sexta-feira, 23 de julho de 2010

ShelterBox: Uma bonança, depois da tempestade

Uma coisa é ouvir falar, fazer idéia e imaginar como funciona. Outra é ver a coisa acontecer e surtir efeito. E quando o efeito desejado supera a expectativa, melhor ainda.
Estes últimos dias, tenho acompanhado e contribuido, como Deus me permite, com a operação de ajuda aos flagelados das enchentes de junho na Mata Sul, do estado de Pernambuco. Fiz muito pouco, diante da envergadura e trabalho de outros que estão pondo a mão na massa e fazendo tudo acontecer. Refiro-me, novamente, à operação ShelterBox, promovida pelo Rotary Club International.
Esta semana, junto com outros rotarianos, visitei o sitio de montagem das tendas-abrigos, na cidade de Água Preta, na região fustigada pelas águas. O que pude ver é simplesmente gratificante. Enche de felicidade qualquer cidadão que participe do processo.
Passada a avalanche, restou a destruição, com efeitos nocivos, no seio de uma sociedade pacata, trabalhadora e cheia de projetos. “O meu mundo se acabou... estou acabado. Só me resta esperar o fim... Perdi filhos, mulher, outros parentes, casa e meu ganha-pão.” Foi o lamento doído de um popular, “náufrago” da enxurrada. Conta-se também a história do cidadão que tinha oito casinhas, morava numa dessas e alugava as sete restantes. Vivia da renda desses aluguéis. Não sobrou nada... Ficou “sem eira, nem beira”, como se dizia antigamente.
Mas, meu Deus, enquanto há vida, há esperança e, eis que, aos poucos, tudo tende a retomar seus cursos normais e a vida volta a ser exaltada. A ordem é reconstruir.
Assim que, ainda num cenário de desastre – pontes destruídas, ruas arrasadas, povo em abrigos coletivos e rios determinando novas, e até surpreendentes, conformações geográficas – brotam soluções inteligentes, frutos, sobretudo, da solidariedade humana. O esquema do Programa ShelterBox do Rotary tem, na medida, essa característica.
Logo mais, quem estava arranchado, muitas vezes amoquecado entre panos sujos, vendo crianças, aos magotes, fazendo xixi e cocô, por todo lado, poderá usufruir de seu próprio cantinho, provido do que se faz de necessário para uma vida digna, como teto, limpeza, água pura, comida, lazer e segurança. Somente o fato de poder dormir em paz, sabendo que o rio não vai lhe expulsar do local, já vale por tudo. Na prática, são pessoas que vão sair de moradias subnormais (bote subnormal nisto!), como, por exemplo, um jirau, debaixo da ponte que caiu. Vão experimentar o que nunca imaginaram provar. Vão dispor, além de abrigo seguro, de banheiros, cozinha comunitária, refeitório coletivo, luz elétrica, TV comunitária, entre outros benefícios. Outra coisa inesquecível, uma cena que me deleitou no campo de trabalho, foi ver a meninada da redondeza, em algazarras e excitação, a espera da casa nova, buscando se comunicar com os voluntários ingleses, montadores da vila, descobrindo algumas palavras em inglês, para manifestar com a própria voz, a alegria de viver aquele momento. Uma graça... “Oia, my name é Tiago. Visse?” Como quem queria dizer: não me esqueça não, por favor. Visse? Aquilo, no final das contas, se constitui na maior novidade e representa uma nova dinâmica para quem vivia na simplicidade da vida rural nordestina, do Brasil. Uma vidinha quase esquecida. Será que Deus mandou a torrente para colocá-los sob os olhares da sociedade? Para encerrar esta conversa semanal, preciso registrar algo muito importante: essas barracas ShelterBox não são qualquer barraquinha que conhecemos, por essas nossas bandas. É uma coisa, digamos, sofisticada, por conta de dispositivos tecnologicamente avançados. Por exemplo, permitem ambientes internos arejados, graças a um inteligente sistema de ventilação, duplas “paredes”, uma espécie de colchão de ar, com material resistente e protetor contra raios solares intensos, mais fechamento de segurança com duas “portas”, defensivos contra insetos e elementos de ambientação funcionais. Vamos e venhamos, sair de um jirau pendurado debaixo da ponte para dormir em solo firme e abrigado é uma benção do céu. O mesmo céu que castigou em forma de tempestades. Indiscutivelmente, para muitos, depois da tempestade veio a bonança chamada ShelterBox.
Uma pergunta, porém, sem resposta, pelo menos agora, é: saberá essa gente preservar este patrimônio que estão recebendo. Eis, então, outro desafio: monitorar e orientar o assistido. Coisa para depois...
Nota: Fotos da autoria do próprio Blogueiro. Veja a exibição de slides no topo da Coluna da Direita.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dando de si, antes de pensar em si

A ressaca da derrota brasileira nos gramados sul africanos aos poucos vem passando. Mas, aqui, em Pindorama mesmo, tem gente – em Pernambuco e Alagoas – longe de sair de uma ressaca violenta, decorrente das enxurradas de junho passado. O quadro ainda é doloroso. Ou melhor, é a cada dia mais complicado. O cenário é de um fim de guerra ou terremoto, dada a destruição que restou. São, mais ou menos, 150.000 almas sofredoras. É desolador e sem perspectivas em curto prazo. As pessoas padecem e se desesperam aguardando ajudas que só chegam à duras penas e à custa de muitas dificuldades. O pior é que, à medida que o tempo passa, a vida em abrigos sem estrutura adequada e em ambiente promíscuo, aliada à falta de higiene, doenças infecciosas se alastram complicando mais ainda o quadro. Uma cena sem precedentes.
Diante de governos impotentes – quase sempre apontados como os maiores responsáveis pela desgraça – o cidadão comum, individualmente ou reunidos em ONGs, armam mutirões de solidariedade, para fazer chegar aos flagelados ajudas emergenciais, que terminam sendo as mais importantes.
Na cena desses mutirões, algumas coisas saltam aos olhos de uma sociedade perplexa com o ocorrido: a primeira é o lamentável fato de que, mesmo diante das tragédias coletivas e de proporções dantescas, surgem indivíduos, sem caráter, que, de algum modo, tentam tirar proveito da desgraça alheia.
Repugnante a atitude de políticos que, em Alagoas, decidiram fazer chegar doações apenas para seus correligionários, isto é, no seu curral eleitoral. São figuras abjetas, fazendo campanha eleitoral no leito da desgraça! Foi preciso parar as distribuições de donativos, para impor ordem na praça. Para esses, só mesmo, uma resposta negativa nas urnas, coisa que os ingênuos não atentam fazer.
Outro caso tão repugnante quanto o de Alagoas foi o de um canalha, no Agreste pernambucano, que, por telefone, buscou empresários e pessoas físicas pedindo contribuições para uma ação de assistência aos flagelados. O vivaldino dava o número de uma conta bancária e aos poucos viu os depósitos chegando. Quando a conta já somava mais de cinco mil reais, alguém descobriu a farsa e o elemento deletério foi desmascarado e preso.
Mas, a maldade não fica por aí, porque, pasme, no meio dos donativos arrecadados, passando por triagem antes da distribuição, vão sendo encontradas inusitadas peças como brinquedo e utensílios domésticos quebrados e imprestáveis, produtos alimentícios fora da validade, roupas sujas, eletrodomésticos quebrados e sem possível conserto e, por incrível que pareça, fraldas descartáveis usadas! Esses “gentis doadores” parecem ter aproveitado a oportunidade para fazer faxina em casa.
Quanta miséria reunida, num mesmo espaço e com diferentes formas: a do flagelado, o ladrão, o mau político e o doador sem escrúpulo (delicadeza de caráter). Como pode? ...
Mas, como nem tudo está perdido e ainda existe o que costumo chamar de oposição do BEM, eis que algo diferente e competente surge nesse cenário de dor. Falo, agora, da vitoriosa ação do Rotary Club International, com seu Programa Shelterbox. Inédito no Brasil, a ajuda humanitária que essa admirável entidade internacional oferece faz, indiscutivelmente, a diferença nessa campanha de apoio aos desabrigados de Pernambuco e Alagoas.
Trata-se de uma esplêndida forma de imediata ajuda às comunidades atingidas por desastres da natureza (terremotos, inundações, tsunamis, ou similares), criado pelo Rotary International, na Inglaterra, proporcionando alivio e dignidade a pessoas desabrigadas. Foi assim, por exemplos, depois dos terremotos do Haiti e Chile, desastres na Ásia e agora ajudando nordestinos desabrigados por conta de inundações. Caixas contendo tendas de 25m², para abrigo de até dez pessoas, utensílios domésticos, colchões, fogão, depurador de água, ferramentas, brinquedos, material didático, entre outros itens são levados a pontos dos mais distantes do planeta, onde populações sofrem desastres coletivos. Aos poucos, 1.000 caixas estão sendo distribuidas em Pernambuco e Alagoas.
Orgulho-me de pertencer a essa Entidade que reúne mais de 1,2 milhão de cidadãos no mundo inteiro, dispostos a prestar serviços humanitários “dando de si, antes de pensar em si”. O BEM existe e pode ser exercitado por amor ao próximo e, nesse sentido, o Rotary International é uma referencia mundial.
NOTA: Foto obtida no Google Imagens

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sexta-Feira de Cinzas

Depois do apito final levantei-me da “arena” do Country Club, onde assisti a todas as partidas da seleção, e tomei o rumo de casa. Chateado, é claro, porque sou brasileiro e acho ruim, pra caramba, perder uma Copa do Mundo. A vitória ficou com os holandeses. Paciência.
Que coisa mais maluca, fiquei pensando no caminho. Por que querer sempre ganhar? Ganhar não, ser campeão! Gente mal acostumada... É muita nóia, meu Deus!... No país do futebol, segundo Jorge Amado, a lei parece ser sempre ganhar ou ganhar. Uma derrota, principalmente como a de hoje, inesperada e após um primeiro tempo impecável, é de amargar. O intervalo da partida parecia uma festa. Todo mundo confiante e o mínimo que se espera era um 3 x 0. Doce ilusão... A festa final, em Port Elizabeth, foi laranja holandesa e não verde-amarela.
Acabou-se a festa que reinou neste país, nesses últimos vinte dias. Ninguém fazia nada e todo mundo só pensava em futebol, sonhando com a festa do hexa.
Como a vida continua e a gente tem que trabalhar cai no meu particular de afazeres, enquanto observava a gente nas ruas. As reações são das mais diversas. Populares esbravejavam, alguns bêbados choravam, comerciantes lamentavam os investimentos perdidos, os bares e restaurantes, nem se fala. Fim de um carnaval fora de época. Era este o panorama da cidade e do Brasil como um todo, mostrado pela TV.
Entrei numa papelaria e assisti aos empregados balconistas retirando, a contra gosta, a decoração verde-amarela – guirlandas, balões e bandeiras – me olhando com cara de quem comeu e não gostou. “Foi a Holanda quem mandou fazer isto” disse um deles, com tom de piada, mas sem esconder o ar de decepção.
Na calçada, da mesma papelaria avistei um popular sentado no meio-fio, cabeça apoiada nos joelhos, bandeira enxovalhada de banda, debaixo de uma lata de cerveja e quase chorando. Penalizado com a figura, tentei consolá-lo dizendo que daqui a quatro anos tem mais e vai ser aqui, bem perto. “Ah doutô nem sei se tô vivo daqui prá lá!” esbravejou o sujeito. Pelo visto era uma pessoa que vive somente o presente. Quando fui me afastando, ele levantou-se e, digamos, com uma ira "cachorra da mulesta", gritou: “o que eu queria, agora mermo, doutô, era poder matar aquele fela da puta do Tiago Melo”. Encerrando a cena, vi o popular levantar-se, dar um tremendo chute na lata de cerveja, enrolar-se no pavilhão nacional e seguir seu destino.
Dessa historia real – lamentei não portar minha câmera para fotografar – a cena do homem enrolado na bandeira brasileira encheu-me de emoção. Retrato vivo do patriotismo que aflora no brasileiro durante as copas de futebol.
Encerrada a participação do Brasil na Copa, passa o espasmo coletivo de patriotismo que assola o país. Aos poucos são recolhidas as bandeirinhas que tremulavam nos automóveis, as banderolas das ruas, as bandeiras maiores são dobradas e colocadas nos fundos de gavetas, esperando a próxima copa. Depois disso, como se fosse pecado ou proibição, não se ouvem os gritos de “Viva o Brasil!” ou "É do Brasiiiiiiil!". A Pátria passa a ser uma abstração, outra vez, ou raro elemento de retórica nos palanques de campanhas eleitorais. Isto sim, que é lamentável e, em meu ver, parece ser mais doloroso do que perder um campeonato mundial de futebol. Falta patriotismo nesta terra brasilis. O brasileiro, de modo geral, cresce sem receber lições de patriotismo, ao mesmo tempo em que acompanha o processo de achincalhamento dos valores pátrios cometidos pelos representantes do povo, no Planalto Central. Sinto profundo pesar ao escutar um jovem afirmar que não acredita no Brasil ou que o Brasil não tem jeito. E isto, não é raro.
A Copa do Mundo de Futebol resume a única oportunidade, de fato, em que o brasileiro se identifica com a idéia de patriotismo. Por isso mesmo o popular tem vontade de matar e morrer pelo Brasil. Passada a copa, passa também a idéia concreta de pátria.
Precisamos incutir nos atuais brasileirinhos – desde aqueles que estão, ainda, na escolinha pré-primária – a noção de Nação e Pátria, desenhando e pintando a bandeira nacional, entoando diariamente o Hino Nacional e ensinando a História da formação da Pátria. Somente assim seremos um país completo, uma verdadeira Nação. Somente assim saberemos lidar com uma derrotinha qualquer num jogo de futebol.
Quando isto ocorrer (não será no meu tempo, certamente) não teremos, como hoje tivemos, o que eu chamei de Sexta-Feira de Cinzas.

Nota: Foto obtida no Google Imagens

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Meu Povo Afogado

Não é a primeira vez, este ano, que venho a falar de tragédias coletivas. Tragédias em Angra dos Reis ao romper do ano, terremotos no Haiti e no Chile, enchentes em Santa Catarina e no Rio de Janeiro, um vulcão vomitando fumaça pesada e outras várias, mundo afora.
Agora, quando menos se espera, uma catástrofe, aqui bem próximo, decorrente de fortes chuvas no interior do meu estado de Pernambuco, Nordeste do Brasil. Fico muito sentido e, até mesmo, temeroso diante desses “caprichos exacerbados” da mãe natureza.
As chuvas que caíram aqui por perto, na semana passada, resultaram num descomunal volume de águas ao longo dos leitos de rios e vales da região da Mata Sul de Pernambuco e Mata Norte do vizinho estado de Alagoas, transformado numa gigantesca torrente, já comparada a um imenso tsunami. De fato, a comparação é corretíssima. Em alguns pontos e, principalmente, em algumas cidades pernambucanas – como Palmares e Barreiros e União dos Palmares, em Alagoas – as águas se elevaram, aproximadamente, 20m. acima do nível normal. Em alguns pontos não restou pedra sobre pedra. As perdas materiais são incalculáveis. As vidas perdidas e o desolador quadro dos desabrigados assusta qualquer cidadão, por mais forte que seja. Cidades e Vilas, no caminho das águas, foram destruídas quase que por completo. Algumas, simplesmente “apagadas” do mapa. No estado de Alagoas, a cidade de Branquinha, por decisão da Prefeitura local, deverá ser reconstruída noutro local, provavelmente num ponto mais seguro e distante do leito do rio Canhoto.
O cenário nessas cidades e localidades ribeirinhas é desolador Vide foto a seguir, da cidade de Palmares - PE. Aliás, desolador é pouco, porque, na verdade, é desesperador. Toda ajuda humanitária prometida e que vem chegando poderá ser insuficiente. A cada cenário que se vislumbra ou imagens que chegam pela TV, produzem uma imensa sensação de impotência do homem, diante desses fenômenos.

Não faz muito tempo, acho que no inicio desta década, uma grande enchente colheu de surpresa a mesma região deixando tudo mergulhado num verdadeiro oceano. Perdas materiais e humanas de alta monta. Os governos, a sociedade organizada, os clubes de Serviço, como Rotary e Lions, e a solidariedade da população brasileira, em geral, ajudaram a amenizar a calamidade em que ficou aquela gente interiorana. Acredito que muitos ainda se encontravam em processo de recuperação, quando foram novamente assaltados pela torrente dessa semana passada.
Diante desse quadro, uma pergunta, que não cala, ronda as cabeças de quem “meteu a mão na massa”, os pés na lama e empacotou fardos de mantimentos e roupas para levar aos flagelados daquele episódio anterior: por que os governos Federal e Estadual não cumpriram o que foi prometido há dez anos ou noutras ocasiões de calamidade pública, nas mesmas áreas? Ora, meu Deus, a solidariedade humana, a assistência dos clubes de serviço e as doações da sociedade são apenas componentes de uma operação emergencial e paliativa. São ações para atender as necessidades do momento. Ou seja, são ações complementares, ao que deve ser feito pelos governos. A sociedade não pode substituir os governos nos papéis que a eles compete! Estava na cara que o que deveria ser feito, na região hoje destruída, passava por um grande investimento em barragens protetoras, em substituição das frágeis e debilitadas existentes, que já não suportam as águas que descem repentinamente, bem como a proteção das populações ribeirinhas que, sem outro destino, vivem praticamente dentro dos rios, despejando toda sorte de detritos contribuindo para o assoreamento dos cursos d´água. Isto sem falar da recomposição da mata ciliar, que desaparece às custas de um desmatamento predatório e criminoso. Tudo isto teria evitado um desastre tão grande quanto ao desta semana. Nada disso foi feito! Uma miséria!
Também, pudera, o Ministério da Integração Nacional, ao qual compete a missão de investir na prevenção de catástrofes, dispôs, neste ano, da ridícula dotação de R$ 71,0 milhões. Desse montante, o Brasil todo já sabe, 57% foram “desviados” para a Bahia, a fim de atender às necessidades eleitorais do ex-ministro Gedel Vieira que pretende vencer a eleição para governador naquele estado. Alagoas, segundo apurei, não recebeu nada! Ficha Suja nesse ex-ministro!
O senador Cristovão Buarque, num pronunciamento, sexta feira passada, a propósito das calamidades de Pernambuco e Alagoas foi enfático ao afirmar que os “políticos não agem corretamente para proteger a população que sofre com as cheias ou com a falta de chuva”. E continuou, “o presidente Lula sobrevoou as áreas alagadas, mas, daqui a duas semanas, com o fim das chuvas, o drama da população será esquecido. No próximo ano, com um novo presidente da República, as cenas se repetirão, “como se a chuva não gostasse dos pobres, quando, na verdade, somos nós (grifo meu) que não gostamos deles”. Buarque sugeriu, aquilo de sempre e que é sugerido por todo cidadão de são juízo:“diante dessa tragédia, despertemos o país para a necessidade de mobilizar recursos técnicos e financeiros para fazer obras de drenagem, de proteção de ladeiras, de contenção de encostas e de construções sólidas, que protejam a população pobre”. E finalizou pondo o dedo na maior ferida nacional, ao afirmar que “os pobres também não cuidam de si quando não votam certo”. Concordo com ele. E já sei que vão errar, outra vez, em outubro, pensando que vão tirar o pé da lama.
NOTA: Fotos colhidas no Google Imagens

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Podes Crer!

Cada povo tem seu uso, cada terra tem seu fuso”, acho que era assim um ditado que minha finada mãe dizia, quando se admirava de certos hábitos e costumes, aqui ou acolá, neste mundo do meu Deus. Andando e conversando, a gente vê coisas que não nunca imaginava existir ou que existiu no passado distante. Exemplos:
1 – Tem coisa mais engraçada você descobrir que ainda existem, em Lisboa, capital de Portugal, as antigas carpideiras. Imagine que, em pleno século 21, ainda há espaço para uma mulher em trajes de luto fechado, pranteando, um defunto ou uma defunta, sem que guarde vinculo familiar ou mesmo de amizade. Sinceramente, é no mínimo engraçado. Acho que não tem nem mais nas brenhas sertanejas do Nordeste. Eu não sei como assistiria uma cena dessas. Acho que teria de me retirar, para não cair na risada. Elas existem e, inclusive, aparecem em peças de publicidade (Veja a foto acima) de uma marca de água mineral portuguesa, sob a justificativa de que o produto se faz necessário à manutenção da hidratação da penitente. Imagino, pelos outdoors que vi recentemente nas ruas de Lisboa, que essas profissionais do choro fúnebre têm muito trabalho praquelas bandas. Podes crer!
2 – Nos tempos de hoje, em Belém, capital do Pará, por onde andei há uma semana, observei que não existem as hordas de pedintes ou limpador de pára-brisas dos automóveis, nos semáforos da cidade, como nas grandes outras capitais brasileiras. È surpreendente. Lembro, é verdade, de um malabarista, bem apessoado, talvez mochileiro estrangeiro, que em troca das suas evoluções espera uma recompensa financeira dos motoristas, que esperam o sinal verde. Há também vendedores ambulantes oferecendo frutas amazônicas ou artigos ligados à seleção brasileira de futebol, nestes tempos de Copa do Mundo. De resto, nada mais vi. Mas, o que constatei foi que aquela gente do Norte não é levada a mendigar. Orgulho? Nada! Fartura? Sim! O paraense, como o nortista em geral, tem a vantagem de viver no “planeta água”. Pobre de lá, o caboclo amazonense, vive muito bem à margem de um dos muitos rios, que formam a imensa bacia do Amazonas. Nasce, cresce e se reproduz numa sociedade silvícola caracterizada pela moleza e maciota indígena. Comida não é problema e água, nem se fala. Quando é hora de comer, joga o anzol, pela janela da cabana no esquema de palafita e fisga um pescado que, ainda protestando a captura, vai direto para a frigideira ou braseiro. No fundo do quintal, numa terra fertilíssima, busca outros alimentos típicos de origem vegetal, que completa a dieta. Comida sadia, farta e sobrevivência garantida. Haja saúde. Uma longevidade de dar inveja. Resultado: ninguém precisa pedir esmola, fazer um biscate ou roubar. Em Manaus, embora haja, pelo menos, três grandes fábricas de motocicletas, não se vê motoqueiros nas ruas da cidade. Uma moto perdida no trânsito pesado do dia-a-dia. É engraçado. Os nativos, simplesmente não têm hábito de usar o veiculo de duas rodas. Usam barcaças e canoas. Uma grande e bela Veneza!
3 – Meu irmão, que vive em Los Angeles, Estados Unidos, me liga no fim de semana e relata sua tristeza por ter que castrar o cão macho, que está criando, há cinco meses. Ao se tornar adulto todo animal da raça canina (os gatos também) deve passar pela castração. Por que fazer esta maldade? Perguntei indignado. Porque é lei local, respondeu-me, explicando ser a forma de conter o crescimento da população canina na cidade. Não pude crer. E aí não existe sociedade protetora dos animais? Indaguei impressionado. Existe e apóia! Foi a resposta. Incrédulo, corri para o meu consultor o Professor Google, e ele me confirmou: “Los Angeles aprova esterilização de cachorros e gatos da cidade. Com esta norma a cidade das estrelas castrará os cachorros e os gatos quando atingirem os quatro meses de idade. Os especialistas concordam em que castrar é a melhor solução, a longo prazo, para o problema da grande população de cachorros e gatos. "Não é só o melhor que se pode fazer, é o correto", disse o prefeito de Los Angeles, Antonio Villaraigosa, em entrevista coletiva na qual contou com o apoio de grupos em favor dos direitos animais. O descumprimento da ordem trará penas econômicas para os donos que resistam a castrar seus animais de estimação, que vão desde um mero aviso por escrito, se for a primeira vez, até uma multa de US$ 500 ou 40 horas de serviço comunitário a partir da terceira infração. Os gatos e cães que participarem de competições, assim como os cães-guias utilizados pela Polícia ou os pertencentes a criadores profissionais ficarão isentos do cumprimento desta lei.” A lei é de 2008. Assim, para o meu irmão sair à rua ou parque, com o cachorrinho dele, além de portar a carteira de identidade (lá tem isso também, que é chamada de licença para o animal circular) o animalzinho deve exibir a cicatriz de extração das duas bolas traseiras. Ai que dor! Que crueldade!
Bom, tudo isto é verdade. Que jeito? Podes crer.
NOTA: Foto da carpideira foi feita pelo Blogueiro, numa rua de Lisboa, em maio passado. As demais foram colhidas no Google Imagens.

domingo, 13 de junho de 2010

Emoções e Sabores

Quando alguém decide manter um blog, com atenção periódica e sistemática, como é o meu caso, tudo que presencia, participa e observa passa, automaticamente, a constituir pauta de postagens. Tudo que vejo passando ou tudo que vejo quando passo me provoca comentar neste espaço do Blog. Assim foi nas duas últimas conversas, quando falei sobre lugares que visitei na recente viagem a Europa, que me rendeu uma pauta sem fim. Depois da Itália, andamos pela Espanha e Portugal, cujas impressões principais relato nesta postagem, de forma sucinta e tirada de dentro da alma com sabor e emoção.
Sempre vejo a Espanha como um ambiente de festa. É incrível a alegria daquela gente e o ar de comemoração que sempre se respira. Chegamos a Madrid num fim de semana durante as festividades do padroeiro San Isidro. Aí sim, é festa de verdade. O povo sai às ruas, vestido a caráter (vide foto a seguir), disposto a comemorar a vida, a nação e o santo. Bebe-se, come-se, baila-se e confraterniza-se na maior ordem e o no maior colorido. A beleza é tamanha que, confesso, chega a emocionar um blogueiro besta como eu. A Plaza Mayor, no coração da cidade, estava deslumbrante naquele sábado de primavera.
Quando bateu uma fome, entramos num restaurante próximo à Gran Via, no coração da cidade, e cometemos o que classifico de uma orgia gastronômica: de entrada uma travessa de Pata Negra, o supra-sumo de presunto espanhol, regado a um bom vinho de La Rioja. Derretia na boca... Pela fartura do serviço, já seria uma refeição completa, se não estivéssemos na Espanha, que não era o caso, porque, em seguida, veio o segundo prato, que foi uma autêntica paella. O chef de cozinha veio pessoalmente apresentar a obra (vide foto a seguir). Olhe que eu me julgo conhecedor e, até mesmo, paelleiro, mas, aquela estava perfeita. Fartei-me. Mas, veio a hora da sobremesa e vi-me ceder aos apelos da dona do restaurante e, não sei como, devorei uma coisa deliciosa, que até hoje fica difícil explicar o que era, salvo dizer que era uma espécie de manjar dos deuses. Como saideira, um café e um licor caseiro fantástico. Pensei em fazer o longo caminho de Santiago, para provocar a digestão.
Depois disso, para arredondar o clima madrileno corremos para um tablado a assistir um espetáculo de Dança Flamenca. Escolhemos o Corral de la Moreria (http://www.corraldelamoreria.com/), reputado como o mais famoso do mundo. Consta da lista do livro 1000 Lugares Para se Ver Antes de Morrer. Entre os espectadores mais famosos, com fotos penduradas na casa, estavam Marlon Brando, Omar Shariff, Richard Gere, Sandra Bullock, Michael Douglas e muitos outros. O show, asseguro que foi um show. Eletrizante. Não sei como conseguem sapatear daquela forma. Pela vibração que transmite é, também, emocionante. Se você quiser ver a vibração da casa entre no YouTube e procure com o titulo Corral de la Moreria. É sensacional.
Mas, Madrid se mostra cheia de outras fantásticas atrações, particularmente no item museus. Não me canso de percorrer o El Prado, com as fantásticas telas de um El Grego, Velásquez, Rubens, Ticiano, entre outros, diante das quais me rendo à emoção. Outro, é o Museu Reina Sofia, com as obras dos maravilhosos loucos que foram Picasso, Miró e Dali. A histórica tela da Guernica, de Picasso, entre elas. É bom demais, para quem ama as artes.
Ainda tivemos tempo de dar uma volta pela belíssima cidade medieval de Toledo e receber a bênção do Apostolo Santiago, em Santiago de Compostela, neste Ano Santo de 2010, de onde saímos certo de que recebemos indulgencias plenárias. Como não se emocionar diante daquela multidão, movida pela Fé e extasiada diante de um imenso turíbulo, oscilando em pêndulo, sustentado por grossa corda, no teto daquela imensa catedral, incensando o mundo? É preciso ser alienado, para deixar passar aquela cena sem soltar uma interjeição, qualquer que seja. Emociona, sim Senhor!
Vigo, na Galícia, onde passamos três dias, fechou nossa passagem pela Espanha. Bela cidade sobre o Atlântico, importantíssimo porto pesqueiro, de fama mundial, e paraíso da gastronomia a base de frutos do mar. Não conheço nada igual neste mundo. Esta foi minha segunda visita à cidade e o suficiente para elegê-la como a melhor para o assunto. Nunca vi ostras tão exuberantes e, sobretudo, deliciosas. (vide foto). Alias, a diversidade de crustáceos e peixes, naquela cidade, é de tal maneira que, três dias é pouco tempo para dar conta de degustá-los.

O fim da nossa viagem foi na cidade do Porto, em Portugal, onde geralmente a gente começa a sentir que está voltando. Tanto pelo idioma, quanto alguns costumes expressos pelos lusos, que no final das contas nos mostraram o caminho da civilização.
Depois de um brinde, com um legitimo Porto, numa cave a beira do Douro, nas bandas da Vila Nova de Gaia, tomamos o rumo do Brasil, cheios de emoções e saudosos sabores, que somente uma boa viagem proporciona.

Notas: 1- Fotos do Blogueiro 2- O blogueiro esteve em Vigo numa Missão Empresarial, representando o Sindicato das Industrias Metalurgicas e Mecanicas de Pernambuco

sexta-feira, 4 de junho de 2010

La Bella Itália

Nossa recente viagem a Europa não se limitou à República Tcheca. De lá, fomos também à, sempre bela, Itália. Não fizemos o circuito turístico de praxe. Mas, com certeza, centramos nossa estada numa nobre cidade italiana: Bolonha, onde tive um compromisso profissional. E, dada a proximidade desse nosso ponto de parada, fizemos um passeio a Veneza.
Bolonha, capital da região da Emília-Romana, é uma das cidades que mais gosto na Itália. Acho que porque se trata de um lugar mais tranqüilo, livre das avalanches de turistas como acontece em Roma, Florença ou Veneza. A cidade é raramente incluída no roteiro do turista comum.
Já estive em Bolonha várias vezes e sinto sempre imenso prazer a cada vez que chego por lá e sinto saudade na hora da partida. Com um belíssimo centro histórico (vide foto a seguir), um comércio sofisticado e uma cozinha invejável, que conquista o visitante pela boca, secundada pelos preciosos vinhos (a Região é lugar dos vinhos feitos com as seletas uvas Sangiovesi, entre os quais o famoso e caríssimo Brunello de Montalcino, por exemplo). Conquista, também, pela beleza do seu comércio sofisticado e pela história que conta. Impossível não se render a esses atrativos. Além do mais, Bolonha tem um nível cultural invejável e é um dos centros universitários mais famosos da Europa. É lá que se encontra a mais antiga universidade do mundo. Outra característica da cidade são as galerias e arcadas de quase todos os prédios.
A propósito, já tive oportunidade de falar e descrever sobre esta cidade, com mais detalhes e mais propriedade, numa postagem de junho de 2008, quando de lá retornei. Para acessar a referida postagem, clique no link: http://gbrazileiro.blogspot.com/2008/05/bolonha-cenrio-em-terracota-p-no-mundo.html
O passeio a Veneza fez-me resgatar imagens do meu ontem. A primeira vez que estive por lá ainda não havia completado meus vinte e cinco anos de idade. Depois disso, retornei mais duas vezes, fora essa ida de agora. Indiscutivelmente, é um lugar mágico. Diferente de tudo que se vê no resto do mundo. O que muda, mesmo, para o visitante recorrente, meu caso, é a maneira de apreciar a cidade e a companhia, que pode ser importante num ambiente tão romântico. É isto. Mas, no final das contas, nada parece haver mudado. Está tudo do mesmo jeito visto na prima volta. Com as mesmas e muitas informações, num verdadeiro amontoado de monumentos, palácios, barcos, máscaras, gôndolas e gondoleiros maviosos cantando Il sole Mio, igrejas, gente, cores, sorvetes, vidros de Murano, orquestras, música, mais gente, cafés e muitas outras coisas. E, claro, tudo mergulhado numa imensa laguna formada com águas do Mar Adriático. Veneza é isto.
Por ser, no meu dizer, um amontoado de informações, procuro a cada volta descobrir algo novo, embora seguramente antigo. Seculares...
Nestes tempos de Primavera, quando o sol resolve se recolher prá lá das nove da noite, a tarde se espicha e rola a maior festa na Piazza San Marco, às portas da mais bela fachada de igreja que conheço (vide foto a seguir) e ao som de várias orquestras executando os maiores sucessos da
musica pop internacional.. Foi para lá que corremos – eu, minha mulher e outro casal amigo – a bordo de um vaporêto (ônibus da cidade) que faz a linha partindo da Estação Central de Veneza (Santa Lucia) num percurso completo pelo Gran Canal, passando por baixo de duas joias arquitetônicas, as pontes de Rialto (construída em 1588), vide foto a seguir, e a de Cá d`Oro, até a citada praça.
Haja historia para se respirar. Fala-se que os venezianos surgiram a partir do século V. É, sem duvida, um lugar exótico e lindíssimo, por isso mesmo, destino de muitos casais em lua de mel, vindos do mundo inteiro, onde explodem suas paixões e se desdobram em juras de amor eterno, seja navegando numa gôndola entre os canais ou em alcovas propicias, de hotéis românticos, especialmente preparados para esse fim.
Nessa nossa passagem por Veneza, presenciamos, em meu ver, um acidente de percurso, no nosso passeio, que foi a tomada de cenas de um filme com dois famosos protagonistas – Angelina Jolie e Leonardo de Caprio – provocando o maior engarrafamento de pedestres que pude ver na vida. A situação virou uma coisa do tipo "quem está dentro não sai e quem está fora não entra!". Por isso, enquanto durou, parecia um riquififi de pagode safado, com a policia dando as ordens. Um transtorno geral diante do Palácio dos Doges e arredores da Praça de San Marco, cercados por um forte cordão de isolamento e enormes seguranças. Ah! O mulherio estava ensandecido. Tinha nega perdendo a razão. Um cossa-cossa e empurra-empurra geral. Gritinhos, suspiros e histeria tornaram o ambiente mais tumultuado do que o normal. Para mim, um transtorno. Divertido, ainda, foi observar que tinha muito neguinho e neguinha, aos berros, vestindo a camisa da seleção canarinha. Imagine a futrica que foi isto. Estou achando divertido contar. Na hora, fiquei irado.
O final do nosso passeio foi dedicado a uma deliciosa percorrida pelos becos estreitos, recheados de lojinhas e atravessando algumas pinguelas venezianas, num trajeto entre San Marco e Rialto. Divertido e inesquecível, claro.
NOTA: As fotos foram colhidas no Google Imagens

Tropeços Diplomáticos

Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...