sábado, 27 de julho de 2013

A Chegada de Dominguinhos no Céu

“Ôxi esse minino... e isso são hora de chegar? Tamo aqui derna de dezembro plantado ti esperano. Cum pouco tava desistindo. Subisse divagar, num foi? Poi  bem, já que chegasse, vá entrano... seja muito bem vindo. E tem mai, avia ligerin e garra do fole pa mostrar p’essa gente cá de cima como se toca um forró bem tocada. Vamo lá minino, eu te acompanho.” Imagino que foi assim que Luis Gonzaga recebeu Dominguinhos, na porta do céu, esta semana.
Gosto muito de registrar neste espaço do Blog do GB as personalidades ilustres, da música popular, que partem “desta para uma melhor”, como se diz no meu Pernambuco. Lembro de haver falado da argentina Mercedes Soza, La Negra, e da sul-africana Miriam Makeba, a Mama África, quando nos deixaram. Hoje é a vez de falar e enaltecer a figura do genial sanfoneiro/compositor pernambucano José Domingos Morais – Dominguinhos – que, depois de seis anos lutando contra um câncer de pulmão e sete meses hospitalizado em agonia, partiu para a eternidade deixando uma legião interminável de admiradores de todas as idades e matizes sociais. Sua obra se constitui num dos mais notáveis acervos da música popular brasileira, dos últimos tempos. Herdeiro musical do magistral e sempre lembrado Luis Gonzaga, brindou o mundo com canções e arranjos musicais que atravessarão tempos por vir, mantendo bem viva sua presença entre os viventes.
Homem querido, artista virtuoso, manso e solidário, colega na arte, fez amigos e amigas por onde passou. Com uma voz lenta e uma sensibilidade sem igual, Dominguinhos deve ter partido com uma alma leve e cheia de graça.
Embora fizesse parte do meu circulo familiar – foi casado com minha prima Guadalupe Mendonça – tive poucos momentos de convivência com ele. Certa vez, num encontro promovido pelo Governo do Estado, quando “vendíamos” o produto Pernambuco, num importante centro de compras em São Paulo, tive o prazer de recebê-lo no palco, onde se apresentou como atração máxima. Ali, recordo bem, tive a melhor das nossas conversas. Trocamos algumas informações sobre a família, rimos em algumas passagens e curtimos a ocasião. Guardo na lembrança a imagem de um cidadão de gestos amáveis e sempre bem humorado. Embora star e pop consagrado, que de fato foi, pareceu-me ser alguém que não se julgava o maior ou situado acima dos outros.
Fez parcerias magníficas, com inúmeros cantores famosos da MPB, alguns dos quais fizeram ontem, durante seu velório e sepultamento, no Recife, as homenagens devidas e de corpo presente. Confesso que nunca havia assistido um funeral daqueles. Houve um misto de consternação e alegria que somente um artista daquela envergadura poderia sugerir. Autoridades, amigos, familiares e parentes, colegas da arte, muitos sanfoneiros criaram o clima da ocasião.  Um verdadeiro show de arte musical nordestina. Na rua a multidão esperando a saída do ataúde, entoando os sucessos do artista. “Eu só quero um xodó” sucesso dos anos 70, na voz de Gilberto Gil, era cantado em coro, numa verdadeira ovação. Choros e aplausos se misturavam às margens de um Capibaribe plácido e belo indo ao encontro do  Beberibe e desaguando no Atlântico.
Mas, uma coisa fantástica de Dominguinhos ficará na minha memória enquanto viva estiver: num show de Nando Cordel escutei dele um relato fantástico. Contou que certo dia Dominguinhos foi até ele com a maior "dor de cotovelo" e se lamentando pela separação de Guadalupe. Pediu que fizesse com ele uma música que retratasse a situação. Foi quando surgiu um dos seus maiores sucessos com “Tô com saudade de tu, meu desejo, tô com saudade do beijo e do mel...”. Passado algum tempo e tendo voltado às boas com a mulher amada, foi a vez de cantar o momento de harmonia. Aí, aconteceu outro sucesso: “Estou de volta pra meu aconchego...” Essas duas composições estouraram na parada de sucessos e até hoje são cantadas como sendo as da moda. No velório de ontem, Elba Ramalho entoou-as com alma e coração, emocionando todos quantos presentes na Assembleia Legislativa de Pernambuco.
José Domingos Moraes descanse em paz e com a certeza de que sua obra é imortal. Você É um daqueles que não morrem. Simplesmente se encantam e continuam encantando o mundo. Bom forró aí no céu, visse?

NOTAS: 1) Do casamento com a, também, cantora Guadalupe Mendonça, Dominguinhos deixou uma filha - Liv Moraes - que herdou dos pais o dom de cantar e encantar. 2)A foto foi obtida no Google Imagens.

 

 

11 comentários:

Ina Melo disse...

Caro Girley,

Escreves em poesia. Provavelmente o céu está em festa com a chegada de Dominguinhos. A gente nunca sabe o que se passa no coração do artista quando compõe suas músicas mas agora revelastes ao público o porquê de tanto amor. Abraços. Ina

J.Artur disse...

Olá, Girley, a nossa amiga Ina não poderia ser mais objetiva sobre tua verve "escrevinhadora". E peço licença para publicar este texto no próximo Jornal Mercados do Recife, a exemplo do que fizemos com tua dissertação sobre os ditos cujos (Mercados). Cordial abraço, Zé Artur

Girley Brazileiro disse...

Do leitor Rogerio Mota recebi um email que me trouxe uma possível carta de Dominguinhos para Luiz Gonzaga. Na imaginação de Rogerio a coisa seria assim:
"Luiz Gonzaga tô chegando, vou aí pra juntinho de tu neste cantinho do céu tão maravilhoso. Tô deixando a nação Nordestina, tô deixando este meu Brasil que me acolheu com tanto carinho, este povo que eu amei e deixo triste e saudoso com a minha partida. Minha vida junto a tu Luiz Gonzaga foi viajar por este país, levando alegria e deixando recordações. Fui escolhido pelo povo como o melhor sanfoneiro do mundo, compositor e cantador. Agora tu Luiz Gonzaga, foste o nosso Rei do Baião. Que bom! Agora vamos novamente fazer um forró bom danado e juntinho de novo, para o Nosso Senhor Jesus Cristo e os amigos que aí estão. Vai se preparando Luiz, vai afiando tua voz, tua sanfona que é pra todos verem que nós junto seremos os mais autênticos dos cantadores Nordestinos que gosta da música, da poesia e da sanfona. É Luiz Gonzaga, a vida é assim... agora, vai ficar uma saudade da peste!"

Celia Reinoso disse...

Belíssimo texto! Sensível! Parabéns!
Sem duvida Dominguinhos deixou sua marca neste mundo!
Levou alegria, momentos de leveza as pessoas!

Talvez o céu esteja mais festivo, forroseiro agora!

Abraços!

maria helena disse...

Ah, Girley, tão bom saber mais daquele a quem admiramos de uma forma tão afetiva e com este tom intimista...acho que tivemos nestes dias motivos pra chorar, com saudades, mas aceitando que "lá em cima", ele vai ter todo o aconchego que ele aqui proporcionou com suas músicas!Agradecida por fazer esta homenagem tão bonita, com seu texto!

Rogério Mota disse...

Amigo Girley, fico agradecido em publicar a "Carta" de Dominguinhos que escrevi. É Girley, pessoas como Dominguinhos e Luiz Gonzaga que tivemos o prazer e alegria de termos juntos no nosso mundo, jamais vai ter um igual.

Carmen Regina disse...

Parabéns Girley, pela linda e sensível homenagem que você fez ao nosso querido e imortal Dominguinhos. Bjsss

Wilma disse...

Girley,

Dominguinhos partiu para sua última morada e ficamos nós e sua sanfona a
chorar aqui na terra. Que Deus lhe de o lugar merecedor e conforto a toda a família.
Aproveito para elogiar suas lindas palavras.

Grande abraço.
Wilma

Anônimo disse...

Cara, foi muito xique, estes pensamentos.

Girley Brazileiro disse...

Zé Artur, está autorizado a publicar no seu Jornal dos Mercados. GB

Girley Brazileiro disse...

Gostei foi muito do "muito xique" desse anônimo. Geralmente não publico mensagens de anônimos. Mas esta merecia, por um simples x.
GB