segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Nordeste em Pauta


Comecei a semana passada indo ao Rio de Janeiro, numa missão de trabalho, para participar de mais uma rodada de discussões no bojo do projeto Integra Brasil, promovido pelo Centro das Indústrias do Ceará – CIC e que teve lugar na sede do Banco do Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. A pauta central do encontro teve como objetivo colher opiniões de empresários, representantes de governo e estrangeiros a respeito do Nordeste, na atualidade. Por lá passaram executivos de empresas brasileiras de sucesso e que atuam no Nordeste, executivos do Governo Brasileiro, membros da Academia e representantes de entidades Internacionais.
Foi contagiante ver os executivos da Agrícola Famosa, da Cosmética Boticário e dos Magazines Luiza falarem dos respectivos projetos no Nordeste e nos frutos que colhem. O primeiro, atuando no interior do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, é hoje o maior produtor mundial de melão (variadas espécies), maior exportador nacional do produto e, cheio de entusiasmo, bendizer o Sol da região, que lhe proporciona colher frutos dos mais saborosos e que atendem aos paladares mais exigentes dos Estados Unidos, Europa e Oriente. O representante d’O Boticário, por sua vez, revelou-se satisfeitíssimo com o desempenho da sua marca no Nordeste, presente em milhares pontos de venda, inclusive nas mais simples localidades. Com uma grande central de distribuição na Bahia, a marca vem fazendo a cabeça dos nordestinos, com produtos ecologicamente corretos e de fama internacional, O Boticário é maior produtor do gênero no país e o nono no ranking mundial. No final do bloco de depoimentos empresariais, Dona Luiza, fundadora e presidente dos Magazines Luiza, discorreu, com brilho e muita energia, sobre sua satisfação de haver entrado no mercado nordestino, após comprar a rede de varejo Lojas Maia, originária da Paraíba. Pelo que disse está vendendo “adoidado” nas praças onde se instalou. Fez menção aos Programas Minha Casa, Minha Vida e ao complementar Minha Casa mais Bonita, sob a tutela do Governo Federal, que vem expandido de modo impressionante suas vendas na Região. Colecionei muitos números dessas empresas, mas, resolvi não incluir, propositalmente, neste artigo para, ao contrário disso, manifestar-me preocupado com a seguinte linha de pensamento: embora entendendo que o Nordeste tem que ser visto como um mercado em expansão, graças principalmente à política de inclusão social, com a Bolsa Família, Bolsa Gás, programa de habitação popular e respectivo aparelhamento doméstico, entre outros, por que os empresários locais não têm tido oportunidades de crescer? Não é intrigante? Bancos regionais, não existem mais. As grandes redes de supermercados desapareceram com o passar dos tempos, sendo tragadas, inclusive, por grupos estrangeiros. A Ypióca não é mais dos cearenses. D. Luiza veio com todo gás (ela parece ser cheia disso) e numa lapada certeira “matou” a grife das Lojas Maia. Um advogado de visão empresarial fechou a banca de advocacia no interior paulista e se meteu no meio da aridez do interior potiguar e com pequeno investimento inicial implantou a maior produtora de melão do mundo, graças a uma moderna tecnologia da irrigação. Não satisfeito somente com o melão, diversificou e já produz banana, maracujá, melancia e, pasmem, produz aspargo da mais alta qualidade.  
Fica claro que falta aos empresários regionais a competência de quebrar paradigmas de produção tradicional, deixando espaços que só são vistos pelos empreendedores alienígenas. Preservar até morrer as tradições culturais, o renitente padrão da empresa familiar, alimentar o  temor de arriscar num contexto econômico moderno e não saber recorrer aos programas de incentivos governamentais, que terminam favorecendo quem vem de longe, parecem ser o padrão do empresariado regional. Um agressivo programa de incentivo ao empreendedorismo para mudar essa “psicologia” da inércia cairia bem sobre os esses protagonistas de negócios. Sobremodo nas novas gerações. Que os coordenadores e promotores do Integra Brasil estejam atentos a este viés.
O restante da rodada de discussões no BNDES ainda contemplou momento para os representantes do Governo que, como de se esperar, desdobraram-se para “vender o peixe” de Dona Dilma. Patéticos os que se referiram às obras de infraestrutura, como se tudo estivesse em franco progresso. Patéticos porque pareciam ser desinformados. Sem comentários.
Por fim, no espaço reservado aos depoimentos estrangeiros, o destaque ficou com o Professor Ignacy Sachs, um estudioso da questão nordestina, que causou certo impacto ao não trazer (aparentemente) um discurso preparado e, ao invés disso, jogar na cara da plateia uma pergunta contundente: “como está a reforma agrária do Nordeste?” Imaginem a surpresa de todos. Houve um silencio sepulcral... Seguido de alguns poucos comentários sem bons argumentos. Esta foi a Pauta Nordeste, no Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 2013.

NOTA: O Blogueiro participou do evento como representante do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e Mecânicas de Pernambuco (SIMMEPE) e do Centro das Indústrias de Pernambuco (CIEPE)

 

 

7 comentários:

Regina Dubeux disse...

De fato, este assunto é mais curial relevância. Certo, o blog do Girley cumpre sua função social-midiática, ao divulgar evento como este. Contudo, parece-me que este, precisamente este texto deveria estar em conteúdos de jornais locais, bem como ser palco de programas locais, como o "Opinião Pernambuco", por exemplo. (Há outros?) Vou escrever ao Opinião Pernambuco e, se o site do OP permitir, enviar este texto. Quem, aqui, conhece editores de jornais, poderia encaminhar o texto para o Jornal do Commercio e o Diário de Pernambuco? A letargia do empresariado local pode estar atrelada, também, à falta de divulgação das nossas potencialidades. Ainda existe a Federação das Indústrias de Pernambuco? Um empresário como o autor deste Blog é exceção. Talvez por ter trabalhado na Sudene, mas certamente, por estar afinado com o sonho(?) e o propósito de fazer o Nordeste crescer/desenvolver.

Ina Melo disse...

Amigo girley,

Endosso a opiniao da Regina. Manda este asunto para o DP (coluna opiniao)ou JC e outros orgaos de divulgacao. Este e um assunto que deve ser levado ao conhecimento de todos. Abracos.Ina

Celso Cavalcanti disse...

Caro Girley,

Você foi muito feliz ao fazer uma síntese do pensamento de uma boa parte de nós - "Preservar até morrer as tradições culturais, o renitente padrão da empresa familiar, alimentar o temor de arriscar num contexto econômico moderno e não saber recorrer aos programas de incentivos governamentais, que terminam favorecendo quem vem de longe, parecem ser o padrão do empresariado regional".

Eu acrescentaria a este viés anacrônico o vício de, frente às inexoráveis dificuldades de mercado (se não aparecem ou não são enxergadas, tem algo errado), correr para o colo do "papai governo", em busca de proteções diversas - cambiais, impostos de importação, desonerações e outras pajelanças.

O mais agressivo (e mais eficaz) programa de incentivos ao empreendedorismo para mudar essa “psicologia” da inércia, seria criar um ambiente institucional transparente, com regras claras, sem "Mantega" no "focinho dos gatos", sem contabilidade criativa das estatais, etc. Não existem regras econômicas ruins, o péssimo é a falta de regras.

O resto é por conta do apetite pelo risco e pelo prêmio, de cada um.

Abraço,

Celso Cavalcanti

Maria Helena Barros disse...

Na veia, Girley!!! Agora, é só endossar os comentários acima, apesar de sabermos, que por natureza, o homem, é resistente às mudanças, apesar de sonhar com eles. Vamos lembrar música de nossa época de um nordestino Belchior "minha dor é perceber que apesar de termos feito tanto, tanto, ainda somos os mesmos e pensamos como nossos(e fazemos, digo eu) como nossos ancestrais...grande abraço Maria Helena Barros

Alberto Bittencourt disse...

Parabéns, Girley, por essa lúcida visão.
Durante 30 anos, a partir da década de 70, convivemos no NE com um mercado interno limitado, falta de capital de giro, juros elevados, e outras mazelas conhecidas. A maioria das empresas nordestinas sucumbiu, especialmente as pequenas e médias. Agora, vejo com alegria que somos a bola da vez. Acho que o desenvolvimento que experimentamos não é um surto. É um novo ciclo, de crescimento sustentável e estruturado, com geração de emprego e m.o. qualificada.
sempre acreditei que este momento chegaria.
Abraços e parabéns
Alberto

Regina Dubeux disse...

Retornei a este blog, agora. Peço licena a Girley e aos amigos para divulgar algo que, ao final, vocês saberão por quê. Sem oba-oba, que não sou disto. Mas antes, leiam meu comentário, em outro local:
"Segundo Antonio Lassance, doutor em ciência política, pela UnB, Jorge Borhnausen (PFL e DEM, atual PSD) e o líder ruralista ultra conservador Ronaldo Caiado (DEM-Goiás) já aderiram a Eduardo Campos. Resta saber se o saltitante Ciro Gomes terá peito para amargar seus despeitos e apoiar Campos. Política - a atividade de se manter no poder.
Tenho vontade, no meu humilde (mas satisfeito) anonimato, de escrever uma carta aberta ao Campos, dizendo por que estou alertando o povo do Brasil para não votar nele, pois seria o mesmo que decretar a falência do Planejamento (com P maiúsculo) e dos aposentados do setor público, desta feita não em Pernambuco, mas em nível nacional.
Depois de me inteirar dos PLANOS A e B do Campos, só me resta lançar a candidatura do empresário Girley Brazileiro ao governo do Estado de Pernambuco. Nesse, eu voto.
Regina.

Girley Brazileiro disse...

KKKKKKK SÓ RINDO Regina. Quem sou eu? As coisas não acontecem desse modo. Não tenho vocação para a política, minha amiga.
Obrigado pelo seu gentil afago utópico.
GB