor de bacuri (uma fruta exótica da região), tirando o gosto com uma lingüiça fininha, de metro. Comece com um metro e tente parar, se for capaz.
Uma passada no Teatro da Paz, na Praça da Republica, dá testemunho do importante movimento cultural da cidade. Belo e imponente teve sua arquitetura inspirada na Ópera de Paris.
No meio disso tudo, não se pode deixar de parar, aqui ou acolá, para mergulhos na gastronomia local. Exótica e saborosa faz com que o paraense, como poucos, conquiste o visitante pela boca. Difícil é eleger o que é mais gostoso. Tacacá, pato no tucupi, risoto de camarão ao jambu, tucunaré, pirarucu e filhote, maniçoba e outros mais. Os doces de cupuaçu – meu predileto – e bacuri. Açaí na tigela. Supremos. Tem uma versão de bolo de rolo, com cupuaçu, ao invés de goiaba, que é sensacional. Até hoje sinto o gosto. No restaurante da belíssima reserva ecológica do Mangal das Garças, come-se tudo isto. E, se o freguês não tiver vergonha, come ajoelhado. Detalhe: sempre tem muita gente por lá. É imperdível, também.
E como não poderia deixar de ser, estando em Belém, tem-se a obrigação de cumprimentar a Dona do pedaço, a Virgem de Nazaré, na magnífica catedral, no bairro de Nazaré. Belíssima igreja de estilo renascentista e ponto obrigatório de visita. Crentes de todas as religiões andam por lá.
O mais intrigante é que uma cidade tão bem preparada para receber o turista não consta ainda – o que é lamentável – entre os destinos mais procurados pelos brasileiros.
Belém está pronta para receber o mais exigente dos turistas. Entre na Amazônia pelo seu Portal.

Nota: Fotos obtidas no Google Imagens

terça-feira, 25 de março de 2008

DOIS DESAFIOS PARA UM BRASIL

Dois assuntos me ocorrem comentar nesta ocasião. Ambos de fundamental importância para o futuro sócio-econômico do País.
O primeiro diz respeito a atual política social assistencialista praticada pelo Governo Brasileiro, ao distribuir renda através do programa Bolsa Família, que reúne sob um “guarda-chuva”, os anteriores Bolsa Escola, Auxilio-Gás, Bolsa Alimentação e Cartão Alimentação. Lula juntou tudo através de uma Medida Provisória, que virou a Lei No. 2.836, de 09.01.2004, sob a égide do Fome Zero.
Lembro que, desde o primeiro momento, aplaudi o Bolsa Escola, de FHC, à medida que, promovendo a manutenção de crianças numa escola de ensino básico, tirava, da rua e do trabalho forçado, contingentes de menores, muitos com menos de 10 anos de idade.
O Bolsa Família assiste dois tipos de família: a primeira, que vive em extrema pobreza e a ela é garantido um fixo de R$ 50,00, mais um móvel de R$ 15,00, por filho na escola, limitado ao número de três, perfazendo, assim, um total de R$ 95,00 e, a segunda, que tem renda per capita mensal inferior a R$ 100,00, com crianças em idade escolar (6 a 15 anos) e garanta que essas crianças estejam freqüentando uma escola, para a qual é concedida uma ajuda de R$ 15,00 por criança estudando, com o limite, também, de R$ 45,00, isto é, três crianças por família.
De fato, com essa injeção de renda, muitas crianças saíram da rua ou do trabalho forçado, na roça ou na cidade, e recebem uma formação escolar básica. Isto é uma indiscutível vitória. O valor doado, per capita, pode parecer pouco, mas o que mais surpreende é que, segundo apurado, essas crianças ganhavam nos biscates ou trabalhos forçados, de antes, qualquer coisa a menos. Coitadas, eram duplamente exploradas: cassadas do direito de cidadania, conferida pela educação, e ganhando recompensas financeiras aviltadas.
Se por um lado, esses programas assistencialistas têm méritos indiscutíveis e marcam administrações voltadas para o social, por outro lado apontam para situações cruciais para qualquer futuro governante.
Pesquisas e avaliações mostram que os condicionantes para a concessão ou manutenção da Bolsa Família, têm se revelado ainda insuficiente para a formação, a longo prazo, de um cidadão economicamente independente. Eric Maskin, Nobel de Economia, em entrevista a Veja desta semana, faz um alerta para os riscos desse tipo de assistencialismo.
Ocorre que, se essa bolsa pode ser pouco para ajudar no sustento de uma família numa cidade como o Recife, é suficiente para a manutenção de uma família na área rural. Com essa quantia no bolso e sua roçinha particular de subsistência, o cidadão do interior passa muito bem obrigado, ao ponto de não buscar emprego – que começa a sobrar – fazendo, digamos, “corpo mole” para não perder o beneficio do Bolsa Família. É isto, exatamente, que vem acontecendo nas regiões do Agreste e Sertão do São Francisco de Pernambuco, onde empresários se ressentem da falta de mão-de-obra.
Dias atrás, ouvi falar numa modificação quanto à limitação do tempo de concessão da Bolsa. Não conheço, ainda, os detalhes. Mas, é preciso que isto aconteça. Caso contrário vamos formar uma sociedade viciada na dependência – na prática, parasita – num caminho de difícil retorno. O governante que ousar rever ou acabar com o Programa, vai provocar uma explosão de protestos, sem precedentes e socialmente perigoso. Eis aí um desafio colossal.


Mudando para o segundo assunto, refiro-me a outro tema divulgado na Veja desta semana, que expõe, de modo lamentável, a ausência de cientistas ou pesquisadores nas empresas privadas brasileiras. A Universidade de Brasília - UNB publicou um interessante dado sobre o assunto. A maior parte dos cientistas dos paises ricos trabalha nas empresas privadas. No Brasil, é o inverso. Eles se fecham, na maior parte, nas Universidades Federais e são mantidos com dinheiro público.
Há muito tempo ouço falar das dificuldades que são enfrentadas pelos que tentam construir uma relação Universidade-Empresa. As entidades disso encarregadas estão sempre às voltas com obstáculos muitas vezes intransponíveis. Na prática, existe uma cultura difícil de ser mudada. Pesquisadores acomodados enclausuram-se nos laboratórios das universidades, vibram com suas descobertas e deixam de socializá-las ou vendê-las no mercado, perdendo as chances de se projetar profissionalmente e contribuir para o progresso do país.
Ao mesmo tempo, empresários sem a devida sensibilidade de criar, nas respectivas empresas, departamentos de pesquisa e inovação, deixam de contratar especialistas para ampliar as chances de melhoria ou diversificação da produção, descobrimento de novos produtos e aumento da competitividade, num mundo cada vez mais exigente.
Fecha-se, portanto, um círculo vicioso, cujo resultado é um imenso prejuízo para o desenvolvimento do país.
Ilustrando a coisa, destaco alguns dados da citada pesquisa da UNB: 80% dos cientistas norte-americanos trabalham nas empresas privadas. No Brasil este percentual é de somente 27%. Lá, apenas 13% se encontram nas Universidades. Aqui, o percentual é de 66%. Muito alto. Estes cientistas têm que sair da clausura dos laboratórios acadêmicos e ganhar o mundo empresarial, dando uma chance ao pragmatismo.
Países que antes sofriam dessa paralisia acadêmica, reagem e se mostram mais atentos ao problema. A Coréia do Sul, por exemplo, já ostenta percentuais bem próximos aos dos Estados Unidos. Lá, segundo a mesma UNB, são 77% dos cientistas atuando nas empresas e apenas 16% nas academias. Vá conferir o progresso dos sul-coreanos.
Eis aí, dois desafios para o Brasil. Aguardemos o que vai acontecer.
Nota: As fotos foram obtidas no Google Imagens

terça-feira, 18 de março de 2008

Origens de uma Paixão

Todo ano é a mesma coisa. Quando chega a Semana Santa e abre-se a temporada das paixões de Cristo, em Pernambuco, multiplicam-se as noticias e crônicas sobre esta ou aquela produção, particularmente sobre o pioneiro espetáculo de Fazenda Nova, no considerado maior teatro ao ar livre do mundo, em Nova Jerusalém.
Neste caso, as versões têm tido, na minha opinião, altos e baixos.
Nesses baixos, os cronistas terminam por negar ou, apenas, citam en passant, o nome de Epaminondas Mendonça, como idealizador, escamoteando passagens da rica historia, uma verdadeira saga, do Clã dos Mendonça, ao qual pertenço, com muito orgulho.
Falo de uma história que não pode ser negada à sociedade pernambucana.
Sofro ao ver, paulatinamente, ser apagado dos registros da mídia, a original história do espetáculo de Fazenda Nova, empurrada, cada vez mais, no “baú do esquecimento”.
Antes de qualquer coisa – e por uma questão de lisura – devo registrar minha admiração pelo fantástico idealismo, perseverança e fibra de Plínio Pacheco ao fazer brotar nas áridas terras de Fazenda Nova a majestosa obra que é Nova Jerusalém. Sem aquilo lá, a velha Paixão de Fazenda Nova não seria viável. Não teria chances nas ruas do Distrito. E, certamente, Fazenda Nova nada seria.
Acontece que, antes de Plínio Pacheco aparecer pelos costados da Serra do Cachorro, se apaixonar pela minha tia Diva Mendonça, roubá-la (naquela época, isso era comum e emocionante) jovem e linda, para casar, voltar e assumir aquele fantástico projeto, Fazenda Nova já tinha seu clima de paixão instalado e uma indiscutível vocação para o que depois aconteceu.
Desde os anos 30, a casa da família Mendonça era um verdadeiro laboratório teatral, onde se forjavam – artesanal e ingenuamente, mas, com imenso amor à arte – cenas teatrais únicas, naquele meio de mundo agreste e isolado. Passagens da história do Brasil ou da chamada História Sagrada eram motivos de enredo de peças e esquetes, levados a um público que afluía dos sítios, fazendas e pés de serra, para assistir atento o que atores, sempre de sobrenome Mendonça, comunicavam num modesto palco. Era uma escrava açoitada, no dia 13 de maio, ou um bizarro D. Pedro, sem cavalo e sem riacho Ipiranga, a bradar Independência ou Morte, todo sete de setembro, ou o Martírio de Santa Filomena. Cenas perdidas no tempo que não parou e preservadas, apenas, nas poucas memórias vivas. Delicioso e emocionante, além de pedagógico, para um povo carente, sofredor, esquecido e analfabeto, que, por uma ablução de sorte, terminou sendo educado através de cenas teatrais.
Foi neste laboratório liderado pela matriarca, D. Sebastiana Mendonça, minha avó materna, secundada pelos seus filhos e filhas, que nasceu o chamado, à época, Drama do Calvário.
Conversando, um dia desses, com minha tia Nair Mendonça Travassos, a primeira atriz a desempenhar o papel de Maria, mãe de Jesus Cristo, emocionei-me ao escutar seus relatos sobre o nascer dessa Paixão: Epaminondas Mendonça, meu avô, chefe do Clã, leu, no início dos anos 50, uma reportagem sobre certo espetáculo da Paixão de Cristo, em Oberamergau, na Alemanha [1], provocando um alvoroço no laboratório teatral caseiro, para o qual ele dava pouco crédito, absorto muito mais nas lides políticas, um tipo de paixão que lhe trazia mais aprazimento do que o teatro.
Nair e Luís Mendonça – este logo assumindo o papel do primeiro Cristo, a ser “cravado” na cruz de Fazenda Nova – filhos de Epaminondas e Sebastiana, encasquetaram e não pensavam noutra coisa a não ser escrever, produzir e executar uma grande produção teatral, a qual logo deram o título de Drama do Calvário. Rigorosamente, foram eles dois os “pais” desta obra, que orgulha Pernambuco e o Brasil. Puro idealismo, indiscutivelmente, tão grande, quanto o de Plínio Pacheco, dez ou quinze anos depois, ao abraçar a construção de Nova Jerusalém. O que eles bolaram naqueles primórdios, justiça se faça, foi de importância fundamental para o que se tem hoje.
Aos dois foi se juntando o restante da família e, claro, D. Sebastiana – mulher de opinião firme, enérgica nas atitudes e cheia de criatividade teatral – rápido tomou para si a missão de arregimentar novos atores, meios e condições para transformar as idéias em pura realidade. Virou, digamos, diretora do espetáculo e, de cara, enfrentou as resistências do velho Epaminondas, temeroso com os custos da produção e, por isso mesmo, nomeado, por ela, produtor do Drama. Nascia, então, a Paixão de Cristo de Fazenda Nova, com nomes desconhecidos do grande público, entre os quais Paulo, Geni, Diva, José, Marly e Ilva e quase todos os outros Mendonça, da época, inclusive o próprio Epaminondas, que fez o papel de Caifás, no primeiro espetáculo, atuando, ainda, como contra-regra. Outros atores foram mobilizados no Recife e em Caruaru. Além, é bom lembrar, dos figurantes convocados na região.
Falar, hoje, do sucesso da empreitada é totalmente desnecessário e indiscutível. Quando vejo o que agora acontece – sob a competente batuta de Robinson Pacheco, filho de Diva e Plinio – recordo com desvelo os pioneiros que já partiram para a eternidade. É para eles que, a meu ver, vem faltando o justo preito de gratidão! Um povo sem memória é um povo sem história. Por isso, Ave César! no palco de Pilatos, loas à pirotecnia da ressurreição e aplausos aos astros globais, mas sem esquecer, jamais, os apaixonados pioneiros.

Fotos: Paixão de Cristo atual e meu avô, Epaminondas, dias antes de falecer em 1970, colhida no Google Imagens

[1] Em Oberamergau a Paixão é encenada, em imenso teatro, a cada dez anos, e serve para cumprir uma promessa feita no século XIX pelos habitantes da região ao se livrarem de uma peste que arrasava imensos contingentes populacionais da Europa. Em 1975, fui recebido pelos produtores locais, no próprio teatro da Paixão, que já colecionavam documentos jornalísticos falando da Paixão de Fazenda Nova.

quarta-feira, 12 de março de 2008

ESCRAVAS DO SÉCULO 21

Uma coisa que sempre chama muita atenção, nos quatro cantos do mundo, são os preços dos produtos Made in China. É impressionante o poder de competitividade de tudo quanto vem de lá. A qualidade quase sempre é sofrível, mas, o preço de mercado é arrebatador.
A explicação é dada pela planilha de custos da produção deles, que são infinitamente mais baixas, se comparadas com qualquer outra do planeta.
O Brasil com uma carga tributária descomunal, acrescida de obrigações sociais muito pesadas, perde longe neste jogo competitivo, dentro e fora do mercado doméstico.
Na China não tem nada que se compare com os nossos encargos sociais, PIS, COFINS, ICMS, ISS e outros muitos Is da vida brasileira. O jogo lá tem outro formato. Por exemplo: demitir um empregado é simples e indolor. Manda embora e esquece o nome do sujeito. Tente isto aqui no Brasil.
Enfim, não existe nada que atropele a produção. E, ai de quem atropelar.
Claro que é tudo muito mais fácil, devido ao regime centralizador/comunista de governo.
Mas, nesse contexto, o que mais chama a atenção do mundo é a chamada relação capital/trabalho chinesa. Muito já se falou e escreveu sobre isto. Este muito, contudo, pode ainda ser pouco.
Recordo de artigo, que li em 2005, num jornal britânico, relatando a estratégia chinesa de produção em alto mar (fábricas offshore). Impressionante. Navios gigantescos, estacionados no meio do Pacifico, transformados em fábricas, geralmente de quinquilharias, recebem, a cada seis meses, levas de operários, trazidos do Continente, para trabalhar durante um semestre, 18 horas por dia, com salário liquido mensal de, aproximadamente, US$ 50,00. Ao fim dos seis meses, são levados de volta às origens, felizes da vida com o “pé-de-meia” que fizeram, sem seguro social, seguro desemprego ou qualquer outra coisa do gênero. A produção em alto-mar é para atender, mais rapidamente, o mercado norte-americano, seu maior comprador. Inteligente logistica, sem dúvida.
Ainda sobre regime de trabalho – em minha opinião, regime de escravidão – li relatos arrepiantes, na Home Page do Doutor em Direito Europeu, Jorge Rodrigues Simão, português, residente em Macau, nas beiradas da China. Segundo ele, na China, só para a multinacional Mac Donald's, trabalham 70 milhões de jovens mulheres com jornada diária de 14 a 18 horas, 15 minutos para as suas refeições e 4 horas para dormir em beliches, em alojamentos, nas próprias fábricas. Antes de dormir são revistadas para comprovar que nada roubaram. O ambiente com portas de metal e barrotes nas janelas, parece mais um quartel. Numa das fábricas, 600 mulheres jovens trabalham como robôs, sem levantar os olhos, dar um suspiro ou falarem entre si. Todas vieram do campo tentando sair da pobreza. Têm horários reduzidos para ir ao banheiro e, somente, quatro horas para dormir. Uma sirene ruidosa anuncia cada novo dia, muito antes de amanhecer. As jovens levantam-se, vestem as fardas e agrupam-se em fila, para, descer as escadas, e se dirigir aos seus postos de trabalho. Essas moças são conhecidas como “dagongmei”, recebem salários de 1.500 Yuans, por mês, o que equivale a 135 Euros, dos quais são descontados a comida e o “alojamento”, que, em geral, são compartimentos onde dormem até 15 jovens. Nessas condições, piores que celas de prisão, não é de se estranhar que a maioria sofra de anemia, dores menstruais ou problemas de visão, visto que muitas trabalham na montagem de diminutos produtos a olho nu e sem descanso. Outras são intoxicadas pelo contacto com produtos químicos utilizados no trabalho ou simplesmente desmaiam de cansaço depois de intermináveis períodos de trabalho e uma “ração” de, apenas, um simples prato de arroz cada dia. Haja crueldade.
Se não apresentarem um rendimento como exigido, um sistema de penalizações permite aos chefes reduzir o salário ou os oito dias de férias anuais. Oito dias de férias, por ano!
Para essas “dagongmei”, algumas com apenas 12 anos de idade, que fazem sorrir de satisfação o consumo desenfreado e paranóico dos ocidentais, estas fábricas são a sua casa, a sua família e a sua cela.
O Comité Industrial Cristão de Hong Kong, uma ONG que se dedica a resgatar os menores que trabalham em semelhantes condições, enviou uma equipe de pesquisadores a uma fábrica e ouviu histórias comoventes como a de uma criança de 12 anos que disse: “Os meus pais não queriam que eu viesse. Chorei e implorei para que me deixassem, porque queria ver o mundo. A minha família tem outros três filhos, mas todos vão ao colégio. Quero poupar dinheiro para que os meus pais possam sobreviver”.
Pois é, na semana em que se comemora o dia internacional da mulher, vale à pena parar um pouco e lembrar dessas pobres mulheres chinesas, escravas do século 21.
E lembre-se também, ao cair na tentação de comprar um produto chinês, coisa muito fácil de acontecer nos nossos dias, pensem nessas “dagongmei” que deram seu sangue para você sorrir.

Sugestão de uma boa leitura: “As boas mulheres da China” Xinran – Companhia das Letras. 2003. Uma leitura comovente. Imperdível.
Foto obtida no Google Imagens.

A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...