segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Nordeste em Pauta


Comecei a semana passada indo ao Rio de Janeiro, numa missão de trabalho, para participar de mais uma rodada de discussões no bojo do projeto Integra Brasil, promovido pelo Centro das Indústrias do Ceará – CIC e que teve lugar na sede do Banco do Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. A pauta central do encontro teve como objetivo colher opiniões de empresários, representantes de governo e estrangeiros a respeito do Nordeste, na atualidade. Por lá passaram executivos de empresas brasileiras de sucesso e que atuam no Nordeste, executivos do Governo Brasileiro, membros da Academia e representantes de entidades Internacionais.
Foi contagiante ver os executivos da Agrícola Famosa, da Cosmética Boticário e dos Magazines Luiza falarem dos respectivos projetos no Nordeste e nos frutos que colhem. O primeiro, atuando no interior do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, é hoje o maior produtor mundial de melão (variadas espécies), maior exportador nacional do produto e, cheio de entusiasmo, bendizer o Sol da região, que lhe proporciona colher frutos dos mais saborosos e que atendem aos paladares mais exigentes dos Estados Unidos, Europa e Oriente. O representante d’O Boticário, por sua vez, revelou-se satisfeitíssimo com o desempenho da sua marca no Nordeste, presente em milhares pontos de venda, inclusive nas mais simples localidades. Com uma grande central de distribuição na Bahia, a marca vem fazendo a cabeça dos nordestinos, com produtos ecologicamente corretos e de fama internacional, O Boticário é maior produtor do gênero no país e o nono no ranking mundial. No final do bloco de depoimentos empresariais, Dona Luiza, fundadora e presidente dos Magazines Luiza, discorreu, com brilho e muita energia, sobre sua satisfação de haver entrado no mercado nordestino, após comprar a rede de varejo Lojas Maia, originária da Paraíba. Pelo que disse está vendendo “adoidado” nas praças onde se instalou. Fez menção aos Programas Minha Casa, Minha Vida e ao complementar Minha Casa mais Bonita, sob a tutela do Governo Federal, que vem expandido de modo impressionante suas vendas na Região. Colecionei muitos números dessas empresas, mas, resolvi não incluir, propositalmente, neste artigo para, ao contrário disso, manifestar-me preocupado com a seguinte linha de pensamento: embora entendendo que o Nordeste tem que ser visto como um mercado em expansão, graças principalmente à política de inclusão social, com a Bolsa Família, Bolsa Gás, programa de habitação popular e respectivo aparelhamento doméstico, entre outros, por que os empresários locais não têm tido oportunidades de crescer? Não é intrigante? Bancos regionais, não existem mais. As grandes redes de supermercados desapareceram com o passar dos tempos, sendo tragadas, inclusive, por grupos estrangeiros. A Ypióca não é mais dos cearenses. D. Luiza veio com todo gás (ela parece ser cheia disso) e numa lapada certeira “matou” a grife das Lojas Maia. Um advogado de visão empresarial fechou a banca de advocacia no interior paulista e se meteu no meio da aridez do interior potiguar e com pequeno investimento inicial implantou a maior produtora de melão do mundo, graças a uma moderna tecnologia da irrigação. Não satisfeito somente com o melão, diversificou e já produz banana, maracujá, melancia e, pasmem, produz aspargo da mais alta qualidade.  
Fica claro que falta aos empresários regionais a competência de quebrar paradigmas de produção tradicional, deixando espaços que só são vistos pelos empreendedores alienígenas. Preservar até morrer as tradições culturais, o renitente padrão da empresa familiar, alimentar o  temor de arriscar num contexto econômico moderno e não saber recorrer aos programas de incentivos governamentais, que terminam favorecendo quem vem de longe, parecem ser o padrão do empresariado regional. Um agressivo programa de incentivo ao empreendedorismo para mudar essa “psicologia” da inércia cairia bem sobre os esses protagonistas de negócios. Sobremodo nas novas gerações. Que os coordenadores e promotores do Integra Brasil estejam atentos a este viés.
O restante da rodada de discussões no BNDES ainda contemplou momento para os representantes do Governo que, como de se esperar, desdobraram-se para “vender o peixe” de Dona Dilma. Patéticos os que se referiram às obras de infraestrutura, como se tudo estivesse em franco progresso. Patéticos porque pareciam ser desinformados. Sem comentários.
Por fim, no espaço reservado aos depoimentos estrangeiros, o destaque ficou com o Professor Ignacy Sachs, um estudioso da questão nordestina, que causou certo impacto ao não trazer (aparentemente) um discurso preparado e, ao invés disso, jogar na cara da plateia uma pergunta contundente: “como está a reforma agrária do Nordeste?” Imaginem a surpresa de todos. Houve um silencio sepulcral... Seguido de alguns poucos comentários sem bons argumentos. Esta foi a Pauta Nordeste, no Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 2013.

NOTA: O Blogueiro participou do evento como representante do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e Mecânicas de Pernambuco (SIMMEPE) e do Centro das Indústrias de Pernambuco (CIEPE)

 

 

sábado, 17 de agosto de 2013

FIQUE ATENTO

A questão regional do Nordeste brasileiro vem se tornando, ultimamente, assunto da ordem do dia nos mais diversos ambientes institucionais da Região. Com muitas preocupações as lideranças empresariais, políticas e governamentais locais retomam essa discussão, depois de longo período “hibernando”. Voltam com força para provocar debates com vistas a uma revisão das políticas de intervenções articuladas, com vistas ao desenvolvimento socioeconômico desta parte do Brasil que, não obstante esforços anteriores, continua a requerer especiais atenções.
Também, pudera, há muito tempo não se fala em política de desenvolvimento regional neste país. Sai governo, entra governo e o assunto vem sendo posto à margem das discussões e decisões nacionais, como se o Nordeste não fosse parte desse todo nacional. Ações pontuais são anunciadas com grande estardalhaço e muita politicagem, mas os efeitos são quase sempre desconhecidos ou “empurrados com a barriga”. O que mais se vê são obras no papel, outras paralisadas ou caminhando a passos de tartaruga. Exemplos disso são as construções da Ferrovia Transnordestina, do Canal da Transposição do São Francisco, a falta das linhas de transmissão da energia gerada nos Distritos de Eólicas e a duplicação da BR-101 no litoral da Região. Como o Nordeste não pode ir para frente apenas com obras esparsas é preciso que se exija, urgentemente, das autoridades governamentais uma intervenção harmônica capaz de contemplar programas de desenvolvimento regionais, respeitando as peculiaridades de cada espaço especifico do território e sem perder de vista seu todo. As atuais discussões, portanto, são oportunas.
Participando de alguns desses debates, recordo as opiniões de dois ilustres nordestinos – Tânia Bacelar e João Paulo dos Reis Veloso – que têm alertado para o fato que existem vários nordestes. Concordo com esses importantes pensadores sobre a problemática regional. De algum modo eles lembram que existem ilhas de relativas prosperidades, encravadas num ambiente maior onde a pobreza grassa de forma renitente e o progresso é pura utopia para os que lá vivem.
Duas iniciativas recentes são dignas de registro: a primeira, sobre a qual já tive oportunidade de falar neste espaço do Blog do GB, é o Integra Brasil conduzido de forma competente pelos empresários reunidos no Centro das Industrias do Ceará - CIC, levando o debate às mais importantes praças da Região, e o Fórum Sudene 2030, realizado esta semana aqui o Recife. O primeiro pretende chegar a uma proposta de política regional de desenvolvimento e o segundo tentou discutir um cenário para 2030.
Se por um lado, Tânia Bacelar mostra, com expressivos dados, o que há de bom e de ruim, na Região de hoje, e convida para uma reflexão sobre os atuais fatores que ameaçam o futuro desenvolvimento regional, por outro lado, Reis Veloso se sai com uma bombástica mensagem garantido que o Piauí, ao contrário do que se diz corriqueiramente, é justamente o lado rico do Nordeste. Ora, vejam só, quem diria? Respeitando a inteligência do orador – isto foi no Fórum da Sudene, esta semana que termina – e o fato de ser ele um piauiense de boa cepa, é preciso ter muito  cuidado na interpretação do que foi dito. Percebi que a referencia básica dessa tese foi o fato de que ali (no Piauí) não se padece do fenômeno das secas como no restante da Região. Trata-se de uma terra fértil, banhada por uma rede hidrográfica diferenciada e capaz de produzir riqueza e bem-estar social. Está na hora, então, de se explorar melhor as potencialidades daquele espaço privilegiado. O Nordeste vai agradecer a contribuição.
Num recente debate, em Salvador (BA), durante seminário do Integra Brasil, agreguei uma palavra nova ao meu vocabulário: Mapitoba. Fiquei intrigado quando ouvi pela primeira vez. Mais ainda ao constatar que a assistência tinha intimidade com o termo/palavra. Foi quando veio a explicação. Senti-me alienado. Trata-se de uma região rica e cheia de potencialidades, na grande parte do Nordeste e parte menor do Norte. É a nova fronteira agrícola do Brasil, definida pela junção das divisas dos Estados do Maranhão (MA), Piauí (PI), Tocantins (TO), e Bahia (BA). Agora junte as siglas MA+PI+TO+BA. Soja e Arroz é o ouro da área. 14 Milhões de Toneladas, em 2012. Espera-se 20 Milhões, em 2022. Detalhe: se tivéssemos infraestrutura adequada essa riqueza não estaria vazando pelas rodovias e portos do Sudeste. Olha a falta que faz uma Transnordestina ou uma rede de navegação fluvial. Infraestrutura, gente, que não temos.

Por tudo isso é chegada a hora de colocar “a boca no trombone” outra vez. Quem for nordestino fique atento.

NOTA: Ilustração obtida no Google Imagens.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Torneira Chinesa

Com muita frequência, nos últimos anos, vem se falando de um processo de desindustrialização do Brasil. Associações de classe empresarial, pesquisadores acadêmicos e analistas econômicos vêm alertando para os evidentes sinais desse processo. Custos dos investimentos, custos dos insumus básicos de produção e de energia, encargos sociais e trabalhistas, logística, imposto sobre o lucro, juros altíssimos – inclusive os incidentes sobre o capital de giro –, burocracia e marcos regulatórios, mão de obra despreparada e, por fim, a concorrência dos produtos importados, de modo geral a preços competitivos e tecnologicamente superiores, são os fatores mais evidentes causadores do problema. Tudo junto resulta no popular clichê de Custo Brasil. É um país diante de um desafio colossal para se situar entre as economias industriais mais notáveis do mundo moderno. Pensar que no Brasil, segundo dados apurados pelo Banco Mundial, uma empresa de porte médio chega a pagar o absurdo percentual de 69,2% de imposto total sobre o lucro já é o bastante para entender a questão. Enquanto isto, nos países da America Latina e Caribe este mesmo percentual chega aos 48,3% e os países membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) a taxa de percentual não passa dos 44,5%. É dose! O industrial brasileiro vive, isto é, sobrevive de teimoso que é...
Tem estupidez maior do que uma empresa gastar 2.600 Horas, por ano, no ritual dos pagamentos de impostos? No Brasil é assim! Nos países concorrentes se gasta menos de 10% disto. Este dado foi colhido em “Doing Business 2010 – Brazil”, do Banco Mundial. Depois disso, nem preciso lembrar sobre o que se reserva para o consumidor.
São essas coisinhas acima descritas que provocam essa espantosa invasão de importados no nosso mercado doméstico derrubando as vendas dos produtos nacionais e provocando a consequente queda da produção industrial nacional. O mercado doméstico esta recheado das  bugigangas ching-lings ou mesmo dos mais sofisticados bens de capital ou de consumo durável. Lendo um trabalho divulgado pela ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas, encontrei informações que deixam qualquer industrial de “cabelo em pé” e sem sossego para dormir: um equipamento tipo Centro de Usinagem, Made in China é vendido no mercado internacional pelo equivalente a 10% do que se produz no Brasil. Ainda que se leve em conta a desconfiança que se tem da qualidade do produto chinês e os custos da produção por lá, é de se considerar que eles concorrem. E como concorrem... O mesmo tipo de equipamento produzido na Alemanha – que sabe produzir com qualidade – é mais barato 33% do que o produto brasileiro. Isto se repete na grande maioria das máquinas e ferramentas. É indiscutível que estamos num “mato sem cachorro”.
Neste fim de semana passado senti de perto como a coisa se dá. Precisei substituir as torneiras da cozinha de casa, já gastas após vinte anos de uso. Fui ao mercado e me deparei com produtos dos mais variados preços. Foi preciso muita calma e a ajuda de um “consultor” para concluir a compra. Preços altíssimos dos produtos fabricados aqui perto e preços tentadores dos produzidos pelos caras dosoinhosapertados, do outro lado do mundo. Fiquei num dilema de lascar. Eu tinha razão. Afinal estava prestes a fazer um investimento para durar, pelo menos, dez anos. Gostei pra caramba do design e da funcionalidade das torneiras chinesas, confesso. Mas, indo prá lá e vindo pra cá, persistia uma dúvida atroz. Levo esta ou 
aquela? Meu espírito nacionalista soprava forte nos meus ouvidos, empurrando-me para o produto mais caro. Depois de relutar e sob influência do meu “consultor” garrei das duas chinesas e corri para o caixa. Veja a foto de uma delas, ao lado. KKKK Acreditem: paguei a metade do preço das similares torneiras brasileiras. Com design mais convincente (para meu gosto, é claro), mesmo tempo de garantia, tecnologia atualizada (revestimento interno de cerâmica, evitando a oxidação), me dei por satisfeito. Espero que funcionem por muito tempo. Defendi meu bolso. E os brasileiros estão fazendo isto a toda hora. E a indústria nacional? Que se cuide! Exija a reforma fiscal, reforma da Previdência, melhor infraestrutura, e outras reformas necessárias.

Notas: Foto do Blogueiro.

Informações colhidas no site da Abimaq.

sábado, 3 de agosto de 2013

Salve Francisco

Falar de Francisco, o Papa, quando da sua ascensão em Roma se constituiu num exercício prazeroso. Este prazer se renovou, nesses últimos dias durante e depois da sua vinda ao Brasil, para acompanhar a Jornada Mundial da Juventude. Que sujeito extraordinário! Cativante em simpatia, humilde nos gestos e verdadeiro como ser humano, em tudo e por tudo.
Chegou de mansinho afirmando bater a nossa porta sem trazer ouro ou prata, mas trazendo uma mensagem de amor e fé. No final dos dias enxergamos que, na realidade, Francisco trouxe uma fantástica lufada de buenos aires de paz e esperança para uma juventude cheia de incertezas e uma Nação intranquila, carente de um líder que desempenhe um papel de pai da pátria. E o resultado foi visto nas ruas do Rio de Janeiro. Aqueles que, porventura, puderam se aproximar, tocar, abraçar, chorar no ombro e falar com o Santo Padre foram responsáveis pelo recado que a Nação quis dar aos nossos governantes e ao Mundo. E à Velha Igreja Católica, naturalmente.
Acostumados à imagens austeras e distantes de outros papas, o mundo inteiro e os brasileiros, particularmente, foram surpreendidos com um Francisco, igual a outros franciscos que esbarram conosco no meio da rua. Ele foi um dos que esbarrou, até mesmo num inesperado engarrafamento de transito, com muitos outros.  Abraçar a todos que alcançava, beijar a toda criança que lhe traziam, abrir a janela do popular carrinho (um Fiatizinho Idea) no qual circulava para sentir o calor e o cheiro do povo, tomar do mesmo chimarrão – como argentino, ele é chegado a um matecito – de um popular no meio de um desfile no Papamóvel,  rezar um Pai-Nosso de mãos dadas com dois pastores protestantes, na visita à favela, entre outros gestos tão populares quanto estes, transformaram Francisco num pop-star. Francamente, impossível não admirar esse Homem. A placa carregada por um jovem, na multidão de Copacabana, dizendo-se evangélico, mas encantado por este Papa foi outro momento fora do normal. Aliás, foi tudo fora do normal. Para melhor, graças a Deus e a Francisco. Salve Francisco, minha gente!
Pela TV acompanhei atentamente os passos desse Homem e encantei-me com cada detalhe. Achei insólito vê-lo subir as escadas de um avião, bem ligeirinho e carregando uma pasta pesada. Nunca antes na história do Vaticano! Papa tinha que ser quase parado. Lembro agora que Bento 16, por exemplo, descia as escadas em passos lentos e estudados, parecia uma múmia saída de um sarcófago do Museu do Louvre. Era aquela coisa distante, como quem descia do céu. Francisco não... impossível esquecer a resposta dele ao repórter que quis saber o que trazia naquela pasta. De certo modo, uma indiscrição. Mas, sendo Francisco, tudo cabe. Ou quase tudo... “O que há de anormal nisso?” respondeu Sua Santidade. E completou: “trago objetos pessoais, como um barbeador, uma agenda, meus discursos, um breviário e um livro que estou lendo, de Santa Terezinha, de quem sou devoto”. Vejam quanta simplicidade. Outra prova de que este Papa quer se mostrar como um homem comum, de carne, osso e todas as necessidades humanas. O mundo estava precisando ver uma coisa dessas. O fato de dar uma entrevista ao Jornalista Gerson Camarotti se constituiu num furo de reportagem, em nível mundial. O Vaticano sempre se opôs a esse tipo de expediente. Outra vez, era preciso que fosse Francisco, um Santo de carne e osso. Acho que qualquer dia ele vai sair por aí sem batina. Por que não? Não usa as joias de ouro, dispensou o sapato vermelho e também aquela pelerine vermelha cheia de arminho. Coisa muito antiga, usada pelos papas que se julgavam reis.

Detalhes à parte, temos que valorizar e ficarmos atentos para as intenções que Ele vem manifestando de corrigir defeitos cabeludos e, por isso, pontos de fragilidade que sabemos existem no seio da Igreja, entre os quais os casos de pedofilia, a corrupção envolvendo o Banco do Vaticano e a Cúria Romana, os tratamentos a serem dados aos homossexuais e as uniões homoafetivas, aborto e comunhão para os divorciados. Salve Francisco!

 Nota: Fotos obtidas no Google Imagens.

  

sábado, 27 de julho de 2013

A Chegada de Dominguinhos no Céu

“Ôxi esse minino... e isso são hora de chegar? Tamo aqui derna de dezembro plantado ti esperano. Cum pouco tava desistindo. Subisse divagar, num foi? Poi  bem, já que chegasse, vá entrano... seja muito bem vindo. E tem mai, avia ligerin e garra do fole pa mostrar p’essa gente cá de cima como se toca um forró bem tocada. Vamo lá minino, eu te acompanho.” Imagino que foi assim que Luis Gonzaga recebeu Dominguinhos, na porta do céu, esta semana.
Gosto muito de registrar neste espaço do Blog do GB as personalidades ilustres, da música popular, que partem “desta para uma melhor”, como se diz no meu Pernambuco. Lembro de haver falado da argentina Mercedes Soza, La Negra, e da sul-africana Miriam Makeba, a Mama África, quando nos deixaram. Hoje é a vez de falar e enaltecer a figura do genial sanfoneiro/compositor pernambucano José Domingos Morais – Dominguinhos – que, depois de seis anos lutando contra um câncer de pulmão e sete meses hospitalizado em agonia, partiu para a eternidade deixando uma legião interminável de admiradores de todas as idades e matizes sociais. Sua obra se constitui num dos mais notáveis acervos da música popular brasileira, dos últimos tempos. Herdeiro musical do magistral e sempre lembrado Luis Gonzaga, brindou o mundo com canções e arranjos musicais que atravessarão tempos por vir, mantendo bem viva sua presença entre os viventes.
Homem querido, artista virtuoso, manso e solidário, colega na arte, fez amigos e amigas por onde passou. Com uma voz lenta e uma sensibilidade sem igual, Dominguinhos deve ter partido com uma alma leve e cheia de graça.
Embora fizesse parte do meu circulo familiar – foi casado com minha prima Guadalupe Mendonça – tive poucos momentos de convivência com ele. Certa vez, num encontro promovido pelo Governo do Estado, quando “vendíamos” o produto Pernambuco, num importante centro de compras em São Paulo, tive o prazer de recebê-lo no palco, onde se apresentou como atração máxima. Ali, recordo bem, tive a melhor das nossas conversas. Trocamos algumas informações sobre a família, rimos em algumas passagens e curtimos a ocasião. Guardo na lembrança a imagem de um cidadão de gestos amáveis e sempre bem humorado. Embora star e pop consagrado, que de fato foi, pareceu-me ser alguém que não se julgava o maior ou situado acima dos outros.
Fez parcerias magníficas, com inúmeros cantores famosos da MPB, alguns dos quais fizeram ontem, durante seu velório e sepultamento, no Recife, as homenagens devidas e de corpo presente. Confesso que nunca havia assistido um funeral daqueles. Houve um misto de consternação e alegria que somente um artista daquela envergadura poderia sugerir. Autoridades, amigos, familiares e parentes, colegas da arte, muitos sanfoneiros criaram o clima da ocasião.  Um verdadeiro show de arte musical nordestina. Na rua a multidão esperando a saída do ataúde, entoando os sucessos do artista. “Eu só quero um xodó” sucesso dos anos 70, na voz de Gilberto Gil, era cantado em coro, numa verdadeira ovação. Choros e aplausos se misturavam às margens de um Capibaribe plácido e belo indo ao encontro do  Beberibe e desaguando no Atlântico.
Mas, uma coisa fantástica de Dominguinhos ficará na minha memória enquanto viva estiver: num show de Nando Cordel escutei dele um relato fantástico. Contou que certo dia Dominguinhos foi até ele com a maior "dor de cotovelo" e se lamentando pela separação de Guadalupe. Pediu que fizesse com ele uma música que retratasse a situação. Foi quando surgiu um dos seus maiores sucessos com “Tô com saudade de tu, meu desejo, tô com saudade do beijo e do mel...”. Passado algum tempo e tendo voltado às boas com a mulher amada, foi a vez de cantar o momento de harmonia. Aí, aconteceu outro sucesso: “Estou de volta pra meu aconchego...” Essas duas composições estouraram na parada de sucessos e até hoje são cantadas como sendo as da moda. No velório de ontem, Elba Ramalho entoou-as com alma e coração, emocionando todos quantos presentes na Assembleia Legislativa de Pernambuco.
José Domingos Moraes descanse em paz e com a certeza de que sua obra é imortal. Você É um daqueles que não morrem. Simplesmente se encantam e continuam encantando o mundo. Bom forró aí no céu, visse?

NOTAS: 1) Do casamento com a, também, cantora Guadalupe Mendonça, Dominguinhos deixou uma filha - Liv Moraes - que herdou dos pais o dom de cantar e encantar. 2)A foto foi obtida no Google Imagens.

 

 

sábado, 20 de julho de 2013

Pobre Periferia

Esta semana tive uma experiência interessante ao participar, em Salvador (BA), de um fórum para discutir a questão regional do Nordeste brasileiro. Vejam só... Vi-me novamente às voltas com o tema que permeou quase toda minha vida profissional, enquanto economista da Sudene. Este fórum foi um dos capitulo de discussões sobre a problemática nordestina, que vem sendo realizado por iniciativa do Centro das Indústrias do Ceará - CIC, sob o titulo de Integra Brasil, com o apoio das entidades de classe empresarial do restante do Nordeste brasileiro. O objetivo é produzir um documento/manifesto a ser levado às autoridades federais, cobrando – pela enésima vez – medidas políticas cabíveis e eficazes para livrar a Região da renitente situação de pobreza. Estou careca de tanto lutar por essa causa.
O povo nordestino vem, por pelo menos cem anos, clamando e reclamando da situação de desprezo e abandono das autoridades constituídas. Os recursos destinados são, quase sempre, paliativos e só chegam em doses homeopáticas, depois de muitos esforços, suor e sacrifício. São investimentos pequenos e localizados de forma a não atender o universo.
Durante os debates de Salvador fui me atualizando e conclui que mesmo depois de todos os esforços desenvolvidos pela Sudene, Banco do Nordeste, Dnocs, Chesf, entre outros órgãos de fomento, inclusive os estaduais, a Região continua mostrando índices econômicos e sociais que revelam o profundo fosso que a separa do Brasil Grande, centrado no Sul maravilha. Um dos mais flagrantes é o percentual do PIB regional em relação ao nacional: apenas 13,5%. Ainda! Pois é. E o Sudeste continua ostentando o maior percentual, que é de 55,4%. Este mesmo Sueste, vejam só, continua sendo o melhor agraciada com os maiores volumes de investimentos do Governo Federal. Só para que se faça uma ideia rápida, dados recentes mostram que mais de 50% dos financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social – BNDES são levados para projetos no Sudeste Beleza. Rodovias, portos, projetos do setor privado, escolas, hospitais, mobilidade urbana, eventos culturais e outras miudezas. Para melhor situar o leitor ou leitora, saibam que: o Norte responde por 5,3 % do PIB, o Sul por 16,5 e Centro-Oeste por 9,3.
Outro dado que merece uma reflexão é o das concessões do Programa Bolsa Família. Para onde vai o maior volume de recursos? Para o Nordeste é claro! Quanto? 51%. É ali que reside a pobreza, meus amigos e amigas. Tem prova melhor do que esta para revelar a situação de atraso da Região? Acho que não. A nossa gente ganha, agora, o bolsa, vai ao mercado, adquire alimentos, compra serviços e isso é razoável. Mas, compra, também, bens de consumo duráveis. Dinamiza o mercado local, é verdade. Todavia, ironicamente, na compra dos bens de consumo durável, a renda vaza para o Sudeste porque é de lá que vem a produção desses bens. Não é danado?  Fico indignado. Mas chega! Não vou mostrar nenhum número a mais. Tenho vergonha. Trabalhei anos a fio, numa competente equipe técnica, para mudar essa situação e a coisa parece ter sido inútil. Cabe, então, a pergunta: onde erramos?
Não, nós não erramos. Os erros que vêm sendo cometidos ficam por conta dos desmandos políticos e dos políticos incompetentes. Temos uma bancada grande, mas sem condições de levantar a voz.  A questão do Nordeste sempre foi e nunca deixará de ser uma questão política. Lembremo-nos que só se consegue alguma coisa quando ocorre a vontade política. E essas, infelizmente são espasmódicas. Foi dessa maneira que instituíram o Dnocs, a SUDENE, o BNB e a Chesf. Estes trabalharam e produziram. Mas, foi insuficiente. Faltou a decisão de investir de forma maciça, no tanto e no como dos projetos apresentados.

Naturalmente que o Nordeste cresceu, porque o Brasil cresceu e arrastou a Região. Mas o crescimento se deu concentrado nas regiões metropolitanas. Recife, Salvador e Fortaleza são provas concretas disso aí. Mas esse não é o Nordeste sobre o qual me refiro. O Nordeste que ronda sobre minha cabeça, neste momento, é aquele mais prá lá das metrópoles e capitais menores, sem rodovias dignas para alcança-lo, castigado pelas secas frequentes, onde o progresso é somente palavra inscrita no auriverde e augusto símbolo da pátria, onde a educação e a saúde inexistem, a moradia é subnormal, o roçado é perdido, onde o gado morre de sede e a fome impera. Falo de um Nordeste que carece de infraestrutura competitiva, de perfeita distribuição de águas (interligação de bacias hidrográficas), investimentos produtivos e de educação, saúde e emprego para sua gente.
Tomara que o Integra Brasil dos cearenses do CIC resulte num forte apelo político junto aos mandatários da Republica e deixemos de ser Pobre Periferia.

NOTAS: 1. Participei do evento em Salvador como representante do Centro das Industrias de Pernambuco - CIEPE e do Sindicato das Industrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Pernambuco - SIMMEPE 
2. Foto obtida no Google Imagens



segunda-feira, 15 de julho de 2013

Nativismo Puro

Sempre me surpreende o fato de que na maioria dos estados do Norte e Nordeste são encontrados torcedores fanáticos de times de futebol do eixo Rio-S.Paulo. Não é sem razão que se diz que o Flamengo tem a maior torcida do Brasil. Acho que a maioria está por estas bandas. Camisas e acessórios com escudo deste e dos grandes clubes sudestinos (com licença Regina Dubeux) dominam as lojas de material esportivo das grandes capitais e pequenas cidades interioranas. Vestindo camisas dos times preferidos e correndo para bares ou locais similares para assistir em telões as partidas que se desenrolam em algum local do Sudeste, nordestinos se aglomeram e comemoram cada lance. “Coisa mais estranha, gente! Será que por aqui não tem times locais?” comentei com um amigo, no interior do Nordeste. “Rapaz é que essa gente aqui só usa a parabólica e as estações sintonizadas são todas do Sul”. Mas, não é isso não... Depois observei que o futebol nessas localidades é coisa recente, os times são tecnicamente fracos e nunca disputam as series A ou B do campeonato Nacional. Ou seja, não empolgam os torcedores locais.
Semana passada comentou-se demais, aqui em Pernambuco, o fato de que uma partida valida pela serie A, entre Fluminense e Botafogo – clássico carioca – disputado na Arena Pernambuco, por falta de cancha no Rio de Janeiro, teve um mísero público pagante de 7.882 pessoas e causou um prejuízo de R$ 41 Mil no borderô. Além do prejuízo arrastaram “uma mala pesada com excesso de peso de decepção”. Mais surpresos ainda ao saberem que os referidos pagantes eram quase todos torcedores alagoanos, potiguares e paraibanos que correram para o Recife para ver de perto seus ídolos.  
Esse pessoal do Sudeste tem uma ideia completamente errada a respeito dos pernambucanos. Não sabem que aqui se joga futebol por mais de cem anos. Que no Recife existem clubes centenários. Que nossa gente entende e gosta de futebol e que só torce pelos times locais. Faz parte da nossa cultura. E cultura em Pernambuco é coisa que se leva a sério. Ninguém troca Sport, Náutico, Salgueiro ou Santa Cruz por qualquer Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama ou Santos. Quando esses times baixam por aqui e nos enfrentam dentro de casa, o “pau come”. Nem sempre se ganha... Cá prá nós, perde-se mais do que se ganha. Mas, não se perde o ânimo, nem a pose. O amor nativista às coisas da terra é um traço muito especial dos pernambucanos.
É preciso que o resto do Brasil entenda melhor o nosso povo a nossa história. Fala-se muito que pernambucano é bairrista. Coisa nenhuma! O que fazemos – com naturalidade – é valorizar e dar realce à nossa bagagem de tradições culturais: nossas lutas políticas, nossas vitórias, nossa música e ritmos, nosso patrimônio arquitetônico, nossa culinária, nosso cancioneiro, poetas e escritores, nossas paisagens, nosso artesanato, nossa bela bandeira e nosso hino e, naturalmente, nosso futebol centenário. Mas, ninguém liga nossas manifestações às raízes históricas que temos. Fazem vista grossa e ignoram que Pernambuco é o Leão do Norte.
Que o episódio da semana passada sirva de exemplo para outros times e que ninguém venha prá cá, dando uma de bam-bam-bam, esperando que os pernambucanos venham render-lhes homenagens. Que percam as esperanças. Na mesma Arena Pernambuco, quando fui assistir o embate entre Espanha e Uruguai, pela Copa das Confederações (mês de junho passado) as torcidas de Náutico, Sport e Santa Cruz ocuparam a Arena vestindo suas camisas e empunhando bandeiras, Mais do que isso “arrasaram” com seus “gritos de guerra”. O “casá-casá” do Sport e o N-A-U-T-I-C-O do Náutico abalaram a Arena e chamou a atenção dos estrangeiros em campo. Arrepiante. Isso sim que é amor nativista. Sinto orgulho da minha gente.
Muito bem, já sabem: quando escolherem locais extra Rio para jogar mudem o rumo. Escolham outras praças e esqueçam o Recife. Voltem somente para disputar o Campeonato Nacional e venham preparados. Pena que os profissionais dos nossos times não são todos pernambucanos. Ai se fossem...   
NOTA: Foto obtida no Google Imagens.

Tropeços Diplomáticos

Por razões profissionais tive boas oportunidades de vivenciar e interagir com o meio diplomático brasileiro, bem como de outros países com o...