domingo, 7 de novembro de 2010

CANTÃO

Deixando Xangai, tomamos o rumo de Cantão ou Guangzhou, em chinês, no sul da China, capital da Província de Guandong. É, para minha surpresa, uma cidade enorme, contando com quase 6 milhões de habitantes. Ou seja, outra metrópole, desse “planeta” chinês que percorri. Um detalhe interessante: Guangzhou é a cidade irmã do Recife, na China. Lá os pernambucanos são recebidos de modo fidalgo. Por quem sabe, é claro! Descobri que Guangzhou é historicamente um importante porto no Rio das Pérolas e faz parte do Império Chinês desde o Século 3 a.C. Na Idade Média, os cantonenses já comercializavam, habilmente, com indianos e árabes. De lá saiam as melhores sedas, porcelanas e chás do Oriente. A partir de 1511, os portugueses entraram no negócio e monopolizaram o comercio local, para atender a crescente demanda dos ocidentais europeus pelos produtos do Oriente. Nos séculos 17 e 18 as coisas ficaram nas mãos de ingleses, franceses e holandeses, como era de se esperar. Na metade do século 19, depois da chamada Guerra do Ópio, conflito armado entre ingleses e chineses, pelo mando dos negócios de Cantão, o comércio da região deixou de ser restrito, sendo estabelecida uma concessão franco-britânica entre 1856 e 1946.
Com tanta história comercial, pode-se imaginar o que se respira nessa região chinesa. O comercio está no DNA dos cantonenses, que pode explicar o que ocorre, por lá, a cada semestre: a maior feira de exportação-importação, do mundo atual. A cada Primavera e cada Outono os chineses de Cantão recebem – no seu monumental centro de exposições – (vide fotos a seguir) compradores e vendedores do mundo inteiro e lançam as novidades de seus produtos, realizando os maiores negócios de que se tem notícia, no novo e globalizado mundo do século 21. O resultado aparece
nos milhões de lojinhas de importados da China, nos mais distantes pontos do mundo. No Brasil, todo grotão tem sua lojinha de R$ 1,99. É uma verdadeira praga. O mundo se incomoda com essa capilaridade dos comerciantes chineses, bem como com seus representantes, e busca atenuar a concorrência, sem poupar críticas e protestos. E os chineses, aparentemente, não estão nem aí... querem é vender. Salve-se quem puder. Para eles, não interessa o cambio artificial, o dumping que se revela nas transações correntes com o exterior ou os salários escorchantes que são praticados, reduzindo incrivelmente os custos da produção. A ordem é exportar e vender a superprodução, a quem chegar. Aliás, na prática, em grosso ou no varejo, é difícil se livrar de um vendedor chinês. No caso do varejo, basta você olhar para o vendedor ou para o produto. A partir daí, o cliente está “condenado” a sair carregado de sacolas. Muitas vezes compra o desejado e o que não queria levar. Com um detalhe a favorecer: pechinche! Chega a ser cômico. Houve um momento em que paguei somente 10% do valor inicialmente cobrado. Uma atenção, porém, e certamente a mais importante é que o interessado tem que ficar de olho na qualidade do produto. Eles estão com uma campanha cerrada pela melhoria da qualidade e para desfazer a fama da produção falha, mas, a coisa ainda é real e um verdadeiro dilema para o comprador.
Guangzhou se prepara para sediar, proximamente a edição dos Jogos Asiáticos (equivalente aos nossos Jogos Pan Americanos), razão pela qual a cidade foi repaginada, com avenidas arrumadas e limpas, jardins exuberantes, edifícios suntuosos e de arquitetura arrojada, magníficos hotéis e shoppings com alusões decorativas e um novo aeroporto que causa inveja, até mesmo a outros da própria China. Imagine um aeroporto com quase 150 portões de embarque. Todos com pontes, inclusive. Nosso grupo, por exemplo, embarcou no portão 146, ao deixar a cidade. Até alcançar o portão de embarque o viajante recebe uma última provocação comercial das sensacionais lojas da estação (vide foto acima). O movimento daquele aeroporto salta aos olhos de qualquer um. Mesmo se tratando de China.
Outra coisa que me impressionou foi observar que o acesso a esse aeroporto é uma imensa via, com quatro pistas de cada lado, e jardins coloridos em todo o percurso. Os chineses capricham, prá valer, no item ajardinamento. Alguém, surpreso com tanta beleza, comparou o caminho do aeroporto de Cantão como sendo o caminho para Shangrilá (denominação atribuída ao escritor inglês James Hilton, em 1925, para um lugar paradisíaco nas montanhas do Himalaia).
NOTAS: Fotos do Blogueiro. Informações históricas retiradas da Wikipedia

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Xangai, a Metrópole

Antes de começar a conversa de hoje, preciso ressaltar - para alguns leitores - que o fato de me impressionar com a China que visitei e voltar encantado com tudo quanto vi, não quer dizer que concordo com as regras político-sociais vigente naquele país. Deve ser muito difícil viver onde não existe liberdade de expressão, controle sobre a família, inúmeras limitações impostas ao cidadão comum, como os escorchantes esquemas de remuneração da mão-de-obra, pobreza urbana e rural, desequilíbrios inter-regionais gritantes e, em fim, tudo quanto difere aquele país dos que vivem o mundo democrático.
Contudo, é impossível não enxergar e exaltar, entre muitas outras coisas, a pujança econômica, a dinâmica do mercado interno, o arrojo tecnológico, a ousadia da construção civil e a preservação de valores históricos devidamente harmonizados com o modernismo. Como na postagem anterior, é difícil explicar o que acontece ali. Eu não saberia dizer o que existe na China. Indiscutivelmente se trata de uma experiência única de regime comunista mixado com capitalismo, dentro de certos limites bem delineados... sei não. É complicado tentar explicar essa coisa. O futuro é que vai revelar a realidade.

Andando em Xangai o visitante esquece tudo isto e experimenta a sensação de respirar o mais autentico dos capitalismos. Sinceramente, nunca vi tantas mega-lojas das grifes mais badaladas do mundo. São verdadeiros assombros. Nada que normalmente vemos em Paris, Londres ou Nova York, onde, segundo me recordo, as grifes têm lojas menos portentosas do que as que mantêm na China. E isto é um sintoma concreto de capitalismo. Sei lá, talvez os imóveis comerciais sejam mais baratos na terra de Mao, enquanto que, por outro lado, as políticas fiscais e trabalhistas beneficiam mais o capital do que o trabalho. A verdade é que a coisa surpreende, é claro. Eu, por exemplo, “dei um nó no juízo” e, até hoje, não consegui desamarrar. Essa China é um laboratório de arromba.
A exuberância de Xangai é uma coisa incrível. Segundo nosso guia local, a cidade mudou de cara nesses quase trinta anos de abertura. A chegada do capital estrangeiro, aliado à fantástica poupança do país transformou a cidade numa metrópole sem comparação, mundo afora. As antigas vilas de casas populares, sobradinhos padronizados do passado, dão lugar a arranha-céus espetaculares, que vêm, rapidamente, mudando o perfil de uma das maiores cidades chinesas. Os centros Comercial e Administrativo-Financeiro ali implantados, em meio a uma urbanização irretocável, composta de imensas e largas avenidas, pontes, vias elevadas e viadutos, tudo devidamente ajardinado e bem cuidado, é de encantar qualquer visitante. O aeroporto é o melhor cartão de visitas. É arrojado e funcional, amplo e luminoso. Primoroso. Certamente que tudo isso vem exigindo muita grana e isto é o que não falta na China de hoje.
O turismo vem se destacando, também, como uma das importantes fontes de renda da cidade. E não se trata, necessariamente, de turista estrangeiro, que não chega a ser tanto, em termos relativos. A grande massa dos turistas é composta dos próprios chineses que, ao contrário do passado, tem agora mais dinheiro no bolso e podem se deslocar mais livremente internamente. A Prefeitura de Xangai não perdeu tempo e implantou uma agressiva política de atração turística, que vem proporcionando o aparecimento de suntuosos hotéis, restaurantes de cardápios internacionais, além de equipamentos de lazer de primeiríssima linha. Ninguém que visite Xangai, por exemplo, pode sair de lá sem fazer um passeio de barco no Rio Huangpu, preferencialmente à noite, quando a cidade se ilumina de maneira multicolorida e cinematograficamente. É deslumbrante! O governo incentiva com a redução de 50% do custo da energia consumida e o resultado é puro sucesso. Pude notar que, na prática, parece haver uma verdadeira disputa para ver quem ilumina melhor e de modo mais bonito o seu edifício. Eu nunca vi uma coisa daquelas. Vide as fotos da postagem. Aliás, passando por Paris na volta (ficamos três dias por lá, tentando neutralizar o jet-lag que qualquer pessoa sofre, nessas mudanças bruscas de fuso horário) foi inevitável comparar e concluir que o titulo de Cidade-Luz, embora emblemático, pode ser uma coisa do passado para a capital francesa. Xangai bem que merece este titulo, neste inicio de século 21. Este ano, inclusive, a cidade teve um motivo bem maior para se engalanar e receber o turista, por conta da ExpoXangai 2010, a feira mundial do qüinqüênio. Eu estive por lá e depois comentarei sobre o que vi.

NOTAS: 1 - Fotos são da autoria do Blogueiro 2- O Blogueiro foi à China, entre os representantes do Sindicato das Indústrias Metalurgicas, Macanicas e de Material Elétrico de Pernambuco - SIMMEPE e compondo uma Missão Empresarial de Pernambuco, organizada pela FECOMERCIO/PE.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Planeta China

Há dias nos quais tenho alguma dificuldade para encontrar um assunto para o bate-papo semanal neste espaço do Blog do GB. Esta semana, porém, tenho uma lista interminável de temas para trabalhar. Tenho assuntos para hoje e para as próximas postagens. Difícil mesmo é saber por onde começar. A razão é simples: estive visitando a China, por dez dias, tendo regressado no domingo passado.
Além de não saber exatamente por onde começar, falta-me um adjetivo adequado e capaz de expressar meu encanto e minha surpresa por esse país oriental. Fantástico poderia ser um deles. Mas, ainda acho pouco. Retumbante, é forte mas, talvez se ajuste. Voltei fissurado. Aquilo lá é tão pouco comum que um caboco nordestino, como eu, se abestalha e não sabe para que lado olhar. É monumental, pronto!
Tudo isto, quando eu menos esperava e achava que já conhecia tudo de mais belo que havia sobre a face da terra. Qual nada! A sensação foi de que fui parar num “planeta” diferente: pujante, esplendoroso, tradicional e, ao mesmo tempo, moderníssimo. A China me arrebatou
Mais incrível, ainda, é lembrar que se trata de um país de regime comunista e poder central forte e atuando. Não dá pra entender como conseguem administrar aquela coisa. A ficha ainda não caiu. Sinto-me meio zonzo, até agora, pelo excesso de novas e surpreendentes informações que acumulei. Bom, na verdade estou falando de uma das mais antigas civilizações com existência continua. Na Wikipédia descobri que “o ano 221 AC é referido como sendo o momento em que a China foi unificada na forma de um grande reino ou império”, graças às imposições da Dinastia Qin, com uma escrita comum e uma filosofia baseada no confucionismo.
Ao longo da sua formação, contudo, o país passou pelas mãos de mais de dez dinastias, entre as quais a Zhou, a Tang e Yuan. É uma história de mais de dez séculos. Observem que na China foram inventados o papel, a imprensa, a pólvora, que são coisinhas corriqueiras nos nossos dias, mas que, à época, revolucionaram o mundo. Além disso, os chineses são, há séculos, seculorum, exímios artistas na música, pintura, teatro e cerâmica. O que vi recentemente, in loco, são provas concretas desses talentos. Chega a ser emocionante se postar diante de tanta beleza.
Essa história e civilização, contudo, registra muitos pontos negativos: a maioria da nação vivia oprimida e muitas vezes escravizada. Muita fome e miséria. O regime imperial tratava o povo com mão de ferro, privilegiando alguns muito poucos com o conforto de viver como vassalos, em torno do Imperador, na Cidade Proibida, assim denominada por ser vedada à entrada do homem comum.
A situação se tornou insustentável e em 1911 ocorreu a queda do Império, sendo proclamada a República da China, sob a liderança de um certo Sun-Yatsen, nos seus primeiros anos. As disputas políticas da época levaram os chineses a uma sangrenta guerra civil entre os anos de 1945 e 1949, resultando na vitória do Partido Comunista Chinês que passou a governar sob a regência de Mao Tse-Tung, substituído, após a morte, em 1976, por Deng Xiaoping. Mao planejou a economia do país, redimiu o povão da situação opressiva e se transformou num ídolo nacional. Até hoje seu mausoléu com o corpo embalsamado é a maior atração para os chineses que visitam a Praça da Paz Celestial, em Pequim. Pude ver, semana passada, uma fila quilométrica de pessoas querendo ver de perto o "deus" Mao embalsamado numa redoma de vidro. Contaram-me que alguns ficam até oito horas nessa fila. Na ocasião que estive na Praça a temperatura girava em torno dos 3ºC. (Vide foto acima). É impressionante a idolatria dessa gente. Já Xiaoping foi o grande responsável pela abertura econômica do país, sem abandonar a rigidez política. Há, ainda, muitas restrições. O povo não goza da liberdade de expressão e a imprensa é controlada. Twitter, Google e Facebook, nem pensar. Este Blog, por exemplo, não pode ser aberto, por lá. Depois da abertura econômica a partir da década de 80, empresas estrangeiras puderam se instalar e o que mais vemos são as grifes mundiais dominando o mercado local.
O país é certamente o maior mercado mundial. Pense no que sejam 1,4 bilhão de pessoas para alimentar, vestir, educar, divertir, transportar e etc. A economia cresce em ritmo galopante, a uma media anual de quase 10%. O Produto Interno Bruto (PIB) atingiu em 2009 a espetacular marca dos 4,91 trilhões de dólares americanos. Eu disse trilhões! Recentemente a China ultrapassou a economia japonesa e é agora a segunda maior do mundo, ultrapassada apenas, e por enquanto, creio eu, pelos Estados Unidos.
Fora isto, a China de hoje é monumental em tudo que se possa imaginar. É onde existe o maior número de gruas em ação. É onde mais se constroem rodovias, pontes, viadutos e túneis, altíssimos edifícios, aeroportos – cada um mais belo do que o outro – e vai ter logo em breve a maior usina hidroelétrica do mundo com capacidade de quase quatro itaipus.
Eu visitei um “planeta” diferente, chamado China.
NOTA: As fotos são da autoria do Blogueiro

sábado, 9 de outubro de 2010

Tiririca da Vida

Antigamente era bem comum se dizer que um sujeito colérico, raivoso ou revoltado estava tiririca. Confira num dicionário. A partir de domingo passado, porém, as coisas mudaram e tiririca passou a ser sinônimo de Deputado. Não é engraçado? Acho que, de agora em diante, uma pessoa não fica mais “tiririca da vida” e sim “deputado da vida”, acompanhando a modernidade do Brasil. Pensando bem, e desse modo, por exemplo, quando há dois meses eu fui covardemente assaltado a mão aramada, levaram-me a carteira com documentos, cartões de crédito e dinheiro, além do meu celular, eu fiquei d-e-p-u-t-a-d-o da vida. É uma senhora mudança de forma. Imagine que tem muito mais charme dizer “minha mulher está deputada comigo porque não lhe dei um vestido novo”. Não é mesmo?
Mas, meus amigos, quem anda tiririca, de domingo para cá, sou eu, com essa desmoralização da democracia brasileira, já tão carente de consolidação..
É simplesmente revoltante ver um cidadão, no nível do palhaço Tiririca arrebatar 1,3 milhão de votos de eleitores, certamente, alienados ou ingênuos. Coisa de paulista ignorante mesmo, que não tem noção adequada do que seja eleger um bom representante para o Congresso Nacional. Aliás, isto é fato recorrente em São Paulo. Foi assim que, no passado, votaram no rinoceronte

Cacareco, nos Malufs e Clodovis da vida. Ou seja, votar num Tiririca, sob alegação de estar dando um voto de protesto, é a coisa mais simples para eles. Quanta ingenuidade... Ah! O pior é que tem gente que garante o voto quando ele se apresentar como candidato a Presidente da República. Valha-nos Deus! Tem até fotos alusivas a essa barbaridade. Aí, sim, chegaríamos ao caos caótico. Acho que nosso povo está cansado das promessas mirabolantes e enganosas, sendo levados a zombar da seriedade.

Alienados, ingênuos, ignorantes ou coisa parecida, porque não tiveram o cuidado de analisar o que vem por trás dessa manobra espúria. Uma autêntica malandragem. Não sabem eles que ao elegerem um ignorante, talvez analfabeto, como é o caso de Tiririca, estão contribuindo para o sucesso de uma estratégia política estúpida - falha de um sistema eivado de equívocos - de arrastar, via coeficiente eleitoral de um partido nanico, elementos nocivos à sociedade que representa e à Nação, para atuarem na Câmara Federal. O partido do deputado eleito, Tiririca, e seus coligados estão deitando e rolando na montanha de votos que o palhaço recebeu nas urnas. Junto com ele serão empossados mais dois ou três parasitas, autores da mutreta e com tremendas FICHAS SUJAS. A revista Veja dissecou a coisa, de forma bem didática. Formarão um novo bloco parlamentar em Brasília, que poderia se chamar de Os Titiricas e, com certeza, integrando o chamado Baixo Clero, isto é, grupo de deputados sem grandes prestígios e pouco atuantes, entre outras cositas más.
Agora, me diga mesmo, é ou não é necessária uma reforma política urgente neste país. De Gaulle, lá por cima, onde atualmente circula, deve ter dado boas gargalhadas e ratificado sua máxima de que “o Brasil não é um país serio”, ao ver o povão paulista tiriricando. Não é revoltante? Eu pelo menos não tolero mais tanta bandalheira. Aliás, ando tiririca da vida, com essa situação. Mas, atenção, na acepção antiga.

NOTA 1: Foto colhida no Google Imagens

NOTA 2: O Blogueiro fará uma pausa nas próximas duas semanas, em virtude de uma viagem a China. No retorno trará noticias e impressões do que verá no Oriente.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Retrato Velho

Eu cresci, posso dizer, no meio da politica. Neto de um chefe politico de interior, coronel velho e "manda-chuva" do lugar, me empolgava com a permanente movimentação, que se tornava mais dinâmica nos dias de eleições, como os de hoje. Foi, não foi, lá se dava um comício. Seu Epaminondas Mendonça – era este o nome do meu avô – se empolgava e saindo de trás do balcão do seu estabelecimento comercial, trepava num tamborete, garrava do microfone (que estava sempre a postos) e largava seu discurso inflamado para a matutada de Fazenda Nova (180km. distante do Recife). Era uma cena bem comum, principalmente, nas sextas-feiras, dia da feira do lugarejo. A matutada se apinhava diante daquele líder-matuto se empolgando e pedindo a chapa do candidato defendido, para depositar na urna eleitoral. Não perdia uma eleição e sempre fazia seus vereadores e prefeito, além de empurrar deputados e governador. Ele próprio era, muitas vezes, o candidato. Sistema arcaico e cheio de vícios, é verdade. Mas sem as patifarias de hoje. Só se às escondidas. Não sei o que diria – aquele homem que foi prefeito e vereador nos interiores de Pernambuco, tirando do próprio bolso o sustento das campanhas que fazia, prejudicando muitas vezes a própria família – diante dessas bandalheiras, deslealdades, roubos e assaltos aos cofres da Nação, do hoje. Morreu sem deixar fortunas, salvo uma dúzia de casas, poucos hectares de terra e a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Morreu sem laivos e sem quem dissesse um “tantinho assim” de desonestidade dele.
Nos dias de eleição, quando eu estava em Fazenda Nova, minha excitação era tamanha que sequer conseguia dormir direito, dado o rebuliço na casa. A mulherada varava a noite preparando a comida do eleitorado, no dia seguinte. Quando o dia amanhecia já era um corre-corre, um falatório danado, um entra e sai desmedido de eleitores, dentro de um clima de comes e bebes sem fim. Matavam-se boi, carneiros e bodes e o galinheiro ficava vazio. À la cabidela, assada ou guisada, não sobrava uma penosa sequer. A matutada chegava amontoada nos caminhões escalados para transportá-la desde as brenhas onde vivia até a vila e se esbaldava tirando a barriga da miséria. Todo mundo nos trinques, ou seja, bem vestido, em roupa de gala, brilhantina colgate ou glostora na cabeleira ou chapéu de massa, perfumados e cheios de pose. Era uma festa. As mulheres, affe Maria, caprichavam e, sobretudo, carregavam no batom e no pó de arroz e rouges da marca Royal Briar. Aquilo era o máximo e elas se achavam... Ah! A grande maioria fazia questão de sorrir um sorriso brilhante, por trazer um monte de dentes de ouro na boca. Isto existia antigamente e o matuto que tinha um dinheirinho qualquer investia imediatamente numa dentadura de 18 Kilates. Minha mãe dizia, logo, “lá vem um boca rica”. Imagino o que diria a turma jovem, de hoje. Daria boas gaitadas. E eu, ia lá voltava cá, garrava duma garrafa de Crush e enchia a cara... Também. Em dia de eleições eu era fi-de-deus e podia beber mais.
Encerrada a votação esperava-se, no maior frisson, a apuração dos votos que só acontecia muitos dias depois. Resultado publicado, a festa rolava mais grossa ainda, porque era sempre vitória. Uma graça. A tímida oposição do lugar trancava-se em casa e se mal-dizia da situação. Dos partidos da época minha lembrança só passa por duas siglas a do PSD (Partido Social Democrático) e da UDN (União Democrática Nacional). Havia outras, mas, somente essas duas me marcaram, porque a guerra entre elas era de feder a sangue. Meu avô era do PSD e quem fosse da UDN eu nem devia cumprimentar. Fuxico de interior era de lascar. Aliás, ainda é, visse...
E, por falar em chapas contadas, lembro demais da quantidade de papelotes impressos com nomes de candidatos e cargos postulados. Era com um desses papeizinhos que o eleitor votava. Muito artesanal demais, se comparado com o sistema eletrônico atual, além de inseguro, pois favorecia a fraude. Que certamente havia! Lógico! No meu pensar infantil, torcia para que sobrassem muitas chapinhas com as quais inventaria vários tipos de diversão – barquinho, aviãozinho, sabe lá o que mais – na ressaca da eleição. Com os tempos vieram a cédula única e, hoje, a urna eletrônica que, indiscutivelmente, é um fantástico avanço no processo eleitoral brasileiro, motivo de orgulho da inteligência tupiniquim e que está sendo adotada em muitos países.
Progresso por um lado e obstáculos por outro, porque muita gente – os de baixa instrução, particularmente – se ressente com um sistema que exige um esforço maior da mente e produz impasses para aqueles que têm aversão à máquina. É complicado para os menos letrados e resulta em muitos votos nulos.
O tempo passou e isto eu não discuto, porque o espelho me lembra a cada dia. Mas, sempre tem festa no interior, no dia de eleições. Domingo que vem é dia de eleições. E é dia de festa. Festa da democracia. A farra é tamanha que instituíram a chamada Lei Seca. Desmoralizada, meu Deus... Vou guardar este meu velho retrato do passado, com carinho e saudade.
NOTA: Fotos/reclames obtidos no Google Imagens.

domingo, 26 de setembro de 2010

CARGA PESADA

Eu havia feito o propósito de não falar de eleições, políticos e candidatos, por sentir um desgaste muito grande ocupando meu tempo com essa palhaçada que, mais uma vez, se espalhou no país. Mas, é impossível ficar mudo diante de tantas barbaridades. Pelo menos para mim, que sou, no final das contas, um animal racional e com fortes sentimentos políticos. Seria negar minha natureza. Violentar-me-ia.
Meu voto será consciente em três de outubro e estou seguro disso. O mesmo não penso sobre a maioria dos brasileiros. Dá pena de ver a alienação da pobre gente do meu país. Tiro pela secretária doméstica que tenho na minha casa. Esta manhã ela confessou que está achando muito difícil para votar neste ano. “Tem que marcar cinco números, Doutor. É isso mesmo? Não botaram número demais, dessa vez? E o Senhor já viu que tem um que é bem grandão...” Isto para uma pobre coitada, analfabeta, que vive aqui na minha casa, escutando tudo que se fala e vendo o guia eleitoral gratuito. No dia da eleição ela vai à seção eleitoral, desenha o nome dela e entra na cabine eleitoral indevassável. Lá dentro, muito ancha, marca qualquer coisa e no final diz orgulhosa que votou em Lula. Coitada nem sabe que ele não é candidato. Pode ser um voto perdido. Imagino, também, os tristes (ou felizes, quem sabe?) que são eleitores nas brenhas do sertão nordestino ou perdidos na Amazônia. Voltam para casa dizendo que votou em Getúlio Vargas. Acredite que tem. Não é piada e quem me falou isto foi um conhecido amazonense. Claro que tem alguém digitando um voto ao seu bel prazer e interesse, no lugar do alienado portador de uma titulo eleitoral, se aproveitando da ignorância do eleitor. É muita patifaria. Ou melhor, um processo eleitoral inadequado ao país.
Outra coisa me deixa profundamente irritado, neste cenário, é ouvir as promessas desses cínicos candidatos, repetindo as mesmas promessas dos candidatos das eleições passadas. Aliás, pensando bem, acho que, à luz das promessas atuais, seja qual for o eleito, o Brasil vai cair em boas mãos. As promessas são parecidí-i-i-i-i-íssimas. Já notaram? Até Marina, mesmo com a verdura que vende, não deixa de bater nas teclas comuns. Quero ver cumpri-las. É tudo conversa mole, minha gente. Tolo é quem vai atrás dessas baboseiras eleitorais.
As mais “divertidas” são as promessas da reforma fiscal e reforma política. Faz-me rir. Vou morrer e não vejo essas promessas serem cumpridas. E, olha, que são as mais velhas e a mais necessárias para o bem da nação. Eu disse nação! A candidata do Lula bate no peito e diz solenemente “EU (ela adora usar a primeira pessoa) prometo fazer uma reforma tributária, porque não dá mais para continuar com uma carga tão pesada”. Tenho a sensação de assistir a um programa de humor. Negro, é claro.
Neste fim de semana, que termina hoje, fui à bela Maceió, capital de Alagoas. (Foto a seguir) Cumpri dois compromissos sociais, marcados por dois casamentos. Nessas comemorações o mais comum é que – com um uísque a mais – os convivas logo se exaltem e começem a “fazer campanha”. Saí convencido e decepcionado, claro, de que muitos alagoanos perderam a memória e vão eleger Fernando Collor de Mello, governador do estado. Pode uma coisa dessas? É impressionante. Agora, tem uma coisa, a maioria das vezes o argumento mais forte é de que Lula e seus comparsas deixaram Collor no “chinelo”. Que o ex-presidente alagoano não soube fazer a coisa bem-feita e roubou pouco. É doloroso ouvir estas coisas. Resta saber se estão dando outra chance ao collorido para ele retornar e fazer uma “administração” bem-feita. Não vou negar que me ri a valer dessa alienação coletiva. Bom, as festas de bodas, das quais participei, ficaram bem divertidas.
Se a reforma tributária é necessária, a política é fundamental. Acho que antes da tributária deve vir a política. É preciso mais seriedade dos nossos legisladores para entender o que fazer na hora de detonar o Custo Brasil. D. Dilma tem razão quando diz que a carga é pesada. Difilcil é ter certeza de que ela tenha consciencia desse peso.
NOTA: Fotos do Google imagens

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

São Paulo: o Brasil Grande

O destino São Paulo está com muita frequência na minha agenda de viagens. A negócios ou por motivos particulares ando sempre praquelas bandas. Foi o que ocorreu na semana passada.
O poeta já disse que a Paulicéia é desvairada (louca, alucinante, delirante) e olha que, em certos momentos, parece mesmo uma loucura. Mas, no final das contas, tudo dá certo e termina num misto de prazer e estresse. Prazer pelo sem numero de atrações que a cidade oferece e estresse por conta, por exemplo, do trânsito caótico, das hordas de motoqueiros desembestados no tráfego infernal, das distancias a serem percorridas, da perda de tempo para se cumprir um simples compromisso e, ainda, a carestia de vida, que somente eles, os paulistas, conseguem administrar. Sobretudo no setor de serviços, ao qual temos de nos submeter.
Ficamos (eu estava acompanhado da minha família) por lá nove dias, mas voltei com a sensação e haver passado menos. O tempo corre muito rápido, quando se enfrenta muita coisa para fazer e as logísticas são complicadas. Assim mesmo, deu para curtir a grandiosidade da metrópole.
Para nos livrar de rodizio de placas (na cidade de São Paulo é rotina) de veículos em circulação e, também, para explorar a paisagem interiorana do estado – que é belíssima – tomamos rumos em dois diferentes roteiros: um na direção do interior e outro no sentido do litoral.
No primeiro, fomos almoçar, no feriado do sete de setembro, na divertida cidade de Itu, que tem a fama de ter tudo em tamanho exagerado, devida a um comediante da TV e capitalizada pelo municipio, com fins turisticos. Deu certo, sim Senhor. A cidade é pequena, com no máximo 170 mil habitantes, descendentes de imigrantes portugueses, italianos e japoneses. Tem também nordestinos migrantes. É uma das mais antigas do estado, com 400 anos de fundada, belissima arquitetura colonial (vide foto a seguir) e historicamente importante porque deu forte

contribuição à fundação da Republica no Brasil. Outro destaque da cidade é o fato de ter sido, durante muito tempo, a mais rica do estado, por ser local de residência de muitos barões do café e autoridades importantes do País. Comer por lá tem que ser no Bar do Alemão Steiner, famoso por servir um Filé à Parmegiana, vendido por metro! Come-se bem e ao melhor estilo ituano, isto é, tudo grande. Vale à pena conferir.

Depois de Itu, subimos a Serra da Mantiqueira e fomos rever a bela cidade de Campos do Jordão. Passamos uma noite de frio intenso (3ºC) à base de uma boa fondue de queijo e vinhos chilenos, para esquentar a alma e o corpo. Era meio de semana e encontramos a cidade mais tranquila, com o comércio atendendo bem, a paisagem mais visível, dado ao pequeno número de visitantes. O cenário é de puro aspecto suíço. Vide foto acima. A gente agasalhada pelo frio e a este acostumada revela um tipo de sociedade diferente, no portar, no trato e nas relações com o visitante. Nada da descontração das cidades litorâneas. Os jardins, bosques e cascatas, complementados pela arquitetura, estilo também suíço, resulta num cenário de grande beleza e distinto do nosso padrão tropicaliente nordestino É muito interessante observar essa vida diferente das altitudes paulistas.
E, por fim, descemos a fantástica Rodovia dos Imigrantes, que liga São Paulo à baixada Santista, indo parar no balneário da Riviera de São Lourenço onde passamos o último fim de semana. Local sofisticado padrão Classe A-ltíssiiiiimo e paisagem digna de ser comparada, competitivamente, com os melhores balneários caribenhos ou do Mediterrâneo. Show de bola.
Constatação final: é interessante observar como o estado de São Paulo consegue reunir tantas e tão diversificadas atrações, atraindo, assim, levas de brasileiros das mais distintas regiões na busca de novas paisagens, negócios dinâmicos, vida cultural, infraestrutura e serviços diferenciados, cosmopolitismo, num mix que faz a maior diferença. É ali que fica o Brasil Grande, sem nada a dever à outras localidades no mundo afora.

NOTA: Foto de Itu é do Blogueiro e as de Campos do Jordão e Imigrantes são do Google Imagens

A História se Repete

Há histórias que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos fazer pensar. Ali Babá e os Quarenta Ladrões é uma delas. Lembro-me co...