sábado, 20 de julho de 2013

Pobre Periferia

Esta semana tive uma experiência interessante ao participar, em Salvador (BA), de um fórum para discutir a questão regional do Nordeste brasileiro. Vejam só... Vi-me novamente às voltas com o tema que permeou quase toda minha vida profissional, enquanto economista da Sudene. Este fórum foi um dos capitulo de discussões sobre a problemática nordestina, que vem sendo realizado por iniciativa do Centro das Indústrias do Ceará - CIC, sob o titulo de Integra Brasil, com o apoio das entidades de classe empresarial do restante do Nordeste brasileiro. O objetivo é produzir um documento/manifesto a ser levado às autoridades federais, cobrando – pela enésima vez – medidas políticas cabíveis e eficazes para livrar a Região da renitente situação de pobreza. Estou careca de tanto lutar por essa causa.
O povo nordestino vem, por pelo menos cem anos, clamando e reclamando da situação de desprezo e abandono das autoridades constituídas. Os recursos destinados são, quase sempre, paliativos e só chegam em doses homeopáticas, depois de muitos esforços, suor e sacrifício. São investimentos pequenos e localizados de forma a não atender o universo.
Durante os debates de Salvador fui me atualizando e conclui que mesmo depois de todos os esforços desenvolvidos pela Sudene, Banco do Nordeste, Dnocs, Chesf, entre outros órgãos de fomento, inclusive os estaduais, a Região continua mostrando índices econômicos e sociais que revelam o profundo fosso que a separa do Brasil Grande, centrado no Sul maravilha. Um dos mais flagrantes é o percentual do PIB regional em relação ao nacional: apenas 13,5%. Ainda! Pois é. E o Sudeste continua ostentando o maior percentual, que é de 55,4%. Este mesmo Sueste, vejam só, continua sendo o melhor agraciada com os maiores volumes de investimentos do Governo Federal. Só para que se faça uma ideia rápida, dados recentes mostram que mais de 50% dos financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social – BNDES são levados para projetos no Sudeste Beleza. Rodovias, portos, projetos do setor privado, escolas, hospitais, mobilidade urbana, eventos culturais e outras miudezas. Para melhor situar o leitor ou leitora, saibam que: o Norte responde por 5,3 % do PIB, o Sul por 16,5 e Centro-Oeste por 9,3.
Outro dado que merece uma reflexão é o das concessões do Programa Bolsa Família. Para onde vai o maior volume de recursos? Para o Nordeste é claro! Quanto? 51%. É ali que reside a pobreza, meus amigos e amigas. Tem prova melhor do que esta para revelar a situação de atraso da Região? Acho que não. A nossa gente ganha, agora, o bolsa, vai ao mercado, adquire alimentos, compra serviços e isso é razoável. Mas, compra, também, bens de consumo duráveis. Dinamiza o mercado local, é verdade. Todavia, ironicamente, na compra dos bens de consumo durável, a renda vaza para o Sudeste porque é de lá que vem a produção desses bens. Não é danado?  Fico indignado. Mas chega! Não vou mostrar nenhum número a mais. Tenho vergonha. Trabalhei anos a fio, numa competente equipe técnica, para mudar essa situação e a coisa parece ter sido inútil. Cabe, então, a pergunta: onde erramos?
Não, nós não erramos. Os erros que vêm sendo cometidos ficam por conta dos desmandos políticos e dos políticos incompetentes. Temos uma bancada grande, mas sem condições de levantar a voz.  A questão do Nordeste sempre foi e nunca deixará de ser uma questão política. Lembremo-nos que só se consegue alguma coisa quando ocorre a vontade política. E essas, infelizmente são espasmódicas. Foi dessa maneira que instituíram o Dnocs, a SUDENE, o BNB e a Chesf. Estes trabalharam e produziram. Mas, foi insuficiente. Faltou a decisão de investir de forma maciça, no tanto e no como dos projetos apresentados.

Naturalmente que o Nordeste cresceu, porque o Brasil cresceu e arrastou a Região. Mas o crescimento se deu concentrado nas regiões metropolitanas. Recife, Salvador e Fortaleza são provas concretas disso aí. Mas esse não é o Nordeste sobre o qual me refiro. O Nordeste que ronda sobre minha cabeça, neste momento, é aquele mais prá lá das metrópoles e capitais menores, sem rodovias dignas para alcança-lo, castigado pelas secas frequentes, onde o progresso é somente palavra inscrita no auriverde e augusto símbolo da pátria, onde a educação e a saúde inexistem, a moradia é subnormal, o roçado é perdido, onde o gado morre de sede e a fome impera. Falo de um Nordeste que carece de infraestrutura competitiva, de perfeita distribuição de águas (interligação de bacias hidrográficas), investimentos produtivos e de educação, saúde e emprego para sua gente.
Tomara que o Integra Brasil dos cearenses do CIC resulte num forte apelo político junto aos mandatários da Republica e deixemos de ser Pobre Periferia.

NOTAS: 1. Participei do evento em Salvador como representante do Centro das Industrias de Pernambuco - CIEPE e do Sindicato das Industrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Pernambuco - SIMMEPE 
2. Foto obtida no Google Imagens



4 comentários:

Fernando Buarque disse...

Caro Girley, a seca no nordeste não é um problema econômico ou mesmo climático, mas sim, moral. Aliás poderia nem ser problema pois aquele solzão é tanta energia, que seria suficiente para irrigar, transportar barato e tornar independente os sertanejos (das sazonalidades, não do tempo, mas dos governos). Não se pode combater a seca, não se pode implantar um modelo produtivo no sertão seja o mesmo de outras regiões e finalmente não se pode querer ajustar o homem ao sertão sem que não nos indignemos, antes. Abraço, Fernando Buarque

elo disse...

Parabe GIRLEY,

Voce esta certo, todos que nao somos alienados conhecemos esta historia.

Adierson Azevedo disse...

Irreparável, como sempre, o Blog do meu amigo Girley Brazileiro em sua análise sobre o Nordeste.
Minha única observação é que, estive recentemente em São Paulo City, nossa maior região metropolitana e Big Apple dos trópicos. Observei que, girando pelos extremos daquela região metropolitana, encontrei os mesmo problemas urbanos e rurais que atingem o Nordeste. Aliás, São Paulo é a maior cidade do Nordeste, sendo dados populacionais do IBGE!!*:) feliz
Amigos(as), a falta de gestão inteligente de recursos atinge todo o Brasil. O que falta aqui, além do que ele brilhantemente colocou, é o que está acontecendo agora: COBRANÇA (accountability and aswerability). Cobrança pela entrega do que foi prometido em campanha aliado ao que é obrigação entregar daqueles que foram eleitos.
Durante anos aceitamos estradas "sonrizal" que se dissolviam à primeira chuva. Quantos não foram os projetos aprovados na Sudene para, depois, ser levado à falência intencionalmente e o meliante escapar através da pleiade de recursos "cabíveis à matéria". Aliás, quantos empresários e funcionários do governo foram presos após a CPI das Obras Inacabadas? NINGUÉM.
E as usinas nucleares compradas nos anos 70? Só tem 2 funcionando e uma terceira com todos os equipamentos deteriorando e em franca obsolescência na caixa ou no pallet em Angra. Quem paga por todos esses desmandos e essa dinheirama jogada fora? NÓS.
Assim sendo, tá faltando cobrança da conta a quem deve e ENTREGA daquilo que é obrigação e para o qual pagamos 40% do PIB em impostos.

antonio almir do vale reis disse...

Caro Girley:
Como é bom a gente saber e constatar que tem gente como você, muito preocupado com os problemas brasileiros, com foco especial para as questões nordestinas. Ainda, é importante salientar o seu vasto conhecimento sobre tudo que escreve, técnico da maior competência que serviu com dignidade relevantes funções na antiga Sudene que o FHC com uma canetada só destruiu, sem protestos relevantes da classe política nordestina, especialmente de Pernambuco, onde tinha a sua sede.
É certo que as últimas gestões federais, estão canalizando investimentos para a região, com recursos para a transposição das águas do Rio São Francisco,a Ferrovia e Suape e o Porto do Ceará,Construção da Refinaria em Pernambuco e a implantação da montadora Fiat em Goiana, em cuja cidade tem, também, a implantação daquele projeto de alta tecnologia voltado para a área da saúde, viabilizado na gestão do Ministro Humberto Costa, todavia, levando-se em consideração os recursos financiados pelo BNDES para a região Sudoeste, nem pensar.
Um grande abraço - ALMIR REIS (advogado)